O contexto coletivo e a melhora individual: por que o desempenho de Felipe Melo cresceu tanto em 2018?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Felipe Melo iniciou 2018 com ótimo desempenho com a camisa do Palmeiras
Felipe Melo iniciou 2018 com ótimo desempenho com a camisa do Palmeiras Gazeta Press

Uma das premissas para quem atua ou gostaria de atuar como observador técnico no futebol (o antigo olheiro) é que nunca devemos tirar uma conclusão permanente sobre um atleta sem considerar o ambiente que ele está inserido. Tal abordagem, inclusive, dá a convicção que diversos jogadores tidos como ruins pela opinião pública, na maioria dos casos, está dentro de um contexto que não potencializa ou extrai ao máximo de suas qualidades. 

Quantas vezes seu time ou mesmo os rivais trouxeram aquele atacante que todo mundo queria e simplesmente não deu certo? Fez gols por onde passou, sempre jogou bem... Mas fracassou no novo clube. Certamente todo mundo tem uma história dessa para contar. É algo muito recorrente, principalmente no cenário do futebol brasileiro, onde contratações são feitas muitas vezes sem ao menos ter uma forma de jogar definida.

O que esquecemos, na maioria das vezes, é que aquela maneira de jogar imposta pelo treinador pode ter sido uma das razões para um desempenho abaixo das expectativas - digo uma das razões, pois são inúmeras as variáveis neste caso. Um exemplo claro são pontas de extrema velocidade que fazem campeonatos impecáveis em equipes menores. Seu antigo clube quase sempre atua mais fechado e apostando em contra-ataques. Ao chegar em um time que normalmente propõem o jogo, muito por conta do adversário, que além de abrir mão da bola, quase nunca dá espaços para correr, o atleta sucumbe e vira uma aposta furada.

Mas existe um atleta neste início de temporada que inspira este post: Felipe Melo. Contratado cheio de pompa no início de 2017, o volante, com passagens por gigantes do futebol italiano como Juventus e Internazionale, entre polêmicas e desabafos, não conseguiu ter um primeiro ano regular. Claro que os motivos vão além da forma de jogar daquele Palmeiras, mas 2018 tem nos mostrado um desempenho em alto nível até aqui do camisa 30.

Sempre foi quase uma unanimidade que Felipe Melo é um jogador de qualidade. Tem um bom repertório técnico, principalmente na organização do jogo por trás, com passes verticais e bolas longas certeiras para achar companheiros em velocidade. O palmeirense também tem uma boa leitura dos espaços, se coloca bem em linhas de passe e  tem agressividade para ganhar duelos defensivos, seja pelo alto ou pelo chão. Mas ele também tem suas deficiências , como a grande maioria dos jogadores espalhados pelo mundo...

Quando chegou ao clube, Melo encontrou Eduardo Baptista. Adepto da marcação por zona, o agora treinador da Ponte Preta vislumbrava espaço e sequência para o volante, justamente por ele se enquadrar na sua ideia de jogo. O início de 2017 dele, inclusive, não foi ruim. Boas atuações, principalmente na Libertadores, o fizeram ganhar alguma sequência como titular.  Mas aí chegou Cuca, que tem uma maneira bem diferente de enxergar futebol -  e que fique claro:  não se trata de certo ou errado, mas sim de uma escolha.

Sergio Busquets, um dos melhores do mundo na função, tem leituras impecáveis à frente da linha defensiva

Campeão brasileiro com próprio Palmeiras em 2016, Cuca sempre foi adepto da marcação individual. Nas suas últimas passagens até trabalhou com algumas trocas de encaixe, justamente para não gerar perseguições longas nesta ideia de sempre defender no homem a homem. Mesmo assim, se tratava de um jogo que exigia muito fisicamente dos atletas. A intensidade era o grande pilar para este tipo de jogo funcionar. E foi aí que o camisa 30 alviverde perdeu espaço. Sem sequência como titular, vieram as queixas e as rusgas com o treinador.

Um dos pontos fracos de Felipe é a agilidade, principalmente na troca de direção. Por ser um jogador de força e estatura (1,83m), o volante nunca foi um jogador de grande velocidade. Por conta disso, sempre se adaptou à contextos que o mantinham competitivo. Normalmente em equipes que faziam um jogo mais posicional sem a bola e de menos exposição em duelos defensivos em velocidade. Agora, aos 34 anos, essa sua capacidade de mudar de direção foi naturalmente caindo.

Cuca sabia que o perfil de Felipe Melo não condizia à sua forma de jogar. Exigiria dele situações que o não deixariam confortável dentro de campo. Uma saída para caçar ou perseguir um atleta mais ágil poderia desequilibrar todo seu sistema defensivo. Uma tirada de primeira de um adversário mais habilidoso seria fatal, já que o volante não teria capacidade de recuperação na corrida. Viraria um efeito dominó. Um cobre o um que saiu da posição do dois. Uma bola de neve com grandes chances de o adversário chegar com vantagem numérica no último terço do campo.

Com Roger Machado, também adepto da marcação mais zonal, que prioriza sempre controlar os espaços, seja lá qual jogador adversário passe poe eles, o camisa 30 se fortaleceu. Mais que isso, dentro da ideia de jogo mostrada até aqui, virou peça de grande importância. Além de ser o principal encarregado de iniciar as jogadas afundando entre os zagueiros para dar mais qualidade na saída (veja na imagem abaixo), seja com passes verticais ou bolas longas de velocidade, Felipe Melo tem sido o ponto de equilíbrio à frente da linha defensiva.

Repare como o volante palmeirense afunda entre os zagueiros para buscar a bola e fazer a saída de 3
Repare como o volante palmeirense afunda entre os zagueiros para buscar a bola e fazer a saída de 3 DataESPN

O clássico contra o Santos, no último domingo, nos mostrou uma outra face deste novo Palmeiras. Tendo que propor e ser protagonista nos jogos anteriores, justamente por enfrentar equipes menores, a equipe de Roger se viu pela primeira vez obrigada a alternar momentos com e sem a bola. O gol cedo foi decisivo para tal comportamento. Com seu 4-1-4-1, normalmente defendendo em bloco médio, o Verdão teve Felipe Melo compensando espaços e coordenando as alternâncias de pressão na bola na entrada do último terço do campo. Veja na imagem abaixo que, ao ver Marcos Rocha quebrar a linha para pressionar o adversário, Felipe já se posiciona no espaço entre o lateral e o zagueiro pela direita (Antonio Carlos).

Marcos Rocha quebra a linha e Felipe Melo se coloca no espaço aberto
Marcos Rocha quebra a linha e Felipe Melo se coloca no espaço aberto DataESPN

O movimento de Felipe Melo vai sempre acontecer com a bola como referência. De acordo onde está a posse do adversário, ele flutua com a equipe, sendo uma importante peça para quebrar e impedir bolas entrando entrelinhas, nas costas de Lucas Lima e Tchê Tchê. Na ilustração abaixo fica fácil ter uma noção dessa movimentação de um lado para o outro, que é o que se exige do volante que atua sozinho à frente da linha defensiva. Inclusive já escrevi aqui no blog sobre essa função, que é de muita complexidade no futebol atual. Clique aqui e veja.

Perceba na ilustração como a referência posicional do volante se dá pelo local da bola e alinhado à linha defensiva
Perceba na ilustração como a referência posicional do volante se dá pelo local da bola e alinhado à linha defensiva DataESPN

A experiência de Felipe Melo em grandes centros na Europa contribuiu muito para estas leituras citadas acima. Tanto na Internazionale quanto na Juventus ele atuou nesta função com certa regularidade. Apesar das variações de plataformas de jogo, às vezes até com um outro volante ao seu lado, esteve sozinho com meias à frente em diversos momentos. No Galatasaray, apesar do 4-2-3-1 mais fixo usado na época, também contribuía com movimentos similares.     

Infelizmente ainda vemos o futebol no Brasil sob a ótica da individualidade. Temos conosco a ideia de que o craque resolve e não a organização. Felipe Melo é só um dos milhares de exemplos neste esporte que comprovam que a individualidade tem que servir o coletivo. E quando isso acontece, o talento é potencializado e decisivo. Então, antes de gostar ou não de algum jogador, busque observar o seu em torno. Às vezes tudo que o rodeia não ajuda. 

Acontece toda hora...


Me siga no Twitter: @rnato_rodrigues

Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Variação de sistema, mais jogo curto e presença ofensiva: como funciona o "novo" Atlético de Diego Simeone?

Renato Rodrigues
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Fonte: Renato Rodrigues

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Por que o gol da vitória do São Paulo sobre o Flamengo vai muito além do erro de Hugo Souza?

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Sai Coudet, entra Abel: quais as consequências de tais mudanças no Internacional?

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Messi x Benzema: veja a função e a movimentação das estrelas de Barça e Real para o esperado El Clásico

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Fonte: Renato Rodrigues

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Como Guardiola usou o "modo Arteta" para fazer o Arsenal cair em sua armadilha? Confira a análise

Renato Rodrigues
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Nesta análise você vai entender como Guardiola usou uma qualidade de Arteta contra ele para vencer o clássico no Etihad Stadium, por 1 a 0, no último sábado, em jogo válido pela Premier League. Assista:



Fonte: Renato Rodrigues

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Otero e Cazares podem jogar juntos? A possível formação do Corinthians

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Fonte: Renato Rodrigues

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As 'pressões quebradas' e os contra-ataques do River: como São Paulo sucumbiu em Buenos Aires?

Renato Rodrigues
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Fernando Diniz divide opiniões sobre seu trabalho no São Paulo
Fernando Diniz divide opiniões sobre seu trabalho no São Paulo []

Análise das principais dificuldades do São Paulo na derrota para o River Plate, por 2 a 1, em Buenos Aires, que acabou eliminando o time do Morumbi da próxima fase da Copa Libertadores:


Fonte: Renato Rodrigues

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Qual foi a estratégia do Grêmio para sair do "desconfortável" primeiro tempo contra a Universad Católica?

Renato Rodrigues
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Renato Gaúcho comemorou muito a vitória Grêmio
Renato Gaúcho comemorou muito a vitória Grêmio Grêmio

Depois de fazer um primeiro tempo ruim dentro de casa, o Grêmio conseguiu se recuperar na segunda etapa e vencer a Universidad Católica por 2 a 0, na última terça-feira, e garantiu sua classificação para as oitavas de final da Copa Conmebol Libertadores. Ao fim do jogo, Renato Gaúcho afirmou que precisou fazer ajustes táticos no intervalo para sair do "desconforto" que os chilenos criavam. Veja na análise em vídeo quais medidas foram tomadas:

Fonte: Renato Rodrigues

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Como Pedro, além do gol, ajudou o Flamengo a sair de Guayaquil com os três pontos na Libertadores?

Renato Rodrigues
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Pedro comemora gol do Flamengo sobre o Barcelona na Libertadores
Pedro comemora gol do Flamengo sobre o Barcelona na Libertadores Getty

Muito mais que o primeiro gol da vitória por 2 a 1 contra o Barcelona-EQU, nesta terça-feira, pela Conmebol Libertadores, Pedro foi peça importantíssima para o Flamengo voltar para o Rio de Janeiro com os três pontos. O centroavante trabalhou bem no pivô e ajudou a sua equipe a "sair de trás" muita vezes.

Assista à análise:

Fonte: Renato Rodrigues

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Como explicar a 'pane' do Flamengo na Libertadores? Veja a análise das falhas graves do 5 a 0 em Quito

Renato Rodrigues
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Gabigol e Bruno Henrique reclama durante Independiente del Valle 5x0 Flamengo
Gabigol e Bruno Henrique reclama durante Independiente del Valle 5x0 Flamengo Getty

Em mais um DataESPN de casa, mostraremos como em dois gols conseguimos explicar quase todos os problemas do Flamengo na derrota por 5 a 0 para o Independiente Del Valle, em Quito, na última quinta-feira, pela Copa Conmebol Libertadores:

Fonte: Renato Rodrigues

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A construção de Dome: quais ideias o treinador já instaurou no Flamengo e quais são os ajustes necessários?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Com o DataESPN totalmente de casa, analisei as ideias de Domenec Torrent que começaram a surgir nos últimos jogos. Como ataca, como defende, pontos fortes e onde o catalão ainda precisa fazer ajustes. Assista o vídeo:


         
     

Fonte: Renato Rodrigues

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O desempenho de Neymar na final da Champions e as diferentes formas de se olhar para o jogo

Renato Rodrigues
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Neymar ficou sem o título da Champions League em 2019-20
Neymar ficou sem o título da Champions League em 2019-20 Getty Images

O Bayern de Munique, que se mostrou mais forte coletivamente nos últimos meses, levou a UEFA Champions League contra o PSG. Apesar do equilíbrio no confronto que terminou 1 a 0, no último domingo, a conquista foi bastante merecida dado ao nível de jogo que os bávaros apresentaram sob o comando de Hans Flick e dentro da própria decisão no Estádio da Luz.

Mas como em qualquer fracasso, a missão número 1 de nós brasileiros veio à tona: achar um culpado. E não poderia ser diferente que Neymar seria um dos alvos perfeitos para descarregar a fúria da caça às bruxas. 

Exista também quem tente o defender. Enfim, não podemos negar que o astro divide amor e ódio por onde passa. Mas vamos tentar olhar tudo isso de uma maneira mais fria e racional.

O ponto principal para olharmos para o que foi a atuação de Neymar na final em Lisboa é o posicionamento dele escolhido por Thomas Tuchel. Questão, inclusive, que passou a ser uma crítica a seu treinador após o duelo.

O brasileiro atuou centralizado no ataque ao lado de Mbappé (pela esquerda) e Dí Maria (pela direita) como vemos na foto tirada do jogo logo abaixo. 

Na imagem vemos com Tuchel escalou seu ataque: Dí Maria na direita, Neymar por dentro e Mbappé pela esquerda
Na imagem vemos com Tuchel escalou seu ataque: Dí Maria na direita, Neymar por dentro e Mbappé pela esquerda DataESPN

"Mas como assim?". "Neymar não é centroavante". "Esse treinador dele fez m...". Definitivamente, não é bem assim.

Ao analisar um jogo ou o desempenho de uma equipe/jogador, busco partir sempre do princípio de entender a ideia por trás da escolha. O que o treinador quis a partir daquela decisão. Para aí sim não apenas definir se foi certo ou errado, mas sim tentar entender se fazia sentido a escolha e se ela deu certo ou não no fim das contas.

No caso de Neymar como centroavante: a ideia fazia sentido. Pelo menos na minha interpretação, Thomas Tuchel quis, além de deixar sua principal referência técnica com o mais liberdade possível para se mover, também evitar desgaste físico de Neymar. Deixá-lo inteiro para quando a bola chegasse até ali para corridas em velocidade e duelos de 1x1.

Outro aspecto importante para deixar o brasileiro centralizado foi usá-lo no limite da linha defensiva do Bayern, que joga sempre muito alta e que mostrou alguns problemas com adversários anteriores. O gol do Barcelona, por exemplo, sai de uma infiltração de Jordi Alba neste exato cenário. Então está mais que comprovado que a ideia fazia sentido e que o treinador não foi tão imprudente assim. Mais que isso, estudou seu rival e planejou uma estratégia em cima de suas características.

A desolação de Neymar, vice-campeão da Champions League

A execução por outro lado, não saiu dentro do esperado. E muito por conta do que o próprio Bayern impôs no confronto. Para se lançar essa bola em profundidade por trás da defesa, o PSG precisaria, pelo menos por alguns instantes, ter situações que não tivesse tanta pressão na bola, para justamente alguém levantar a cabeça e enfiar essa bola no espaço. 

Mas isso pouco aconteceu. Os bávaros dominaram o confronto no aspecto físico. Pressionaram a bola freneticamente durante os 95 minutos de futebol em Lisboa. A saída de bola do PSG foi nitidamente quebrada por essas subidas de pressão e impactou muito no desempenho de Neymar e seus companheiros de frente, que também estiveram posicionados para receber essa bola nas costas da defesa durante boa parte do confronto.

Com isso, Neymar passou a receber bolas, muitas vezes, de costas para o gol, como na imagem abaixo. Aí sim um cenário totalmente desconfortável para ele, que tem como forte jogar de frente, arrancando e superando adversários no drible. Com os zagueiros usando a força física e encurtando, pouco rendeu o brasileiro que, com o passar do tempo, foi se irritando e recuando de forma significativa para tentar pegar a bola. Aí, com muitos metros longe do gol, ficou mais difícil atingir seu objetivo.

Neste lance, Neymar recebe a bola de costas, com o zagueiro pressionando
Neste lance, Neymar recebe a bola de costas, com o zagueiro pressionando DataESPN

Ao decorrer da partida, Tuchel jogou Neymar para a esquerda na tentativa de ajustar a equipe e sua influência nas ações ofensivas do PSG cresceu. Mesmo assim, não foi uma noite muito brilhante do camisa 10, que tomou decisões ruins e tem sua parcela de culpa em seu desempenho. Chorou e sentiu o baque de uma derrota dolorida. Traz consigo uma série de erros na sua trajetória no futebol, mas sente uma noite triste como qualquer ser humano.

Mais que isso, deixa também uma lição importante: que existem diversas formas de olhar para o jogo e entender os porquês dele. E dá sim para criticar personagem e questionar as decisões dele, mas podendo fazer isso de forma honesta e respeitosa. Assim só o futebol triunfa.

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Sai Boselli, entra Jô: Renato Rodrigues analisa diferenças com a troca de centroavantes no Corinthians

Renato Rodrigues
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Fonte: Renato Rodrigues

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O São Paulo do 'falso controle'

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Fernando Diniz divide opiniões sobre seu trabalho no São Paulo
Fernando Diniz divide opiniões sobre seu trabalho no São Paulo []

O São Paulo protagonizou uma eliminação dura na noite desta quarta-feira, no Morumbi. Sucumbiu frente a um Mirassol valente e organizado (3 a 2), mas que perdeu 8 jogadores titulares durante a pausa da pandemia. Mais do que isso, mostrou problemas estruturais e de escolhas que pairam no clube nos últimos anos e que, mais uma vez, questiona as diretrizes de uma direção pressionada.

E a queda nas quartas de final do Campeonato Paulista se torna ainda mais dura pelo fato de o Tricolor ter sido a equipe mais promissora entre as grandes antes da parada. Muito por demérito dos seus rivais, que não decolaram, mas com pontos positivos e, principalmente, mostrando certa ascensão em cima das ideias de Fernando Diniz. Alguns velhos problemas, no entanto, sempre estiveram ali e vieram à tona.

Tentar entender a situação que o São Paulo se encontra hoje e nos últimos anos requer mais do que achar um culpado. Trata-se de muitas variáveis, um contexto extremamente complexo que vai do campo à direção. Das escolhas, seja para o comando técnico ou escalações, e também uma questão de identidade, raramente vista na última década.

Se olharmos para dentro de campo, para as últimas atuações em si, talvez a palavra que mais me venha à cabeça é controle. Ou melhor, falso controle. Por isso o título do post.

Controle talvez seja uma das coisas mais preciosas que se tenha no futebol. E justamente pelo fato de ninguém tê-lo 100% dentro do campo de jogo. Mas é quase que uma unanimidade: quanto mais controle você tem, mais perto da vitória está. Por isso, trabalha para maximalizá-lo. Tentar ter nas mãos o máximo da narrativa do confronto, antecipando e neutralizando movimentos.

A expressão controle no futebol também vai muito além de ter ou não a bola. Mais uma vez não entrarei no discussão de melhor vs pior ou mesmo bonito vs feio. Mas é fato que existem formas e formas para se dominar um adversário. Para ser mais simples e direto: com ou sem a bola. E por isso é importante contextualizar toda essa perspectiva para entender esse São Paulo de Fernando Diniz.

 

Problemas estruturais



Jogadores do São Paulo antes de jogo contra o Mirassol, pelo Paulista
Jogadores do São Paulo antes de jogo contra o Mirassol, pelo Paulista Rubens Chiri/São Paulo FC

Não precisa ser amante das táticas para entender qual tipo de jogo Fernando Diniz pratica e quer praticar. Quem o contrata também sabe para o que é. Definitivamente essa não deveria ser uma crítica ao treinador. O ponto aí é: como executar todas essas ideias? E é aí que os problemas acabam expostos.

Vamos começar pela fase ofensiva, momento em que a equipe tem a bola. O fato de querer ter a bola, de ser protagonista no jogo é, sim, elogiável. A saída de bola, por exemplo, tem mecanismos bem estabelecidos a meu ver. O time flui nesta etapa de construção. A ideia de ter Tchê Tchê e Dani Alves por ali, se revezando, nessa iniciação, tem bastante lógica.

Mas é quando a bola chega perto do terço ofensivo que as coisas não encaminham bem. Vemos números de 20, 25, 30 finalizações em alguns jogos... Números frios que, por vezes, podem nos trazer uma falsa métrica. Mas quantas chances realmente foram cristalinas? Quantas partiram de uma finalização que nem deveria ser feita? Em quantas existia pressão na bola? Quantas no alvo? Quantas para fora?

Essa é uma impressão recorrente acerca deste São Paulo. Uma equipe que tem volume ofensivo, mas que não tem consistência, “punch”, nas ações com bola. E isso tem a ver com a filosofia também.

Um time que tem a bola, mas, do meio para frente, parece um pouco aleatório em seus movimentos. Uma espécie de “movimentem-se!”, mas não necessariamente como. Uma liberdade mal programada, extremamente intuitiva e que acredita no talento dos seus jogadores. Obviamente que não explorar suas qualidades seria um erro. Engessar a estrutura não é o caminho, mas o ideal seria sair do extremo. Criar situações e padrões que potencializassem essas qualidades, já que o São Paulo tem isso no elenco.

Mas não, esse livre caos, sem alguma lógica, traz a falsa sensação de controle. Porque ele não se resume a gols necessariamente. E acaba empilhando jogadores num mesmo setor, confundindo posições e funções.

Uma questão muito nítida contra o Mirassol foi a falta de “abrir o campo”. Não que isso seja uma regra. Mas foi perceptível que todos os jogadores se concentravam por dentro, fazendo exatamente o que o adversário queria. Com jogadores um pouco mais na amplitude, talvez espaços pelo centro seriam melhor utilizados. Ou mesmo trocas de lado, para gerar desequilíbrio. Mas o que vimos foram dois laterais jogando na base, com abrindo pouco o campo e dando quase nada de profundidade.

Sem a bola, os problemas ficam muito em cima das transições defensivas, momento da famosa recomposição. É bem verdade que, antes da parada, o São Paulo mostrava certo crescimento neste sentido e sofria cada vez menos nos contra-ataques. Mas esse é um ponto negativo que acompanha o trabalho de Fernando Diniz em outros clubes. O que deixa, muitas vezes, o jogo aberto, sempre a um passo de escorrer das mão. O tal do controle que tanto falo.

Momento em que o São Paulo disputa e perde 1ª e 2ª bola antes do gol do Mirassol: não existe linha defensiva
Momento em que o São Paulo disputa e perde 1ª e 2ª bola antes do gol do Mirassol: não existe linha defensiva DataESPN

Os dois primeiros gols sofridos na noite desta quarta-feira, principalmente, não podem acontecer num nível de competitividade que o São Paulo joga. O primeiro, de um escanteio sem rebotes, e um jogador se aproveitando de todo um espaço por trás da marcação. O segundo, perda de segunda bola e time totalmente desequilibrado para sofrer o ataque rápido. Essa transição descoordenada custou caro. Jogar bem é defender bem também.

Mas todas essas falhas estruturais também passam por escolhas individuais.

 

Priorização do talento “sem fome”


Jogar no modelo de jogo que Fernando Diniz tenta implementar exige muito mais que qualidade técnica. Essa organização deve sempre partir do princípio da intensidade, seja com ou sem bola. Jogar com uma linha defensiva alta, com muitos espaços nas costas dos zagueiros, pede muita proatividade dos atletas no momento em que a posse é perdida. Com ela, a necessidade é de um jogo dinâmico, com passes rápidos e mais profundidade.

Não sofrer o contra-ataque está muito atrelado ao que você faz no momento em que perde a bola. E isso falta ao Tricolor. Por vezes nem por ausência de vontade mesmo, mas por características individuais dos atletas escolhidos. Pegando de trás para frente, partindo do ponto que o São Paulo vai pressionar alto, Vitor Bueno e Pato, por exemplo. Ninguém dúvida da qualidade técnica de ambos. Mas e no momento em que se é necessário reagir rapidamente e pressionar a bola “como se não houvesse amanhã”?. A dupla, definitivamente, não entrega agressividade. Não se encaixa no plano. Igor Gomes até tenta, mas também não é algo destacável nas suas características.

Pato em disputa de bola contra o Mirassol
Pato em disputa de bola contra o Mirassol Rubens Chiri (São Paulo FC)

Então vamos lá: se sua ideia é pressionar alto, ser agressivo lá na frente e asfixiar seu adversário, como fazer isso com três jogadores que não tem essas virtudes? Realmente é uma lógica que não faz sentido e que, por mais que funcione em jogos e jogos, uma hora outra pode estourar num contra-ataque letal. E nem que isso tenha sido um problema contra o Mirassol, mas essa bola saindo de uma primeira pressão é um problema.

Se instalar no campo do adversário também exige resistência, capacidade de se repetir movimentos. Joga, perde, pressiona, recupera, joga, perde, pressiona, recupera... Essa é a dinâmica necessária para fazer esse tipo de jogo ser efetivo. Outro ponto é a capacidade dos jogadores de lado percorrerem longas distâncias durante todo o jogo. Reinaldo e Juanfran, apesar de terem suas qualidades, estão longe de ser esses caras. Até por isso não geram amplitude/profundidade pelos lados. Deixa-se de abrir o campo e empurrar o adversário para trás, ganhando espaço entre os jogadores de defesa do rival e na entrada da área.

Por mais que Igor Vinícios e Léo tenham seus defeitos, os vejo com com essas características. Força e resistência para subir e descer, além da capacidade de se impor fisicamente nos duelos. As recentes atuações da dupla, aliás, também credenciam uma maior regularidade no time titular e, por suas particularidades, poderiam acrescentar equilíbrio ao time, principalmente sem a posse da bola.

É simples escolha. Você ganha de um lado e perde do outro. Juanfran e Reinaldo te trazem mais experiência e qualidade técnica, mas deixam a desejar em outros aspectos. É a mesma lógica com os laterais mais jovens. Mas vejo necessidade de mais fisicalidade neste São Paulo. E talvez seja um dos times com mais material humano no Brasil para poder mudar um cenário com seu próprio elenco. São muitos jogadores promissores vindo de Cotia para trazer qualidade com a bola e fome sem ela.

 

O dilema da demissão


A problematização sobre manter ou não Fernando Diniz no cargo não se trata de “passar pano” como muita gente tende a acusar. É o simples fato de entender ser uma escolha complexa. Justamente por ser algo feito com certa recorrência no clube nas últimas temporadas e que só jogou o clube ainda mais para trás. Por isso é uma decisão difícil.

Um dos grandes erros do time do Morumbi nesta década foi a falta de norte. Uma gestão técnica mais coerente. Já repeti isso algumas vezes. Escolhas para o comando técnico que iam de Bauza a Osório, Doriva a Jardine, Cuca a Jardine... Sem entrar no mérito da qualidade desses profissionais, que são capazes, mas sim no tipo de trabalho que cada um tentava propor. Extremos totais, fazendo com que o clube rompesse com linhas diversas vezes, e deixando de criar qualquer identidade que seja.

Presidente Leco e Raí tem dura missão pela frente
Presidente Leco e Raí tem dura missão pela frente GazetaPress

Ao apostar em Diniz, a diretoria são-paulina deu o recado que a linha que querem seguir é a mesma de Jardine, Rogério Ceni e Osório. Mas trocar agora seria em qual sentido? Romper de novo ou apostar mais uma vez nesse estilo? Quem escolher? Vão sustentar e apoiar a próxima escolha? São todas perguntas muito necessárias e difíceis de serem respondidas pelo histórico recente da atual administração.

Por mais que o baque dessa última eliminação tenha sido forte, vejo o São Paulo com problemas ajustáveis. E pelo próprio Diniz. Em questão de ambiente e condução de trabalho, as referências são as melhores. É um treinador trabalhador e preocupado com os detalhes, agregador e que tem o grupo ao seu lado. Resta saber o quão disposto ele está de se desprender de algumas convicções e tentar essa volta por cima.

Fonte: Renato Rodrigues

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O São Paulo do 'falso controle'

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Premier League: Renato Rodrigues analisa estilo de jogo e fala sobre título avassalador do Liverpool

Renato Rodrigues
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Fonte: Renato Rodrigues

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Alemanha x Portugal: intensidade de jogo é a grande diferença no futebol dos países no retorno pós-pandemia

Renato Rodrigues
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Alemanha x Portugal: intensidade de jogo é a grande diferença no futebol dos países no retorno pós-pandemia

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Efeito quarentena: psicologia esportiva ajuda na “gestão emocional” e busca referências até na vivência em submarinos

Renato Rodrigues
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Bruno Henrique lamenta após gol perdido pelo Flamengo
Bruno Henrique lamenta após gol perdido pelo Flamengo MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images

Em tempos de pandemia, onde praticamente toda a humanidade sofreu algum tipo de impacto direto em sua vida, o futebol passa por sua maior parada das últimas décadas. Uma rotina totalmente diferente para todos que cercam o esporte e, principalmente, para quem o pratica. Se os danos passam pela parte financeira, física e médica dos clubes, a mente não deixaria de ser um aspecto preocupante nessa ruptura tão brusca em nosso cotidiano.

No quarto episódio da série “Efeito quarentena”, o blog agora tenta traçar a realidade e o futuro da saúde mental dos atletas em meio ao distanciamento social. Para isso, ouviu especialistas do Brasil e da Europa para entender suas realidades e preocupações neste momento.

Clique - Episódio 1: treinadores e auxiliares se apegam à tecnologia

Clique - Episódio 2: como a preparação física tenta minimizar danos?

Clique - Episódio 3: médicos e fisioterapeutas usam protocolos de bem-estar

Obviamente que qualquer profissional do futebol está sujeito a ter adversidades a ser superadas neste aspecto, mas o jogador em si acaba se vendo em uma realidade totalmente diferente. E a psicologia, como mais uma das áreas estratégicas dos clubes, tem tentado minimizar os danos.

Acostumados a viver e trabalhar de forma muito coletiva desde muito jovens e cercados de pessoas em todos os momentos, seja com muitos amigos, companheiros de trabalho ou mesmo em estádios cheios, estes atletas agora se deparam com uma convivência extremamente limitada. Alguns, longe de parentes e do próprio país, acabam vivenciando tudo isso sozinhos.

E essa preocupação vai muito além dos seus clubes propriamente, mas sim de uma maneira geral da população. Por exemplo, a OMS, além de todo trabalho contra a Covid-19 envolvendo planejamento de pesquisas e protocolos, se mostra extremamente preocupada com a saúde mental da população, inclusive já prevendo aumentos significativos de casos de depressão ao redor do mundo. A FIFA, por sua vez, também se mantém atenta a estes casos. Por conta disso, vem alertando confederações e planejando ações para minimizar danos futuros.

- Os impactos ainda são cientificamente desconhecidos, dada a novidade da situação. Mas sabemos que situações de estresse prolongado podem incidir em uma baixa da imunidade, dificuldades de concentração e ansiedade. A própria ansiedade por si só pode trazer diversas outras complicações, como dificuldade de concentração, tomada de decisão, de descanso e até conflitos com outras pessoas – explica Maurício Pinto Marques que é doutor em Psicologia do Esporte pela Universitat Autònoma de Barcelona e atualmente atende atletas do futebol em consultório.

Os profissionais da área alertam muito sobre a necessidade de se abordar cada caso de maneira exclusiva, já que cada indivíduo tem a capacidade de lidar com problemas de maneira totalmente diferente. Até por isso, o impacto de todo este momento vai variar muito de jogador para jogador. A estrutura que tem em casa para se manter ativo, por exemplo, é algo que poderá ser decisivo. A quantidade de pessoas que lhe faz companhia durante o confinamento e até o nível financeiro que cada uma já atingiu na carreira são fatores para se levar em conta. Principalmente pelo fato de sabermos que, na realidade brasileira, os atletas com altos salários e em clubes grandes, são apenas uma parcela do mercado.

Uma das grandes surpresas da temporada 2019/2020 na Europa, o Levante tem contado com um trabalho minucioso em cima da saúde mental de seus atletas. O clube, que está longe de ser uma das potencias financeiras da própria Espanha, tem Juan Miguel Bernat com um de seus profissionais desta área. Em entrevista ao blog, ele conta como tem tentado ajudar os jogadores neste momento de muitas incertezas.

- Como qualquer pessoa hoje em dia, o jogador de futebol está sujeito a muitos questionamentos: o que acontecerá com a doença no futuro? Algum membro da família está doente? E o que vai acontecer com o meu contrato? A competição voltará? A incerteza gera inquietação e preocupação. Para aliviar esse desconforto, a gente tem orientado todos a seguirem alguns hábitos. Um deles é aceitar que você não pode agir e concentrar em tudo o que depende diretamente de você e em tudo o que você pode controlar. Manter-se atento às realidades do presente e não prever o que pode acontecer no futuro. Respeitar hábitos e rotinas, para ter certa estrutura no seu dia a dia – nos conta.

Psicólogo esportivo do São Paulo, Augusto Carvalho chama a atenção para aspectos até que não envolvem o futebol como algo para ajudar a controlar melhor as emoções. Essa “gestão dos pensamentos”, para o profissional, é muito importante.

- É fundamental que os atletas busquem gerenciar, de forma positiva, suas emoções. Os pensamentos influenciam nas emoções, sendo até determinantes para a resposta emocional do indivíduo, ao passo que as emoções influenciam na capacidade de agir e de tomar decisões. Assim, quanto melhor for a qualidade dos pensamentos e, consequentemente, das emoções, melhor será a forma como o atleta irá enfrentar a situação. Além da organização de uma rotina diária com estabelecimento de atividades e horários, uma boa alimentação e hidratação, é importante que eles desfrutem de momentos de lazer e diversão como brincadeiras em família, jogos educativos, videogame, filmes e leitura. São aspectos fundamentais para levar a vida de forma saudável – explica.

 

 

Busca por referências vai de submarinos a estações espaciais

Sergi Enrich, capitão do Levante, motiva seus companheiros durante jogo
Sergi Enrich, capitão do Levante, motiva seus companheiros durante jogo Juan Manuel Serrano Arce/Getty Images

Um dos grandes dilemas de área da psicologia esportiva neste momento, assim como qualquer outra, é a busca por referências já estudadas para aplicação. Criar protocolos e metodologias, por mais complexo que seja, acaba por ser muito importante nesta realidade de pandemia.

Por ser uma situação praticamente inédita a nível mundial, a busca por conhecimento acaba sendo feita em outros campos que, por mínimo que seja, tenha experiência semelhantes com as vividas pelo mundo esportivo atualmente. É o que tem feito o Levante que, ainda em busca de uma vaga inédita na próxima Champions League, destrincha saídas para cuidar da saúde mental de seus atletas e profissionais do futebol.

- No departamento de psicologia de alto desempenho da Levante UD, realizamos uma revisão bibliográfica de estudos científicos sobre como um estado prolongado de confinamento pode afetar psicologicamente. Esses estudos se referem ao trabalho em estações espaciais, submarinos ou mesmo estações polares. De acordo com alguns desses estudos (Liberman et al., 2005; Gunderson, 1966; Palinkas et al., 2000), processos como velocidade de reação e processamento, manutenção da concentração, capacidade de aprendizado, memória e humor, podem ser temporariamente alterados – afirma Juan Miguel Bernat.

Já Augusto Carvalho, que trabalha principalmente nas divisões de base do São Paulo, o conceito de “inteligência emocional” pode ser decisivo nas dificuldades recentes. Principalmente pelo fato de atletas e profissionais do futebol conviverem com a falta de prazos para o retorno à normalidade.

- Chamamos de inteligência emocional a capacidade do indivíduo de permanecer motivado e persistir em seus objetivos mesmo diante de situações adversas, mantendo o controle dos impulsos e impedindo que a ansiedade interfira na sua capacidade de raciocinar e de ser empático e autoconfiante.

- É, portanto, através da inteligência emocional que o indivíduo se percebe, consegue entender e gerenciar suas atitudes e consegue canalizar as suas energias e o seu foco para situações em que ele tem controle, de modo que não fique desperdiçando energia e tempo se preocupando com situações sobre as quais não tem controle. Como, por exemplo, a falta de prazo para retornar à rotina normal diante da atual pandemia – completa o psicólogo do Tricolor.  

Se treinadores e preparadores convivem cheio de dúvidas sobre a real situação física que os atletas retornaram para as atividades, o aspecto psicológico também deveria ser uma prioridade quando treinamentos e jogos forem liberados. Juan Miguel Bernat ressalta essa importância:

- Por isso, é muito importante poder ajustar as expectativas no retorno ao treinamento. Jogadores e treinadores devem estar cientes e assumir que levará tempo para retornar ao nível mostrado antes do intervalo. Seria altamente recomendável que, no retorno ao treinamento, fosse realizada uma avaliação psicológica dos jogadores.

 

A falta de competição para seres altamente competitivos 

O CT de Cotia é onde o São Paulo desenvolve suas categorias de base
O CT de Cotia é onde o São Paulo desenvolve suas categorias de base Rubens Chiri/São Paulo FC

Se tem algo que difere o atleta profissional para qualquer outra pessoa comum é a competitividade. E vivenciar isso desde tão cedo em qualquer esporte acaba por criar uma raiz muito grande em suas vidas, algo que passa a ser, sem nenhum exagero, parte da sua própria existência.

Agora vamos fazer um exercício: imagine cortar do nada algo que está extremamente entrelaçado com a sua essência como pessoa. Pense em algo essencial em sua vida, que você faz desde muito novo e que, sem nenhum aviso prévio, lhe tiram. Com certeza seria um trauma bastante significativo na sua maneira de ser.

- O atleta adora esportes e adora competição. Faz isso desde sempre. Ele gosta de desafiar a si mesmo, superar os rivais e superar a si mesmo. Nesta situação, o jogador pode continuar praticando esportes, mas fica sem a possibilidade de competir e, portanto, sem uma de suas motivações fundamentais da vida – afirma Juan Miguel Bernat.

Para o profissional do Levante, existem maneiras de se diminuir estes abalos que os atletas de alto rendimento têm sentido na pele. Um deles é ressignificar suas motivações. Manter o foco no que faz hoje para colher frutos num futuro próximo.

- Existem maneiras de aliviar a ausência de concorrência. O jogador de futebol deve estar ciente de que, embora ele não veja seu rival, ele está competindo contra ele todos os dias. O atleta deve estar ciente de que seus rivais estão na mesma situação e que pode "tirar vantagem” hoje em dia. Assim retornaria aos jogos com uma vantagem competitiva sobre o rival – explica.

O espanhol também chama a atenção para a necessidade de um trabalho em conjunto das áreas do futebol neste momento. Bernat afirma que cabe aos profissionais de preparação física, por exemplo, passar exercícios que também estimulem os jogadores na parte mental.

- Outro fator a ser levado em consideração é que, durante as sessões de treinamento do dia a dia normal, pré-pandemia, o jogador de futebol não apenas trabalhava o corpo, mas também estava sujeito a uma carga cognitiva significativa, devido ao grande número de estímulos aos quais ele deve comparecer. Embora eles agora continuem treinando em casa, se a equipe técnica não fornecer uma carga cognitiva considerável, o jogador poderá cansar mentalmente. E isso pode afetar o sono, a presença pensamentos negativos... É interessante, portanto, que essas áreas mais técnicas forneçam uma carga cognitiva aos jogadores, por exemplo, com a análise de sua estação, seus pontos de melhoria, de rivais... – conclui Juan Miguel Bernat.

 

Indecisão e pressão para a volta dos jogos podem impactar

Ayoze Perez reage após perder gol pelo Leicester
Ayoze Perez reage após perder gol pelo Leicester LINDSEY PARNABY/AFP via Getty Images

O fato de não saber o que vem pela frente talvez seja o grande problema de todos que habitam o planeta neste momento. Evidentemente isso não deixaria de ser uma preocupação dos jogadores de futebol e profissionais que vivem do esporte. E está nessa indecisão o maior problema para lidar nos dias atuais.

A pressão de confederações e, por vezes, do próprio clube também acabam sendo um complicador para a saúde mental dos atletas. É o que destaca Maurício Pinto Marques que recentemente teve passagens pelo futebol em trabalhos pelo Coritiba e Aimoré-RS.

- Estamos vendo a primeira grande liga retornando, na Alemanha, em um país muito menor e menos prejudicado que o nosso. Ninguém sabe realmente o que esse contexto pode trazer para a saúde mental de todos envolvidos. Não só dos atletas, mas de comissão técnica, dirigentes... Cada um realmente é um sistema que envolve muitas pessoas.  O futebol movimenta muitas pessoas. Te pergunto: como estão os jogadores do Flamengo sabendo que tem mais de 30 pessoas do seu entorno direto contaminadas? Eles podem se expressar? – questiona o psicólogo do esporte.

- Infelizmente há poucas equipes no Brasil com psicólogos no plantel profissional, que conhecem os atletas e tem um vínculo já estabelecido para que eles possam trazer suas questões. Nesse ponto o Brasil ainda está no passado – adverte.

O pós-pandemia, sem dúvida alguma, é uma das preocupações não só da área da psicologia esportiva, mas de todas as outas. Mas, olhando para o âmbito mental do jogo, algumas mudanças podem ser avistadas, pelo menos num primeiro momento.

Situações cognitivas relacionadas ao jogo podem causar impactos não só na confiança dos atletas, mas também nas escolhas durante as partidas. O fato do longo tempo inativo, sem receber os devidos estímulos de um jogo de futebol competitivo, pode prejudicar ações técnicas consideradas até simples.

- Em relação aos aspectos psicológicos, acredito que alguns atletas poderão apresentar mais ansiedade e insegurança, enquanto outros poderão apresentar mais vontade, determinação e motivação – tudo vai depender de como cada um está encarando o período em que estamos vivendo hoje. E essas questões psicológicas, por influenciarem na tomada de decisão, podem afetar a relação do jogo em si – afirma Augusto Carvalho.

Bastante atualmente nas categorias de base do São Paulo, mais especificamente no CT de Cotia, o profissional também ser impossível separar o aspecto psicológico do jogo de outras vertentes. Ele explica como todas essas áreas estão relacionadas para atletas atingirem o alto rendimento.

- O comportamento dos atletas no jogo é influenciado pelas questões físicas, técnicas e táticas, sendo que os aspectos psicológicos se relacionam a todo momento com tais questões, influenciando e sendo influenciados. Ou seja, a capacidade física e os aspectos técnicos e táticos influenciam e são influenciados, a todo momento, pela condição psicológica do atleta. Daí porque é imprescindível que o desenvolvimento de todas essas habilidades (físicas, técnicas, táticas e psicológicas) seja constante e simultâneo na vida dos atletas – termina.

Fonte: Renato Rodrigues

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Efeito quarentena: da preocupação com o sono dos atletas até as orientações de saúde, medicina e fisioterapia adaptam abordagem

Renato Rodrigues
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Neymar recebe atendimento no PSG, que conta com o brasileiro Bruno Mazziotti como fisioterapeuta
Neymar recebe atendimento no PSG, que conta com o brasileiro Bruno Mazziotti como fisioterapeuta Getty Images

Enquanto a área da saúde é a mais impactada em todo o planeta por conta da pandemia do novo Coronavírus, dentro do futebol, médicos e fisioterapeutas também experimentam um novo dia a dia, com preocupações e processos diferentes que o habitual. Da mudança nas orientações à atletas e familiares até a preocupação com o sono dos mesmos, tanto para tratar como prevenir lesões, estes profissionais vão se adaptando dependendo das novas demandas e rotinas.

No terceiro episódio da série “Efeito Quarentena”, toda semana aqui no blog, vamos abordar as transformações dentro da área da saúde dos clubes. Buscar entender que tipo de adaptações estes especialistas precisam ter neste momento e, principalmente, como ser eficiente e influente neste processo de manter elencos, comissões e até parentes saudáveis.

Clique - Episódio 1: treinadores e auxiliares se apegam à tecnologia

Clique - Episódio 2: como a preparação física tenta minimizar danos?

Talvez o primeiro ponto que vem a cabeça do torcedor comum seja a questão de algum atleta lesionado. Como fica o problema? Como recuperar problemas mais sérios? Como praticar medicina/fisioterapia sem ter o “paciente” por perto? Pois bem, acaba por ser um novo desafio, visto não só no esporte, mas na sociedade em geral. A ferramenta, como todos nós temos abusado nos últimos tempos, são as chamadas de vídeo.

Apesar de boa parte do trabalho feito de maneira online, existem sim as exceções. E neste momento, a medicina acaba por correr seus riscos, como todos os profissionais de Hospitais, por exemplo, têm corrido.

- É tudo muito novo. Mesmo para nós da área médica. A gente nunca tinha passado por algo parecido. Estamos tentando, acima de qualquer coisa, seguir as recomendações dos especialistas. Estamos aguardando as próximas definições. Enquanto isso, estamos totalmente à disposição dos atletas, mas tudo online. Caso exista a necessidade, claro, estaremos presencialmente também. Não teria problema a gente se deslocar dependendo do caso, estamos ali para isso. Desde que se respeite os cuidados necessários com segurança e EPIs. É um momento de adaptação, a gente tem que se cuidar, mas ao mesmo tempo se proteger também. É uma responsabilidade grande – afirma o Doutor José Sanchéz, médico do São Paulo, em contato com o blog.

O fato de não estar com o jogador como normalmente acontece, impacta também na área de fisioterapia, já que a comunicação e monitoramento são imprescindíveis para recuperar lesões. Principalmente no momento das orientações de movimentos e exercícios.

Com passagens por Corinthians, Flamengo e Seleção Brasileira, Bruno Mazziotti agora vive essa nova realidade de quarentena na Europa. Atualmente no PSG, o fisioterapeuta chegou a Paris para ajudar na construção de todo processo da área de saúde do clube.

- Há uma preocupação das entidades esportivas de como manejar os nossos atletas, principalmente porque a gente não tem um precedente de ficar tanto tempo sem atividade. É difícil imaginar um desfecho. Dentro da minha realidade eu tenho atletas que se machucaram e que continuam num processo de reabilitação. Temos feito o trabalho através de vídeo. O que eu posso dizer é que essa é uma demanda que a medicina e todas as áreas da saúde começaram a descobrir melhor. Principalmente esse tipo de atendimento sem colocar as mãos no paciente, que chamam de “handsoff”. Então é uma oportunidade também de lidar com coisas novas. Logicamente que temos de ter cuidados para não pesar na dosagem dos trabalhos e na complexidade dos exercícios – explicou Mazziotti.

Apesar de ir “se virando como podem”, estes profissionais deixam claro que o cenário está bem distante do ideal. E mais, o tratamento, ou reabilitação, depende muito do tipo de lesão e o estágio que cada atleta está.

- Cada caso é um caso. Temos que ver as características das lesões, o nível de complexidade, se tem cirurgia ou não. Lógico que o ideal é manter pelo menos uma ou duas vezes esse atendimento de forma presencial. São patologias, lesões que precisam de mais cuidado. O ideal é um semi-presencial. Usar o teleatendimento online, ir dosando as coisas. Tem alguns cuidados que não tem muito jeito, precisam ser presenciais. Agora, casos menos graves, de repercussão pequena, muda um pouco. Entorses e lesões musculares, por exemplo, você consegue manter esse tipo de auxilio de longe – completa o profissional do clube francês, que lida com estrelas como Neymar, Cavani, Di Maria e outros no seu dia a dia.

No caso do médico em si, a rotina acabou mudando bastante se tratando da pandemia. Se antes as preocupações eram com avaliações de lesões e cirurgias, agora a atenção acaba sendo dada totalmente às orientações de como agir em meio a este caos na saúde. Para o Doutor Sanchéz, o foco mudou nas questões de novos hábitos para se proteger.

- Eu como médico do clube, não muda muito. Mas médico é médico em qualquer lugar. Estamos no meio de uma pandemia, temos que estar a postos e cuidar. Além das orientações ligadas a área esportiva, temos que buscar estar sempre orientando a todos sobre os novos hábitos. Isto tem sido a parte mais importante. Com relação a prevenção, até pensando nos seus familiares. É preciso ter atenção agora. Isso tudo está impactando muito a nossa sociedade. Então temos que ficar muito atentos – conta o médico do São Paulo.

 

 Olho na prevenção pensando na volta do futebol

Bruno Mazziotti chegou ao PSG para ajudar no departamento de saúdo do clube
Bruno Mazziotti chegou ao PSG para ajudar no departamento de saúdo do clube Getty Images

A expectativa de quando os jogos poderão ser disputados de novo é grande de todos os lados. Desde os torcedores até comissões e jogadores. Apesar de a maioria dos países ainda viver uma indecisão com relação a datas e prazos - na França a Ligue 1 foi encerrada e na Alemanha existe a possibilidade de volta nas próximas semanas) -, as áreas médicas dos clubes, além de tratar lesões, têm trabalhado muito no sentido de prevenir futuros problemas.

Cientes de que podemos viver os próximos anos de calendários apertados e jogos atrás de jogos, todo planejamento neste momento por fazer a diferença lá na frente, mesmo que o cenário ainda seja bastante nebuloso para quase todas as áreas.

Para Bruno Mazziotti, o resultado de toda a mobilização feita neste momento só poderá ser colhido quando as atividades regressarem, já que todos eles poderão avaliar individualmente cada jogador. Para o fisioterapeuta do PSG, toda a área médica poderá aprender bastante com os impactos do atual cenário.

- Essa questão de prevenção a gente só vai saber se deu resultado depois que tudo isso passar e a gente se reapresentar. A gente não sabe quando vamos restabelecer uma rotina. Eu nem falo em vida normal porque eu acho não dá para comparar o que é normal com o que a gente espera no futuro. Eu estou muito curioso para entender esse desfecho. Até porque já estamos mais de dois meses parados. Os atletas, em situação de férias, ficam 30 dias corridos sem atividades específicas. E esse período pode nos trazer aspectos interessantes, desde o positivo até o negativo. Mas isso é algo que nós da área de performance e saúde vamos ter que trabalhar e entender melhor – afirma.

 

O bom sono segue sendo importante: PSG mantém monitoramento

 Se a grande missão dos departamentos médicos e de fisioterapia dos clubes é tratar e manter jogadores saudáveis para um futuro próximo, o aspecto mental também é uma preocupação e tem sido acompanhado de perto (inclusive entraremos mais neste assunto no próximo episódio). Mas a relação com o sono segue sendo uma preocupação para estes profissionais.

Cientificamente comprovado que ajuda a tratar e, principalmente, prevenir lesões, a qualidade do sono é algo bastante monitorado dentro do PSG. Com protocolos diários de bem-estar, onde se é abordado essa parte do descanso, o clube de Paris mantém acompanhamento mesmo sem a rotina de jogos e treinos.

- A gente já acompanha muito essa questão de stress e saúde mental dos atletas no PSG com os questionários de bem estar que temos como protocolo no clube. Isso é feito quase que diariamente. Até para estudar bem as cargas de treinos e jogos.

- A qualidade do sono é questionada, já que ela tem um papel importantíssimo na prevenção e tratamento de lesões. Sabemos que alguns hormônios são liberados só na fase mais profunda do sono. E existe uma relação forte com a quantidade e qualidade do sono. Sabemos que os atletas que dormem menos têm mais possibilidades de ter lesões musculares. Então é algo que a gente está procurando avaliar também – completa Bruno Mazziotti.

O fisioterapeuta brasileiro explica também que estes protocolos são feitos com um maior espaçamento, partindo de diário para semanal, até para não ficar muito em cima dos atletas na atual situação. Mazziotti ainda conta que não é uma abordagem restritamente feita por membros da área da saúde, mas que outros profissionais do departamento de futebol ajudam coletar essas informações.

- Tentamos sempre explicar que é uma monitoração e não um controle do sono deles. Temos que ter cuidado com isso, já que tudo que é novo acaba trazendo essa sensação ruim, até de controle mesmo. De parecer que você está invadindo a intimidade do atleta, mas é algo importante hoje em dia. A gente tem tentado atuar forte nisso dentro do nosso clube e estamos acompanhando isso por conversas com eles. Tentando entender se existe a necessidade de uma intervenção, de tentar uma conversa por plataformas para alguma informação mais precisa. E tentamos trabalhar isso em conjunto. Alguns profissionais do clube que têm mais acesso a esse ou aquele jogador, até por questão de empatia, também fazem. Essas informações seguem sendo coletadas de maneira controlada – afirma.

Com reconhecimento internacional da área de fisioterapia e prevenção de lesões, inclusive com o trabalho de longa data realizado com Ronaldo Fenômeno, Mazziotti faz muita questão de bater na tecla do que vem no futuro com relação a sua área. Mais que isso, aponta também uma oportunidade para todos do futebol refletirem sobre o que vem sendo feito e como agir daqui para frente.

Questionado como tem sentido que os jogadores estão lidando com todas essas mudanças repentinas e severas em suas rotinas, ele conta que no geral eles têm recebido bem as orientações, mas que também é um momento de cada um fazer sua parte.

- Eles (jogadores) são profissionais, entendem a realidade e o que se espera deles. Principalmente aqueles que ainda terão calendário pela frente. Logo que tudo isso se resolver a gente vai precisar desvendar muitas coisas, todo o mistério por trás de um acontecimento que impactou tanto a humanidade. Não só no lado físico e médico, mas também mental. Tudo isso nos dá a chance de olhar para tudo de maneira diferente, de buscar outras alternativas. Poderemos avaliar esse acompanhamento mais distante, entender o próprio senso dos atletas. Vai colocar em prova várias questões que temos como verdade até o dia de hoje. Eu acredito que, dentro deste cenário, deveríamos refletir e se preocupar de como vamos agir daqui para frente – pondera o fisioterapeuta.   

 

 Vale a pressão para retornar os jogos logo? 

Dr. Sanches, médico do São Paulo, está há mais de 3 décadas no clube do Morumbu
Dr. Sanches, médico do São Paulo, está há mais de 3 décadas no clube do Morumbu Getty Images

Apesar de ver o número de mortos passar de 8 mil nesta quarta-feira, o cenário brasileiro é de pressão de algumas partes para que o futebol retorne. Mesmo batendo recordes atrás de recordes de óbitos diários nos últimos dias, alguns clubes entram num processo de volta às atividades. Estudam fórmulas e protocolos de, ao menos, liberar seus CTs para treinamentos.

Por se tratar de uma pandemia dentro de um país com dimensões continentais, obviamente que cada cidade convive com uma realidade, umas mais duras outras ainda em processo de crescimento das notificações da doença. Até por isso, as federações tem tratado internamente com seus governos planos para a volta do futebol. Os estaduais, por enquanto, seguem sem um destino traçado e a única vontade é de que eles sejam terminados.

Na cidade de São Paulo, o combinado em última reunião é que, quando se tiver a autorização para voltar aos treinamentos, ela será para todos. Ou seja, todos os clubes passaram a se preparar na mesma data, tirando qualquer tipo de vantagem esportiva da discussão. Algo que considero bastante correto, aliás.

Segundo o Doutor José Sanchez, médico do São Paulo há mais de três décadas, o seu clube não tem nenhuma intenção de pressionar autoridades para a volta das partidas. Ao contrário disso, mesmo não sendo um especialista da área de infectologia, por exemplo, o profissional deixa claro que todos no Morumbi só agirão de acordo com as orientações dos especialistas.

- Obviamente que não é minha área de atuação, mas o que posso dizer é que no nosso clube, o São Paulo, não tenho sentido essa pressão de voltar a jogar a qualquer custo. Estamos acompanhando atentamente as informações vindas das autoridades confiáveis. De acordo com o que se coloca, sobre flexibilização ou não desse isolamento, a parte diretiva, junto com o departamento médico, vai tomar as medidas para um possível retorno. Na verdade, os atletas estão acompanhando a distância tudo isso. Difícil falar o que estão sentindo agora com relação a essa pressão de voltar, mas nós estamos tomando medidas de acordo com que as autoridades sanitárias nos passam – afirma.     

Para Bruno Mazziotti, que se sagrou campeão francês mais uma vez pelo PSG por ordem do governo, que não autorizou o término da Ligue 1, é difícil projetar algo para o futuro neste momento. Muito pela velocidade que as informações mudam de acordo com o crescimento da pandemia. Para ele, no entanto, é hora de se apoiar na ciência para qualquer decisão.

- São muitas variáveis. Só o futuro vai nos dizer. O que a gente está falando neste momento pode mudar daqui alguns dias. Se falarmos algo ao contrário disso, a gente fica na “achologia”. O que a gente pode tirar como parâmetro, e como tem agido a maioria das autoridades, é se basear na ciência. Ela não te traz a certeza de tudo, mas com certeza vai diminuir as incertezas. A ciência não é infalível, mas pode deixar as coisas menos falíveis. E vai ser por aí que a gente vai desenvolver todo um planejamento – conclui o brasileiro.

Fonte: Renato Rodrigues

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Efeito quarentena: na preparação física, a missão é ‘minimizar danos’, e volta imediata dos jogos é sinal de alerta para os atletas

Renato Rodrigues
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Jogadores do Chelsea em trabalho físico
Jogadores do Chelsea em trabalho físico Getty Images


As incertezas sobre o futuro do futebol nos próximos meses são inevitáveis ao redor do mundo. Apesar de calendários e fórmulas de temporadas distintas, países trabalham para volta dos jogos o mais rápido possível, mas também mirando uma maneira segura para todos os envolvidos. Alguns clubes na Europa, por enquanto, estão liberados apenas para voltar a treinar.

Em meio a todo esse caos, os profissionais da preparação física se desdobram durante a quarentena para arrumar formas eficazes de, pelo menos, reduzir as perdas fatais que os atletas terão neste tempo de inatividade. A expressão mais utilizada por eles durante as entrevistas, sem dúvida alguma foi “minimizar danos”.

Na sequência da série de postagens “Efeito Pandemia”, o blog agora tenta entender como a capacidade física dos jogadores será impactada por conta do novo Coronavírus. Com a missão de destrinchar os bastidores de áreas estratégicas do futebol durante essa parada, chegamos à realidade de quem precisa preparar os atletas sem necessariamente estar junto deles. Um desafio que bateu à porte de muitos eles e de diferentes formas.

A necessidade de adaptação talvez seja o maior trunfo destes profissionais. Cientes de que cada jogador tem uma cenário diferente em seu isolamento, eles buscam atacar quesitos básicos da preparação física. Enquanto alguns dispõem de boa estrutura, com academia, esteira e até bicicletas ergométricas dentro de suas casas, outros se veem num espaço pequeno, onde qualquer tipo de exercício passa a ser uma adversidade.

- Na verdade é tudo muito paliativo. É minimizar danos. Então a gente tenta buscar formas para que eles não percam muita condição física. Mas também depende da realidade de cada um. Numa situação de estrutura maior, onde o cara tem uma esteira, uma bicicleta... Claro que você consegue atingir resultados maiores de condição atlética. Mas mesmo assim ainda fica devendo. O futebol é mais que isso, não é só correr. Tem a frenagem, a troca de direção, aceleração e desaceleração... E tem o contato com a bola também que, dependendo do espaço, você até consegue exercitar algo. Mas o jogo é muito mais que isso, tem a tomada decisão, domínio, o improviso... Todas coisas que não tem como treinar. Acaba dependendo muito das condições – explica Fabrício Pimenta, um dos preparadores físicos da equipe profissional do Corinthians, em contato com o blog.

Atualmente envolvido com treinamento e performance individual de alguns atletas como Yuri Alberto (Santos) e Robson Bambu (Athletico-PR), Gustavo Jorge também destaca que, por mais bem planejado e executado a sessão de exercícios que ele faz totalmente online com seus clientes, nada substitui a carga e estímulos que os jogadores têm no seu dia a dia natural.

- É muito mais uma questão de amenizar danos, quando a gente fala de futebol a gente sabe que pós-quarentena o campeonato pode vir em seguida. Na verdade, está tudo sob estudo ainda, não sabemos como será. Mas o certo é que os atletas precisam estar ativos. É um trabalho de minimamente manter as especificidades do futebol, tentar achar uma forma de fazer isso. Mas, sem dúvida alguma, nada que for feito vai ser comparável ao treinamento com bola, de forma coletiva – conta o profissional, que tem passagens por Corinthians e Santos.

O que treinar também acaba sendo uma pergunta recorrente a quem é leigo no assunto. Por mais que a realidade que estes atletas vivem em tempos normais seja impossível de ser atingida no atual estágio, os preparadores têm focado muito em exercícios de força. Principalmente os que acabam por usar o próprio peso corporal do atleta. Estes movimentos, cada vez mais utilizados não só no futebol, mas no mundo geral dos esportes, são mais eficazes pois não necessitam de grande aparelhagem e espaço. Com isso, é possível manter o mínimo de uma estrutura muscular dos jogadores, o que pode ajudar lá na frente quando a volta for sacramentada. Segundo Gustavo Jorge, que trabalha especificamente em cima de cada necessidade, este período tem sido usado para atacar

- O desafio é manter o cara mais preparado possível dentro da modalidade que ele pratica. No caso do futebol, deixá-los fortes para os movimentos que necessitam, as ações, as técnicas... A maioria dos atletas que trabalho eu já conheço bem porque já os avaliei. Essa prévia te dá grandes índices, te aponta como trabalhar. Meu trabalho tem sido em melhorar aspectos que eles já precisavam. Qualquer atleta de alta performance tem pontos a serem melhorados. Desde o suporte de musculatura de alguma parte do corpo até algo relacionado a força ou mesmo elasticidade – afirma.

 

Manter o peso, pelo menos próximo do ideal, é um desafio

Se por um lado a necessidade de fazer com que estes atletas mantenham minimamente preparados engloba aspectos como a força, que podem adiantar o processo mais para frente, por outro a mudança nos hábitos pode mexer com um ponto importante para qualquer jogador: o peso.

Acostumados a gastar muita energia durante jogos e treinamentos, agora eles convivem com uma rotina diferente. Com o confinamento, a intensidade e carga dos treinamentos diminuem. O que faz com que eles queimem menos calorias nas suas rotinas.

- A gente tenta manter uma carga metabólica, até para aumentar o consumo calórico deles. É um ponto importante isso. A dieta é um hábito. E estes atletas estão acostumados a comer uma quantidade de comida normalmente. Tem também a qualidade destes alimentos, que é algo que no CT você tem mais controle.  Estando no confinamento isso pode mudar um pouco. Então a gente precisa regular esse gasto calórico, já que é difícil romper os hábitos de uma vez. Por mais que muitos se esforcem, acaba tendo mudanças. Inclusive na composição corporal. Óbvio se você consegue manter uma dieta restritiva, ajuda. Mas eles têm o hábito de consumir muitas calorias. Isso é normal para qualquer atleta. E a partir do momento que não se gasta todas essas calorias, podemos ter problemas – relata o preparador físico Fabrício Pimenta.

A partir do momento que esse novo cotidiano é estabelecido, atletas e todos os profissionais envolvidos no futebol passam a ter uma realidade totalmente nova. É sempre importante ressaltar que se trata de um momento totalmente atípico. Aliás, uma pandemia dessa magnitude não ocorre há mais de 100 anos.

Jogadores do Corinthians se preparam para jogo contra o Ituano
Jogadores do Corinthians se preparam para jogo contra o Ituano Agência Corinthians


Muitos questionamentos acabam por vir a respeito deste período de inatividade com algo parecido com férias. Enquanto muitos profissionais de fora do futebol mantém uma rotina de trabalho estabelecida mesmo estando em casa, os jogadores passam por um momento totalmente diferente. Vai muito além de um período de descanso. Isso implica diretamente no planejamento de uma temporada e no rendimento dos mesmos.

- Quando os atletas estão de férias, isso de uma temporada para outra, o que realmente acontece? A maioria deles até treina, tenta manter uma condição. Mas eles têm seu convívio social, o descanso mental, tiram o stress da competição... Hoje isso não está acontecendo e eles precisam se manter ativos. Para os atletas de esportes individuais por vezes existem momentos de polimento, na construção de uma periodização de um treino. Um exemplo: pega um cara do atletismo, ele monta um planejamento do ano e, próximo da competição, a gente tira a carga de treino. Chamamos isso “taper”. A literatura mostra que esse “descanso” fisiológico e psicológico faz muito bem. Os índices neurais, de consumo de oxigênio e de força, melhoram muito pós esse período de pausa. Agora é algo bem diferente. Eles precisam lidar com mais cobrança e toda a situação afeta a eles também – explica o fisiologista do exercício Gustavo Jorge.

 

Lesões: o sinal de alerta para quando o futebol voltar

Em praticamente nenhuma liga ou campeonato do mundo existe algo definido com relação à volta das partidas de futebol. Por mais que o momento seja nebuloso, a preocupação de preparadores físicos ao redor do mundo está muito ligada ao tempo de adaptação que os atletas terão até os “jogos valendo” voltarem.

Até por isso, a FIFA já cogita mudar a regra de substituições no futebol visando o fim desta temporada e a próxima, que certamente também será muito afetada pela Pandemia. A ideia é que os times passem a ter cinco substituições por jogo ao invés de três (clique aqui e veja mais detalhes desta possível mudança). Com isso, a rotatividade dos atletas poderia minimizar os ricos de lesão, algo que vem sendo muito sintetizado pelos profissionais de preparação.

- Quando as atividades voltarem, teremos a missão de reavaliar todos os jogadores rapidamente. Aumenta a carga de treinamentos, seja físico analítico, técnico ou tático... Isso tem consequências e acabamos correndo mais riscos com lesões. O calendário também ficará mais apertado e vai ter uma sequência maior de jogos. Pode ser que a gente passe a ter um maior número de lesões. É uma preocupação. Até porque quando a gente parou tudo, acredito que os times ainda vinham num crescimento neste aspecto. Era início de temporada ainda. E agora a tendência é de irmos de um jogo para outro com um menor tempo de recuperação, ou seja, com maior desgaste – avisa Fabrício Pimenta.

Recentemente o esporte teve um bom exemplo de um longo período de inatividade. E com ele, algumas complicações foram bem notórias. Em 2011 a NFL esteve parada por praticamente 5 meses, tudo por conta de uma falta de acordo financeiro entre as franquias e sindicato dos atletas. O “locaute”, como foi chamado, foi de março a julho, o que impactou diretamente na preparação dos jogadores. Estudos e artigos da época afirmam que essa temporada do futebol americano teve seus números de lesões praticamente dobrado com relação às anteriores.

No futebol, para muitos profissionais, essas complicações poderiam ser parecidas. O ideal seria pelo menos uma mini pré-temporada – que na verdade já acontece em janeiro de forma bem criticável – para ao menos retomar um pouco do ritmo e forma física dos jogadores. Resta saber como clubes e federações, no caso do Brasil, vão lidar com essa questão.

- Não tenho dúvidas que ser necessária uma readaptação antes de qualquer partida. Colocar os atletas para voltarem a trabalhar nessas condições e na sequência marcar jogos, é comprometer demais a saúde deles. Então eles vão precisar de uns 15 a 20 dias no mínimo. É muito importante que estes atletas tenham um período de preparação. Não tem como. Tem muita literatura e muitos dados que nos mostram isso. Se eles voltarem a jogar imediatamente, a tendência é de muita lesão e muitos atletas com problemas para terminar a temporada – alerta Gustavo Jorge.

Flamengo trabalha físico com os jogadores
Flamengo trabalha físico com os jogadores Divulgação

Pós-quarentena: que tipo de jogo teremos?

Se tentar projetar quando teremos partidas no futebol profissional novamente já é tarefa difícil, imagina tentar idealizar como elas serão. Muito se fala que, por um bom tempo, todos nós precisaremos manter hábitos e tomar certas precauções enquanto uma vacina ou um tratamento efetivo não serem descobertos. Agora imagina tais comportamentos na rotina deste esporte. Mais que isso, no momento que a bola rolar e tiver 22 jogadores dentro de campo.

Se todo esse cenário acima é ainda bem distante para projetarmos, outras mudanças já são bastante esperadas, pelo menos nos primeiros meses de retomada. Como já alertamos acima, trata-se de um contexto bem diferente de férias. E, ao que tudo indica, o período de inatividade será bem maior que os cerca de 30 dias que os atletas normalmente passam descansando. Até por isso, é previsto alguma influência da Pandemia no “jogar” dos atletas.

 - Tenho a percepção que, de cara, a velocidade do jogo vai ser reduzida. Vai ser algo que vai melhorando com o tempo, mas teremos essa mudança. E essa velocidade vai mudar por vários motivos. Nas corridas, nos arranques... Mas também na leitura do jogador sobre o que está acontecendo no jogo, na tomada de decisão e aplicação de uma ação motora. Vão ser muitas defasagens. Teremos que trabalhar forte o aspecto de força, até para eles terem uma condição estrutural melhor. Será um jogo menos intenso. Os deslocamentos serão mais lentos. Vai ter menos resistência de repetir ações num curto espaço de tempo. Mas vai ser ruim para os dois lados, por isso vejo que teremos jogos mais mornos – projeta Fabrício Pimenta.

Fonte: Renato Rodrigues

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Efeito quarentena: na preparação física, a missão é ‘minimizar danos’, e volta imediata dos jogos é sinal de alerta para os atletas

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Efeito quarentena: Treinadores e auxiliares vivem rotina sem o campo e recorrem à tecnologia durante paralisação

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Allianz Parque, casa do Palmeiras
Allianz Parque, casa do Palmeiras Getty

Foram poucos meses de futebol no Brasil até a parada por conta do coronavírus. Para ser mais preciso, cerca de 75 dias em que treinadores, comissões e atletas iniciavam uma temporada cheia de esperanças, sonhos e metas, mas que se congelou completamente quando a pandemia se espalhou pelo mundo.

Se na Europa falamos em reta final de temporada, no Brasil ela apenas começava. Alguns destes casos, com trabalhos iniciados em 2020, outros vindos do ano passado, mas com a perspectiva de consolidação. Em comum, todos buscando o modelo de jogo ideal, o encaixe perfeito para que o ano fosse repleto de títulos e conquistas.

Todos sabem que estabelecer um modelo de jogo consistente, que o faça competir forte em várias frentes, não é das tarefas mais fáceis. Ainda mais num calendário apertado como o brasileiro. Mas com a repentina parada do futebol os desafios triplicaram. Uma nova rotina, uma nova busca e a incerteza de quando tudo voltará ao normal.

É com este cenário que treinadores, auxiliares, preparadores físicos, fisioterapeutas e todo staff do futebol vem tentando minimizar danos sob o efeito dessa inesperada quarentena. Os treinadores e auxiliares, responsáveis por criar engrenagens e treiná-las para virarem grandes times, respectivamente, perderam seu maior aliado: o campo.

Se outras áreas tentam se virar nas últimas semanas, seja com instruções de comportamento ou mesmo treinamentos remotos, com uso de tecnologia, quem precisa da bola rolando sofre com mais impactos. Mais que isso, fica praticamente de mão atadas. A verdade é que terão pouca relevância em processos determinantes neste momento tão atípico.

O caso de Felipe Conceição é bem emblemático. Depois de passagens por Botafogo e Macaé, o jovem treinador de 40 anos assumiu um dos projetos mais promissores do futebol brasileiro: o Red Bull Bragantino. Com toda a montagem do elenco acontecendo em meio à disputa do Campeonato Paulista, o comandante, aos poucos, foi encontrando um padrão de jogo para sua equipe, que antes da parada vinha com três vitórias consecutivas.

 "A parada interrompe um processo de crescimento dentro de um início de temporada. E isso, com certeza, traz um prejuízo. Ainda mais no nosso caso, já que conseguimos chegar em um ótimo nível antes de suspenderem os jogos. Passamos a ser a melhor equipe do Campeonato Paulista desde a minha chegada e a primeira equipe classificada para a próxima fase. Lógico que teremos que dar alguns passos atrás, mas pelo bom processo que fizemos, temos tudo para voltar rapidamente para o estágio que estávamos",  afirma o treinador, em entrevista ao blog.

Outra realidade da grande maioria das equipes em solo nacional é o pouco tempo de pré-temporada, algo que é muito determinante para os europeus, por exemplo. É bem claro que no Velho Continente este período é tratado como algo muito além de dar condição física aos atletas, mas sim fincar conceitos e pilares do modelo de jogo que ganhará corpo com o passar dos jogos. Parar neste momento, acaba por ser quase que uma pré-temporada sem treino. O que piora ainda mais a situação, já que não sabemos quando o futebol voltará e quanto tempo as equipes terão para se preparar – na verdade grandes chances de não ter tempo algum, já que, com tudo espremido, cada dia será ultra valioso.


Também no Estado de São Paulo, o Palmeiras é outro clube que gera grandes expectativas em 2020. Com o retorno de Vanderlei Luxemburgo e algumas mudanças em sua administração, como troca de diretoria e enxugamento do plantel, se esperava muito dos alviverdes nesta temporada. A forma de jogar, que já vinha ganhando corpo, principalmente com a ideia de um jogo mais vertical e de exploração de suas melhores individualidades, foi freada com a pandemia.

"Parar é ruim. Você está desenvolvendo um modelo de jogo, os jogadores estão se adaptando e entendendo as ideias. E também são os próprios jogos que vão dando esse crescimento. É maléfico para todos os profissionais. Não tem como. Atrapalhou todo mundo, mas é o que estamos vivendo", explica Maurício Copertino, auxiliar técnico de Luxemburgo no Palmeiras.

Imagine que a construção de uma equipe tem suas casas num jogo de tabuleiro. Conforme conceitos vão se tornando naturais, ideias vão se estabelecendo e a forma de jogar vai melhorando, a equipe vai avançando casas. Olhando para o cenário atual, podemos dizer que muitos times andarão muitas casas para traz. Algumas, inclusive, precisarão recomeçar o jogo.

 O que dá para se fazer à distância?

Talvez esta tenha sido a primeira pergunta que as comissões técnicas fizeram assim que foi anunciado a parada total do futebol no Brasil. Enquanto outras áreas foram se organizando dentro de suas possibilidades, o papel de treinadores e auxiliares ficou extremamente limitado.

Sem o contato frequente, o tato no dia a dia e, principalmente, os treinamentos. Pouco pode ser feito. Por conta disso, os vídeos passaram a ser uma saída. Sempre olhando para trás, tentando, no máximo, projetar o que vem pela frente.

"Nesse período só temos como analisar o processo já feito. Rever os jogos, treinos e tudo o que já foi construído. Além disso, dá para analisar o que os adversários já construíram", explica Felipe Conceição.

"Os vídeos são ferramentas que podem ser utilizadas sim, porém devem ser pensados em que momento serão proveitosos. Sem a dinâmica dos treinamentos e jogos, o impacto dos vídeos tem uma limitação", completa o comandante do RB Bragantino.


A capacidade de adaptação acaba sendo um trunfo para alguns profissionais e a ideia de adquirir mais conhecimento e experiências na área acaba sendo uma saída bem recorrente, assim como em outras profissões.

"É uma situação nova para todos. É uma questão de se adaptar mesmo, não fugimos disso. No meu caso, tenho tentado assistir muitos jogos, trocar informações de conceitos e esquemas. Estou tentando conhecer novos jogadores também, já que é algo que às vezes falta um pouquinho de tempo para gente que vive o dia a dia. Ver times de outras regiões que a gente não acompanha de perto também é outra coisa que tenho feito", conta Copertino.

Celular e aplicativos ajudam no contato, mas mais entre a comissão

Em tempos de isolamento social, a falta de contato diário obviamente é algo bastante danoso para a vida dos profissionais do futebol, que estão sempre muito rodeados de pessoas (esse tema virá com mais profundidade nos próximos capítulos da série). Então a saída acaba por ser a internet, celulares e aplicativos.

Mas esta rotina de conversas acaba por envolver mais as comissões técnicas, diretorias e também profissionais mais da área física/fisioterapia. Com muito tempo livre, os treinadores têm tentado fomentar discussões e ajustar planejamento para quando as coisas voltarem ao normal.

"O contato com o professor Vanderlei (Luxemburgo) é diário. Com o Mello também (Antônio, preparador físico). A gente tem discutido muito algumas questões de trabalho envolvendo o Palmeiras. Falando sobre possíveis atletas. A ideia é tentar canalizar esse tempo vasto para refletir e trabalhar o que podemos melhorar. Mas, obviamente, nada disso que a gente tem feito é melhor que o dia a dia", revela Maurício Copertino, que tem sido muito influente na rotina de treinamentos do time alviverde.

Já Felipe Conceição explica que neste momento a ideia tem sido manter todos atualizados. Mas que trabalhar mesmo acaba ficando mais a cargo da área física e médica, já que tem a responsabilidade de preparar/tratar os atletas neste período. Segundo ele, o olhar mais técnico se dará no momento que algum prazo para a voltar estiver estipulado.

"Desde a parada, toda a comissão e diretoria vem mantendo contato com os atletas para minimizar o afastamento social e mantê-los atualizados. Temos alguns processos na parte física e na parte técnica/tática sendo desenvolvidos para um possível retorno. Quando estivermos cientes da data de um retorno, esse contato será mais voltado para a área técnica", afirma.

Apesar de os clubes terem entrados de férias no momento, Maurício Copertino não crê que o contato constante com os atletas neste momento terá grande influência. Para ele, questões de planejamento são mais importantes vislumbrando a volta do futebol.

"Eu acredito muito no dia a dia. No cara a cara. Esse negócio de você em casa e os caras na casa deles, tentando manter uma rotina, é complicado. A gente tem tentado não interferir muito neles. Realmente não acredito muito que possa ter efeito. Claro que você pode trabalhar o planejamento, tentar se organizar melhor. Trocar ideias, pensar em outros caminhos no que pode ser feito", conclui o auxiliar técnico do Palmeiras.

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