Caixa de pressão amarela: como o Borussia Dortmund travou Neymar e o PSG na Alemanha?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Neymar sofreu com a marcação e acabou encaixotado em boa parte do confronto em Dortmund
Neymar sofreu com a marcação e acabou encaixotado em boa parte do confronto em Dortmund []

Foram dois anos de muita espera. Apesar do bom jogo, ainda não foi desta vez que Neymar usou seu protagonismo em um jogo decisivo de Champions League para vencer com o PSG. Sem jogar o mata-mata da competição desde a temporada 2017/2018, o brasileiro teve uma noite difícil em Dortmund. Não se omitiu em nenhum momento, marcou um gol e acertou uma na trave, mas, no fim, acabou "travado" pelo cerco imposto pelo Borussia: 2 a 1 para os donos da casa.

Com uma compactação defensiva muito rígida, os auri-negros montaram uma "caixa de pressão" no centro do campo. E isso dificultou não só o jogo de Neymar, mas de todo ataque do time francês. Mbappé e Dí Maria, por exemplo, foram outros que acabaram encaixotados em boa parte do confronto.  Em uma escapada do prodígio francês, o PSG conseguiu o seu gol, o que deixa a eliminatória totalmente aberta.

O que se viu, apesar de ter sido um dos jogadores mais ativos da equipe, foi um Neymar dentro de um cenário extremamente desconfortável. Lukasz Piszczek, atuando como zagueiro pela esquerda, fez vários encaixes no camisa 10 e pressionou muito a bola a cada recepção do mesmo. Não teve respiro. A estratégia do Borussia foi certeira: tirou os espaços, principalmente na profundidade, pressionou a bola a todo custo e automaticamente anulou a velocidade do PSG.

Posicionado num 5-4-1 sem a bola (veja no frame abaixo), os alemães povoaram bem a zona central do campo. O espaço entre a primeira e segunda linha foi bem minúsculo. Como Neymar tem a função de partir da esquerda para dentro, inclusive abrindo o corredor para Kurzawa (PSG também atuou com três zagueiros), acabou batendo em uma muralha. Com isso, quase não teve oportunidades para fazer para jogadas velozes em condução, sua principal e mortal característica.

Dortmund posicionado no 5-4-1 sem a bola: muita compactação e Neymar com pouco espaço
Dortmund posicionado no 5-4-1 sem a bola: muita compactação e Neymar com pouco espaço DataESPN

O impacto desta organização fez com que o camisa 10 parisiense recebesse muitas bolas de costas para o gol (na imagem abaixo isso fica bem claro). Isso, por vezes, matou seu jogo. Mal pegava na bola e o contato vinha forte. Pressão, pressão e pressão. Apesar de ter levado vantagens em alguns momentos, o brasileiro acabava parado pelas coberturas muito bem ajustadas por Lucien Favre, treinador do Dortmund. 

Neymar recebe de costas e quase não tem espaço para girar e acelerar. Pelo menos quatro jogadores do Dortmund pressionam
Neymar recebe de costas e quase não tem espaço para girar e acelerar. Pelo menos quatro jogadores do Dortmund pressionam DataESPN

Só na primeira etapa foram somadas 13 perdas de posse de Neymar (no total foram 30). Números bem expressivos por sinal. 

Por se ver sem saída em vários momentos, a tentativa foi sair um pouco desta zona mais combativa do Dortmund. Para isso, o brasileiro precisou recuar para, aí sim, conseguir girar e jogar de frente para o jogo (na próxima imagem um exemplo bem claro disso). Mas aí acontecia o cobertor curto: ele acabava se vendo longe da meta de Burki. Neste quadro, foram tentadas muitas bolas por elevação, buscando as infiltrações de Mbappé e Dí Maria, mas o bom trabalho da linha defensiva alemã quebrou grande parte das investidas.

Agora sim: Neymar precisa recuar para receber e ter espaço para girar e jogar de frente
Agora sim: Neymar precisa recuar para receber e ter espaço para girar e jogar de frente DataESPN

Foram bem raros os momentos em que o PSG conseguiu atacar o Borussia em campo aberto. Muito pela boa transição defensiva dos mandantes. Com um ataque composto por Neymar, Mbappé e Di Maria, aliás, os alemães foram inteligentes em tirar ao máximo os espaços em profundidade. Dar este tipo de brecha para o trio acelerar, inclusive, seria um atestado de óbito. 

A ideia então foi dar a bola para a equipe treinada por Thomas Tuchel sempre que possível. Sem deixar de atacar quando tivesse a posse, mas sustentando o seu jogo nos contra-ataques puxados, principalmente, pelos jogadores de lado: Hazard e Sancho.

E foi assim que os donos da casa levaram mais perigo. Com o trio de zagueiros do PSG jogando bem adiantado, o Borussia assustava a cada recuperação da bola. E algumas das boas transições ofensivas da equipe, que vem lá da época de Jurgen Klopp, encaixaram. Se as tomadas de decisão, principalmente dos jogadores de lado, fossem melhores, a vantagem poderia ser maior. 

O gigante Haaland, que vem de uma ascensão meteórica desde que chegou à Alemanha, tinha poucas oportunidades de concluir as jogadas. Até que, no segundo tempo, nas duas que chegaram, ele guardou. Destaque para o segundo gol: construído desde o passe vertical de Hummels, que achou o também jovem Reyna, que passou para o centroavante. Dois toques verticais que avançaram praticamente todo o campo.

Sem dúvida Haaland terminou com o protagonismo tão cobrado de Neymar. E toda a expectativa criada em cima do norueguês vai bem além dos números (11 gols nos últimos 8 jogos). O que chama a atenção em si são suas características e uma maturidade enorme com apenas 19 anos. Com 1,94m, o camisa 17 passa bem longe de ser lento, o que já é incomum. Se mostra um jogador extremamente concentrado e envolvido com o jogo, mesmo pegando pouco na bola. Pressiona os adversários a todo momento e tem uma força no arranque muito privilegiada. Sem dúvidas, trata-se de um atleta que tem condições de atingir níveis extraordinários nos próximos anos.

No lado do PSG, destaque para a boa atuação de Verrati. Apesar do cartão amarelo no fim, que o tira do jogo de volta, o italiano foi quem controlou o meio de campo da equipe francesa. Com grande capacidade para alternar o ritmo do jogo com bons passes (93% de aproveitamento em 109 toques), ele ainda foi muito importante defendendo. Nos duelos defensivos pelo chão ganhou 10 de 14 e ainda somou 8 desarmes. 

É verdade que, já para o fim do jogo, o PSG criou algumas situações para igualar novamente a partida. Mas o Borussia, com um nível de investimento inferior, executou de forma bem consistente sua estratégia e agora sai na frente no confronto. Foi maduro e certo do que precisava fazer para obter sucesso nesta primeira parte do enfrentamento. 

A volta, que acontece dia 11 de março, em Paris, tem tudo para ser mais um jogo de alto nível. E tende a ser uma extensão da história contada em Dortmund. Franceses com a bola, alemães esperando, contra-atacando... Resta saber quem sairá vitorioso. E quem será o protagonista da vez.

Fonte: Renato Rodrigues

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Genial, mas sem deixar de correr: por que Kevin De Bruyne é o maior "craque humilde" do mundo?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

De Bruyne comemora um dos seus gols com a camisa do Manchester City
De Bruyne comemora um dos seus gols com a camisa do Manchester City Laurence Griffiths/Getty Images

A temporada 2019/2020 que ainda nem se sabe como terminará, trazia consigo alguns destaques individuais na Europa. Entre a regularidade de Messi, a eficiência de Cristiano Ronaldo e a ousadia de Neymar, um certo jogador vem encantando o futebol mundial nos últimos anos não só pelo que faz com a bola, mas também muito pelo que faz sem ela.

Ouso a dizer que Kevin De Bruyne é o maior “craque humilde” atuando em alto nível atualmente. A palavra humildade se dá pelo que também produz o meia do Manchester City quando sua equipe não tem a posse. Dono de uma resistência gigante, o belga pressiona os adversários como se fosse aquele volante brucutu que só se destaca pela marcação. Percorre grandes espaços e é capaz de repetir movimentos exaustivamente sem perder a intensidade. Além disso,  faz leituras e fecha espaços como grandes zagueiros. A eletricidade em pessoa, capaz de virar a chave nos momentos de transição num piscar de olhos.

Falar em humildade ao tentar analisar De Bruyne vai muito além. O destaca dentre grandes jogadores pelo simples motivo de entregar tudo, de forma completa e precisa. Mesmo atingindo um grande nível de carreira, não se escondeu atrás da sua qualidade. Aliás, é algo até normal para os diferenciados. Já ouviu o papo que "craque não marca"? Pois é, o belga quebra esse clichê como poucos.

Mas vamos primeiro trazer alguns dados que mostram as qualidades do camisa 17 de Guardiola com bola. A primeira coisa que precisamos pontuar é sobre a sua função dentro do City. Antes de chegar a Manchester, por exemplo, o belga chegou a ser um jogador de beirada de campo em alguns momentos. Em outros, atuava mais adiantado, encostando mais nos atacantes – atribuição que ainda tem hora ou outra agora. Mas foi com Pep que se transformou num “todo-campista”, adjetivo usado para destacar a capacidade de um atleta do setor de preencher praticamente todos os espaços na faixa central do campo (veja abaixo o mapa de calor desta temporada). 

Mapa de ações de De Bruyne na atual temporada
Mapa de ações de De Bruyne na atual temporada DataESPN

Vale ressaltar que também jogou como uma espécie de falso 9 em momentos específicos, o que mostra sua extrema capacidade de se adaptar a vários cenários.

Por esse “médio”, termo usado para meio-campistas que não atuam nem tão recuados e nem tão avançados, KDB desenvolveu uma grande capacidade de equilibrar necessidades defensivas à sua capacidade ofensiva. Mas chegaremos lá.

Na temporada 2019/2020 De Bruyne traz consigo, além dos 7 gols marcados, o maior número de assistência das 5 maiores ligas da Europa – Thomas Muller, do Bayern de Munique, está empatado com o belga com os mesmos 16 passes para gols. Outra marca interessante que o jogador do Manchester City busca é de se tornar o maior garçom da Premier League em uma só temporada. Com 16 assistências e ainda 10 jogos pela frente, tenta alcançar Thierry Henrique que é o recordista, com 20, na temporada 2002/2003 pelo Arsenal. Mas estes dados no quesito construção vão além. Para isso, vamos compará-lo com os melhores nestes sentidos pelas 5 principais ligas da Europa: gols + assistências, maiores em assistências e maiores em passes decisivos (que seria chances claras de gol). 

Com bola: Top 10 em Gols + Assistências nas 5 principais ligas da Europa
Com bola: Top 10 em Gols + Assistências nas 5 principais ligas da Europa DataESPN

O primeiro ponto a se destacar no ranking acima, que são os jogadores com mais gols e assistências somadas na temporada, é que De Bruyne é o jogador que atua mais recuado dentre o top 10. Com uma maioria gigantesca de atacantes e centroavantes, o belga perde apenas para Lionel Messi na média de ações com bola (números de suas respectivas ligas). Esse dado, apesar de frio como qualquer um, traz uma perspectiva do quanto o jogador participa do jogo, já que mede todas as ações do mesmo em contato com a bola.

Obviamente que os números nos trazem apenas uma parte da análise. Diria que longe de ser a parte maior, inclusive. Mas eles ajudam a mensurar alguns aspectos. Neste sentido, o camisa 17 do Manchester City é o melhor em assistências para finalização. Apenas Dí Maria e Messi, que passam da marca de 2 passes para chutes por jogo, chegam perto dele.

Com bola: Top 5 em assistências nas 5 principais ligas da Europa
Com bola: Top 5 em assistências nas 5 principais ligas da Europa DataESPN

Quando olhamos para as mesmas métricas listando os jogadores com maior números de assistências nas 5 principais da Europa, De Bruyne tem vantagem nas ações com bola e também nos passes para finalização. Mais uma vez destaque para Dí Maria, que faz grande temporada pelo PSG, e para Thomas Muller, que retomou o alto nível no Bayern de Munique.

Com bola: Top 5 em passes decisivos nas 5 principais ligas da Europa
Com bola: Top 5 em passes decisivos nas 5 principais ligas da Europa DataESPN

Em passes decisivos, o argentino do PSG leva vantagem. Mas, como vimos acima, perde nos outros quesitos. Nesta tabela, pela primeira vez, vemos defensores entre os melhores. Que é o caso dos laterais-direito Alexander-Arnold (Liverpool) e Jesús Navas (Sevilla). 

 Mas é no aspecto defensivo que Kevin de Bruyne mais se destaca contra estes mesmos oponentes mostrados nas tabelas acima. O rótulo de jogador completo que o belga carrega pode ser comprovado com números que mostram o tamanho da sua influência defensiva dentro do Manchester City na Premier League. Com potência física, resistência e estatura para confrontar grandes oponentes no setor mais importante do futebol, consegue se sobressair em aspectos muito importantes e sempre bem compactuados entre os profissionais do futebol. Então vamos a estes dados, na mesma dinâmica de construção que mostramos anteriormente:

Sem bola: Top 10 em Gols + Assistências nas 5 principais ligas da Europa
Sem bola: Top 10 em Gols + Assistências nas 5 principais ligas da Europa DataESPN


Na tabela de jogadores que mais contribuíram em gols e assistências, o destaque do jogador do Manchester City já vem no primeiro quesito, que é o de duelos defensivos (este nada mais é que ações defensivas que geram contato). Apesar de não ser o campeão no aproveitamento, a média de duelos é significativamente maior. Claro que se trata, de todos os nomes listados, do atleta que atua na região mais recuada do campo. Mas sem dúvida, tamanha a diferença, é uma questão a ser destacada. Em recuperações de bola (que é igual a desarmes certos), a vantagem também é enorme na média por jogo. Em interceptações, que é a recuperação sem contato físico, que necessita mais da leitura do jogador, a liderança também vem com folga.

Já no quesito contribuição geral, que é a soma dos dois anteriores, chega a ser devastadora a vantagem de Bruyne, mostrando o tamanho de seu protagonismo na sua equipe, indo muito além dos passes milimétricos para seus companheiros marcarem.

Sem bola: Top 5 em assistências nas 5 principais ligas da Europa
Sem bola: Top 5 em assistências nas 5 principais ligas da Europa DataESPN

Já no quadro de maiores assistentes da temporada, um rival que apenas chega perto: Thomas Muller. Com um número de interceptações quase igual do belga, o jogador do Bayern mostra como tem dado uma contribuição imensa na recuperação dos bávaros na Bundesliga. Mesmo assim, espanta a diferença em números de duelos. E com um detalhe: esta tabela já mostra jogadores que atuam mais recuados, como o caso de Luis Alberto, um dos destaques da grande temporada da Lazio. Sancho, do Borussia Dortmund, desde as primeiras também é outro personagem a se destacar em 2019/2020.

Sem bola: Top 5 em passes decisivos nas 5 principais ligas da Europa
Sem bola: Top 5 em passes decisivos nas 5 principais ligas da Europa DataESPN

Por fim, a comparação dos jogadores que deram mais passes decisivos na 5 principais ligas da Europa. E é neste prisma que De Bruyne vê adversários levando a melhor em alguns aspectos. Se na quantidade de duelos o belga segue sobrando, nos outros pontos perde para Arnold e Navas. Mas aí temos um aspecto defensivo: ambos são defensores que atuam na primeira linha, ou seja, estão bem mais suscetíveis a recuperações e interceptações. Mesmo assim, se olharmos para a contribuição defensiva total, não são margens tão distantes.

 

É sempre importante que os números pegam apenas fragmentos do jogo, que é bem mais complexo que isso. São apenas uma forma de balizar algumas situações, que inclusive depende muito das referências de quem está computando. Mas os dados acima dão mais que uma mostra da influência do jogo de Kevin de Bruyne no cenário mundial atualmente, eles confirmam impressões.

Talvez no seu ápice físico e técnico, o belga de 28 anos é muito mais que o maior “craque humilde” do mundo. De um jogador que equilibra importância defensiva e ofensiva num dos melhores times do planeta, que não tem vergonha alguma de marcar como um volantão e atacar como um dos mais geniais de sua geração. Kevin De Bruyne é uma das maiores referências do que jogo atual pede. Intensidade, senso coletivo e capacidade de resolver problemas. É o (ou um dos) jogador mais completo do cenário mundial.


Fonte: Renato Rodrigues

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Ruptura e ambiente: como Diniz atingiu a estabilidade tão procurada pelo São Paulo nos últimos anos?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Fernando Diniz tem conseguido fazer com que o São Paulo cresça em campo
Fernando Diniz tem conseguido fazer com que o São Paulo cresça em campo Rubens Chiri (São Paulo FC)


A pandemia do novo coronavírus travou não só o mundo, mas também o futebol. E se olharmos aqui para o Brasil, um dos times mais prejudicados por este momento delicado que vivemos talvez seja o São Paulo. Justamente por se mostrar um dos times em maior crescimento nas últimas semanas, com bons resultados e, principalmente, desempenho.

Era bastante nítido que, entre uma oscilação ou outra, o time comandado por Fernando Diniz dava sinais de, enfim, ter um ano mais promissor. O modelo de jogo bem característico do treinador ia ganhando forma. Os jogadores iam amadurecendo as ideias e, sem dúvida alguma, trazendo uma consistência tão aguardada por sua torcida.

E essa regularidade, não necessariamente se tratando de resultados, mas sim dos comportamentos e mecanismos mostrados pela equipe dentro de campo, é o que trazia um otimismo raro entre seus torcedores nos últimos anos. Depois de ver sua contratação criticada e balançar no cargo com jogos ruins, Fernando Diniz enfim parecia ter encontrado o tão buscado equilíbrio. Algo que buscava não só no time do Morumbi, mas na sua carreira se olharmos toda rota do comandante.

Obviamente que a constatação de talvez se tratar do melhor trabalho de Diniz em sua trajetória até aqui é algo totalmente opinativo. Mas a verdade é que esta estabilidade atingida nos primeiros meses de 2020 vai muito além do campo e bola – que, de fato, necessitava de ajustes e um melhor caminho. É fruto de mudanças já tentadas por outros, mas que o treinador tem conseguido tocar e fazer refletir dentro de campo.

Por isso separarei os pontos abordados por tópicos. Justamente pra mostrar que, quando se ganha, nem tudo está tudo bem. E quando se perde, certamente, não é só uma coisa que está errada. Outro ponto importante é: ninguém faz futebol sozinho. Por isso não existe herói ou Messias que coloca a mão e tudo se resolve.

O futebol, no fim de tudo, é tão sistêmico e complexo que ninguém vai conseguir ter controle sobre tudo. É muito mais uma questão de minimizar erros e maximizar acertos. A soma costuma dar certo no final.

 

Ambiente: o calcanhar de Aquiles são-paulino

Não é segredo para ninguém que o ambiente do São Paulo nos últimos anos é de muita pressão e crises para todo o lado. Até por isso, por vezes, coisas que seriam pequenas em outros contextos viram gigantescas dentro do Morumbi. Mas toda essa “obrigação” de voltar a ganhar títulos expressivos mexeu com toda estrutura do clube.

As últimas temporadas foram de muitas mudanças. Troca de funcionários, alteração do elenco e trocas contínuas de treinadores. Tais medidas, vistas como necessárias na alta hierarquia do clube, causaram fortes rupturas. E não só na forma de jogar (que será o próximo tópico), mas na maneira de se viver o clube em seu dia a dia.

E foi exatamente neste ponto que Fernando Diniz talvez tenha conseguido se sobressair num primeiro momento. Com um perfil mais agregador – não que os treinadores anteriores não fossem –, o comandante tricolor conseguiu, além de vender a ideia do tipo de futebol que gostaria de praticamente, aproximar mais as áreas e fazer com que um processo mais harmônico começasse a andar. Por ser pouco centralizador, conquistou a confiança de todos ao seu redor delegando tarefas e, principalmente, abrindo o diálogo para que todo staff tivesse sua importância dentro da construção do jogo/equipe. Sem deixar de tomar as decisões, mas dando autonomia a quem achasse ter competência para isto.

Diniz durante treinamento no São Paulo
Diniz durante treinamento no São Paulo Rubens Chiri (São Paulo FC)

Por mais que isso não entra em campo, faz uma diferença grande. Criar um ambiente positivo, com gente satisfeita e se sentindo relevante, faz com que o processo flua. Como disse acima, claro que estamos falando de uma pequena parte da temporada e que dificilmente um clube de futebol vai ter tudo 100% certo, mas a ideia de ter e se respeitar processos, pelo menos a meu ver, é um passo decisivo para se chegar ou não ao sucesso.

Essa guinada também passa pelo discurso claramente comprado pelo elenco. A primeira grande jogada de um treinador de futebol para obter resultados talvez seja o convencimento de uma ideia. É um mérito, mas que no dia a dia precisa ser confirmado com treinamentos e partidas. E o desafio agora parte deste ponto: qualidade de treino/abordagem, que elevará a capacidade competitiva do time, que ainda precisa crescer em alguns aspectos.

Um norte e a confiança em forma de posicionamento

Quem me acompanha, seja nas redes sociais, blog ou em alguns programas na TV, sabe bem como eu tenho apontado a falta de norte do São Paulo nos últimos anos com relação a que tipo de jogo se quer jogar. Faltava ao clube – em sua gestão esportiva, claro – possuir minimamente algumas referências de caminho a ser trilhado.

A rotatividade de treinadores nas últimas temporadas vai além do trocar por trocar. O ponto aqui é: sair de Juan Carlos Osorio e ir para Doriva. Depois, de Bauza para Ricardo Gomes. Mas na frente, ir de Aguirre passando por Jardine e tendo ainda Mancini e Cuca.

E sem entrar no mérito da qualidade destes profissionais. Mas consegue perceber o quão diferentes eles são. Formas de se ver e praticar futebol totalmente distintas. E isso fez do São Paulo nos últimos anos um time sem identidade de jogo. Chega treinador pede estes reforços, chega o outro e ele não quer estes ou aqueles jogadores, aí se desfaz dos mesmos, aí outro nome é escolhido e aqueles dispensados fazem a ser necessários... Não existe clube no mundo que vá conseguir ter estabilidade – muito menos títulos – nessa toada.

Na temporada passada, ao apostar em André Jardine, o São Paulo começava a dar mostras do que queria como modelo de jogo. É verdade que passou por nomes como Mancini e Cuca, mas com Diniz voltou a se posicionar neste sentido, de um jogo controlado através da posse e com mais vertentes ofensivas. Essa, aliás, é uma busca ferrenha de Raí, atual coordenador técnico do clube.

Mas aí faltava a segunda parte do plano. De que adiantava ter um norte, escolher uma forma de jogar e não bancá-la, como aconteceu em 2019?

Em 2020 isso parece (PARECE!!!) ter mudado. Depois de uma sequência de resultados ruins, mesmo com o desempenho mostrado não sendo dos piores, o clube se posicionou fortemente e garantiu a sequência do trabalho. Coincidência ou não, a equipe passou a obter melhores resultados e se mostrar mais promissora depois deste fato.

Ficou bem claro também que essa confiança no trabalho, que desde sempre foi defendido pelos jogadores, passou a ter reflexo em campo. Principalmente no que se diz fazer gols. De um time que perdia chances e chances, o São Paulo passou a marcar mais tentos e, naturalmente, tendo mais controle dentro das partidas.

 

Modelo de jogo vs equilíbrio

 A forma como Fernando Diniz gosta de construir suas equipes é bem explícita. Mais que o controle através da posse e os constantes apoios a quem tem a bola, o treinador traz consigo o discurso de ter prazer no que se faz e, principalmente, a necessidade de solidariedade entre os atletas dentro de campo. Trabalha muito o aspecto de coletividade e parceria nos setores, seja para atacar com movimentos e linhas de passe, seja para pressionar imediatamente após a perda. Até por isso, ninguém pode pensar duas vezes durante as ações conjuntas.

Dados estes estímulos, que são os pilares do modelo de jogo do treinador, seu trabalho em 2020 tem sido, além de encontrar os melhores lugares para suas peças, ajustar os comportamentos coletivos durante os problemas que a sua forma de jogar trazem.

Talvez o grande ponto aí seja a forma como neutralizar os contra-ataques adversários. E essa deficiência é algo que acompanhou o comandante são-paulino em alguns dos seus trabalhos. Como jogar em cima do oponente, atacando com muita gente, pressionando e não ceder espaços durante as transições defensivas?

Seu último trabalho no Fluminense, por exemplo, escancarou essa deficiência. Se por um lado sua equipe empilhava chances criadas e não era eficiente nas finalizações, por outro cedia espaços em campo aberto, o que fazia dos jogos do tricolor carioca uma partida de trocação infinita, com zero controle sobre o jogo.

Neste São Paulo de 2020 a falta de efetividade no ataque passou a ser um problema. Mas, defensivamente, a equipe foi se mostrando cada vez mais consistente com o passar dos jogos. Os contra-ataques, aos poucos, foram deixando de ser um problema.

Para estancar este tipo de problema a equipe necessita estar com a concentração alta. Se a ideia é pressionar logo após a perda, essa chave tem que ser trocada rapidamente. E neste sentido o São Paulo tem mostrado um comportamento positivo. Muito mais que pressionar a bola, os atletas tem compreendido bem a ideia de não necessariamente marcar a bola, mas fechar as linhas de passe e as possibilidades de saída do adversário. Por vezes, optam por direcionar o rival para zonas pré-estabelecidas, onde terá vantagens para retomar.

Outro ponto perceptível é a escolha melhor quando se tem a bola, o que diminui as chances de perde-la (e automaticamente de entrar toda hora em transição defensiva). A equipe tem tomado melhores decisões e entende bem a necessidade de se concluir as jogadas, evitando também rebotes que podem virar contra-ataques.

Com bola o epicentro do São Paulo está na sua dupla de “volantes”. Entre aspas porque Tchê Tchê e Daniel Alves estão longe da figura daqueles meio-campistas defensivos. Normalmente posicionado no 4-2-3-1, os são-paulinos têm nessa dupla a garantia de uma circulação da bola mais fluída e com critério, já que é de extrema importância que essa posse saia dessa primeira etapa de construção de maneira limpa, o que também aumenta as chances de não sofrer o contragolpe.

Tche Tche vive grande momento com a camisa do Tricolor
Tche Tche vive grande momento com a camisa do Tricolor Gazeta Press

Enquanto Tchê Tchê é quem baixa mais entre os zagueiros para iniciar as jogadas, Dani joga mais solto, cobrindo uma grande faixa de campo. O capitão da Seleção Brasileira, aliás, tem mostrado grande resistência para, por vezes, ajudar na saída de bola e ainda chegar na área para finalizar. Já o camisa 8 vive seu grande momento com a camisa tricolor e tem sido o ponto de equilíbrio defensivo, sendo importante ao cobrir e compensar espaços defensivos.

Igor Gomes é outro que tem se desenvolvido muito no contexto atual. Meia centralizado da linha de três, o jovem mostra uma inteligência para ocupar os espaços e também atacá-los, já que tem total liberdade para circular pelo terço ofensivo. Sua entrada deu mais fluidez aos ataques, mais ritmo e capacidade de retenção da posse em zonas mais pressionadas. A construção, aliás, não chegou a ser problema nesta temporada. O que faltava era ser mais criterioso na hora das finalizações. Além de chutar melhor, escolher a melhor hora para isso.

Tanto Vitor Bueno quanto Antony, ambos que partem dos lados do campo, têm total capacidade de flutuar por dentro, o que abre o corredor para as chegadas dos laterais. Reinaldo, aliás, é quem mais se beneficia desse espaço. Com força e chegada ofensiva, o lateral-esquerdo faz mais uma boa temporada.

Se tem um ponto que eu colocaria ainda como necessário para se trabalhar em alguns momentos no São Paulo seria a amplitude. Por vezes a equipe sofre um pouco para se infiltrar justamente por não abrir o campo, ter jogadores mais abertos, o que ajudaria a alargar as defesas adversárias. Obviamente que pode se tratar de uma opção de Diniz, para manter uma certa compactação justamente para a equipe está próxima no pós-perda. Mas sem dúvida seria um artifício que agregaria a momentos de maior desconforto.

Quem parece também ter atingido seu ápice nas últimas semanas foi Alexandre Pato. Como um 9 mas móvel, o atacante enfim tem justificado tudo que o clube investiu nele. Técnico e inteligente para resolver as jogadas com poucos toques, ele tem entendido a necessidade de ser agressivo sem a bola, algo imprescindível para o funcionamento da equipe.

                                                                                                                                                                   -                

Certamente estamos em um momento de pouquíssimas certezas. Aliás, ainda não sabemos o impacto que toda essa paralisação terá sobre o futebol num todo, imagina então tentar projetar um São Paulo daqui para frente. Não teria nexo algum.

Mesmo que não vivêssemos o que estamos vivendo, jamais teríamos a certeza que Fernando Diniz e seus comandados trariam a tão esperada taça pelos são-paulinos. Mas, mais que promissor, o trabalho feito no CCT da Barra Funda atualmente tem um sentido. É possível enxergar um processo. Apesar de isso não ser garantia de nada, o mesmo os deixa mais perto dos seus objetivos. 

Fonte: Renato Rodrigues

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Flu controla e vê seu lado direito fluir; Botafogo, definitivamente, precisa de muito mais que Honda

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Nenê marcou dois belos gols na vitória do Fluminense sobre o Botafogo
Nenê marcou dois belos gols na vitória do Fluminense sobre o Botafogo Gazeta Press

O Fluminense controlou praticamente toda a partida no Maracanã e bateu o Botafogo no clássico carioca deste domingo: 3x0. Apesar de ambos estarem classificados, foi a equipe de Odair Hellmann que imprimiu um ritmo mais forte e, mais coesa na implicação de suas ideias, resolveu o confronto ainda no primeiro tempo. 

No lado alvinegro da história, que teve o reforço de Honda apenas nas arquibancadas acompanhando a derrota de sua equipe, pouco a se tirar de uma partida passiva, de grande desorganização defensiva e de quase nenhuma efetividade com a bola.

Apesar do revés, o Botafogo até que iniciou de forma razoável o confronto. Antes de sofrer o primeiro gol, quando praticamente desmoronou psicologicamente, a equipe de Valentim buscava pressionar alto, tentando ganhar a bola no campo ofensivo e não deixar o rival iniciar as jogadas de forma confortável. O problema é que tal estratégia durou pouco tempo. Ou melhor, quase nada.

Conforme os minutos foram passando, a intensidade foi se diluindo e o Flu foi saindo com mais tranquilidade do sem campo. E era neste momento, quando tirava a bola da pressão, que encaixava seus ataques rápidos. Com o rival adiantado, os tricolores tinham o campo aberto para avançar e explorar espaços. E foi nesta toada que aconteceu o atropelo dos primeiros 45 minutos de clássico.

Com uma transição defensiva lenta e movimentos para compensar espaços mal feitos, o Botafogo cedeu muito espaço para o Fluminense circular a bola e combinar jogadas de aproximação, principalmente pelos lados do campo.  Aliás, foi aí o ponto alto do dia no time das Laranjeiras. Apesar das boas descidas de Egídio, inclusive com assistência, foi o lado direito a grande notícia para Odair Hellmann.

Com Gilberto e o estreante Wellington Silva alternando posições para atacar - enquanto um infiltrava por dentro o outro abria e vice-versa -, o Flu construiu muito por ali. Quando Nenê flutuava e se aproximava da dupla, as jogadas fluíam ainda mais. Fazia-se superioridade numérica e, com os volantes do Fogão demorando a encostar para igualar o número de jogadores, os tricolores chegavam a todo o momento no fundo do campo. Era um Botafogo marcando de longe, pouco intenso.

Além dos dois belos gols, Nenê foi bastante importante neste papel de circular e gerar apoios curtos para a equipe. Com total liberdade para rodar por todo terço ofensivo, fez boas leituras e jogadas trabalhadas, tendo grande influência no desempenho de sua equipe. Outro destaque, apesar de sem gols, foi o jovem Evanílson. Longe de ser aquele típico centroavante de força e estatura, o camisa 9 mostrou um grande entendimento de jogo para jogar sem bola. Além das boas corridas em profundidade, investiu em diagonais para fora e atacou a linha defensiva do adversário com muita mobilidade, abrindo espaços importantes e gerando grandes dúvidas na linha defensiva botafoguense. 

Nos raros momentos que conseguia uma escapada em velocidade, principalmente com Luis Henrique, o Botafogo quase sempre terminava mal suas jogadas. O camisa 11, aliás, apesar de mostrar muita força e velocidade, manifestou grandes problemas no acabamento das jogadas. Bruno Nazário (mais centralizado) e Warley (pela direita), foram no mesmo caminho. O penúltimo e último passe alvinegro, definitivamente, não entraram. 

Enquanto isso, vimos Pedro Raul pouco participou do jogo. Centroavante mais típico, conseguiu escorar algumas bolas e trabalhar de costas, mas muito distante do que poderia produzir. Muitas vezes os companheiros tentavam o passe no espaço para o camisa 9, que normalmente prefere o jogo mais no pé, já que não é um atleta de velocidade.

Diante de todas as dificuldades que se tem, o Fluminense dá boas mostras neste início de temporada. Fez um clássico totalmente controlado - onde poderia ter feito mais gols, inclusive. Mais que isso, se provou uma equipe num estágio mais adiantado que seu rival com relação ao que seus treinadores buscam como modelo de jogo. Sólido defensivamente e buscando sempre os espaços para acelerar, construiu o placar de maneira bem natural. 

Obviamente que o caminho ainda é bem longo e que Odair ainda terá dias mais difíceis pela frente. Mas trata-se de um trabalho bastante coerente até aqui e que será melhor testado na próxima fase do carioca - tem o Flamengo pela frente nas semifinais - e também no Brasileirão.

Já o Botafogo preocupa. Não pelo resultado e o dia ruim em si, mas pela maneira como conduz seu jogo. Até no sentido de atitude. Se mostra, mais uma vez, uma equipe com ideias claras e que poderiam vir a ser interessantes, mas que continuam longe de serem cumpridas. Em nível estratégico e de modelo de jogo, não conseguiu aplicar nada no clássico. E sem entrar no mérito se o que Alberto Valentim pede é certo ou errado - já que algumas decisões são até questionáveis. 

Tecnicamente o Botafogo também está distante de ter opções capazes de acrescentar de forma direta no desempenho do time. Até por isso, mais do que nunca, precisará crescer a nível coletivo para conseguir ser competitivo ao longo de 2020.

A esperança fica no japonês Honda. Tecnicamente, sem dúvidas, é quem mais pode acrescentar em repertório à equipe. Mas o contexto, de cara, não é dos melhores. A verdade é que o Botafogo tem muito mais trabalho pela frente. E ele vai bem além de trazer uma contratação de impacto. Trata-se de, minimamente, ter um time para acomodar o seu reforço.

Fonte: Renato Rodrigues

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Flu controla e vê seu lado direito fluir; Botafogo, definitivamente, precisa de muito mais que Honda

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Mudança drástica de perfil e controle: quais são os verdadeiros pilares deste novo Corinthians?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Tiago Nunes vai construindo um novo Corinthians pelo meio de campo
Tiago Nunes vai construindo um novo Corinthians pelo meio de campo Daniel Augusto Jr

O primeiro passo antes de fazer qualquer análise neste período da temporada é deixar claro o fato de termos um lastro muito pequeno de jogos - inclusive com equipes ainda retomando sua forma física - para cravar verdades absolutas. Também não temos o conhecimento dos treinamentos, sem viver o dia a dia. O que deixa a tarefa ainda mais difícil. Dito isso, podemos sim observar ideias e os primeiros passos das direções que cada treinador pretende levar suas equipes ao decorrer do ano. Trata-se do "nascimento" de estruturas, das primeiras experiências e, principalmente, de respostas que podem ser muito importantes para a continuidade ou não de processos.

E um dos clubes que praticamente iniciam do zero todo esse movimento de construção de algo novo é o Corinthians. Depois de praticamente uma década com um modelo de jogo muito bem estabelecido, seguindo uma mesma linha de trabalho e de perfis de treinadores semelhantes, o time de Parque São Jorge busca respirar novos ares e aposta em Thiago Nunes, vitorioso no Athletico-PR, para isso. 

Por mais que o novo comandante siga alguns conceitos de seus sucessores (por exemplo, a ideia de linha defensiva compacta em largura), existem alguns pontos que passam a ter uma ruptura mais radical. E não é o caso de pontuar certo ou errado, mas sim as diferenças. Por serem drásticas em alguns aspectos, fica ainda mais vísiveis, mesmo em pouco tempo de temporada.

Em busca de um jogo mais propositivo, de controle do jogo através da posse e predomínio no campo do adversário, Nunes já deixa bem claro por onde as mudanças começaram e quais serão seus pilares para o desenvolvimento de um modelo de jogo vitorioso: os volantes.

Bom momento de Boselli, contratação de Luan, recuperação de Ramiro... Todos estes são pontos importantes, mas, pelo menos por agora, se mostram até secundários se observarmos a influência de Camacho e Cantillo no jogo alvinegro. A dupla, alinhada à frente da linha defensiva no 4-2-3-1 de Thiago Nunes (que vira 4-4-2 sem a bola), é o epicentro do Corinthians nestes primeiros jogos. E não se trata de uma mudança de forma de jogar, mas também de perfil de jogadores nesta posição.

Elias, Paulinho, Maycon, Junior Urso... Independente da qualidade de cada um destes jogadores, eles têm uma característica essencial em comum: são todos volantes de infiltração, chegada na área e gols importantes nas últimas temporadas pelo Timão (uns mais e outros menos, normal). Já Camacho e Cantillo apresentam outro tipo de repertório à equipe. São baseados na construção, no passe e, principalmente, no controle.

Obviamente que isso não os impede de chegar no terço ofensivo por algum momento. Neste caso, vejo Cantillo até com mais possibilidades. Mas ambos estão ali, como representantes do jogo que Thiago Nunes quer praticar, para gerienciar o controle e o ritmo da equipe. Entender o momento de pausar e acelerar, fazer com que a bola avance o campo de forma mais qualificada e ajustar a ligação entre os setores. E melhor: tudo isso com menos pressão na bola, já que estão numa faixa mais recuada, e de frente para o jogo.

Até a estrutura da equipe quando já instalada em fase ofensiva muda: ao invés de uma saída mais sustentada, usando predominantemente os laterais, o jogo passa a fluir mais pelo centro também. Com isso, Fagner e Sidcley ganham mais liberdade para avançar e gerar até profundidade. Mais "presos", Camacho e Cantillo não só administram a posse e o ritmo, mas também estão prontos para defender numa eventual perda da posse, já que não avançam tanto (veja a sequência de fotos abaixo). No caso do colombiano, ainda se tem um ganho em força física para duelos em transição defensiva.

Nesta primeira imagem, veja como Camacho e Cantillo estão bem próximos aos zagueiros e os laterais nem sequer aparecem no recorte
Nesta primeira imagem, veja como Camacho e Cantillo estão bem próximos aos zagueiros e os laterais nem sequer aparecem no recorte Reprodução: TV Globo

Agora sim: saída com zagueiros/volantes e os laterais mais avançados
Agora sim: saída com zagueiros/volantes e os laterais mais avançados Reprodução: TV Globo

E tudo parte da capacidade destes dois meio-campistas. Uso até este termo para fugir um pouco da pecha de "volante", normalmente usada para jogadores mais físicos e que trazem consigo apenas funções de destruição. São deles que a bola sai. São deles os gatilhos para os pontos deixarem o lado no momento certo e flutuarem por dentro, abrindo o corredor para os laterais. São neles que todos jogadores à frente da linha da bola focam para abrir linhas de passe e possibilidades para avançar no campo. 

Neste novo modelo os zagueiros também ganham maior importância nesta primeira fase de construção. Assim como Cássio. Mas é em Camacho e Cantillo que o time desenvolve seus ataques mais promissores. Novamente é importante ressaltar, não se trata de certo ou errado, mas de escolher bem para executar bem. Mas é nítida a mudança de perfil se pensarmos que o próprio Corinthians chegou a atuar com Ralf e Gabriel, juntos, em alguns momentos de 2019. 

Muda-se não só a forma de pensar futebol, mas o perfil do coração e cérebro de um time. Muda-se os protagonistas. Muda-se a essência de um time de futebol.

Fonte: Renato Rodrigues

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Vídeo análise: os movimentos sem bola de Gabriel Jesus, que volta a ter momentos de protagonismo no City

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Gabriel Jesus comemora mais gols pelo City
Gabriel Jesus comemora mais gols pelo City Mike Egerton/PA Images via Getty Images

Gabriel Jesus voltou a ter momentos de brilho com a camisa do Manchester City. Depois de oscilar muito durante as oportunidades que teve nos últimos meses e, principalmente, ter feito uma Copa do Mundo sem grande destaque, o atacante brasileiro vai fazendo valer a continuidade como titular enquanto Sergio Aguero se recupera de lesão. Ao todo são 5 gols em 5 jogos após a lesão do argentino, incluindo um hat-trick em plena Champions League.

Mas o que de fato mudou no ex-palmeirense? Na análise abaixo tentamos explicar:


         
     

A verdade é que não se trata de mudança, mas um apanhado de confiança e desenvolvimento de inteligência de jogo. Atuando como centroavante nesta sequência, Gabriel Jesus tem tido poucas ações com bola por jogo. Participa pouco das construções, mas tem sido letal e inteligente para ler espaços corretamente. O grande destaque, por incrível que pareça, é no seu jogo sem a bola.

No primeiro lance já vemos de cara sua contribuição defensiva mesmo sendo o centroavante da equipe. Mais adiantado, pressiona, fecha linhas de passe e serve com uma espécia de "gatilho" para sinalizar ao time a hora de subir jogadores e adiantar seu bloco defensivo para pressionar. O lance mostra bem isso. No fim da primeira jogada ainda vemos um movimento bem característico dele: a leitura do espaço vazio e a infiltração nas costas do zagueiro que o marca.

Já na segunda jogada vemos muito uma questão de timing para os movimentos. Mesmo longe da onde a jogada se desenvolve, o brasileiro se mostra atento para ler e atacar espaços, mesmo que a bola não chegue naquele momento. Uma sequência de movimentos inteligentes, feitos antes mesmo do passe/cruzamento, que acaba em gol. No final, um arranque para cima do defensor, que acaba sendo decisivo ao achar o espaço correto.

Na terceira e última jogada, mais uma vez a questão da leitura do espaço vazio + o potente arranque para deixar o marcador para trás e antecipar a jogada. Mais uma conclusão e um gol anotado.

A ideia é mostrar um dos motivos do crescimento de Gabriel Jesus nos últimos jogos. Lógico que os gols contam muito, mas é o seu trabalho sem bola que tem não só ajudado a equipe, como também gerando espaços para que o atacante esteja em boas condições de terminar as jogadas. Os lances vão desde a sua função de puxar a pressão mais alta, sendo o gatilho para o time subir, até movimentos nos espaços vazios, que é onde ele se marca os gols. Pouco participativo na construção dos ataques, mas terminal e letal. Assim o brasileiro vem se destacando com a lesão de Aguero.

Fonte: Renato Rodrigues

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Vídeo análise: os movimentos sem bola de Gabriel Jesus, que volta a ter momentos de protagonismo no City

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Vídeo análise: como José Mourinho tem usado Dele Alli, que voltou a ser decisivo pelo Tottenham?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues


Dele Alli volta a jogar bem pelos Spurs
Dele Alli volta a jogar bem pelos Spurs Getty

Um dos grandes diferencias do Tottenham desde a chegada de José Mourinho tem sido Dele Alli. O meia inglês, que vinha de atuações muito apagadas nos últimos meses, começou a empilhar gols e assistências desde a chegada do treinador português. São quatro jogos, quatro gols e uma assistência do camisa 20 dos Spurs.

Mas o que tanto mudou em comparação com o trabalho de Maurício Pochettino?

Dele Alli é um jogador bem específico. De primeiro volante lá no MK Dons, o inglês virou meia-atacante, com características de mais chegada na área e conclusão das jogadas do que propriamente armar o time. Atuando sempre atrás do centroavante, ele tem uma grande inteligência para ler espaços e atacá-los. Além do mais, tem carrega consigo uma boa finalização, aliada à sua estatura privilegiada: 1,88m.

Talvez a grande questão esteja não na função/posição ou alguma mudança individual no seu jogo, mas sim no modelo de jogo que Mourinho tem empregado que, pelo menos neste início de trabalho, mostra estar potencializando Dele Alli. A análise abaixo deixa alguns pontos bem nítidos neste sentido:


         
    

Vemos nos lances acima muito bem essa sua especialidade como jogador, que é chegar na área. Na primeira jogada mostrada, fica claro como é ele o jogador mais próximo da linha defensiva, empurrando-a para trás e gerando profundidade para o Tottenham. Kane, por sua vez, está mais recuado. O centroavante tem essa característica de baixar um pouco seu posicionamento para ajudar na criação das jogadas. 

No segundo lance, novamente ele na profundidade. Agora Alli deixa os zagueiros para fazer um rápido pivô, trabalhando nas costas dos volantes.

Mas o terceiro e quarto lance deixam bem explícitos sua utilização dentro de um modelo de jogo diferente que os Spurs vinham utilizando. Mourinho gosta e usa bastante o jogo direto. E levando em conta as características de Alli, esse casamento até aqui é perfeito. Veja no lance seguinte como ele sabe que, como ninguém pressiona o zagueiro, o lançamento vai sair. E não dá outra, gol do meia-atacante.

Por fim, essa ideia de jogo já bem absorvida mostrando que Dele corre e ataca a profundidade ainda antes do zagueiro armar o lançamento. Quando a bola sai do defensor a infiltração já estava feita. 

Fica bem claro, nestes primeiros jogos é claro, como Mourinho enxerga o meia-atacante inglês. Gostando ou não da bola longa, não podemos negar que tem funcionado.



Fonte: Por Renato Rodrigues e Rodrigo Coutinho, do DataESPN

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Dossiê River Plate: os pontos fortes e fracos do rival do Flamengo na final da Copa Libertadores

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Por Renato Rodrigues, Rodrigo Coutinho e Caio Alves, do DataESPN

Marcelo Gallardo é o grande responsável pelo sucesso atual do River Plate
Marcelo Gallardo é o grande responsável pelo sucesso atual do River Plate Getty

Flamengo e River Plate definem no próximo sábado, às 17h (de Brasília), em Lima, no Peru, o dono da América em 2019. Se por um lado os argentinos defendem o título da temporada passada, podendo conquistar o bicampeonato, o time rubro-negro busca um caneco que não conquista faz 38 anos. Pelo nível técnico e organização das equipes, este confronto tem tudo para ser uma das finais de Libertadores mais bem jogadas dos últimos anos. 

O encontro, além de marcar um embate de muitos jogadores de alta capacidade técnica, coloca frente a frente dois treinadores com grande estofo e, principalmente, capacidades estratégicas para mudar o rumo de partidas. Se no lado argentino Marcelo Gallardo tem um trabalho longevo de mais de 5 anos a frente dos Millonarios, com muitos títulos e remontagens de elenco, sempre revelando jovens promissores, Jorge Jesus traz toda uma experiência europeia e um trabalho avassalador que domina o futebol brasileiro neste segundo semestre.

Rafinha, após show da torcida do Fla: 'A do Bayern não chega perto'


    


Abaixo, você confere uma análise total deste River Plate que tem sido uma das equipes reinantes na América do Sul nas últimas temporadas. Um dossiê mostrando como os hermanos atacam, defendem e se comportam em bolas paradas. 

Tem também um raio-x completo de seus cobradores de pênaltis e do goleiro Franco Armani, já que o jogo único em Lima pode terminar com uma disputa de penalidades.

Um material completo para você, fã de esporte, conhecer melhor o rival do Flamengo. 

Como ataca: sistema tático igual ao do Fla e muita mobilidade ofensiva

O River Plate é uma equipe que busca ter mais posse de bola que o adversário, mas para que isso seja de fato utilizado de forma eficiente, o time de Gallardo mostra conceitos bem trabalhados de movimentação e ocupação dos espaços. É, acima de tudo, um time bastante vertical que busca na maioria das vezes acelerar e concluir as jogadas o mais rápido possível, sempre visando pegar o sistema defensivo do adversário desequilibrado. E as semelhanças não param por aí. A plataforma tática mais utilizada é o 4-1-3-2, o mesmo sistema base de Jorge Jesus no atual Flamengo.

A começar pela saída de bola.  Enzo Pérez - que viu sua participação na final em risco por conta de lesão em um dos ombros - é o homem mais recuado do meio-campo. Ex-Benfica, onde foi treinado por Jorge Jesus, mas sempre atuando como um segundo volante, ele tem o papel de se aproximar dos zagueiros para fazer a iniciação das jogadas. Este movimento possibilita a projeção dos laterais no campo ofensivo, gerando amplitude ao time e mais opções para circular a bola de um lado a outro.

O trio de meias dos Millonarios participa ativamente do segundo estágio de construção da equipe. De la Cruz e Ignacio 'Nacho' Gonzalez flutuam dos lados para o centro na maioria das vezes. Enquanto um se aproxima da bola, o outro gera profundidade, fica mais perto da dupla de ataque (a imagem abaixo mostra bem o posicionamento da equipe em fase ofensiva). Palacios, que atua mais centralizado nesta linha de três meias, se mexe constantemente para gerar possibilidade pelo centro, seja entre as linhas de marcação do adversário ou mais próximo de Enzo Pérez.

River Plante instalado no ataque: laterais avançam e abrem o campo, meias jogam por dentro e atacantes ficam na profundidade
River Plante instalado no ataque: laterais avançam e abrem o campo, meias jogam por dentro e atacantes ficam na profundidade DataESPN

É interessante também observar a participação ativa dos laterais no momento ofensivo. Os dois ganham liberdade ao mesmo tempo para avançar no campo e ocupam os flancos até a linha de fundo. No caso de Casco, pela esquerda, há algumas variações com o lateral atacando por dentro e De la Cruz garantindo a amplitude no setor.  

A dupla de ataque - que deve ser Borré e Suárez - também busca movimentos bem coordenados. Fazem diagonais curtas em cima da linha defensiva adversária. Eles gostam muito de atrair um dos zagueiros rivais para que o companheiro ataque o espaço vazio.

Matias Suarez recebe na área e raspa de cabeça para a diagonal de Nacho Fernandez na segunda trave
Matias Suarez recebe na área e raspa de cabeça para a diagonal de Nacho Fernandez na segunda trave DataESPN

A preferência é pela troca de passes curtos, aproximação no campo rival, mas a bola longa também é utilizada em inversões buscando o lateral bem avançado ou Matías Suarez, este como alvo da 'primeira bola'. Enzo Pérez é o atleta que mais se destaca neste fundamento. Tem uma efetividade de 73% nos passes longos, sendo o 5º melhor do quesito na Libertadores. 

Ignacio 'Nacho' Fernandez é o principal articulador da equipe, fica atrás apenas de Éverton Ribeiro no acerto dos passes em profundidade na Libertadores, 47,6% de eficiência. Ele é o motor da equipe, uma espécie de 'Gerson do River' e um jogador com um alto grau de inteligência para controlar o ritmo da sua equipe.

Como tem uma dupla de ataque mais jovem em 2019, o River Plate ganhou mais potencial de contra-ataque. Suárez e Borré são consideravelmente mais velozes que Pratto e Scocco. Essas acelerações são constantes na retomada da bola e os passes costumam sair dos pés de Palacios e 'Nacho' Fernandez. As conduções em velocidade de De la Cruz também são uma importante arma das transições. Ele é o terceiro jogador que mais acerta dribles na Libertadores: 62,1 em média.

Nada de 'AeroRiver'! Veja como foi a saída do River para Lima


    


Como defende: muita intensidade e falhas com a linha defensiva quebrando

O River Plate tem poucos momentos em fase defensiva ao longo dos jogos. Primeiro porque, como já citado anteriormente, fica muito mais tempo com a bola no pé. E segundo em função da reação rápida ao perder a posse. A ideia de Gallardo é que seu time 'sufoque' o adversário e retome rápido a bola. Como tem quase sempre as peças bem próximas no momento ofensivo, esse trabalho fica mais facilitado. Por mais que precise de ajustes quando o adversário supera essa primeira pressão, é bem competitivo na transição defensiva. O perde e pressiona, de fato, é uma das essências do atual campeão da Libertadores.

Outro detalhe marcante é a preferência por uma marcação mais agressiva no campo de ataque. Pressiona muitas vezes com cinco jogadores a saída de bola rival. 

No geral, marcam por zona, mas seus laterais costumam ‘’desgarrar’’ da linha defensiva quando o oponente avança pelo lado. Por mais que isso garanta mais solidez na defesa da área, há liberdade muitas vezes para que os cruzamentos sejam feitos. A intensidade se mantém alta durante grande parte do tempo para os padrões sul-americanos. É um time que ‘’morde’’ o basicamente o jogo inteiro.

Se por um lado essas quebras na linha defensiva geram uma intensidade de jogo muito forte para os argentinos, por outro é um aspecto que pode ser bem explorado pelo Flamengo. Apesar de buscar compensações na linha quando ocorre um desgarre mais longo, o River acaba sofrendo com adversários que circulam a bola de primeira, tocando e projetando, atacando espaços que, por vezes, os defensores deixam para caçar. A imagem de abaixo mostra bem isso:

Lateral do River quebra a linha e lateral adversário ataca o espaço nas suas costas. Zagueiro precisa sair para fazer a cobertura
Lateral do River quebra a linha e lateral adversário ataca o espaço nas suas costas. Zagueiro precisa sair para fazer a cobertura DataESPN


Essa quebra da linha defensiva, por vezes, gera um efeito dominó que, geralmente, aparece no lado oposto da jogada. Na sequência da imagem acima, perceba como no fim da jogada, após os zagueiros cobrirem espaços deixados pelo lateral, Marquinhos Gabriel (Cruzeiro) aparece sozinho no lado esquerdo. Este é um tipo de espaço que o Flamengo pode tentar gerar e se aproveitar na final.

Jogada se desenrola e segunda trave fica livre para o Cruzeiro atacar após as seguidas quebras da linha defensiva
Jogada se desenrola e segunda trave fica livre para o Cruzeiro atacar após as seguidas quebras da linha defensiva DataESPN


Bolas paradas: o calcanhar de Aquiles do River Plate

Quem assistiu a semifinal entre Boca Juniors e River Plate pôde constatar a dificuldade que os Millionarios têm na bola parada defensiva. Mais especificamente as faltas laterais, que podem ser uma ótima arma para o Flamengo em Lima. Os adversários do time argentino costumam concluir 50% das bolas alçadas na área após faltas laterais, um número bem significativo. 

O time de Gallardo permite que metade das bolas alçadas na área desta forma sejam finalizadas, um número muito alto. O principal ponto de falha é na primeira trave, que geralmente é defendido pelo zagueiro Pinola, que possui um índice baixo de aproveitamento em duelos aéreos. Coletivamente há o problema da movimentação da linha de marcação antes da batida na bola, o que deixa lacunas e mostra um movimento um pouco descordenado. 

Há ciúmes de técnicos brasileiros com estrangeiros, diz Carille; veja


    

Neste tipo de lance o River marca por zona com sete atletas em linha, deixa dois no rebote e um na barreira. Este tem sido o padrão nos últimos meses.

Já nos escanteios defensivos, o desempenho é melhor. A equipe argentina permite que 20% dos escanteios sejam finalizados pelos rivais, um bom índice relativamente alto até. 

Neste tipo de jogada o sistema de marcação é mista, mas predominantemente individual. São seis jogadores do River marcando alvos adversários pré-determinados. Três marcando por zona, em diagonal, entre a primeira trave e a marca do pênalti. O nível de intensidade e concentração costuma ser mais alto do que nas faltas laterais. 

Na parte ofensiva, olho em De la Cruz e Nacho Gonzalez. Eles são os responsáveis pelas batidas na área de faltas laterais e escanteios. Pela qualidade neste tipo de lance acabam potencializando quem vai pra área cabecear. O River Plate fez dois de seus 15 gols na competição desta forma.

Pênaltis: como se comportam os goleiros?

Franco Armani já foi campeão da Libertadores pelo Atlético Nacional da Colômbia
Franco Armani já foi campeão da Libertadores pelo Atlético Nacional da Colômbia Getty

River Plate e Flamengo possuem dois goleiros de muita bagagem e experiência internacional. Franco Armani é o atual titular da Seleção Argentina e já venceu a Libertadores duas vezes. Diego Alves fez fama internacionalmente ao defender penalidades de Messi e Cristiano Ronaldo, além de ótimos campeonatos espanhóis nos últimos anos e convocações para a Seleção Brasileira. Se a grande final terminar empatada, os batedores precisarão estar inspirados em Lima.

Estudo das cobranças de pênaltis de Franco Armani
Estudo das cobranças de pênaltis de Franco Armani DataESPN

Considerando os últimos 12 meses, Armani e Diego têm aproveitamentos muito parecidos. A cada cinco cobranças, defendem pelo menos uma. O arqueiro rubro-negro espera a ação do batedor na maioria das vezes e até por isso acerta mais o canto. 

Observando a parte técnica de ambos neste momento atípico do jogo é curioso constatar que o que falta para um, sobra para o outro, e vice-versa. Diego Alves tem mais potência para chegar na bola, mas se ressente de mais envergadura. Já Armani tem braços mais longos, mas não é tão arrojado no ataque a bola. Não é raro vê-los acertando o canto, encostando na bola, mas realizando a defesa. Existe uma semelhança clara entre os dois neste sentido. 

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Principais Cobradores

O Flamengo tem dois jogadores que podem ser fundamentais se o título for decidido nos pênaltis. Gabriel e De Arrascaeta converteram todas as cobranças em 2019. Bruno Henrique seria a terceira opção entre os titulares, mas não tem a mesma eficiência. Tanto Bruno quanto Gabriel optam por esperar a ação do goleiro. O camisa 9 rubro-negro mostra mais paciência e poder de ilusão, tanto que geralmente espera o goleiro cair e o desloca. Já Arrascaeta é mais incisivo. Raramente olha para o goleiro. Parte pra bola de forma decisiva e busca cobranças mais altas, sempre com muita força.

Análise de batidas de Nacho Fernandez
Análise de batidas de Nacho Fernandez DataESPN

No River Plate, destaque para o atacante Borré. Geralmente ele divide as cobranças com Nacho Fernandez, mas tem mais precisão. O colombiano acertou 100% dos pênaltis em 2019. É outro que espera a ação do goleiro e o desloca, quase sempre com cobranças pelo alto, no meio do gol. Fernandez se assemelha muito a Arrascaeta. Olha pouco para o goleiro e toma a decisão independente disso. Frequentemente bate no ângulo esquerdo do adversário, sem com força. 

Análise de pênaltis de Rafael Borré
Análise de pênaltis de Rafael Borré DataESPN

A terceira opção mais utilizada entre os atuais titulares é De la Cruz. Ele também espera a ação do goleiro e varia muito o lado, assim como a força empregada na batida. Tem uma precisão parecida com a de Nacho.

Análise de batidas de De La Cruz
Análise de batidas de De La Cruz DataESPN

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Estreia de Vagner Mancini no Atlético-MG tem surpresa no meio e alguns velhos problemas

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Réver deixou a zaga para jogar como primeiro volante diante do CSA
Réver deixou a zaga para jogar como primeiro volante diante do CSA Gazeta Press

Obviamente que chega a ser leviano querer fazer alguma análise sobre o trabalho de Vagner Mancini à frente do Atlético-MG apenas pelo primeiro jogo do treinador sob o comando da equipe. Mas se tem algo a se destacar no empate por 2 a 2 contra o CSA, em Alagoas, na noite da última quarta-feira, foi uma mudança específica do comandante no meio de campo. 

Quando saiu a escalação, para muitos a ideia era manter um sistema com três zagueiros que o antigo dono do cargo, Rodrigo Santana, havia utilizado em alguns momentos. Léo Silva, Réver e Igor Rabello apareciam entre os 11. Tal escolha, inclusive, havia dado relativamente certo na partida contra o Palmeiras, fora de casa. Mas não, a ideia de Mancini era bem diferente. A função para Réver era outra.

Logo nos primeiros minutos foi bem nítido que o capitão atleticano não se colocava entre a linha defensiva, que, além dos outros dois zagueiros, tinha a presença de Guga e Fábio Santos nas laterais. Réver trabalhou como um primeiro volante, a frente da defensiva. A princípio a ideia parecia mais um 4-1-4-1, com Elias e Vinícius a frente do camisa 4. Mas com o passar dos minutos algumas variações surgiram, com Vinícius tendo menos obrigações defensivas e ficando muitas vezes ao lado de Di Santo, formando então uma espécie de 4-1-3-2. Tanto no papel quanto na atitude, o Atlético tentou o protagonismo. Não deixou de tentar atacar em momento algum. Isso, inclusive, precisa ser ressaltado apesar dos inúmeros e antigos problemas estruturais da equipe.

Mas sem dúvida a grande surpresa foi na nova função para Réver. Sempre presente entre os jogadores que ficavam na retaguarda (ou balanço defensivo) e sem grandes avanços para o campo ofensivo, a escolha pelo zagueiro de origem ali acabou dando maior liberdade para os laterais avançarem. No geral foi pelo lado direito que o Galo  conseguiu algumas boas construções com Guga, Vinícius e Luan. Apesar do gol marcado, Réver teve sim seus problemas desempenhando este novo papel.

Longe de ser um jogador com grande mobilidade, sentiu um pouco de dificuldade em algumas abordagens defensivas mais rápidas e quando precisava cobrir um espaços de campo maiores. Já experiente e consciente da função que precisava cumprir, mostrou boa noção para cuidar de espaços na entrada da área e com boa estatura, ajudou nas disputas de primeira e segunda bola. 

Mas foi a iniciação das jogadas que os alvinegros foram mais prejudicados. Réver nunca foi um zagueiro construtor, não seria jogando mais avançado que passaria a ter tal qualidade. Não comprometeu neste sentido, mas foi um obstáculo para que a equipe saísse mais limpa do seu campo. A ponto de Vinícius, por vários momentos, ter que baixar bastante no campo para buscar a bola do trio de defensores. 

O meia, aliás, apesar da expulsão, teve uma atuação destacável. Muito proativo, buscou abrir linhas de passe, circular a bola e ainda teve chegadas ofensivas importantes, pisando na área ou mesmo finalizando com perigo de fora. Elias, por vezes, também acabou trabalhando mais recuado, longe da área e das suas habituais infiltrações. Sem dúvidas a construção segue sendo um desafio para este Atlético-MG - e para boa parte das equipes no Campeonato Brasileiro.

O time teve bastante dificuldades, principalmente no primeiro tempo, para levar a bola até o terço final com qualidade. Quando fazia, pecava nas escolhas. Muitos erros de passes, decisões erradas e uma nítida dificuldade em desenvolver movimentos coordenados para quebrar a marcação alagoana. Claramente os atletas não se sentiram à vontade com a posse, jogando de uma maneira pouco natural. Não faltou atitude, faltou fluidez no jogo atleticano.

O segundo tempo foi mais de controle do Galo, que aproveitou a queda de intensidade do CSA e tomou as rédias do jogo. A equipe, mesmo com um jogador a menos, teve uma abordagem agressiva até o fim e conseguiu até virar o jogo no Rei Pelé - campo sempre muito difícil de se jogar. Por outro lado, é legítima a preocupação do atleticano com relação ao rebaixamento. Claro que a distância ainda é bem significativa, mas o histórico recente de desempenho é bastante frágil e causa esse pé atrás. 

E tudo isso não se trata de Oswaldo, Santana ou mesmo agora de Mancini. Mas de um conjunto de escolhas e decisões recentes no clube. 

A gestão técnica do Galo nos últimos anos é bem questionável. Desde a escolha dos nomes para comandar a equipe até a enxurrada de demissões de treinadores que o clube tem em sua conta. "Erra" na entrada e "erra" na saída ("erra" porque a palavra certa neste contexto é imprópria). E o Clube Atlético Mineiro vai, ano a ano, empurrando com a barriga seu futebol, indo do céu ao inferno em cada escolha. Sem uma ideia clara, sem um norte para seguir... E esse tipo de caminho é bastante perigoso.

Fonte: Renato Rodrigues

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Por que o Corinthians pós-Copa América ataca mais os adversários?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Carille ainda busca o equilíbrio necessário para o Corinthians
Carille ainda busca o equilíbrio necessário para o Corinthians Gazeta Press

A temporada 2019 tem sido de muita oscilação para Fábio Carille e seus comandados no Corinthians. Entre atuações consistentes e jogos bem ruins, o time, nesta altura do ano, se vê vivo em duas frentes: Campeonato Brasileiro e Copa Sul-Americana (obviamente, com maior chances de título na segunda). Mas também é inegável que a equipe deu alguns passos adiante após a parada para a Copa América. Apesar dos jogos contra Fluminense e Avaí abaixo do esperado, é bastante nítido que os alvinegros têm buscado um maior protagonismo nos jogos, atacando mais, sendo mais presente no campo ofensivo.

Tal mudança, no entanto, tem muito a ver com algo estrutural na equipe: a quantidade de jogadores atacando ao mesmo tempo quando a equipe está com a bola. Em um jogo bastante franco e equilibrado contra o Atlético-MG, no último domingo, onde o resultado de 1 a 0 poderia ter acontecido para ambos os lados, essa maior veia ofensiva foi novamente vista. Inclusive, foi ela que acabou cedendo alguns espaços ao Galo, principalmente nos contra-ataques.

Mas vamos lá tentar explicar essas modificações na estrutura alvinegra que, de fato, tem deixado a equipe mais "solta".

Carille tem uma linha de trabalho bastante clara. Acredita em um modelo de jogo bem característico, algo que vem de toda sua formação como treinador de futebol. Cria de Tite e Mano Menezes - que foram os técnicos com quem o comandante do Timão mais trabalhou em quase uma década como auxiliar fixo -, Fábio não abre mão de um time organizado, bem distribuído por zonas e, principalmente, do controle das partidas, seja com ou sem a posse da bola.

Com isso, se mostra sempre em busca do equilíbrio entre as fases ofensiva e defensiva. Nem que isso esteja relacionado a não assumir tantos riscos dentro de um confronto. Essa linha de evitar exposições mais abruptas acompanha o treinador corintiano e faz, muitas vezes, com que o mesmo acabe ganhando uma reputação mais defensiva. Só que a necessidade e a cobrança por um Corinthians mais agressivo e presente no ataque fez o treinador buscar ajustes na equipe.

Hoje é possível ver o Timão "atacando com mais gente" em seu momento ofensivo. Quando se instala no campo do adversário com a posse da bola, fica claro notar o maior número de jogadores dentro ou próximo do terço final do campo. Veja na imagem abaixo como Fágner e Danilo Avelar (laterais) já atacam ao mesmo tempo. Júnior Urso (segundo homem de meio) também busca uma faixa avançada do campo e o trio Gil, Manoel e Ralf são os mais recuados e formam o balanço defensivo (que nada mais é que a retaguarda, a estrutura que, apesar do time atacar, está ali posicionada estrategicamente para defender).

Neste momento é Fagner quem cruza pela direita. Note, abaixo da imagem, Danilo Avelar atacando a segunda trave com Junior Urso também chegando na área
Neste momento é Fagner quem cruza pela direita. Note, abaixo da imagem, Danilo Avelar atacando a segunda trave com Junior Urso também chegando na área Reprodução: TV Globo

A próxima imagem também mostra que o Corinthians não abriu mão de uma saída de bola mais sustentada (com toda linha defensiva formada), sem se arriscar muito dentro do seu próprio campo. A presença de Gabriel no lugar de Ralf nos últimos jogos também qualificou essa iniciação, dando passes mais verticais e encontrando melhor seus companheiros avançados. Mas a imagem acima, por outro lado, pega um exato momento em que Fagner avança para um cruzamento e Danilo Avelar ataca a área para tentar finalizar, algo bem recorrente por conta da sua boa estatura e imposição física. Enquanto não avança totalmente seu bloco, um destes laterais, por sua vez, ainda mostram cautela e se posicionam mais centralizados para tentar ganhar rebotes ou matar contra-ataques. Certamente Carille criou alguns gatilhos para ambos entenderem o momento certo de avançarem ao mesmo tempo, algo que exige uma leitura complexa dos atletas.

Veja como o Corinthians ainda inicia suas jogadas de forma precavida, mantendo sua linha defensiva toda na altura da bola
Veja como o Corinthians ainda inicia suas jogadas de forma precavida, mantendo sua linha defensiva toda na altura da bola Reprodução: TV Globo

Outro padrão bem claro nessa mudança de ares no Corinthians tem a ver com o número de bolas que a equipe tem conseguido recuperar ainda no campo ofensivo. Mais condicionados e encorajados a fazer a pressão pós-perda próximos à área dos adversários, os alvinegros têm conseguido, por vezes, emplacar boas sequências no campo rival, construindo, perdendo, recuperando e tentando construir novamente.

Mas a grande chave de toda essa discussão ainda se dá na palavra construção. Apesar da notória melhora, o Timão ainda não tem total fluidez e naturalidade em seus movimentos ofensivos. Aliás, por isso ainda oscila tanto desempenho na temporada, inclusive neste período em que deu passos importantes. Falta ainda à equipe mais movimentos de rupturas, infiltrações e trabalho sem bola de quem não está com ela eu seu domínio. O time, por vezes, se parece mais estático e pena à gerar espaços e desequilíbrios defensivos em seus rivais. 

O ônus da maior ousadia

O conceito de que o futebol é feito por escolhas e que elas lhe trazem ganhos e perdas se encaixa totalmente nesta abordagem mais ofensiva do Corinthians. O tal "cobertor curto" ficou bastante evidente no duelo contra o Atlético-MG, por exemplo. Quando escolhe colocar mais gente à frente da linha da bola, Carille, por sua vez, expõem mais sua equipe, principalmente em transições defensivas.

E o Galo conseguiu explorar bem estes espaços em alguns momentos. Usou bem a aproximação e toques rápidos para tirar a bola da pressão imediata do Corinthians, ganhando metros e campo aberto para conduzir a bola em velocidade. Se não fossem os erros no acabamento das jogadas, seja no penúltimo ou antepenúltimo toque, a equipe mineira poderia ter tido mais sorte no duelo da Arena Corinthians. 

Como sempre apontamos por aqui, uma equipe de futebol é um organismo vivo, exposta à mudanças a todo o momento. Então agora a busca de Fábio Carille vai ser pelo equilíbrio do time nestes momentos. Ajustes e mecanismos precisarão ser encontrados para neutralizar estas situações. Assim como problemas surgirão a cada rodada, a capacidade do treinador de encontrar e executar respostas estará à prova. 

A verdade e talvez o fato a ser elogiado, no entanto, é a inquietude de Fábio Carille. A busca por respostas enquanto o Corinthians não consegue atingir um nível mair de consistência é bastante evidente. Existe uma linha bastante tênue entre acreditar em suas convicções e estagnar uma carreira (e uma equipe de futebol) em cima de certezas que já não são plausíveis. O comandante corintiano tem tentado se equilibrar sob este dilema.


Fonte: Renato Rodrigues

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Por que o Corinthians pós-Copa América ataca mais os adversários?

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Velocidade e mobilidade: Mano 'ataca' linha defensiva do Galo e Cruzeiro controla a ida em Minas

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Mano Menezes conseguiu encaixar bem estratégia contra o Galo
Mano Menezes conseguiu encaixar bem estratégia contra o Galo Washington Alves / Cruzeiro

É praticamente unanimidade que confrontos de mata-mata são quase sempre decididos por detalhes. E se você somar isso a um clássico de grande importância no cenário nacional? Certamente estes aspectos, muitas vezes até pouco perceptíveis dentro de campo, acabam por ser ainda mais determinantes. A vitória do Cruzeiro sobre o Atlético-MG, por 3 a 0, pelo jogo de ida das quartas de final da Copa do Brasil, no Mineirão, na noite desta quinta-feira, acaba por reforçar um pouco mais estes jargões.

Antes da parada para a Copa América os rivais viviam mundos completamente diferentes. Enquanto a parte azul de Minas Gerais passava por uma grande inconsistência dentro de campo com nove partidas sem vencer (e turbulências administrativas da sua diretoria fora das quatro linhas), o Galo via um trabalho em franco crescimento e, principalmente, a afirmação de seu treinador Rodrigo Santana, antes apenas interino. 

Mas foi de Mano Menezes que veio talvez a mudança mais crucial para o andamento do jogo. Um adendo estratégico que, de fato, não só surpreendeu os alvinegros, mas também lhe deu condições de construir um placar importante para o jogo de volta, marcado para o próximo dia 17, no Independência.


Pedro Rocha no lugar de Fred: mudança para acelerar pra cima da linha defensiva do Galo

Quem olhou para a escalação do Cruzeiro antes do jogo, considerando o mau momento dentro de campo que a equipe vivia, destacou ali somente uma mudança mais significante: sai Fred, artilheiro da equipe do ano, entra Pedro Rocha, jogador com características totalmente diferentes e, inclusive, que costuma ocupar faixas do campo bem distintas do centroavante titular. Mas a ideia foi mesmo mexer com a estrutura atleticana. E funcionou (veja abaixo o mapa de posicionamento médio dos jogadores da Raposa e as interações entre eles).

No mapa abaixo, perceba como Pedro Rocha jogou mais adiantado e que Marquinhos Gabriel e Thiago Neves ajudaram na profundidade da equipe
No mapa abaixo, perceba como Pedro Rocha jogou mais adiantado e que Marquinhos Gabriel e Thiago Neves ajudaram na profundidade da equipe ESPN Trumedia

Como bem explicou o próprio Pedro Rocha, autor de um gol e uma assistência na primeira etapa, na saída para o intervalo, seu treinador chegou à conclusão que faltava mais mobilidade e, principalmente velocidade à equipe no terço final. Se levarmos em conta que a linha defensiva do Atlético-MG não é das mais velozes, principalmente com Réver e Igor Rabello compondo a dupla de zaga, tal ideia fazia ainda mais sentido. 

A estratégia para iniciar o jogo era justamente tirar Pedro da referência, fazê-lo rodar por outros setores para a entrada de jogadores como Robinho, Marquinhos Gabriel e, principalmente Thiago Neves, atuando atrás do centroavante (neste caso um falso 9, veja suas ações no mapa abaixo). Estes movimentos eram bem nítidos nos primeiros minutos de jogo. Tanto que o primeiro gol sai com o camisa 32 sai de um chute de fora da área (aliás, um golaço após cortar a marcação de Elias e acertar o ângulo de Vitor). 

Mapa mostra as ações de Pedro Rocha no jogo atuando como falso 9. Muita mobilidade do atacante
Mapa mostra as ações de Pedro Rocha no jogo atuando como falso 9. Muita mobilidade do atacante ESPN Trumedia

Mas a ideia vinha a ser ainda mais potencializada à partir deste primeiro gol. Com o Atlético saindo mais para o jogo, Pedro Rocha ficou sempre posicionado no limite do campo, bem em cima da linha defensiva. Por vezes era Thiago Neves que baixava um pouquinho mais a marcação no 4-4-2 do Cruzeiro em fase defensiva. Ali ficou bem clara a percepção de Mano sobre a fluidez da sua equipe durante as transições ofensivas antes da parada. Com Fred, Thiago Neves, Henrique, Cabral (que iniciou o clássico) e até mesmo Robinho, que se trata de um meia mais construtor, a Raposa praticamente não tinha força para avançar o campo com velocidade. Com o ex-gremista em campo se equilibrava um pouco estas características.

É bem verdade que o segundo gol sai muito por conta de um erro de passe entre Réver e José Wellison, mas dificilmente tal lance seria protagonizado por Fred, por exemplo. Nem mesmo Thiago Neves teria velocidade suficiente para arrancar e deixar Igor Rabello para trás como fez Pedro Rocha. E, de fato, o jogo mudou após a vantagem por dois gols. Tudo foi condicionado.


Bom início do Galo e boas investidas pela esquerda poderiam ter dado outro rumo ao jogo

Alerrandro foi muito prejudicado pela dificuldade do Galo para atacar
Alerrandro foi muito prejudicado pela dificuldade do Galo para atacar Divulgação

Apesar do baque sofrido com os dois gols do Cruzeiro na primeira etapa, o Atlético-MG não iniciou o clássico tão mal como parece. Ao contrário, fez 10 minutos fortes e que poderiam ter sido melhor aproveitados, principalmente no acabamento das jogadas. Com Luan jogando mais centralizado na linha de meias do 4-2-3-1 escalado por Rodrigo Santana, o jogo passou muito pelo lado esquerdo atleticano. Com o sempre muito procurado Cazares por ali, somando-se às companhias de Fábio Santos e às vezes até o próprio Luan encostando, o Galo criou dificuldades para cima de Romero, que inclusive fez grande jogo.

Como Robinho por vezes não baixava tanto a marcação, o volante/lateral-direito se viu no 2 contra 1 em alguns momentos e o Atlético-MG chegou a criar alguns perigos por ali. De fato, faltou um acabamento melhor destas situações. Principalmente porque Alerrandro ficou praticamente fora do jogo. Não por sua vontade, já que o mesmo até tentava sair um pouco da área para tentar gerar jogo, mas por incapacidade da equipe de levar a bola até o centroavante. No geral, foram bem poucos os momentos que os alvinegros conseguiram de fato infiltrar ou mesmo ter ações relevantes dentro da área do seu grande rival (veja abaixo o mapa das poucas ações do jovem centroavante atleticano).

No mapa de ações abaixo, veja a pouca participação de Alerrandro. Apenas um toque dentro da área
No mapa de ações abaixo, veja a pouca participação de Alerrandro. Apenas um toque dentro da área ESPN Trumedia

Apesar da entrada de Ótero no segundo tempo, jogando Cazares para atuar por dentro, o Atlético-MG seguiu com muitas dificuldades para atacar a área do Cruzeiro. Dominou a posse de bola, mas teve dificuldades para combinar jogadas efetivas no entorno da área. Problema, inclusive, já demonstrado em partes de algumas atuações antes mesmo da parada para a Copa América. Sem dúvida um ponto importante para Rodrigo Santana desenvolver até o jogo de volta. Já que o Galo vai precisar reverter uma vantagem grande.


Gols que condicionam jogo e controle retomado pelo Cruzeiro

Talvez a grande diferença do futebol para outros esportes coletivos seja exatamente pela frequência que seu lance chave (o gol) acontece. Se no basquete a grande maioria das bandejas ou chutes de três não mudam totalmente a história de um jogo e no vôlei muitas cortadas que constroem os placares passam despercebidas, no futebol colocar ou não a bola dentro da casinha muda tudo. E não só para seu time, mas principalmente para o seu adversário. E foi assim, com uma estratégia bem programada, que o Cruzeiro viu seu jogo crescer dentro do Mineirão.

Longe de serem jogadas bem construídas, os dois primeiros da Raposa vieram sim de decisões de Mano Menezes. Não só em colocar Pedro Rocha, mas de saber usá-lo em determinados cenários.  A partir da vantagem, ficou clara a proposta do Cruzeiro em esperar esperar mais o Atlético-MG. Se colocando numa situação bem confortável dentro do modelo de jogo praticado por seu treinador, sempre muito competente em controlar partidas cuidando dos espaços e defendendo sua própria área.

Mas o grande mérito aí não está só em se defender. Algo que, inclusive, a equipe não vinha fazendo bem nas suas últimas apresentações. Mas sim em apresentar um repertório mais vasto quando retomava a posse da bola. Se juntando à Pedro Rocha, Marquinhos Gabriel passou ser peça importante da equipe durante as transições. Com ambos conduzindo em velocidade, os cruzeirenses criaram chances importantes, principalmente no segundo tempo, quando conseguiu ainda seu terceiro gol.

Se defender e contra-atacar é uma proposta legítima, mesmo que você não goste de assistir. Mas a necessidade de completar as duas fases com êxito nem sempre é respeitada. Se faltar um ou outro, nada feito. Se ainda não atingiu seu máximo, ou mesmo um nível já atingido durante esta temporada, o Cruzeiro já demonstrou evolução dentro do que se propõem fazer com o seu jogo. O bom nível de concentração, a compactação e as coberturas bem alinhadas prevaleceram.

Obviamente que o futebol precisa ser respeitado. Neste espaço, aliás, não se fala de vitórias ou classificações antes mesmo delas serem jogadas. Mas, sem dúvida alguma, o Cruzeiro se coloca numa situação bem favorável para passar a diante na Copa do Brasil. O Atlético-MG, por sua vez, não pode novamente abrir mão de um processo em curso por resultados pontuais. São erros que, definitivamente, não podem ser repetidos. Existe um trabalho, algo sendo bem feito ali. Independente de uma eliminação. Lições importantes podem ser tiradas do clássico. Inclusive para o próximo que resolve a classificação.  

Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Os desafios de Eduardo Barroca para "alavancar" o Botafogo durante a pausa para a Copa América

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Eduardo Barroca tem trabalho pela frente e pode melhorar ainda mais o Botafogo
Eduardo Barroca tem trabalho pela frente e pode melhorar ainda mais o Botafogo Vitor Silva/Botafogo

Não há quem questione a campanha do Botafogo até agora no atual Campeonato Brasileiro. Independentemente da derrota para o Grêmio (0 a 1), dentro de casa, nesta quarta-feira, Eduardo Barroca deu novos ares ao alvinegro carioca não só em resultados, mas  elevando desempenho e criando, mesmo que longe de sua totalidade, uma identidade para a equipe que vivia tempos de muita incerteza. Do nada veio uma forma de jogar, uma ideia, um norte...

Com um trabalho que ainda sequer completou três meses, o jovem e promissor treinador tenta, a todo custo, jogar a partir do controle da posse. Pede para que a equipe circule a bola, sempre cobrando que os atletas busquem triangulações e o máximo de linhas de passe por todo campo. Neste sentido é perceptível que equipe demonstrou grandes avanços, com gols bem construídos e um aumento significativo na posse de bola. 

Mas ainda há muito a se desenvolver. 

E talvez a grande questão para o Botafogo atingir novos patamares competitivos envolve a chegada da equipe no terço ofensivo do campo. Com um time titular mais pesado do meio de campo para frente, principalmente pelas presenças de Cícero, João Paulo e Diego Souza, a equipe sofre um tanto nas transições ofensivas. Nem mesmo a velocidade de Erik e as boas conduções/infiltrações de Alex Santana garantem a verticalidade que o jogo pede em alguns momentos. No duelo contra o Tricolor isso ficou bastante evidente.

Por vezes o Botafogo conseguiu recuperar a bola em momentos de pressão mais baixa e com o bloco defensivo um pouco mais recolhido. Teve êxotp, num primeiro momento, nas tentativas de aceleração.  Mas faltou, além de peças de velocidade, uma chegada mais rápida de opções para quem conduzia a bola. Em um lance bem explorado com Alex Santana, ainda no primeiro tempo, essa tônica ficou bastante clara: time baixa a marcação e a bola é recuperada. O passe mais vertical entra perfeitamente, mas o meio-campista acaba precisando retardar a jogada, diminuir suas passada. Justamente para esperar companheiros chegarem na linha da bola. Um lance promissor, mas que não deu em nada.

A grande referência de  velocidade deste Botafogo é  Erik (que faz mais um excelente ano em General Severiano, aliás). Mas esse escape tende a ficar cada vez mais "cantado". Com os adversários tirando essa saída botafoguense, o time acaba necessitando de mais opções desse perfil - talvez esteja aí um dos grandes desafios para a janela de transferências que vai se abrir.  

Luiz Fernando, o outro ponta aberto do 4-3-3 de Barroca, apesar de não ser um jogador lento, tem mais características de meia. Até por isso, tende sempre a sair do lado para se associar por dentro, centralizando um pouco suas jogadas. Diego Souza, apesar de usar bem o corpo para reter a bola em alguns momentos, sofre também com a falta de apoios em saídas mais rápidas.  E, por mais que a proposta seja jogar com o controle da posse, o jogo vai pedir situações mais agudas. Isso é inevitável.

Outro ponto que também tem a ver com essa falta de velocidade e que o Botafogo pode evoluir é na passagem da transição para a fase ofensiva. 

É uma equipe que se propõem a ter controle da posse, mas que em vários momentos demora a "viajar com bola". Conceito muito usado no futebol espanhol, o tal viajar com a bola ou viajar juntos, nada mais é que o time conseguir sair de trás acompanhando a linha da bola. Progredir em campo com o bloco compacto, com jogadores próximos e em sincronia. 

Vale ressaltar que não se trata de um mecanismo tão simples assim. Até por isso, seria até leviano cobrar tal fluidez do Botafogo com tão pouco tempo de trabalho até aqui. Mas, de fato, é algo que claramente pode ser ajustado e ganhar evolução com base nos treinamentos. Principalmente por se tratar de um conceito muito explorado por equipes que buscam este tipo de modelo.

Sem a posse, principalmente no duelo contra o Grêmio, chamou muito a atenção à falta de pressão na bola em vários momentos. Tal deficiência fez com que os gaúchos tivessem controle da mesma por bons períodos, circulando e rodeando a área alvinegra. Dando até a impressão de que a estratégia para a partida podia ser de esperar um pouco mais o adversário, fugindo do que vem sendo tentado até aqui pelo treinador.

Obviamente que essa falta de agressividade sem a bola também pode ter muito a ver com o momento da temporada que vivemos. Por conta das longas maratonas de jogos em sequência, dá para se perceber uma queda de intensidade de várias equipes nesta reta final antes de Copa América. O jogo no Nilton Santos, aliás, teve de um caráter mais pausado.  Mesmo assim, talvez este tenha sido um dos grandes problemas para os cariocas não alcançarem um melhor resultado contra um Grêmio totalmente desfalcado.

Por fim, ainda em transição/fase defensiva, o Botafogo pode crescer no quesito compactação. Este aspecto, aliás, já foi pontuado pelo próprio treinador da equipe em entrevistas recentes e certamente será um ponto a ser trabalhado nesta pausa. Por vezes é possível ver um espaço considerável entre os setores, principalmente quando a primeira (Diego Souza) e a segunda linha (Erik, João Paulo, Alex Santana e Luiz Fernando) avançam um pouco mais no campo para tentar uma pressão mais alta. Com isso, os adversários tentam sempre buscar a bola exatamente nas costas dessa linha de quatro, deixando Cícero - o 1º volante à frente da linha defensiva  - em uma situação desconfortável. 

Vale ressaltar que esse tripé ainda tem João Paulo (também mais posicional e passador, porém menos agressivo) e Alex Santana. Ou seja, falta no setor, em alguns momentos, mais imposição e intensidade. Se levarmos em conta que a linha defensiva também não é das mais rápidas, chega até a ser um pouco arriscado mantê-la um pouco mais alta. Por isso a importância dessa agressividade no meio. Justamente para não deixar Carli & Cia. em situações de mano a mano em velocidade.

É muito importante ressaltar que o desafio assumido por Eduardo Barroca assumiu não era, não é e nem será fácil. Apesar de todas as dificuldades (elenco, problemas financeiros, de estrutura...), trata-se de um trabalho muito promissor e que entrega até mais do que se imaginava num primeiro momento. Mais que isso, é um jogo jogado com ideias. Traz consigo aspectos que acrescentam na diversidade de ideias que por vezes falta ao nosso futebol. Independente de gosto ou certo/errado, o comandante alvinegro tem um norte bem claro e que pode atingir maiores patamares.

E isso, de verdade, já é algo bem louvável. Certamente que Eduardo Barroca e sua comissão técnica já chegaram a estes diagnósticos e esperam ansiosamente por este período mais longo de treinamentos. Com tempo, trabalho e tranquilidade para introduzir ainda mais consistência ao seu modelo de jogo, tem tudo para fazer uma boa segunda parte de Campeonato Brasileiro. Afinal, treino é jogo e jogo é treino.

  


Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Pragmático ou controlador? Sob constante desconfiança, Portugal ergue mais uma taça europeia

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Fernando Santos, chegou a mais um título com Portugal
Fernando Santos, chegou a mais um título com Portugal Getty

"Ser pragmático é ser prático, é ter objetivos definidos, é fugir do improviso. O pragmático se baseia na lógica, no conceito de que as ideias e atos só são verdadeiros se servirem para a solução imediata de seus problemas". 

Eis uma das definições mais fáceis de serem compreendidas sobre um termo tão usado no futebol, principalmente aqui no Brasil para, normalmente, criticar a forma de jogar dessa ou daquela equipe. Quase sempre trata-se de uma expressão sempre usada de forma pejorativa, inclusive.

Dizer que Portugal, atual campeão da Eurocopa (de 2016), e agora vencedor da primeira Uefa Nations League, pratica um jogo um tanto pragmático não é errado. Talvez erramos apenas em ter essa palavra sempre com uma conotação negativa no esporte. A explicação acima, em alto e bom som, deixa claro que não se trata só de algo totalmente ruim como muitos de nós pensamos. 

É de fato uma discussão complexa. E que também não tira a legitimidade dos questionamentos do quão Fernando Santos e a atual geração portuguesa poderiam entregar mais em desempenho, principalmente quando tem consigo a posse da bola. Aliás, trata-se de uma discussão bem legítima. A inconstância e as vitórias no "susto", em vários momentos, devem ser postas à mesa também.

Por outro lado, não podemos simplesmente desvalorizar o que é feito até aqui. Principalmente sob a ótica do controle, algo muito nítido na final contra a boa e renovada Holanda de Ronald Koeman. Então, sim, Portugal é uma equipe pragmática. Mas, acima de tudo, foi totalmente controladora dentro do terreno de jogo durante a final - algo que faltou bastante contra a Suíça, por exemplo. Quando a solidez defensiva não foi tão evidente.

E foi com um bom punhado de cada um destes termos que Fernando Santos levou sua equipe a mais uma taça importante a nível europeu. Controle para, sem a bola na maior parte do tempo, neutralizar as investidas holandesas, e pragmatismo para ser letal e objetivo dentro do seu plano/modelo de jogo.

Vale ressaltar que, quando falamos em controle, não se trata apenas de ter ou não a bola. Dentro de uma leitura mais conceitual do jogo, ter o manejo de uma partida sob suas mãos não se limita apenas à posse. Vai muito além disso. E Portugal, acima de tudo, demonstrou uma capacidade brutal de gerenciar espaços em seu campo defensivo contra a Holanda. Na Nations, numa média geral, teve 46,8% de posse de bola.

Não é de hoje que os passos portugueses à feitos importantes são direcionados pela sua solidez defensiva. Independentemente do sistema utilizado - contra a Holanda, Santos iniciou com mudanças e apostando no 4-3-3 -, Portugal se sente totalmente confortável sem a bola. Direciona o jogo através de induções e sofre pouco. Trata-se de uma equipe extremamente madura sem a posse, com coberturas e zonas de campo bem definidas, com um nível de concentração altíssimo e com grande competência para defender sua área.

Existe sim, de certo modo, uma demonização do jogo mais defensivo. Um puro achismo de que não existe qualquer complexidade para se atingir tal patamar sem a bola. Criar e atacar, de fato, me parece mais intrigante, principalmente de necessidade de maior tempo de trabalho e entrosamento. Mas defender, criar mecanismos intransponíveis, também tem suas dificuldades.

Portugal pressiona o lado da bola: coberturas bem alinhadas e muita concentração impedem a Holanda de avançar
Portugal pressiona o lado da bola: coberturas bem alinhadas e muita concentração impedem a Holanda de avançar DataESPN

Na imagem acima vemos um bom exemplo disso. Toda uma compactação lateral bem sustentada. Posicionamento corporal impecável e coberturas todas encaixadas. É praticamente impossível progredir em campo diante de tamanha organização. Não resta nada além de circular a bola para trás, com apoios de maior segurança. Essa, inclusive, foi a tônica de grande parte do jogo: holandeses com posse lateral, circulando a bola em seu campo entre zagueiros e laterais.

Outro ponto bem positivo dos portugueses em fase defensiva é o entendimento apurado para subir ou baixar pressão. É uma equipe que, em grande parte do tempo, defende num bloco defensivo mais médio. Tenta subir pressão em alguns momentos, mas sem correr grandes riscos. Até por isso, não sobe muito sua linha defensiva nestes momentos. Prefere se descompactar por alguns momentos, mas mantém sua linha defensiva com menos campo à suas costas. Este, inclusive, é um dos pontos que mais mostram tal pragmatismo de Fernando Santos. Outros treinadores, adeptos dessa pressão mais alta, a fazem subindo todo bloco, tentando manter maior compactação, mas por outro lado, dando mais campo para o adversário atacar as costas dos zagueiros.

Sem dúvida alguma, um dos pontos altos desta seleção portuguesa é a organização de sua linha defensiva. Contra a Holanda, em grande parte do jogo, foi até bonito de ver tamanha sincronia de movimentos dos quatro defensores. Seja nas corridas para trás quando o adversário tinha a bola sem ninguém pressionar, nas subidas para encurtar o campo ou mesmo nas flutuações, fechando bem o lado do campo, enquanto os holandeses circulavam a posse em campo ofensivo. A ordem de manter a linha de 4 sempre sustentada é clara. E dá mais uma dose à rigidez que Fernando Santos busca nessa marcação por zona com poucas quebras e perseguições.

Toda essa precisão para controlar espaços defensivos levou os portugueses a números bastante relevantes duranta a disputa da Nations. E não é o número de quatro gols sofridos em seis jogos que chama a atenção. Vale a pena ressaltar um outro dado: Portugal permitiu apenas 15 arremates em sua meta durante toda a campanha. Uma média bastante baixa e que mostra como o bom Rui Patrício, mesmo tendo sido importante na campanha, foi pouco incomodado. 

Essa capacidade de defender sua área também foi bem explícita durante as transições defensivas. Nos poucos contra-ataques/ataques-rápidos que levou dos holandeses, teve muita competência para preencher o centro e colecionar rebatidas para longe de sua "baliza". A imagem abaixo mostra isso bem claramente. Perceba que, mesmo em recomposição e com um número relevante de adversários chegando na sua área, os lusitanos se preocupam prioritariamente em defender o centro da área, zona onde as chances de se levar um gol é muito maior.

Holanda escapa e pega Portugal desorganizado. Defensores fecham o centro da área
Holanda escapa e pega Portugal desorganizado. Defensores fecham o centro da área DataESPN

Vale ressaltar, em dimensões defensivas, o grande trabalho de Gonçalo Guedes na final. Autor do gol, o jovem ponteiro mostrou uma resistência física surreal. Além de ser um dos escapes nas saídas rápidas pós-recuperação da bola, baixou a marcação com muita agressividade, sendo muito exigido nas ações defensivas. Bernardo Silva, pelo lado direito, por exemplo, foi menos exigido e teve maior liberdade para se manter mais avançado no campo.

Mas a máquina de defender de Fernando Santos também precisa ter saídas quando tem a bola em seus pés. E é talvez neste sentido que o treinador mais sofra críticas - repito, bastante legítimas a meu ver. O pragmatismo português entra em cena a partir do momento em que a posse é retomada. Padrões bem claros, mas pouco repertório para um jogo extramente vertical, pautada em transições e ataques rápidos.

E essa verticalização do jogo tem muito a ver com as ações logo após a recuperação da bola. O padrão claro é de ganhar profundidade, avançar no campo, o mais rápido possível. Inclusive com uma ligação mais direta. Por isso é sempre importante ter jogadores atacando a linha defensiva adversária, principalmente com a mesma mais alta. Cristiano Ronaldo, o que não é novidade para ninguém, é um grande especialista nisso. A imagem abaixo ilustra bem essa situação.

Portugal recupera a posse e já ataca a linha defensiva da Holanda. CR7 recebe em profundidade
Portugal recupera a posse e já ataca a linha defensiva da Holanda. CR7 recebe em profundidade DataESPN

Longe de ser uma equipe com circulações de bola longas, Portugal tenta resolver tudo o mais rápido possível. Mesmo que isso lhe traga mais erros, mais passes arriscados, mais bolas nos espaços vazios... Independente de certo/errado ou bonito/feio, trata-se de uma escolha de Fernando Santos. A forma como o treinador entende ser mais fácil para atingir seus objetivos.

Contra a Holanda grande destaque individual também para Bernardo Silva. O meia-atacante do Manchester City foi crucial no volume ofensivo de sua equipe. Escalado a princípio como um ponta-direita, teve total liberdade para circular por todo campo e explorar, principalmente, as costas dos volantes holandeses. Ali, recebia a bola, já direcionava o domínio e acelerava tentando acionar as infiltrações de Guedes, Cristiano e Bruno Fernandes (este, aliás, trocando de posição com Bernardo em vários momentos, como vemos na imagem abaixo).

Portugal com a bola: Bernardo Silva vai para o centro, se projeta no espaço entrelinhas e Bruno Fernandes abre pela direita
Portugal com a bola: Bernardo Silva vai para o centro, se projeta no espaço entrelinhas e Bruno Fernandes abre pela direita DataESPN

Se olharmos com uma visão mais macro dos últimos anos de Portugal, essa falta de repertório com a bola virou problema em vários momentos. Talvez seja aí o passo tão esperado para a seleção de Fernando Santos. Contra o Irã, na última Copa do Mundo, isso foi bem nítido. Afinal, quando enfrenta equipes que claramente abdicam da posse, os lusitanos sentem do próprio veneno e não conseguem furar os bloqueios justamente por não ter um grande acervo de jogadas combinadas e circulações mais criativas.

Todas estas reflexões acima vão de encontro com a necessidade de rótulo que temos para quase tudo na vida. O futebol, definitivamente, não foge disso. Existem inúmeros maneiras de ganhar e perder, de jogar bem ou mal, de ser campeão ou último colocado... A questão é entender o quanto as suas chances aumentam ou diminuem após determinadas escolhas. O pragmatismo que sobra em alguns, falta a outros em alguns momentos. Dentro da dinâmica do futebol, se adaptar, entender o contexto atual, é imprescindível. 

Portugal tem seus méritos e problemas, como qualquer equipe de futebol, seja ela vitoriosa ou não. Cabe a nós enaltecer os aspectos positivos e problematizar os negativos. No fim das contas, as grandes equipes da história são, acima de tudo, equilibradas.

Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Pragmático ou controlador? Sob constante desconfiança, Portugal ergue mais uma taça europeia

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O Flamengo da "meia estratégia" sucumbe mais uma vez. O da emoção pode trazer lições preciosas

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Rodrigo Caio festeja gol da virada no Maracanã
Rodrigo Caio festeja gol da virada no Maracanã gazeta press

Não são de hoje as reclamações acerca do desempenho do Flamengo sob o comando de Abel Braga. No melhor estilo montanha-russa, os rubro-negros foram do céu ao inferno em 45  minutos. "Viraram uma virada" no Maracanã, mas, apesar de tudo, demonstraram deficiências antigas na vitória por 3 a 2 contra o bom Athletico Paranaense que, apesar de usar reservas em campo, fez um jogo bastante consistente longe de Curitiba. 

No fim das contas, trata-se de uma partida muito difícil de ser analisada. O sentimento para muitos rubro-negros foi de superação,  de emoção, de uma remontada heroica... Mas a razão pode nos mostrar pontos importantes para serem discutidos. Lições que precisam ser absorvidas por Abel, Gabriel, Diego & Cia. Deficiências que precisam ser sanadas na busca por coisas maiores.

A vitória foi importantíssima para se manter no bolo de cima da classificação do Campeonato Brasileiro. Isso ninguém nega. Mas expôs um dos principais problemas deste atual Flamengo: a incapacidade de, em vários momentos, não conseguir cumprir sua estratégia de forma completa. Afinal, qualquer ação traz uma reação. E com ela, é preciso resolver problemas dentro de campo, ser capaz de se adaptar inteiramente ao que está sendo proposto. 

Explico.

A ideia dos flamenguistas na primeira etapa foi subir jogadores para pressionar a saída de bola dos paranaenses. Por vários momentos conseguiu recuperar bolas e acelerar em direção a Santos, que fez algumas boas defesas. O pênalti convertido por Gabriel, foi fruto de um erro do lateral-direito Madson, um dos bons momentos que o Flamengo conseguiu fechar linhas de passe do Athletico e incomodar o adversário na circulação da bola. Mas a coisa mudou completamente na segunda etapa. Não só por parte dos rubro-negros, mas também de imposição e muito mérito do Athletico.

A ideia era clara: esperar o adversário e usar a velocidade para matar o jogo. Mas trata-se de uma escolha sempre muito polêmica se tratando de Flamengo. 

Obviamente que devemos entender que grande parte dos flamenguistas espera um time protagonista em campo. Que tenha a bola na maior parte do tempo, que use suas grandes individualidades para dominar qualquer adversário, principalmente dentro do Maracanã. Isso se amplifica pelo fato de não sobrar qualidade individual para tal modelo. O investimento, a expectativa gerada em cima desse grupo... Mais que isso, trata-se da cultura do clube. Algo que tem que ser respeitado.

Por outro lado, também é bastante sedutor pensar em Gabriel, Éverton Ribeiro e Bruno Henrique explorando espaços em velocidade. Se o trio ainda tiver a presença de Arrascaeta então, torna-se uma máquina de jogar acelerando com campo aberto. O duelo contra o Peñarol, no Uruguai, com a equipe empilhando chances desperdiçadas em contra-ataques, é uma prova disso. São jogadores que, de fato, funcionam muito bem dentro neste cenário. O que faz até a decisão fazer sentido. Mas a questão é bem mais ampla...

Quando voltou dos vestiários do Maracanã vencendo o Athletico por 1 a 0 e baixando seu bloco defensivo, o Flamengo não cumpriu parte importante da sua estratégia: a de defender bem sua própria área. Teve armas vorazes para acelerar, um adversário se expondo e instalado no seu campo, mas não foi capaz de neutralizar os espaços defensivos. Antes de pensar em contra-atacar, deve-se defender bem. Aí veio o sofrimento.

Querendo ou não essa é uma tônica bastante recorrente em vários compromissos ao logo desta temporada. Um roteiro já bem rotineiro na mente do rubro-negro:  sai na frente, recua, desperdiça contra-ataques e, por fim, acaba cedendo o gol ao adversário. A tal da "meia estratégia", a ideia que funciona em partes, mas que não dá a consistência necessária para o Flamengo ser mais competitivo.

O Athlhetico cresceu na segunda etapa. Se instalou no campo ofensivo e, após boas sequências de perde e pressiona, foi colecionando ações dentro da área. Se olharmos na ótica do desempenho, os paranaenses mereceram pelo menos pontuar fora de casa. Jogou para isso.

O Flamengo por sua vez, mostrou grande dificuldade de manter a posse. Não conseguia por nada esfriar um pouco o ímpeto paranaense. Os problemas eram nítidos desde a saída de bola. E veio o empate, a virada... A pressão reversa. Mais um exemplo claro do Maracanã vindo abaixo e isso nitidamente afetando o psicológico de quem estava em campo. O caos instalado. O filme repetido rodando na tela de milhões espalhados pelo Brasil.

O que era tão simples no primeiro tempo, a partir daí já não era tanto. Um passe fácil de dois metros virava um quebra-cabeça para jogadores técnicos, com qualidades acima da média para o mercado brasileiro. Apesar do parafuso geral, algo recorrente nestes últimos anos de Flamengo, o time reagiu. Foi para o abafa, viu a entrada de Rodinei surgir efeito e a virada acontecer com Rodrigo Caio aos 50 minutos. Algo que mostra que não se trata de brio. Mas de melhor organização mesmo, um repertório maior para não se colocar nesta tal situação. Esse lance de raça, de vontade, sinceramente, nunca foi um problema. Pelo menos na minha humilde visão.

Vale ressaltar que, apesar da vitória, o Flamengo ainda sofreu com contra-ataques. Foi para o abafa e expôs sua linha defensiva às investidas rápidas do Athletico que, apesar do sentimento ruim de ter deixado escapar a vantagem no fim, fez um jogo bastante consistente. O carrinho de Renê, aos 47, salvou. A auto-estima pode ter voltado. Mas sem refletir sobre os verdadeiros motivos de se sofrer tanto. Sem virar as costas e apenas se emocionar.

Nunca se faltou tanto equilíbrio ao Flamengo. Na gestão, no campo, no comando... Tardes com estas no Maracanã podem servir muito. Se a razão for usada.





Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Solução pivô: como Pochettino fez o "impossível" e levou o Tottenham à final da Champions League?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Mauricio Pochettino Tecnico Tottenham chega à final da UCL
Mauricio Pochettino Tecnico Tottenham chega à final da UCL BEN STANSALL/AFP/Getty Images


Não existem dúvidas que o grande personagem da virada do Tottenham, por 3 a 2, contra o bom Ajax, dentro de Amsterdã, pela Champions Leguae, foi Lucas Moura. Importante durante toda a temporada pela equipe inglesa, mesmo que não sendo titular absoluto, mas com muitos minutos em campo, o brasileiro anotou um hat-trick e foi decisivo ao protagonizar mais uma "remontada" na atual UCL.

Mas um ajuste de Mauricio Pochettino, durante o intervalo,  foi crucial para levar os londrinos à sua primeira final européia. Ajuste, inclusive, que colocou Lucas Moura ainda mais no jogo, até então amplamente dominado pelos holandeses. 

O cenário era o pior possível: derrota por 1 a 0 em casa e virada de tempo na Holanda tomando 2 a 0. Mais que isso, um Tottenham que não conseguia sair da pressão do Ajax, sempre muito agressivo na retomada pós-perda e deixando a circulação inglesa totalmente inibida.  Um desempenho muito abaixo do que a equipe já mostrou e algo que, para quem mantinha os olhos com o mínimo de razão, faria do feito ainda mais impressionante.

O desconforto londrino já era nítido desde a iniciação das jogadas. Com Ziyech, Van De Beek, Douberg e Tadic pressionando a saída de bola e fechando linhas de passe, os Spurs não conseguiam sair com a bola limpa pelo chão para acionar a velocidade de Lucas e Son (sem Kane, lesionado, equipe veio a campo num 4-2-3-1, com Lucas Moura como um 9 de mais mobilidade e uma linha de meias com Son, Eriksen e Dele Alli).

Foi aí que entrou a "solução pivô" na história do jogo. 

Convencido que uma saída mais curta e pelo chão - característica presente no seu modelo de jogo -  não dava resultados a um Tottenham apagado em campo, Pochettino apelou para Fernando Llorente no lugar de Wanyama. Com seus 34 anos, o centroavante espanhol que nunca foi uma referência técnica, tão pouco teve passagens marcantes por grandes clubes na Europa, foi muito influente no condicionamento da partida. Acrescentou uma variação na construção dos Spurs, dando a opção de um jogo mais direto e físico,  justamente para ganhar terreno e proximidade da área holandesa até então um tanto confortável. 

Com grande capacidade física e de retenção de bola para jogar de costas para o gol, Llorente foi crucial para sua equipe conseguir ser mais presente no terço final do campo, coisa que praticamente não aconteceu nos primeiros 45 minutos do confronto. A lógica foi: não deu para sair pelo chão? Estica a bola! Mesmo nos momentos que o pivô não ganhou a disputa, conseguiu criar dificuldades para o adversário conquistar a segunda bola (o rebote da jogada). 

E foi neste momento que esta cartada contribuiu brutalmente para o jogo de Lucas Moura. Agressivo, elétrico e de uma resistência física acima da média (lembre-se que ele esteve em campo em todo o jogo contra o Bournemouth, no fim de semana, quando sua equipe jogou boa parte do jogo com dois jogadores a menos), o brasileiro esteve muito ativo nas disputas destes rebotes estabelecidos após essa briga entre Llorente e os defensores. Tanto ele como Son foram também  foram imprescindíveis para a ideia funcionar. 

Com a bola mais presente no ataque, ambos ativaram suas velocidades e movimentos de rupturas. Algo que deixou a Ajax atordoado nos momentos de muita pressão na bola. Empurrando a linha defensiva para o próprio gol.

Estica, retém, avança... Estica, retém, avança... E foi assim, nesse mecanismo que o Tottenham ganhou as "jardas" (nos moldes NFL) que tanto precisava. Uma saída que, por mais simples que seja, foi muito efetiva.

E o jogo virou. Literalmente.

O acréscimo e o casamento de características foram preponderantes para a virada. A entrada de um jogador que está longe de ser um craque ou decisivo durante toda sua carreira, mas que foi capaz de entregar uma função específica, do jeito certo e na hora certa, foi certeira. Pochettino conseguiu acrescentar um jogo até ali inexistente, uma saída perspicaz num momento muito crítico. E isso não quer dizer (definitivamente!) que é só esse o jogo do Tottenham. Ou o único no caso. Longe disso.

O que vimos de fato foi a capacidade de adaptação que seu treinador, com 5 anos no cargo, teve. Para quem já pensa: "Ah, mas no Brasil vocês xingam o chutão, a bola longa...", a questão é simples: não se trata de só jogar direto. Mas sim de jogar direto também, ter isso como uma saída. Ter alguém no elenco que te traga essa opção. A questão da variação, da inquietude de um técnico para mudar um cenário com uma sacada - e isso não quer dizer que isso também não aconteça por aqui. 

Mais que tudo isso, nos mostra como o futebol tem várias facetas e maneiras de se chegar a glória. De como ele pode ser dinâmico e imprevisível. De como a tática e a fibra, a emoção, a mobilização, andam todas juntas. E que não são antíteses, por mais que muitos batam nessa tecla.

07/05/2019 e 08/05/2019 certamente são datas que ficarão muito tempo no imaginário de quem ama tanto este jogo. Noites para desfrutar deste esporte que cabe ponta marcador, volante brucutu, goleiro que joga com os pés, falso 9, tática, escanteio curto e qualquer forma de se sentir ou jogar. Esporte que também cabê aquele pivozão bonito, por que não?

Pivô é vida! (Também!).


Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Seleção Brasileira: eis a virada dos externos desequilibrantes

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Tite em treino da Seleção Brasileira
Tite em treino da Seleção Brasileira Getty

A vitória da Seleção Brasileira, de virada, por 3 a 1, sobre a República Tcheca, nesta terça-feira, marca mais um passo no ciclo visando a Copa do Mundo de 2022. Período com uma clara necessidade na renovação de peças, de busca por alternativas dentro de um modelo de jogo e, principalmente, na retomada da confiança de comissão técnica e atletas, bastante questionados por uma crítica geral nos últimos meses. 

Apesar de todo exagero de todos os lados - tanto para o bem quanto para o mal -, no fim das contas tratava-se de um amistoso. Colado em uma Copa América, é verdade, mas que deveria ter um ar maior de testes, de diagnósticos e possíveis soluções para o andar da temporada.  A necessidade, acima de tudo, era de mostrar maior desempenho. Algo que, de fato, tem faltado desde a eliminação para a Bélgica na Copa do Mundo de 2018. 

Apesar da boa imagem do segundo tempo, foi uma atuação oscilante e com tempos distintos, como vinha sendo nos últimos compromissos. Altos e baixos, algumas peças respondendo melhor e outras nem tanto. Mas, acima de tudo, Tite teve algumas respostas interessantes, principalmente se olharmos a desnecessária polêmica em função dos "externos desequilibrantes" - termo que causou certa histeria após o empate contra o Panamá. No fim das contas, o desequilíbrio gerado por estes pontas, foi determinante pela maior produção da equipe.

O Brasil iniciou a partida com a mesma ideia das suas últimas aparições, buscando um ataque mais posicional. Coutinho teve bons primeiros minutos e expôs logo de cara a fragilidade do adversário em jogadas mais rápidas, de 1x1. Jogando como um ponta mais construtor (saindo da esquerda e circulando pelo centro), o jogador do Barcelona mostrou maior intensidade em suas ações. Abriu bons espaços para Alex Sandro usar as ultrapassagens e Lucas Paquetá infiltrar. Foi um início promissor de toda a equipe.

Allan se posicionou com mais naturalidade entre as linhas de marcação, principalmente no espaço entre zagueiros e volantes tchecos. Firmino, saindo da referência, e Paquetá, o acompanhavam neste setor. Para iniciar a construção do ataque, a ideia era ter Casemiro na base da jogada junto com os zagueiros. Os laterais, por sua vez, não avançavam tanto no campo e ajudavam nesta iniciação mais sustentada. 

Mas foi nessa saída de bola que a Seleção mais penou nos primeiros 45 minutos. A equipe teve dificuldades para iniciar com fluidez. Com Casemiro recebendo a maior parte das bolas de costas para a marcação e pressionado, o que lhe impossibilitava de girar e jogar de frente para o campo, foi de Marquinhos e Thiago Silva que saíram os passes mais verticais. Allan, Paquetá e Coutinho tentavam, por vezes, recuar para ajudar nesta iniciação, mas sem grande sucesso. O volante do Napoli, no entanto, mostrou alguns pontos importantes, tanto na ajuda da construção como em projeções na área rival. 

Mesmo sendo uma peça de grande importância para o equilíbrio defensivo da Seleção, com imposição física e boas antecipações, a presença de Casemiro foi praticamente nula neste início das jogadas. Certamente é algo para ser revisto e para buscar alguma alternativa. Baixá-lo para atuar entre os dois zagueiros, nesta primeira etapa de construção, o deixando de frente para o campo, pode ser uma possibilidade.

Já Richarlison, atuando aberto pelo lado direito, mesmo não tendo feito um grande jogo, mostrou uma alta capacidade de sustentar jogadas de costas para o gol. Uma espécie de "ponta-pivô", suportando bem os embates da forte (fisicamente) República Tcheca. O jogador do Everton segurou bons trancos, um touro neste tipo de disputas, e que mostra uma capacidade pouco presente nas outras opções de ataque da Seleção.

Os tchecos, de uma forma geral, controlaram boa parte do primeiro tempo. Sem grande impeto ofensivo, mas também oferecendo poucos espaços aos brasileiros. O gol, em si, surgiu de uma jogada bem esquisita, após um bate rebate. O mesmo, inclusive, se pode falar do tento de empate brasileiro, marcado por Roberto Firmino. 

Mas era claro, desde as primeiras fintas de Coutinho logo nos minutos iniciais, que se tratava de um adversário pesado, com dificuldades na troca de direção e que teria dificuldades para suportar duelos em 1x1 com espaço para correr. E Éverton e David Neres escancararam isso...

Conforme os tchecos foram afrouxando a pressão na bola, o campo foi crescendo para a jovem dupla, que tem a característica do tal externo desequilibrante. algo pontuado por Tite dias atrás. Com as mudanças, o treinador usou Firmino (ainda mais móvel) ao lado de Jesus. Assim, os pontas de Grêmio e Ajax ficaram mais abertos. Um 4-2-3-1 que, por vezes, até parecia um 4-2-4, com Allan um pouco mais preso à base da jogada, pisando um pouco menos na área. 

Com mais liberdade de movimento e mais campo para correr, Éverton e Neres trataram de quebrar coberturas e eliminar oponentes nas jogadas pessoais. Boas leituras, boas decisões... De fato, se olharmos para uma estrutura geral de ataque, a vitória veio num modelo mais móvel, de troca de posições e maior liberdade de movimento. Eis aqui mais um retorno importante para a comissão técnica. 

No fim foi uma resposta bem interessante de duas peças de grande potencial, mas que disputam espaço com atletas mais estabilizados a nível de mercado mundial. Mais que isso, um retorno importante de um grupo que sentia, nitidamente, a pressão pelo resultado. Boa parte das tentativas de contra-ataque dos tchecos, inclusive, foi neutralizada no segundo tempo. Bons movimentos de perde e pressiona, com bastante agressividade, que, por vários minutos, sufocou o adversário, impossibilitado de sair do seu próprio campo.

É bem verdade que, no Brasil, amistosos, principalmente se não for contra seleções mais tradicionais, só valem em caso de derrota/empate. Ganhar, para boa parte da crítica, não é mais que a obrigação.  Prefiro ver estes compromissos, que de fato têm um nível de competitividade mais baixo, como momentos cruciais para uma preparação. Longe de serem decisivos, mas que podem apontar caminhos e possibilidades. 

Neste sentido, se não foi uma atuação 100% consistente da Seleção Brasileira, Tite conseguiu, enfim, ter algumas respostas bastante relevantes para a sequência de trabalho.

Termos polêmicos

Sinceramente, acho bem pouco relevante ficar batendo na tecla dos termos. Não cabe a mim definir como alguém deve ou não deve se comunicar. Acho que muita gente tentou criar até um debate construtivo em cima deste tema, mas muitos também entraram nessa onda simplesmente para debochar ou menosprezar, e não só o próprio Tite, mas todo um segmento que busca uma abordagem diferente do que os mesmos julgam a correta. 

No fim das contas um resultado - e principalmente uma atuação melhor contra o Panamá - , barraria essa discussão que sequer entra no conteúdo que o próprio treinador passou, tamanha a irrelevância. 

Obviamente que se comunicar com sua torcida através da imprensa trata-se de um papel relevante na função de um treinador, mas não é a principal. Os questionamentos poderiam ser muito mais em cima dos por quês que o jogo mostravam. Das más atuações e dos motivos para tal. Do por quê as dificuldades para criar, por exemplo, algo bem recorrente não só com a Seleção, mas no futebol brasileiro de maneira geral. 

Mas, de fato, olhar para o jogo dá mais trabalho. Ver e rever, buscar um conteúdo, ler, repetir lances para buscar respostas... Tudo isso, para quem simplesmente não quer, é desgastante. Tem quem diga que não gosta de melão, sem ao menos ter comido melão uma vez na vida. Acontece.


Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Mobilidade ofensiva: a chave (e a tendência) para um Grêmio vitorioso na temporada 2019

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Renato Gaucho tem um dos trabalhos mais estabilizados do futebol brasileiro
Renato Gaucho tem um dos trabalhos mais estabilizados do futebol brasileiro Jayson Braga/Getty Images

A temporada está apenas começando. Para o Grêmio, que ainda nem sequer entrou em campo pela Copa Libertadores, isso fica mais claro. Por outro lado, o Campeonato Gaúcho tem se mostrado um grande laboratório que, acima de tudo, nos traz boas referências do que pode ser a engrenagem de Renato Gaúcho para 2019. Principalmente do meio para frente.

Qualquer análise, obviamente, precisa incluir o ambiente e a competitividade nele inserida. Tanto para aspectos coletivos quanto individuais. E nisso podemos ser unanimes: o Gaúchão não traz grandes parâmetros para apontar dificuldades - mesmo que elas se apresentem de maneira bem clara para o arquirrival Internacional, que não consegue elevar seu nível de desempenho.

A intenção, no entanto, é tentar absorver um pouco do que tem sido as ideias de Portaluppi e, principalmente, como o treinador está adaptando novas peças à sua forma de jogar após movimentações bem interessantes no mercado de transferências. Felipe Vizeu, Montoya e Diego Tardelli foram aquisições importantes. Aliada à essas chegadas, a aposta em Alison na temporada passada e uma maior maturação de Matheus Henrique, Pepê e Jean-Pyerre, no ano passado, deixa o Tricolor Gaúcho com um equilíbrio de funções e características em seu elenco.

O controle e o ritmo de Maicon, por trás de toda estrutura ofensiva gremista, principalmente por iniciar o ano livre de lesões, também é um ponto crucial para o sucesso de Renato Gaúcho & Cia. Aliás, a meu ver, trata-se de um dos meio-campistas mais influentes no desempenho/funcionamento de uma equipe atuando solo brasileiro. Um jogador determinante para o andar do ano. Mas vamos avançar mais no campo.

Independentemente do resultado contra o desesperado Veranópolis (e também do desempenho, já que o Grêmio já teve atuações melhores em 2019), é possível enxergar alguns padrões e movimentos ofensivos bastante interessantes. Principalmente se olharmos para mobilidade do quarteto de frente. Com a saída de Jael, sempre muito explorado num pivô mais puro, retendo bolas e aproveitando por vezes um jogo até mais direto, novas características foram acrescentadas. Tanto Vizeu quanto Tardelli trazem outras possibilidades.

É possível ver um Grêmio mais móvel em fase ofensiva. Instalado no campo do adversário com a bola, não existe espaço totalmente pré-determinado para os três meias do 4-2-3-1 (Marinho, Luan e Everton). Até Vizeu, com uma função mais clara de gerar profundidade junto à linha defensiva, tem seus momentos de flutuar por setores para tentar abrir espaços para as diagonais dos dois atacantes de lado.

Vizeu deixa a referência e trabalha entre os volantes, para desequilibrar a defesa do Veranópolis
Vizeu deixa a referência e trabalha entre os volantes, para desequilibrar a defesa do Veranópolis DataESPN

O ex-flamenguista tem até estrutura para jogar de costas, mas não é a dele. Prefere a jogada mais profunda, a bola no ponto futuro aliada à infiltração. Até por isso, pode rodar mais e se projetar nos momentos certos. Chegar no lugar decisivo e não simplesmente estar, como já muito tratamos neste espaço.

Se for Tardelli por ali, essa troca de posições tendem a ficar ainda mais recorrentes. Contratação mais impactante do clube para 2019, principalmente pelas cifras envolvidas, o atacante está bem longe de ser um 9 característico. Menos que Vizeu, aliás. Dono de uma agressividade e verticalidade enorme, trata-se de um atleta que busca constantemente o contato com a bola. Toca e projeta. Roda. Vai nos espaços. 

E a aposta de Renato tende a ser muito neste aspecto, principalmente contra equipes mais fechadas: dar mobilidade ofensiva aos seus meias/atacantes, inverter posições e tentar, com todo este caos ofensivo, desestruturar defesas mais posicionadas. Para isso, os laterais seguem com a tarefa clara de abrirem o campo em amplitude. Se posicionam bem espetados e, por vezes, avançam até ao mesmo tempo conseguindo até produzir profundidade. Enquanto isso, por dentro, a mágica acontece.

Fase ofensiva: laterais (circulados) abrem o campo, enquanto Vizeu dá profundidade por dentro, que tem os meias circulando
Fase ofensiva: laterais (circulados) abrem o campo, enquanto Vizeu dá profundidade por dentro, que tem os meias circulando DataESPN

Luan sai das costas dos volantes ( espaço entrelinha) para buscar a bola de Michel/Maicon - estes mais na retaguarda (balanço defensivo) junto dos zagueiros. Marinho e Éverton se posicionam no espaço deixado pelo camisa 7 e, sempre que possível, estão à postos para concluir as jogadas se juntando ao centroavante dentro da área. Se a jogada se constrói do lado oposto, cabe a eles fecharem na segunda trave. O primeiro gol de Marinho contra o Veranópolis mostra bem isso.

- A gente trabalha neste sentido. De estar sempre fechando na área. O Renato cobra isso de mim, do Alisson, do Pepê... Para estar mais atento e fazer mais gols - disse o autor do único gol da partida, na saída para o intervalo, em entrevista ao canal SporTV.

Tanto Marinho quanto Éverton - vale o mesmo para Alison, que se recupera de lesão - mostram certa naturalidade não só para estarem mais centralizados na conclusão das jogadas, mas também na construção delas. Ambos possuem um bom jogo curto e capacidade associativa para trabalhar sob pressão. Conduzem bem a bola e mostram um bom repertório técnico para driblar os adversários. Atuam na função de "pontas-construtores". Ou seja, não é a ideia pela ideia. De fato, o que tem buscado Portaluppi faz sentido, simplesmente por ter peças que lhe entregam tais características.

Dos pontas mais utilizados no elenco, Pepê talvez seja o mais agudo e menos "construtor". Mas, com o jovem promissor em campo, outras possibilidades aparecem, principalmente em jogadas de linha de fundo. Se juntarmos isso a Léo Moura recuperado, por exemplo, tem aí uma variação interessante, já que o veterano lateral tem grande facilidade de jogar por dentro, deixando Pepê mais aberto. O ponto principal é aliar características, fazer com que a engrenagem funcione de maneira confortável para todos em campo.

Na partida contra o Ceará, em 2018: perceba como Léo Moura trabalha por dentro enquanto Pepê abre o campo
Na partida contra o Ceará, em 2018: perceba como Léo Moura trabalha por dentro enquanto Pepê abre o campo DataESPN

É bastante nítido que o modelo de jogo do Grêmio segue ali. Talvez seja a forma de jogar com mais continuidade e mais absorvida por um grupo de jogadores entre todos os clubes brasileiros. Se olharmos para a estrutura defensiva do Grêmio, não nos grita nenhum aspecto tão diferente, apesar de alguns ajustes. Mas se tem algo que tem uma grande margem de crescimento são nestas mecânicas ofensivas.

E, nestes momentos, apesar de o Grêmio não ser dos clubes mais ricos em investimentos no país, o clichê do elenco bom ou ruim cai por terra. Afinal, o valor do elenco está no quanto custa os jogadores ou simplesmente no tanto que eles podem produzir juntos? Eu fico, tranquilamente, com a segunda opção.

 

Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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As lições de Old Trafford: Kylian Mbappé é melhor de 9 ou na ponta?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Depende. Simples assim.

Tudo bem, não é tão simples. Mas se olharmos para o cenário que o PSG tinha pela frente para o duelo contra o Manchester United, nesta terça-feira, fora de casa, pelo jogo de ida das oitavas de final da Uefa Champions League, Thomas Tuchel não tinha escolha, mesmo que muitos não concordavam com a ideia – bastante plausível e nada de tão nova, inclusive.

A lesão de Edinson Cavani, de última hora, inclusive, deixou clara uma relevante lacuna do elenco parisiense: a de não ter um reserva imediato para o centroavante uruguaio apesar de todas as cifras gastas nos últimos anos. Mas isso também não quer dizer que  Kylian Mbappé não poderia atuar numa função que, inclusive, já fez em outros momentos da carreira. No Monaco, inclusive, atuou praticamente por toda sua passagem, como um segundo atacante, ao lado da referência, mas como toda profundidade do campo à sua disposição para acelerar. 

A grande questão é: ao olhar para a jovem estrela francesa, logo de imediato, pensamos em velocidade. É, de longe, sua maior virtude. Aliás, há quem diga que se trata do jogador mais veloz do planeta na atualidade. E é neste momento que bate uma verdade bastante cultural por aqui: É rápido? Dribla? Então é ponta! A sua boa Copa do Mundo, aliás, reforçou ainda mais esta ideia para o público geral.

Mas quando digo que depende, é justamente pelos diferentes cenários que o PSG pode ter ao longo de sua temporada. A partida vencida por 2 a 0 contra o Manchester United, é um exemplo bastante claro disso.

Mbappé comemora gol do Paris Saint-Germain contra o Manchester United
Mbappé comemora gol do Paris Saint-Germain contra o Manchester United Getty Images

Longe de achar que Mbappé não possui repertório técnico para jogadas mais curtas, combinadas e dentro de um contexto de menos espaços para acelerar. Mas também é fato que, com campo para arrancar, o camisa 7 é uma arma muito potente para qualquer equipe. Didier Dechamps usou e abusou disso durante o Mundial na Rússia. Com uma equipe mais reativa, com Giroud sustentando bolas na frente, viu Kylian sendo um escape mortal pelo lado direito, conduzindo a bola em velocidade e encaixando boas diagonais, seja para finalizar ou servir os companheiros.

Mas isso não tem a ver com a faixa de campo que ele está no início da jogada. E sim para onde ele vai. Mbappé é um atacante de espaços nato. E tem uma percepção grande neste sentido. Ao enxergar qualquer tipo de brecha, por menor que seja, usa toda sua explosão para estar nela o mais rápido possível – e, principalmente, antes que seu oponente.

Independentemente de estar como centroavante ou ponta, eu diria que Mbappé precisar estar sempre posicionado no limite da linha defensiva adversária. Em jogos como o de Manchester, principalmente. É inevitável que os donos da casa sairiam para jogar também. Então haveria, uma hora ou outra, espaços nas costas da defesa para acioná-lo em velocidade. E como foi possível ver, se você jogar a bola no espaço, certamente ele chegará primeiro que o zagueiro. São raros os momentos que isso não acontece. O lance do segundo gol dos visitantes, aliás, é um grande exemplo: bola sai da pressão, abre-se todo um campo e Mbappé, no limite da jogada, arranca na frente do adversário para completar o rápido cruzamento de Angel Di Maria.

E por isso que, por vezes,  deixá-lo entre os zagueiros, contra uma defesa em bloco baixo, fechadinha, não é grande negócio.

Entende como tudo depende do cenário que você tem pela frente? E mais, de como a estratégia para a partida precisa ser levada em conta nesta escolha? Em Old Trafford, Tuchel não só o escalou com a peça mais adiantada num sistema que variava entre 3-4-3 com bola e 4-4-2 sem posse, mas lhe deu total liberdade de movimentos. Principalmente no quesito profundidade, quando o PSG tentava sair com a bola para atrair o United para seu campo e acelerar após uma saída de pressão.

Mapa de toques na bola de Mbappé vai desde dentro da área até em regiões mais abertas do campo
Mapa de toques na bola de Mbappé vai desde dentro da área até em regiões mais abertas do campo Reprodução: WhoScored

Perceba no gráfico acima, onde é pontuado todos os toques na bola de Mbappé, como o mesmo teve liberdade de movimentos. Mesmo centralizado, fez boas diagonais para fora, recebendo no ponto futuro. Por dentro, não teve a obrigação de sustentar a posse para o time sair de trás, mas sim executar rapidamente quando recebia de costas. Nada de pivô. A ordem era tocar e se projetar. Pisar e acelerar no espaço. Muito além da posição em si, uma ideia totalmente voltada para função, de quais ações você precisa executar dentro de um todo, de uma engrenagem muito maior que você.

A ideia de ter Mbappé mais avançado, além de tudo que foi citado, também tem um ganho ofensivo durante as transições. Nesta posição, é claro que suas funções defensivas diminuem. Mesmo que pressione a saída, feche um volante ou mesmo direcione a iniciação do adversário, não se compara o desgaste da função de um típico ponta atual: de cobrir todo o corredor, indo e voltando insanamente.

Com isso, a cada corrida e ataque ao espaço, você terá um jogador com o tanque de combustível praticamente cheio. Capaz de causar grandes danos à linha defensiva do seu oponente, vendo seu atacante chegando a frente dos zagueiros em quase todas as investidas. No fim das contas tratou-se de uma saída bastante natural para Tuchel. Mas o mais importante, sem dúvida alguma, foi a forma como Mbappé executou suas obrigações dentro do cenário desenvolvido na Inglaterra. Mostrou que não se trata apenas de um “quebra galho” como 9, mas que sim, dependendo do contexto em que estiver, pode ser eficaz dentro dos ambiciosos planos da equipe de Paris.


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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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As lições de Old Trafford: Kylian Mbappé é melhor de 9 ou na ponta?

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Propor o jogo vs qualidade técnica: conheça a história do inglês que revolucionou clube na Suécia com muita posse de bola e sociologia

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Graham Potter em treino do Swansea City na atual temporada
Graham Potter em treino do Swansea City na atual temporada Getty

O promissor início de trabalho de Jorge Sampaoli no Santos chama a atenção nestes primeiros meses de 2019 não só pela rapidez da absorção de suas ideias por parte dos jogadores, mas também pelo jogo propositivo e protagonista apresentado. Por outro lado, apesar de ter boas peças, o Peixe está longe de ter grandes investimentos no futebol e jogadores caros como alguns de seus rivais.

Tal cenário nos traz uma reflexão bastante perspicaz: até onde a excelência técnica dos atletas é imprescindível para a prática de um futebol ofensivo e de controle através da posse de bola? Guardiola faz isso só porque tem milhões para investir ou é possível aplicar este estilo de jogo em outros cenários? Até onde ser competitivo através destas ideias implica em ter dinheiro para ter os melhores?

De fato, trata-se de um tema que causa bastante discussão e que pode ser visto de muitos ângulos. Mas, ao refletir sobre o assunto, me veio à cabeça um nome muito interessante e desconhecido de muitos que acompanham o futebol por aqui: Graham Potter.

Ex-zagueiro, o inglês não teve grande brilho na sua carreira como atleta. Passou por quatro divisões da Inglaterra e chegou até a defender sua seleção na categoria sub-21, mas nunca teve oportunidades em clubes maiores.

Potter contempla estádio do Ostersunds
Potter contempla estádio do Ostersunds Getty

Mas foi do banco de reservas e através de um jogo envolvente e propositivo, que o atual treinador do Swansea (que disputa a Champiomship, 2ª divisão inglesa) ganhou protagonismo no esporte. Suas ideias e sua história são um bom ponto de partida para essa discussão que acalora debates Brasil afora. Para isso, precisamos entender toda sua trajetória e sua forma de ver futebol.

Após largar a carreira de jogador ao fim da temporada 2004-2005, atuando pelo Macclesfield Town (4ª divisão da Inglaterra), Potter se formou em Ciências Sociais. Mais tarde, depois de trabalhar como diretor técnico da seleção feminina de Gana na Copa do Mundo de 2007, terminou seu mestrado em Liderança e Inteligência Emocional na cidade de Leeds. Mas foi fora da Inglaterra que seus sonhos como treinador iriam se realizar. Mais precisamente na Suécia.

Destino incomum para treinadores ingleses, que geralmente contam como inúmeras divisões e times para iniciarem suas carreiras, Graham Potter assinou por três temporadas com o pequeno Östersund FK, da terceira divisão sueca. E foi por lá que, sem grandes investimentos para montar times repletos de talentos individuais, que ele levou o modesto clube até a primeira divisão. Acrescente ainda em seu currículo a conquista da Copa da Suécia em 2016/2017 e além de ter chegado até oitavas de final da Liga Europa 2017/2018, sendo eliminado pelo Arsenal. E estes 7 anos no Círculo Ártico já tinha alguma ligação com Swansea, já que foi o auxiliar do treinador Roberto Martinez, Graeme Jones, que tirou a equipe de Gales da quarta divisão para chegar à Premier League, que o indicou ao clube sueco.

Mas o que chama a atenção em sua passagem pelo Östersund FK, além dos resultados, são os métodos. Antes mesmo de entrar na parte tática, é muito importante entender a abordagem humana de Potter dentro deste trabalho na Suécia. Visando a aproximação entre comissão técnica, clube, jogadores e a comunidade, o treinador estimulava e estipulava apresentações públicas do elenco, seja para peças de teatro ou mesmo atividades musicais.

- Às vezes há uma desconexão entre futebolistas e torcedores, porque há pessoas muito bem pagas aqui e torcedores por lá, e nada entre os dois. E quando você precisa do apoio, quando as coisas correm mal, não há nenhuma referência para eles dizerem: 'Ok, eu lhe darei o benefício da dúvida'- contou Potter, em entrevista ao The Guardian, meses após sua chegada ao Swansea.

- Mas você só precisa entender o ambiente em que está e como pode fazê-lo. Não é um processo fácil. Você anuncia para um bando de caras que em seu dia de folga eles vão praticar dança. Eles não vão dizer: 'Isso é fantástico.' Portanto, há questões gerenciais que você precisa explicar, sempre vinculando estas decisões ao futebol. Minha ideia sempre foi tirar todos da zona de conforto. Inclusive eu mesmo – completou.

Além da ideia de sempre propor o jogo e tentar praticar um futebol que aproximasse o público aos seus jogadores, Potter batia muito na tecla de que desenvolver a profundidade do ser humano ia muito além dos estímulos praticados nos treinamentos.

 

Entre ataques rápidos e posicionais, o Östersund FK fez história propondo

Obviamente que, além de se tratar da Liga Sueca – que está longe de ser uma das mais ricas da Europa – e de uma equipe sem grande poderio financeiro, o Östersund FK não tinha uma equipe repleta de referências técnicas. Mas mesmo assim praticava um futebol agradável de se assistir. Independente de certo ou errado, ou mesmo de gostos pessoais, se era visto em campo um time com um modelo de jogo bem definido e que, mais que isso, aplicava bem suas ideias dentro de campo. Tanto que atingiu resultados esportivos bem satisfatórios.

Sua plataforma de jogo era extremamente flexível. Variava sistemas de acordo com o adversário, sempre buscando criar vantagens numéricas em diferentes setores no campo. Transitava principalmente entre quatro disposições: 3-5-2, 3-4-3, 4-2-3-1 e 4-4-2 (sistema utilizado na vitória histórica sobre o Arsenal por 2 a 1, em pleno Emirates). Seu trabalho após a pré-temporada, período em que trabalhava os pilares do seu modelo, era muito baseado na preparação do jogo em cima do próximo rival. Em entrevistas na época ele pontuava muito a necessidade de ajudar os jogadores a resolverem problemas durante as partidas, mas que com algumas situações já previstas, aumentava seu percentual de acertos em 90 minutos.

Buscava prioritariamente um ataque bastante posicional, tentando sempre espalhar seus jogadores em campo de forma inteligente, sempre visando abrir diferentes linhas de passe para avançar no campo do adversário (veja na imagem abaixo o Östersund FK em fase ofensiva).

Posicionamento ofensivo do Ostersunds: 3-4-3, com alas abrindo o campo, pontas por dentro e ataque mais posicional
Posicionamento ofensivo do Ostersunds: 3-4-3, com alas abrindo o campo, pontas por dentro e ataque mais posicional DataESPN

A iniciação das jogadas era bastante trabalhada e os zagueiros mostravam extrema coragem para arriscar um passe vertical sempre que algum companheiro se posicionava em espaços entre as linhas de marcação. Eram defensores que nitidamente não possuíam grande qualidade técnica, mas bem estimulados e com seu entorno proporcionando um cenário positivo, conseguiam armar desde trás.

Quando a bola entra próxima ou dentro do terço ofensivo do campo, a equipe conseguia trabalhar com extrema velocidade e, mais importante, com muita chegada na área dos adversários. Tendo vantagens posicionais e numéricas para concluir as jogadas. Existia uma grande preocupação com a compactação ofensiva, independentemente da faixa de campo que a bola estava (veja abaixo):

Já numa faixa mais adiante do campo, equipe mantém compactação e com muita gente pronta para chegar na áera
Já numa faixa mais adiante do campo, equipe mantém compactação e com muita gente pronta para chegar na áera DataESPN

Sem bola, tratava-se de um time altamente agressivo, que buscava pressionar o adversário logo após a perda. Mostrava bom controle contra equipe de transições ofensivas fortes, sabendo alternar momentos de pressão constante com situações que cabiam mais a recomposição rápida para atrás da linha da bola.

Demonstrava também uma boa capacidade para se adaptar não só nos sistemas, mas em diferentes estratégias de jogo para obter vantagens. E o confronto de oitavas de final da Liga Europa, contra o Arsenal, deu pouco dessa tônica. Conseguiu, em vários momentos, fechar espaços e jogar mais postado com certa segurança. E, apesar dos 3 a 0 sofridos em casa no jogo de ida, foi até o Emirates Stadium e alternou momentos de pressão um pouco mais alta e controle de espaços defensivos. A chave para vencer fora de casa foram as recuperações de bola no campo ofensivo. Seja subindo o bloco para pressionar a saída dos Gunners ou mesmo encaixando boas reações no pós-perda, colocando muita intensidade na bola (as duas imagens abaixo mostram um pouco disso).

Na casa do Arsenal, suecos pressionam a bola logo após a perda e no campo ofensivo
Na casa do Arsenal, suecos pressionam a bola logo após a perda e no campo ofensivo DataESPN

A verdade é que, seja qual contexto enfrentava pela frente, o Östersund FK mostrava-se uma equipe extremamente competitiva e agressiva. Buscava o controle acima de tudo, independentemente de estar ou não com a bola. E a coragem/vontade de jogar com a bola nos pés, apesar de não ter grande qualidade técnica, era realmente inspiradora para qualquer pessoa que aprecia o futebol.

 

Modelo de jogo tornou-se vitrine para olheiros

A forma como descobri essa equipe e o trabalho de Graham Potter, ainda no ano passado, é bastante curiosa e mostra o tamanho do mérito que as escolhas do treinador alcançaram. Até num âmbito continental, inclusive.

Com um modelo de jogo bastante específico, dentro de um mercado bastante acessível em questões financeiras e por ser um clube que não teria grande resistência para segurar atletas, o Östersund FK passou a ser observado de perto por outros centros. Tanto que recentemente fez vendas para Inglaterra e França, com Watford e Amiens comprando dois de seus atletas (Ken Sema e Saman Ghoddos).

Graham Potter, ainda pelo Ostersunds FK
Graham Potter, ainda pelo Ostersunds FK Getty

Um destes mercados que passaram a acompanhar o que era desenvolvido na Suécia é o Norte Americano, pela MLS especificamente. Observador Técnico e Scout do Columbus Crew, que nas últimas temporadas tem conseguido feitos interessantes com uma proposta bastante semelhante ao de Potter, Leonardo Baldo achou no Östersund FK uma possibilidade de futuros reforços para seu clube.

- Conheci o estilo de jogo deles fazendo buscas por modelos de jogo que tinham semelhanças aos nossos. Pela média de passes e oportunidades de gols que eles apresentavam, ficava claro que tratava-se de uma equipe bastante propositiva. Depois assisti jogos para confirmar essa minha suspeita – conta o profissional, que antes foi analista de desempenho do Corinthians.

Sem poder contar com grandes investimentos, tendo um dos menores orçamentos da MLS, o cenário era bastante favorável. Além da maior acessibilidade nas negociações, você ainda teria jogadores já acostumados a uma forma de jogar. O que possibilitaria uma maior velocidade na adaptação do atleta.

- Você tem um modelo parecido com o que você joga e em uma liga com menos poderio. Você precisa olhar para sua realidade. Menos dinheiro, elencos mais curtos... Você não pode errar. E tem algumas outras características importantes neste cenário que diminui a probabilidade de erro. Primeiro que jogadores desta região da Europa se adaptam mais fácil. A questão da língua pesa. Se o cara fala inglês já é um passo enorme. E praticamente todo mundo lá fala. A questão do frio também não é um problema para eles. O salário também dá para competir. Então você alia um monte de situações – conclui Baldo.

No Brasil, por sua vez, ainda discutimos onde existe ou não um modelo de jogo bem estabelecido – e aí entra uma grande porção de variáveis para tal problema. Sem entrar na questão de feio ou bonito, certo ou errado, sofremos por vezes pela falta de repertório de possibilidades. Com equipes bem trabalhadas em questões defensivas, mas, como mostrado no último Brasileirão, grandes dificuldades na construção do jogo. E aí reafirmo: são vários os motivos para tal cenário.

   

O desafio em Gales: resgatar a identidade perdida do Swansea

Após um trabalho de 7 anos e meio completamente estabelecido na Suécia, o futuro reservava um desafio cheio de coincidências para Graham Potter. Seu próximo destino era o Swansea City, no sul do País de Gales, onde sua grande fonte de inspiração fizera história. O inglês assumiu o comando dos swans no início da atual temporada (meio de 2018).

A verdade é que Potter nunca escondeu sua admiração por Roberto Martinez, atual treinador da Bélgica. Em seu primeiro trabalho como treinador, o belga conseguiu subir o Swansea para a segunda divisão com apenas seis meses de trabalho e deu início a um ciclo bastante promissor que levou os galeses ao título da Copa da Liga na temporada 2012/2013. Muito deste período ascendente tem a ver com o estilo de futebol ali emposto, sempre muito elogiado por buscar a posse e jogar em cima dos adversários. Tanto que os treinadores posteriores buscaram sempre dar continuidade a essa identidade de jogo que ali estava.

Potter faz trabalho com jogadores do Swansea em treino
Potter faz trabalho com jogadores do Swansea em treino Getty

Além da indicação para o cargo no Östersund FK ter vinda através do auxiliar do técnico belga, Potter nunca escondeu ser um estudioso dos métodos de treinamento de Roberto Martinez e nunca abriu mão de uma abordagem mais propositiva. Ele ainda cita Pep Guardiola e o holandês Raymond Verheijen como suas outras influências dentro futebol.

E sua chegada ao Liberty Stadium vai muito além de recolocar o clube novamente na Premier League. Após o período de ouro que se iniciou lá atrás com Martinez e um jogo baseado na posse de bola, o Swansea se mostrou perdido nas últimas temporadas. Perdeu jogadores importantes e com eles toda uma identidade de jogo. Por isso a Potter não esconde sua satisfação em ter sido escolhido para tal desafio:

- Sempre fui atraído por algo que é sobre construir e criar. Mudei minha família de uma vida maravilhosa na Suécia. Então não cheguei aqui apenas para um emprego. Tinha que ser algo que me fizesse pensar: "Se pudermos fazer isso funcionar, podemos realmente fazer algo especial!". E é isso que quero fazer aqui – afirmou, também em entrevista ao The Guardian.

Graham Potter, agora técnico do Swansea
Graham Potter, agora técnico do Swansea Getty

A verdade é que, após meia temporada, o Swansea ainda não se mostra totalmente fluído praticando este estilo de jogo. Tem sim momentos muito bons, com boas sequências de vitórias e desempenhos que já mostram um caminho a ser trilhado, mas ainda se mostra bastante oscilante e sem grande naturalidade nos movimentos, sejam ofensivos ou defensivos. O meio de tabela, no atual momento, reflete bastante as dificuldades vividas nesta primeira etapa.

Em agosto, por exemplo, Potter perdeu mais de 12 atletas e teve que iniciar toda uma reconstrução do elenco. Aos poucos foi adaptando peças e dando espaços para alguns jovens como Bersan Celina, Baker-Richardson, Oliver McBurnie e Daniel James. A princípio a diretoria parece apostar no trabalho e se mostra bastante compreensiva com o atual cenário do clube, acreditando num projeto ainda mais longevo para voltar à Premier League.

 

Outros exemplos competitivos e a utopia brasileira

A história de Graham Potter e do “ex-pequeno” Östersund FK inspira e nos coloca, mais uma vez, dentro da discussão sobre se é possível praticar um futebol competitivo com a posse de bola mesmo não tendo os melhores jogadores em mãos. E outros exemplos nos traz algumas mostras do quanto é acessível sim, jogar desta forma, sem ter dinheiro para fazer grandes contratações.

O Columbus Crew, citado acima, tem repetidamente chegado aos playoffs e até semifinais de conferência nos últimos anos. Recentemente perdeu seu treinador, Gregg Berhalter, para a seleção dos EUA. Um trabalho que durou mais de 5 anos e que rendeu muitos elogios na MLS.

Real Bétis e Sassuolo, na Espanha e na Itália, respectivamente, também apresentam um futebol bastante atrativo, mas que ainda necessitam de mais tempo para o desenvolvimento. Maurizio Sarri, com o Napoli-ITA, também deu boas mostras disso. E em nível Sul-Americano não podemos esquecer da final de Libertadores entre Grêmio e Lanús que, apesar de serem grandes equipes, não se tratam de clubes com grandes capacidades de investimentos, principalmente os argentinos.

Preparando o terreno: veja a análise do DataESPN sobre o lado italiano de City x Napoli,

A meu ver, a questão de propor ou vai bem além da qualidade técnica que você tem em mãos. Obviamente que, com mais refinamento, suas ações tendem a ser mais eficazes e fluídas. Sem tanto investimento técnico, por outro lado, você terá menos consistências nas ações. Com os mecanismos e os estímulos certos aplicados no dia a dia, você pode sim criar cenários confortáveis para atletas menos técnicos e encorajá-los a melhorar neste sentido.

Tudo depende de como você pensa, como você treina e como isso vai a campo. E, principalmente, na sua capacidade de convencer e criar um time confiante a ponto de jogar desta forma. Falar em tempo de trabalho, calendário, qualidade dos gramados é sim ponderar de forma justa os problemas vividos por aqui. Mas, por vezes, também paramos nas ideias. E falhamos na execução.

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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Um Santos "elétrico" contra o São Bento e os promissores 270 minutos sob o comando de Jorge Sampaoli

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Jorge Sampaoli está com 100% de aproveitamento em jogos oficiais pelo Santos
Jorge Sampaoli está com 100% de aproveitamento em jogos oficiais pelo Santos gazeta press

A primeira aparição do ano, em amistoso contra o Corinthians, já trouxe alguma mostra das ideias de Jorge Sampaoli para o Santos em 2018. Contra a Ferroviária, apesar do placar magro, mais alguns padrões de jogo se repetindo. Mas não tem como negar que o ponto alto da equipe sob o comando do treinador argentino até aqui foi na goleada contra o São Bento, em Sorocaba, na noite desta quinta-feira, pelo Campeonato Paulista.

Obviamente que estamos falando de uma amostragem ainda muito pequena. Se levarmos em conta estamos falando de um início de temporada sem pré-temporada, devemos ter ainda mais cautela nas avaliações. Mas também não podemos fechar os olhos para alguns indícios claros do que Sampaoli pensa para o Peixe em 2019. E, por mais que a naturalidade e a fluência que o jogo exige ainda não esteja totalmente encorpada, podemos sim detectar alguns pilares de seu modelo de jogo. Principalmente por conhecê-lo de trabalhos anteriores.

Foram 35 minutos iniciais muito fortes do Santos em Sorocaba. Um primeiro tempo de total controle das ações do jogo. Claro que as oscilações de ritmo aconteceram, principalmente nos finais de tempos. Mas trata-se de algo bastante natural para o atual cenário e, principalmente, pela exigência que o modelo de jogo aplicado mostra.

Com bola vimos o Peixe saindo sempre pelo chão. Usando bastante Vanderlei como mais uma peça de apoio. Tenho a impressão que a pressão colocada em cima do goleiro por conta do jogo com o pé o fez errar algumas situações até simples. Tanto que não o julgo tão ruim assim na construção. Mas, de fato, a necessidade de dar uma resposta imediata ao novo comandante por ter atrapalhado em seu desempenho neste sentido específico.

Alison vai mostrando que terá um papel bastante importante no desenvolvimento do jogo santista. É o cara incumbido de sempre baixar para perto dos zagueiros para receber a bola (veja na imagem abaixo). Muitas vezes o fazendo de costas, o que torna a ação mais perigosa. No entanto, já dá para notar que o volante está assimilando as ideias de Sampaoli e tentando girar o mais rápido possível para ficar de frente para o jogo.

Vanderlei recebe a bola, zagueiros recuam e abrem o campo para Alison se aproximar pelo centro do campo
Vanderlei recebe a bola, zagueiros recuam e abrem o campo para Alison se aproximar pelo centro do campo DataESPN

Nesta primeira etapa de construção, o Santos até mostrou um pouco mais de paciência. Roda a bola de um lado por outro e tenta sair com segurança até achar a melhor alternativa para ganhar mais campo. Quando a bola saía dos zagueiros, sempre eram mais verticais, quebrando a primeira – e às vezes até a segunda – linha de marcação do São Bento. Feito isso, a ordem era clara: acelerar e trocar de posição alucinadamente para infiltrar na área. Derlys Gonzalez foi determinante para isso. Esteve muito bem, sempre muito procurado para atacar profundidade. Felipe Cardoso se mostrou bastante móvel, abrindo bons espaços para infiltrações. Um time extremamente agressivo e intenso nas ações com bola.

E quem aproveitou estas movimentações do centroavante foram os meio-campistas que atuavam a frente de Alison. Tanto Jean Mota quanto Pituca e Sanchez foram bastante presentes na área – o primeiro chegou mais, inclusive marcando o primeiro gol com 14 segundos de jogo. Ambos alternaram infiltrações e mostravam boas leituras para atacarem espaços no momento certo (veja na imagem abaixo). Sanchez, por sua vez, foi muito importante na condução da bola durante as transições ofensivas. Sem bola, como sempre, o uruguaio se mostrou muito agressivo, encaixando boas pressões pós-perda da posse.

Na primeira jogada da partida, Santos chega pela direita e Jean Mota já está infiltrando. Mais atrás, Pituca se prepara para entrar na área também
Na primeira jogada da partida, Santos chega pela direita e Jean Mota já está infiltrando. Mais atrás, Pituca se prepara para entrar na área também DataESPN

E estes comportamentos sem bola da equipe também foram muito importantes para a construção do resultado fora de casa. Num geral, toda a equipe trabalhou forte neste sentido. Perdeu a bola? Pressão, pressão e pressão... Quando o adversário escapava desta blitz imediata, parte dos jogadores retornavam para atrás da linha da bola o mais rápido possível, sempre priorizando a região central, visando proteger ao máximo a sua área.

Sem dúvida alguma trata-se de apenas o início de um trabalho que se mostra bastante promissor. O que chama a atenção, de fato, é a agressividade e intensidade da equipe. Muitos aspectos ainda serão trabalhados, principalmente na confiança dos zagueiros para construir com mais coragem, para buscarem os companheiros que se posicionam entrelinhas. Vanderlei também deverá ter mais chances e poderá mostrar se tem condições de entregar o que Sampaoli tem em mente. Aliás, vale ressaltar os bons minutos de Yeferson Soteldo, que aos poucos deve ganhar mais espaço.

As transições defensivas também ainda necessitam de alguns ajustes, principalmente quando ocorrem quebras na linha defensiva durante o retorno da equipe. Certamente Sampaoli vai ajustar alguns detalhes para compensar algumas destas situações e tornar o time mais equilibrado.

Por outro lado, é nítido o impacto imediato do treinador argentino neste início de trabalho. Não se trata de conclusões permanentes. Longe disso. Existe muita temporada pela frente. Mas o santista, do mais otimista ao mais pessimista, certamente está animado com o que parecida ser um ano difícil pela frente.

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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Um Santos "elétrico" contra o São Bento e os promissores 270 minutos sob o comando de Jorge Sampaoli

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Além do passe de Laporte: entenda, em 10 tópicos, toda a riqueza de ideias no gol do City contra o Wolves

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Gabriel Jesus e Josep Guardiola: relação vem dando frutos ao futebol do brasileiro
Gabriel Jesus e Josep Guardiola: relação vem dando frutos ao futebol do brasileiro Getty Images

O duelo da última segunda-feira entre Manchester City e Wolverhampton, pela Premier League, de certa forma nos frustrou. Se tratava do time de Pep Guardiola precisando da vitória para manter a distância de 4 pontos para o Liverpool, contra o Wolves treinado pelo ótimo Nuno Espírito Santo e que talvez seja uma das equipes mais interessantes da Inglaterra na atual temporada. 

O gol dos donos da casa logo no início do jogo, mais a expulsão de Willy Boly, deu rumos diferentes se pensarmos no potencial que este confronto carregava.  Mas isso não apaga o nível de desempenho dos Citizens, principalmente a riqueza conceitual demonstrada na construção do primeiro gol marcado pelo brasileiro Gabriel Jesus.

Um tento que vai muito além do lindo passe de Laporte para a arrancada de Sané. Um gol que vale uma atenção especial por nos apresentar vários aspectos do jogo desenvolvido por Guardiola e conceitos/padrões muito claros deste atual Manchester City. Acompanhe abaixo a análise em vídeo de toda a construção da jogada até a finalização de Gabriel Jesus. Logo depois, em texto, 10 tópicos detalhando todo o desenrolar da bonita jogada:


1 - Lateral para o Wolverhampton no seu campo ofensivo. Todo posicionamento do City esta voltado para uma ideia: aumentar suas chances de ganhar disputas de 1ª e 2ª bolas. Veja no vídeo como a superioridade numérica é bem significante neste momento: são 8 citizens contra 4 adversários (mais Ruben Neves [8], um pouco recuado para ser um desafogo). Mais que ter maioria num determinado espaço do campo, existe toda uma compactação para pressionar a bola e recuperá-la o mais rápido possível;

2 - Perceba onde está Walker, lateral-direito da equipe de Manchester durante o arremesso lateral. Essa compactação, além de manter a equipe próxima para pressionar a bola, tem como objetivo se agrupar para trabalhar a bola quando a mesma estiver recuperada. O lateral inglês fecha bem no lado que a bola está, mas mantém vigilância em Jonny Castro, ala-esquerdo do Wolverhampton. Ele flutua para ficar mais próximo do centro do jogo (onde está a posse), mas não descuida do lado oposto, já que uma invertida ali poderia causar estragos à sua defesa;

3 - A cobrança de lateral acontece e a pressão é instantânea. Objetivo alcançado. O adversário não teve a mínima chance de escapar da "armadilha";

4 - Apesar de parecer um simples toque para o lado de Laporte, a primeira ação do City com a bola e a primeira do Wolves sem, nos traz uma situação bem relevante na construção da jogada: o que cada equipe fez em seus momentos de transição? E mais, o fizeram de forma organizada e coletiva? Pois bem. No exato momento da recuperação da posse, quando a equipe o Manchester City entra em transição ofensiva, a decisão do zagueiro é de tirar a bola rapidamente da zona de pressão - que nada mais é onde se acumulava mais gente, ou seja, onde era mais difícil de se trabalhar a bola. Por outro lado, o Wolverhampton também precisou "mudar a chavinha". Perde a posse e, automaticamente, se recompõem para atrás da linha da bola. Tais ações coletivas mostram bastante sobre o que eram as estratégias de ambas as equipes para a partida ou mesmo como foram resolvidos os problemas que tal lance ocasionou;

5 - O campo se abriu e Walker conduziu a bola. No entanto, o Wolves colocou todos seus jogadores atrás da linha da bola. O 5-3-2 em fase defensiva é bastante nítido. Ou seja, agora a situação é de todos jogadores "dentro do jogo". Tal expressão é colocada pelo fato de, dentro do contexto de atrás e a frente da linha da bola, se entende que quem esteja à frente da linha da bola, já está "eliminado" da jogada. Assim posicionado, o jogador deixa de ter a possibilidade de defender sua meta. Dentro deste cenário, vemos a equipe visitante cumprindo muito bem o objetivo estipulado para esta fase do jogo;

6 - A ideia de Nuno Espírito Santos ao ativar uma recomposição rápida para o seu campo logo após a perda da posse tinha muito a ver com a tentativa de minimizar os espaços entrelinhas (dá para ver claramente na análise). Principalmente a região entre a linha defensiva e as costas dos seus volantes, onde as equipes de Guardiola sempre buscam posicionar muitos jogadores para receber o passe, girar e acelerar em direção ao gol, fazendo muitos estragos à defesa rival. Bernardo Silva, jogando por dentro desde a lesão de De Bruyne, flutua exatamente por ali para tentar abrir uma linha de passe e receber a bola;

7 - A importância de Gabriel Jesus além dos dois gols anotados fica evidente também nos movimentos sem bola. Perceba como ele joga no limite do impedimento, muito rente à linha defensiva e tentando fazer movimentos para levar os defensores para trás. Tal movimentação faz o Manchester City ganhar profundidade, jogando a linha de 5 do Wolves mais próxima possível do seu gol. Até por isso a atuação do brasileiro foi bastante positiva. Ele entregou desempenho de várias maneiras, com e sem a posse. E seu nível de confiança cresce, dando mais intensidade e eficácia nas suas ações com bola;

8 - Com dificuldades para progredir com a bola, a equipe de Manchester circula a posse, vai tentando achar espaços. Neste momento vemos a configuração da equipe em fase ofensiva para esta partida. Zagueiros jogando quase no campo do Wolves, Fernandinho um pouco mais a frente trabalhando como regista, sendo determinante para iniciação das jogadas. Os laterais (Walker e Danilo), por sua vez, trabalham um pouco mais centralizados e quem tem a missão de abrir o campo são os pontas (Sterling e Sané). Tal posicionamento é bastante recorrente nas equipes de Guardiola, por mais que o mesmo faça algumas variações de peças e plataformas de acordo com o adversário;

9 - Agora chegamos ao momento crucial da jogada: o passe vertical de Laporte, a projeção de Sané nas costas da linha defensiva e Gabriel Jesus arrancando para completar o cruzamento rápido do alemão. O bom posicionamento do ex-palmeirense, jogando ali no limite do impedimento, inclusive, é que o possibilita chegar antes que os defensores na hora da finalização. Mas a repetição do lance é ainda mais esclarecedora;

10 - Por fim, o replay em câmera aberta. Nele fica mais evidente esse ponto alto da jogada. Laporte recebe a bola sem grande pressão. À sua frente, nos apoios mais próximos para jogar um pouco mais curto, o Wolverhampton fecha bem as opções. Encurta a marcação e fica praticamente impossível progredir com a bola na região central. Não existe espaço entrelinhas para ser explorado. E entre pressionar um zagueiro, que está mais longe de sua meta, e um meia, por exemplo, é bem óbvia a escolha. Na real é uma decisão lógica, já que não dá para pressionar todos ao mesmo tempo. Mas aí entra a capacidade de construção que os zagueiros de Guardiola tem. Um passe que "rasga" toda a equipe adversária. E Laporte consegue eliminar 11 jogadores (e três linhas de marcação) com um só passe. Veja como todo o time do Wolves fica a frente da linha da bola quando Sané recebe o passe em velocidade. A leitura de Laporte é rara. Não se trata apenas de achar um passe que não entraria em qualquer outro espaço, mas também de entender o gesto corporal do atacante que vai receber. Compreender o timing certo de soltar a bola e de entender que não foi apenas um movimento de desmarque do ponta (para só tentar enganar o marcador). Na câmera aberta também fica nítido que Jesus lê rápido a jogada e parte quase junto de Sané, ficando na linha da bola, mas também estando na frente dos defensores que corriam para trás. A vantagem por estar bem posicionado é gritante e a conclusão passa a ser apenas um detalhe. 

Tal lance isolado, que se trata de um gol, nos leva a muito mais reflexões. A questão de como montar uma estratégia contra uma equipe como o Manchester City é uma delas. Mantenho minha linha defensiva mais alta? Pressiono mais no campo deles? Ou baixo a marcação e deixo meus defensores recuados, tirando a velocidade e a profundidade dos citizens? É um papo que vai ainda mais longe. E que nos dá milhões de possibilidades. Que ficarão para um outro momento. 


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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Além do passe de Laporte: entenda, em 10 tópicos, toda a riqueza de ideias no gol do City contra o Wolves

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