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O medo de ter o chinelo roubado que levou Rafaela Silva ao ouro olímpico; agora ela mira o bi mundial

O corpo do atleta é sua maior ferramenta de trabalho. Preparação física, treino técnico, dietas... tudo isso é importante. E a parte mental não pode ser deixada de lado. Nell Salgado é coach de atletas de alta performance e cuida de campeões como Rafaela Silva. Formada em Psicologia pela Universidade Gama Filho em 1994, há oito anos ela decidiu dedicar-se ao coach esportivo e tem colhido grandes resultados junto com seus atletas.

Rafaela Silva foi o primeiro ouro de Nell, nas Olimpíadas de 2016, mas ela disse que começar a trabalhar com a judoca não foi uma tarefa fácil. Ela vinha de uma fase complicada após a desclassificação nas Olimpíadas de 2012 ocasionada por um golpe ilegal na perna da húngara Hedvig Karakas, nas oitavas de final da competição. Na época, Rafaela estava decidida a largar o judô e o trabalho de Nell teve que ser intenso. Em entrevista ao espnW, ela conta: “Eu trabalhava com a irmã dela, a Raquel, que me pediu ajuda. Mas num primeiro momento ela não queria falar com ninguém. Levamos Rafa em uma palestra e pedi para que ela desse um depoimento, dividindo com os companheiros de treino dela” – e completou, dizendo como foi o trabalho individual com a atleta após a palestra – “Aquele desabafo fez bem. Pedi para que ela fechasse os olhos e se projetasse já para Rio 2016, imaginar-se em casa assistindo as lutas da televisão. Imaginar todos lutando, menos ela. E as adversárias ganhando, sendo que podia ser ela. Na hora ela começou a fazer aquela cara de raiva, que ela faz para lutar, que todo mundo conhece. Ela abriu os olhos, me olhou e eu perguntei ‘quer trabalhar comigo?’ e ela finalmente aceitou”.

Oito meses depois da quase desistência de Rafaela no judô e com o trabalho de Nell, ela se tornou a primeira brasileira a subir no lugar mais alto do pódio em um Campeonato Mundial, no Rio de Janeiro em 2013.

O trabalho da coach é duro. Além da vida dentro dos tatames, ela contou que seu grande desafio era transformar Rafaela no dia-a-dia em uma pessoa menos ‘agressiva’ fora dos tatames, trabalhando dualidade e ao mesmo tempo, ela precisava ser mais focada nos treinos, já que não gostava muito de treinar. “Eu cheguei para ela e disse ‘ou você leva a sério ou não trabalho mais com você’, seis meses antes dos Jogos Olímpicos” – contou a psicóloga – “mas ela decidiu que queria continuar”.

Juntas há seis anos, Nell teve um papel importante em diversas fases da carreira de Rafaela, desde a que ela sofreu preconceito após a desclassificação de 2012, que segundo ela “quando a conheci era uma dor tremenda, mas trabalhando muito ela passou a entender que o problema de quem faz e não de quem recebe, os racistas fazem esse tipo de maldade com quem têm oportunidade, ela só é o foco por estar em evidência”; até o ouro olímpico. A história que a coach conta é incrível.

“Nas Olimpíadas, ela estava com medo porque pela primeira vez ela não entraria para lutar como cabeça de chave e sua luta seria a primeira. Nos falamos por facetime, e eu disse ‘o que isso muda? Para ser campeã você não precisa ganhar de todo mundo?’, ela concordou. ‘Então o que muda ser a primeira?’, e com isso, me veio um estalo na cabeça e eu disse ‘quando você morava na Cidade de Deus, o teu pai te colocou no judô, você lembra o motivo?’ e ela disse que era porque ela vivia na rua brigando e dando porrada, porque queriam roubar o chinelo dela. ‘Quem queria roubar teu chinelo?’, ‘todo mundo’, ela disse. E eu respondi ‘você está nas Olimpíadas, no Rio de Janeiro. Estão querendo roubar teu chinelo dentro da tua casa. Você é sobrevivente, você é da favela, ninguém vai tirar o que é seu’. Nesse momento ela ficou confiante e disse: ‘não, ninguém vai tirar isso de mim! Eu vou ganhar’ e eu completei ‘Essa onda quem vai tirar é você, vai lá e luta pelo teu chinelo, pela sua medalha de ouro!’ e o final da história todo mundo conhece, né?”

Rafaela Silva fez história no judô ao ser campeã olímpica, tornando-se a primeira brasileira a ter um ouro mundial e olímpico e de lá para cá sua vida mudou. Exposição, patrocínios e dinheiro seduzem e, claramente, Rafaela trocou um pouco o foco. “Trabalho para ela entender que isso tudo é ilusão, que o que ela tem hoje, amanhã ela pode não ter mais” – contou a coach Nell Salgado em relação aos compromissos profissionais da atleta fora dos tatames.

Para Nell, o sucesso é temporário e o brasileiro tem memória curta: “Sarah Menezes foi a primeira a vencer medalha de ouro nas olimpíadas de 2012, mas as pessoas esquecem, no Brasil temos a memória curta” – disse ela, que trabalha fortemente para que Rafaela mantenha o foco.

Agora a atleta terá a chance de chegar ao bicampeonato mundial, no Azerbaijão. Após voltar de uma cirurgia no cotovelo, Rafaela venceu o ouro Grand Prix de Budapeste, na Hungria, o primeiro depois das olimpíadas e no sábado (22), entra no tatame para enfrentar a canadense Jessica Klimkait.

“Eu estou empolgada e muito feliz. A Rafa está bem. Fico feliz quando ela chega nesse momento preparada, treinada, focada e espero o mesmo da Tamiris e Maria Portela também” – completa Nell, em relação as expectativas para o Mundial.