Físico, adaptável, vertical e... Simples! Conheça os segredos do surpreendente Monaco de Leonardo Jardim

Renato Rodrigues
Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Getty
Leonardo Jardim durante treino do Monaco antes do duelo com o City
Leonardo Jardim, ex-treinador de handeboll, é um dos grandes responsáveis pelo grande momento do Monaco

Líder da Ligue 1 e na semifinal de Champions League. O Monaco, sem dúvidas, é uma das grandes surpresas da atual temporada europeia. Mas, enfim, o que faz de tão extraordinário o português Leonardo Jardim para levar sua equipe a resultados e desempenhos tão significativos? Trata-se de uma revolução na forma de se jogar futebol?

Por incrível que pareça, não. Trata-se de uma equipe "simples" em sua essência. E ser simples, neste caso, não é ruim. Longe disso! É um simples que eleva suas individualidades de forma coletiva e que se faz uma das equipes mais competitivas da atualidade. Um simples muito, mas muito mesmo, bem feito. E isso tem valor.

Leonardo Jardim brinca com confrontos na semi: 'Não gostaria de jogar com nenhum dos três'

Começamos pelo sistema utilizado: o 4-4-2 que quase nunca tem variações. Muito utilizado por equipes do mundo todo em seu momento defensivo, que se compactam com duas linhas de quatro, trata-se de uma plataforma pouco buscada quando se está no momento ofensivo. Quando ataca, o time do Principado chega até a se posicionar em um 4-2-2-2, naquele beabá do futebol que assistimos por muitos anos: dois volantes, dois meias e dois atacantes. Mas o que difere os Les Rouge et Blanc é a forma como conseguem se adaptar a diferentes situações e estratégias dentro de um jogo.

O Monaco tem alta capacidade de alternar ritmos. É, em sua essência, um time que se dá melhor quando reage. Tem em seu elenco jogadores verticais e de muita força física, que tendem sempre a colocar mais velocidade em suas ações. Conseguem, por vezes, propor bem o jogo, tanto que já viveram situações deste tipo dentro do próprio Campeonato Francês, mas dificilmente vão fugir das características de seus principais jogadores.

Sem a bola, também tem grande naturalidade para alternar sua marcação em bloco alto, médio ou baixo, que nada mais é que avançar, pressionar em uma zona intermediária ou marcar perto de sua área. E tudo isso, definitivamente, confunde seus adversários.

Contra o Manchester City, no Etihad Stadium, por exemplo, subiu suas linhas e complicou a equipe de Pep Guardiola na iniciação das jogadas, principalmente no primeiro tempo. Quando necessário, também trouxe esse bloco compacto para trás (como vemos na imagem abaixo). Já contra o Dortmund, na Alemanha, adotou uma proposta mais recuada. Nas duas ocasiões, no entanto,  a estratégia de Leonardo Jardim prevaleceu. Vale ressaltar que, independente da região do campo, a ideia de marcar sempre por zona prevalece. Fazem encaixes e perseguições apenas dentro do setor, sempre buscando pressionar ao máximo o portador da bola, mas sem grandes quebras na linha defensiva.

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Monaco, que alterna muito o posicionamento de seu bloco defensivo, se defende contra o City de Guardiola
Monaco, que alterna muito o posicionamento de seu bloco defensivo, se defende contra o City de Guardiola

Quando perde a posse, o Monaco reage rápido. Em um primeiro momento, faz o "perde e pressiona", mas, ao perceber que a bola saiu dessa zona de pressão, rapidamente se coloca atrás da linha da bola, sustentando suas linhas. Uma transição defensiva muito bem feita e coordenada.

Outro ponto interessante é que, normalmente, buscam induzir seus adversários a construir suas jogadas pelos lados do campo. Quando isso acontece, fazem bem o preenchimento para pressionar o lado da bola (imagem abaixo explica um pouco disso). Também trazem uma grande organização nas linhas de cobertura. Mesmo que o adversário vença um lance pessoal sobre um de seus jogadores, existem sempre jogadores prontos e posicionados para neutralizar as jogadas.

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Monaco preenche muito bem setor da bola e faz pressão no lado. Repare onde Lemar, meia pela esquerda, está na jogada
Monaco preenche muito bem setor da bola e faz pressão no lado. Repare onde Lemar, meia pela esquerda, está na jogada

Ainda dentro do momento defensivo vale frisar a participação de seus dois atacantes (Mbappé e Falcao/Germain), que sempre pressionam e incomodam a saída de bola do adversário. Seja fechando o passe dos zagueiros ou mesmo limitando as ações dos meio-campistas que recuam para buscar a bola.

Agora voltamos aos momentos em que o Monaco tem a bola. Quando se instala no campo do adversário a equipe tem um padrão bem claro para construir suas jogadas. Fabinho é quem, normalmente, recua para buscar a bola e organizar o jogo por trás (veja na próximafoto). A primeira etapa de construção depende muito do brasileiro.

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Fabinho recua entre os zagueiros para fazer a saída de 3. Brasileiro é peça chave no funcionamento da equipe
Fabinho recua entre os zagueiros para fazer a saída de 3. Brasileiro é peça chave no funcionamento da equipe

Enquanto isso os laterais buscam avançar pelos corredores, gerando amplitude e, por vezes, profundidade pelos lados. Lemar e Bernardo Silva, os meias pela esquerda e direita respectivamente, flutuam para dentro para trabalhar o jogo curto e combinado (veja todo esse posicionamento e funcionamento abaixo).

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Posicionamento da equipe no momento ofensivo: laterais abrem e meias circulam pela região central
Posicionamento da equipe no momento ofensivo: laterais abrem e meias circulam pela região central


Quando avançam no campo, tentam a triangulação pelos lados. Trazem o oponente para a zona da bola para tirá-la rapidamente da pressão e acelerar o jogo no lado oposto. Como dito acima, até quando possuem a bola e se estabilizam com ela, criam alternativas para colocar a bola em zonas com mais espaço, onde ganham campo para seus atletas verticalizarem suas ações.

Muito por conta disso, contam com jogadores de grande infiltração e que atacam muito bem os espaços. Talvez a grande jogada da equipe seja a bola trazida de fora para dentro por Bernardo Silva, que, ao buscar sua perna boa (esquerda), estica na diagonal de Mbappé, que tem muita força de arranque para antecipar os zagueiros. A ilustração abaixo mostra um pouco dessa ideia:

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Lance muito corriqueiro no momento ofensivo do Monaco: bola na diagonal de Bernardo Silva para M'bappé
Lance muito corriqueiro no momento ofensivo do Monaco: bola na diagonal de Bernardo Silva para Mbappé

Quando apontamos o time do Principado como uma equipe que se dá melhor quando reage, atrelamos isso às suas transições ofensivas. Seus jogadores são treinados para tal e reagem muito bem à recuperação da bola. São vários os momentos na temporada que, ao recuperar a posse, bastam poucos passes para ir para dentro do gol adversário. O jovem Mbappé (18 anos) talvez seja a grande figura representativa disso. Tem uma explosão muito forte nestas corridas em direção à meta e já surpreende o mundo com sua capacidade e frieza de concluir as jogadas. Sem dúvidas, trata-se de um dos atacantes mais promissores do futebol mundial.

E não é só no camisa 29 que está a juventude do Monaco: Sidibé (24), Mendy (22) - laterais físicos, porém com recursos técnicos -, Jemerson (24), Jorge (21), Bernardo Silva (22), Bakayoko (22), Boschilia (21), Lemar (21)... Atualmente o clube é um dos maiores celeiros de promessas. Depois de investir em grandes nomes anos atrás, agora miram para esse modelo de gestão: buscar em todo o mundo grandes valores, melhorá-los e vendê-los por altos valores. É muito provável, inclusive, que algumas saídas aconteçam na próxima janela de transferências.

Resumir este surpreente Monaco nesta temporada não é uma tarefa tão difícil. O que dá trabalho é executar tantas coisas de forma tão bem e regular ao mesmo tempo. É um time físico, de muita força, chegadas em velocidade e, principalmente, letal. Sua alta capacidade em se adaptar a diferentes situações é o que, de fato, faz a diferença. 

 

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Ter ou não a bola no Allianz, eis a questão: o que o Palmeiras pode esperar do Boca nesta quarta?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Tevez  e Gustavo Barros Schelotto, treinador do Boca Juniors
Tevez e Gustavo Barros Schelotto, treinador do Boca Juniors EFE/NICOLÁS AGUILERA

O Boca Juniors chega ao Brasil para enfrentar o Palmeiras falando em, pelo menos, pontuar no Allianz Parque. Depois de um empate e uma vitória na Libertadores, os argentinos, como esperado, se apresentam como a grande força do grupo ao lado dos alviverdes. Fruto não só da tradição xeneize na competição continental, mas também do alto investimento feito nas últimas janelas em busca de novos triunfos pela América.

Capacidade de contratação, inclusive, que pode ser comparada à do Verdão. Sem dúvidas dois dos clubes que mais investiram nos últimos anos aqui no continente. Formando elencos não só qualificados, mas também numerosos. Tudo em busca de sonhos maiores.

Nahitan Nández (Peñarol-URU), Emmanuel Más (Trabzonspor-TUR), Paolo Goltz (América-MEX), Ábila (Cruzeiro), Reynoso (Talleres-ARG), Buffarini (São Paulo), Tevez (Shenhua-CHN) e Cardona (Monterrey-MEX) foram as últimas chegadas na Bombonera. Investidas que, apesar de não firmar todos como titulares, dá à equipe xeneize a liderança tranquila do Campeonato Argentino, com sete pontos à frente do Godoy Cruz.

Melhor ataque do seu campeonato nacional com 40 gols marcados e a segunda melhor defesa ao lado do Independiente, com 15 tentos sofridos, o Boca vê o título encaminhado. Entre o meio e o final do ano passado, emplacou uma série de nove vitórias consecutivas e, mesmo oscilando nas últimas rodadas, vive uma situação relativamente tranquila.

Entre lesões e suspensões, mas também por decisões técnicas, o treinador Guillermo Barros Schelotto, ex-jogador e ídolo do clube, tem rodado o elenco nos últimos compromissos. Ainda busca uma alternativa para o centroavante Benedetto, artilheiro da equipe com 9 gols e que segue lesionado. Entre Tevez, Walter Bou e Ábila, deve optar pelo ex-cruzeirense para iniciar o jogo na capital paulista. O trio tem se alternado, mas ninguém virou unanimidade até aqui.

Pérez, Reynoso e Nandéz também se revezam no meio campo, geralmente com a companhia do bom colombiano Wilmar Barrios. Apesar de não ter grande estatura e imposição física, é ele o volante que atua à frente da linha defensiva protegendo a área.

Se olharmos para a plataforma de jogo usada nas últimas partidas, pouca variação. As trocas ficam sempre entre o 4-3-3 (4-1-4-1 sem a posse) ou o 4-2-3-1. Todos sistemas praticamente “irmãos”, que mudam com ajustes bem sutis. É nítido que existe ali um modelo firmado e uma ideia pré-estabelecida. Me surpreenderia se algo diferente disso aparecesse nos minutos iniciais da partida contra o Palmeiras.

Em solo argentino fala-se muito na seguinte escalação para enfrentar os alviverdes: Rossi; Jara, Goltz, Magallán e Fabra; Barrios, Pablo Pérez e Reynoso; Pavón, Abila e Cardona. Se olharmos para último jogo disputado (derrota em casa para o Defensia por 2x1), são oito os atletas que serão mantidos. Neste caso os que saem são: Buffarini, Nandéz e Bou. Com essas peças, o posicionamento de Pérez, mais adiantado ou alinhado a Barrios, vai definir o sistema. Carlitos Tevez, ao que tudo indica, começa no banco após voltar de lesão. 

 

PADRÕES COM BOLA

O Boca Juniors é, de fato, uma equipe que gosta de ter a bola. Dentro do Campeonato Argentino é o time com a segunda maior média de posse com 55,3% - perde apenas para o rival River Plate. Claro que o poderio técnico e financeiro é mais que relevante neste contexto, principalmente para se tomar a iniciativa dentro dos jogos domésticos, mas a equipe de Schelotto tem alguns padrões posicionais e de movimentos bem claros quando está em organização ofensiva. Resta saber se, contra o Palmeiras, fora de casa, eles vão manter a ideia de controlar com posse ou se vão ajustar uma outra estratégia.

Quando se instala no campo do adversário, os xeneizes iniciam as jogadas sempre com os zagueiros Goltz e Magallán. Barrios também encosta e por vezes tem a ajuda de um dos meias centrais mais avançados. No entanto, são os três primeiros citados que, além de construir o jogo por trás, são designados a ficarem a postos para defender enquanto o time ataca (veja na imagem abaixo).

Boca instalado no campo do rival: Barrios à frente dos zagueiros, laterais abertos e pontas por dentro
Boca instalado no campo do rival: Barrios à frente dos zagueiros, laterais abertos e pontas por dentro DataESPN

Normalmente são os laterais Fabra e Jara que buscam abrir o campo para gerar amplitude (imagem acima mostra isso). Avançam e, espetados, geram até profundidade em determinados momentos. Com isso, cabe aos pontas Pávon e Cardona flutuarem mais pela região central, se juntando à Reynoso e Pérez. Com isso, eles formam trios pelos lados do campo (lateral + meia + ponta do mesmo setpr) para triangular e avançar pelo campo. Por vezes é Pávon que fica rente à linha lateral. Neste momento, Jara faz a ultrapassagem por dentro. É uma troca que costuma acontecer. Pela esquerda já é mais difícil, justamente pelas características dos atletas.

Pela direita Pavón é o típico ponta. Velocidade, 1x1 e muita verticalidade em seus movimentos. Gera volume mais com jogadas agudas, não tem grande perfil de organizador. Apesar de ser o maior assistente do Campeonato Argentino (8 passes para gol no total), o jovem e promissor camisa 7 ainda peca um pouco nas tomadas de decisão. Já pela esquerda, Cardona é mais meia em sua essência. Faz o papel de “ponta-construtor”, saindo da beirada para gerar tabelas e associações por dentro. O fato de ser destro facilita tais movimentos do colombiano, que tem muita qualidade técnica, além de força e imposição física. Também chuta bem de fora da área, mas não chega a ser um atleta de grande mobilidade.

Por dentro, Reynoso e Pérez são meio-campistas leves. Pouca estatura e força, mas muita dinâmica para fazer a bola rodar. Jogadores que dão ritmo ao time e que precisam ser pressionados para não pensarem o jogo. Mais à frente, a entrada de Ábila tende a dar mais imposição física na área. Com bom pivô e jogo aéreo, o camisa 17 já é um velho conhecido de nós brasileiros.

Apesar de buscar um jogo mais apoiado e propositivo, o Boca também encaixa boas transições ofensivas. Normalmente é Pavón o grande escape para estas saídas rápidas. O ponta de 22 anos tem boa leitura para atacar espaços quando a bola é retomada e costuma ter velocidade na condução da posse, chegando rapidamente na área adversária.

 

PADRÕES SEM BOLA

Ao olhar para os últimos jogos uma coisa fica bem clara: o Boca tem sido uma equipe que joga e, ao mesmo tempo, deixa os adversários jogarem. E talvez o maior calcanhar de Aquiles nos seus últimos compromissos pelo Campeonato Argentino tem sido os contra-ataques.

Ao se instalar no campo do rival, os comandados de Schelotto não têm mostrado boas reações à perda da posse e, normalmente com a linha defensiva mais alta, sofrem no retorno para atrás da linha da bola. Barrios e zagueiros (que estão longe de ser rápidos) são atormentados com jogadas em velocidade, sempre correndo para trás e tendo, em muitos os casos, superioridade ou igualdade numérica do oponente (veja na imagem abaixo).

Defensia, última adversário, encaixa contra-ataque e chega em igualdade numérica. Os dois gols da vitória foram assim
Defensia, última adversário, encaixa contra-ataque e chega em igualdade numérica. Os dois gols da vitória foram assim DataESPN

O trio de meio de campo, apesar de ter qualidade técnica e mobilidade, sofre com o jogo mais físico. Não é capaz de se impor neste sentido e, geralmente, lançamentos mais diretos, que necessitam de vitórias em 1ª e 2ª bolas, acabam sendo perdidos e decisivos para estas escapadas em velocidade dos adversários.

Outra questão que o Palmeiras pode se aproveitar no duelo desta quarta-feira são os espaços entrelinhas deixados pelos argentinos. Por vezes é possível ver os setores pouco compactos sem a bola (veja na imagem abaixo). Barrios, entre as duas linhas de quatro afastadas, fica bastante sobrecarregado. Um passe mais vertical neste espaço pode ser determinante na criação de chances.

Entre Barrio e a linha defensiva do Boca: são três adversários se colocando no espaço
Entre Barrio e a linha defensiva do Boca: são três adversários se colocando no espaço DataESPN

Com bastante mobilidade dos meias e atacantes alviverdes e, principalmente, usando a forte saída de Felipe Melo, capaz de dar esse passe que quebre a primeira linha de marcação, o Palmeiras pode gerar bastante volume ofensivo e bolas em profundidade para Borja.

O lado esquerdo, com o muito ofensivo Fabra e o pouco intenso Cardona, também pode ser um caminho importante a se explorar. O lateral costuma avançar bastante e o meia aberto, sem grande resistência física, tende a não recompor com grande regularidade.

Essa falta de compactação acaba por ser um problema até em disputas de tiro de meta, por exemplo. Perdido estes duelos no meio de campo, dificilmente a linha de meias/pontas participará da 2ª bola e muito menos será capaz de bloquear o ataque, já que estará à frente da linha da bola (veja na imagem abaixo).

Contra o San Lorenzo, vemos os setores do Boca bastante espaçados
Contra o San Lorenzo, vemos os setores do Boca bastante espaçados DataESPN

A bola parada defensiva também tem sido um tormento pelos lados da Bombonera. Nos últimos três jogos pelo torneio nacional foram dois gols sofridos desta maneira (Tucuman e Talleres).

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A eletricidade do Liverpool "modo NBA" e a cara de um treinador em 45 minutos de Champions

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Klopp x Guardiola: alemão levou a melhor na vitória sobre o City
Klopp x Guardiola: alemão levou a melhor na vitória sobre o City Getty


Se para muitos (inclusive eu) o Manchester City é o time que melhor pratica futebol na atual temporada europeia, o Liverpool pode ser apontado como o time que fez o melhor primeiro tempo do ano até aqui. E foram estes 45 minutos alucinantes contra a equipe de Pep Guardiola que garantiram a ótima vantagem de 3x0 para a partida de volta, no Etihad Stadium, semana que vem, pelas quartas de final da Champions League.

O melhor estilo Jurgen Klopp esteve presente como nunca em Anfield: pressão, pressão e pressão na bola! Transições rápidas e muita intensidade nas ações com/sem a bola. Um Liverpool elétrico. Um Liverpool que encurralou um adversário forte em todos os aspectos e se fez grande na primeira parte do duelo inglês na competição continental.

Ganha a posse, transição! Perda a bola, transição! Recupera, perde, acelera, transição, transição e transição! Essa foi a tônica do jogo imposto pelo Liverpool. Situações que lembravam grandes partidas da NBA. Afinal, basquete em alto nível é jogado com transições cada vez mais organizadas, inclusive servindo, e muito, como estudo para o futebol. Trocas de fases do jogo contínuas, ataque aos espaços e muita concentração no plano de jogo. 

Tanto que pouco se viu na primeira etapa os donos da casa instalados em seu campo, em organização defensiva. As reações após a perda da bola eram instantâneas e organizadas, deixando o City praticamente sem reação em muitos momentos.

Foi um tempo de forte trocação de golpes. O problema é que só um dos times acertava de fato as partes vitais do rival. Sabe aquele amigo que não sabe brincar? Você vai lá e dá um tapinha nele na brincadeira e ele devolve com um murro de mão fechada? Perguntas e respostas desproporcionais. O City praticamente nas cordas.

Talvez o grande erro da equipe de Manchester foi iniciar a partida também tentando acelerar o jogo. Feito isso, deixou o Liverpool em seu habitat natural, com um cenário perfeito para impor as suas melhores características.

A impressão era que, a cada investida de De Bruyne, Silva, Jesus & Cia., o time da casa respondia com uma velocidade dobrada. Essa perda e recuperação da bola, abrindo espaços na defesa adversária, deixou o Liverpool confortável no jogo, potencializando o que tem de melhor: a velocidade e a mobilidade do trio Firmino, Mané e Salah.

E o primeiro gol já deu a letra do que seria essa noite mágica para os torcedores vermelhos. Retomada da posse, Salah no limite da linha defensiva do City (até me parecendo impedido, inclusive), poucos toques e bola rápida na diagonal de Firmino. Dois minutos depois Salah (que temporada!) já fazia o movimento contrário. Acompanhava um contra-ataque do rival, fechando o passe em De Bruyne e percorrendo quase o campo inteiro para defender a sua meta. A essência do que Klopp sente futebol, tudo que foi praticado pelo Borussia Dortmund em seus melhores momentos na Alemanha.   

Em 2013, Klopp e Götze dividiam espaço no Dortmund
Em 2013, Klopp e Götze dividiam espaço no Dortmund Getty


A pressão forte não sessava. Vimos momentos em que os zagueiros Lovren e Van Dijk davam botes nos atacantes do City quase que na entrada do terço ofensivo (deles) do campo. O suprassumo do conceito de “ataca marcando”. Explico o termo: seu time está atacando, os jogadores que ficam na retaguarda (balanço defensivo), ao invés de assistirem seus companheiros tentarem o gol, eles já se posicionam e ficam encaixados em possíveis escapes do rival. Quando estes oponentes recebem ou tentam receber a bola para acelerar um contra-ataque, estes atletas (normalmente zagueiros e um dos volantes, justamente o que não sobe tanto) estão prontos para atacar a bola, seja para recuperá-la ou matar a jogada com uma falta.

Enquanto isso, o Manchester City saia cada vez mais do eixo. Vários de seus jogadores, principalmente Sané, vivendo uma noite bastante infeliz. Tomadas de decisão erradas, erros técnicos no gesto do passe ou chute, movimentos sem bola incorretos... Ficou claro que todos de azul claro ali não viam a hora do árbitro determinar o fim do primeiro tempo. Só assim para estancar tamanha tortura vivida em campo até então.

O contexto do Liverpool – e do jogo, naturalmente – mudou bastante na segunda etapa. Era impossível manter o mesmo ritmo imposto no tempo anterior. O jeito foi baixar um pouco mais o bloco defensivo e, ao invés de atacar a bola no campo todo, cuidar melhor dos espaços. Compactado, o time de Klopp pouco sofreu. Já sem Salah e Firmino no fim da partida, tão pouco conseguiu explorar contra-ataques, mas nunca deixou de ter o controle. Só teve as rédeas da partida de uma forma diferente. Mas teve.

De fato as críticas sobre a escalação de Guardiola são bastante consistentes. Principalmente a escolha por Laporte na lateral-esquerda quando o time defendia. Justo no setor do Salah. Mas o segundo tempo, apesar da maior posse, foi de pouca efetividade. Longe do desempenho e da regularidade que vinha tendo durante a temporada até então. Um apagão de 90 minutos que pode custar caro na próxima semana.

Já Klopp deve ter saído do campo anestesiado. Se é que ele não vai dormir por lá mesmo. Intenso a cada gesto, reclamação ou comemoração, o alemão viu sua face em seu Livepool. Foi protagonista contra um protagonista. E isso não tem preço para quem está lá dentro. 

Jurgen Klopp é um personagem peculiar. E é maluco. É só olhar para sua cara para constatar que se trata daquele “doidão do bem” que todos gostam. O tipo de jogo que gosta de praticar é tão insano quanto. Por isso é tão difícil. Pressão, pressão e pressão... Parecia um time com 22 jogadores em campo. E quando essa eletricidade toda encaixa, quase ninguém acompanha. 

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O desafio contra a linha de 5, as ideias e a execução: como foi o desempenho da Seleção Brasileira contra a Rússia?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Tite comanda treino da seleção Brasileira. E ainda tem muito trabalho pela frente
Tite comanda treino da seleção Brasileira. E ainda tem muito trabalho pela frente Mowa

A Copa do Mundo se aproxima e tudo o que acontece daqui para frente tende a ser cada vez mais decisivo. Treinamentos, jogos, convocações... Tite, por sua vez, trabalha forte em cima de uma das maiores tendências do futebol mundial: a linha defensiva com 5 jogadores. Como enfrentar e furar tal organização que será recorrente no torneio? Que tipo de movimentos buscar e treinar? Quais características se apoiar para o desafio?

Depois de um difícil embate contra uma sólida Inglaterra e o 0x0 em Wembley – momento que inclusive despertou de maneira mais efetiva essa preocupação no treinador brasileiro –, agora um teste contra a Rússia, também com o sistema com três zagueiros, e uma vitória por 3x0. Momentos que são determinantes para uma compreensão e, principalmente, o desenvolvimento destes novos mecanismos para enfrentar diferentes ideias e conceitos que o Mundial vai oferecer.

Se olharmos sob uma ótica apenas em cima do desempenho voltado para essa ideia, a Seleção Brasileira voltou a sofrer na tarde desta sexta-feira. Pegou um adversário que, se por um lado faltava qualidade técnica, por outro mostrava bastante rigidez defensiva, com jogadores físicos e, principalmente, concentrados. O primeiro tempo mostrou bastante isso e a forte bola parada brasileira, que vai ser importante na competição, foi crucial para a vitória.

Mas se tem uma diferença do jogo contra os ingleses para este, ela está nas ideias. Tite mostrou uma maior mobilização para defrontar tal sistema, que congestiona a entrada da área e faz vítimas mundo à fora. As saídas buscadas para o confronto foram bastante interessantes. A execução delas, por sua vez, demonstrou alguns problemas, principalmente na naturalidade dos movimentos de alguns jogadores.

Assim como a Inglaterra, a Rússia manteve dois jogadores mais adiantados e se defendeu no 5-3-2 sem a bola. Os anfitriões da Copa foram mais agressivos sem a posse. Enquanto o último rival controlava mais espaços, o time russo foi mais intenso e buscou mais o contato físico, bem característico na sua cultura de futebol.

Quando tinha a bola, o Brasil buscou abrir o campo ao máximo. A lição no Reino Unido foi aprendida. E a ideia era fazer isso com os pontas. Willian e Douglas Costa, mais agudos, tinham que se manter na linha lateral para tentar abrir espaço entre os cinco jogadores russos alinhados.

Enquanto isso, Daniel Alves e Marcelo teriam que trabalhar mais por dentro. E faz sentido, já que ambos são laterais mais construtores, com facilidade no jogo curto, em trabalhar sob pressão. Mas a execução não foi totalmente efetiva. Dani até se posicionou assim na maior parte do tempo, mas Marcelo, em vários trechos do jogo, bateu na mesma região de Douglas. Simplesmente não se sentiu à vontade para centralizar as jogadas. No fim das contas, ambos laterais se associaram pouco com os jogadores de meio. Realmente não foram bem.

Sem a bola, tanto Marcelo quanto Daniel Alves foram mal nas transições defensivas. Demoraram a sustentar na linha defensiva e a Rússia criou algumas boas situações neste sentido. A presença de Casemiro, mais fixo e saindo pouco enquanto o time atacava, fez com que o estrago não fosse maior.

Brasil comemora um dos gols da vitória sobre a Rússia ALEXANDER NEMENOV/AFP/Getty Images
Brasil comemora um dos gols da vitória sobre a Rússia ALEXANDER NEMENOV/AFP/Getty Images ALEXANDER NEMENOV/AFP/Getty Images

Ainda na construção do jogo, a Seleção usou pouco a bola em profundidade pelo alto. Quando o fez – lance de Dani no Gabriel Jesus logo no início da partida é um bom exemplo – criou situações interessantes. Tite já havia detectado que o Manchester City de Guardiola, que defronta muito estes sistemas, usa muito deste artifício para furar tais barreiras. É um diagnóstico importante feito pela comissão técnica, mas que ainda não está totalmente amadurecido.

Coutinho, testado por dentro e não como um ponta mais armador (posição que arrebentou no Liverpool), também não fez uma boa primeira etapa. Não foi o controlador que o meio de campo exigia. Foi mais infiltrador que organizador. Na segunda etapa, com mais espaço e buscando faixas diferentes, melhorou.

Não existe dúvidas que tais observações devem ser feitas com bastante meticulosidade pela comissão técnica. Assim como a pouca participação de Casemiro na construção do jogo, o que tirava outros jogadores de suas respectivas faixas do campo para buscar jogo, engessando a criação de jogadas. A circunstância do jogo pedia alguém saindo com passes mais agudos. E o volante do Real Madrid tem capacidade para fazer isso. Fernandinho, seu reserva imediato, tem grande facilidade para tais ações.

Outra situação bastante evidente para se analisar foi a saída de bola. A Rússia, que alternou bem a pressão média e alta, criou problemas na iniciação das jogadas do Brasil. Estes momentos poderiam ser usados como arma dentro do confronto com a estratégia de atrair o adversário e, com a bola tirada da pressão, ganhar campo e profundidade para atacar em velocidade.

Ficou evidente que, quando a Seleção teve espaço para atacar, principalmente com duelos no 1x1 ofensivo, o jogo ficou mais fluente. E foi aí que a Rússia se quebrou totalmente no segundo tempo.

Tal constatação, mostra muito do que somos como essência de futebol. De fato, temos jogadores e uma cultura de explorar o drible e a velocidade. Tenho a sensação que, quando somos mais reativos, somos mais letais. Inclusive deixo tal reflexão aqui para quem lê (comentem). Temos mesmo a obrigação de propor? Devemos fazer isso sempre? Qual o melhor caminho para “performar” na Copa? Confesso que tenho minhas dúvidas. E vou esperar mais um pouco para formar uma opinião mais definitiva.  

Sem a bola ficou nítido que o ajuste precisa ser na transição defensiva. Foi neste ponto que o adversário mais criou. Como dito acima, os laterais precisam reagir mais rápido à perda da bola. O conceito de pressionar a bola logo após a perda, algo muito cobrado por Tite, mostrou boa regularidade num âmbito geral. Foram vários momentos de perda e retomada rápida. Inclusive com os zagueiros encurtando nos escapes russos, preparados para pressionar nas tentativas de contra-ataques. Tais ideias, principalmente nos 30 primeiros minutos, funcionaram de forma bastante coesa e precisam ser mais regulares nos 90 minutos.

Quando se instalou no campo defensivo, já organizado no 4-1-4-1, a Seleção reagiu bem. Controlou bem os espaços e quase não deu chances para a Rússia. Foram poucas infiltrações.

O Brasil vive um momento de preparação. Tudo que acontece agora é importante, mas não precisa ser definitivo.  É o momento do ajuste, dos testes e de lapidar convicções. Nem céu, nem inferno. De olho nas ideias, mas também na execução. Esse é o caminho.

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Organização, rigidez defensiva e competitividade: o que esperar de Diego Aguirre no São Paulo?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Diego Aguirre, na vitória do San Lorenzo sobre o Flamengo, com Zé Ricardo ao fundo
Diego Aguirre, na vitória do San Lorenzo sobre o Flamengo, com Zé Ricardo ao fundo Getty

Diego Aguirre inicia a partir desta quinta-feira seu terceiro trabalho como treinador no Brasil. Após ver seus processos serem quebrados em Inter e Atlético-MG de maneira até meio que precoce – nos dois casos não vi grandes motivos para a demissão – agora o uruguaio tem o instável São Paulo pela frente.

Sem dúvidas trata-se de um dos maiores desafios de sua carreira. Não pela grandeza da equipe paulista (isso não se discute), mas por um cenário totalmente desgastado com 25 trocas de comando nos últimos 10 anos. De referência em organização dentro e fora de campo, o time do Morumbi hoje não tem sequer uma identidade, uma forma de jogar estabelecida nos últimos anos. Vem ano e passa ano, nada de títulos, nada de competir por eles.

A pressão e insatisfação da torcida só cresce. Elencos montados e desmontados seguidamente, treinador chega, treinador cai... Uma bola de neve que não para de rolar e crescer. Uma ausência de lucidez que parece ser eterna para o são-paulino.

Mas o que o torcedor tricolor pode esperar de Aguirre dentro das quatro linhas? Enfim o São Paulo escolheu bem? O uruguaio pode ser a pessoa que estabeleça um DNA na forma de jogar da equipe? Quais são seus conceitos e ideias? Que tipo de futebol pratica?

Apesar de usar algumas referências das suas passagens por Belo Horizonte e Porto Alegre, usei como referência seu último trabalho. Ao analisar mais afundo o seu San Lorenzo, onde esteve de junho de 2016 até setembro de 2017, acredito ser o mais justo. Pela proximidade das ideias. Afinal, todos nós estamos em uma mudança contínua certo?

Bom, a primeira questão que precisamos clarear ao traçar o perfil do novo comandante tricolor é constatar que sim, o São Paulo trocou limão por melancia mais uma vez. Sai de Dorival, que tem como ideias de jogo ter a bola, propor e circular a bola com mais paciência, para um profissional que tende a ser mais reativo na sua forma de jogar. Aguirre é um treinador mais pragmático – e isso, apesar do tom pejorativo para muitos, tem lá suas vantagens.

Em todos seus trabalhos até aqui o uruguaio se mostrou um treinador adepto de uma estrutura mais rígida dentro de campo. Ou seja, prioriza a organização, principalmente sem bola. Busca sempre uma estrutura sólida, difícil de ser furada. Não abre mão (POR NADA!) da intensidade. Suas equipes são extremamente agressivas sem a posse da bola. Competem, competem e competem. Simplesmente não existe negociação neste sentido.

Tem uma veia mais estratégica. Um perfil que se adapta às necessidades de cada jogo e adversário. Busca sempre usar uma proposta de acordo com o que vem pela frente. Para isso roda peças e vária alguns sistemas. Uma das suas grandes marcas, inclusive, é aumentar a pressão na bola nos 15 primeiros minutos de jogo, buscando sufocar os adversários e já sustentar uma vantagem no placar para poder controlar melhor o jogo no restante do tempo. Fora de casa, por outro lado, consegue truncar o ímpeto do rival para, no momento certo, atacar suas deficiências. De fato, consegue ter boas leituras neste sentido. Contra o Lanús, na Libertadores, em casam, por exemplo, não pressionou alto de início. Entendia que Jorge Almiron e seus comandados, como modelo, tinham a ideia de atrair o adversário e atacar profundidade com jogadores eliminados na primeira etapa de construção.

Diego Aguirre tem alguns sistemas bem estabelecidos nos últimos anos. De uma forma geral circula entre o 4-2-3-1, o 4-1-4-1 e o 4-4-2, principalmente sem a bola. Na verdade são todas plataformas “irmãs”, que não exige uma grande ruptura na ideia para variar. Um ajuste, uma troca de peça. Não chega a ser mudanças drásticas de estrutura.


Em seus últimos jogos pelo San Lorenzo, Diego Aguirre usou o sistema 4-1-4-1
Em seus últimos jogos pelo San Lorenzo, Diego Aguirre usou o sistema 4-1-4-1 DataESPN

Suas equipes jogam muito sem a bola. Inclusive controlam jogos assim. Marca de forma zonal, mas com encaixes por zona que implicam em pressionar sempre o homem da bola. Sempre com muita agressividade. Estes pequenos encurtamentos de espaço no campo, por muitas vezes, quebra a saída de bola dos adversários. E isso independe de estar em bloco alto, médio ou baixo (faixa do campo que você começa a marcar). Seus times fazem isso muito bem. Bloqueiam a circulação, forçam o erro e, na recuperação da bola, aceleram em direção à área adversária para concluir o mais rápido possível.

San Lorenzo faz pressão na bola, recupera a posse e acelera para empatar o jogo contra o Cipolletti
San Lorenzo faz pressão na bola, recupera a posse e acelera para empatar o jogo contra o Cipolletti DataESPN

Jogando contra o Racing, em casa, o Ciclón de Aguirre sobe a marcação e encaixota a saída de bola do adversário
Jogando contra o Racing, em casa, o Ciclón de Aguirre sobe a marcação e encaixota a saída de bola do adversário DataESPN

Para manter sempre o portador da bola desconfortável em cada execução ou tomada de decisão, Aguirre libera muito seus laterais a desgarrarem da linha defensiva. Se a bola entra do lado, ambos pressionam e perseguem distâncias maiores. Os zagueiros, por sua vez, são mais podados neste sentido e sustentam mais a linha. Se a bola sai do setor deles, retornam e cuidam do espaço.

Quando o adversário inicia as jogadas com bola no chão, o San Lorenzo treinado pelo novo treinador são-paulino buscava o conceito do “direcionamento”, que tem como objetivo induzir o rival a progredir seu jogo em uma determinada faixa do campo. Neste caso, a ideia sempre foi de jogar a bola para o lado do campo, onde sua equipe busca pressionar a posse com superioridade numérica, fechando as linhas de passe para frente.

Veja na imagem, como o San Lorenzo direciona a saída do Lanús pelo lado do campo e fecha o setor. Mais atrás, lateral e zagueiro quebram a linha para
Veja na imagem, como o San Lorenzo direciona a saída do Lanús pelo lado do campo e fecha o setor. Mais atrás, lateral e zagueiro quebram a linha para DataESPN

Neste momento, como vemos na imagem acima, os laterais costumam ter mais liberdade para quebrar a linha defensiva e encurtar o espaço no ponta ou meia que cai pelo seu setor. Aguirre gosta de manter a linha de 4 sempre estruturada – geralmente não joga com ela tão estreita – mas, por outro lado, sofre com algumas quebras de laterais e zagueiros. Busca estruturar boas linhas de coberturas, mas para isso, em vários momentos, precisa liberar uma subida maior do zagueiro no campo adversário. São momentos que, numa tirada rápida da pressão, o time acaba desequilibrado defensivamente e cedendo espaços em profundidade para o rival atacar.

Linha defensiva da equipe de Aguirre sustentada mas, pela direita, lateral sai para caçar o adversário
Linha defensiva da equipe de Aguirre sustentada mas, pela direita, lateral sai para caçar o adversário DataESPN

Ainda em cima do comportamento sem bola, outra situação bastante usada pelo uruguaio em sua passagem recente pela Argentina são as subidas de pressão em cobranças de laterais. Como vemos na imagem abaixo, ele fecha o setor da batida e praticamente encaixota o rival em um pequeno espaço. Tudo isso para disputar e ganhar as 1ª’s e 2ª’s bolas. Na segunda foto, no entanto, um risco que se corre nestes momentos: o time sobe, mas para manter certa cautela, o restante da linha defensiva fica mais recuada. Caso essa bola saia dessa zona de pressão, serão poucos jogadores para duelos individuais e muito campo para o rival se projetar. Tal ideia, inclusive, persiste com bola rolando. Raramente Aguirre sobe seus zagueiros. Prefere sempre mantê-los num avanço intermediário, justamente para cortar campo do adversário atacar nas costas da linha.

Vemos o Lanús batendo o lateral no seu campo defensivo e oito jogadores do San Lorenzo pressionando o setor
Vemos o Lanús batendo o lateral no seu campo defensivo e oito jogadores do San Lorenzo pressionando o setor DataESPN

Na sequência do lance acima, vemos a linha defensiva metade no setor da bola e metade profunda, gerando um espaço central para o adversário
Na sequência do lance acima, vemos a linha defensiva metade no setor da bola e metade profunda, gerando um espaço central para o adversário DataESPN

Com a bola os times de Aguirre também mostram alguns padrões mais claros, principalmente no San Lorenzo. Prefere uma construção ofensiva mais vertical. Inclusive usando a bola longa em profundidade em alguns momentos. A ideia é sempre passar para frente. E rápido.

Para isso, algo bem nítido no seu último trabalho era o primeiro passe rompedor saindo dos pés dos zagueiros. Visando essa primeira quebra da marcação, usa apoios “entrelinhas” – entre os zagueiros adversários e as costas dos volantes. Quando a bola mais aguda entra no setor, a posse tende a ser ainda mais vertical, seja com infiltrações ou mesmo chegadas no fundo para cruzar, visando sempre preencher a área com bastante jogadores para concluir. As chances de gols, geralmente, são sempre construídas com poucos passes.

Zagueiro tem a bola e acha o companheiro entre as linhas de marcação do Lanús
Zagueiro tem a bola e acha o companheiro entre as linhas de marcação do Lanús DataESPN

Para abrir o campo, gerar amplitude e tentar criar espaços nos sistemas defensivos dos rivais, o novo treinador do São Paulo costuma usar seus laterais. Com isso vê pontas, meias e volantes circulando por dentro. Abrindo linhas de passes e gerando apoios rápidos.

É muito habitual também as tentativas de triangulações pelos lados do campo. Meia, ponta e lateral se aproximam e, em passes curtos e rápidos, tentam levar a bola à frente. A ideia é gerar superioridade numérica no setor e, com muita mobilidade, atacar espaços em profundidade.

San Lorenzo projeta três jogadores pelo lado do campo e tenta a triangulação para progredir no campo adversário
San Lorenzo projeta três jogadores pelo lado do campo e tenta a triangulação para progredir no campo adversário DataESPN

Se olharmos de uma maneira geral, os times de Aguirre são muito mais estruturados defensivamente do que com a bola – algo bem recorrente no futebol praticado aqui no Brasil. Os seus últimos trabalhos mostram alguma dificuldade para criar, principalmente quando não tem essa bola roubada um pouco mais avançada, que pega o adversário desequilibrado em seu campo. Muito por isso, traz consigo um histórico de bolas paradas ofensivas bastante interessante. No Ciclón, por exemplo, criou muitas chances e viu sua equipe marcar bastante gols desta forma.

Aguirre traz consigo conceitos e uma identidade de jogo que são fáceis de se observar. Características que podem ser importantes para o momento em que o clube passa. Dar solidez defensiva e recuperar a confiança para, lá na frente, incrementar o jogo ofensivo? Pode ser. Por outro lado, como dito acima, o uruguaio não negocia completividade e entrega. E a intensidade, definitivamente, não vem sendo a característica do elenco, principalmente se olharmos para os atletas mais rodados e que chegaram com um status mais elevado. 

 O seu grande desafio, sem dúvida alguma, será estimular tais comportamentos sem bola nos seus jogadores. E arrisco a dizer: quem não competir em campo, tem sérios riscos de não jogar. O recado, apesar de bem sutil, foi dado logo na sua chegada. É esperar para ver.

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Organização, rigidez defensiva e competitividade: o que esperar de Diego Aguirre no São Paulo?

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O contexto coletivo e a melhora individual: por que o desempenho de Felipe Melo cresceu tanto em 2018?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN

Felipe Melo iniciou 2018 com ótimo desempenho com a camisa do Palmeiras
Felipe Melo iniciou 2018 com ótimo desempenho com a camisa do Palmeiras Gazeta Press

Uma das premissas para quem atua ou gostaria de atuar como observador técnico no futebol (o antigo olheiro) é que nunca devemos tirar uma conclusão permanente sobre um atleta sem considerar o ambiente que ele está inserido. Tal abordagem, inclusive, dá a convicção que diversos jogadores tidos como ruins pela opinião pública, na maioria dos casos, está dentro de um contexto que não potencializa ou extrai ao máximo de suas qualidades. 

Quantas vezes seu time ou mesmo os rivais trouxeram aquele atacante que todo mundo queria e simplesmente não deu certo? Fez gols por onde passou, sempre jogou bem... Mas fracassou no novo clube. Certamente todo mundo tem uma história dessa para contar. É algo muito recorrente, principalmente no cenário do futebol brasileiro, onde contratações são feitas muitas vezes sem ao menos ter uma forma de jogar definida.

O que esquecemos, na maioria das vezes, é que aquela maneira de jogar imposta pelo treinador pode ter sido uma das razões para um desempenho abaixo das expectativas - digo uma das razões, pois são inúmeras as variáveis neste caso. Um exemplo claro são pontas de extrema velocidade que fazem campeonatos impecáveis em equipes menores. Seu antigo clube quase sempre atua mais fechado e apostando em contra-ataques. Ao chegar em um time que normalmente propõem o jogo, muito por conta do adversário, que além de abrir mão da bola, quase nunca dá espaços para correr, o atleta sucumbe e vira uma aposta furada.

Mas existe um atleta neste início de temporada que inspira este post: Felipe Melo. Contratado cheio de pompa no início de 2017, o volante, com passagens por gigantes do futebol italiano como Juventus e Internazionale, entre polêmicas e desabafos, não conseguiu ter um primeiro ano regular. Claro que os motivos vão além da forma de jogar daquele Palmeiras, mas 2018 tem nos mostrado um desempenho em alto nível até aqui do camisa 30.

Sempre foi quase uma unanimidade que Felipe Melo é um jogador de qualidade. Tem um bom repertório técnico, principalmente na organização do jogo por trás, com passes verticais e bolas longas certeiras para achar companheiros em velocidade. O palmeirense também tem uma boa leitura dos espaços, se coloca bem em linhas de passe e  tem agressividade para ganhar duelos defensivos, seja pelo alto ou pelo chão. Mas ele também tem suas deficiências , como a grande maioria dos jogadores espalhados pelo mundo...

Quando chegou ao clube, Melo encontrou Eduardo Baptista. Adepto da marcação por zona, o agora treinador da Ponte Preta vislumbrava espaço e sequência para o volante, justamente por ele se enquadrar na sua ideia de jogo. O início de 2017 dele, inclusive, não foi ruim. Boas atuações, principalmente na Libertadores, o fizeram ganhar alguma sequência como titular.  Mas aí chegou Cuca, que tem uma maneira bem diferente de enxergar futebol -  e que fique claro:  não se trata de certo ou errado, mas sim de uma escolha.

Sergio Busquets, um dos melhores do mundo na função, tem leituras impecáveis à frente da linha defensiva

Campeão brasileiro com próprio Palmeiras em 2016, Cuca sempre foi adepto da marcação individual. Nas suas últimas passagens até trabalhou com algumas trocas de encaixe, justamente para não gerar perseguições longas nesta ideia de sempre defender no homem a homem. Mesmo assim, se tratava de um jogo que exigia muito fisicamente dos atletas. A intensidade era o grande pilar para este tipo de jogo funcionar. E foi aí que o camisa 30 alviverde perdeu espaço. Sem sequência como titular, vieram as queixas e as rusgas com o treinador.

Um dos pontos fracos de Felipe é a agilidade, principalmente na troca de direção. Por ser um jogador de força e estatura (1,83m), o volante nunca foi um jogador de grande velocidade. Por conta disso, sempre se adaptou à contextos que o mantinham competitivo. Normalmente em equipes que faziam um jogo mais posicional sem a bola e de menos exposição em duelos defensivos em velocidade. Agora, aos 34 anos, essa sua capacidade de mudar de direção foi naturalmente caindo.

Cuca sabia que o perfil de Felipe Melo não condizia à sua forma de jogar. Exigiria dele situações que o não deixariam confortável dentro de campo. Uma saída para caçar ou perseguir um atleta mais ágil poderia desequilibrar todo seu sistema defensivo. Uma tirada de primeira de um adversário mais habilidoso seria fatal, já que o volante não teria capacidade de recuperação na corrida. Viraria um efeito dominó. Um cobre o um que saiu da posição do dois. Uma bola de neve com grandes chances de o adversário chegar com vantagem numérica no último terço do campo.

Com Roger Machado, também adepto da marcação mais zonal, que prioriza sempre controlar os espaços, seja lá qual jogador adversário passe poe eles, o camisa 30 se fortaleceu. Mais que isso, dentro da ideia de jogo mostrada até aqui, virou peça de grande importância. Além de ser o principal encarregado de iniciar as jogadas afundando entre os zagueiros para dar mais qualidade na saída (veja na imagem abaixo), seja com passes verticais ou bolas longas de velocidade, Felipe Melo tem sido o ponto de equilíbrio à frente da linha defensiva.

Repare como o volante palmeirense afunda entre os zagueiros para buscar a bola e fazer a saída de 3
Repare como o volante palmeirense afunda entre os zagueiros para buscar a bola e fazer a saída de 3 DataESPN

O clássico contra o Santos, no último domingo, nos mostrou uma outra face deste novo Palmeiras. Tendo que propor e ser protagonista nos jogos anteriores, justamente por enfrentar equipes menores, a equipe de Roger se viu pela primeira vez obrigada a alternar momentos com e sem a bola. O gol cedo foi decisivo para tal comportamento. Com seu 4-1-4-1, normalmente defendendo em bloco médio, o Verdão teve Felipe Melo compensando espaços e coordenando as alternâncias de pressão na bola na entrada do último terço do campo. Veja na imagem abaixo que, ao ver Marcos Rocha quebrar a linha para pressionar o adversário, Felipe já se posiciona no espaço entre o lateral e o zagueiro pela direita (Antonio Carlos).

Marcos Rocha quebra a linha e Felipe Melo se coloca no espaço aberto
Marcos Rocha quebra a linha e Felipe Melo se coloca no espaço aberto DataESPN

O movimento de Felipe Melo vai sempre acontecer com a bola como referência. De acordo onde está a posse do adversário, ele flutua com a equipe, sendo uma importante peça para quebrar e impedir bolas entrando entrelinhas, nas costas de Lucas Lima e Tchê Tchê. Na ilustração abaixo fica fácil ter uma noção dessa movimentação de um lado para o outro, que é o que se exige do volante que atua sozinho à frente da linha defensiva. Inclusive já escrevi aqui no blog sobre essa função, que é de muita complexidade no futebol atual. Clique aqui e veja.

Perceba na ilustração como a referência posicional do volante se dá pelo local da bola e alinhado à linha defensiva
Perceba na ilustração como a referência posicional do volante se dá pelo local da bola e alinhado à linha defensiva DataESPN

A experiência de Felipe Melo em grandes centros na Europa contribuiu muito para estas leituras citadas acima. Tanto na Internazionale quanto na Juventus ele atuou nesta função com certa regularidade. Apesar das variações de plataformas de jogo, às vezes até com um outro volante ao seu lado, esteve sozinho com meias à frente em diversos momentos. No Galatasaray, apesar do 4-2-3-1 mais fixo usado na época, também contribuía com movimentos similares.     

Infelizmente ainda vemos o futebol no Brasil sob a ótica da individualidade. Temos conosco a ideia de que o craque resolve e não a organização. Felipe Melo é só um dos milhares de exemplos neste esporte que comprovam que a individualidade tem que servir o coletivo. E quando isso acontece, o talento é potencializado e decisivo. Então, antes de gostar ou não de algum jogador, busque observar o seu em torno. Às vezes tudo que o rodeia não ajuda. 

Acontece toda hora...


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Entrevista do mês: Fernando Diniz avisa que dá mais trabalho ter a bola, elogia Premier League e quer lado humano mais valorizado no futebol: 'Uma pessoa melhor é um jogador melhor"

Renato Rodrigues
Fernando Diniz assumiu o Atlético-PR neste início de temporada
Fernando Diniz assumiu o Atlético-PR neste início de temporada ESPN

Quando Fernando Diniz e o seu ousado Audax debutaram no Campeonato Paulista, a primeira sensação para quem acompanhava o estadual daquela época era de estranheza. "Mas como assim esse time não dá chutão?", todos se perguntavam. Pixotadas dos goleiros, erros na saída de bola, entregadas que custavam derrotas... O ano foi o de 2014 e nem para a segunda fase do Paulistão os "malucos de Osasco" conseguiram ir. O resultado, definitivamente, não veio. Mas veio o mais importante: o debate.

A discussão sobre o tipo de futebol desenvolvido por um grupo de atletas que, em sua maioria, haviam passado por diversos clubes e nunca haviam brilhado no cenário nacional, foi impactante. Seu treinador, ainda em começo de carreira, sonhava alto quando colocava um futebol de muita troca de passes, mudança de posições e jogos duros contra os grandes da capital. A gente mal sabia o que estava por vir.  Dois anos depois, uma final de igual para igual com o Santos. 

Ex-jogador profissional, Fernando Diniz passou por Palmeiras, Corinthians, Flamengo, Fluminense... Ganhou títulos pela maioria destes grandes clubes. Esteve no topo. Mas existe algo que o deixa mais feliz atualmente: ajudar outros  jogadores chegarem no topo. Tchê Tchê (Palmeiras) e Camacho (Corinthians), campeões brasileiros nos últimos dois anos, são exemplos e motivos de orgulho para o atual treinador do Atlético-PR.

Neste entrevista exclusiva ao blog, dias antes de sua estreia pelo Atlético-PR (0x0 com o Caxias, pela Copa do Brasil) Diniz bate muito na tecla do lado humano do esporte mais visto do mundo.  Diz usar sua formação em psicologia e luta para fazer de seus jogadores pessoas melhores. Ele ainda fala da qualidade do futebol brasileiro, sobre os pilares de seus trabalhos no futebol e mostra expectativas com o Furacão para 2018.

Ele ainda fala em resgatar a essência do futebol brasileiro, da importância do goleiro dentro do seu modelo de jogo e fala quais ligas e times do mundo gosta de assistir quando sobra um pouco de tempo entre os jogos e treinos que participa. Na íntegra você confere essa longa conversa só sobre futebol:

 

Depois de alguns anos de trabalho em um só clube (teve uma rápida passagem pelo Guarani), como tem sido seu início no Atlético-PR? Como você tem usado toda a estrutura que o clube te oferece?

Está sendo ótimo. De fato a estrutura é algo assim que só dá para falar quem vê. Mesmo sabendo que existe aqui uma estrutura muito boa, quando você chega acaba se surpreendendo positivamente. E isso é ótimo. Mas mais que a estrutura tenho profissionais aqui para me dar apoio que são de muita qualidade. Então nesse aspecto tem sido muito positiva a experiência. É acima do que eu imaginava.   

O que te fez ir para o Atlético-PR? Foi uma situação diferente na sua carreira. Você ficou anos no Audax e rejeitou ofertas por acreditar em um projeto e agora deixou o Guarani muito rapidamente. Algo mudou para você adotar uma outra medida neste caso recente?

A questão é que o meu acordo moral e ético com o Guarani eu cumpri da mesma forma que o fiz com o Seu Mário Teixeira (homem forte por trás do Osasco Audax). Eu deixei claro textualmente que eu não poderia mais deixar passar oportunidades como aconteceu quando eu estava no Audax. Disse que, se aparecesse alguma proposta de um time grande da Série A, provavelmente eu sairia. Sinceramente eu não acreditava que isso ia acontecer tão cedo. E nem o pessoal do Guarani. Foi uma coisa de comum acordo. Eles também falaram que não iriam me brecar. Então eu cumpri minha palavra com o Seu Mário no Audax e cumpri também no Guarani. São situações diferentes. Achei que era o momento, que era uma oportunidade grande. Eu tinha que aproveitar. Acima da estrutura que o Atlético-PR oferece, o que me trouxe para cá foi uma conversa muito significativa com o Seu Mario Celso Petraglia (CEO do clube paranaense). A gente teve uma grande afinidade de ideias. Parecia que a gente já se conhecia. Foi determinante para minha vinda. Me senti super confortável e confiante, vi uma sincronia de pensamentos. Isso me fez aceitar o desafio. Tenho convicção que fiz uma escolha certa.

Fernando Diniz chegou a assumir o Guarani meses atrás, mas teve passagem relâmpago
Fernando Diniz chegou a assumir o Guarani meses atrás, mas teve passagem relâmpago Divulgação/Guarani

Neste início de trabalho com os atletas o que você tem tentado mais desenvolver nos treinamentos? O que mais tem cobrado dos jogadores?

Eu tenho trabalhado com três pilares que eu acho fundamentais para um treinador de futebol. A primeira situação a pensar é na formação de um bom ambiente facilitador para que as relações humanas ocorram de maneira positiva. A segunda é muito trabalho tático. É preciso apostar nisso. E tem uma terceira coisa que também é muito importante, buscar sempre intensidade nos treinamentos. Na verdade, são estes três componentes que me acompanham em tudo que eu faço no futebol. O eixo central do trabalho está apoiado nestas três questões. Em termos táticos a gente treina exaustivamente a saída de bola, que é uma característica marcante das equipes que eu dirijo. É algo que a margem de erro tem que ser pequena, então é uma coisa que a gente tem que sempre trabalhar. As questões de compactação também. Temos que ter um time sempre próximo em qualquer setor do campo. São abordagens que sempre trabalho. E isso não depende de ser começo ou um estágio mais avançado do trabalho, são situações que a gente precisa sempre estar alinhados. Outra coisa que treinamos muito é como se comportar marcando em linha alta, média ou baixa. Depois disso, caminhamos mais para coisas mais específicas. Ainda não conseguimos trabalhar bola parada, mas teremos que fazer. Encaixe de marcação, ajustes, movimentações no último terço, como vamos elaborá-las... Tem que ser um passo de cada vez. 

Sua forma de jogar exige muita intensidade dos atletas, principalmente nas reações pós-perda da posse. Como você enxerga o estágio do Brasil neste sentido? Tem a impressão de que o jogo por aqui é mais lento? Claro que não devemos comparar isso com as maiores ligas do mundo, com a Premier League. Mas por que acha que estamos tão abaixo?

Eu acho que temos que aproveitar as características dos nossos jogadores. Quando um deles vai para fora, você o introduz em um todo, então facilita para ele se adaptar e passar a ter comportamentos que aqui não temos. Aqui não temos uma cultura enraizada sobre esses conceitos. O que temos aqui, se você for ver na prática do nosso jogo, olhando para os últimos campeonatos, está todo mundo jogando em transição. Ninguém quer a bola. Todo mundo tenta se defender bem para usar o contra-ataque para vencer os jogos. Sempre na transição defesa-ataque. E para quem joga dessa forma, não tem necessidade de treinar reações pós-perda. Não tem porque estimular esse tipo de intensidade. Então esse tipo de situação tem a ver com o tipo de modelo que você quer implantar. Para a maneira que eu gosto que minhas equipes joguem, esse tipo de conceito é muito importante. Velocidade no passe, no movimento e na reação pós-perda. Para mim a intensidade é muito importante. Para quem prefere "expor menos o time" - e digo isso entre aspas mesmo -, não é algo tão preponderante assim. 

Você percebe que no Brasil a gente absorveu muito conceitos de defesa, de controlar espaço e de jogar sem a bola nos últimos anos e que isso influencia na nossa maneira de jogar? O brasileiro acredita muito que organização tem a ver com defender, e sabemos que não é só isso. Não acha que é o momento de a gente dar um passo à frente na organização ofensiva também? Acha que falta conteúdo no nosso futebol neste sentido?

Eu não sei porque as pessoas acham tanto que organização no futebol serve só para defender. Claro que se organizar na fase defensiva é muito mais fácil do que quando você tem a bola. Dá muito trabalho ter a bola. Você tem que criar espaços, enfrentar linhas mais baixas... Quando isso acontece, você acaba se expondo mais. E no Brasil isso é ir contra a norma. Existe uma preferência para todos jogarem de uma forma mais conservadora. Você se protege melhor. Eu acredito que dois pilares fazem o futebol brasileiro caminhar para trás. A cultura do povo é de gente leve, a matéria prima ainda tem jogadores mais ousados, verticais, com bom drible, que sabem jogar com aproximação, serem criativos... E isso está na cultura do nosso povo. Os jogadores do futebol brasileiro, de uma forma mais geral, são oriundos de famílias menos favorecidas financeiramente. São caras que passam muito tempo na rua praticando futebol sem nenhuma inibição pois não tem um adulto monitorando as regras do jogo. Então a gente tem esse tipo de atleta e a gente está colocando ele para praticar um jogo com prioritariamente organização defensiva. Você precisa criar espaço para estimular a criatividade do jogador. E aí ele não cumpre de maneira satisfatória esses quesitos. O menino sonha ser jogador para jogar futebol. Não é porque ele quer marcar e jogar em transição. Isso é a contramão do que, principalmente o jogador brasileiro, sonha fazer quando é garoto. Avaliando de uma maneira mais profunda, eu tento, no geral, resgatar esse lado lúdico. Tentar trazer de volta o prazer que todo mundo teve de jogar futebol um dia. Todos estes jogadores já foram o melhor da escola ou da rua. Então se cria estruturas que favoreçam estes comportamentos para um jogo bem jogado. Sempre pensando em ter um time mais competitivo.

Muito se fala que o drible sumiu no futebol brasileiro. Muita gente sente falta disso, inclusive. Temos uma cultura forte de que devemos jogar a bola no melhor do time para que ele resolve sozinho, são situações criadas desde a base. Hoje se controla muito bem os espaços, se faz linhas de cobertura... Qual é o caminho para resgatar isso? A palavra não seria condicionar os jogadores a isso? Criar situações para este tipo de enfrentamento?

É condicionar, sem dúvida. Uma das coisas mais difíceis de ser feitas é você entrar na cabeça do jogador, na alma dele... Aquele atleta que tem o 1x1, que tem muita qualidade técnica. Fazer ele entender que o coletivo favorece as qualidades dele, que ajuda na sua criatividade. E não o contrário. O jogador precisa ser coletivo para participar do jogo de uma maneira relevante. Com isso ele terá mais espaço. Por fazer parte do todo. Neste momento ele vai ter a situação de 1x1. E para isso é preciso ter articulação, ter movimentos pré-estabelecidos... Não é uma receita de bolo. Você tem que criar estes movimentos, trabalhar padrões que favoreçam tanto o jogador mais técnico, com qualidades de enfrentamento, quanto aquele que prefere um jogo mais de aproximação. E isso dá trabalho, não é simples. Não vão ser 40 minutos de treinamento que vão gerar estas situações. Eu não acredito nisso. Os jogadores não vão se sentir confortáveis para estas coisas. De uma aproximação, de uma tabela com infiltração... Não é fácil, mas tem gente que faz isso muito bem no mundo. Tem outros que já não ligam muito para isso, preferem jogar em transição. Vai do gosto de cada treinador, do que acredita como futebol. Para mim o futebol só faz sentido desde que estes componentes estejam na prática do jogo. Não se trata de um jogo que você joga apenas pelo resultado, existem maneiras de você buscar uma vitória e eu acredito que a estética, o jogo bem jogado, intensidade e construção coletiva te colocam mais perto de ganhar um jogo. Eu não acredito que jogar em transição, mais fechado, te deixa mais perto da vitória. Eu não acredito nisso. Se você o faz bem, tem suas chances. Mas se você reage bem a perda da bola, se criar movimentos em sincronia e ataca espaços você tem maiores chances de levar o jogo. Tenho isso comigo. Não estou criticando quem ganha com linha mais baixa, esperando uma ou duas bolas para fazer o gol... Mas existe uma distorção destes conceitos. E mundo está aí para mostrar que não precisa ser assim. A Seleção de 82, quando não ganhou, criou-se uma distorção de pensamento que se o Brasil jogasse de maneira mais defensiva, teria maiores chances de ganhar a Copa. E para mim isso não faz sentido. A chance que aquela equipe foi muito maior daquela forma.  

Você bateu muito na tecla de que não é algo simples chegar em um nível de organização ofensiva mais aprofundado e o tempo está muito ligado a isso. No Audax você teve bastante respaldo para desenvolver estes conceitos durante anos. Acha que a realidade no Atlético-PR vai ser a mesma? Acredita que terá tempo?

É difícil fazer uma análise exata disso. Meu maior trabalho no Audax foi convencer os jogadores de que a gente podia jogar de igual contra equipes de maior expressão. E jogar até melhor, inclusive. E tudo isso levou um tempo realmente. Mas se a gente olhar para o meu início de trabalho lá ele foi bom. Não fiquei lá porque fui fazendo coisas erradas e ganhando tempo para consertar. Não acho que um treinador precise de 3 ou 4 anos para desenvolver um trabalho. Logo de cara a gente subiu da A2 para a A1 (do Campeonato Paulista). E batemos recordes de pontuação na competição. E para este primeiro time eu treinei uns 10 dias só. Claro que eu fiquei e as coisas foram evoluindo com o tempo. Em 2014 fizemos um primeiro jogo contra o Santos, que chamou a atenção das pessoas. Conseguimos um grande amadurecimento tático. Mas também uma evolução individual e coletiva dos jogadores, eles passaram a se sentir capazes de enfrentar grandes adversários. Sem dúvida foi o mais difícil. Tinha muitos jogos que a gente acabava jogando bem contra times grandes, mas por um erro muito infantil, acabava dando tudo errado. Teve um jogo no Morumbi, nosso primeiro tempo muito bom contra o São Paulo, mas por conta de uma expulsão e várias desatenções, tomamos uma série de gols. O tempo serviu muito para amadurecer a equipe. Fomos fazendo correções, criando alternativas... Quando eu peguei o grupo do Audax, a maioria dos jogadores vinham de insucessos na carreira. Então também foi um trabalho de resgatar a confiança deles. De criar um ambiente facilitador para que a comunicação entre eles fosse positiva. Foi um processo longo, que durou anos. No terceiro Campeonato Paulista juntos eles atingiram o nível máximo. 

Fernando Diniz durante final do Paulista entre Audax e Santos
Fernando Diniz durante final do Paulista entre Audax e Santos Gazeta Press



Sabemos que você estudou e se formou em psicologia. Nas suas abordagens sobre futebol você sempre bate muito na tecla também de questões humanas, de entender a pessoa naquele atleta. Como você usa esse conhecimento que você adquiriu durante sua vida?

Eu fui jogador antes de ser treinador. A impressão que tenho é muito clara para mim. Tive uma boa carreira, joguei em times grandes. E eu sentia que faltava muito esse contato mais humano. O jogador é tratado como um robô, como uma coisa qualquer. Eu vi muito isso durante meus anos como atleta. Quando um cara jogava bem, ele era tratado como uma pessoa muito legal. Mesmo, em muitas vezes, ele não sendo uma pessoa lá muito legal. Às vezes era um cara que na parte humana deixava bastante a desejar. Aí o cara que trabalhava duro, que tentava fazer seu melhor, buscava as coisas, mas vivia um momento ruim, era quase sempre destratado. Era visto como uma pessoa menor. E esse tipo de distorção sempre me incomodou, me marcava muito. E eu sei que isso continua acontecendo. Não acho que seja a maneira mais correta de conduzir um time de futebol. As pessoas precisam ser respeitadas, você tem que procurar facilitar para que as pessoas se encontrem e sintam prazer de estar ali naquele ambiente. É algo que busco promover isso o máximo que consigo. Para mim uma pessoa melhor é um jogador melhor. Todos têm suas angústias, seus medos. E quando a gente consegue oferecer algo que as pessoas consigam superar os desafios, você acaba tendo um jogador melhor.

Muitos questionam um pouco a relação de cobrança que você tem com seus atletas. De uma dura mais ríspida, uma chamada de atenção... Te chateia este tipo de comentário? Você acha que teve algum exagero durante sua carreira?

A verdade é que, quem nunca trabalhou comigo e não conhece quase nada do meu trabalho, que não conviveu comigo, não me conhece. Claro que você não agrada todo mundo, mas se você ver a minha aceitação é muito grande. E falo isso vendo as relações que tenho com os jogadores. A minha maneira de ver o futebol e de me relacionar com os atletas se mistura muito. Eu exijo muito. E faço isso porque quero o melhor para eles. Eles vão parar de jogar bola em algum momento e se eles não souberem aproveitar o agora, eles podem ter muitas dificuldades lá na frente. Eu não quero isso para nenhum deles. Às vezes o cara não tem muita consciência disso. Minhas cobranças vão muito em cima disso. De mostrar para os caras, de não admitir que eles estejam jogando uma parte da vida deles fora. Eu quero que eles joguem um grande futebol, que cheguem a grandes equipes, que ganhem títulos... Que vivam o melhor do futebol. Para que saiba usufruir, que guardem sua grana, que cuidem bem de suas famílias... Quando a carreira deles acaba, sabemos que eles vão viver pelo Estado, e sabemos que o Estado é falido. A escola é ruim, a saúde é ruim, a segurança é ruim... Esse lado está muito impregnado em mim. Nunca neguei isso. Claro que a gente precisa fazer ajustes o tempo todo. Você precisa melhorar, e eu estou procurando isso. Estou atento neste sentido, de buscar outras alternativas, achar outras formas de tirar o melhor de cada jogador. Mas essencialmente o meu movimento é sempre para beneficiar o atleta. Tenho respostas claras destes jogadores que tive convivência. De mensagens que recebo até hoje, de como falam de mim para outras pessoas. Em sua maioria eu tenho convicção que essa aceitação é grande. E o que eu ajudei a promover na vida deles me preenche muito. Me satisfaz. É algo muito verdadeiro em mim essa vontade de ajudar. Isso emana em mim de uma forma muito intensa. Claro que eu tenho que corrigir exageros que em alguns momentos existiram. Mas quando eu os fiz sempre foi com a melhor intenção possível. Tive muitas conversas com meus atletas, de saber o que incomoda neles, tentar entender porque aquela pessoa é daquele jeito, tentar entender o passado que eles trazem, como foi a construção existencial de cada um... Às vezes as pessoas enxergam aquele pedacinho, mas ele é só a ponta do iceberg. Mas ninguém quer saber do todo. Vai lá perguntar para o Tchê Tchê (Palmeiras) do quanto eu cobrei ele, como foi nossa evolução. Cada um ver o que quer nestes momentos. Às vezes aquele pouco que você perde da normalidade, aquele pouquinho, vira um estardalhaço. Mas existem muito mais coisas por trás. E no futebol as pessoas não costumam valorizar isso. Se dá muita importância à parte tática, e eu valorizo isso, trabalho de forma exaustiva o que quero jogar, fase de construção, é só ver os jogos dos meus times, mas ali por trás tem pessoas. É um todo e uma construção constante de vários aspectos. Temos caminhos ainda pouco percorridos no futebol. É preciso ter coragem. 

Quando olhamos para suas equipes chama muito a atenção o papel do goleiro dentro do modelo de jogo que você busca. Como tem sido aí no Atlético-PR? Você vai buscar alguém de fora? Dá para trabalhar a evolução do goleiro com os pés ou é algo que ele já trás da base?

Se você tem um goleiro que já tem um jogo com os pés mais elaborado, facilita muito. Realmente é algo que facilita muito a forma como eu gosto de jogar. A parte técnica, física e tática é bastante complexa. Tem goleiros que não tem tanta qualidade com o pé, mas sabem tomar as melhores decisões. Até por entender suas limitações. O goleiro não precisa ser um craque com o pé para jogar comigo. O Sidão, quando cheguei ao Audax, não tinha quase nada de trabalho com os pés. Mas foi se desenvolvendo. Tanto que foi para o Botafogo e agora no São Paulo também por conta de ter qualidade com os pés. Acho que muita coisa o goleiro pode melhorar com treinamento. E aqui no Atlético-PR tem uma escola excelente de goleiros. Tem uma nova geração sendo formada aqui por grandes profissionais. Encontrei bons goleiros aqui. Mas quando a gente encontra algum que já entende o sistema, tem essa facilidade a mais, ajuda. Mas não que seja uma coisa que vai se definir sozinha. Ele só não pode ser horroroso neste sentido. Que não tem nada de qualidade, que não tem margem de evolução. Realmente eu uso bastante. De maneira geral eu acho que todos os goleiros, se bem trabalhados, tem o que evoluir.

No Brasil existe muito uma discussão sobre treinamentos fechados. Qual sua opinião quanto a isso? É de fato relevante fechar uma atividade para a imprensa?

Não tenho uma opinião totalmente formada quanto a isso. A imprensa faz parte do futebol. Quando você não fala, não dá uma entrevista, vai se construir coisas em cima do que não se ouviu. Obrigar o profissional a caçar informações. Tanto que a gente lê coisas e escuta na televisão coisas que não correspondem à realidade. Então fica uma coisa meio chata. Mas tem momentos que eu acho que precisa ter privacidade. Um treino tático mais importante, por exemplo, você precisa estar mais fechado. Como você vai abrir isso? Você não conhece as pessoas que estão ali naquele ambiente. Acho importante neste momento ter só as pessoas envolvidas no processo. Ali estão suas ideias de jogo, suas estratégias... Tem treinos que não tem problema você mostrar. Mas tem situações que é importante você estar ali sozinho.

Uma pergunta que sempre faço aos treinadores é sobre a discussão do "velho vs novo", do "boleiro vs acadêmico"... Acha que é uma questão que enriquece o debate sobre o nosso futebol?

Eu acredito muito em vocação. E a pessoa precisa disso trabalhar no futebol. Tem gente que nunca jogou futebol, mas tem sensibilidade para ser treinador. Consegue ter uma percepção diferente, entender os jogadores... Eu tive a sorte de ter trabalhado, principalmente na base, com gente que aprendi muita coisa. E a grande parte dessas pessoas nunca tinha jogado futebol profissionalmente. Evolui pra caramba com esses caras! Tive treinadores que me marcaram muito, caso do Oswaldo de Oliveira. E ele nunca foi atleta. Eu nunca passei por estes preconceitos, tive sorte por isso. Acho que existe espaço para todo mundo. Existe preconceito de ambas as partes e isso não pode existir. Acima de tudo o futebol precisa de gente bem preparada. Que tenha vocação, mas que também se capacite para isso. E vale para qualquer função no futebol. Estudar todo mundo tem que estudar, não tem jeito. Estou percebendo que os ex-jogadores estão buscando isso de uns tempos para cá. E tem essa galera que vem da academia, que estuda bastante, que mostram bons trabalhos... É aliar o conhecimento de todos para um bem maior. No geral é uma discussão que não faz sentido. Que vença o time das melhores ideias, do protagonismo delas. Eu quero ver a ponta final, que é como o time destes treinadores joga. Não interessa se é acadêmico ou ex-jogador e sim o que vai ser apresentado dentro de campo. Temos que discutir a prática. Joga bem, corresponde? A ideia por trás daquele modelo é bem executada? O que interessa o que o time produz em campo. A discussão é essa. O mundo é das pessoas que fazem, não das pessoas que falam. A teoria só serve se for boa na prática. E isso vale para qualquer área da vida. O futebol precisa criar encantamento em quem assiste. Isso é importante, acima de tudo.

Fernando Diniz durante treino do Audax
Fernando Diniz durante treino do Audax Gazeta Press



Qual a importância hoje de o treinador ter uma boa comissão técnica? Você acha que a figura do treinador também tem mudado nos últimos anos? Principalmente na questão de centralizar menos as coisas nele e também saber delegar?

Realmente teve uma mudança. Para mim, por onde eu passei, sempre levei em conta o ambiente. No Atlético-PR eu fui acolhido da melhor maneira. E da mesma for eu também busco sempre acolher todo mundo. Eu procuro usar todo mundo no processo. Eu gosto de gente, gosto de conviver com as pessoas. Às vezes tem gente ao seu redor que está enxergando coisas que você não consegue ver. Então o treinador precisa estar aberto. Eu procuro sempre ouvir o maior número de pessoas possíveis. Claro que quando é possível, quando a situação pede. Sempre deixou claro que estou aberto a novas ideias e tento estimular as pessoas a serem criativas. Quero que pensem um pouco fora da caixinha. O que está aí já está aí, e a gente tem mais coisas para descobrir no futebol. Quando você consegue prover este tipo de sentimento, fazendo as pessoas se sentirem mais à vontade, elas acabam te ajudando mais. O que eu falei de criar um ambiente facilitador vale para os jogadores e também para os membros de comissão técnica. O trabalho que todo mundo faz pode ser melhor. Se ajudando, todos melhoram. Eu gosto deste contato próximo, que as pessoas tenham liberdade e confiança para poderem ousar. Que tentem coisas novas, que errem... Porque quando estamos imobilizados não saímos do lugar. E sempre temos um mundo novo para construir. Analista, fisiologista, preparador, nutricionista... Todos eles precisam ter liberdade para falar com o treinador. Sugerir coisas, buscar resoluções. Claro que é função do técnico tomar a decisão, somos pagos para isso. Mas eu estou sempre aberto a escutar tudo que as pessoas têm para falar. É importante deixar todos confortáveis para expor suas opiniões. Se você vai usar ou não é outra história. Posso achar que não é o melhor para a equipe, mas vou sempre respeitar e deixar esse canal aberto. É importante para ter um time forte também fora de campo. A gente precisa um do outro. 

Claro que o treinador brasileiro precisa estar sempre com olhar forte aqui no Brasil. Mas você acha importante também observar o que acontece fora do Brasil? Quais ligas e times você gosta de ver jogar?

Eu acho bastante importante se manter antenado com o que acontece lá fora. Eu trabalho com dois olhares. O meu principal é para o que eu estou praticando. Meu time, os adversários que terei pela frente. O que me sobra de tempo eu busco olhar para outros países. Gosto muito do futebol inglês. Gosto de ver as equipes que o Guardiola treina. Do Klopp. Gosto muito do Napoli que é treinado pelo Sarri. Defensivamente é uma ideia um pouco antagonista do que eu penso de futebol, mas gosto de ver o time do Simeone também. É importante você entender formas para se defender bem também. É muito interessante o que ele faz no Atlético de Madrid. Com seu estilo e com menos recursos ele conseguiu ser competitivo em alto nível, contra equipes muito mais poderosas. A gente tem que tirar o chapéu. Não que eu queira defender como defende o Simeone, mas é importante observar. De maneira geral acho que o futebol inglês está um pouco à frente. É um movimento que acontece de tempos em tempos. De um país que acaba tendo uma maior organização e mais recursos financeiros, conseguindo ter os melhores jogadores e técnicos. Ao logo do tempo acaba tendo mais incidência também nas categorias de base. O movimento que está acontecendo lá de um período para cá é bem interessante. Quando se investe muito e você leva os melhores jogadores, e consequentemente os melhores treinadores, isso tem impacto na formação de uma nova geração de jogadores. Eles vivem esse momento. Assim como a Itália já viveu, a Espanha... Outro que gosto de ver é o Sampaoli. Mas o que eu mais estudo mesmo são os meus times, no que precisa ajustar, melhorar, e os adversários.       

Mantendo a tradição das entrevistas que faço, eu sempre fecho com uma pergunta que sempre rende boas respostas. Até por elas serem bastante pessoais. O que é jogar bem para você?

Para mim jogar bem é ser competitivo, mas sempre que puder encantando que o assiste. É produzir coisas positivas em todo o processo que antecede o jogo em si. Ganhar e sentir prazer, dar prazer para quem joga e quem assiste. O futebol tem uma conexão muito forte com a minha vida. Eu quis jogar futebol porque os jogadores me encantavam, o jogo me trazia uma sensação única. Zico, Maradona, Romário, vídeos do Pelé... Para mim a essência do jogo é isso. É a arte, a beleza. Quando você consegue resgatar isso, você se torna muito mais competitivo. Ao resgatar a essência do jogo ele te dá uma ferramenta muito poderosa para ganhar. Jogar bem é construir um futebol coletivamente. Não adianta também colocar um monte de talentos e soltar a bola para eles resolverem. Já foi o tempo disso. Passou. É preciso ter uma amarração coletiva para se construir algo sólido. Ter a posse, terminar as jogadas com eficiência... Isso te exige o trabalho coletivo de forma gigantesca. É necessário construir muitas conexões entre os jogadores. E a parte humana entra de maneira sistemática nisso. Não é só o modelo de jogo, não é só a parte tática... Tudo precisa ser construído de maneira agregada. O futebol precisa ter algo mais. Não é só o resultado no final da partida, tem que ter um gosto, um sabor. As pessoas precisam gostar de ver o jogo.

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Entrevista do mês: Fernando Diniz avisa que dá mais trabalho ter a bola, elogia Premier League e quer lado humano mais valorizado no futebol: 'Uma pessoa melhor é um jogador melhor"

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O frenético Liverpool x Manchester City e as lições sobre intensidade dadas ao futebol brasileiro

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Liverpool comemora um dos gols da vitória sobre o Manchester City
Liverpool comemora um dos gols da vitória sobre o Manchester City Getty

Liverpool e Manchester City, no último domingo, protagonizaram um jogo com a essência da Premier League. Não faltaram transições, duelos pessoais, brigas em 1ª e 2ª bolas, gols... Mas a palavra mais certa para definir o confronto e, principalmente, a liga em que as duas equipes jogam é intensidade. Termo que, apesar de muito usado em solo brasileiro nos debates sobre futebol, não é totalmente compreendido.

Quando se fala em intensidade por aqui, logo vem em mente situações ligadas aos comportamentos de uma equipe/jogador sem a bola. Times intensos normalmente são denominados por conta da sua forte marcação,  da capacidade de desarmar ou mesmo pela garra em cada dividida pelo campo. Mas este conceito, se olharmos para dentro do jogo, vai muito além disso. 

Intensidade também inclui ações com bola e existem diversas maneiras de a ter com a posse. A velocidade de execução (tempo em que o jogador domina e passa/finaliza/lança), por exemplo, é um dos pilares deste conceito.  A mobilidade, como deslocamentos para achar linhas de passe, também entra dentro deste pacote. A rapidez na tomada de decisão idem. E temos também a reação após a recuperação da bola, que nada mais é o quanto você demora para atacar um espaço,  para dar uma opção de passe ou  infiltrar no exato momento em que recupera a posse. Ou seja, intensidade é bem diferente de "correria", como muitos acham.

A organização e a criação de um modelo de jogo que se integre ao tipo de jogadores e clube que está também são de extrema importância. Intensidade sem estrutura, sem uma ideia por trás, vira um catado. É correr errado apenas.

No duelo do último domingo em Anfield vimos muito disso. Um jogo frenético. O alto número de ações com e sem bola, principalmente do Liverpool, nos dá uma dimensão de como foi o jogo e nos dá uma referência na hora de "medir essa intensidade". Ao melhor estilo Jürgen Klopp, os Reds pressionaram a bola a desde o início, atrapalhando muito a saída de bola da equipe de Pep Guardiola. Na recuperação, acelerava e atacava espaços em profundidade. Firmino, em mais uma ótima atuação, flutuava por todo terço final, abrindo espaços e jogando com um ou dois toques, ajudando a desequilibrar a defesa de Manchester.

O duelo entre Arsenal e Chelsea (2x2) foi outro que também chamou a atenção neste sentido. Ainda mais por ter acontecido em meio ao boxing day (período no campeonato inglês com jogos seguidos em um curto espaço de tempo, que considero bastante inadequado, inclusive). Claro que os dois jogos citados aqui são de equipes gigantes, onde a qualidade técnica é maior pelo poderio financeiro, mas é possível ver tal velocidade, tal ritmo, tal intensidade, em jogos de menor porte também.

Obviamente que a Premier League é uma das (ou a) liga mais intensa do mundo. Seria até leviandade compará-la com o futebol praticado no Brasil neste sentido. Mas se olharmos para outros centros como Espanha, Alemanha, Itália e até Portugal, ainda estamos bastante atrás. Convivemos por aqui com um jogo lento, muitas vezes com posses pouco objetivas e, principalmente, quase sempre pragmáticos. Um arroz com feijão mal feito. Uma sonolência que tem a ver com a nossa cultura de jogo.

"Ah, mas os caras têm muito dinheiro!", "Mas os melhores jogadores estão lá!", "Vai jogar em Caruaru às 16h para você ver se tem intensidade!"... São vários os argumentos que recebi após levantar este assunto no Twitter. Todos com seu valor, inclusive. Já que englobam nas justificativas para um jogo tão pouco intenso que vemos no Brasil. 

Claro que a qualidade técnica é essencial para a boa prática do futebol. E é fato que nossos grandes jogadores já não estão por aqui. Mas apesar de tudo isso, não poderíamos fazer mais? Somos um dos países que mais carregam a bola no futebol mundial. Ainda não achei uma estatística que comprove isso, mas a olho nu é bastante perceptível. 

Cada lugar tem sua cultura e sua forma de ver/jogar futebol. Não dá para nós brasileiros abrirmos mão do nosso estilo. Quando cobramos uma melhora na qualidade do nosso jogo, não queremos simplesmente copiar. Mas sim adequar as boas lições que outros lugares podem nos dar e adaptá-las à nossa realidade, sem perder nossa essência. E o nosso problema vai além de dinheiro, qualidade técnica, organização... Tem a ver como tratamos e desenvolvemos futebol.

Primeiro que nossos métodos são ultrapassados. Claro que isso não é praxe de todos nossos treinadores, mas ainda enxergamos por aí treinamentos longos e exaustivos. Muitas vezes utilizando todas as dimensões do campo. Trabalhar espaço reduzido e em menor tempo tem sido a tônica nos grandes centros. E faz sentido. Você diminui o espaço, cresce as ações. Com o aumento de toques na bola, aumenta-se a participação de cada atleta. Mais ações = a mais intensidade. 

Também não adianta fazer um treino em campo reduzido e usar a continuidade nele. Por exemplo: faça um 6 vs 6, mas jogue os jogadores 40 minutos neste exercício. Depois de 15 minutos a intensidade dos movimentos começará a cair de força gradual. Por conta disso os exercícios intervalados são bem mais usados nos grandes centros do mundo. Ainda em cima disso, entram os objetivos destes treinamentos. Largura para trabalhar amplitude (abrindo o campo), cumprimento para trabalhar profundidade, regras para levar a bola num devido setor ou mesmo estimular algum tipo de comportamento nos atletas... O repertório é vasto e exige criatividade dos treinadores, já que eles precisam sempre ter um objetivo final para aquele exercício, sempre pensando em refletir este conteúdo no jogo.

Nosso calendário apertado também vira um vilão nestas horas. Em ano de Copa do Mundo a situação se agrava muito, já que algumas equipes não terão nem 15 dias para realizar uma pré-temporada decente. Inclusive já pontuamos por aqui a importância desse período (clique aqui). Ou seja, já se começa errado por aqui. E, inevitavelmente, essa demanda vai ser cobrada lá na frente. Questões como a temperatura também entram no pacote. Aqui os dias e regiões quentes castigam qualquer atividade física.

Mas temos também a nossa cultura de "picar os jogos". Caímos no chão após qualquer choque para esfriar o jogo. Fazemos bolinho no árbitro. Retardamos cobranças de tiro de meta. Enquanto alguns querem jogar a todo custo, nós queremos apenas ganhar. E não importa a forma como isso vai acontecer. São pequenas atitudes que colaboram para a qualidade do nosso jogo. A arbitragem, que ainda sofre com sua não profissionalização, também ajuda a complicar o cenário. 

Está mais do que na hora de darmos este salto de qualidade no futebol praticado em solo brasileiro. O produto que oferecemos está longe de ser interessante. Enquanto isso, perdemos cada vez mais espectadores. Os estádios esvaziam. Se vende menos, se paga menos. E para dar os primeiros passos nessa direção, a primeira coisa que precisamos é aprender ver o futebol num todo. Aceitar que ele é sistêmico e deixar de individualizar problemas, já que são várias as questões que o cercam. A mudança é necessária. E ser auto-crítico está longe de ter síndrome de vira-lata. Queremos mais porque podemos mais.

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O frenético Liverpool x Manchester City e as lições sobre intensidade dadas ao futebol brasileiro

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A incompreendida pré-temporada no Brasil e a construção de uma equipe vencedora

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Na Europa se respeita pelo menos um mês de pré-temporada. No Brasil ainda sofre com isso
Na Europa se respeita pelo menos um mês de pré-temporada. No Brasil ainda sofre com isso Getty Images

Virada de ano, fim das férias e chegada a hora tão esperada de religar os motores no futebol brasileiro. Eis que a pré-temporada, com seus fãs e críticos, passa a ser a bola da vez na cobertura jornalística, na conversa entre os jogadores e  também dentro das comissões técnicas. Mas, enfim,  qual a real importância deste período sem jogos em que só se treina país afora? Cabe a nós então tentar entender (e inclusive valorizar!) o papel destas semanas dentro da construção de uma equipe vencedora. 

Infelizmente a pré-temporada ainda é tratada, de uma forma geral, com bastante superficialidade em solo brasileiro. Muitos por aqui a tem apenas como um "período para se recondicionar fisicamente", "voltar ao peso ideal" ou simplesmente encontrar retiros de concentração "para entrosar o grupo"...  Mas a sua influência vai muito além disso. Aspectos importantes e decisivos, que deveriam entrar mais nos debates sobre futebol por aqui, simplesmente por estar aliado a toda performance durante o ano.

Obviamente que os fatos citados acima são de extrema importância e estão incorporados na demanda exigida dentro das primeiras semanas pós descanso. Afinal, voltar a ter seus atletas em plenitude física é um dos primeiros passos para formar uma equipe vencedora e competitiva. Mas esse é só o ponto de partida (ou deveria ser em alguns casos).

Antes de mais nada não podemos iniciar qualquer discussão que envolva pré-temporada sem antes ressaltar que no Brasil, assim como a grande maioria dos processos que envolvem o futebol, não se respeita tempo. Com ano de Copa do Mundo isso se agrava mais ainda. Em menos de um mês teremos equipes estreando em estaduais. Outras terão em jogo o seu futuro na Libertadores disputando mata-matas na fase eliminatória, com uma exigência física enorme. O fato de poder se preparar bem, afeta diretamente na qualidade do nosso jogo. E isso é notório.

Inclusive chega até a ser leviano cobrar alto rendimento de equipes após 20 dias de treinamento. Em outros países (nem precisa ser da Europa), se dá tempo ao tempo e essa preparação é muito melhor executada. 

Em muitos casos, essa falta de tempo complica ainda mais, já que muitas vezes este processo é iniciado com treinadores e metodologias novas. Ou seja, um novo técnico, uma nova ideia de jogo... É como começar a construir um prédio algo do zero. Não se tem os alicerces. Ou seja, raramente se tem uma ideia antecessora ou um norte preliminar. As coisas não funcionam, a pressão começa e... Troca de novo. E quem vem nem teve a vantagem de ter tido a pré-temporada para impor sua forma de trabalhar.

Enquanto isso muitos encaram o treinamento no Brasil como uma espécie de "castigo" para equipes ou jogadores que não vivem grande fase. Perdeu? Treina dois períodos, oras! Folga? Recuperação? Coloca esses caras para correr! Mas esta não pode ser uma visão de uma comissão técnica bem preparada (veja o depoimento de Dorival Junior, ainda no Santos, para o DataESPN Visita).  Para tais profissionais trata-se de um período raro e de extrema importância dentro da consolidação do trabalho. É o plantio de uma semente que, se bem plantada e cuidada durante o ano, tem tudo para florescer e render bons frutos.

Após reciclagem no Bayern, Dorival lembra quando Guardiola cancelou treino e venceu por 8 a 0

E é aí que mora a questão: não é o tanto que se treina, mas sim como se treina. O que devemos levar em conta é qualidade dos exercícios, os porquês de cada um deles e, principalmente, como se está sendo construído os pilares básicos do modelo de jogo. É a fundação de um edifício que, sem essa estrutura inicial, tem tudo para desmoronar quando for colocada em jogo. É o preparo não só físico, mas também do jogo que você escolheu jogar.

Em um cenário ideal, a pré-temporada se inicia bem antes da reapresentação do plantel. Quando existe a troca do treinador para o próximo ano (o que seria o encerramento de um ciclo, muito mais fácil para fazer julgamentos), já se começa a planejar imediatamente após o acerto. O primeiro passo destes profissionais junto ao comandante é entender o clube, os jogadores e a estrutura que você terá no dia a dia. Que tipo de futebol este time tem como DNA histórico? Quais comportamentos são valorizados por esta torcida, região ou cultura (afinal, os torcedores e a história são os maiores patrimônios de uma instituição). Ao não refletir estes quesitos, a chance de se começar errando já é grande.

Até que surgem mais duas importantes perguntas dentro do processo de construção de uma equipe: quais as características do meu elenco e qual é tipo de futebol que eu quero praticar? 

Então vamos praticar um breve exercício: tenho muitos jogadores verticais do meio para frente. Eles rendem mais quando podem acelerar o jogo e fazer transições ofensivas rápidas com a bola. Com a posse eles não me trazem grandes atributos técnicos. Não são atletas com grande qualidade no jogo apoiado, preferem um jogo mais direto. Também tenho uma linha defensiva com mais força e imposição física. Por outro lado, zagueiros e laterais mais lentos, sem agilidade na troca de direção. Do meio para trás meus atletas preferem um jogo mais posicional e de controle dos espaços. Em um todo tenho um elenco pouco criativo, mas com boa disciplina tática. Meu investimento financeiro para ir ao mercado também é bastante baixo. Não posso errar por nada.

Claro que a leitura acima é bem rasa e superficial. É preciso muito mais que isso para tomar as decisões corretas. São horas de estudo, de jogos assistidos, de pesquisas dentro do próprio estafe, de reuniões e discussões entre os profissionais da comissão técnica... Mas que tipo de futebol você escolheria dentro deste cenário? É possível montar uma equipe baseada na posse de bola e que tenta propor o jogo em qualquer situação? Jogar com uma linha defensiva alta, pressionando sempre o adversário no seu campo? Ou seria melhor optar, pelo menos num primeiro momento, por um jogo mais reativo e direto? (Na análise abaixo vemos um pouco da passagem de Aberto Valentim pelo Palmeiras: ideias claras e boas, mas sem tempo para conseguir executar com qualidade).

Boas ideias com falhas de execução: Renato Rodrigues e DataESPN dissecam Palmeiras de Valentim

São escolhas. Simples assim. E elas trarão prós e contras dentro de um trabalho. Mas sem dúvida é um exercício de adaptação por parte dos treinadores. De entender o contexto e tomar decisões em cima deles. Não jogar da forma que gosta, mas sim da forma que pode. No Brasil vivemos muito disso, uma linha tênue e perigosa entre a convicção e a teimosia.  Acredito sim que, com os treinos e estímulos certos, esse elenco desenhado acima pode fazer um jogo de posse. Mas certamente isso demandará tempo e paciência. Vale o preço? Minha direção vai das respaldo? Não é tão simples assim...

Tomada estas importantes decisões pontuadas acima, que darão o norte no longo caminho a se percorrer, chega o momento das ideias saírem do papel e se tornarem prática. E é neste momento que o planejamento do treinamento passa a ser de extrema importância. Os tipos de exercícios, as dimensões de espaço que serão feitos, as regras impostas dentro dos movimentos... E ainda tem controle da carga, imprescindível em qualquer esporte de alto rendimento. Todos estes pontos precisam ser muito bem alinhados. Serão eles que criarão os comportamentos que o modelo de jogo exige. 

Está mais do que na hora de entendermos que o treino reflete o jogo, que também deve refletir no treino. Pensa, cria, estimula, executa, corrige, evolui... Pensa, cria, estimula, executa, corrige, evolui... Sempre com a cabeça aberta, sempre pronto para o novo e atento aos problemas que virão pela frente. A dinâmica da criação de uma equipe passa muito por isso.

Por sua vez estes treinamentos estão cada vez mais evoluídos. Se corre mais, se duela mais pela bola... O número de ações com bola de um atleta no jogo só cresce a cada ao que passa. Geralmente quem não se atualiza dentro do esporte, acaba ficando para trás muito por conta disso. Dentro do futebol de alto rendimento atual, por exemplo, já não se treina com campo inteiro a todo tempo. As corridas em volta do campo também são raras. Geralmente os exercícios têm sempre a presença da bola. Mais intensidade, menos tempo de exercício. Nada de duas horas e meia de atividade. Quanto menos campo e jogadores no mesmo espaço, mas ações com bola. Abriu o campo, menos ações, mas senso coletivo e espacial. Se treina físico, técnico, tático e psicológico em uma mesma sessão. A busca é sempre pela realidade que o jogo vai trazer. 

Por acaso algum jogador dribla um cone dentro de uma partida? Seu goleiro vai sair em uma bola alta sem ninguém disputando espaço com ele? Alguém passa sem ninguém estar pressionando a bola? Por conta disso o treinamento analítico vai perdendo cada vez mais espaço. 

Os dias vão passando e o campo vai dando algumas respostas. Por isso a necessidade de mais tempo. Sem ele, quase nada se mostra com clareza. As definições de posição/função, por exemplo, ficam mais claras quando todos estão com a mão na massa. Os ajustes acontecem e, aos poucos, você vai vendo aquela estrutura ganhando forma. O ideal é sempre fazer isso forma bem gradual, partindo do mais fácil para o mais difícil. Tomando bastante cuidado com o tanto e o nível das informações que estão sendo passadas. Se preocupando com a absorção do conteúdo passado dia pós dia. Afinal, o nível intelectual de um grupo com 30 pessoas é bastante hibrido. Cada um aprende em um tempo e de uma forma diferente.

Será na pré-temporada que uma linha defensiva que jogará de forma zonal, por exemplo, terá seu primeiro contato com exercícios de flutuação, de fechar a zona da bola, de fazer ou não perseguições, de ajustar e aprender a trabalhar com coberturas mais alinhadas. O que faremos após a recuperação da bola? Acelera ou tira ritmo para trabalhar a posse? E quando perdemos? Pressiona ou se recompõem atrás da linha da bola? Por onde vou construir o jogo? Como vou abrir o campo? Para onde vou direcionar o adversário durante sua posse? O jogo e seus diferentes momentos exigem estas respostas à todo o momento (veja a análise abaixo que mostra o tipo de futebol praticado pelos times de Pep Guardiola ao longo de sua carreira. Vemos diferenças, mas os pilares do seu jogo se repetindo)

DataESPN analisa a trajetória de Guardiola; veja as semelhanças de Barça, Bayern e City

Em outra analogia bastante simples podemos dizer que a pré-temporada é o nosso "A E I O U" nos primeiros anos de escola. Sem ele muito bem feito e absorvido, nenhum de nós conseguiria escrever um bom livro. Com o nosso calendário louco, o quarta e domingo tem momentos apenas para relembrar lições e aprendizados. De ajustar erros e fortalecer alguns comportamentos. De incluir ideias mais pontuais que surpreendem ou neutralizam um adversário. Se cria quando essa rotina maluca pega para valer.

O futebol, como tudo na vida, muda. Alguns dizem que evolui. Outros já acham que só piora. Mas é fato que ele está em uma eterna mutação. A famosa pré-temporada, de corridas em volta do campo e rachões cheios de descontração, já pede outra coisa. Cabe a nós sempre responder o que o jogo pede. Quem dá a devida importância e trabalha bem neste período, certamente sai na frente. 

O futebol no Brasil já começou! 

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Entrevista do mês: Paulo Autuori critica CBF, fala dos desafios na formação de novos craques e critica qualidade do jogo no Brasil: "Muito ruim"

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Paulo Autuori durante jogo do Atlético-PR contra o Flamengo, ainda como treinador
Paulo Autuori durante jogo do Atlético-PR contra o Flamengo, ainda como treinador Mauricio Mano/Atlético-PR

Paulo Autuori está no futebol há mais de 30 anos. Já passou por diversas experiências. Elas vão de países, clubes e até funções já desempenhadas durante a sua longa carreira. Conquistas, bons e maus trabalhos, turbulências, críticas... Você pode gostar ou não. Querer ou não o mesmo no seu clube. Mas se trata de uma figura que sempre merece  ser ouvida. Mais que isso, se trata de um eterno incomodado. Um cara que sempre quer e quis mais, independentemente da época e do que construiu ao logo de sua vida dentro do esporte.

Não dá para negar que Autori é da velha geração. Por outro lado ele não está nem aí para os 61 anos que tem. Para ele juventude é mais que isso. Está na cabeça, na vontade de evoluir ou não. "Existe muito jovem com a cabeça muito velha por aí", diz o ex-coordenador metodológico do Atlético-PR. Aliás também afirma ser "lamentável" o debate sobre "boleiro vs estudioso. Nesta longa entrevista a ideia foi falar apenas de futebol. Inclusive ela foi feita no início do último mês, sem saber da sua saída do Furacão, que foi divulgada no último domingo.

Neste papo exclusivo com o blog, o ex-treinador e agora gestor (ele mesmo fiz que não voltará à antiga função) faz duras críticas à CBF e, principalmente, ao nosso calendário. Fala da falta de identidade nos clubes brasileiros e é bastante critico quanto a qualidade do futebol jogado no país. Também cita as mudanças no futebol, da falta do "futebol de rua" e o quanto isso influencia na formação de novos craques por aqui.

Outro assunto abordado foi Rogério Ceni, com quem ganhou a Libertadores de 2005 com o São Paulo. Vê o agora treinador como um grande potencial na nova carreira e comenta sobre as dificuldades que o mesmo teve ao assumir a equipe que é ídolo durante esta temporada. Sua maior cobrança, inclusive, é o respeito ao processo, coisa rara aqui no Brasil quando o assunto é contração e queda de treinador. 

Veja na íntegra a entrevista:  

Depois de tantos anos como treinador, até com passagens fora do Brasil, o que tem te motivado nessa função de mais coordenação? O que tem encontrado de tão diferente?

Na verdade é uma função que, na maneira que o Atlético-PR me propôs, não existe no futebol brasileiro. Até porque eu não sou um gerente executivo, por exemplo. Eu não trato com negociações, com dinheiro... Eu mesmo deixei claro que não queria me envolver com isso. Minha área é totalmente técnica e no que isso pode refletir em questões estratégicas para o clube. A ideia é que, no futebol, você tenha alguém que se aprofunde em análises não só de contratações de jogador, mas também de profissionais que possam trabalhar aqui. Ter uma palavra que a direção creia, que seja importante e prioritária na qualidade profissional. Aqui se aposta muito em Recursos Humanos. Então apostamos também de forma infraestrutural, organizacional e metodológica. Mas nada adianta disso se não tivermos capacidade profissional. Gente com cabeça aberta para buscar novos conhecimentos, que não tenha preconceito de utilizar novas ideias. Falo isso porque o futebol é preconceituoso com isso. Então meu trabalho mira muito estas questões.   

Muito se fala hoje em não ter apenas um grande treinador, mas um staff de qualidade e que possa ser delegado à funções importantes. Como criar uma identidade de jogo? Como isso passa por escolher corretamente jogadores, um perfil de treinador? 

Isso nasce de uma situação que você precisa ter muito cuidado e respeito com as histórias dos clubes. Entender o que cada entidade busca. Ver o porquê de tantas pessoas acompanhar o clube, o que tanto identifica nelas... Tem que ter a ver com esse torcedor. Claro que existem outras coisas, mas essa é uma bastante importante. Cada clube traz consigo algumas características próprias durante a história e aqui no Brasil mais acentuadas por conta da diversidade cultural. Nosso país tem dimensões continentais. Então isso fica mais forte. Então o primeiro passo é respeitar essas origens. A partir daí sim, dentro de uma ideia de atualização, buscando a tendência do que é jogado agora, contextualizar tudo isso e, de alguma maneira, manter essas tradições. Sempre dentro de uma ideia clara de completividade que a cada dia fica mais exigente. A cobrança só aumenta neste sentido. Dentro dessa situação você precisa entender o por quê. Quando se fala em metodologia nada mais é que você ter uma ideia daquilo do que se quer fazer e como colocar isso em prática, como vai operacionalizar. A partir daí você cria sistemas, precisa ser algo sistemático. Não tem como fugir disso para se ter lógica. É necessário mirar o todo. Não podemos fazer uma análise isolada do futebol jogado em campo com decisões tomadas na gestão, por exemplo. Marketing, financeiro, jurídico... Hoje em dia é importante isso. Até na questão de decisão de comando. Você tem uma ideia central no clube, procura profissionais com perfil parecido e que possam agregar em conceitos táticos e faz entrevistas com eles isoladamente. Só depois define. Um processo seletivo desse cria um comprometimento maior de todas as partes.  o que eu vislumbro em termos de futuro, uma lógica para as coisas. Que não aconteçam coisas apenas circunstanciais. 

             
O que tem achado da formação de jogadores no Brasil? Concorda que precisamos nos atualizar nestas questões também? Quais são as mudanças mais significativas dos últimos anos na formação? 
  
Tem que desenvolver um jogo de futebol que tem a ver com excelência infraestrutural, estrutural e metodológica. E não é fácil fazer isso. Principalmente respeitando as tradições de cada clube. É um processo. Não é simples. Você vive competindo, vive se salvando por resultado. Então tem que entender como fazer, estar atento. E pra tudo isso, temos que estar ligado na formação destes jogadores. Ele precisa entender isso desde cedo e com o nível de complexidade sempre do menos para o mais. Entendo isso como uma progressão pedagógica. Tem que ser assim. Para você fazer as coisas com consciência e entender o por quê, esse processo precisa ser respeitado. Primeiro se aprende a somar, para depois ir para as operações mais complexas e no futebol é assim também. Eu concordo muito com o que você falou. O jogar mudou. As pessoas precisam entender que é futebol, mas que as maneira como se joga passou a ser diferente. Os interesses são maiores, os valores são diferentes também. As exigências e a falta de tolerância também só crescem. Você vê lá na Alemanha. O problema não é o Ancelotti que foi mandado embora. Se você ver isso está crescendo por lá também, teve mais gente saindo nos últimos anos. Até em outros países essa tolerância vem diminuindo. 

E como o "treinar" entra nessa conversa? 

Precisamos entender que quem faz futebol são as pessoas. E é da sociedade que vem os potenciais jogadores. Eles vão carregar consigo os maus hábitos, os vícios, má formação escolar... Isso tudo influencia no jogar de hoje. Eu costumo sempre dizer que dá para olhar como um bolo de chocolate. O jogar é o bolo. Então, quando você corta uma fatia, ela representa uma parte disso. Então é importante você trabalhar para essa fatia estar boa. Pessoal costuma reclamar: "Ah, esse negócio de campo reduzido, perde-se isso ou aquilo". Primeiro tem que se entender o que você pretende trabalhar. Como você vai criar comportamentos é importante que estes atletas tenham um grande número de ações. Ele repetindo muitas vezes, aquilo vai virar algo habitual para ele e vai se desenvolver dentro da partida. E isso não é e nunca será engessar alguém. De maneira alguma. Só pensar na pessoa que rói unha... Você vai pegar e engessar a mão da pessoa? Não. Você vai estimulá-la a parar de fazer aquilo, fazer com que crie um outro tipo de comportamento até que vire uma coisa consciente. Então você vai utilizando o campo menor, diminuindo os espaços, colocando gente dentro dele... Aí tem diversas maneiras de se fazer. Você usa mais horizontal, abrindo mais o campo, ou ao contrário, tentando gerar profundidade. Aí depende do que você quer trabalhar. Nisso você trabalha até questões físicas e fisiológicas. Você quer mais intensidade? Quais os intervalos entre um estímulo e outro? São respostas que você precisa ter e que dependem da sua análise da necessidade ali. Por isso os estafes hoje são maiores. E mais que multidisciplinares eles precisam ser transdisciplinares, ou seja, eles precisam interagir entre eles. Dentro dessa ideia, não se forma apenas jogadores, mas novos profissionais. Auxiliares, preparadores... Que o clube possa olhar primeiramente para dentro e depois pensar em buscar fora, seja jogadores ou qualquer tipo de função. 

Autuori conversa com o treinador Fabiano Soares. Ambos deixam o Furacão no fim desta temporada
Autuori conversa com o treinador Fabiano Soares. Ambos deixam o Furacão no fim desta temporada gazeta press

Ainda em cima da formação, Paulo. A gente vem de um histórico de formação muito vindo da rua, do futebol praticado de uma forma mais lúdica... E de certa forma isso estimulava muito nossos jogadores a resolverem problemas dentro de uma partida de futebol, de buscar um improviso. Como a gente se adapta a um cenário que cada vez mais os espaços públicos são menores e menos explorado? Existe alguma forma de lidar com isso sem perder essa nossa essência?

Essa é uma pergunta muito importante. Ela sempre aprece no nosso dia a dia. Antes a garotada tinha muito menos opções com relação à diversão e esportes. Alguns esportes foram crescendo muito e deram também uma condição de ascensão social. E isso era praticamente monopolizado pelo futebol. Hoje você tem o vôlei como um exemplo. Antigamente você não tinha aptidão para jogar futebol, mas era praticamente forçado a fazer porque era a oportunidade que você tinha. Você era forçado a crescer dentro da modalidade. A gente passava o dia na rua jogando bola. Fazia isso de forma natural, inata... E tentava sempre repetir os gestos do seu ídolo. Nem os pais ficavam ali dizendo para fazer isso ou aquilo. Os pais estavam em casa chateados porque o filho só queria saber de futebol. Então você buscava jogadores com 17 anos para os clubes. Já ia direto para um infantil, infanto juvenil... A rua proporcionava a estes atletas de forma inata determinadas situações que o jogo pede até hoje. Por exemplo: você jogava com idades diferentes, com biotipos e tamanhos diferentes, não havia árbitro nas peladas e falta era falta, os dois times tinha que concordar se não a porrada comia... Se você estivesse envolvido com gente de mais idade, com mais físico, você não podia afrouxar. E aquilo, de forma natural, desenvolvia a coragem. Tem gente que fala: "poxa, eu arrancava o tampão do dedo e mesmo assim continuava. Jogava o dia inteiro!". Isso desenvolvia sua exposição à dor de forma maior, do quanto aguenta ela. Acho que o jovem desfrutava mais do jogo. De 6 a 12 anos de idade é quando tudo acontece no sistema nervoso central. É nessa faixa que você desenvolve as coisas que são duradouras. E você tinha mais espaços públicos para desenvolver tudo isso. Tinha o futebol de salão, que hoje é o futsal e continua ajudando muito. Então a grande pergunta que a gente deve se fazer é: era só a qualidade técnica que desenvolvia aí? Só habilidade? Não é só isso! Como eu mencionei, tem mais coisas. Mas aí a gente pensa. Você vai trazer o espaço público de volta? Não. Mas você pode minimamente nas suas seções de treino trazer esses conceitos que eram desenvolvidos de forma inata. O grande desafio é como fazer isso. E é neste momento que tem que entrar a capacidade criativa das comissões técnicas. E existem situações assim. O Cruzeiro, por exemplo, foi fazer pelada na rua. Então porque não criar um festival que as categorias vão jogar entre elas, de uma forma que eles mesmo se organizem, formem as equipes trabalhando com idades diferentes. Isso para que eles tenham de novo o controle disso, para que se sintam úteis e participativos. Sintam que a ideia deles também é importante.         

De uns tempos para cá no Brasil tem surgido uma discussão, até que burra, sobre o treinador novo e o antigo, o moderno e o velho... Você, independentemente de resultados que vinham ou não e da sua idade, sempre se mostrou um cara que buscava atualização. Como você tem visto isso no cenário atual? Qual a relevância deste tipo de debate? Não acha que é algo que já devíamos ter ultrapassado?

É lamentável. Às vezes a gente se pega discutindo sobre velha guarda e nova geração de treinadores. Primeiro que você vai contratar um treinador no Brasil e vem o perfil: "Ah, eu quero um disciplinador. Não, eu quero um cara de diálogo". Não existe nada disso. Você tem que trazer um cara que conheça futebol, que exerça bem a função profissional dele. Esse cara precisa sim ser um bom gestor de pessoas, até para poder aplicar o conhecimento que tem. E depois entender a característica da personalidade dessa pessoas. Se é mais duro, se é mais distante do jogador... Isso é de cada um. A gente está longe de um processo seletivo. De colocar em prática aquilo que o clube quer. E a grande questão é que o clube não sabe o tipo de futebol que quer jogar. E assim vai indo. Não tem a coragem de enfrentar as dificuldades de imprensa, de torcida... Esse é um grande problema. Ninguém tem convicção de nada quando contrata. Aí a gente entra nestes tipos de discussões absurdas como a que você citou. Conheço muita gente de idade já, mas que está com a cabeça totalmente antenada e atualizada. E não só no futebol isso. E outras que são novas ainda, mas como diz o Mário Sérgio Cortela, "jogaram a âncora nas águas passadas e agora estão presos". O velho ao meu ver é isso. A idade é inevitável para todos nós. Agora, você vai ficar velho só se você quiser. Tem que sair do lugar. Agora a conjuntura do futebol brasileiro em si, ajuda. Você vai para um futebol inglês ou alemão, por exemplo, a ideia é sempre de te jogar para cima. Aqui o sistema faz você não pensar em evoluir. Um exemplo bem prático e sem fugir muito da pergunta: o nosso calendário é fator gerador de muitos problemas. Vou te dar apenas um: ele simplesmente não permite o desenvolvimento dos treinadores. Você treina, joga, recupera, viaja, joga, recupera... Isso faz com que você ao menos tenha tempo de colocar suas ideias em prática. Então vira um trabalho de papo e vídeo. Você acaba tendo até que diminuir carga de treino, por exemplo. Se não estoura os caras. Aí você trabalha o mais simples e o que menos desgasta: bola parada. Hoje mesmo você vai lá e contrata um jogador porque ele é bom na bola parada. Não se contrata porque ele interpreta bem o jogo. São todas situações que o calendário acaba te induzindo.  

                                       
Até na questão de contratar um jogador X que é bom nisso, nisso e aquilo, mas também tem isso e isso que ainda pode ser melhorado... Você acaba não tendo tempo para fazer dele um jogador melhor.

É por aí. E eu te dei apenas um exemplo com relação ao calendário. Mas tem muitos mais. Por isso eu sou um grande crítico a isso. Enquanto nós não mudarmos o calendário, não adianta. As ideias podem ser muito boas, mas vão sempre chegar de forma isolada. Sem interagir com todas as outras. E para você florescer, crescer, uma ideia precisa estar conectada à outra. Tem que ter uma visão sistêmica, uma visão do todo. É dentro de tudo isso que acho necessário se elevar o nível do debate. Refletir. E isso tem que vir por parte institucional. Não tem que vir de forma individual. E nossa entidade máxima no futebol não está preocupada com isso. Está sempre priorizando a Seleção, os patrocinadores... Sobre o futebol como um todo não tem grande preocupação. Não se debate. Vou te dar um exemplo: pensaram em fazer um campeonato sub-23 agora no final da temporada e em 40 e tantos dias. Refletiram sobre isso? Construíram isso junto com os clubes? É assim que as coisas acontecem. Aí falam que os clubes não quiseram participar, que deram a ideia. É por isso que eu critico tanto essas coisas e vou continuar assim. É muito do que tem na CBF e das pessoas que comandam lá hoje. E olha que tem muita gente de qualidade lá dentro, mas individualmente, com iniciativas próprias e não da entidade em si.

Você citou a questão de dar tempo para os treinadores poderem trabalhar suas ideias. Mas o Atlético-PR andou tendo problemas neste sentido nos últimos meses, com seguidas trocas no comando. Inclusive você deixou o cargo por um tempo exatamente por isso. O que de fato aconteceu? Como você enxerga essa alta rotatividade de treinadores no Brasil?

O que nos falta são ideias. Por isso não temos processo. Você tem sempre que partir de uma ideia inicial. Aí sim você vai ver como você vai operacionar isso e existem pessoas responsáveis  por esta etapa. Neste meio começam a aparecer situações que você não esperava. É preciso parar, refletir e tentar ajustar o entorno. E tem a ver com o que aconteceu aqui comigo. Quando o Eduardo Baptista veio eu falei com o clube muito claramente que, na saída do treinador, que a gente precisava agora terminar esse ciclo, eu sairia também. Que a gente precisaria passar por um processo, por eu estar ali já um ano e meio, enxergava todo esse cenário. Tive que tomar uma posição. Deixei claro isso no dia que o Eduardo veio. E podia ser qualquer outro treinador, eu faria a mesma coisa. Que se quebrassem no meio do caminho eu ia estar fora do projeto. E isso aconteceu mesmo. E no geral eu não tinha motivo para sair, o clube também não queria. O trabalho estava se desenvolvendo. Só que eu cravei. Eu acho que quem tem que pagar a conta não são só os treinadores. No momento que as coisas não vão bem, que alguém tenha os culhões para dizer que sai também. Até porque eu também tive parcela de culpa em tudo, não foi só o treinador. Quando eu entrei nessa função eu me propus a fazer isso. E eu sai mesmo o clube não se conformando. Cheguei a negociar com alguns clubes, teve contatos. Até me querendo como treinador e eu recusei, pois não quero mais isso aqui no futebol brasileiro. O Atlético-PR entrou no meio e garantiu que seria concorrente, que eu estava livre, mas que eles ainda queriam contar comigo. Chegamos à conclusão que era é o momento de esperar o ciclo do profissional. No final de tudo, iriamos analisar. A ideia é sair do lugar comum, não cair mais em contradição.  

Paulo Autuori comandando o Vasco
Paulo Autuori comandando o Vasco Divulgação / Vasco

 

Você tem uma boa identificação com o São Paulo e acompanhou, mesmo que de longe, a passagem de Rogério Ceni como treinador do clube. Acha que faltou processo e paciência no caso do ex-goleiro? 

Primeiro que eu tenho certeza que o Rogério tem todas condições para ser treinador. E a gente vê isso pelo que ele mostrou durante toda sua carreira como jogador. Isso é claro para todo mundo. Agora terá mais uma oportunidade para isso. É um cara com um nível intelectual acima da média e que tinha ideias claras. Sempre foi um profissional que se posicionou. Isso é uma das coisas que mais admiro nas pessoas. E se posicionar independente de local, pessoas... Mas isso gera alguns receios, ainda mais dentro do ambiente do futebol. Eu mesmo sempre gostei de ter caras assim por perto. Agora, a maneira como aconteceu ninguém mais do que ele e o pessoal do clube sabem. Eu não posso entrar mais fundo nisso porque é algo que não participei. O que eu tenho é uma visão superficial do que aconteceu. Conversei com ele antes, conversei depois... Mas é aquilo que eu digo. Você tem que refletir muito. Tem que ter ideias. Só que existem vários fatores que são determinantes para que essa ideia vá para frente ou não. Aqui no Brasil, pela ideia de fazer as coisas para agradar pessoas, se perde em vários momentos, e isso vai além do futebol, deixa de tomar medidas que são impopulares, mas que são necessárias. Eu sempre cito Margaret Thatcher para falar do papel do líder, porque ela sabia que tomaria decisões impopulares e aguentou o tranco para isso. Lá na frente se colheu os frutos. Por isso eu valorizo as ideias. Hoje estou aqui, amanhã posso estar lá... Mas eu tenho orgulho de estar tentando quebrar alguns paradigmas. A gente tem que ter coragem de tomar algumas decisões. Isso não quer dizer que vai ganhar, longe disso, são coisas diferentes. Mas são posições que você começa a estabelecer quando tem ideias claras e lógicas. Voltando a situação do Rogério, eu acho que teria de ser um processo melhor construído em relação à ele, como ídolo do clube. Era importante entender isso e, junto com a direção, construir algo mais sólido. Eu mesmo sou obsessivo em criar cenários. E no futebol você tenta sempre criar um cenário positivo e esquece de criar o negativo, sem se preparar para o mesmo. Depois as coisas acontecem e você não tem soluções e respostas. Por isso é importante você construir as coisas com lógica, para que tudo tenha consistência. Para passar por períodos de turbulência, porque tudo e todos passam por isso. Mas sempre evitando acabar com o processo. Tem que ser último caso. A ideia tem que ser sempre de realinhar e seguir em frente. Se você teve desde o ponto de partida coerência naquilo que você propôs e naquilo que você trabalhou, as coisas vão melhor.                                  

Em qual estágio você vê o futebol brasileiro atualmente? O que tem achado da qualidade do nosso jogo?

Ruim. Muito ruim. E aí entra a questão do calendário  e entra o assunto "quem está jogando esperando o contra-ataque vem ganhando". Isso é uma estatística fria, que pode mudar ano que vem. E as pessoas vão dizer que foi feito o que para mudar isso? O calendário te força a isso, você opta pelo mais simples, o mais seguro. E as equipes que precisam propor jogo vão se expor mais e para se expor você tem que ter qualidade de jogo, trabalho ofensivo. Nós só temos trabalho defensivo. A minha bronca com a CBF vem disso, ela utiliza a Seleção para dizer que está tudo bem, mas está tudo mal. A realidade do futebol brasileiro é uma e da seleção é outra. Ela só vem bem graças ao profissional inteligente que é o Tite. Porque tem conceitos claros e conceitos importantes para o que é o futebol atual. 

Nós vivemos uma discussão de "boleiro vs acadêmico", do "tatiquês"... Você acha que é um momento de ruptura no modo de tratar o futebol? Até em nível de vocabulário mesmo?

O que mais me irrita é isso. Por exemplo, no jornalismo, deveriam usar termos antigos que não se usam mais. Então ninguém fala disso. Você tem situações que tudo está mudando. Essa é a justificativa que tem para criticar os termos atuais. Esses dias eu ouvi um cara dizer: "no meu tempo era contra-ataque, hoje é transição". Não tem nada a ver uma coisa com a outra! Contra-ataque é o momento que você recupera a bola. Então para melhor entendimento você vai dividir em quatro fases: Fase defensiva, fase ofensiva, transição defensiva e transição ofensiva. E têm várias opções de fase defensiva, fase ofensiva e transições. Tem vários tipos.

Se bate muito na questão da imprensa. Falam que ela não tem importância na qualidade do jogo. Você acha que a imprensa é importante nessa construção de um futebol melhor?

Muito. Eu posso dizer isso porque já passei por muitos países no futebol, uns mais desenvolvidos e outros menos. Eu já vi e ouvi discussões de muito bom nível, em que você faz as pessoas entenderem. Se não há o desdém da imprensa em relação as novas terminologias, se não há crítica, vão usar de forma mais uniforme. Você vai induzir as pessoas a verem futebol dessa maneira. E outra coisa que falam: "o Brasil é o país do futebol." Isso é uma falácia! A paixão é tão ou mais exacerbada em outros lugares. Você vai na Turquia e é uma coisa de louco, só para te dar um exemplo. Aqui nós não sabemos torcer, só queremos ganhar. Torcer é o torcedor que compra carnê anual, o time está lutando para não ser rebaixado e ele está com o estádio cheio. Isso precisa ser falado. Mas falam? Ninguém fala. Todo mundo fala o que as pessoas querem ouvir, isso é populismo. E isso também é competência da imprensa. Precisamos de competência, de argumento. Com argumento, se tem conhecimento. Vocês nesse papel são importantes. Tem que mudar isso. Se não mudar, ficaremos estagnados. A imprensa é fundamental. Temos que parar com essa briga entre seguimentos, todos são importantes. Mas os verdadeiros protagonistas são jogadores e o público.

Como tem visto o momento do futebol peruano? Acompanhou a trajetória deles até a Copa do Mundo?

O jogador peruano é de qualidade. Só que a conjuntura de lá induz ele a ser displicente. Eles sofrem defensivamente, isso é histórico. Eu lembro do tempo que eu passei lá, tínhamos grandes resultados fora de casa porque não precisávamos se expor tanto no ataque. Em casa, como tinha essa obrigação de sair mais para o jogo, você falhava.

E como você vê a subida de nível dos centros mais periféricos da América Latina no cenário atual? E sobre a obrigação dos brasileiros "atropelarem" todos que impomos? 

Vejo gente torcendo o nariz e comparando a Venezuela com o futebol brasileiro. Isso é inadmissível, deveriam comparar eles com eles mesmo. Ver a realidade de lá e daqui. Essa arrogância de olhar só para nós é complicada. Houve evolução, isso é inegável. Quem não consegue ver isso é porque só consegue olhar aqui pra dentro. Seja analista, torcedor... Aí você vai em termos sociais e culturais,  falam dos americanos, que eles só olham para o próprio umbigo. E a gente no futebol só olha para o nosso umbigo, somos arrogantes nisso porque fomos pentacampeões. 

Pra fechar, professor, é uma pergunta que eu sempre faço para todos que entrevisto. Ela é bem reflexiva. Para você, o que é jogar bem?

Hoje há uma dificuldade de entender equipes que jogam como o Corinthians, com solidez defensiva. Não é feio, é eficiente. Isso é jogar bem! Interpretar a tua estratégia e executar. Isso é jogar bem. Vejo jogos por 5-4, todo mundo falando que foi um jogão; pra mim não foi. Tomar quatro gols é jogar mal. Porque não analisamos jogo, analisamos resultado. Enquanto isso prevalecer, estaremos afastados da realidade do futebol atual. Jogar bem é executar o seu plano de maneira eficaz, seja qual seja ele.

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Entrevista do mês: Paulo Autuori critica CBF, fala dos desafios na formação de novos craques e critica qualidade do jogo no Brasil: "Muito ruim"

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O título de uma identidade

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Fábio Carille e Cássio comemoram título após o Corinthians derrotar o Fluminense por 3 a 1, em Itaquera
Fábio Carille e Cássio comemoram título após o Corinthians derrotar o Fluminense por 3 a 1, em Itaquera GazetaPress

Foram altos e baixos durante o longo Brasileirão 2017. Um primeiro turno não só de um grande aproveitamento, mas também de um futebol bem jogado - inclusive propondo o jogo em vários momentos, ao contrário de quem afirma que o time de Fábio Carille só joga em contra-ataques. Um pouco antes da virada do turno, veio a queda brusca de desempenho. Uma crise técnica que se alastrou no segundo turno. 

Grandes atuações, clássicos vencidos e uma eficácia grande para se manter no topo. Partidas de um nível técnico para se esquecer, falhas defensivas, principalmente, em bolas paradas, intensidade baixa. Talvez as duas frases anteriores seja o resumo da campanha "montanha russa" alvinegra. Mas uma coisa ninguém pode negar: o Corinthians triunfou, mais uma vez, com uma identidade.

Uns acham pragmático, outros competitivo. Tem gente que critica, existem os que sãos só elogios. Faz parte do gosto futebolístico (ou clubístico) de cada um. Mas não tem como tirar méritos de uma equipe que ficou 30 rodadas na liderança de uma competição desgastante e difícil. Mais que isso, é preciso enxergar o futebol além do resultado. E podemos facilmente perceber elementos de um futebol sólido, rico em conceitos e, principalmente, priorizando o coletivo para elevar suas individualidades.

A grande marca não só deste título, mas de uma era com um DNA vitorioso, é o trabalho defensivo desenvolvido a anos no Corinthians. O conceito de linha defensiva de 4 trazido por Mano Menezes, desenvolvido por Tite e agora estabilizado por Fábio Carille é uma das referências do futebol praticado atualmente no Brasil. Jogo, aliás, que se desenvolveu muito nos últimos anos neste sentido, mas que ainda precisa dar um passo adiante na organização ofensiva.

Não à toa, foram várias as peças que construíram esta forte linha defensiva durante a campanha do título: Fagner, Léo Príncipe, Paulo Roberto, Arana, Moisés, Marciel, Pablo, Balbuena, Pedro Henrique, Léo Santos... Uns com grande desempenho, outros um pouco abaixo. Mas todos com o conhecimento da causa absorvido. Certos do que fazer e como se comportar sem a bola. Setor estreito, linhas de coberturas bem organizadas, movimentos de recuo e avanços coordenados. Cumprir função independente da posição.

Se formos mais além ainda podemos colocar nesta lista nomes como Gabriel, Maycon, Rodriguinho, Romero, Clayson e até Jô. Apesar de não serem laterais e nem zagueiros, em vários momentos ajudaram a linha defensiva no trabalho de compensação, outro grande ponto na organização defensiva alvinegra. Preencheram espaços de companheiros, "substituíram" algum colega que por algum motivo não estava ali posicionado momentaneamente (entenda no vídeo abaixo). Ajudaram a preservar firme um dos pilares desta identidade alvinegra: manter a última linha sempre sustentada.

Noção tática e companheirismo: DataESPN mostra o que faz do Corinthians um time diferente

"Perde e pressiona", "encurta o campo", "manter a bola coberta", "compensar posições", "pontas recompondo até o final e fechando o lado", "vigiar o funil (entrada da área)"... Todos estes foram elementos essenciais trabalhados no dia a dia e que, de tanto exercitados e falados, batem como um martelo na cabeça de cada peça do elenco alvinegro. Essência de um modelo de jogo enraizado na cultura do clube nos últimos anos (jogo contra o Grêmio, na análise abaixo, é um bom exemplo).

DataESPN: Calçade mostra movimentação defensiva do Corinthians contra o Grêmio

Com a bola o Corinthians também jogou. Atuações como contra o Vasco em São Januário, Bahia, São Paulo, Sport e Palmeiras na Arena, entre outras, provam que não foram só de contra-ataques que os alvinegros viveram. Na virada do turno, por exemplo, o Corinthians trazia consigo um número bastante curioso: mesmo não tendo uma grande média de posse de bola - número por vezes mal qualificado (clique e veja aqui) -, era a equipe que mais passava na competição. Evidência de um futebol vertical, e não reativo, que buscava passar rápido e não ter a bola apenas por ter. Triangulações pelos lados, infiltrações de Rodriguinho e Maycon, avanços de Fagner e Arana, mobilidade de Jô para abrir espaços... Os pilares da construção ofensiva que, apesar de ter oscilado, é o terceiro melhor ataque da competição (veja exemplos de construção nos vídeos abaixo).  

DataESPN: Calçade mostra o jogo de aproximação e triangulação do Corinthians contra o Vasco
DataESPN: Tironi mostra segredo de criação de jogadas do Corinthians

Tudo isso jamais seria possível sem uma palavra: processo. Apesar dos desvios conceituais com Oswaldo de Oliveira e Cristóvão Borges, a diretoria do Corinthians, que assim como a maioria no Brasil carrega consigo seus defeitos, tem apostado na continuidade não só de treinadores, mas de ideias. Não tenho total convicção que tais decisões e escolhas foram tomadas com o discernimento e conhecimento futebolístico ideal, mas de fato as mesmas foram decisivas para atingir o atual patamar de conquistas recentes do clube.

Ao apostar em Carille - mesmo o antigo auxiliar não sendo a primeira opção da direção - Roberto de Andrade & Cia. devolveram ao Corinthians uma identidade. Algo já aceito pelo torcedor. A competitividade aliada à intensidade - que está longe daquela raça por raça, comum em equipes desorganizadas e que correm errado - é motivo de orgulho para o corintiano. Hoje o torcedor conhece e se identifica com uma maneira de jogar. Tem mais referências para se julgar e, inevitavelmente, cobrar.

E foi na fase ruim que isso ficou bastante evidente. O Corinthians pouco performou no segundo turno do campeonato. Melhorou nas últimas partidas, mas não conseguiu atingir o nível de desempenho do início da competição. Caiu inclusive na intensidade de seu jogo. Enquanto muitos cobravam medidas drásticas, como troca de sistema e até em elementos valiosos do modelo de jogo trabalhando desde a pré-temporada, Carille mudou características. Demorou um pouco até, mas viu em Camacho, Marquinhos Gabriel e Clayson as respostas que precisava dar à queda técnica em Jadson e Maycon. Terminou as partidas contra Avaí e Fluminense voltando ao 4-1-4-1 vencedor de Tite em 2015. Um ajuste posicional apenas (se considerando que o sistema base é o 4-2-3-1), mas que surtiu efeito em momentos difíceis.

Mas a temporada não foi só da revelação Fábio Carille. Foi também das ressurreições de Cássio e Jô. O primeiro, de herói do Mundial aos problemas com a balança e perda da posição, ao posto de goleiro de Seleção. Atuações e defesas decisivas, aliados à liderança desenvolvida com os seis de clube. Um dos poucos remanescentes da geração que conquistou a América e o mundo no Japão. O caso de Jô é mais emblemático ainda. De problemas fora de campo a um amenizador de ansiedades, principalmente dos mais jovens. Um termômetro do vestiário, sempre enaltecido pelo comandante. O artilheiro do Brasileirão (veja no vídeo abaixo um pouco da mobilidade do centroavante).

DataESPN: Hofman mostra movimentação de Jô para abrir espaço em jogadas do Corinthians

O futebol do Corinthians, queira você ou não, foi o melhor do Brasileirão. Está longe de ser uma equipe revolucionária, um conjunto que realmente eleve a qualidade do jogo por aqui. Traz consigo problemas estruturais como vários outros, principalmente quando falamos em se organizar para atacar. Esteve acima da pobreza conceitual que vivemos na atual edição do nosso maior campeonato e ainda tem um caminho a evoluir na próxima temporada. Foi um futebol de ideias, de respeito ao processo e, principalmente, de uma identidade forte. Uma identidade corintiana.  

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O Palmeiras do desempenho e o Corinthians da falsa convicção

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Gabriel Expulso Corinthians Palmeiras Campeonato Paulista 22/02/2017
Gabriel Expulso Corinthians Palmeiras Campeonato Paulista 22/02/2017 SERGIO BARZAGHI/Gazeta Press

Corinthians e Palmeiras se enfrentam no próximo domingo. Enquanto o lado alvinegro se vê em um cenário de pressão e decepção pelas últimas atuações, o sentimento alviverde é de confiança, independente da não vitória contra o Cruzeiro. E o que faz do time treinado por Alberto Valentim um forte concorrente ao título não é a pontuação. Longe disso. A palavra é desempenho.

Do outro lado da história o medo do torcedor corintiano nem chega a ser diretamente de seu arquirrival. Apesar dos seguidos tropeços, ainda são cinco pontos na frente. Se olharmos para qualquer campeonato no mundo com uma equipe em uma situação semelhante, falaríamos que o momento é de tranquilidade e título bem encaminhado. Mas não é por aí. Os motivos para se temer um trágico final de ano tem a ver com a mesma palavra: desempenho. 

Apesar do discurso de "foco no G4" e o empate dentro de casa contra o sempre organizado Cruzeiro, o Palmeiras está em franca evolução. Até de maneira surpreendente, já que o seu atual treinador (interino, inclusive) teve pouco tempo até aqui para construir ideias totalmente opostas ao que pensava Cuca. Conceitos e escolhas que, de certa forma, até custaram o empate por 2x2 no Allianz, justamente por ainda não estarem totalmente absorvidos pelo elenco. 

Valentim veio para o duelo contra o Cruzeiro com uma proposta ousada. Depois de sair de um sistema de marcação com encaixes individuais e de um jogo mais direto com a posse de bola, o atual comandante alviverde foi além. Mais que posicionar seu time marcando de forma zonal (entenda um pouco deste conceito no vídeo abaixo), avançou sua linha defensiva em busca de um sufocamento celeste.  Queria, de fato, trabalhar sua transição defensiva ainda no campo do cruzeirense. Perdeu, pressiona, recupera e ataca. Perdeu, pressiona, recupera e ataca... Essa era a estratégia para superar Mano Menezes & Cia.

Nova formação, comportamento da defesa e movimentações: DataESPN analisa Palmeiras com Alberto Valentim

E aí veio o primeiro gol do Cruzeiro. Em um momento de não pressão ao portador da bola e um lançamento em profundidade, Valentim viu a sua linha defensiva demorar a correr para trás. Diogo Barbosa, nas costas de Mayke, cruzou. Juninho, "canhoto de tudo", preferiu mudar todo seu posicionamento corporal para tentar tirar a bola com a perna esquerda. O não uso da perna direita, gesto natural para a ocasião, custou caro. 

Bola descoberta, linha defensiva demorando a reagir e erro técnico de um jogador. Percebe como uma sucessão de problemas terminou em gol? Nos dois primeiros casos, problemas que já deveriam estar amadurecidos se não fosse as seguidas trocas de treinadores e, principalmente,  das ideias de jogo. Essa é a primeira dica de que quase nada no futebol tem um só culpado...

Do outro lado da cidade, o Corinthians tenta se desvencilhar de falsas convicções e recuperar uma confiança perdida após um 1º turno intacto. Quando Fábio Carille afirma que não vai mudar sua forma de jogar, ele não está mentindo. E mais, também não está errado. Poucas equipes no mundo tem uma maneira bem consolidada de jogar. Imagina desenvolver duas!? Isso, no entanto, não tira as responsabilidades do treinador, já que a queda de desempenho também tem a ver com algumas de suas escolhas. 

Vemos referências técnicas da equipe como Rodriguinho, Jadson, Maycon e Guilherme Arana  rendendo abaixo do que podem. A tomada de decisão tem sido um fator muito recorrente. Nível baixo de concentração e falta de confiança para arriscar também estão no meio de toda essa crise técnica e uma convicção ilusória em cima de jogadores que já não respondem bem aos problemas do jogo. Apesar de não ter um banco repleto de possibilidades, nomes como Clayson, Marquinhos Gabriel (lesionado no último jogo) e até Camacho podem ser a sobrevida que a equipe tanto busca. 

Assim como mesmo disse Carille, não se mexe na estrutura nesta altura do campeonato. Mas alternar as características pode ser um caminho. Mais que isso, tira peças importantes de suas zonas de conforto, estimulando, de forma saudável, mais competitividade por espaço no elenco. 

A construção ofensiva tem sido um sério problema, ainda mais que a maioria dos adversários tem buscado dar a bola ao Timão. Um time que sofre para se organizar com a bola (SIM, SE ORGANIZA PARA ATACAR TAMBÉM!). Contra a Ponte Preta foi possível ver os alvinegros iniciando as jogadas com cinco ou seis jogadores (zagueiros, laterais e volantes). Enquanto isso, o adversário pressionava no mesmo setor com um ou dois marcadores. Ampla superioridade numérica na primeira etapa de construção, mas que na frente acabava custando caro: pouca gente trabalhando entrelinhas e dando opções para passes mais verticais. De certa uma  forma um desequilíbrio, que trava a fluidez e a objetividade dos passes. Tudo isso, na maioria das vezes, acabando com a posse encaixotada em um dos lados do campo (veja o vídeo abaixo).

DataESPN: Renato Rodrigues identifica problemas na construção e na defesa do Corinthians

Sem a bola as coisas também não estão funcionando bem. O gol da Macaca (como você viu no vídeo acima) é uma das provas. Romero, fora de posição por conta da bola parada, não tem seu posicionamento compensando e, após recuperar a bola e acelerar, a Ponte chega com dois jogadores contra o sozinho Guilherme Arana na segunda trave. Um deles era Lucca. E o trabalho de compensação, tão bem coordenado na primeira metade da competição (vídeo abaixo explica um pouco sobre), ficou pelo caminho.

Noção tática e companheirismo: DataESPN mostra o que faz do Corinthians um time diferente

A intensidade de jogo também tem a ver com esse Dérbi que está por vir. Enquanto o Corinthians demora a reagir após perder a posse e compete cada vez menos pela bola, o Palmeiras agora corre certo. Largou suas longas perseguições e encaixes individuais que sacrificavam seus jogadores, para cobrir espaços e manter uma agressividade alta até os últimos minutos contra o Cruzeiro. Alviverdes aumentando e melhorando suas ações por jogo, Timão sem a força mostrada no primeiro turno para transitar pelos lados do campo. 

A melhora palmeirense não está vinculada a um só motivo. Muito menos a queda de desempenho do Corinthians, que agora "resolve jogar melhor" só depois de sair atrás, perdendo o controle e as rédias do jogo. Técnico, físico, comportamental, psicológico, confiança, dentro de campo, fora dele... Uma enormidade de fatores que são muito complexos para se identificar e, principalmente, corrigir com o barco em curso.  Tudo isso estará em jogo dentro da Arena em Itaquera. 

Resta ao Corinthians se blindar e pensar em desempenho antes de tudo. Só ele recolocará a equipe nos trilhos novamente.  Já o Palmeiras, ainda "sendo consertado" em movimento, tem a mobilização de seu promissor treinador como trunfo. 

Clássico é clássico, vice-versa e o Brasileirão agradece!

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O Palmeiras do desempenho e o Corinthians da falsa convicção

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A diferença entre não querer e não saber atacar no Brasil

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Corinthians 0 x 0 Grêmio foi um jogo muito criticado pela qualidade do futebol apresentado
Corinthians 0 x 0 Grêmio foi um jogo muito criticado pela qualidade do futebol apresentado ESPN

Corinthians x Grêmio. Líder e vice-líder do Brasileirão 2017. 0 a 0, poucos chutes no alvo e mais um caminhão de críticas sobre qualidade do futebol que praticamos em solo brasileiro. Obviamente que não se mede a qualidade de um jogo por chances criadas ou mesmo o número de gols, mas a partida em Itaquera nos traz uma reflexão ainda mais ampla e que nos direciona ao tipo de produto que temos assistido em nossos estádios.

A primeira questão é tentar identificar o que foi tão criticado neste jogo e, principalmente, o que causou tanta desaprovação na Arena Corinthians. Talvez o fato mais explorado foi a falta de finalizações no alvo (Corinthians 0x3 Grêmio). Feito isso, o próximo passo é buscar os motivos para tantos erros e/ou a falta de criatividade. E é aí que o assunto começa a ficar maior e passa a ser de interesse não só de corintianos e gremistas.

Quando temos apenas o número X de finalizações, caímos naquele velho problema de apenas interpretar algo frio, que estaciona na informação e fica longe do conhecimento e sabedoria (já falamos sobre isso aqui no blog). Porque o mais importante não é o quanto, e sim como você finaliza. Por exemplo: você prefere que seu time finalize três vezes cara a cara do goleiro - o que aumenta as chances de marcar - ou um que dê 22 chutes, mas todos eles pressionados, sem ângulo ou mesmo de uma distância difícil de vencer o goleiro?

Agora sim entramos no assunto central deste texto. Muito tem se falado que no Brasil ninguém quer ter a bola e que todas as equipes abrem mão de atacar. Simplesmente escolhem isso e seja o que Deus quiser. Mas será realmente que todos optam por essa estratégia de maneira consciente? Vocês conseguem observar clubes que buscam ter a bola e, na maioria das vezes, não sabem o que fazer com ela? Fico com a segunda opção e explico o porquê.

Vivemos em nosso país uma transição (ainda que lenta) do futebol jogado de maneira aleatória e totalmente instintiva - ainda tem muito time jogando assim - para uma maior absorção de conceitos e ideias atuais. Mas é aí que entra a confusão dentro de todo este cenário. Ter um time organizado, na cabeça de grande parte das pessoas que acompanham futebol, é ter um time que defenda bem. Que jogue compactado quando é atacado, que consiga construir grandes fortalezas defensivas, característica predominante de alguns dos últimos campeões que vimos por aqui.

Mas é assim que realmente funciona? Uma equipe só deve se organizar para defender? Seria correto afirmar que na frente basta deixar com a habilidade do atacante e a visão de jogo do camisa 10 que tudo se resolve? 15 anos atrás talvez...

Definitivamente, não. Para atacar é cada vez mais necessário que se tenha uma organização, uma ideia e um plano por trás de tudo (o gol do Vasco na análise abaixo mostra um pouco disso). Principalmente pelo fato de as defesas, inclusive aqui no Brasil, estarem cada vez mais fortes. As famosas linhas de 5 defensores, que são tendência na Europa, partem para esse lado de controlar melhor os espaços e bloquear ataques milionários, onde não falta qualidade técnica. Tal medida se encaixa na mutação do esporte. Se cria ou melhora algo, se pensa e cria outra saída para neutralizar. Posição e sobreposição. Inventa, reinventa... 

Zé Ricardo já mudou a cara do Vasco? Com DataESPN, Calçade mostra lance contra o Atlético-GO e analisa

E olhando para o cenário brasileiro atualmente você consegue visualizar equipes que mostram uma boa coordenação de movimentos sem a bola. Times que defendem por zona, com blocos bem compactos e que causam dificuldades até para adversários mais fortes. Por outro lado fica cada vez mais claro que tem faltado a tal da organização ofensiva por aqui. Estratégias que miram a abertura de espaços e, principalmente, condicionem nossos jogadores a um drible ou mesmo uma finalização limpa e cristalina.

A palavra condicionar é a chave para toda essa discussão. Se reclama muito, por exemplo, que o futebol atual quer engessar ou mesmo robotizar os jogadores, tirando deles o drible e o improviso. Mas não é por aí. Um bom treinador neste caso não brecaria uma jogada individual, mas sim a potencializaria, colocando seu atleta em uma situação onde ele vai triplicar as condições de sair vitorioso nesse duelo. Nada adianta pegar um jogador, por mais habilidoso que seja, e mandar ele ir para cima de um oponente que tenha duas ou três coberturas atrás dele. É só se recordar de Neymar, ainda pelo Santos, quando enfrentou o Corinthians por Libertadores e Paulistão. Não era Alessandro que o neutralizava, e sim o bom trabalho de coberturas organizados por Tite. 

Neste caso, a sua equipe, de forma coletiva, precisa se mobilizar para deixá-lo em uma situação de 1 contra 1 de fato. Pode ser um simples movimento de apoio para gerar igualdade numérica no setor ou mesmo um movimento de outro companheiro que arraste uma das coberturas e crie um espaço a ser atacado. Podemos pontuar várias maneiras e mecanismos para se chegar ao mesmo fim. E eles são todos coletivos. A questão principal é: pensar, planejar, treinar e executar nas partidas.

O exemplo do drible vale para qualquer situação que envolva o futebol. Bons estímulos e ambientes bem estruturados, sempre induzindo o atleta à aprendizagem e desenvolvimento cognitivo, são capazes de melhorar tudo. Finalização, passe, cruzamento, lançamento... E leve isso em consideração inclusive para outras áreas profissionais fora do futebol.  Não é  a prática que nos leva a perfeição. A boa prática que nos eleva a maiores patamares.

Ao levar tudo isso em conta, voltamos ao jogo entre Corinthians e Grêmio, mas sem deixar de conectar todas as ideias olhando para todo campeonato. Está enganado quem diz que o Corinthians não quis ter a bola e preferiu jogar em contra-ataques. A questão foi o que fazer com a posse, gerar desequilíbrios e espaços.  Muitos erros de tomada de decisão e de acabamento das jogadas - das duas partes inclusive. Passes e mais passes que não conseguiam gerar vantagens em zonas importantes do campo. Falta até de confiança para executar um passe mais arriscado em alguns momentos (veja no vídeo abaixo)

Muitos em espaço pequeno e dificuldade para sair da pressão: Calçade e DataESPN analisam Corinthians e Grêmio

E tudo isso tem a ver com a posse de bola, tão questionada durante essa temporada. São Paulo de Rogério Ceni, Flamengo de Zé Ricardo, Santos de Dorival... Equipes e treinadores que, por algum momento, tentaram executar um modelo que priorizasse a posse de bola, mas que acabaram com trabalhos sucumbidos. Cada um com sua particularidade, mas todos arruinados por um jogo ofensivo que não fluiu. 

Vivemos tempos de passes óbvios. De fazer o mais fácil e não o melhor. De esperar uma furada do adversário para marcar um gol. Se a construção de um bom time para muitos começa lá de trás, já passou da hora de avançarmos para o campo de ataque. No fundo somos um país que gosta de atacar. O que falta é se organizar para isso.

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A má interpretação da posse de bola e os enganos trazidos pelos números frios no Brasil

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Mourinho e Guardiola sempre travaram grandes duelos de times com e sem bola
Mourinho e Guardiola sempre travaram grandes duelos de times com e sem bola Getty Images

O Campeonato Brasileiro de 2017 tem levantado um grande debate sobre a posse de bola. A discussão, que ganha destaque por nossa cultura que busca um futebol vistoso e primordialmente jogado com a bola, gera, na maioria das vezes, um tom bastante crítico. A grande questão, no entanto, é quando olhamos para estes números frios, que nunca dizem muita coisa. 

Aliás, este é um problema de como é tratada e feita a estatística no Brasil, quase sempre quantificando e não as qualificando as ações e eventos do jogo, o que geraria uma discussão muito mais profunda e conclusiva.

Cada vez mais se discute a qualificação do número no futebol pelo mundo. Em outros países a estatística já não é pautada simplesmente por desarmes, passes e finalizações, por exemplo. Conceitos de ExpG (expectativa de gol) e cálculos de velocidade de execução (tempo do domínio até a ação) são cada vez mais usados como métricas para se interpretar melhor os números e, consequentemente, o jogo em si. Mas ainda há muito a se explorar neste sentido, principalmente quando existem conceitos por trás de toda essa interpretação/elaboração dos números.

Então voltamos à posse de bola. 

São várias as falhas nas métricas deste quesito. O dado normalmente funciona com 63% para X e 37% para Y, por exemplo. Mas onde entra a bola que não está em jogo? Momentos em que equipes ainda se preparam para um lateral, um escanteio, tiro de meta ou mesmo o atendimento de um atleta lesionado. Não deveríamos então determinar algo para esse tipo de situação? E quando uma bola é quebrada no tiro de meta. Ela está viajando ainda, às vezes ainda fica viva em lances de 1ª e 2ª disputas. Onde computamos estes períodos no modelo que estruturamos tal dado?

Neste momento é de grande importância qualificar essa posse e isso pode ser feito de várias maneiras. 

Primeiro podemos abordar onde ela aconteceu. Este dado, aliás, apesar de ser medido por muitas plataformas, não é tão usado. Por exemplo, de nada adianta ficar com a bola se a circulação dela não chega ao último terço do campo - parte ofensiva se dividirmos o terreno de jogo em três (veja no vídeo abaixo). E porque também não classificar a entrada da posse nesta última parte do campo. Quanto de finalização foi gerada a partir disso? Quantas essa bola precisou ser tocada para trás? Por que isso aconteceu? Perdeu, errou ou mérito do adversário? São todas respostas bem vindas dentro de um processo e que saem do dado puro e simples. E podemos ir além. Quantos passe para frente, quantos para trás ou para o lado? Quantas vezes esses passes quebraram linhas de marcação?

DataESPN: Bertozzi mostra com o São Paulo fica com a posse de bola, mas sem objetividade

Outra pergunta interessante em cima da posse é: em qual velocidade a circulação da bola foi feita? No Brasil se passa muito, mas quase sempre se faz isso de forma lenta. Em entrevista ao blog, Roger Machado, ex-treinador de Grêmio e Atlético-MG, fala muito da necessidade dessa troca de passes alternar distância, velocidade e direção (clique aqui e veja). Vários estudos provam que, contra times bem organizados em fase defensiva, são estes mecanismos de alternâncias e movimentos que geram desequilíbrios e espaços para atacar (veja no vídeo abaixo o Corinthians com dificuldades para acelerar sua posse contra o Santos). 

Deu a bola e armou escape de Bruno Henrique: Calçade e DataESPN mostram como Santos bateu Corinthians


O exemplo acima do Corinthians de Fábio Carille também nos traz um outro questionamento. Durante o primeiro turno do Brasileirão os alvinegros, tidos com um estilo de jogo mais reativo, chegaram a ter um número intrigante: menos posse na maioria das partidas e maior número de troca de passes do campeonato. Mas como isso? O time que não gosta da bola é o que mais passa? Sim. Porque se passa rápido, muitas vezes de primeira e com muita objetividade. Não foram poucas as jogadas construídas assim e com a obrigação de se propor o jogo. Por serem ataques rápidos, muitas vezes essa posse do Corinthians era confundida com contra-ataque.

Mas forçar os passes, como dizem os treinadores, não é algo tão simples. Primeiro que a exigência técnica para fazer isso é alta. A confiança nas ações, principalmente no primeiro toque, domínio e passe, precisam estar num nível bastante desenvolvido. E isso bate muito com a naturalidade (ou não) do modelo de jogo da equipe, algo que só se consegue desenvolver com tempo e treinamento.

No Brasil, como bem sabemos, quando não se troca treinador a cada semestre (sendo bem otimista), se muda elenco. Então nem a coesão de uma forma de jogar é possível em várias ocasiões. Veja como tudo está interligado.

A forma de jogar de uma equipe também é muito preponderante para se interpretar posse de bola. São várias as maneiras de se ganhar um jogo e por isso, obviamente, diversas maneiras de jogar. O treinador trabalha em cima de uma escolha de modelo, geralmente feita ainda lá na pré-temporada. E para isso, é necessário também entender as características do seu plantel. Se você tem jogadores rápidos e de muita capacidade de jogar em transições, mas que não trazem consigo grande facilidade no jogo curto, como buscar um modelo de posse a todo custo? E pode acontecer no caso contrário. Não se pode exigir de jogadores com um perfil de passe, controle da bola e jogo apoiado, vitalidade para se envolver em contra-ataques mortais.  

Isso nos leva a seguinte conclusão: não adianta simplesmente ter a bola, mas sim saber o que fazer com ela. Como, quando, por onde...

Muita posse, mas sem criação: Calçade e DataESPN apontam dificuldades do Cruzeiro no Brasileiro

Então podemos avançar a um próximo passo: a leitura do jogo. A posse precisa ser sempre contextualizada. Primeiramente na questão do placar. Sair na frente ou atrás é um fato importantíssimo para se entender o número bruto, principalmente quando o gol acontece cedo. É muito comum que, quem está atrás no marcador, amplie sua posse. Neste momento também entram questões estratégicas. Muitas vezes é pré-determinado tal comportamento a partir de algum evento chave, como no caso do gol. Já em outras situações a ordem às vezes nem é de recuar e dar a bola ao rival, mas sim por uma imposição do mesmo, que pode passar a acontecer por diversos motivos. Lembrem que existem duas equipes em campo e não só a sua.

Perceba como é complexa toda essa reflexão e que cada caso é um caso. Um jogo de futebol nunca é igual ao outro. São sempre narrativas e acontecimentos diferentes, quaisquer eles sejam, e que podem mudar toda a interpretação da posse de bola. O mais importante é tentar sempre enxergar isso tudo dentro de um conceito, tentar entender cada contexto e levantar diferentes hipóteses.

Até por isso algo tem sido muito recorrente no futebol, inclusive brasileiro, nos últimos anos. Ao invés de usar plataformas que disponibilizam toda essa "numeralha" praticamente em tempo real, os clubes estão buscando uma saída bastante interessante. Não são poucas as comissões técnicas que produzem suas próprias estatísticas e métricas de jogo. E é aí que entra a Análise de Desempenho que tanto é falada no mercado atual.

Entender e fazer parte do processo é de grande importância. Até para saber o que vai se avaliar nesse contexto estatístico. Por exemplo: o treinador deu uma orientação ao seu centroavante que, quando a bola é passada para trás na saída do adversário e lateral/zagueiros ficam de costas para o restante do campo, é tarefa dele ir pressioná-lo. Ele, neste sentido, servirá como um sinal para o restante da equipe subir suas linhas e encurtar o campo. Ao fazer essa pressão no zagueiro/lateral que, por sua vez, toca a bola para fora, este jogador precisa ser recompensado, certo? Pois é. Se levarmos a estatística fria, ela será apenas computada como um passe errado do jogador pressionado. Mas não seria uma recuperação de bola/desarme do centroavante? E o defensor, não estaria fazendo o correto já que não tem opções de apoio? 

É por tudo isso que sou um pouco reticente aos números no futebol. Principalmente quando não há conceitos por trás deles. Obviamente que a estatística é uma grande ferramenta para medir e se chegar à algumas conclusões, mas ela nunca pode fazer isso sozinha. O entendimento do jogo precisa estar sempre ao lado. Quem tenta explicar o jogo apenas com os números, simplesmente não entende o jogo. 

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A Seleção Brasileira de Tite e a banalização da variação tática

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Tite faz boa campanha com a Seleção Brasileira nas Eliminatórias
Tite faz boa campanha com a Seleção Brasileira nas Eliminatórias Pedro Martins/Mowa Press

Classificada com antecedência para a Copa do Mundo de 2018, invicta em jogos oficiais sob o comando de Tite e dona da melhor defesa das Eliminatórias da América do Sul, a Seleção Brasileira, enfim, volta a passar ares de confiança. Tamanha tranquilidade, no entanto, traz à tona algumas discussões visando o futuro próximo. Os questionamentos agora passam pelas vagas no elenco e até a qualidade dos amistosos que virão pela frente. Todos debates bem importantes.

Mas uma destas questões chama bastante a atenção: a necessidade (quase uma imposição por boa parte da crítica) de "procurar e testar outras formas de jogar".

A preocupação é sempre apontada por conta dos diferentes cenários que Tite pode ter pela frente durante a Copa. Adversários mais retrancados e que amarram o jogo a todo custo ou mesmo rivais com um repertório técnico maior que o enfrentado até então. Uma abordagem que busca, acima de tudo, antecipar problemas. E dentro de toda essa discussão conseguimos notar um termo bastante usado nas argumentações: a variação tática.

Então vamos ao ponto. O primeiro passo desta reflexão é tentar definir tática. Muita gente acha que tática no futebol é, especificamente, as plataformas de jogo como 4-3-3, 4-4-2, 3-5-2... Mas tática é algo mais amplo e está muito mais próxima do modelo de jogo. Do todo em si. Algo bem mais complexo que os números de linha de ônibus como dizem por aí. 

O sistema tático é um dos braços, mas com ele traz comportamentos coletivos e individuais. O que faço quando tenho a bola? Vou construir por onde e a partir de que? E quando a perco a posse? Pressiono ou posiciono? E quando a recupero novamente? Todas estas perguntas precisam ser respondidas quando se cria um modelo, uma forma de jogar. 

Portanto a tática é o plano. É a estratégia completa para se chegar ao objetivo maior (o gol, obviamente) e, ao mesmo tempo, evitar que o adversário chegue ao mesmo. Ao estudar e analisar tática, não se olha apenas para o desenho que aquele time está posicionado. Se leva em conta ações técnicas, físicas e também de caráter psicológico. Por isso falar de tática é falar do todo. 

Então passemos a falar de variação tática. Tite, quando trocou Coutinho por Renato Augusto, fez uma alteração no sistema. Foi do 4-1-4-1 para o 4-2-3-1 em alguns momentos. Mas e quando não houve uma troca de plataforma? Se configura uma variação? Trocar um meia mais posicional, de ocupação de espaços e que organiza o jogo de trás por um outro mais agressivo, agudo e que usa o drible para criar situações, seria uma alteração do plano? Estaria o treinador pensando em uma outra forma de fazer algo pré-estabelecido anteriormente?

O objetivo segue o mesmo. A forma de como chegar a ele, de fato, sofre uma variação neste sentido. Chegar ao gol com Renato Augusto em campo é diferente de fazer o mesmo com Coutinho. Pense em uma grande máquina cheia de engrenagens e peças redondas no seu centro. Assim montada, ela funciona de uma maneira padrão. Ao tirar uma destas peças e usar um quadrada em seu lugar, inevitavelmente, altera o funcionamento desta máquina. A questão é que você pode variar de maneira mais radical ou com situações mais pontuais, sem grande impacto no todo.

Ao usar esta simples analogia, chegamos à conclusão que o futebol é um jogo feito de muitas e seguidas variações táticas. Seja na mudança de postura, de plataforma ou mesmo de atletas que, por si só, já se diferem por suas características únicas como indivíduos. Claro que existem as situações de troca "seis por meia duzia", quando você faz a opção por um jogador com individualidades e comportamentos parecidos com o que está em campo. Neste caso até vale a discussão se realmente se trata de uma variação tática, já que se trata de mudanças mais sutis. E isso realmente é algo recorrente.

Agora levemos essa reflexão para a Seleção Brasileira e, principalmente, levando em conta o contexto que ela está inserida. Mesmo que seja apenas trocando características de jogadores, Tite vem fazendo e testando variações táticas. Coutinho por Renato muda o plano inicial e a relação entre os jogadores dentro de campo. Firmino no lugar de Gabriel Jesus te traz outras alternativas. Agora, se você quer discutir o grau de audácia e do quanto são drásticos este testes, é outra história. Mas, de fato, são variações.   

De um modo geral Tite sempre se mostrou um treinador mais conservador. E isso não tem a ver com ser ofensivo ou defensivo, bom ou ruim... Mas sim de não abrir mão de algumas convicções e essências do seu modelo. Não é de seu feitio mudar tudo de uma hora para a outra por uma oscilação no caminho. A forma como ele trabalha a linha defensiva é um bom exemplo. Não espere de Tite uma mudança para três zagueiros. Ou mesmo um 3-4-3 no melhor estilo Antonio Conte, como muita gente pede. 

Temos sempre que levar em conta o quanto radical são estas alterações. Muda-se a ocupação dos espaços,  as linhas de coberturas... Não é algo tão simples de ser feito. 

A variação de plataformas de jogo talvez seja a que mais salte aos olhos de quem assiste futebol no Brasil. Mas não se trata de um processo fácil dentro de uma equipe, principalmente quando o treinador não tem o dia a dia de treinamentos de um clube. A Argentina de Jorge Sampaoli, como explico neste post (clique aqui), é um bom exemplo.

Se olharmos para o cenário mundial hoje, talvez os maiores "camaleões" do futebol sejam a Alemanha e a Juventus. Estas mudanças de sistemas, muitas vezes até se adaptando ao adversário e ao que o jogo pede, se mostraram (e mostram) bem eficazes nestes dois casos. É de fato algo fluído e espanta a naturalidade como são feitos estes movimentos e trocas.

Mas se olharmos bem afundo, existe uma particularidade bem importante nestes dois casos citados acima: o tempo de de trabalho dos treinadores. Enquanto Joachim Löw comanda os alemães desde 2006, Massimiliano Allegri está à frente da equipe de Turim desde julho de 2014. Ou seja, não é algo que se atinge em pouco tempo e, se mal feito, principalmente pouco absorvido por todos os jogadores, tende a ser bem desastroso. 

E toda essa reflexão nos leva a uma outra cobrança bem comum no nosso país: "mas essa equipe só tem um jeito de jogar!". Tal afirmação acontece muito quando times grandes enfrentam retrancas, por exemplo. Mas como um time, dentro de toda essa complexidade que é criar um modelo de jogo, consegue ter duas formas de jogar? Digo isso levando em conta que o papel do treinamento é estimular comportamentos dentro de uma ideia central.

E como trabalhar toda uma ideia e, de repente, falar aos jogadores: "bom agora vamos jogar assim para ter uma segunda forma de jogar"?. Consegue perceber todo o conflito de ideias que isso pode nos levar? Existem algumas saídas menos bruscas como criar mecanismos que alterne ritmos dentro deum jogo, escolher momentos de esperar ou propor... Opções para situações específicas. Mas é isso no máximo. E se você tiver um calendário como o brasileiro, por exemplo, multiplique toda essa dificuldade.

Dificilmente Tite sairá do 4-1-4-1 e 4-2-3-1 até a chegada da Copa do Mundo. Linha defensiva sólida, que flutue bem para o lado da bola. Triangulações e associações pelos lados. Muito ataque aos espaços. Preenchimento do funil, seja ofensivo ou defensivo. Estes são alguns dos pilares do seu trabalho. Acredito muito mais em fortalecer estes padrões do que propriamente investir em testes mais evasivos. É o momento de potencializar o que está dando certo e corrigir o que não vem fluindo tão bem - já que os últimos dois jogos, apesar do caráter atípico, mostraram algumas deficiências.

Claro que cabe ao treinador observar saídas e ajustes para diferentes cenários que virão pela frente. Entender o repertório e soluções que cada individualidade do elenco podem lhe trazer. Mas nada tão drástico. Quando você pedir variação tática a um treinador, lembre-se que elas estão ali a todo o tempo. Seja na Seleção ou no seu clube de coração. Se elas dão certo ou não, aí já é outra coisa. E quando você pedir para um time ter mais de uma maneira de jogar, fique atento, pois pode ser que ele não tenha nem uma forma bem estabelecida ainda.

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Das novas ideias às dificuldades na execução: a estreia oficial da Argentina de Jorge Sampaoli

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN

Argentina teve dificuldades na estreia de Sampaoli em jogos oficiais
Argentina teve dificuldades na estreia de Sampaoli em jogos oficiais Power Sport Images/Getty

A 15ª rodada das Eliminatórias da América do Sul para a Copa do Mundo de 2018 trazia consigo uma grande expectativa em território argentino: a estreia oficial de Jorge Sampaoli à frente de sua seleção (antes, dois amistosos: Brasil e Singapura). Com Tite, Neymar & Cia. já classificados para a Rússia, o clássico contra o duro Uruguai acabou por ser a atração da noite no continente. Se por um lado o confronto em Montevidéu não foi dos melhores tecnicamente, por outro nos trouxe claramente algumas ideias que o novo treinador alviceleste planeja. Mas foi na execução destes conceitos que vieram os problemas.

A Argentina esteve longe de ser brilhante. Mas teve o controle na maior parte do jogo, com duas coisas sempre buscadas por Sampaoli em suas equipes: posse de bola e jogo no campo do adversário. Por outro lado, faltou a intensidade de jogo tão característica no seu Chile campeão Sul-Americano. No geral, tudo dentro de uma normalidade no início de um trabalho que, devemos sempre lembrar, não tem o dia a dia de clube como suporte. 

Treinar seleções, como sabemos bem, é uma faca de dois gumes: se trabalha com o melhor material humano,mas se perde com treinamentos, fator determinante para a criação de um modelo coeso e vitorioso. O Chile treinado pelo argentino, por exemplo, teve nada mais nada menos que 4 anos de projeto. A grande questão, no entanto, é o momento de sua chegada, que deixa tudo urgente. Hoje a Argentina, na quinta posição, teria uma repescagem pela frente. 

As mudanças já começaram na plataforma de jogo. Nada das variações de 4-4-2 e 4-2-3-1 que vinham sendo usadas por Edgardo Bauza. A ideia inicial de Sampaoli teve como base o sistema 3-4-2-1, uma leve variação do 3-4-3 tão usado com a seleção chilena (veja o posicionamento argentino na ilustração mais abaixo). 

Só a alteração da linha defensiva por si só já se trata de uma ruptura significativa na aplicação do jogo. Diferentes posturas sem a bola, maior espaço de coberturas e, principalmente, mais agressividade de seus três zagueiros. Todas ideias que foram até bem absorvidas defensivamente. De fato os hermanos pouco sofreram, sobretudo com os sempre perigosos contra-ataques uruguaios.

Sampaoli posicionou Fazio, o zagueiro com menos mobilidade e maior estatura, centralizado. O deixou em uma situação de menos exposição, com menos embates pessoais e mais ações de cobertura. Essa tarefa, principalmente na hora de desgarrar e pressionar o portador da bola, ficou nas mãos de Mercado (pela direita) e Otamendi (pela esquerda). Mais móveis e com melhor repertório no 1x1 e na troca de direção, ambos foram de grande importância para "abafar" as transições do adversário.

Em organização ofensiva, durante a iniciação das jogadas, quem estava no lado da bola tinha mais liberdade para avançar e buscar um passe mais vertical. Quando Mercado - que também atua como lateral-direito - assim fazia, Otamendi fechava por dentro no lado oposto. Tal estratégia servia para o outro zagueiro lateral também. 

Mas talvez tenha sido nessa primeira etapa de construção do jogo que a Argentina tenha revelado sua grande dificuldade na partida. Esse plano de saída acarretou em uma sequência de deficiências até o passe final. Junto deste trio de zagueiros, existia uma grande aproximação dos volantes Pizarro e Biglia. Com características mais posicionais e de organização por trás, faltou gente circulando próximo à entrada do terço ofensivo do campo. 

Pizarro e Biglia levantavam a cabeça e viam o seguinte cenário na fase ofensiva: Acuña (pela direita) e Di Maria (pela esquerda) bem avançados. Os alas, neste caso, tinham a missão de abrir o campo. Ao dar essa amplitude, muitas vezes também com profundidade, acabavam deixando de ser apoios relevantes. Quando essa bola entrava em um deles pelas beiradas, os uruguaios pressionavam com muita gente o setor e essa bola voltava a ser passada para trás. Enquanto isso, apenas Messi e Dybala trabalhavam entre as duas linhas de 4 do time de Óscar Tabárez (veja na segunda ilustração abaixo).

No primeiro campo, a Argentina na plataforma usada contra o Uruguai. Na segunda, a dificuldade para criar jogadas
No primeiro campo, a Argentina na plataforma usada contra o Uruguai. Na segunda, a dificuldade para criar jogadas DataESPN

Esse posicionamento "encaixotado" vivido por Messi e Dybala - as grandes referências técnicas da equipe - foi um problema crucial para o volume ofensivo argentino não ter sido maior. Mais adiantado, Icardi tinha a responsabilidade de gerar profundidade, incomodando os zagueiros como pivô e, principalmente, arrastando a linha defensiva uruguaia para o mais perto do gol possível. Praticamente não saiu dali. Não dá para saber se foi uma ordem ou mesmo questão das características do centroavante, mas faltou uma dinâmica neste espaço.

Em vários momentos, até saindo da ideia de se posicionar entrelinhas, Messi recuava para buscar a bola e tentava uma jogada individual. Em uma ou outra escapada, sempre usando o duelo pessoal com dribles e arrancadas, o camisa 10 conseguiu desequilibrar a organização do adversário. Dybala, por outro lado, esteve bastante apagado. Se prendeu ao posicionamento entrelinhas e pouco encostou no lado esquerdo, deixando Di Maria sem apoios e situações para triangulação.

A falta de associações pelos lados do campo também passa a ser um problema a ser resolvido. Tanto Acunã como Di Maria sofreram neste quesito. Sem grande aproximação dos companheiros, acabaram apostando apenas em corridas em profundidade. Di Maria, por exemplo, explorou bem o espaços nas costas de Cáceres. Mas, de forma geral, pouco foi construído pelas faixas laterais. 

Quando a seleção argentina não tinha bola os alas alternavam momentos em que fechavam na linha defensiva. Não foi uma regra, mas feito quando necessário. O jogador do PSG, inclusive, foi muito exigido neste sentido e, de fato, deu uma boa resposta nestes retornos. Não é uma situação ideal, mas com adaptação e muito estímulo, Di Maria pode vir a ser uma peça importante nesta função.

Com todo este contexto desenhado até aqui: volantes trabalhando por trás, alas dando amplitude e Messi/Dybala neutralizados e em inferioridade numérica no setor que preenchiam, faltou mobilidade. Talvez a necessidade tenha sido de um jogador com características diferentes no setor dos volantes. Alguém até menos organizador, só que mais agressivo, infiltrador e dinâmico. Justamente para, em determinados momentos, se juntar à dupla "encaixotada" ou mesmo atacar espaços na área uruguaia vindo de trás. Outra saída poderia ter sido atuar com um 9 mais móvel, que saia da referência em alguns momentos e trabalhe o jogo curto por dentro, ajudando a criar espaços na linha defensiva. 

No geral não foi um grande desempenho da Argentina (muito menos do Uruguai). Mas foi possível observar alguns planos para curto/médio prazo. Já existe um modelo de jogo sendo colocado em prática, mesmo que ainda pouco absorvido pelos aletas. E Sampaoli agora corre contra o tempo para fazer deste grande apanhado de qualidades uma unidade sólida, criativa e competitiva. Na corrida pela vaga na Copa do Mundo,  ele precisará se desdobrar para achar saídas. Afinal, não tem longo prazo para quem pegou o bonde andando (e com mais da metade do caminho percorrido!). Qualidade para isso Sampaoli tem. 

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Das novas ideias às dificuldades na execução: a estreia oficial da Argentina de Jorge Sampaoli

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Vertical, infiltrador e mutável no meio: o que esperar de Reinaldo Rueda no Flamengo?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Rueda chegou ao Flamengo com a missão de 'reviver' o time
Rueda chegou ao Flamengo com a missão de 'reviver' o time Gazeta Press

Apresentado como novo treinador do Flamengo nesta segunda-feira, Reinaldo Rueda chega ao Brasil credenciado ao sucesso que fez no Atlético Nacional da Colômbia. Por lá construiu praticamente uma hegemonia: Libertadores, Recopa, Campeonatos Colombianos, Copa... Não foram poucos os títulos conquistados na cidade de Medellín. Mas, afinal, o que esperar do treinador colombiano nesta sua passagem pelo futebol brasileiro?

O primeiro ponto a se destacar é o choque cultural que ele pode vir a trazer ao futebol brasileiro. E vamos tirar como parâmetro a sua passagem pelo Atlético Nacional, onde praticou um futebol altamente vertical, intenso e até "mutável". Rueda pensa o jogo de uma maneira um pouco diferente da que estamos acostumados e, sem tempo para colocar tais ideias em prática, pode ser queimado como os "Aguirres", "Garecas" e outros gringos que por aqui passaram. 

Demonizado por boa parte da crítica, o tal do rodízio de jogadores fez parte do seu dia a dia durante este período vencedor no Atlético Nacional. Juan Carlos Osório seu antecessor, por exemplo, sofreu certa rejeição por conta disso no São Paulo. Rueda, no entanto, não é um "improvisador nato". Não fazia tantas trocas, mas gostava de usar as características de seus atletas, principalmente no meio, para levar vantagem sobre adversários. 

Estas alterações nos 11 sempre passavam pelas necessidades estratégicas do jogo. Mas foram raros os momentos em que o colombiano escolheu usar um volante mais marcador na sua essência - caso de Márcio Araújo. Na grande maioria das vezes, o novo comandante do Fla sempre buscou ter meio-campistas mais construtores na linha de 2 à frente da linha defensiva do 4-2-3-1. Na época Mejía, Sebástian Pérez e até Alejandro Guerra (meia de origem) eram escalados na função. Cabia a eles dar maior qualidade na iniciação das jogadas. Agora ele terá em mãos Cuellar, Willian Arão e até o jovem Ronaldo, que teve poucas oportunidades com Zé Ricardo.

E esses primeiros passes na primeira etapa de construção eram importantíssimos para a fluidez ofensiva da sua equipe. Rueda pratica um futebol apoiado. Tenta fazer com que o portador da bola tenha sempre duas ou três opções para jogar. No entanto, busca apoios mais longos e verticais. Por conta disso, seus volantes tinham um forte passe de ruptura, que quebravam as primeiras linhas de marcação. A busca era sempre achar os espaços entrelinhas, seja em Macnelly Torres (meia, mas com boa retenção da bola) ou mesmo nos pontas que, em alguns momentos, também circulavam por uma região mais central. Esse jogo mais direto e objetivo, inclusive, é um dos pontos que a equipe rubro-negra, acostumada a longas posses sem grande efetividade em 2017,  precisar evoluir.

Ainda dentro deste rodízio de jogadores, o treinador variava o uso de dois pontas mais agudos (Éverton, Berrio e Geuvânio, por exemplo) com um meia mais organizador por um dos lados do campo. O agora palmeirense Guerra, por exemplo, fez de tudo sob seu comando. Atuou mais recuado como volante, jogou como meia central e também como ponta-construtor - função preferida de Éverton Ribeiro.  O jovem Marlos Moreno, mais tarde vendido ao Manchester City e ainda sendo emprestado para equipes menores da Europa, também cumpria mais de uma função. Com Rueda, atuou aberto pela esquerda e também como um 9 mais móvel. 

Toda essa variação de características e escolhas para determinadas partidas pode casar muito com o plantel que o Flamengo tem em mãos hoje. Afinal, trata-se de um dos elencos com mais profundidade do Brasil e que, dentro destas ideias do treinador, terá uma rotatividade interessante.

Apesar de ter usado o 4-2-3-1 como plataforma base para sua equipe, Rueda também não se prende muito ao sistema. Variou para o 4-1-4-1 e até para formações com três zagueiros em partidas fora de casa. O mais importante é, independentemente da formação, é que sempre tentou manter suas ideias centrais de jogo. O que prova o quanto o sistema, mera referência posicional, tem perdido sua relevância com o passar do tempo. Sua prioridade sempre foi encaixar características e fazer com que seus jogadores se completassem.

Um dos pilares do seu modelo de jogo para atacar o gol do adversário era a infiltração. Com incessantes movimentos em profundidade e passes verticais vindos dos volantes, o Atlético Nacional de Rueda era muito móvel na construção do jogo. Toca e projeta no espaço, toca e projeta no espaço... Diagonais dos pontas e corridas em profundidade dos centroavantes (principalmente com Borja, forte nessa corrida no ponto futuro da bola) eram seus movimentos preferidos. Era um time que acelerava a qualquer custo.

Tanto que, parte dos gols marcados, acontecia por uma ação sem a bola muito nítida no modelo: o perde e pressiona. O novo treinador do Flamengo nunca escondeu o seu desejo em recuperar a bola o mais rápido possível. Perdeu a posse, ataca a bola, agride e coloca intensidade. Por vezes a bola era recuperada ainda no campo ofensivo e com o adversário desequilibrado, ainda tentando entrar em organização ofensiva. Esta era uma das grandes marcas daquele Atlético Nacional.

Por outro lado, essa pressão imediata expunha dava uma certa exposição à linha defensiva. Sempre que o adversário conseguia tirar essa bola da pressão, ganhando campo para atacar, os zagueiros desgarravam em encaixes individuais para caçar os atacantes. Por conta disso, Rueda não tinha em seus laterais jogadores com grande liberdade ofensiva. Ambos construíam mais por trás e tinham bons movimentos na transição defensiva, o que ajudava nessa situação com os zagueiros, gerando boas coberturas e superioridade numérica na volta. A situação se tornava ainda mais perigosa com Henriquez, zagueiro de pouca mobilidade e troca de direção - casos de Réver e Juan no elenco rubro-negro.

Assim como qualquer treinador, Rueda tem pontos fortes e fracos. A questão vai ser tentar enxergar a realidade em que ele agora está inserido e se adequar às características do elenco que tem em mãos. Toda essa análise tem como base seu último trabalho, mas, num local e jogadores diferentes, não quer dizer que todas estas ideias serão repetidas e "copiadas". Que o colombiano tenha tempo para quebrar de vez esse paradigma dos estrangeiros por aqui.

Afinal, trata-se de um profissional de qualidade já comprovada. E, ao invés de vez reclamar da falta de espaço para treinadores brasileiros, temos que encarar essa chegada como uma nova oportunidade de trocar experiências. Nosso crescimento também passa por isso.


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Egídio, a raça e o Palmeiras que correu errado na Libertadores

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN

Time comandado pelo técnico Cuca foi eliminado na Libertadores
Time comandado pelo técnico Cuca foi eliminado na Libertadores Cesar Greco/Divulgação

A cobrança começou e vai ser mais forte. O Palmeiras, de grandes investimentos para 2017, não ganhou o Paulista, caiu precocemente da Copa do Brasil e Libertadores, e agora se vê longe do líder e arquirrival Corinthians no Brasileirão. Como de costume dentro de uma cultura de futebol "resultadista" e individualista, a caça às bruxas também promete ser feroz. E já temos um candidato a vilão: Egídio. Um só (UM!) culpado por uma derrota dentro de um esporte altamente coletivo, onde mais 40 pessoas estão envolvidas em todo um processo que interfere no resultado e no desempenho dentro de campo. 

Mas a ideia central aqui é falar de desempenho. Tratar o futebol como coletivo. Com isso ficam as seguintes perguntas: você, palmeirense, mesmo que tivesse passado pelo Barcelona-ECU, com Jailson defendendo três ou quatro penais, uma vitória épica dentro de casa, torcida empurrando, time lutando... Ainda assim estaria satisfeito com o futebol do seu time? Realmente acha que ganhou está tudo bem e perdeu não serve? Acredita piamente que este elenco - apesar dos seus desequilíbrios (chegaremos a isso lá na frente) - não pode praticar um futebol melhor e mais atual? Se sim, pare por aqui. Se não, vamos em frente...

Falar de garra, de raça ou de entrega neste momento é beirar a preguiça. Já cortamos isso por aqui. Apesar da doída eliminação, o que não faltou foi vontade. O Palmeiras correu, correu, correu... A grande questão é: correu certo? Existia uma organização por trás de tanta raça? Vamos tratar de erros e acertos, de virtudes e deficiências, boas e más escolhas. Fugir do 8 ou 80. 

É nítido que Cuca tem um modelo de jogo para sua equipe. É possível enxergar as ideias de jogo que o treinador busca: intensidade e agressividade, ações verticais e muita aposta em duelos pessoais, seja defendendo ou atacando. Tem consigo uma ideia de futebol totalmente estratégico. De estudar, se adaptar e atacar as fraquezas dos adversários. Não pensa duas vezes em alterar sistema ou escalação para privilegiar algum encaixe ou proposta de jogo.  Trata-se de um treinador altamente engenhoso e inquieto quando as coisas não vão tão bem. Qualidades importantes para a profissão.

Por outro lado, trata-se de um modelo que, apesar dos resultados da última temporada - onde atingiu um desempenho muito satisfatório, principalmente no 1º turno -, está longe de ser atual. Chegamos a essa conclusão quando observamos o tipo de futebol que é praticado nos grandes centros do planeta. Um modelo que tem exposto falhas e deficiências que, ao contrário do ano passado, ainda não foram corrigidas e são exploradas pelos adversários. O Cruzeiro, por exemplo, explorou como ninguém as quebras da linha defensiva alviverde, que acontecem por conta dos encaixes individuais e longas perseguições na fase defensiva. Arrastou zagueiros e laterais para longe da área e atacou espaços por eles deixados. O rival Corinthians, nos dois gols marcados no Allianz, fez a mesma coisa.

O Palmeiras ataca a todo custo. E ataca muito sem a bola. Escolhe como estratégia em algumas partidas pressionar a saída de bola do adversário, como fez contra o Barcelona. Mas não é condicionado a isso. Sobe seus atacantes, mas apenas pressiona a bola. Não consegue, em muitos momentos, fechar linhas de passe, cobrir espaços... Pressionam a bola e quem está com ela. Corridas de frente, sem fechar o passe. Os atletas se desdobram, mostram empenho de sobra, mas correm errado. Sabe aquela velha expressão de que "fulano só corre errado"? Os primeiros 45 minutos do Verdão contra o rival equatoriano é o melhor exemplo disso.

Ainda em cima dessa tentativa de sufocar o adversário, principalmente nos primeiros minutos, o Palmeiras se mostra um time espaçado. Atacantes e meias avançam, tiram espaço na iniciação do rival. A ideia é recuperar a posse o mais próximo do gol e reagir com velocidade. Na temporada passada, os alviverdes fizeram grande parte de seus gols recuperando a bola no campo ofensivo. 

Mas e quando esse adversário consegue tirar a bola dessa pressão? A linha defensiva, ao invés de avançar e diminuir o campo, como fazem as grandes equipes que optam por esse conceito, fica posicionada em bloco médio/baixo. Com isso o adversário tem campo e espaço para atacar. Se um lateral já foi batido no caminho por que saiu para caçar, a linha nem sustentada está mais. Com a velocidade como grande característica, o Barcelona chegou em condições de concluir jogadas na área palmeirense em vários momentos. 

Falta repertório ofensivo. E a questão aqui nem são os laterais na área. Se bem treinados, podem, sem demérito algum, ser um recurso. Mas em alguns jogos o Palmeiras mostra uma grande dificuldade para propor o jogo, criar, ter a bola... Contra o Barcelona cruzou bolas totalmente aleatórias. Não condicionou o time a um bom cruzamento. Alçou bolas na área de forma antecipada, com a bola vindo de frente para os zagueiros rebaterem. Muitas vezes nem preencheu bem o setor para finalizar. Fora as faltas de quase o meio de campo que foram jogadas na área. O Palmeiras abriu mão de colocar a bola no chão, de circular, movimentar, abrir espaços... Foi uma partida pautada nas transições. Recupera e acelera, recupera e acelera, recupera e acelera... Os equatorianos, por conta de suas características, entraram na onda.

Cuca não tem culpa de não ter seus meias em perfeitas condições para a decisão. Mas tem culpa por não trabalhar jogadores para cumprirem funções. Por reservas não entregarem o mesmo que seus titulares. Corinthians e Grêmio, por vezes desfalcados, conseguem manter nível parecido com quem entra e cumpre as obrigações do titular. Claro que a qualidade pode cair um pouco, normal. São jogadores diferentes. Mas não dá para esperar mais de 6 meses por Moisés para o time ficar mais criativo.

Sobre Egídio, a implicância tem algum sentido se olharmos algumas atuações individuais do jogador. Trata-se de um lateral-esquerdo que tem suas dificuldades, principalmente defensivas. Mas, por incrível que pareça, trata-se de melhor lateral-esquerdo do elenco. E aí que vem o desequilíbrio. Cuca já testou Michel Bastos (que não foi bem), Zé Roberto (que tem dificuldades posicionais na linha defensiva) e nada. Na direita, jogou com Tchê Tchê. O Palmeiras gastou com dois centroavantes, meia, volante, zagueiro... Porque não laterais de maior qualidade? Então existe um erro no planejamento, na montagem do elenco. Então a diretoria também tem sua parcela.

A questão aqui não é defender ou criticar X ou Y. Egídio está dentro de todo um contexto complexo que é uma equipe de futebol. Ali está por decisões técnicas. Que ali também está por questões administrativas. Errou ele, errou Cuca, errou a direção... Uma eliminação, um ano ruim ou uma crise nunca tem um só culpado. Normalmente são vários e vários os motivos para a as coisas não encaixarem. 

Que essa derrota sirva como reflexão para o Palmeiras e o palmeirense. Como a chance para se pensar melhor seu jogo e que tipo de futebol quer se praticar na Academia. Para Cuca crescer como profissional. Ou mesmo para o clube se fortalecer como um todo. O trabalho dos últimos anos, de reconquistar o prestígio e orgulho de seu torcedor, tem grandes virtudes. 

O Palmeiras perdeu por que joga mal. E já faz um tempo. Nada além disso. Então cabe a nós enxergar o que é e não o que quer. 

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Entrevista do mês: de dispensável no Corinthians ao Porto, Felipe lembra trajetória, agradece Carille e diz: 'Sou prova viva que o treino muda um jogador'

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN

Felipe é um dos pilares do Porto para alcançar títulos na temporada 2017/2018
Felipe é um dos pilares do Porto para alcançar títulos na temporada 2017/2018 Getty

Felipe Augusto de Almeida Monteiro talvez seja um dos maiores exemplos recentes de evolução tática/técnica em um jogador de futebol no Brasil. Chegou ao União Mogi, seu primeiro clube profissional, já com 20 anos. E a oportunidade se deu após um campeonato amador, quando defendia o time de uma empresa de tratores no município de Mogi das Cruzes, onde nasceu. Nada de passar pelas categorias sub-13, sub-15, sub-17 e sub-20. Muito menos ter disputado torneios de base importantíssimos para o crescimento de um jovem promissor. 

Com ele, carregava apenas um ótimo desenvolvimento motor, fruto da sua paixão pela prática esportiva que fazia parte de seu cotidiano deste muito jovem. Futebol, basquete, vôlei, brincadeiras lúdicas na rua e até o skate ajudaram o agora zagueiro do Futebol Clube do Porto a quebrar alguns paradigmas importantes do futebol.

Depois de disputar divisões inferiores do futebol paulista pela equipe de Mogi das Cruzes, Felipe chegou ao Bragantino onde, de fato, passou a ter mais visibilidade.  Antes de chegar à equipe de Bragança, ainda ajudava a empresa da família de sua namorada em um mercado, entregando cogumelos e outros produtos. Mas as boas atuações dentro de um sistema com três zagueiros e que tinha um modelo de jogo de muita imposição física nas mãos do treinador Marcelo Veiga, chamaram a atenção do Corinthians, antigo "parceiro" do Bragantino no que se refere a contratação de jogadores.

Mas a sua virada na carreira teve mesmo início em 2012. Comandado por Tite e campeão brasileiro na temporada anterior, o Corinthians não oferecia muitos espaços ao jovem zagueiro que acabara de chegar e mesmo assim foi ao Japão fazer parte do grupo campeão mundial daquele mesmo ano. No dia a dia dos treinamentos, não demorou para que a comissão técnica diagnosticasse algumas situações. Era unanimidade que eles tinham em mãos um atleta com um alto nível de maturação física, mas que, por outro lado, tinha pouco desenvolvimento tático e entendimento do jogo, claramente consequência da sua não passagem por categorias de base. 

- No Corinthians, o Tite gostava de trabalhar muito o treinamento de dois toques, e isso me dava muita dificuldade. Ficava desconfortável. Quando você faz a base, olha antes, domina e sabe a opção que tem. Já está habituado a esses exercícios. Eu não tinha isso - conta o agora zagueiro do Porto e que chegou a estar na mira de equipes como Juventus-ITA e Real Madrid-ESP, em entrevista exclusiva ao blog.

A partir daí iniciou-se um ciclo de muito aprendizado na vida de Felipe. As poucas oportunidades em campo, já que ele viria a ser titular apenas no final da temporada 2014, com Mano Menzes, não foram desculpas para evoluir. Com incansáveis treinos de linha defensiva, coberturas e até atividades mais específicas para trabalhar seus gestos técnicos, o zagueiro agora alça voos maiores.

Desde que chegou ao Porto, foi titular absoluto com Nuno Espírito Santo e se mantém com Sergio Conceição, seu atual treinador.  Atuou entre os 11 em 45 de 49 partidas possíveis na última temporada (cumpriu apenas um jogo de suspensão e perdeu outros três para ser preservado em meio a decisões). Aliás, Felipe será atração na ESPN Brasil, na próxima quarta-feira, às 14h55, no duelo contra o Estoril, pelo Campeonato Português.

Na entrevista completa que você acompanha abaixo, Felipe fala de futebol como alguém interessado em pensar e não só jogar o jogo. O ex-corintiano dá mais detalhes desta sua curiosa trajetória no futebol, fala da importância de Fábio Carille (agora treinador do Corinthians) na sua evolução como jogador, das diferenças táticas que tem enfrentado na Europa e ainda garante que é  uma "prova viva que o treinamento, se bem condicionado, pode mudar um atleta quase que da água para o vinho". Confira:  



Como foi sua adaptação ao Porto? Teve alguma dificuldade? Quais as grandes diferenças táticas e conceituais que você observou na Europa desde que chegou?

A minha adaptação, no contexto geral, acho que foi boa. Não tive tanta dificuldade. Porque a instalação foi muito fácil, a língua foi fácil, a comida é parecida... Então não tive dificuldade. O mais difícil, digamos assim, foi dentro de campo mesmo (risos). O futebol europeu é muito rápido, enquanto no Brasil a bola é mais trabalhada, o jogo é mais cadenciado, mais jogado... É claro que, no começo, quando se faz uma troca de clube brasileiro por europeu, você tem um pouquinho de manias que precisa ir desacostumando com o tempo. Mas não houve grandes problemas.

 
Sabemos que Portugal é um dos centros que mais se estuda futebol no mundo. Conseguiu sentir essa diferença nos profissionais que trabalha por aí? E a torcida, acha que existe uma cultura diferente no entendimento do jogo?

Sobre os profissionais do futebol que tenho tido contato aqui, tive a sorte de trabalhar com grandes estudiosos e entendedores de futebol, em todos os aspectos. Realmente aqui existe essa busca maior. Pude aprender muita coisa com eles. Mas também foi assim no Corinthians e, agora, estou aprendendo muito no Porto também. Os torcedores aqui também entendem muito de futebol. A torcida tem um grito mais “cantado”, mas está sempre empurrando. No Brasil, no Corinthians, a torcida também empurrava o tempo inteiro e também cobrava. Acho que aqui também tem muita cobrança, por conta de o Porto ser um clube de alto nível, que está sempre brigando por títulos e sempre almejando grandes conquistas. Esse é o nosso objetivo para esta temporada, ser campeão. É o pensamento de todos no clube.

 
Você deixou o Corinthians, que tem uma cultura forte de formar boas defesas. Mesmo assim sentiu alguma diferença de treinamento específico do Brasil para a Europa?

Não tem tanta diferença, porque às vezes o estilo de jogo e formação são parecidas, tem o 4-4-2, 4-3-3... Em relação a isso, não teve tanta mudança. Eles seguem ideias parecidas no trabalho de linha de 4. Tinha uma regra para gente no Brasil, quanto a batida da bola para para rebater e alguns outros macetes... Mas aqui também tem ideias parecidas, por isso acredito que não mudou muita coisa.

Nota de redação: o Porto atuou durante toda a última temporada variou entre o 4-4-2 com um losango no meio e o 4-3-3, bastante habitual na história recente do clube. No que se refere diretamente ao zagueiro, nunca abriu mão da linha defensiva com quatro jogadores.

 
Dentro do Corinthians você é visto como um exemplo de jogador que evoluiu na base dos treinamentos e também pelo interesse em melhorar. Ter passado pelo Corinthians foi um divisor de águas para a sua carreira? Conte um pouco sobre essa trajetória lá dentro.

Lá no Corinthians, quando eu cheguei, como não tive base, cheguei bem “cru”. Cheguei do Bragantino no fim de 2011, para começar em 2012, com muita dificuldade nas partes técnica e tática. O Corinthians foi um exercício de muita paciência. Eu, com 22 pra 23 anos, acabei fazendo a base lá, e aceitei muito bem isso. Precisava ouvir e aprender, e fiz tudo que me pediram. Todos foram muito pacientes. Isso me ajudou muito na carreira. Hoje, graças a Deus, me sinto igual aos outros. Independentemente de ter feito base ou não, já estou nos mesmos padrões dos outros. Senti, quando cheguei, que tinha muito jogador de qualidade que fazia coisa que me deixava pensando se eu conseguiria fazer o mesmo. Foram muito pacientes. O Carille me ajudou demais, de forma absurda. Devo muito a ele. O Tite também veio diretamente conversar comigo sobre isso, de um jeito muito humano e correto. Entendi e aceitei muito bem. Durante dois anos, três anos, fiz trabalhos para correções, para errar o menos possível, sempre buscando melhorar. Quando comecei a jogar, tudo estava bem encaminhado.

Quem e o que mais te ajudou para esse crescimento? Qual foi o papel do Carille neste sentido?

Sim, porque ele era o auxiliar técnico do clube, então toda vez que terminava um treino, ele pegava os zagueiros para trabalhar com ele. Ele era o responsável pelos zagueiros. Isso me ajudou em tudo. Correções de cabeceio, direção para onde jogar, movimento técnico para tirar uma bola e não ir para trás, sair jogando de um jeito correto, ter escolhas corretas durante o jogo... ele sempre teve essa paciência e me ajudava. Toda vez que pedia para fazer um treino à parte, ele falava que sim. Ele teve um papel fundamental na minha carreira.

 
O que você pode dizer sobre os treinamentos de linha defensiva que você trabalhou no Corinthians, tanto com Mano quanto com Tite? Foi algo que te mudou como jogador?

Primeiro, cheguei com o Tite, então já havia uma linha muito bem organizada. Ele é muito perfeccionista. Fazia as coisas de forma muito correta. Ele colocava isso na cabeça dos jogadores, e a gente já fazia de forma automática. Já entrava na cabeça e fazia tudo automático, era impressionante. Depois, ele mostrava para gente nos vídeos, e às vezes eu nem lembrava que tinha feito, mas ficava impressionado como funcionava. Quando chegou o Mano Menezes, eu já estava pegando essa mecânica. Ele não trabalhava muito a parte defensiva, pois deixava isso mais com o Carille também, que mantinha essa linha e essas correções. Aí, depois voltou o Tite, eu já tinha na cabeça tudo que ele havia me ensinado e foi tudo mais fácil para fazer em campo.

 
Você não chegou a trilhar o caminho de categorias de base como normalmente garotos passam antes de chegar ao profissional, não é? Quais foram as grandes dificuldades que você teve por conta disso? O que precisou superar e aprender?

Quando eu cheguei, não tinha esse costume. Na verdade, não tive a experiência que normalmente um jogador de 20 anos tem antes de chegar no profissional. No Corinthians, o Tite gostava de trabalhar muito o treinamento de dois toques, e isso me dava muita dificuldade. Ficava desconfortável. Quando você faz a base, olha antes, domina e sabe a opção que tem. Já está habituado a esses exercícios. Eu não tinha isso. Quando dominava uma bola, parecia que não tinha opção nenhuma. Isso dificultava meu jogo e eu sabia que tinha que melhorar. Precisava melhorar os gestos técnicos. Tinha muita bola que chegava e eu tirava para dentro, cabeceio para a direção errada... Isso foi difícil. Mas, depois, com muito trabalho, tudo começou a clarear e a ficar mais fácil. 

 
Acredita que o jogador pode evoluir mesmo que não esteja jogando?

Sim, e eu sou uma prova viva disso (risos). Não jogava quase nunca, apenas treinava. Muita gente pensa que eu cheguei ao Corinthians em 2014 ou 2015, quando comecei a jogar mais. Mas cheguei em 2012, fiz trabalhos especiais todo esse tempo e virei titular em 2015. Fora os vídeos, as conversas... Minha evolução no Corinthians, até ser campeão brasileiro, foi enorme e teve muita coisa positiva. Claro que algumas experiência você só adquire estando em campo. Mas eu sou a prova viva que o jogador, mesmo sem jogar, só treinando, aprendendo, pode evoluir. O jogador tem que aceitar a aprender, precisa ter interesse, saber que tem que treinar, corrigir, entender melhor o futebol. Fazendo isso, se prepara melhor. Alcança mais objetivos. E quando estiver pronto para jogar, consegue fazer um trabalho melhor.

No que você se apegou quando não tinha muitas chances de atuar pelo Corinthians? O quanto você precisou "entender melhor o jogo" antes de decolar na carreira? Lembra de algumas situações deste tipo?

Quando comecei a evoluir, a diretoria sempre conversava comigo. Falavam que eu tinha muita qualidade, mas que elas precisavam ser trabalhadas. Isso entrou na minha cabeça. E aceitei tudo, exatamente tudo que falaram. Trabalhei muito para conseguir essa evolução. Teve um jogo contra o Bahia, em uma época que eu estava para ser emprestado. Saiu o Wallace, eu entrei e fui muito bem. Isso me segurou no Corinthians. Mudou tudo ali. Esse jogo foi especial, me ajudou a me manter no Corinthians. Seu eu não entro naquele jogo, seria emprestado para pegar mais experiência. Esse jogo foi o mais especial e deu tudo certo.

Faz tempo que o Corinthians conta com linhas defensivas muito fortes. Entra e sai jogadores, mas mesmo assim, o time segue firme neste sentido. Ao que se deve isso? Sabe explicar?

O sistema, que eu considero defensivo, não é só a linha de quatro e o goleiro. As pessoas confundem um pouco isso. É um contexto geral. São todos os jogadores funcionando de forma coletiva. Se você reparar, é um ala que vem até o final acompanhando um lateral, é um atacante que vem até a linha da área para pressionar a bola se precisar... É um contexto geral, não só a linha defensiva, que funciona muito bem. Claro se trata de um setor importante, já que a  linha serve para empurrar todo mundo para frente em vários momentos. É necessário esse trabalho  para saber a hora de voltar, sair, fazer a cobertura... Isso todos têm que fazer muito bem. O sistema defensivo, o coletivo, é o que faz de tudo isso ser eficaz.

 
Muito se fala de sistemas de marcação aqui no Brasil, principalmente na questão de marcar por zona ou de forma individual. O que é mais fácil para você? Como se sente mais seguro, tendo liberdade para "caçar" os atacantes ou cuidando mais dos espaços?

Quando se trabalha uma linha defensiva, com bola rolando, é muito mais fácil fechar a linha de passe, cuidar dos espaços do campo. Porque é neles que os atacantes entram para fazer gol. É onde está a baliza (o gol). Por isso se cuida da área. Se o adversário jogar por fora, é mais difícil. Então gente procura ficar mais fechado, para a bola não entrar nesse espaço que consideramos de maior risco. Na bola parada, marcação por setor entendo que seja mais fácil também, até porque fiquei acostumado a este tipo de marcação. No entanto, já trabalhei com marcação individual nas bolas paradas e também sei fazer bem. Cada treinador tem a sua filosofia, cabe ao jogador ter total confiança nos métodos implantados.

Chegou a atuar contra equipes que marcavam de forma individual em Portugal? É algo comum por aí ou normalmente usam o método zonal?

Aqui em Portugal vejo alguns jogos e equipes fazendo essa marcação mais individual, mas normalmente é na bola parada. Como trabalhei no Brasil quase sempre por setor, acho que só agora mesmo que apareceu a marcação individual mais claramente na minha cabeça. Não tem problema algum. Para gente, ver todos os adversários marcando individual num escanteio, por exemplo, quando tem um bloqueio, para atacar fica até mais fácil. A gente se mexe mais, faz mais força, mas é opção de cada um. Tem pessoas que preferem setor e outros individual, mas são dois tipos de marcação eficientes. Se tiver um descuido, acontece o gol, não importa como você está marcando (risos). Isso depende do jeito dos jogadores.

Quais são os principais conceitos que um zagueiro precisa ter para compor uma linha defensiva sempre posicionada/por zona? 

Acho que é tirar os espaços. Tirando os espaços dos adversários, isso ajuda muito, porque você fica sem espaço para jogar. As linhas do atacante até o zagueiro ficam mais curtas. Todo o sistema do time funciona assim. E é preciso saber o momento certo na hora de correr para trás, de fazer a cobertura. Não tem muito segredo. Se fizer de forma simples e bem feita, funciona. Claro que você uma hora toma gol, mas evita muitos gols também. Eu acho que, quando você cuida bem dos espaços, consegue ser mais efetivo.

Como funciona o entendimento do zagueiro quanto à postura corporal nessa linha: quando ficar de frente, quando virar para atacar uma bola, quando deixar a linha e pressionar, etc...

É mais desse sistema, de saber os momentos corretos para se tomar as decisões. Tem que ler o jogador que está com a bola. Quando ele faz uma condução de frente, tem que ir para trás. Ele pode meter uma bola por cima de você. Tem de acompanhar a passada dele e olhar os atacantes. Quando ele olha para trás, você tira o espaço, sobe junto com a linha e diminui o campo. Não tem segredo. Para mim, que sou zagueiro, vejo dessa forma e é fácil entender. Quem não conhece, parece difícil, porque não sabe como funciona. É a mesma coisa que uma pessoa saber andar de bicicleta e falar para outra que não sabe que é fácil porque é só pedalar e ter equilíbrio. A outra pessoa não vai pensar assim. Para mim, que já peguei essa mecânica, hoje levo com facilidade.

A janela de transferências está aberta e muito se fala do interesse de grandes equipes em te tirar do Porto? Como você tem reagido a tudo isso? Acha que está preparado para dar mais esse passo?

Eu fico muito feliz que estou fazendo um grande trabalho num clube maravilhoso, que é muito grande na Europa, que sempre briga por títulos e está disputando grandes competições. Para esta temporada, nós temos um objetivo muito claro, que é ser campeão. Queremos o Campeonato Português, queremos brigar pela Liga dos Campeões, almejamos conquistas importantes. Todos têm na cabeça que o clube precisa de títulos, e vamos fazer o máximo para conseguir dar isso ao nosso torcedor. Em relação a mim, é bom saber que tem clubes de olho, porque é um ótimo sinal que estou fazendo um bom trabalho por aqui, dando sequência a um bom trabalho no Brasil. Eu fico muito orgulhoso por ter dado sequência do que fazia antes de vir para a Europa.  

Costumo fazer essa pergunta a treinadores, auxiliares, preparadores. É a primeira vez que pergunto para um atleta e exige um pouco de reflexão. Para você o que é jogar bem?

O que é jogar bem? Parar mim, é chegar a um nível que te faça merecedor da vitória. É dar algo a mais. A vitória é a consequência do jogar bem e de “dar tudo”. O jogar bem, para mim, é dar um carrinho bem feito, é acreditar na bola que parece perdida, é subir numa bola com a certeza de que você vai tirar. O jogador tem que ter a percepção de lutar e sempre ajudar os companheiros. Jogar bem funciona com todos bem, como equipe, com uma engrenagem funcionando. A mentalidade tem que ser sempre dar um carrinho, acreditar na primeira e na segunda bola, estar atendo na bola parada...Você precisa acreditar na bola que está saindo e que vai ganhar a jogada. Isso é jogar bem e sair com a consciência limpa de que fez um bom trabalho.

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Entrevista do mês: de dispensável no Corinthians ao Porto, Felipe lembra trajetória, agradece Carille e diz: 'Sou prova viva que o treino muda um jogador'

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São 14 demissões em 17 rodadas: afinal, existe um tempo mínimo para avaliar um treinador?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Ceni, Roger e Jorginho já perderam seus cargos neste Brasileirão
Ceni, Roger e Jorginho já perderam seus cargos neste Brasileirão DataESPN

Jorginho foi a décima quarta "vítima" do Campeonato Brasileiro de 2017. Após cinco partidas sem vencer dentro de casa, o Bahia optou por sua saída. Ao todo foram apenas dois meses de trabalho. Com mais essa queda, chegamos ao assustador número de 14 demissões em 17 rodadas disputadas. E nesta atual conjuntura fica praticamente impossível não buscar uma reflexão mais aprofundada sobre o assunto. Afinal, existe um tempo mínimo para avaliar o trabalho de um treinador de futebol? 

Na minha opinião, não. E tentarei explicar o por quê, mesmo tendo total convicção de que dar tempo a estes profissionais é de extrema importância e muitas vezes determinante para o sucesso.

Cada vez mais, dentro do complexo ambiente do futebol - que engloba torcida, clubes e também a imprensa -, se fortalece uma corrente de pensamento de que é preciso dar uma maior sequência de trabalho para que um time possa ter êxito. Se antes pedíamos a cabeça do técnico com poucas semanas, hoje já visualizamos uma maior paciência e vários lapsos de uma discussão mais embasada sobre o assunto. Inclusive dentro da própria imprensa. Uma conquista muito importante dentro de uma cultura que sempre foi de pouca tolerância para o esporte.

Por outro lado, também corremos um sério risco de essa paciência virar simples clichê.  Podemos, mais uma vez, entrar em um looping eterno com relação a este assunto, deixando então de pensar o futebol de uma maneira mais racional. Quando nos apegamos a um determinado paradigma, simplesmente por ele passar a ser uma verdade absoluta dentro de qualquer contexto, passamos a não questioná-lo e, como consequência, deixamos de agregar conhecimento.  

A decisão de se demitir um treinador é muito mais matizada do que pode parecer. Ela não pode ser composta apenas pelo resultado adquirido dentro de campo: vitória, empate e derrota. Existem outros componentes muito importantes para se chegar a uma sentença clara sobre quais são os reais problemas de uma equipe. Então vamos tentar desenvolver alguns destes elementos que geram essa instabilidade. Aliás, raramente é um só fator que resulta em insucesso dentro de campo.

Avaliar desempenho talvez seja um dos pontos mais importantes e difíceis dentro deste cenário. Existem várias maneiras de se perder ou ganhar um jogo. Você pode, muitas vezes, ter um bom resultado e não ter jogado bem dentro do plano que foi traçado para aquela partida ou temporada. Em outros casos, equipes também podem desempenhar bem um seguinte modelo dentro dos 90 minutos, mas por um motivo ou outro, não ter o placar desejado no final. A questão é que o desempenho está muito mais próximo do sucesso. Já o resultado sem desempenho é muito aleatória e toma caminhos volúveis. 

Então a leitura correta a ser feita nos traz algumas perguntas: a equipe perdeu jogando mal? Existe uma evolução dentro das ideias que esse treinador tentar propor para o elenco? Onde essa metodologia pode nos levar e é possível, com ajustes, corrigir nossas incompetências? É possível ver um modelo de jogo no processo? E esse modelo se encaixa com as peças que nosso clube tem no momento?

No caso do Bahia e de Jorginho, apesar do pouco tempo no cargo, algumas destas perguntas podem ser respondidas. É fato que, com o passar dos jogos, não se enxergava uma evolução muito nítida. O treinador, por sua vez, chegou em um cenário difícil. Substituía alguém que vinha dando certo. Mesmo que este sucesso anterior havia sido conquistado em competições estaduais/regionais, existia ali um modelo bem absorvido pelos jogadores. Apesar do pouco tempo no cargo, Jorginho não conseguiu mostrar um horizonte melhor pela frente, uma tendência de crescimento. Então a questão aí não é o tempo de trabalho, e sim o trabalho.

Muitas vezes o erro não está no treinador e muito menos na demissão. E aí que chegamos a um segundo ponto: a escolha na contratação No Brasil pouco se avalia o perfil de um treinador. Geralmente o  que mais importa é seu currículo. Se ganhou serve, se não ganhou, obrigado. 

Quando um clube não entende o tipo de futebol que pratica ou que quer praticar, de nada adianta. É neste momento que você traz um nome e não uma ideia maior. Arruma pilotos de barcos para controlar helicópteros. E isso não quer dizer que o piloto seja bom ou ruim. Mas que ele simplesmente não serve para aquele contexto. E que fique bem claro, isso não tem a ver com idade, se estudou ou não estudou. 

Então se erra duas vezes: uma por trazer alguém com ideias distintas do que o elenco pode oferecer e outra por não dar tempo para que aquelas ideias, totalmente diferentes das anteriores, não sejam absorvidas pelo grupo de atletas. E isso acontece dia pós dia no nosso futebol. Queremos grifes e depois pagamos um preço alto. 

Mas existe um terceiro ponto, tão importante quanto os outros aqui citados, mas que nem eu e nem você temos condições de interpretar de maneira mais aprofundada: o dia a dia. Talvez é neste quesito que esteja a essência de todo um trabalho. E ainda capengamos neste sentido, já que raramente existem gerentes, executivos ou mesmo diretores de futebol capacitados para fazer essa interpretação. Falo de pessoas envolvidas na gestão e que tenham um conhecimento mais minucioso para compreender a qualidade de um treino, por exemplo. De entender um modelo de jogo ou mesmo conseguir concluir o quanto sua equipe foi bem ou mal, deixando uma análise "resultadista" mais de lado.

E neste dia a dia que não temos acesso a quase nada ainda existem os fatores humanos que envolvem a relação deste profissional com jogadores e demais funcionários. Por isso é tão necessário ter alguém neste ambiente capaz de fazer uma leitura mais técnica do todo, mas também possuir um feeling apurado para controlar todo esse caldeirão de egos. Alguém que controle uma atmosfera que, além das diversas relações entre departamentos e ideias de futebol, tem como ônus as questões políticas, financeiras e de interesses de terceiros... Não é uma tarefa das mais simples e o treinador, que é uma pessoa só, está dentro deste caos.

Claro que o tempo de trabalho é um dos pontos mais importantes para se desenvolver um trabalho de sucesso. Sem ele as ideias e comportamentos, sejam eles individuais ou coletivos, não são totalmente assimilados pelo grupo de jogadores. Não se consegue, em muitos casos, nem conhecer profundamente as características e virtudes de cada jogador. Sem tempo não existe treinamento. E sem treinamento não existe construção de nada. 

Por outro lado, existem também os contrapontos. Não há construção sem ideias. Time que não treina bem, não joga bem. Uma boa engrenagem precisa das peças certas, caso o contrário, vai pifar no meio do caminho. E a chave-mestra, se não for compatível com as peças, não vai funcionar. Então aqui ficam duas lições: pense futebol antes de contratar e pense futebol na hora de mandar embora. Não é só o tempo que decide. É muito mais complexo que isso.

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Robinho e a balança do Atlético-MG

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Robinho, no empate entre Botafogo e Atlético-MG no Engenhão
Robinho, no empate entre Botafogo e Atlético-MG no Engenhão Getty

A temporada cheia de expectativas do Atlético-MG vai se desmanchando. E a eliminação para o Botafogo, apesar da vantagem levada para o Rio de Janeiro, não surpreende a quem procura enxergar o futebol de maneira mais aprofundada. Seria uma surpresa se, com dois dias de treinamentos sob o comando de Rogério Micale, a equipe demonstrasse um futebol mais coletivo e competitivo.  Afinal, o Galo enfrentou um time, algo que ainda não conseguiu ser durante este ano.   No fim das contas uma eliminação dolorida como esta pode servir com uma "balança" no futuro clube. 

Sabe aquele papo de que até das coisas ruins é possível tirar boas lições? Eu sei, para quem está com a cabeça inchada no dia seguinte, é dose ouvir isso. Mas é fato que existem grandes construções após fortes traumas. O Corinthians pós-Tolima , pós rebaixamento, a Alemanha pós-Eurocopa de 2000... Não que nada do que está sendo feito não sirva, mas é o momento de se tomar as melhores decisões e ver o que realmente vale a pena daqui em diante. 

Talvez o personagem mais emblemático dentro de campo e que envolve todo esse dilema atleticano é Robinho. Importante pela figura que é e pelo calibre de jogador que sempre foi, mas também longe de ser o centro dos problemas vividos pela equipe. Quem acompanha o blog sabe da bandeira carregada por aqui. Mas continuemos... 

Depois de uma temporada 2016 em alto nível, o camisa 7 não consegue mais entregar o que se espera dele. "Assumo a minha responsabilidade, sei que tenho que melhorar. Mas quando o coletivo não está bem, as peças individuais não rendem. Isso é fato", disse o atacante, na saída do Engenhão. E ele não está errado. O coletivo do Atlético-MG inexistiu no Rio de Janeiro. Palavras bem sábias, inclusive, e que muitas vezes passam despercebidas em meio a tanta pressão pelo resultado.

Mas por outro lado, a sua presença em campo, muitas vezes joga contra o todo. Não é uma acusação de preguiça ou falta de comprometimento, e sim uma reflexão se Robinho tem mesmo condições de executar a função que se espera dele, principalmente nas questões defensivas. Contra o Botafogo, apesar de ter jogado com mais liberdade e até centralizado em alguns momentos, Robinho em uma ou outra ocasião, precisou fazer a recomposição pelo lado esquerdo,para ajudar a fechar a segunda linha de 4. No lance do gol, por exemplo, mesmo que a sua volta não tenha sido decisiva para o tento botafoguense, é fácil perceber como o lateral escapa sem marcação. Se a bola passa pela primeira trave, deixaria Fábio Santos no 2 contra 1 no lado oposto (veja a imagem abaixo).

Robinho (no canto inferior esquerdo) vê Bruno Silva e Emerson chegando para atacar a segunda trave contra Fábio Santos
Robinho (no canto inferior esquerdo) vê Bruno Silva e Emerson chegando para atacar a segunda trave contra Fábio Santos DataESPN

Roger Machado foi o primeiro a tentar fazer com que o camisa 7 fizesse esse papel. Entendia que ter Juan Cazares, mais avançado na fase defensiva, o traria um escape mais rápido e dinâmico para acionar Fred ou outro jogador que se projetasse no espaço durante as transições ofensivas. Com o ex-treinador, Robinho alternou boas e más partidas dentro dessa função. Quando foi preservado de um jogo ou outro e retornava, demonstrava maior capacidade para fazer esse trabalho área a área (olhe a análise abaixo). Quando emplacava uma sequência de partidas, cumprir tal tarefa ficava ainda mais complicado. 

DataESPN: Robinho descansado contra Robinho desgastado pela maratona de jogos; Calçade explica

Tentar manter Robinho, Cazares e Fred juntos em campo é algo que qualquer treinador tentaria de todas as maneiras (contra o Bota não teve Fred). Mas também é preciso entender o que cada um pode entregar. E é aí que vejo um dos grandes erros de Roger. O camisa 7 não é e nunca foi um atleta com tais aptidões. Inclusive, uma grande falha em sua formação e também certo desinteresse de sua parte em não querer se transformar em um jogador ainda mais completo neste sentido. Sobra qualidade, mas falta competitividade nas questões defensivas. Mas é fato que não será aos 33 anos que isso vai acontecer. Mesmo o condicionando para isso. 

Mas em outros casos falta atitude. Robinho não perde e nem joga mal sozinho. Como ele mesmo disse, o coletivo demonstra falhas e ajuda no seu mau desempenho, inclusive técnico. Juan Cazares é um exemplo importante dentro de todo esse contexto. Mais jovem e mais leve. Porém seu trabalho sem a bola é quase nulo. O equatoriano é de um refinamento técnico acima da média. Relação com a bola, primeiro toque, velocidade de execução, passe... Mas jamais atingirá um nível alto como atleta de futebol profissional se não entender a necessidade de ser mais intenso e participativo sem a bola. Para isso é necessário todo um processo de convencimento e aprendizagem por parte dele, um jogador com extremo potencial. Seus comportamentos, querendo ou não, também interferem no desempenho geral.

E o aspecto coletivo se torna ainda mais gritante quando olhamos uma das grandes deficiências do Atlético-MG em 2017: a transição defensiva. Foram vários os momentos na última quarta-feira que o time carioca acelerava as jogadas e vários atleticanos simplesmente largavam o retorno. Elias, Yago e até mesmo Luan, que ainda não conseguiu uma sequência no ano por conta das lesões, mas que sempre foi tido como um jogador de grande aplicação tática, deixavam a transição defensiva no meio. Em vários momentos é possível ver o adversário chegar com igualdade numérica e vários espaços dentro da área.

Perceba como em momento nenhum aprofundo alguma situação ligada ao novo treinador. Seria até leviano colocá-lo dentro de toda essa reflexão. Mas também é certo que Micale tem ideias de jogo também complexas e que vão necessitar de um tempo para serem assimiladas. 


A gestão pesando para baixo

Ao escolher Roger Machado para este ano, a diretoria do Atlético-MG optou por um novo caminho no seu jogar. Não tenho certeza que foi um caminho tomado com total consciência, mas encaremos como uma decisão pensada toda pelo aspecto técnico. Seu parecer era da necessidade de se romper ideias que caminhavam com o clube nos últimos anos, mesmo que elas tenham rendido alguns bons frutos. Até aí tudo bem. 

Mas quando você quebra esse plano mais uma vez no meio de todo percurso, isso lhe traz consequências. A questão não é discutir se foi uma decisão correta ou não. Mas medir as reações dela. Ainda mais quando falamos de vésperas de decisão na Copa do Brasil e algumas semanas para jogar seu futuro na Libertadores. Mas eu não faria. Ao meu ver, a troca de comando deve acontecer em último caso. Começar tudo do zero é sempre um caminho mais penoso.

Claro que o novo treinador tem condições de desenvolver um bom trabalho até dia 9 de agosto. Mas seria surpreendente e fora da curva enxergar um Galo pronto, num nível alto de organização e competitividade para o duelo de volta contra o Jorge Wilstermann. Ainda mais se levarmos em conta que até lá a realidade será quarta e domingo sem parar, sem tempo para desenvolver um maior período de treinamentos. Mais uma vez, é o ônus de uma decisão que veio de cima e que pode, inclusive, queimar o novo comandante, caso os resultados não apareçam de imediato. E a bola de neve só cresce.

O elenco, apesar de apontado como um dos melhores do país, tem um certo desequilíbrio em sua montagem. Laterais reservas que, dentro de um contexto desorganizado, não conseguem convencer. Apenas Luan, que sofre com falta de sequência por conta de lesões, como opção de velocidade pelos lados. Sem falar nos volantes Adilson e Roger Bernardo, que chegaram no meio da temporada e tiveram que se adaptar ao sistema, à cidade e ao novo clube com a pressão de resolver os problemas do setor. Tudo uma questão de planejamento, de percepção do tamanho do ano que viria pela frente e das dificuldades que apareceriam pelo caminho.

Assim como qualquer crise no futebol, o Atlético-MG não faz um bom ano por diversos aspectos unidos. Nunca é somente um problema que pesa para baixo a enorme balança do futebol. O jeito é ver o que compensa e o que não compensa daqui para frente. As boas e más decisões já foram tomadas. Só cabe ao Galo conviver com elas de forma mais inteligente.

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