Será a Rio 2016 a última Olimpíada da Grã-Bretanha?

Segredos Olímpicos
Jamil Chade, especial para o ESPN.com.br
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Atletas da seleção da Grã-Bretanha de futebol durante os Jogos Olímpicos de Londres 2012
Atletas da seleção da Grã-Bretanha de futebol durante os Jogos Olímpicos de Londres 2012

Na semana passada, o Reino Unido optou por deixar a União Europeia. Dias depois, a Escócia indicou que gostaria de realizar um novo referendo para deixar o Reino Unido. Na Irlanda do Norte, um movimento também existe para abandonar Londres.

O que parecia um cenário improvável se transformou num pesadelo para líderes europeus que, desde então, passaram a agir para evitar que a integração europeia possa sobreviver a seu maior golpe. Ninguém esconde que uma nova era foi inaugurada na Europa.

Seja qual for o futuro político da região, porém, os britânicos chegarão ao Rio como uma só equipe. Atletas do País de Gales, Inglaterra, Escócia e Irlanda do Norte sob a mesma bandeira.

Mas, diante da crise política aberta, será essa a última vez do "Team Great Britain"? Quais serão as fronteiras da Europa em 2020, na próxima Olimpíada? Quem irá manter sua lealdade com a coroa em Londres até lá?

Se ninguém ousa dar uma resposta a todas essas questões, a realidade é que em suas décadas de história, o nacionalismo se confundiu com a história olímpica. Não foram poucos os casos em que o evento foi usado para suprimir sentimentos nacionalistas ou promove-los.

Ironicamente, um dos maiores palcos de uma disputa nacionalista ocorre em 1908, nos Jogos de Londres.

Dois anos antes em Atenas num torneio intermediário, o irlandês Peter O'Connor demonstrou toda sua ira contra Londres. Ao vencer a medalha de ouro em sua modalidade, ele viu a bandeira britânica sendo hasteada em sua homenagem. Inconformado, subiu, arrancou a bandeira britânica e, no seu lugar, colocou uma irlandesa.

Para 1908, os britânicos haviam decidido que a Irlanda não poderia competir sob sua bandeira, depois de reprimir em Dublin movimentos separatistas. Como resultado, diversos campeões irlandeses se recusaram a competir e a tensão entre os atletas eram diária.

Os protestos dos irlandeses ainda contaram com o apoio dos EUA, num gesto que marcaria o restante da participação americana até hoje. Segundo os arquivos do COI, no dia 13 de julho de 1908, coube ao Rei Edward dar início à 4a Olimpíada da história moderna.

Sentado na ala VIP do estádio ao lado da rainha Alexandra e da princesa Victoria, o soberano seria testemunha do desfile de delegações dos diversos países e de suas colônias. Para todas, a ordem era a mesma: a bandeira da equipe deveria se curvar ao passar pela família real, como um sinal de respeito.

Mas quando os americanos passaram diante do monarca, a bandeira não se curvou, num ato de protesto e em sinal de apoio aos aliados irlandeses. "Essa bandeira não se curva a reis mundanos", justificou mais tarde a delegação dos EUA, criando uma crise diplomática internacional.

Prestes a representar uma vez mais a Grã-Bretanha, não são poucos aqueles que avaliam se suas próprias bandeiras ainda deveriam se curvar diante do trono em Londres. Assim, num palco de nacionalismos, não há como excluir a possibilidade de que o Rio seja a última vez que um escocês, como Andy Murray, suba ao pódio para ouvir "God Save the Queen". 

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Um sonho olímpico naufragado

Segredos Olímpicos
Jamil Chade, especial para o ESPN.com.br

Pela primeira vez, uma equipe de refugiados participará dos Jogos Olímpicos. O COI, a ONU e todos aqueles comprometidos em ajudar um dos grandes desastres humanitários de nossa era não perdem a oportunidade de insistir que o time deve ajudar a criar uma consciência coletiva da necessidade de se encontrar uma solução à crise que afeta mais de 60 milhões de pessoas pelo mundo.

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Samia Omar disputou os Jogos Olímpicos de 2008
Samia Omar disputou a Olimpíada de 2008

Quando sírios e africanos entrarem para competir, estarão representando a esperança e desafiando uma retórica que ganha força pelo mundo de ódio, de muros e de egoísmos.

Se os dez atletas selecionados pelo COI chegaram ao Rio, uma outra refugiada ficou pelo caminho. Não o caminho do Rio. Mas o caminho da sobrevivência.

Em 2008, a atleta da Somália, Samia Omar, conseguiu se classificar para os Jogos de Pequim. Nos 200 metros, ela ficou em último lugar. Mas isso pouco importava. Ali, ela estava desafiando tudo e todos.

Mas, quando voltou para Somália, sua vida seria diferente. Pouco a pouco, o país desmoronou e até a capital Mogadishu passou a ser controlada pela milícia do Al Shabaab. Mulher, jovem e ousada para os padrões do grupo islâmico, ela foi obrigada a deixar o país em 2010. Primeiro, para a Etiópia. Mas ali ela também não conseguiu espaço para treinar.

Ela optou por seguir a mesma rota que milhares de seus compatriotas, cruzar o deserto sudanês e tentar chegar até a Líbia. No caminho, foi roubada e por meses ficou sem entrar em contato com sua família. Mas sua persistência a fez chegar até Trípoli. Lá, como tantos outros refugiados e imigrantes, embarcaria no início de 2012 rumo à Itália, numa travessia que já fez mais de 12 mil mortos em cinco anos.

Sua família a implorou para desistir. Mas seu sonho era conseguir um treinador e voltar a competir em uma Olimpíada. Seu modelo era Mo Farah, o atleta também da Somália que, com doze anos, migrou para o Reino Unido, ganhou a nacionalidade local e passou a ser um ídolo nacional por seu desempenho nas pistas de atletismo.

Mas assim como milhares de outros refugiados, Samia não chegou ao outro lado da costa mediterrânea. Seu barco naufragou e, com ele, um sonho olímpico. Ou simplesmente, um sonho de uma vida em paz.

Quando acompanharmos a equipe de refugiados no Rio, portanto, a torcida não basta. Num país com mais de 200 milhões de habitantes e com a "fama" de generoso, recebemos apenas 8,5 mil refugiados até o final de 2015. Uma gota d'água no oceano. Um oceano, hoje, repleto de mortos abandonados pela comunidade internacional que, por alguns segundos, achará "bonito" o gesto de ver refugiados numa Olimpíada. 

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Um ataque terrorista suspenderia a Olimpíada?

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Jamil Chade, especial para o ESPN.com.br
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Protesto Atentato Setembro Negro Jogos Olimpicos Munique-1972 Stop The Games 05/09/1972
Manifestantes pedem a interrupção dos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972

Munique, 1972. Numa das páginas mais negras da história olímpica, os atletas de Israel foram alvos de atentado terrorista e, num plano fracassado de resgate, todos acabaram morrendo. O incidente marcou a história do movimento olímpico e, desde então, a segurança do evento passou a ser uma das prioridades do COI.

Mas, 44 anos depois, uma pergunta ainda ronda muitos no movimento olímpico: qual motivo levou o COI e os organizadores de Munique a manterem o evento?

Documentos confidenciais guardados pelos arquivos nacionais de Israel revelam que, além da crise que tinham de lidar, um dos debates mais acalorados se referia à continuação ou não do evento na Alemanha.

Num dos telegramas diplomáticos encontrados nos arquivos, constata-se algo surpreendente: o COI e os organizadores alemães decidiram que interromper o evento em 1972 poderia atrapalhar as operações policiais em curso. Mas outro motivo também foi apresentado: a TV alemã que havia pago milhões para mostrar a Olimpíada não tinha um plano B para colocar no ar uma programação alternativa.

Seis horas depois do início da crise, um telegrama enviado pela embaixada de Israel em Bonn para a cúpula da chancelaria israelense em Tel Aviv explicava os bastidores de uma reunião mantida entre então presidente do COI, Avery Brundage, e o governo alemão.

Eis a tradução do documento de 5 de setembro de 1972:

"Foi decidido não interromper os Jogos. Os motivos: 1. a possibilidade de que pará-los possa atrapalhar os esforços da polícia (de resgatar os reféns). 2. A televisão alemã não tem alternativas à programação".

Arquivo Nacional de Israel
Telegrama Israel Jogos Olimpicos Munique 1972 Atentado Terrorista
O telegrama israelense

Outros documentos também mostram a dificuldade das autoridades de Israel em lidar com a crise. O sequestro havia ocorrido em território estrangeiro e uma solução caberia ao Ministério do Interior da Alemanha. Os terroristas eram de outra nacionalidade. Mas as vítimas eram israelenses.

Num dos relatos revelados pelo arquivo do governo de Israel, o então chefe do serviço secreto, Zvi Zamir, acusa os alemães de "incompetência" e de não ter feito "o mínimo esforço para salvar vidas". Mas os documentos também revelam que Israel também não se preparou para proteger seus atletas no exterior.

Para completar, uma constatação : o governo alemão, antes do evento de 1972, ignorou os alertas de eventuais ataques terroristas durante o evento.

Valiosos ensinamentos. Para todos. 

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Agora é que são elas

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Jamil Chade, especial para o ESPN.com.br
Reprodução Facebook
Sheila mandou mensagens de apoio a Fabiana pelo Facebook
Mulheres representam quase metade do total de atletas na Rio 2016

Em poucos meses, poderemos ter uma constelação inédita nos centros do poder internacional. O Reino Unido, Alemanha, os Estados Unidos e a ONU todos governados por mulheres. Algo inédito no mundo.

Também inédito será o tamanho da participação das mulheres na Rio 2016. Do total de atletas, 48% serão mulheres, a maior taxa jamais atingida num evento olímpico.

Mas nem sempre foi assim. Venerado pelo movimento olímpico, o Barão Pierre de Coubertin poderia ter grandes ideias. Mas, para ele, o lugar da mulher não era nada "avant-guarde".

Tive acesso aos arquivos relativos ao fundador do movimento olímpico moderno. Em seus documentos, anotações e entrevistas, Courbertin traça o que seria, pelo menos em sua opinião, a base do movimento olímpico. Mas, de forma escancarada, ele não deixava espaço para dúvidas: não haveria motivo para incluir as mulheres nos Jogos, salve para aplaudir na entrega dos prêmios.

Para o pai das Olimpíadas da Era Moderna, o movimento que ele criou deveria se focar exclusivamente em promover os Jogos e apostar na "única exaltação do atletismo masculino, baseado no internacionalismo, com base na justiça e no cenário artístico, com os aplausos das mulheres como único prêmio."

Coubertin chegou a refletir sobre a realização de um evento separado para mulheres. Mas deixou claro que seriam "semi-Olimpiadas" e que não teriam nem apelo nem interesse. "Não hesitaria em dizer que não seria apropriado", disse, em 1912. E ele vai além, indicando que eventos femininos "não são cenas que multidões gostariam de ver em Jogos."

Conversando com membros do movimento olímpico, alguns tentaram justificar essa posição de Coubertin, alegando que ele era apenas "um homem de seu tempo".

Ao longo de décadas, o COI vem tentando superar essa posição, não apenas para se adaptar aos tempos, mas para transformar os Jogos em um evento para todos. Jacques Rogge, o ex-presidente da entidade, colocou esse ponto como uma de suas metas e deixou o cargo em 2013 com avanços reais.

Em Atenas em 1896, o evento era exclusivamente masculino. Em Roma, em 1960, as mulheres representavam 10% dos atletas. O evento na capital italiana foi, por exemplo, a primeira participação de mulheres de diversos países ocidentais, entre eles, a Espanha. Mesmo em Sydney, na virada do século, as mulheres eram apenas um terço dos participantes.

Para promover a correção, o COI estabeleceu duas estratégias: a primeira era a de conseguir convencer todas as delegações a levar mulheres aos eventos. Depois de meses de negociação, os sauditas finalmente aceitaram em 2012 abrir uma brecha a duas delas, a judoca Wodjan Ali Seraj Abdulrahim Shahrkhani e a atleta Sarah Attar.

Seria também a primeira Olimpíada a ver uma mulher com a responsabilidade de levar uma bandeira de um país árabe, no caso o Catar. A responsabilidade ficará com Noor Al Malki, que participa com sua cabeça coberto por um veu.

A segunda parcela da estratégia era a de garantir que todos os esportes teriam modalidades femininas. Faltava o boxe, que acabou entrando na agenda de Londres.

O resultado foi a transformação na composição das equipes. Algumas das delegações chegaram a levar um maior número de mulheres que de homens, como no caso dos Estados Unidos em 2012.

Mas nem tudo está resolvido. Na realidade, o problema só agora começa a ser tratado. A saudita Attar, que competiu em 2012, vivia na Califórnia e, na Arábia Saudita, mulheres continuam vivendo em uma situação de violações de direitos humanos. No Irã, as meninas ainda não podem entrar em estádios.

Mas não precisamos ir longe. Em muitos países da América Latina, as diferenças sociais são profundas e meninas negras são ainda as mais pobres na pirâmide social de muitos países, como o Brasil.

Para superar isso, vamos precisar mais que recordes e medalhas. Teremos de desconstruir o pensamento de alguns que acreditam que discursos como os de Coubertin em 1912 apenas refletiam o "homem de seu tempo".

Esse tempo acabou. E, como diz Manoela Miklos, agora é que são elas.

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Por quem torceremos no Rio?

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Luz Long e Jesse Owens nos Jogos Olímpicos de 1936
Luz Long e Jesse Owens nos Jogos Olímpicos de 1936

Sempre escutei que foi um afro-americano, Jesse Owens, quem ridicularizou a teoria da superioridade da raça Ariana de Adolf Hitler. O americano colecionou melhadas nos Jogos de Berlim de 1936, frustrando parte dos planos do líder nazista.

Mas ao mergulhar nos arquivos e vídeos daquele evento, me deparei com uma história ainda mais surpreendente.

Diante de 100 mil pessoas, Owens e o alemão Luz Long disputariam o ouro no salto em distância.

Em sua autobiografia, lançada em 1970, Owens conta detalhes daquele momento e relata como havia queimado em todos os seus saltos na fase classificatória. Restava apenas uma oportunidade e, se ele voltasse a pisar na linha, seria declassificado e sequer competiria na final.

Mas enquanto caminhava preocupado, o americano sentiu uma mão nos ombros. Quando se virou, apenas ouviu: "Jesse Owens, sou Luz Long. Acho que ainda não nos conhecemos."

Long então, sentindo os problemas com os saltos de Owens, seu maior adversário, lhe daria uma dica: "faço um risco antes da linha oficial e use ela como parâmetro." E funcionou. No último salto, o americano conseguiu se classificar para a final.

Naquela noite, na Vila Olímpica, Owens conta que foi até o quarto de Long para o agradecer e os dois passariam horas conversando. Para a surpresa do americano, ele descobriria que Long não tinha qualquer simpatia pelas teorias de Hitler.

Quando se despediram, sabiam que na manhã seguinte iriam competir em uma disputa que iria muito além do esporte.

Long seria o primeiro a levar o público e o próprio Hitler ao delírio ao saltar 7,87 metros, algo que ele jamais havia conseguido. Mas Owens iria além e, no sexto salto, atingiria a marca de 8,06 metros.

Para a surpresa geral, o primeiro a correr em direção ao americano seria Long, que o felicitaria efusivamente e o abraçaria diante de um estádio lotado. Rudolf Hess, um dos líderes da cúpula nazista, alertaria à família de Long que jamais voltasse a abraçar um negro, enquanto Hitler não disfarçava sua frustração.

Kai Long, filho do alemão, contou anos mais tarde que a atitude de seu pai não havia sido uma declaração política contra Hitler. Mas apenas um gesto normal de esportistas amador que justamente estava ali apenas pelo esporte e competindo de uma forma leal para saber quem era o atleta que mereceria a medalha de ouro.

Kai, que nasceu em 1941, nunca falou sobre o assunto com pai. Long morreu na Sicília durante a Segunda Guerra Mundial lutando justamente pelo exército nazista em 1943. Seria apenas em 1948 que a Cruz Vermelha encontraria seu corpo.

Kai questiona a versão que Owens manteve por décadas de que seu pai teria mantido uma amizade com o americano, trocando cartas mesmo depois do início do guerra. Mas seja qual tenha sido os capítulos depois dos Jogos de 1936, a realidade é que seu gesto de fair play marcaria o evento e a história do esporte.

Se Owens foi o maior inimigo de Hitler em Berlim, foi um alemão, loiro e de olhos azuis que humilhou a estratégia de seu Führer e deu uma lição de que não se separa homens por suas raças ou cores.

Long também deu uma bela lição aos torcedores de todo o mundo: cuidado ao julgar um atleta pela camisa do país que ele representa.

Quanto a Jesse Owens, ele voltaria aos EUA e seria recebido no primeiro dia como uma estrela. Mas ele mesmo relata em suas memórias como, dias depois, se deu conta de que continuava sendo obrigado a entrar pela porta de trás dos ônibus de sua cidade.

Numa das recepções em sua homenagem num luxuoso hotel americano, o neto de escravos foi orientado a usar o elevador de serviços. Ele não seria nem o primeiro e nem o último Muhammad Ali, depois de voltar dos Jogos Olímpicos nos anos 60 com uma medalha, também conta como foi impedido por um restaurante de ser servido por ser negro.

Assim, quando as delegações chegarem ao Rio de Janeiro, em poucos dias, não vamos confundir os atletas sírios com Bashar Al Assad, os israelenses com a ocupação, os americanos com a CIA, os atletas do Zimbábue com Mugabe e nem os brasileiros com nossa classe política.

O que podemos ter certeza é de que não faltarão líderes oportunistas aguardando o momento para pegar carona nas medalhas conquistadas.

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Carruagens de Fogo

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Jamil Chade, especial para o ESPN.com.br

Ao longo da história, foram adotadas várias formas de convencer a população de que a Olimpíada era um grande negócio para todos. Mas a última versão da « operação sedução » é a de martelar a ideia de que não haveria dinheiro público no evento no Rio de Janeiro.

O argumento não se sustenta à prova mais simples de todas : o local onde a Olimpíada ocorrerá era um terreno público que, gratuitamente, foi repassado às construtoras. É o que chamam hoje de « Parceiria Público-Privada ».

Recentemente, perguntei ao ministro do Esporte qual era o valor dos gastos públicos com o evento e, com uma voz que misturava timidez e constrangimento, ele apenas disse : « uns R$ 3 ou R$ 4 bilhões ».

Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB e da Rio2016, também se recusou a garantir numa recente entrevista ao jornal O Globo que não haveria recurso público para socorrer o evento.

Mas a história também revela que é depois que o circo passa e que a lona é fechada que caberá contar as medalhas, os recordes, além dos mortos, feridos e dívidas.

Nagano, no Japão, teve uma grande ideia diante do desafio de explicar as suspeitas de corrupção e um gasto 56% acima do previsto na Olimpíada de Inverno de 1998.

Os japoneses teriam simplesmente queimado caixas inteiras de dados financeiros sobre o evento e os custos reais da Olimpíada daquele ano jamais foram conhecidos. E nem a corrupção. 

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Política e sangue

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Dezso Gyarmati, capitão da Hungria, após a batalha contra a URSS
Dezso Gyarmati, capitão da Hungria, após a batalha contra a URSS

Existe uma grande mentira no mundo do esporte que nem atletas e nem dirigentes acreditam: a de que o movimento olímpico e as disputas por medalhas não tem qualquer relação com a política.

Esse é um dos grandes mitos que, a cada quatro anos, é categoricamente desmentido. Foi assim desde o primeiro evento internacional, será assim no Rio de Janeiro, em agosto, e será assim em Tóquio, em 2020.

O governo brasileiro tenta, de todas as formas, convencer líderes internacionais a estar na cerimônia de abertura da Olimpíada, como uma espécie de chancela política ao país. A possibilidade de termos a presença de um, dois ou até três presidentes brasileiros na tribuna de honra no dia 5 de agosto é um gesto político em seu aspecto mais explícito. Até as brigas públicas entre Eduardo Paes e o governo estadual por conta da segurança dos Jogos não passam de manobras políticas, e eleitorais.

Mas se existem centenas de incidentes e provas dessa relação entre esporte e política, nada supera a semifinal do pólo aquático entre Hungria x URSS em 1956, nos Jogos de Melbourne. O jogo ficaria conhecido como "Sangue na Água".

Um mês antes do início dos Jogos de 1956, um protesto por estudantes em Budapeste colocava em xeque a área de influência soviética, em plena Guerra Fria. Ao final do dia 22 de outubro, 200 mil pessoas estavam nas ruas pedindo maior liberdade. O primeiro-ministro húngaro, Imre Nagy, seria trazido de volta ao governo na esperança de conseguir consolidar a revolução.

Imediatamente, o líder político tomou iniciativas estratégicas. Retirou a Hungria do Pacto de Varsóvia e declarou sua intenção de obter a independência completa do país. No dia 30 de outubro, ele ainda decidiu mandar seu time de pólo para a Austrália, num gesto de apelo ao mundo por apoio e uma declaração de independência.

Cerca de um mês depois, no dia 20 de novembro, a equipe finalmente chegaria aos Jogos Olímpicos, apenas para descobrir que 3 mil de seus compatriotas haviam morrido por conta da invasão soviética. Dois dias depois, no momento em que os Jogos começavam na Austrália, Nagy seria preso, julgado e enforcado pelos soviéticos.

A revolução havia sido suprimida.

Mas o time não desistiria de demonstrar que não se curvaria. Mesmo sem ter entrado em uma piscina por um mês, os húngaros iniciaram a competição batendo só os EUA por 6 x 2, seguindo com goleadas contra Alemanha e Itália.

Classificados para a fase final, os húngaros descobririam que teriam de enfrentar a URSS. Era a chance de uma revanche, pelo menos na piscina.

O público também entendeu assim e, nas arquibancadas, a comunidade húngara que havia emigrado para a Austrália anos antes fazia questão de colocar um clima de guerra naquela semifinal. O ginásio local era tomado por gritos de 'Hajra Magyarok!' (Vamos Hungria !), num ambiente pouco olímpico.

Na piscina, os húngaros fizeram questão de provocar os russos desde o primeiro minuto. A violência logo ganhou o jogo. O capitão do time de Budapeste, Dezso Gyarmati, foi um dos que agrediu um dos atletas russos.

"Estávamos jogando pelo nosso país", disse Ervin Zádor. Por baixo da água, os pontapés e agressões se multiplicavam.

Valentin Propokov, um dos melhores jogadores soviéticos, passou a ser alvo constante das provocações de Zador, que o acusava de ter bombardeado seu país. Até que, perdendo a paciência, Propokov retribuiria as ofensas com um soco.

O sangue que contaminaria a água levou o público à beira de uma invasão, exigindo uma ação da polícia local para impedir que a partida terminasse em uma pancadaria entre torcedores e a equipe soviética.

O árbitro decidiu dar um fim à partida, mesmo antes da conclusão do tempo regulamentar. Os húngaros já estavam vencendo por 4 a 0 e o clima de confronto já era uma ameaça real.

No dia seguinte, os húngaros venceriam os iugoslavos para ficar com a medalha de ouro. Mas aquela conquista, de volta em casa, poderia significar uma punição. Metade da equipe jamais voltaria para Budapeste. Zádor e outros pediriam asilo na Austrália, seguindo anos mais tarde para os EUA.

A política havia movido aqueles atletas à medalha de ouro. A Olimpíada havia sido a forma de escapar de uma ditadura. E o sangue que manchou a água naquela piscina em 1956 nada mais fez que explicitar a velha máxima do galês Aneurin Bevan: "a política é um esporte sangrento".

No Rio, ele também será. 

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Política e sangue

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Olimpíada: 30 anos de dívidas

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Cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Montreal em 1976
Cerimônia de abertura dos Jogos de Montreal 1976

Ainda sobre o escárnio das finanças dos Jogos Olímpicos, os arquivos e balanços financeiros mostram que raramente um mega-evento deixa um saldo positivo para as contas públicas.

O COI e os políticos cúmplices desses esquemas, conforme eu relato em meu livro Propina, Política e Futebol, insistem que o "legado" é o que justifica esse gasto.

Mas, em pelo menos um caso, o buraco deixado precisou de 30 anos para ser solucionado.

Em 1976, Montreal se transformou em um símbolo do risco que a Olimpíada pode representar para as contas públicas. O prefeito da cidade, Jean Drapeau, anunciou com toda a garantia de um político em busca de votos que o evento não tinha qualquer chance de deixar dívidas para a cidade. E emendou: "se isso ocorrer, homens terão filhos".

A frase o assombraria pelo resto de seus dias.

O evento, que custaria originalmente cerca de US$ 300 milhões, acabou deixando uma dívida bilionária. O sistema de captação de patrocínios foi um fracasso, o orçamento estourou e a dívida conseguiu ser quitada apenas em 2006, 30 anos depois do evento.

No informe financeiro do evento, uma consulta feita por esse blog revela que o governo insistia antes da Olimpíada que a cidade teria uma importante renda, com base nos impostos. Algo muito parecido ao que escutamos hoje. Mas, ao final dos Jogos, os dados mostram que foram coletados apenas US$ 171 milhões em impostos diretos, além de outros US$ 192 milhões em impostos indiretos.

"O custo líquido dos Jogos, depois de deduzir a renda, foi de cerca de US$ 1 bilhão", constatou o informe. "Para cobrir parte do déficit, a Cidade de Montreal foi obrigada pelo governo de Quebec a aumentar impostos", reconheceu. Isso sem contar com o dinheiro que teve de ser injetado pelas autoridades para socorrer o evento.

Belo legado!

Não foi por acaso que, no final dos anos 70 e tento em vista o que ocorreu com Montreal, o COI passou a ter sérias dificuldades para encontrar uma sede para seu evento. Os Jogos de 1980 já estavam definidos em Moscou. Mas, para 1984, as opções eram Los Angeles e Teerã. Com a revolução islâmica de 1979, a opção iraniana também foi descartada.

Por mais pressão que o COI fizesse, nenhuma outra cidade no Ocidente se atrevia a entrar na corrida para sediar o evento, temendo uma falência.

Há 40 anos, os Jogos de Montreal cumpriam sua profecia de forma escancarada: a calamidade foi pública. Mas os lucros foram privados.

Mas, para nossa sorte, isso só ocorre no Canadá!

 

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Olimpíada: 30 anos de dívidas

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Calamidade pública, lucros privados

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Jamil Chade, especial para o ESPN.com.br

Na última sexta-feira, o governo estadual do Rio de Janeiro decretou estado de calamidade pública como forma de ter acesso a um financiamento para poder bancar os Jogos Olímpicos e concluir obras. O estado faliu antes mesmo de o evento começar e o COI está sendo obrigado a antecipar recursos para a Rio-2016 para resgatar os Jogos.

Lamentavelmente, o Rio não será o único que terá um legado de dívidas. Em 2004, a
Grécia comemorava com orgulho o fato de que, mais de cem anos depois, os Jogos Olímpicos finalmente voltavam a seu berço. O preço do "orgulho" chegou a 11 bilhões de euros, duas vezes do mais que o planejado.

Mas, doze anos depois, a herança olímpica e o esporte na Grécia estavam em ruínas. Os cortes no orçamento do governo em consequência da crise econômica mais séria já vivida pelo país e da recessão estão levando a um desmonte de tudo que havia sido construído para os Jogos Olímpicos. Para muitos, o legado do evento é hoje apenas um acumulado de dívidas que contribuiu para um calote do país.

Em certa ocasião na sede da ONU, perguntei ao presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, o que ele achava do impacto dos Jogos de Atenas na crise grega. Sua resposta não foi surpreendente. Para ele, era uma "verdadeira injustiça" culpar os Jogos pelo desastre econômico vivido pelos gregos desde 2009.

Sem dúvida não foi um único evento que levou o país a uma crise de proporções trágicas. Mas o torneio foi o símbolo de uma elite dirigente e de políticos segundo os quais todo gasto se justificava diante da projeção que a Grécia teria no mundo e do suposto legado que os Jogos deixariam à população.

Mas o que deveria ser o espelho de um país moderno se transformou no símbolo de um gasto irresponsável. Hoje, documentos internos do governo enviados à Comissão Europeia deixam claro que, já em 2004, a Grécia acumulava uma dívida impagável, camuflada com a ajuda de economistas sem escrúpulos.

Em outras palavras: Nuzman tem razão em dizer que não foi a Olimpíada que fez a Grécia se enterrar em dívidas. Mas a realidade é que o país jamais teve recursos para de fato bancar a festa.

O tempo - e as contas - provaram que tudo não passou de uma grande ilusão.

Hoje, no processo de reforma do país exigido pelos credores, o esporte não ficou isento de cortes profundos. O primeiro golpe veio em janeiro de 2011. O governo anunciou o corte de 33% na ajuda a federações esportivas, minando de forma dramática a capacidade de algumas equipes e de esportistas de elite para se preparar para os Jogos Olímpicos de 2012, em Londres. Quem quisesse participar do evento teria de pedir recursos ao COI ou buscar patrocínio.

O próprio estádio Olímpico, construído para os Jogos de 2004, foi colocado à venda. Mas, não apareceu nenhum comprador. A maioria das 22 instalações usadas para os Jogos de 2004 está abandonada. A empresa criada para gerenciar o "legado Olímpico", a Olympic Properties S. A., é hoje uma estatal com uma dívida considerada impagável.

Na história dos Jogos, não são poucos os exemplos de lucros privados...e calamidades públicas. 

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Calamidade pública, lucros privados

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E se Putin retirasse a Rússia da Rio 2016?

Segredos Olímpicos
Jamil Chade, especial para o ESPN.com.br

O COI está às vésperas de tomar uma decisão que pode marcar um momento chave nos Jogos Olímpicos: afastar ou não a Rússia do evento no Rio de Janeiro, em agosto. Desta vez, o motivo da tensão entre o movimento olímpico e os russos é o doping organizado pelo Estado. Amanhã, 17 de junho, a Federação Internacional de Atletismo anunciará sua decisão final sobre a suspensão dos russos de suas competições na Rio 2016.

Nos corredores da entidade em Lausanne, dirigentes não escondem que temem uma reação enfurecida de Vladimir Putin que, diante da punição, ameaçaria retirar seu país inteiro do evento no Brasil. O golpe ainda seria duro para o presidente do COI, Thomas Bach. Lembro-me como, na final da Copa de 2014, Bach e Putin acompanharam o jogo no Maracanã lado a lado e num clima de total confiança.

Mas se a decisão promete causar um sério impacto político, a realidade é que os arquivos nos mostram que a relação de tensão entre Moscou e o movimento olímpico se confunde com a própria história da Olimpíada.

Após a Revolução Bolchevique de 1917, uma das primeira medidas adotadas por Moscou foi a de se negar a participar das federações esportivas internacionais, alegando que representavam uma "ideologia burguesa". Os próprios Jogos Olímpicos - que anos mais tarde seriam usados pela União Soviética para demonstrar ao mundo que era uma potência - foi alvo de duros ataques. Para o Kremlin, o evento não passava de uma "distração das massas" e uma tentativa de desviar a atenção dos trabalhadores de sua luta de classe. 

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Cartaz da Olimpíada dos Alternativos
Cartaz da Olimpíada dos Alternativos

A participação dos soviéticos em torneios no exterior era limitada e essa realidade apenas mudou quando o Kremlin passou a estar convencidos de que seus atletas poderiam sair vencedores dessas competições. Quando essa participação ocorreu, o objetivo era o dar uma mensagem política de que a classe proletária poderia vencer representantes da burguesia.

Numa esperança de estar criando de fato um sistema político paralelo ao modelo capitalista-ocidental, Moscou bancou a criação de novas entidades internacionais que agrupariam associações esportivas com a ideologia comunista. A mais poderosa delas seria a Associação Internacional do Esporte Vermelho que, em sua própria descrição, era a entidade que reagrupava "todas as associações esportivas operárias e campesinas que apoiam a luta da classe proletária".

Sua constituição ainda deixava explícito o papel do esporte na vida soviética: "A cultura física, a ginástica, os jogos e o esporte são meios da luta de classes. Não um fim em si mesmos". A declaração simplesmente colocava por terra qualquer tentativa de garantir a neutralidade e caráter apolítico do esporte.

Para fazer frente aos Jogos Olímpicos, criado por barões e apoiado pela monarquia da Europa Ocidental, os soviéticos estabeleceram em 1928 seu primeiro evento internacional. No lugar do Olimpo, pleno de valores individualistas e a cultura da beleza, Moscou promoveria as Spartakiadas. O nome usado era uma homenagem ao escravo rebelde que lutou contra seus opressores.

Era um grito de alerta contra o movimento olímpico e seus ideais de individualismo. Em uma entrevista concedida à Radio Suisse Romande, no dia 4 de agosto de 1935, o barão Pierre de Coubertin resumia os princípios do evento que ele havia criado no final do século XIX e insistia que "o verdadeiro herói olímpico era o indivíduo masculino adulto". Por definição, essa classificação de herói teria dificuldades para encontrar apoio em uma sociedade soviética baseada no coletivismo e na predominância do estado.

Cada participação de Moscou em eventos no exterior era cuidadosamente avaliada: apenas se autorizava a viagem quando havia uma garantia de vitórias. O editorial do jornal soviético Shakhmatny Listok, de 7 de outubro de 1925, explicitava essa ambição política do esporte. "A Associação de Xadrez considera possível para as organização de xadrez proletárias tomar parte nos encontros internacionais a fim de que, por meio das vitórias sobre os mestres burgueses, a dignidade das massas proletárias e a fé em sua força e os talentos da juventude sejam realçados".

A realidade é que, a partir dos anos 20 e até a dissolução da União Soviética, o esporte em Moscou estaria à serviço de sua política externa e da promoção de uma ideologia. Todas as missões de esportistas eram consideradas como ações de diplomacia no exterior e cuidadosamente avaliadas em sua conveniência política.

Com a Guerra Fria ganhando força nos anos 50, a rejeição aos Jogos Olímpicos desapareceria diante do cálculo de Moscou de que poderia usar o evento para mostrar sua superioridade. Assim, a cada quatro anos, americanos e soviéticos disputariam medalha a medalha a imagem de maior potência do mundo.

O esporte, sim, foi uma arma política. E jamais deixou de ser. Muito menos para Vladimir Putin.

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E se Putin retirasse a Rússia da Rio 2016?

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Os senhores dos anéis

Segredos Olímpicos
Jamil Chade, especial para o ESPN.com.br

Um jogo jamais se limita ao que ocorre dentro de campo. O percurso de 100 metros no atletismo jamais dura apenas dez segundos. O brilho de uma tocha olímpica jamais representa apenas os ideais de um movimento esportivo.

Quando, no dia 5 de agosto, o mundo estiver com todas suas câmeras voltadas ao Rio para a Abertura dos Jogos de 2016, não serão apenas as medalhas que estarão em disputa. A imagem do Brasil no exterior será testada, assim como ocorreu com todos os países que sediaram o evento.

Ao longo de mais de cem anos de sua história, a Olimpíada jamais se limitou a ser um evento esportivo. Ela mudou cidades, criou heróis, abriu tensões políticas, mexeu com sociedades, gerou dívidas impagáveis e foi inclusive usada para promover ideologias abomináveis.

A partir de amanhã, este blog irá se dedicar a contar esses bastidores políticos do maior evento promovido pela humanidade: os Jogos Olímpicos. Neste espaço, não falaremos da conquista da medalha. Mas de seu significado para uma sociedade e o que estava de fato em jogo.

Com base em arquivos, documentos e estudos históricos, teremos 50 dias até a Rio-2016 para trazer à luz segredos olímpicos que mudaram a vida de países, de atletas e geraram a insurreição das consciências do simples cidadão.

Quando o Barão Pierre de Coubertin recriou o movimento olímpico no final do século XIX, ele estabeleceu um evento que não apenas testava os limites a humanidade. Mas também o patriotismo. Intencionalmente ou não, o francês criou um dos primeiros palcos políticos de dimensões globais.

Teriam sido as nações e seus comitês olímpicos cúmplices do Nazismo ao aceitar disputar o evento sob o olhares de Hitler nos anos 30? Teriam sido cúmplices de crimes os atletas patrocinados por ditaduras sanguinárias que aceitaram representar um regime? Afinal, o que determina a escolha de uma sede?

Em jogo, a cada uma das edições dos Jogos Olímpico, estava o orgulho de um povo, a manipulação nacionalista de um estado e mesmo os cálculos diplomáticos de um governo. Em jogo, estava a própria história da Humanidade, e suas múltiplas versões.

Bem-vindo a esse mergulho político na história do maior evento do planeta.

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