1957 - O ano da graça, o ano do meu casamento

Wlamir Marques, blogueiro do ESPN.com.br
Arquivo Corinthians
Wlamir recebe troféu sob os olhares do presidente Wadih Helu
Wlamir recebe troféu sob os olhares do presidente Wadih Helu

CAMPEONATOS BRASILEIRO E SULAMERICANO

Parece muito estranho eu estar escrevendo sobre histórias do basquetebol e de repente consumir meu tempo falando sobre o meu casamento. Mas tem tudo à ver, minha lua de mel foi quase toda dentro de uma quadra. 

Casei no dia 28 de Dezembro de 1957 na cidade de Piracicaba. Minha esposa era piracicabana e, por lá joguei durante 9 anos (1953/1962). Era funcionário público federal, trabalhava nos correios, além de jogar, é claro.

Casei e logo após as bodas viajamos para São Paulo e fui para São Vicente passar o reveillon junto à minha família, pois logo nos primeiros dias de Janeiro de 1958 iria para Porto Alegre disputar um campeonato brasileiro.

Com a minha esposa Cecilia à tira colo,  defendi a seleção paulista em mais uma conquista nacional. Alí conquistamos o bi campeonato brasileiro de seleções estaduais. Não existiam os campeonatos brasileiros de clubes.

Como sempre acontecia, o adversário mais difícil era sempre contra o Distrito Federal, ou seja, contra o Rio de Janeiro. Brasilia ainda não existia. Fomos campeões em 1955 no Recife, e defendemos o bi em Porto Alegre.

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Fui convocado pela FPB mas condicionei a minha ida desde que eu pudesse levar a minha esposa. Aceita a condição, pegamos um avião e fomos para Porto Alegre. Chegando, fomos hospedados no mesmo hotel da delegação.

Naqueles tempos São Paulo dava início a uma hegêmonia que durou muitos anos no cenário do basquetebol brasileiro. A seleção brasileira era quase toda formada por jogadores da seleção paulista, salvo algumas exceções.

Mais uma vez disputamos o jogo final contra o Rio de Janeiro e trouxemos para São Paulo mais um galardão. À exemplo do futebol, os campeonatos brasileiros eram muito importantes, ali representavamos o nosso estado.

Logo após essa conquista, o técnico Kanela fez uma convocação da seleção brasileira para a disputa de um campeonato sulamericano a ser disputado em Santiago do Chile. Isso aconteceu em Janeiro de 1958, e lá fomos nos.

Ao ser convocado, impus a mesma condição à CBB. Só iria se pudesse levar a minha esposa junto. Sendo mais uma vez aceita a proposta, prolonguei a minha lua de mel no Chile. Essa é a importância ao escrever esse texto.

Ginásio Poliesportivo do Ibirapuera: inauguração e estreia

Wlamir Marques, do ESPN.com.br

Reprodução ESPN
Wlamir Marques é homenageado pelo Corinthians
Wlamir Marques é homenageado pelo Corinthians


Antes da inauguração do Ginásio do Ibirapuera, a cidade de São Paulo não possuía ginásios à altura para receber um grande numero de espectadores. O mais utilizado era o Ginásio do Pacaembu, mas com capacidade reduzida.

Os clubes também eram carentes em quadras esportivas cobertas, havendo  algumas exceções, mas todas com tamanhos reduzidos. No interior haviam ginásios maiores, sempre criados em função dos Jogos Abertos do Interior.

Com a inauguração do Ibirapuera, a cidade passou a contar com um grande espaço para as competições e eventos internacionais. A sua inauguração ocorreu no dia 25/01/57, dia do 403º aniversário da cidade de São Paulo.

Com a presença do governador Jânio Quadros, o Ginásio do Ibirapuera foi inaugurado com um jogo de basquete entre a Seleção Paulista e a Argentina, que terminou com a vitória por 81 a 77. Tive a honra de participar desse evento com o ginásio lotado.

Em seguida, o ginásio recebeu o nome do grande narrador esportivo do rádio e mais tarde da televisão, Geraldo José de Almeida. Lembro muito bem de vê-lo narrando vários jogos de basquetebol, além de outras modalidades.

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A partir de 1957, a cidade de São Paulo passou a promover grandes eventos esportivos e shows variados, sempre com grande presença de público. Ali sempre eram jogadas as finais dos grandes campeonatos de basquetebol.

Foi uma pena o acidente ocorrido em 1954, quando a cúpula do ginásio desabou e o mundial foi transferido para o Maracanãzinho. Com certeza teríamos uma grande presença de publico torcendo pelas nossas cores.

Durante esse tempo, o Ibirapuera sediou 2 campeonatos mundiais de basquete feminino e lutas de boxe do Éder Jofre na defesa dos títulos mundiais.  Em 1963 foi palco do basquetebol para os Jogos Panamericanos. 

Posso dizer com certeza que com a chegada do Ibirapuera deu-se o grande impulso esportivo que o Brasil tanto ansiava. O basquete brasileiro possuía a sua casa em São Paulo e o Ibirapuera era a nossa vitrine.

Com a queda do basquete no país, perdemos o privilégio de utilizar mais vezes esse maravilhoso ginásio. Mas há esperanças no futuro. Precisamos fazer com que o esporte volte às suas origens e o Ibirapuera é a nossa casa!

Ginásio do Ibirapuera: uma história a ser contada

Wlamir Marques, do ESPN.com.br
Reprodução ESPN
Wlamir Marques durante programa
Wlamir Marques durante programa

O 1º Campeonato Mundial de basquete masculino foi disputado no ano de 1950 em Buenos Aires na Argentina. O ginásio Luna Park serviu de palco para a realização do grande evento. O título foi conquistado pela Argentina.

O Brasil participou do mundial alcançando a 4ª colocação, ficando atrás de Argentina, Estados Unidos e Chile.  Disputado a cada 4 anos, a cidade de São Paulo foi eleita para sediar o 2º Campeonato Mundial em 1954.

O motivo da escolha vinha da necessidade de homenagear a cidade de São Paulo pelo 4º centenário da sua fundação (1554). Naquele tempo, a cidade de São Paulo não possuía locais que sediassem grandes eventos esportivos.

Sendo assim, o Governo do Estado de São Paulo decidiu construir um local que aceitasse um grande público, dando início à construção de um ginásio a ser inaugurado durante à abertura de um grande evento de nível mundial.

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Durante à sua construção, a seleção brasileira se preparava na cidade do Rio de Janeiro. Faltando um mês para o início da competição, um grave acidente nas obras exigiu a substituição de São Paulo pelo Rio de Janeiro.

Já na parte final das obras do ginásio do Ibirapuera, a cúpula de cobertura desabou, não dando tempo aos construtores de refazer os estragos causados pelo acidente.

Estávamos prontos para terminar os nossos treinamentos no Rio de Janeiro e seguirmos para São Paulo para os aprontos finais. Com a notícia. a CBB optou pela realização do mundial no Maracanãzinho ainda em obras.

Continuamos os treinamentos no Rio, esperando que o Maracanãzinho tivesse um minímo de condições para a realização dos jogos. Ainda semi-pronto e com uma quadra improvisada, deu-se o início da competição.

O público acomodou-se como pode. Um ginásio inacabado, cheio de pregos e madeiras espalhados pelo chão e com acomodações precárias. O local ainda sem acabamento abrigava um grande público à cada jogo do Brasil.

Nesse mundial conquistamos o título de vice campeões do mundo, sendo derrotados na final para os Estados Unidos, e fui titular absoluto da seleção aos 17 anos. O Ginásio do Ibirapuera finalmente foi inaugurado em 1957.

16ª Jogos Olímpicos de Melbourne, na Austrália - 1956

Os Estados Unidos levaram para Melbourne uma equipe muito poderosa, composta de ótimos jogadores universitários que, mais tarde se tornaram nomes famosos jogando no basquetebol profissional da liga NBA.

O seu grande jogador foi o Bill Russel, considerado um dos melhores pivós  do basquetebol norte americano em todos os tempos. Com 2,18 metros, muito agil e com altissíma capacidade técnica: quase impossível marca-lo. 

A participação da seleção brasileira foi regular. Alcançou a 6ª colocação considerada dentro da  normalidade. Ainda em renovação, alguns nomes foram substituídos, motivando o surgimento de outros grandes jogadores. 

16º JOGOS OLÍMPICOS DE MELBOURNE/AUSTRÁLIA

PERIODO: 22/11/56 à 08/12/56
NUMERO DE PARTICIPANTES: 3314 atletas ( com 376 mulheres)
NAÇÕES PARTICIPANTES: 72 países
SELEÇÕES DE BASQUETEBOL: 15 países

GRUPO A- Estados Unidos- Filipinas-Japão- Tailândia
GRUPO B- França- União Soviética- Canadá- Singapura
GRUPO C- Uruguay- Bulgaria- Rep. da China- Coréia do Sul
GRUPO D- Brasil- Chile- Austrália

JOGOS DO BRASIL:
Brasil 78 x 59 Chile
Brasil 89 x 66 Austrália
Brasil 68 x 87 União Soviética
Brasil 51 x 113 Estados Unidos
Brasil 73 x 82 Bulgaria
Brasil 89 x 64 Chile
Brasil 52 x 64 Bulgaria

CLASSIFICAÇÃO FINAL:
1º Estados Unidos
2º União Soviética
3º Uruguai
4º França
5º Bulgaria
6º Brasil
7º Filipinas
8º Chile
9º Canadá
10º Japão
11º Rep. da China
12º Austrália
13º Cingapura
14º Coréia do Sul
15º Tailândia

SELEÇÃO BRASILEIRA:  Algodão- Amaury Pasos- Edson Bispo- Mayr Facci- Zé Luiz- Nelsinho-Bombarda- Wlamir Marques e outros.

16ª Jogos Olímpicos de Melbourne, na Austrália - 1956 - Recepção e Vila Olímpica

Wlamir Marques, do ESPN.com.br

Gazeta Press
Wlamir Marques durante jogo da seleção brasileira na década de 1950
Wlamir Marques durante jogo da seleção brasileira na década de 1950

No texto anterior eu disse que não demos muita importância à recepção que nos foi prestada em nossa chegada à Melbourne. Não era pra menos, foram 7 dias de viagem até o destino final, estavamos muito cansados.

Naquele dia e quase no mesmo horário, outras delegações também chegavam e o aeroporto estava muito movimentado. Muita gente dando boas vindas às delegações. Momentos festivos, ali o mundo se reunia.

Do aeroporto fomos levados de ônibus até a Vila Olímpica. Era a minha 1ª participação e tudo me parecia um sonho, não perdia um detalhe, era a consagração de um atleta muito jovem, contando apenas com 19 anos.

Chegamos à vila e fomos recebidos pelo povo que fazia uma espécie de plantão, saudando todas as delegações. Enfim, depois de passarmos pela identificação, fomos levados para o nosso alojamento; casas do exercito.

A vila ólímpica era composta de casas do exercito australiano servindo de moradia para as delegações. As casas eram assobradadas. Eu e o Amauri Pasos ficamos alojados no piso superior. Ao lado, o Eder Jofre e seu pai.

Chegamos à tardinha, quase noite, e saímos para jantar no restaurante destinado ao nosso tipo de alimentação. Assim eram os jogos olímpicos, para cada continente sempre havia um certo tipo de alimentação padrão.

Terminado o jantar, voltamos para os quartos e sem pensar muito nos atiramos nas camas, vindo acordar apenas no dia seguinte para o reinicio dos nossos treinamentos, afinal precisavamos recuperar o tempo perdido.

Tudo até ali corria perfeitamente bem, tudo era cronometrado, os horários eram fielmente cumpridos e nós sempre estavamos prontos para sermos levados às quadras de treinamentos. Pontualidade inglesa como herança.

No dia seguinte pela manhã, olhei pela janela do quarto e ví um homem correndo. Logicamente pensei ser um atleta praticando seu esporte. O mais estranho é que ao retornar do treino o homem continuava correndo.

Isso se repetia todos os dias, de manhã e à tarde. Curioso, perguntei quem era aquele homem que corria o dia todo e com cara de sofrimento. Me disseram que era um corredor checo, Emil Zatopek; nunca mais o esqueci.

Na olimpíada de Helsink em 1952, o Zatopek venceu os 5.000, os 10.000 mil metros e a maratona. Foi o único atleta a conseguir esse feito até hoje. Era chamado de "Locomotiva Humana". Em 1952 venceu a São Silvestre.

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