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E se começasse hoje? Veja quais clubes ficariam fora da Libertadores de 2019 por não ter time feminino

O time feminino do Corinthians já garantiu a vaga na Libertadores 2019 com o título brasileiro. Corinthians

O grande assunto no futebol feminino nos últimos tempos é uma exigência da Conmebol. Em 2016, a Confederação passou a exigir que, a partir de 2019, os times interessados em disputar as competições masculinas deviam investir em times femininos. Ou seja, as equipes classificadas para a Copa Libertadores (Palmeiras, Cruzeiro, Flamengo, Internacional, Grêmio, São Paulo, Atlético-MG e Athletico Paranaense) e para a Copa Sul-Americana (Botafogo, Santos, Bahia, Flamengo, Corinthians e Chapecoense) deverão cumprir a exigência para que possam disputar os torneios da Conmebol.

As exigências da confederação incluem que, além da equipe feminina, haja também uma categoria juvenil para as mulheres. Mais do que isso, suporte técnico, equipamento e infraestrutura para treinos e jogos, e também que os times participem de competições nacionais e/ou regionais. Ou seja, não adianta criar apenas para mostrar que tem: precisa investir.

Dos clubes classificados para a Libertadores do ano que vem, apenas Flamengo, atual campeão carioca feminino, Inter, atual vice-campeão gaúcho feminino e Grêmio, atual campeão gaúcho feminino, atendem à nova exigência. O São Paulo realizou recentemente uma peneira com cerca de 400 jogadoras para montar o seu time profissional, mas no sub-17 tornou-se bicampeão paulista recentemente. Já o Atlético-MG afirmou que trará novidades nos próximos dias.

Em entrevista ao portal Torcedores.com, quando questionada sobre a possibilidade de um time feminino, Leila Pereira afirmou nunca ter conversado com Galiotte sobre o assunto, mas disse que o dinheiro é dado ao Palmeiras e a maneira como o montante é distribuído fica a cargo do clube. “Se for uma obrigatoriedade, não se discute, se cumpre”, finalizou a dona da Crefisa.

O presidente alviverde, por sua vez, afirmou em coletiva de imprensa em agosto que o clube está trabalhando e que, apesar de ainda não estar dentro das normas, as cumprirá em 2019. Porém, se a Libertadores começasse hoje, o atual campeão brasileiro estaria fora.

Já dos classificados para a Sul-Americana, apenas Santos, atual campeão paulista feminino, Corinthians, atual campeão brasileiro feminino, e Chapecoense, vice-campeão catarinense feminino, estão de acordo com a nova exigência.

Embora já estejamos em dezembro, alguns clubes ainda não sabem se começarão do zero ou se farão parcerias com clubes já existentes, o que é possível, levando como exemplo o Flamengo, que tem parceria com a Marinha. O acordo deu resultado, já que o time acabou de ser campeão carioca. Nesse ano, a Chapecoense também firmou uma parceria para se fortalecer, com a ADLL (Associação Desportiva Lourdes Lago). O Bahia também anunciou uma parceria com o atual campeão baiano, Lusaca, que será válida a partir de 2019.

O que muito incomoda as atletas é o fato de ser uma obrigatoriedade algo que deveria ser obviedade. Andressinha, da seleção brasileira e do Portland Thorns, acredita que os clubes deviam criar os times naturalmente e não por obrigação, mas ressalta o lado positivo. “Fica a pergunta: será que vão continuar com isso? Tem que ser algo contínuo e não que pare depois de um tempo. Espero realmente que continue. A Conmebol parece estar se mobilizando para ser aliada ao futebol feminino, então esperamos que seja melhor”, disse, em entrevista ao espnW.

Aline Pellegrino, ex-jogadora e atual dirigente de futebol feminino da Federação Paulista, também critica o fato da obrigatoriedade, mas reconhece um bom trabalho sendo feito: “Em um mundo em que as coisas não caminham naturalmente como deveriam caminhar, essas ações afirmativas são importantes dentro do processo”, disse ao espnW. “É uma educação. Você cria uma obrigação para ir educando e isso acho que acontecerá naturalmente. Se pegarmos números de 2018 com relação ao futebol feminino no Brasil e fizer o mesmo paralelo ao final de 2019, veremos a quantidade no aumento de meninas praticando. O número de campeonatos e jogos aumentou. Isso por si só mostra que a obrigatoriedade faz muito sentido.”

Gerente de futebol das Sereias da Vila, Alessandro Rodrigues afirmou que a movimentação ainda está um pouco tímida para alguns clubes, tendo em vista que as competições femininas tendem a começar por volta de março. “Acredito que possa ser um movimento interessante, embora não seja o ideal, o Santos faz isso há vinte anos”, disse ao espnW. “Se a obrigatoriedade for levada a sério pelos clubes grandes e se a modalidade nesses clubes receber a atenção devida, isso vai trazer uma evolução.”

De fato, o atual campeão paulista pode ser utilizado como exemplo de clube que assina carteira com atletas, como disse a técnica da equipe, Emily Lima. “É um time que está tranquilo e estruturado. Vai estar um passo à frente de muitos que estão se formando hoje”. Ex-comandante da seleção brasileira, ela foi a única mulher na última edição do curso da CBF para tirar a licença PRO, certificação máxima alcançada por técnicos, que terminou nesta sexta-feira, e aproveitou para ressaltar a importância disso para o clube. “Além disso, a treinadora desse time tem a licença PRO. Então o Santos é sim diferenciado e para trabalhar aqui, você precisa ter o máximo que puder.”

Outro time de destaque é o atual campeão do brasileirão feminino, Corinthians. A atacante Adriana acredita que os times também podem se engajar ainda mais em investir na base, citando o exemplo do São Paulo e do Palmeiras. “Dinheiro tem, só falta vontade.”

De lá de fora, as jogadoras também analisam as novas exigências. Destaque do Barcelona, Andressa Alves afirma: “Infelizmente, se não obrigar, acho difícil os times darem esse passo”. Ela relembrou o quanto será bom ver clássicos também no feminino e que isso pode aguçar os clubes a investirem cada vez mais. “O Corinthians vai jogar com o São Paulo que, por sua vez, não vai querer perder e vai investir cada vez mais para o time crescer.”

Fica o questionamento: será que os clubes realmente querem inserir o feminino ou estão apenas ‘cumprindo tabela’? Ou será que a Conmebol terá pulso firme para cumprir com a exigência e deixar os grandes de fora? Veremos nos próximos capítulos.