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M1TO

"Esta é a última camisa que vou usar.
Depois, vou me juntar à torcida
e vou para o Morumbi."

27 de junho de 2004. 11ª rodada do Campeonato Brasileiro.
Sálvio Spínola Fagundes Filho assinala falta. O lance é perigoso e a pressão da torcida palmeirense no Pacaembu é grande. A cobrança de Pedrinho veio fácil, bastava ajoelhar e encaixar, mas não foi assim. O tempo entre defesa e falha é de poucos segundos, que mais parecem horas em câmera lenta. Rogério Ceni “bate roupa” e espalma para frente. Vágner Love não perdoa e faz o segundo dele na partida.

Para piorar, antes do gol, Luis Fabiano já havia perdido um pênalti quando o placar ainda estava 1 a 0 para o time alviverde. Nos minutos finais, Cicinho até descontou para o clube tricolor, mas nada que evitasse a derrota por 2 a 1 no clássico contra o Palmeiras.

Fim de jogo, e o que se ouvia na torcida do São Paulo era: ‘Puta que o pariu, é o pior goleiro do Brasil... Rogério”. Sim, pela primeira e última vez, o capitão do time foi vaiado pelos próprios fãs. E ele sentiu o golpe.

Nos vestiários do Pacaembu, Ceni chorou como poucas vezes na carreira. O goleiro, que pouco tempo atrás havia sido herói na suada vitória nos pênaltis contra o Rosário Central, pelas oitavas da Libertadores, se colocou à disposição para deixar o clube.

Abatido diante do presidente Marcelo Portugal Gouvêa e do diretor de futebol Juvenal Juvêncio, Rogério quase entregou os pontos ao cogitar deixar o cargo: “Se vocês acharem que está na hora de parar por aqui, não tem problema nenhum. Se chegou a hora, paramos por aqui”.

A “proposta” não foi aceita. O camisa 1 continuou no clube para alegria até mesmo daqueles torcedores que o vaiaram.

11 anos se passaram desde o episódio. Hoje, o arqueiro não é nem sombra daquele que foi contestado pela própria torcida. Campeão paulista, continental, mundial e tri brasileiro, o vaiado Ceni virou M1TO, passou a usar a camisa 01 – em certo jogo usou a 10 mesmo –, virou o maior goleiro-artilheiro da história e um dos grandes de sua posição.

Em 2015, aquele que possivelmente tornou-se o maior ídolo do São Paulo Futebol Clube deixa o futebol. Após 25 anos dedicados ao clube do Morumbi, Ceni sairá de cena com recordes, polêmicas, amigos, desafetos, títulos e, sem dúvida nenhuma, causos suficientes para demorar outro quarto de século apenas para contar.

E se a diretoria tricolor tivesse negociado Rogério Ceni?

Ídolo

Durante os 25 anos de carreira, Rogério Ceni conquistou uma legião de fãs. O número de seguidores aumentou a cada gol e taça levantada pelo capitão do São Paulo. Para mostrar um pouco da idolatria conquistada ao longo dos anos, a ESPN encontrou dois torcedores de locais e histórias completamente diferentes em relação ao ídolo tricolor.

A casa Ceni

A campainha tricolor quase passa despercebida na modesta casa, com acabamento ainda de cimento, que se ergue diante dos olhos no bairro de Serraria, em Diadema, região metropolitana de São Paulo. O corredor pouco revela além de uma moto antiga, cheia de poeira. O piso e a largura do local são de uma simplicidade ímpar, mas basta entrar pela porta da sala para ter a certeza de que poucos locais são, literalmente, a cara de Rogério Ceni.

É difícil não se assustar com o cômodo. A parede lateral esquerda inteira é tomada por fotos dos principais momentos da carreira do astro são-paulino. A com maior destaque tem o capitão tricolor comemorando o centésimo gol da carreira, contra o Corinthians, na Arena Barueri, em março de 2011.

Ao desviar o olhar para a direita, surgem duas bandeiras comemorativas em alusão ao ídolo. Um pouco mais para o lado, o rosto de Ceni aparece pintado na parede com as cores do clube. Se os olhos forem curiosos o suficiente – quase impossível que não sejam – para acompanharem a subida da escada, é possível ver outra pintura do astro e a inscrição: Rogério Ceni 1000 jogos.

Ainda há mais, muito mais. Só que leva tempo para que alguém consiga notar cada detalhe, como a cortina com o símbolo do São Paulo ou o tapete inteiramente tricolor. O preto, vermelho e branco estão em todas as partes, assim como o goleiro são-paulino. Na churrasqueira, na cozinha, nos quartos...

O dono da obra é Sérgio Ferreira. Apelidado de Zé Gotinha, o torcedor investe boa parte do dinheiro ganho com o carreto de mudanças e outros transportes para deixar a casa inteira em homenagem ao ídolo. Casado com Margarida Santos, companheira no objetivo e também fanática pelo clube, o profissional autônomo está na empreitada há seis anos e parece disposto a ir mais longe para deixar o local completamente decorado com objetos do goleiro.

Nascido na capital paulista, Sérgio tem como sonho conhecer Rogério Ceni e teve na ideia de decorar o próprio lar uma forma de homenagear quem lhe deu tantas alegrias. Sentado em um sofá, também no tom vermelho, ele fala abertamente sobre a escolha e admite ter perdido a conta de quanto gastou até o momento.

“O Rogério é uma lenda do futebol mundial. Então, como sou muito fã do Rogério, decidi fazer essa homenagem. Também foi com o propósito de conhecê-lo. Eu vou fazendo aos poucos para não ficar pesado. Já são seis anos. As pessoas querem tirar foto. Dizem que eu sou muito fanático”, afirma Sérgio.

O torcedor começou a decoração antes mesmo de conhecer a atual mulher. E muito se engana quem acha que Margarida tentou limitar a paixão do marido pelo São Paulo e, principalmente, por Ceni. A companheira entrou na dança e hoje ajuda em tudo, como redes sociais e as dicas sobre onde cada objeto novo deve ser organizado na casa.

“Eu gostei, apesar de nunca ter sido muito do futebol. Gostei porque vi que é a vida dele. Ele gosta muito do Rogério, é torcedor mesmo. Na verdade, fui influenciada e hoje apoio ele em tudo. Para mim está bom, eu gosto”, diz Margarida.

Como todo fanático que se preze, Sérgio já fez de tudo um pouco para dar um abraço no camisa 01. Virou sócio-torcedor e até mesmo quase pagou para atuar ao lado do arqueiro em uma ação promocional, mesmo que o dinheiro do mês fosse comprometido.

“Eu já virei sócio-torcedor, mandando e-mail para o São Paulo, tentando conhecer gente pelas redes sociais, mandando mensagens, mas está difícil. Sempre fui ignorado. O primeiro camarote que eu ganhei no sorteio tinha 50 pessoas. Dessas, foram sorteadas cinco e eu ganhei para buscar uma camisa autografada no intervalo. Se o São Paulo ganha a partida, vamos para o vestiário conhecer os jogadores. Só que o time foi eliminado nos pênaltis, no Campeonato Paulista. Fomos eliminados, todo mundo foi para a casa e nada de conhecer os jogadores. Esse era o dia de conhecer o Rogério e, infelizmente, perdi a oportunidade. Tentei conversar, mas eles disseram que era sem chance”, lembra, com o tom de quem diz “ainda não foi, mas um dia vai ser”.

“Já mandamos as fotos. Teve uma promoção do dia das mulheres, eu ganhei uma camisa autografada do Pato. Tentamos conversar, mandamos fotos, mas nada. Eles dizem que conhecer o Rogério é muito difícil”, aumenta Margarida.

As “loucuras” do casal não escapam das críticas. Os rivais e até mesmo são-paulinos questionam a ideia de deixar o próprio lar com o rosto de alguém que nunca conheceu ou sequer teve o menor contato.

“Todo mundo se assusta, até são-paulino fala que somos loucos. Eles dizem: ‘Não vou ficar aqui’, ‘Tem algum lugar que não tenha?’, ‘Não tira foto’. Tiramos algumas escondidos. Mas é uma forma de mostrarmos o amor pelo clube, não prejudica ninguém. Gastamos um pouquinho, mas compensa ”, analisa Margarida.

O carinho e admiração pelo goleiro estão muito mais conectados à postura dentro e fora de campo do que por qualquer outra qualidade. Ambos são categóricos ao afirmarem que, para eles, Ceni é são-paulino nato em um mundo cheio de jogadores mercenários e sem amor à camisa.

“Ele é são-paulino nato. Não é só por dinheiro, é pelo clube. Ele bate em quem tiver que bater, faz tudo pelo São Paulo. Eu acho que não vou ver mais um ídolo como ele. Hoje, jogador é muito mercenário. Pode ser que meus filhos, meus netos vejam. Ele é uma lenda do futebol. Vai ser lembrado pelo São Paulo como o jogador que se dedicou ao clube”, define Sérgio.

“Apesar de falarem que ele é arrogante, o que ele mostra é uma pessoa muito determinada, que ama o que faz. Acho que, quando amamos o que fazemos, conseguimos executar perfeitamente. Pela dedicação dele aos treinos, ele consegue dar o melhor dele e nós levamos isso para nossa vida, dia a dia, trabalho. ‘Eu gosto de alguma coisa, eu vou lutar.’ Ele passa essa determinação”, completa Margarida.

Assim, nem é bom falar mal do capitão são-paulino na frente do casal. Mesmo calmos e contra qualquer tipo de discussão mais ríspida, Sérgio e Margarida não gostam nem um pouco das críticas de outros torcedores ao ídolo.

“Eu nem gosto, saio andando. Não debato, mas não gosto de ouvir e saio de fininho. Até o são-paulino critica, mas, se ele errou ou não, ganhou muito pelo São Paulo. Ele briga pelo clube. Ele não merece que falem mal. Errou? É humano. Bola para frente, depois recupera desse erro”, crava o torcedor.

Apesar do tom otimista sobre um incerto encontro com Ceni, o casal enfraquece o tom de voz ao pensar em como será olhar para o gol tricolor em 2016 e saber que a pessoa que esteve ali por 25 anos não estará mais.

“Desde o ano passado, o Rogério vem com esses papos de aposentadoria e eu fico com medo. São 25 anos acostumado com o Rogério em campo. A sensação vai ser horrível. Cadê o Rogério para defender? Cadê o Rogério para bater falta, um pênalti? Vai ser totalmente diferente. Até nos adaptarmos, vai ser difícil. Ele é um ídolo, passa segurança. Vai ser difícil sem o Rogério”, lamenta Sérgio.

A única certeza é que nenhum dos dois pensa em remover a homenagem que fizeram. Pelo contrário, a ideia é seguir adiante com o plano. Investe um pouco aqui, compra uma camisa ali... Tudo para que, mesmo que nunca se encontrem, Rogério Ceni tenha uma casa que nem mesmo ele seria capaz de montar.

Um pulo, uma medalha

26 de novembro de 2006, um domingo de manhã. Para muitos, é dia de ir à igreja. E lá estava Guilherme Faldon, morador da região de Alphaville, área metropolitana de São Paulo. Tudo indicava um domingo abafado e tranquilo de verão, mas não para o jovem torcedor.

Após o momento de fé, Guilherme recebeu um convite de amigos para ir ao jogo do clube do coração. O "sim" não demorou muito a sair. Para quem é religioso, foi definitivamente uma resposta abençoada. Afinal, não é todo dia que alguém ganha uma medalha de Rogério Ceni, ainda mais a de uma importante conquista.

O São Paulo já havia levado o título do Campeonato Brasileiro pela quarta vez na história, a primeira desde 1991, e a festa estava armada por mais de 60 mil pessoas nas arquibancadas do Morumbi para celebrar a conquista na partida diante do Cruzeiro.

Ao lado de 13 amigos, Guilherme estava na antiga geral vermelha, pronto para fazer a festa e vibrar com o quarto título nacional, o primeiro da era de ouro que o clube tricolor viveu até o fim daquela década.

Os mineiros não ameaçavam, os campeões perdiam gols, ainda que o primeiro tempo seguisse em um ritmo ameno, sem muita objetividade. Tudo mudou na etapa final, inclusive a vida do torcedor.

Sob forte chuva, Rogério Ceni e Fabão decretaram a vitória são-paulina sobre os cruzeirenses. O roteiro era perfeito: vitória em casa para fechar a campanha. Só que, para um dos mais de 60 mil, o panorama ficou ainda melhor.

Na comemoração, o capitão tricolor deu um leve beijo na medalha dourada e a arremessou em direção à geral vermelha. Então, Guilherme pulou o mais alto que conseguiu. A sorte estava ao lado do garoto de até então 22 anos de idade.

“Rogério jogou a luva e comentei com um amigo que ela raspou na minha mão. Aí ele jogou a medalha. Eu nem olhei para cima, só subi no braço da cadeira e tentei pular o mais alto que pude. Eu pulei, levantei a mão e senti a medalha na palma da mão. Fechei a mão bem forte, desci e não acreditei. Foi um momento de pura alegria por tudo o que o Rogério representa para a gente. Não estamos falando do principal jogador do elenco do São Paulo, estamos falando do principal jogador da história do clube. Isso é muito grande e vou guardar para o resto da vida”, contou Guilherme Faldon.

Tão difícil quanto agarrar a medalha de campeão do principal ídolo foi superar o assédio dos demais torcedores. Pedidos de fotos, abraços, olhares maliciosos, imprensa. Tudo aconteceu naquela tarde. Muitos sairiam correndo, mas Guilherme foi solícito e deixou que alguns chegassem perto do novo tesouro.

“Por incrível que pareça, o pessoal respeitou. Chegaram pacíficos, tiraram fotos, mas sempre comigo por perto, até segurando ela com medo de que alguém pegasse de mim”, lembrou.

A saída do estádio veio de forma inusitada. Para defender Guilherme, um amigo pegou a medalha e saiu do Morumbi sem que ninguém notasse a movimentação. Restou ao verdadeiro dono do objeto negar os demais pedidos de fotos.

A vida do torcedor demorou a voltar ao normal. Inúmeras participações em programas de televisão, entrevistas e até mesmo o convite para participar do quadro “Amigo Secreto” do Fantástico, da Globo.

“Foi engraçado, jamais esperaria participar. A Marília Pera me tirou e deu uma camisa. Eu tirei o Marcos Caruso e dei para ele um relógio feito em vinil. Foi bem legal”, sorriu, até meio desconcertado com a situação.

Nove anos depois, a vida de Guilherme mudou. Agora consultor financeiro e com 32 anos de idade, ele não vai ao Morumbi com a mesma frequência, mas a medalha continua lá, guardada como se fosse uma das coisas mais importantes da vida.

A única tristeza é nunca ter encontrado o ídolo pessoalmente para mostrar a medalha e pegar um autógrafo. Nada que altere a admiração por Ceni.

“Ele não sabe. Seria um prazer, muito legal. Mas não tive a oportunidade de conhecer. O que eu vou carregar são memórias boas do Rogério por tudo o que ele fez. Eu só fico preocupado para que a gente consiga um goleiro. Dificilmente teremos um à altura, mas que seja um goleiro muito bom para representar o São Paulo”, definiu.

Legado

Não é novidade alguma que Rogério Ceni é uma referência no jogo com os pés. Não apenas pelos gols que fez, mas também pela ajuda que deu ao São Paulo na saída de bola ou na compactação da equipe. Com o futebol cada vez mais acostumado a goleiros que passam bem, o atleta deixa como parte do legado uma verdadeira escola de arqueiros que saibam sair jogando.

Se hoje é natural utilizar o camisa 1 como mais um na linha, a atitude causava estranheza nos anos 90. Se este panorama for levado em consideração, não é exagero dizer que Ceni foi peça fundamental na revolução do jogo, principalmente no Brasil.

Só que, para permitir a atuação do capitão tricolor como “líbero”, o São Paulo precisou criar uma espécie de mentalidade coletiva para que todos entendessem a forma de jogar, principalmente quando o ídolo deixava a área para bater faltas e pênaltis.

Primeiro a autorizar Ceni a cobrar as infrações, Muricy Ramalho explicou ao ESPN.com.br como funciona o esquema tático são-paulino com um goleiro especialista com os pés.

Sempre que cobra um tiro de meta curto, Rogério Ceni tem como característica sair da grande área e ficar logo atrás dos zagueiros para dar mais uma opção de passe. O objetivo é evitar o famoso “chutão”. Caso algum dos defensores seja pressionado, o goleiro é uma das primeiras escolhas. É exatamente neste momento que um especialista no jogo com os pés faz a diferença.

Ao receber a bola, o capitão são-paulino tem automaticamente cinco opções fáceis para começar uma jogada. Os dois zagueiros abrem, os laterais viram alas – dependendo da situação, eles compõem o meio de campo – e o volante aparece no centro do gramado.

A transição ofensiva fica mais fácil e cria espaço para que o time tenha mais um jogador de meio avançado em vez de se juntar ao primeiro volante no reforço da saída de bola. Como a equipe está mais avançada, o número de atletas no campo de ataque é superior e tem chances maiores de recuperação caso percam a posse.

“É muito importante ter quem joga com o pé. No São Paulo, jogávamos com o Rogério como líbero na saída de bola, abríamos os dois zagueiros, e ele saía pelo meio. É importante, ainda mais hoje que todo mundo joga com o pé. Naquele tempo, não se jogava tanto como pé, e o Rogério já fazia diferente, porque ele põe a bola onde quer, tem muita coordenação”, afirma o treinador, que foi tricampeão brasileiro comandando a equipe paulista.

O sistema implantado ao longo dos anos, que se repete nos momentos em que Ceni recebe um recuo de bola, é similar ao utilizado por Pep Guardiola desde os tempos de Barcelona. Atualmente no Bayern de Munique, o renomado treinador necessita de um goleiro com as mesmas características para facilitar a subida até o meio de campo, setor mais importante na visão de Pep.

Caso o capitão são-paulino não jogasse bem na linha, as dificuldades seriam grandes. A saída de jogo seria feita por um dos defensores, ainda na própria intermediária. A situação facilitaria a pressão adversária e forçaria o famoso “chutão” para a frente.

As faltas

Especialista nas cobranças de faltas, Rogério Ceni também precisa de uma grande proteção quando sobe ao ataque. A situação força o São Paulo a montar um esquema especial para que o goleiro não sofra gols em caso de rebote. Mas como funciona?

A tática não é tão complexa quanto parece, mas necessita de atenção e disciplina redobrada de ao menos oito atletas. Sempre que vai cobrar uma infração, o goleiro coloca um zagueiro como último homem. Já o volante avança um pouco mais para cobrir o círculo central.

Para evitar qualquer tipo de contra-ataque, outros seis jogadores ficam encarregados da proteção ao capitão. Os laterais possuem a opção de recompor o meio de campo, dependendo do rebote. Mais três meias cercam Ceni e devem “matar” a jogada em caso de sobra, como toque na barreira. Outro atleta tem como responsabilidade a rebatida do arqueiro adversário ou trave.

De acordo com Muricy, o plano é apenas para evitar qualquer “azar”, já que o aproveitamento de Ceni é acima da média.

“Fica tudo cercado, mas 90% das bolas que o Rogério chuta vão no gol ou para fora. Ele tem a consciência de que não pode acertar a barreira”, afirma.

Como o São Paulo está mais do que acostumado a atuar da mesma forma por tanto tempo, o técnico acredita que o jogo com os pés por parte dos goleiros é parte do legado que Ceni deixará ao clube.

“É o principal jogador da história do clube. Vai deixar uma escola. O Denis joga muito com os pés. Isso vem do legado do Rogério”, completa.

Pelo mundo

Após 25 anos de carreira, Rogério Ceni teve uma contribuição significativa para a posição de goleiro no Brasil, tanto que o ídolo são-paulino é reconhecido em diversos lugares do mundo por suas qualidades tanto no gol quanto com os pés.

Com a aposentadoria do ídolo, a dúvida que fica é sobre qual legado o capitão tricolor deixará ao futebol mundial. Em contato com o ESPN.com.br, jornalistas estrangeiros e goleiros que também se destacam pelo controle de bola falaram sobre o adeus do camisa 01 e foram unânimes na opinião de que Ceni deixa uma herança grande ao esporte.

Todos são enfáticos na análise de que o atleta mudou a forma de atuar na posição. Na imprensa de fora do Brasil, o arqueiro tricolor é sinônimo de sucesso e será lembrado como alguém que se dedicou a apenas um clube.

“É um goleiro que fez com que a posição tivesse mais valor no campo de jogo”, crava o marroquino Achraf Ben Ayad, da rede de TV BeIN Sports.

“Pela fidelidade a um clube, longevidade e capacidade goleadora. Estou certo de que dentro de muitos anos, quando alguém quiser falar sobre os goleiros mais lendários da história do futebol, terá que citar Rogério Ceni”, afirma Aitor Lagunas, repórter da revista espanhola Panenka.

“Acredito que os números de Rogério Ceni falam muito sobre sua trajetória. Mas, além de um extraordinário número de gols marcados ao longo da carreira, melhor do que muitos atacantes de muitas ligas, ele também se destaca pelo número de jogos”, aumenta Andrea de Pauli, repórter do jornal italiano Corriere Dello Sport.

O nome do goleiro também é famoso no Japão, país em que conquistou o Mundial de 2005 e virou o primeiro da posição a ser eleito o melhor atleta do torneio. Para Shoko Tsuji, da TV WOWOW, Ceni pode se aposentar com a certeza de que poucos seguirão o exemplo de defender um clube por 25 anos.

“Rogério será lembrado por ter passado toda a trajetória no mesmo clube, algo que não acontece hoje em dia. No Japão, ele não é tão conhecido como outras lendas brasileiras, mas os jogadores japoneses sabem bem sobre sua capacidade goleadora”, analisa.

Se por um lado a imprensa da Europa discute a importância de Ceni para o futebol mundial, por outro há quem fará de tudo para manter tudo o que foi construído no Brasil.

Goleiros não escondem idolatria por Ceni e esperam manter legado com os pés

Um dos nomes dispostos a manter a “herança” de Ceni é Márcio, do Atlético-GO. Aos 34 anos, o goleiro e capitão do time goiano não esconde a idolatria pelo astro tricolor e admite que começou a bater faltas e pênaltis por influência do ídolo.

“Falar do Rogério não é fácil. Ele é um líder, um ícone para mim. Eu me espelhei nele, eu o via fazendo e quis fazer algo parecido. Igual, impossível. A partir do momento que eu o vi fazer o que fazia, não só como goleiro, mas com o pé, eu disse: ‘Quero fazer algo parecido com isso’”, afirmou.

“Ele se tornou meu foco de conduta, de pessoa. É confortável falar sobre ele. Ele é meu ídolo e não enxergo defeito nele. Se tiver uma campanha: não para, Rogério... eu faria. Vai ser uma perda para mim. Eu vou deixar de vê-lo jogar. Todas as vezes que eu assisto ao São Paulo, uns 90% é em função do Rogério”, analisou.

Já experiente, o goleiro e um dos nomes mais experientes do Atlético-GO volta a ser fã quando lembra o primeiro encontro com o ídolo em uma partida oficial, no Campeonato Brasileiro de 2010. Na ocasião, o São Paulo venceu por 2 a 1 no Morumbi, mas Márcio“ganhou” o dia ao receber o reconhecimento de Ceni.

“Trocamos camisa, e para mim foi marcante. Depois, jogamos umas quatro vezes. Eu não sabia o que falar para ele. O jogo era muito importante, mas eu estava mais preocupado com o Rogério do que com o jogo. Claro que jogaria normal, mas a expectativa estava alta. Quando eu o encontrei, antes de eu falar, ele comentou que me acompanhava desde a Série C, quando comecei a fazer gols. Ele me deu os parabéns, desejou sorte. Aquilo foi uma vitória”, disse.

Assim, para manter o legado de Ceni vivo o maior tempo possível, Márcio fará de tudo para seguir batendo faltas e pênaltis, mesmo ciente de que não conseguirá chegar perto do recorde de gols do ídolo.

“É impossível. Hoje, tenho 35 gols oficiais. Em atividade, eu sou um dos últimos a bater falta e pênalti. Tenho 34 anos, não sei quantos gols eu farei. Bater como o Rogério é impossível, mesmo, sem sombra de dúvidas. O aproveitamento é muito alto, sempre foi. Para chegar a algo parecido, tem que nascer novamente”, afirmou.

Quem também pode assumir o posto de goleiro-artilheiro no futebol brasileiro é Emerson, do Paysandu. Também experiente – com 32 anos –, o arqueiro do time é torcedor assumido do São Paulo e tem trabalhado firme para pegar a posição de cobrador de bolas paradas em breve.

“A imprensa sempre pergunta como estou treinando. A torcida aceita. Pena que eu não tive. Mas aceita porque sabe que eu fiz gol. Um dia eu estava treinando, o técnico assistiu e disse que eu tinha que guardar nove de 10. Tem que treinar”, destacou.

Ao contrário de Márcio, Emerson não teve a chance de encontrar Rogério Ceni no único jogo que fez no Morumbi, quando ainda estava no Guarani. Naquela época, o camisa 01 do São Paulo estava lesionado. A falta de uma oportunidade para trocar algumas palavras com o ídolo ficará para sempre na memória do atleta.

“Faltou o encontro. É um cara visado, fica distante. Quando você chega, tem muita gente em cima. Tem uma restrição, acaba você tendo um limite de chegar até ele. É um cara tranquilo. Por ser referência para mim, faltou conversar com ele”, disse.

Mesmo sem nunca ter conversado com Ceni, Emerson garante que a idolatria segue intacta e ainda sonha com grandes feitos na carreira para deixar uma história tão gloriosa quando a do astro tricolor.

“Você chega num palco daquele (Morumbi) e imagina o que ele fez. Tudo passa, menos a história. Ninguém tira. Você vê que ele fez aquilo lá, dá o gostinho de pensar: ‘eu tenho que acreditar que eu posso fazer isso no meu time’. Quero continuar a cobrar faltas e a fazer história. Não como a do Rogério, mas deixar a minha. Torço e sempre sonhei em marcar no Morumbi. Espero marcar um gol lá”, projeta.

Assim como Márcio, Emerson acredita que o legado de Ceni seguirá intacto e vai muito além das quatro linhas.

“Antes dele, o goleiro tinha a imagem de só defender. O Rogério deu a cara para bater e mostrar a qualidade do goleiro, que muitas vezes não tem coragem. Ele abriu o leque para aprimorarmos e termos confiança para cobrar. É uma referência nossa. Se não fosse ele, não teria. Deixa a imagem de que o goleiro pode fazer mais do que só defender, também pode ser um líder. É um cara que quebrou muitas barreiras. Não temos que ficar só nos três paus. Fora a personalidade, é um cara que eu admiro”, afirmou.

Confira o mapa de calor dos gols de Rogério Ceni

Polêmicas

A carreira de Rogério Ceni não foi marcada apenas por títulos e recordes. Ao longo dos 25 anos de São Paulo, o goleiro conviveu com polêmicas e teve alguns atritos com adversários, treinadores e até mesmo comentaristas de televisão.

Relembre alguns momentos “conturbados” de Ceni:

Ney Franco

Em 2013, o técnico Ney Franco se desentendeu com o goleiro e acabou demitido pouco tempo depois. O treinador acreditava que Ceni tinha forte influência no clube e foi rebatido pelo capitão são-paulino. O auge da desavença foi quando o camisa 01 pediu deliberadamente a entrada de Cícero durante a partida contra a LDU de Loja, pela Sul-Americana. Só que Ney optou por Willian José e frustrou os planos do ídolo da torcida.

Pouco depois, o técnico detonou a atitude do arqueiro ao dizer que “é cada um na sua”. Após a demissão do comandante, Ceni chegou a dizer que o legado da passagem do treinador pelo São Paulo foi “zero”.

Neymar

O ano de 2011 teve uma declaração que deu o que falar. Durante a participação em um programa de televisão, Rogério Ceni elogiou o futebol de Neymar ao dizer que o atacante era um dos melhores jogadores no futebol brasileiro, mas que apenas 50% das faltas marcadas sobre ele eram verdadeiras.

A situação fez com que o hoje jogador do Barcelona rebatesse, via amigo, as palavras do goleiro são-paulino. Em um texto aprovado pelo atacante, Ceni foi provocado e chamado de “chato pra c......”.

“Rogério vem se mostrando um tanto quanto vingativo sempre que a conversa gira em torno do Neymar. Parece que ainda não assimilou o golpe. Lembro que, naquele dia, abordou a 'joia' ainda dentro de campo, como quem quisesse lhe dar uma bronca.

Depois saiu falando sandices. Disse que 'só no Brasil' era permitida a 'paradinha', que seria covardia contra o goleiro, etc. Semanas depois, tentou imitar o Neymar. Foi se meter a bater com 'paradinha' e perdeu. Errou!! Que coisa, né??”, dizia o artigo.

Carlos Eugênio Simon

Ao longo de sua carreira, Rogério Ceni também disparou declarações fortes contra a arbitragem. No Campeonato Brasileiro de 2009, o goleiro foi expulso na vitória por 4 a 3 sobre o Santos. No lance, o astro trombou com o atacante Jean e o hoje ex-árbitro Carlos Eugênio Simon alegou que houve pé alto na disputa. A reação pelo cartão vermelho foi forte e sobrou para o juiz.

“Só gostaria de pedir que ele não apitasse mais jogos do São Paulo, porque é pessoal. Não é a primeira vez que ele me expulsa”, reclamou o camisa 01, em referência a uma partida de 2001, quando o gaúcho mandou o ídolo tricolor para o chuveiro mais cedo na goleada sofrida diante do Vasco por 7 a 1.

Ceni foi mais longe nas críticas e afirmou que era perseguido pelo árbitro. “Não sei o que houve. O Simon me persegue. Fazer o quê? Foi trombada, isso acontece no jogo a toda hora. Não acho justo esse cara apitar meu jogo.”

Valdivia

Poucos jogadores tiraram tanto Rogério Ceni do sério quanto Valdivia. O ex-meia do Palmeiras sempre arrumou uma forma de provocar o ídolo são-paulino. O momento mais “quente” entre os dois aconteceu na semifinal do Campeonato Paulista de 2008, quando o goleiro chegou a dar um leve tapa no rosto do chileno durante a derrota e eliminação do São Paulo para o rival.

Em 2012, foi a vez do troco. Ceni alfinetou o meia palmeirense após a vitória tricolor por 3 a 0. Na ocasião, Valdivia deixou o jogo lesionado e o ídolo são-paulino tratou a situação com ironia.

“Deve ter doído muito. Acho que nem vai mais jogar até o fim do ano”, afirmou.

Paulo Amaral

Rogério Ceni quase saiu do São Paulo em 2001. O clima entre atleta e diretoria ficou ruim após o presidente Paulo Amaral desconfiar que o goleiro forjou uma proposta do Arsenal para conseguir um aumento salarial no Morumbi. O goleiro foi afastado por 29 dias e quase deixou o clube, mas acabou reintegrado.

Ceni chegou a admitir que sentia mágoa de Amaral pela forma como o episódio foi conduzido. Já em 2013, o ex-dirigente afirmou que não se arrependia de absolutamente nada e que não teve mais contato pessoal com o ídolo tricolor.

Milly Lacombe

Rogério Ceni já era campeão mundial em 2006 quando aconteceu uma das maiores polêmicas de sua carreira. Durante participação em um programa de televisão, a jornalista Milly Lacombe disse, ao vivo, que o goleiro forjou a assinatura da proposta do Arsenal.

“Eu não consigo olhar para o Rogério e deixar de lembrar de quando ele falsificou a assinatura do Arsenal, que ele queria aumento”, disse a comentarista.

Irritado, o capitão são-paulino ligou para a atração e rebateu a comentarista, dizendo que Milly deveria provar e mostrar os documentos que provavam a falsificação.

“Você pode não gostar de mim, pode achar que eu sou ruim, péssimo. Eu respeito sem problema nenhum. Agora, você dizer que eu falsifiquei uma assinatura? Aí é uma coisa que você vai ter que levar para as pessoas”, rebateu o goleiro.

Ceni processou Milly Lacombe por danos morais e venceu a causa anos depois.

Mário Sérgio

Maior goleiro-artilheiro da história, Rogério Ceni teve sua trajetória como “matador” interrompida no ano de 1998. Mário Sérgio, hoje comentarista de televisão, assumiu o comando do São Paulo e vetou as cobranças de falta do goleiro. Na época, a decisão gerou estranheza geral e ninguém compreendeu muito bem.

Apesar de triste, o capitão obedeceu e não subiu mais ao ataque. Pouco mais de dois meses depois, o técnico foi demitido do clube, e Ceni voltou a cobrar as infrações mais próximas ao gol adversário.

Camisas

Já teve colorida, só preta, só branca, amarela, rosa, tricolor... Teve também personalizada, autografada, com as iniciais e caricaturas. Qual torcedor do São Paulo não se lembra dos uniformes utilizados no final dos anos 1990 e início dos anos 2000?

Rogério Ceni como piloto de avião, maquinista e, a primeira da série, dirigindo um caminhão. Tudo inspirado em Navarro Montoya. O goleiro argentino foi ídolo no Boca Juniors e vestia uma camisa justamente deste jeito: amarela, com um desenho de caminhão, tanto na frente quanto nas costas, e o próprio jogador dirigia a máquina. Para melhorar, detalhes em roxo, rosa, branco e preto. Muitas cores.

Fã declarado do argentino, Rogério deu uma de tiete em 1995, na partida entre Boca Juniors e São Paulo, válida pela Supercopa, em La Bombonera. Após o apito final e vitória tricolor por 3 a 2, o então reserva de Zetti foi ao encontro de Montoya no gramado e pediu a camisa do jogador. Mais tarde, Ceni recebeu nos vestiários um saquinho plástico com o uniforme e os shorts utilizados pelo colombiano naturalizado argentino.

Vinte anos depois do encontro e consciente de que o são-paulino vai se aposentar, o companheiro de profissão se mostrou honrado. “É um orgulho que o goleiro mais artilheiro da história me tem como inspiração. Não só pelas camisetas, mas pelo meu jogo. Isso para mim é um orgulho”, afirmou o arqueiro, que sonha em prestar uma homenagem a Rogério no jogo de despedida.

“Para mim, seria uma honra jogar a última partida do Rogério e ainda utilizar a camiseta que ele tanto gostou”, disse.

A partir de 2007, o são-paulino ainda utilizou o número 01 nas costas, ideia que surgiu quando a equipe não tinha um camisa 10 no elenco. Daquele ano até a aposentadoria, Ceni entrou em campo com os dois dígitos na camisa.

Abaixo, você vê todos os modelos utilizados por Rogério Ceni no São Paulo.

Artes feitas e cedidas pelo site omantotricolor.wordpress.com

  • Campeão Paulista 1992

  • Estreia e campeão Libertadores 1993

  • Campeão Supercopa da Libertadores 1993 (camisa do Zetti)

  • Campeão Mundial 1993

  • Campeão Copa Conmebol 1994

  • 1º gol (1997)

  • Campeão Paulista 1998

  • Inspirada em Navarro Montoya

  • Campeão Paulista 2000

  • Campeão Rio-São Paulo 2001

  • Campeão Paulista 2005

  • Campeão Libertadores 2005

  • Igualou os 617 jogos de Waldir Peres

  • Jogo número 618

  • Campeão Mundial 2005

  • Ultrapassa Chilavert como maior goleiro artilheiro da história

  • Campeão Brasileiro 2006 e homenagem ao recorde de goleiro-artilheiro

  • Campeão Brasileiro 2007

  • Campeão Brasileiro 2008

  • 100 gols

  • 1000 jogos

  • Campeão Sul-Americana 2012

Seleção

17 jogos e dois títulos. Em números, foi assim a carreira de Rogério Ceni na seleção brasileira. A estreia aconteceu na Copa das Confederações de 1997, realizada na Arábia Saudita, quando o Brasil bateu o México por 3 a 2, na fase de grupos, e o são-paulino substituiu Dida no final do segundo tempo.

Antes deste torneio, porém, o goleiro viveu a maior polêmica de sua carreira com a amarelinha. Durante a concentração em Riade, um grupo de jogadores teve a ideia de raspar a cabeça de todos os atletas convocados.

Um por um, todos ficaram carecas, já Rogério foi contra a ideia e até tentou resistir ao novo visual. Mas, enquanto tentava argumentar com os “cabeleireiros”, um dos jogadores passou a máquina e tirou um tufo de cabelo do goleiro. Bravo, Ceni terminou o serviço e raspou o resto da cabeça.

Assim como mudou o visual, o arqueiro também mudou de humor. A partir de então, fechou-se e trocou o mínimo possível de palavras com o resto do time. Como diz em seu livro “Maioridade Penal”, toda noite havia dois filmes em quatro sessões diferentes no hotel onde estava hospedado. Rogério assistia a todos. Via o primeiro às 21h, o segundo às 23h e depois repetia a dose à 1h e às 3h. Então, ia para a cama, dormia até a hora do almoço, voltava para o quarto e só saia para treinar.

Um dos jogadores naquele elenco e ex-companheiro de São Paulo era Juninho Paulista, que se lembrou do episódio aos risos. “Não foi ideia minha. Eu só entrei no embalo, ele também ficou p...”, disse o meia, também recordando das provocações no clube tricolor.

“O Rogério não aceita muitas brincadeiras. Ele é meio durão, meio ignorante para algumas coisas. E a gente gostava de provocá-lo, porque sabíamos dessa situação dele. Às vezes, a gente provocava para que ele pudesse ‘apelar’. Ele sempre estava bravo comigo, com o Denílson, com o Caio, que também brincava bastante, mas a gente também se dava muito bem. Éramos muito unidos, mas, quando dava para brincar, a gente brincava”, contou.

A revolta do jogador são-paulino teve consequências mesmo depois de o Brasil sagrar-se campeão do torneio. O técnico da seleção na época, Mário Jorge Lobo Zagallo, não gostou da postura do goleiro, viu “falta de espírito de grupo” e deixou Rogério de fora da convocação para a Copa do Mundo de 1998, quando o Brasil terminou com o vice-campeonato.

  • Foto:Getty Images

O camisa 1 voltou à seleção depois do Mundial, já sob o comando de Vanderlei Luxemburgo. Ceni foi o titular em algumas partidas, mas, em um amistoso no ano seguinte contra o Barcelona, o goleiro falhou em dois gols no empate por 2 a 2.

Primeiro, saiu errado no cruzamento, errou o tempo de bola e deixou o gol livre para Luis Enrique, hoje técnico do time catalão, empatar o jogo depois de Ronaldo abrir o placar. Rivaldo deixou o Brasil em vantagem com um forte chute, mas Rogério voltou a falhar no segundo tempo. Após falta cobrada para o meio da área, Ceni se atrapalhou, tentou encaixar a bola, mas rebateu para frente, e o holandês Cocu empatou.

O mau desempenho no Camp Nou fez com que o camisa 1 ficasse na “geladeira”. Rogério só jogou novamente mais de um ano depois, em setembro de 2000, já no final da era Luxemburgo. Desta vez, não teve sustos. O Brasil venceu a Bolívia por 5 a 0 no Maracanã pelas eliminatórias para a Copa de 2002.

Meses mais tarde, em novembro, Ceni quase fez o Morumbi explodir. A seleção jogava na casa do São Paulo contra a Colômbia, também em jogo válido pelas eliminatórias, e Rivaldo sofreu falta próxima à área.

A torcida pediu, e Rogério foi para a bola. Mesmo com o camisa 10 do lado, a cobrança ficou para o goleiro. Ceni bateu, a bola passou por cima da barreira, mas foi salva de cabeça por Mario Yepes, enquanto o arqueiro Miguel Calero pulou para a defesa. Aquela falta foi a principal chance de o são-paulino marcar um gol pela seleção.

O camisa 1 ainda voltou a atuar com a amarelinha no Morumbi. A “despedida” aconteceu em 2001, quando o Brasil empatou por 1 a 1 com o Peru pelas eliminatórias da Copa de 2002, sob o comando de Emerson Leão.

Pouco depois, Rogério foi chamado por Luiz Felipe Scolari para o Mundial do Japão e da Coreia do Sul. Ficou claro desde o começo que o são-paulino seria o terceiro arqueiro da seleção. Marcos era titular, Dida o primeiro reserva, e Ceni, o segundo.

Com a camisa 22, o goleiro viu do banco de reservas a contestada seleção brasileira vencer sete jogos seguidos para conquistar o penta, segundo título do arqueiro com a amarelinha. Mesmo sem ter atuado, o uniforme foi para o Memorial Rogério Ceni.

Depois da Copa, o são-paulino disputou mais três partidas (vitórias contra Guatemala e Rússia e derrota para o Paraguai) antes do Mundial de 2006, na Alemanha. A grande dúvida antes da convocação do técnico Carlos Alberto Parreira era quem seria o reserva de Dida: Ceni ou Marcos?

Rogério ganhou a disputa, mas não que isso tenha tirado o bom-humor do palmeirense. “Já estou velho, e as bolas estão ficando cada vez menores”, disse à época. “Quando ouvi o nome do Kaká e a letra ‘m’ passou batida, vi que a Copa tinha terminado para mim”, afirmou Marcos.

O são-paulino foi para sua segunda Copa do Mundo, mais uma vez como reserva. Se em 2002 ele vestiu a camisa 22, agora, o número era o 12. Rogério só não esperava que iria entrar em campo.

O Brasil venceu Croácia e Austrália nos dois primeiros jogos da fase de grupos e chegou para a partida contra o Japão já classificado às oitavas de final. Parreira, então, escalou um time repleto de reservas, mas manteve Dida no gol.

Aos 37 minutos do segundo tempo, a seleção já vencia por 4 a 1, e o treinador tinha mais uma substituição para fazer. “Olhei para o banco e falei: ‘O que eu faço?’. Bati o olho e pensei: ‘O Rogério! Ele merece jogar uma Copa do Mundo’. Falei ‘Rogério, vem cá. Você vai entrar, é uma homenagem que quero fazer pra você’. Ele ficou super desconfiado, tive que convencer ele a entrar. Ele olhou mais uma vez, incrédulo, mas aqueceu e entrou”, contou.

Em 22 de junho de 2006, Ceni entrou no gramado do Westfalenstadion, em Dortmund. Ele não teve grande trabalho nos poucos minutos que ficou em campo, mas pôde colocar na carreira que jogou uma partida de Copa do Mundo.

“Não foi nada planejado que eu queria usá-lo. É sempre bom fazer as três substituições, todo mundo gosta de entrar. Foi aí que eu bati o olho nele. O Rogério é uma figura que tenho respeito muito grande”, explicou o treinador.

Curiosamente, aquela homenagem feita por Parreira culminou na última vez que Rogério disputou um jogo com a camisa da seleção brasileira. A “aposentadoria” veio em plena Copa do Mundo.

Biografia

No começo, Rogério. Depois, Ceni. E, finalmente, Rogério Ceni. O nome foi sendo adaptado ao longo do tempo, mas todos se referem ao mesmo personagem: Rogério Mücke Ceni, nascido em 22 de janeiro de 1973.

Natural de Pato Branco (PR), o goleiro passou a adolescência em Sinop (MT). Foi lá que ele despertou para o futebol, pelo Sinop Futebol Clube. Antes, porém, jogava vôlei.

“Desde menino, ele nasceu para ser esportista, porque gostava de todas as modalidades, jogava muito bem vôlei. Ele jogou na seleção juvenil de Mato Grosso e disputou um campeonato em Brasília, mas sempre gostou mais do futebol”, disse o pai de Rogério, Eurydes Ceni.

A chance para atuar embaixo das traves surgiu de repente, durante uma pelada no clube AABB (Associação Atlética Banco do Brasil), onde jogava por ter trabalhado no banco, aos 13 anos.

“Uma vez, nos jogos entre os funcionários, faltou um goleiro. Como ele era o mais novinho, foi chamado para o gol. Só que ele foi tão bem que acabou ficando”, contou.

As atuações como goleiro e jogador de linha resultaram em um ultimato do pai. “Não sei se foi para me agradar que ele acabou virando goleiro (risos). Uma vez, falei que ele precisava se decidir: ‘Ou você é goleiro ou é jogador de linha. Não vai fazer bem nem uma coisa nem outra’. Ainda bem que ele fez a escolha certa e se deu muito bem”, explicou.

Decidido como goleiro aos 17 anos, Rogério foi campeão logo do primeiro torneio que disputou com a camisa do Sinop: o Campeonato Mato-Grossense de 1990. A estreia no time, porém, foi tensa.

  • Foto:Arquivo pessoal

Os dois primeiros goleiros da equipe, Marília e Valdir Braga, se machucaram durante a competição, e a diretoria queria contratar um novo atleta para a posição. O técnico Nilo Neves, entretanto, bateu o pé e escalou Rogério Ceni em uma partida fora de casa contra o Cáceres, o “Crocodilo do Pantanal”. A surpreendente decisão quase custou o cargo de treinador da equipe.

“No primeiro jogo dele, a diretoria falou que eu ia embora. A partida estava 0 a 0, teve um pênalti, era uma cidade pequena que o torcedor invadia o campo, gritava, e a gente não tinha muito como reclamar. Jogando fora, o centroavante se jogou em cima do zagueiro, e o árbitro deu a penalidade. Pensei que estava sem emprego. O cara bateu, e o Rogério pegou. Eu pensei que estava desempregado, mas ele foi lá e pegou. Aí começou a carreira dele”, disse Nilo.

O jogo terminou 1 a 1, o técnico manteve o cargo, e Ceni não saiu mais do time. Em pouco tempo, porém, Sinop ficou para trás. O garoto que morava no interior do Mato Grosso desembarcou em São Paulo para fazer um teste no clube homônomo. Rogério se perdeu na cidade grande, chegou atrasado e arruinou a primeira chance. Os contatos em Sinop lhe permitiram uma nova oportunidade, que desta vez foi adiada pelo próprio clube.

Em 7 de setembro de 1990, Rogério Ceni chegava ao CT da Barra Funda para dar início à sua história no São Paulo. O hoje ídolo estreou com a camisa do São Paulo no Metropolitano Juvenil. O primeiro jogo foi um empate por 1 a 1 contra o São Bento, de Sorocaba. Mais tarde, veio o título do torneio na decisão contra o Corinthians.

Ao mesmo tempo em que o Morumbi se tornava a nova casa de Ceni (ele morou no estádio por quatro anos), no São Paulo, o goleiro se aprimorava cada vez mais. Além de treinar defesas, reflexos e saída do gol, Rogério também tinha uma grande dificuldade: cobrar tiro de meta. Missão para Valdir de Moraes, preparador de goleiros do São Paulo na época e um dos maiores da posição da história do Palmeiras.

“Ele começou a treinar e, realmente, o tiro de meta dele não era bom. Ele não sabia bater na bola. Comecei a pegar e mostrar como era. Alguns aprendem mais, outros menos, e ele aprendeu muito mais do que todos. Foi fácil. Não é força, é jeito. Ele ficava no gol, eu no meio do campo e depois ia lá, mostrava como que era, como devia se posicionar”, contou Valdir.

Na metade de 1992, o camisa 1 foi efetivado de vez entre os comandados por Telê Santana. A “promoção” veio uma semana depois da morte de Alexandre. Como Rogério conta no livro “Maioridade Penal”: “Alexandre era muito melhor do que eu”.

O promissor goleiro do São Paulo, que era apenas um ano mais velho do que Ceni, morreu em um acidente automobilístico ao dormir no volante quando voltava de um churrasco na cidade de São Roque, próxima à capital paulista. O falecimento de Alexandre fez Rogério pular um degrau. Caso o fatídico episódio não tivesse acontecido, talvez o goleiro com mais gols na história não conseguisse espaço no time tricolor.

  • Foto:Gazeta Press

Pouco menos do que um ano após a morte do goleiro, o São Paulo embarcou para a Espanha em junho de 1993, onde disputaria o Troféu Santiago de Compostela. Rogério não esperava, mas foi lá que ele estreou no time profissional. Foi em 25 de junho de 1993, na vitória contra o Tenerife. Na sequência, o título do torneio veio com triunfo nos pênaltis diante do River Plate.

No ano seguinte, já como segundo goleiro, o agora ídolo são-paulino foi parar no “Expressinho” em 1994, comandado por Muricy Ramalho. A equipe, recheada de garotos, eliminou Grêmio, Sporting Cristal e Corinthians até pegar o Peñarol na decisão da Copa Conmebol. A goleada por 6 a 1 no Morumbi encaminhou o título, um dos mais fundamentais na carreira de Rogério.

  • Foto:Gazeta Press

Anos depois, Ceni até recebeu uma proposta do Goiás, mas não foi liberado. Com a negativa, o goleiro ficou, esperou e, em 1997, Zetti deixou o São Paulo. Pronto, a tão esperada chance de ganhar a camisa 1 havia chegado para Rogério.

Além de virar titular absoluto, o goleiro também recebeu confiança de Muricy Ramalho para cobrar faltas. Não que isso fosse novidade. Pela ausência de especialistas, o são-paulino já tinha começo a treinar no “Expressinho”. Um dos companheiros na época era Denílson, que até se irritava com o camisa 1.

“Cara chato para caramba, no bom sentido, claro. Sempre foi muito correto nas atitudes dele, profissional ao extremo. Era chato trabalhar com ele. Acabava treino de uma hora, ele querendo bater falta, e eu: ‘Mano, vamos sair fora, um sol para cada um no CT e você quer continuar treinando’. Do refeitório, a gente via o campo 1, a gente estava almoçando, e ele batia falta, botava um colete no ângulo para acertar o colete. Aí acertava, parava, colocava de novo, cobrava mais faltas. Por isso não surpreende em nada o sucesso dele”, contou.

Rogério sabia que o primeiro gol não poderia demorar muito a sair. Caso contrário, a desconfiança sobre um goleiro bancar uma de artilheiro iria crescer rapidamente. Três faltas. Este foi o tempo que demorou até que Ceni balançasse pela primeira vez a rede adversária. Foi em 15 de fevereiro de 1997, contra o União de Araras, em uma partida do Campeonato Paulista, sem chances para o goleiro Adnan.

Rogério já era titular absoluto, já havia marcado o primeiro gol da carreira, mas ainda faltava o primeiro título como camisa 1 do São Paulo. A espera durou pouco, até o Campeonato Paulista de 1998, com direito a vitória contra o Corinthians na final.

  • Foto:Gazeta Press

O Paulistão voltou a ser pintado de vermelho, preto e branco em 2000, com direito a menção heroica para Ceni. O São Paulo venceu o Santos na ida, na Vila Belmiro, por 1 a 0. Já no jogo de volta, no Morumbi, o camisa 1 teve um dia inspirado em 18 de junho de 2000. O goleiro marcou de falta um dos gols mais importante da carreira e ainda ajudou a equipe a ficar com o título.

A temporada que começou com uma conquista também teve um capítulo doloroso para o torcedor são-paulino. O time paulista chegou, pela primeira vez na sua história, à final da Copa do Brasil, mas perdeu para o Cruzeiro no Mineirão com um gol de falta nos minutos finais. O título era celeste.

O ano seguinte até fez o goleiro esquecer a dramática derrota. Afinal, o São Paulo sagrou-se campeão do Torneio Rio-São Paulo, quando o torcedor viu as estrelas dos jovens Kaká e Luis Fabiano brilharem na final contra o Botafogo.

  • Foto:Gazeta Press

Em 2002, o São Paulo foi o melhor colocado na primeira fase do Brasileiro, mas virou vítima do Santos de Robinho e Diego e acabou eliminado nas quartas de final. O ano seguinte também teve queda para um rival: derrota na final do Paulista diante do Corinthians.

Já no Brasileirão de 2003, a equipe ficou longe do título, mas, pela primeira vez em 10 anos, conquistou uma vaga na Libertadores e voltou ao torneio que o torcedor são-paulino tanto gosta.

2004 foi um ano diferente para Rogério Ceni. O goleiro estreou na Libertadores com dois momentos marcantes no mata-mata. Nas oitavas de final, ele foi o herói na classificação nos pênaltis contra o Rosario Central.

O camisa 1 marcou um gol e ainda defendeu a cobrança do goleiro Gaona, que poderia ter dado a classificação aos argentinos. Já nas semifinais, o baque veio com a derrota para o Once Caldas, que eliminou a equipe paulista e, mais tarde, ficou com o título.

Aquele histórico jogo contra o Rosario aconteceu no fim de maio, mas, cerca de um mês depois, o clima era outro. O São Paulo encarou o Palmeiras pelo Brasileirão de 2004 e saiu de campo derrotado por 2 a 1. Pior, Ceni foi xingado, vaiado e chegou a colocar o cargo à disposição.

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O meia Souza, que defendeu o clube entre 2003 e 2008, não se esquece daquele dia 27 de junho de 2004. “Eu lembro, porque o Rogério estava sentado de frente para mim. Eu no meu armário, ele no dele. Foi o dia que vi o Rogério chorando, dia que aprendi que, no Brasil, até o cara que é ídolo passa por momento ruim, é cobrado. Foi chato e triste ver nosso capitão ali chorando, mas veio uma reflexão para mim. As pessoas acham que os ídolos são Super Homens, que eles não choram, e, naquele momento, eu conheci o Rogério são-paulino de verdade”, contou o jogador. A diretoria manteve o goleiro. Então, veio o mágico ano de 2005.

  • Foto:Gazeta Press

77 jogos, 40 vitórias, 18 empates e 19 derrotas. 6.930 minutos jogados, 21 gols feitos e 103 sofridos. Em números, foi assim a temporada de Rogério Ceni. Agora, em emoção...

Primeiro, veio a conquista do Campeonato Paulista, um título que até foi “deixado de lado” com o que aconteceu no restante da temporada. Na Libertadores, chegou sem problemas à grande decisão: Palmeiras, Tigres e River Plate ficaram pelo caminho até a final contra o Atlético-PR.

Na partida de ida, que aconteceu em Porto Alegre, empate por 1 a 1 (gols de Aloísio e Durval, contra). O título sairia na casa são-paulina. Em 14 de julho de 2005, a América foi pintada de vermelho, preto e branco.

O time paranaense até teve um pênalti a seu favor, mas Amoroso, Fabão, Luizão e Diego Tardellli fizeram na goleada por 4 a 0. O São Paulo levantava a taça de campeão da Libertadores pela terceira vez na sua história, a primeira de Rogério como capitão.

  • Foto:Gazeta Press

Antes mesmo do fim do jogo, o camisa 1 já estava até pensando no Mundial. O atacante Aloísio, que defendia o Atlético-PR e logo depois da Libertadores transferiu-se para o clube do Morumbi, sabe bem.

“O jogo estava 2 a 0 já, com 70 mil pessoas, lotado, e todo escanteio eu fico perto do goleiro. Aí ele (Rogério Ceni) bateu assim... ‘Vai devagar que eu já mandei trazer você para ir ao Mundial com a gente’. Aí eu olhei assim para ele, com uma raiva...durante o jogo, 2 a 0...eu disse: ‘Você está com medo de que eu faça outro de cabeça’. Aí ele: ‘Então você vai ver, quando você chegar no CT, na Barra Funda, o primeiro que vai te abraçar será eu’. E não é que quando cheguei ali na sala de musculação, ele ‘vem agora’”, lembrou o jogador.

  • Foto:Gazeta Press

O Campeonato Brasileiro foi deixado de lado naquele ano. O objetivo? O Mundial de Clubes. Dezembro finalmente chegou, e o time foi para o Japão. A tensão do primeiro jogo era clara. O favoritismo estava todo com o time brasileiro, enquanto o Al-Ittihad queria surpreender.

A semifinal foi tensa. Amoroso abriu o placar, viu Noor empatar, e depois marcou o segundo no jogo. Aos 12 minutos do segundo tempo, Ceni fez de pênalti o terceiro dos brasileiros. Aquele gol de Rogério foi o 21º dele na temporada, o que garantiu a artilharia do time em 2005. Justamente o pênalti contra os sauditas poderia ter sido batido por outro jogador: Amoroso.

“Eu já tinha feito dois gols na semifinal. Aí quando teve aquele pênalti em cima do Aloísio, eu pensei: 'Mais um pênalti para mim'. Três gols na semifinal do Mundial de Clubes, maravilha! Aí o Rogério veio andando, tal, olhei e falei assim: 'O capitão vai vir e vai querer bater'. Aí ele falou: 'Artilheiro, posso cobrar esse pênalti?'. E eu disse: 'Pelo amor de Deus, você que é o mestre das cobranças. Pode bater'. Graças a Deus ele fez o gol e nos deu a tranquilidade durante o jogo”, disse.

O gol do camisa 1 foi decisivo, já que Al-Montashari marcou mais um para o Al-Ittihad, mas nada que tirasse a vaga do time tricolor na final. Então, veio o Liverpool, que pouco se esforçou na vitória por 3 a 0 contra o Deportivo Saprissa.

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Em 18 de dezembro de 2005, os dois times finalmente entravam em campo no Estádio Internacional de Yokohama.O São Paulo de Rogério Ceni; Fabão, Lugano e Edcarlos; Cicinho, Mineiro, Josué, Danilo e Júnior; Amoroso e Aloísio. Já o Liverpool veio com Reina; Finnan, Hyypia, Carragher e Warnock; Sissoko, Xabi Alonso, Gerrard e Kewell; Luis García e Morientes. O atual campeão da Champions League contra o atual campeão da Libertadores.

Aos 27 minutos do primeiro tempo, Aloísio deu passe magistral de três dedos para Mineiro, que apareceu de surpresa dentro da área e mostrou frieza para chutar na saída do goleiro espanhol: 1 a 0 São Paulo. Agora, era se defender. E como o Liverpool atacou...

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Muitos torcedores são-paulinos consideram aquela partida a melhor da carreira de Ceni. Defesas não faltaram. Chute à queima roupa, bicicleta, bola na trave e nem um, nem dois, mas três gols anulados do time inglês por impedimento. O lance mais lembrado daquela partida, além do gol, aconteceu aos seis minutos do segundo tempo, a famosa falta de Steven Gerrard.

O camisa 8 chutou colocado na direita, a bola foi no ângulo, mas a mão esquerda do camisa 1 fez uma das defesas mais importantes da história do São Paulo. A noite, no Japão, era mesma são-paulina.

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Fim de jogo, e o clube do Brasil era tricampeão mundial. Rogério Ceni ainda ganhou o prêmio de melhor atleta do torneio. Apenas mais um para a vasta coleção de 2005. Que ano mágico...

2006 chegou com uma sensação estranha para o são-paulino. O que esperar depois de três títulos na temporada anterior? O vice do Campeonato Paulista também foi seguido do vice da Libertadores.

Mais uma final brasileira. Desta vez, o adversário era o Internacional. Depois de vitória dos gaúchos, no Morumbi, o título seria decidido no Beira-Rio. A situação ficou ainda mais complicada depois que Rogério Ceni bateu roupa e viu Fernandão abrir o placar. O jogo até terminou empatado em 2 a 2, mas o título ficou mesmo com os colorados.

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Mesmo com o abatimento, a equipe foi ao Mineirão enfrentar o Cruzeiro pelo Campeonato Brasileiro quatro dias depois de perder a Libertadores. Rogério não sabia que o dia 20 de agosto seria tão especial. Os donos da casa abriram 2 a 0 no 1º tempo em um jogo que já parecia ganho, ainda mais depois que o árbitro marcou um pênalti para os celestes. Foi aí que aconteceu a reviravolta.

Ceni defendeu a cobrança e depois marcou dois gols: 2 a 2 no placar final. O primeiro deles foi o 63º gol da carreira do são-paulino, que ultrapassou a marca do paraguaio José Luis Chilavert e se tornou o maior goleiro-artilheiro da história do futebol.

“É impossível. É impossível. É difícil que apareça um goleiro que apareça para bater faltas e pênaltis hoje. Para mim, vai ser impossível. Hoje, estamos em uma etapa que parece que o goleiro não tem importância em uma equipe. O goleiro é muito importante. Toda equipe tem que ter um bom goleiro”, disse Chilavert.

O surpreendente empate em Belo Horizonte deu moral para o elenco. O São Paulo achou forças e quebrou um jejum de 15 anos sem título do Brasileirão. No jogo que garantiu a taça, dia 19 de novembro de 2006, o clube só empatou por 1 a 1 com o Atlético-PR no Morumbi, mas, como o Paraná venceu o Internacional, a conquista ficou mesmo com os paulistas. São Paulo Futebol Clube, tetracampeão nacional.

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O feito seria repetido nos dois anos seguintes. As diferenças entre as duas conquistas foram grandes. Na campanha do pentacampeonato, o São Paulo dominou e garantiu o título com quatro rodadas de antecedência.

O jogo da taça aconteceu dia 31 de outubro de 2007. O Morumbi lotado só esperava o tempo passar para comemorar o penta. Para melhorar, o adversário era o América-RN, lanterna da competição. Branco de um lado do campo, vermelho do outro. A mesma cor utilizada pelo Liverpool no Mundial de 2005 serviu de inspiração para Ceni.

“Os mesmos caras de vermelho nós encontramos dois anos atrás lá no Japão. É que nem esses caras de vermelho. Nós não sabíamos, não conhecíamos direito, esses caras nós também não conhecemos. Eles não têm culpa de estar aqui, mas aqui é nossa casa. Daqui, hoje não passa. Hoje, é titulo aqui dentro. Hoje, temos que fazer acontecer. Os mesmos 11 de vermelho nós pegamos em 2005. Não interessa o símbolo, não interessa o nome dos caras. Os de branco têm que atropelar os de vermelho”, afirmou o capitão do time na preleção no vestiário. Dito e feito. Os de branco atropelaram os de vermelho: vitória por 3 a 0, gols de Hernanes, Miranda e Dagoberto. Festa da torcida tricolor.

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No ano seguinte, a soberania dentro de campo foi substituída pelo poder de reação. Era dia 17 de agosto de 2008, e o São Paulo visitou o Grêmio no estádio Olímpico pela 20ª rodada do Brasileirão. Ao final da partida, o gol de Perea deu a vitória magra aos gaúchos, líderes da competição, e ainda aumentou a vantagem para 11 pontos entre as duas equipes.

Só que a cada jogo a diferença foi diminuindo, até que, sim, era o time paulista o primeiro na tabela. Os são-paulinos ainda tiveram a chance do título na penúltima rodada, mas não saíram de um empate por 1 a 1 com o Fluminense em pleno Morumbi. Então, a resposta para quem seria o campeão brasileiro de 2008 ficou para a última rodada. O São Paulo tinha o Goiás pela frente, fora de casa. Bastava um empate para garantir o hexa. Já o Grêmio recebia o Atlético-MG em Porto Alegre.

No estádio Bezerrão, em Gama, o gol do título saiu em uma jogada de três toques. Aos 22 minutos, Rogério bateu falta na entrada da área, o goleiro Harlei fez a defesa, e o rebote caiu nos pés de Hugo. O meia tentou finalizar, mas a bola saiu torta e, ao mesmo tempo, certinha para Borges. Impedido, o centroavante só teve o trabalho de empurrar para as redes.

A vitória do clube gaúcho por 2 a 0 não fez diferença nenhuma, e o São Paulo ficou com o título, o terceiro seguido, o terceiro de Ceni como capitão. A má notícia, porém, é que o torcedor mal sabia que o famoso “Tri-Hexa” também daria início a um jejum para o clube do Morumbi.

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Nas temporadas seguintes, Rogério sofreu com falta de títulos, eliminações para brasileiros na Libertadores e também lesões. Em 2009, o goleiro ficou quatro meses fora ao fraturar o tornozelo esquerdo durante um treinamento no CT da Barra Funda.

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Já em 2010, o camisa 01 teve a última grande chance de conquistar a Libertadores. O São Paulo até chegou às semifinais, mas acabou eliminado novamente pelo Internacional, desta vez em pleno Morumbi. A dor da derrota fez com que o goleiro deixasse-se o campo às lágrimas.

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Então, veio 2011. Um ano que o São Paulo passou longe de ganhar títulos, mas que não deixou de ser especial para Ceni. Dois números resumem bem: 100 e 1000. Os torcedores mais atentos já sabem do que se tratam.

Era dia 27 de março de 2011. 16ª rodada do Campeonato Paulista. O Majestoso seria disputado na Arena Barueri, e o goleiro do time tricolor tinha a chance de marcar o 100º gol da carreira.

Às 17h09 (horário de Brasília), o árbitro Guilherme Ceretta de Lima marcou falta de Ralf em cima de Fernandinho. Na arquibancada, os torcedores já gritavam o nome do camisa 01. A posição, na meia esquerda, não era das melhores, mas Rogério não ia perder a chance: gol 100. Fim de partida, vitória do São Paulo por 2 a 1 e adeus ao tabu de quatro anos sem ganhar do rival.

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O outro momento mágico vivido por Rogério naquela temporada só aconteceria em 7 de setembro de 2011. Era o jogo 1000 de Ceni com a camisa do clube do coração. Para melhorar, vitória por 2 a 1 contra o Atlético-MG.

Este foi um dos raros momentos de alegrias para o torcedor, que viu seguidas eliminações durante mais de um ano e outra lesão que deixou o camisa 01 fora por seis meses. O outro momento de alegria veio só no final de 2012.

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O último título do São Paulo tinha sido o Brasileirão de 2008, e o jejum de quatro anos já incomodava clube e torcida. O time tricolor chegou à final da Copa Sul-Americana contra o surpreendente Tigre, da Argentina.

A ida, fora de casa, terminou 0 a 0. Enquanto o jogo do Morumbi só teve 45 minutos. O São Paulo abriu 2 a 0, e, já no intervalo, o Tigre acusou a polícia de ameaçar os jogadores no vestiário e abandonou a partida. Situação inusitada, mas taça nas mãos.

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O último ano da carreira foi 2015, mas sem o brilho desejado pelo goleiro e torcedores. Foram seguidas trocas de técnico, crise política e até renúncia do presidente Carlos Miguel Aidar.

O último jogo oficial foi ainda mais dramático. Em 28 de outubro, o Santos massacrou na Vila Belmiro, venceu por 3 a 1 e eliminou o time tricolor nas semifinais da Copa do Brasil. Rogério ainda sofreu uma ruptura do ligamento tíbio-fibular do pé direito que o deixou fora de ação por mais de um mês.

Faltou o título na última temporada do goleiro, mas a aposentadoria veio justamente no 25º ano no São Paulo. Uma façanha para poucos, talvez até inalcançável. Será que vai existir um outro Rogério Ceni?

Vídeos: Anderson Bosco, Jhenifer Santos, João Victor Mekitarian, Ramiro Garcia, Vinícius Zucheratto | Colaboração: José Edgar de Matos, Rafael Valente, Thiago Arantes, Vladimir Bianchini | Revisão: Ricardo Zanei | Equipe de arte: Caroline Silva, Gabriel Lucki