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Futebol feminino ainda é carente de base, e Amanda Mantovan segue jogando como uma garota entre os meninos

Amanda tem nove anos e treina na escolinha de base do Botafogo SportOn

A história de ‘jogue como uma garota’ continua. Amanda Tavares Mantovan é mais uma criança que não encontra time de futebol feminino de base para jogar. Aos nove anos, ela treina na Trops, escolinha de base do Botafogo, em Niterói.

Sua mãe, Rachel, contou ao espnW que ela sempre gostou de esportes, já tendo praticado balé, capoeira, judô e aulas de circo, mas aos seis anos a paixão foi mesmo pelo futebol e tudo começou na escola. “A convite de um amigo, João Pedro Portugal, de jogar bola durante o recreio, foi o que a fez descobrir a paixão” – contou a mãe, que completou: “ela não podia ver uma bola que estava por perto”.

E a brincadeira ficou séria. Aos sete anos, a família percebeu que os amigos estavam evoluindo e ela estava estacionada. Por conta disso, ela pediu para entrar numa escolinha de futebol. Foi então que a mãe procurou uma escola para meninas e não encontrou. “Se a minha filha quisesse treinar, teria que ser com os meninos” – contou Raquel, que é fisioterapeuta. E assim fez, começando a treinar no Rio Cricket, um clube de Niterói. Por questões estruturais, Amanda foi para a Trops, onde treina atualmente com o professor Gabriel Sarzedas.

“Claro que mais uma vez Amanda era a única menina de sua categoria, mas em três meses de treino, fez teste para entrar na equipe e está lá até hoje, jogando com os meninos” – disse a mãe. Amandinha, como é carinhosamente chamada pela equipe, treina futebol de campo três vezes por semana e joga de lateral-direita, zagueira ou “onde o time estiver precisando dela”, conta Rachel com orgulho da filha.

Em setembro, Amanda foi convidada por Rodolfo, um professor da escola, a treinar e compor o time de futsal do GayLussac, onde ela estuda. O time é feminino, o que é bom, mas por outro lado, ela será a caçula e jogará com meninas de 12 a 15 anos. Sobre o preconceito, a mãe diz: “Amanda sente na pele o preconceito de em pleno 2018 por ainda ter que lutar para jogar futebol, justamente no país do futebol”.

E já que não tem outro jeito por enquanto, Amandinha segue participando de torneios masculinos. Neste ano, ela foi com o Botafogo ao Festbolin, torneio onde só tinha ela e mais uma garota inscrita. Para jogarem, as famílias precisaram pedir liberação para a organização, sob ameaça de que o próximo ano, o regulamento contenha uma cláusula que torne a competição exclusivamente masculina.

No mês que vem, ela jogará a Rio Cup Futebol 7 de Base, competindo pelo sub 9. Até agora, duas meninas estão inscritas: ela e Juju Gol, que também participa de competições em times masculinos. As duas só podem competir o Rio Cup por serem federadas. A premiação do torneio é tentadora: pacote completo para jogar o Go Cup de 2019 em Goiás, que acontece dos dias 13 a 19 de abril do ano que vem.

Para a atleta, jogar com os meninos é bom. “Eles são fortes e rápidos”, ela conta. Mas o apoio para o futebol feminino é fundamental. Sua mãe destacou a importância de grupos que apoiam o futebol feminino de base, como o Donas da Rua e Pelado Real, que promoveram um camp neste ano, recebendo cerca de 60 meninas. Mas ela lembra da luta diária da filha para fazer o que ama: “Todo dia é uma luta pelo direito de fazer a escolha de praticar o esporte que ama. Amanda já tem noção da dificuldade que é o futebol feminino no Brasil e por isso não deixa de estudar bastante inglês e assistir séries em espanhol, com o sonho de quem sabe um dia estudar fora com bolsa e ser contratada por um time estrangeiro”, disse a mãe, que também destacou que o sonho da filha é poder vestir um dia a camisa da seleção brasileira.

E no dia das crianças, o pedido de presente feito por Amandinha não podia ser diferente: uma luva de goleiros e uma blusa da seleção francesa. Por mais apoio ao futebol feminino!