Entrevista do mês: Roger Machado fala sobre Atlético-MG, Grêmio e em explorar essência do futebol brasileiro: 'Todos beberam da nossa água'

Renato Rodrigues
Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Bruno Cantini/Clube Atlético Mineiro
Roger Machado Treino Atletico-MG 28/02/2017
Roger Machado ao lado de seu auxiliar Roberto Ribas, durante treinamento na Cidade do Galo

No dia 26 de maio de 2015 Roger Machado recebia sua primeira oportunidade como treinador de uma equipe da elite do futebol brasileiro. Assumia o comando do Grêmio após passagens por Juventude e Novo Hamburgo. Antes havia sido auxiliar do próprio Tricolor, clube que carregava grande identficação ainda dos tempos de jogador.

Foram quase dois anos de lá para cá. Erros, acertos, aprendizagem e muita busca por evolução... Após grandes desempenhos que fizeram do Grêmio uma das mais fortes do Brasil em 2015, acabou deixando Porto Alegre após uma queda de rendimento em 2016.

Veio então um breve período sabático, usado para descansar e, principalmente, se atualizar. Roger Machado, após muita especulação de interesses de vários clubes, escolheu seu próximo destino: o Atlético-MG. Nessa longa entrevista exclusiva para o blog, o treinador abriu o jogo sobre como trabalha e pensa o futebol. Falou sobre o atual estágio do trabalho no Galo e o que vislumbra para sua  equipe nesta temporada.

O gaúcho ainda nos trouxe muitas reflexões importantes sobre o futebol. Falou em buscar referências no futebol das décadas de 70 e 80, de priorizar a essência do futebol brasileiro, sobre o que priorizou em seu período sabático...

Os problemas nas bolas paradas defensivas no Grêmio também foi assunto. Outra situação muito bem pontuada foi sobre o momento do futebol brasileiro, do interesse maior "em pensar melhor o jogo" e, principalmente, formar jogadores cada vez mais inteligentes dentro do país. Confira:

 

Em que estágio vê o trabalho no Atlético-MG e o que você tem cobrado mais dos atletas neste início de ano?

Bom, a gente se propôs, desde o primeiro momento que chegamos aqui, a transformar a equipe do Atlético-MG que no ano passado foi extremamente ofensiva, com um ataque que marcou muitos gols durante a temporada passada. Por outro lado, também sofreu muitos gols. A proposta inicial foi encontrar esse equilíbrio necessário. Manter a produção ofensiva, mas criando alguns mecanismos para que gente chegasse nesse equilíbrio maior entre as ações com e sem a bola. É difícil você construir um time que tenha o melhor ataque mas que a defesa não esteja pelo menos entre as três melhores do campeonato. É difícil você construir uma equipe que postule ao título sem ter esses dois lados forte, que é o que aconteceu em 2016. O Palmeiras que foi campeão tinha números e variações muito parecidas neste sentido. Na parte defensiva, se não foi o primeiro, acho que esteve perto. Então partimos em direção disso, tentando atacar por dois lados: o primeiro, quando você está em processo de organização ofensiva, já que atacamos com bastante gente, tão logo a gente reaja rápido à perda da bola e caso não retome essa posse perto do gol do adversário, consiga fazer com que ele tome uma decisão inicial para que não ataque profundidade explorando o contra-ataque. Isso no momento ofensivo. Agora, quando você está em organização defensiva, a ideia é conseguir ter pelo menos oito jogadores atrás da linha da bola o quanto antes. Direcionar o adversário para o lado que você quer e pressionar a linha lateral usando um jogador a mais e, assim que acontece a retomada, fazer a transição ofensiva. Antes disso ainda conseguir, na transição ataque/defesa, fazer bons retornos, com um número bom atrás da linha da bola para montar o bloco defensivo. Isso acaba minimizando os efeitos de um time muito ofensivo em sua essência. Também para que não percamos essas capacidades de atacar e buscar o gol com muita frequência.

Sua ideia de modelo de jogo exige uma transformação muito grande tanto nos comportamentos individuais como coletivos do elenco atleticano. Quais são essas dificuldades neste pouco tempo de trabalho? Aonde acha que a equipe ainda precisa encaixar? Onde se surpreendeu positivamente?

Sua pergunta já traz um pouco da resposta. Realmente, gerar comportamentos demanda um pouco de tempo e continuidade das atividades, do dia a dia com os atletas... O nosso campeonato regional, felizmente, é bem organizado. E a fórmula da Libertadores, agora mais diluída, permitiu e tem permitido que nós tenhamos semanas abertas de trabalho. Com isso você começa a bater em cima de alguns princípios para gerar estes comportamentos. Questões como pressão na bola, de encurtamento na bola, de ocupação de espaço, seja para marcar ou mesmo para jogar. Tem também o comportamento de você tentar gerar superioridade numérica no setor onde a bola está. Isso te ajuda no momento ofensivo, mas consequentemente, se você está perto para jogar, você também está perto para recuperar a posse caso a perca. Defensivamente você começa a criar os comportamentos para linhas de cobertura, no processo de marcar o seu gol. É importante ter esse mecanismo em caso de falhas, em ter essa cobertura bem feita. Isso tudo demanda tempo. O bom de tudo isso é que muitos jogadores aqui são experientes, já viveram isso em outros momentos. É o caso do Robinho, do Fred... Jogadores que trazem até uma vivência de fora do Brasil. Acabam por entender muito rápido essas ideias e ajudam no processo de entendimento de passar isso para os mais jovens ou que não tiveram essa experiência durante a carreira. Vejo muitas coisas positivas. Nada que foi passado até aqui os atletas estão deixando de fazer. Agora que as coisas já foram mostradas e treinadas é preciso repeti-las e aumentar a regularidade disso dentro do campo.

Desde o Grêmio vemos que você tem algumas ideias nítidas dentro de seu modelo de jogo. Sabemos que você assiste muito futebol, busca se atualizar e estudar. Quais são suas referências? Da onde vem suas inspirações para todo esse processo?

Pois é. Por incrível que pareça eu não tenho uma referência forte com um treinador em si. Nem estrangeiro. Na verdade eu gostaria de ter mais com treinadores brasileiros. Talvez o grande pecado é que os nossos grandes treinadores que construíram a história do futebol brasileiro, caso do Telê Santana, Ênio Andrade e tantos outros que contribuíram para o crescimento do futebol. A verdade é que tem pouca coisa escrita sobre modelos táticos. Temos uma literatura mais voltada para grandes conquistas e grandes equipes. Sempre que encontro alguém de mais idade e que viveu no período desses caras e que teve contato com eles. Sempre busco saber como eles pensavam o futebol para ver se posso assimilar alguma coisa. Mas de toda forma, se tu quer entender bem o processo defensivo, por exemplo, tem que procurar, inevitavelmente, a escola italiana. Fazem e desenvolvem isso como ninguém. Se a gente quiser o jogo ofensivo, de vitória pessoal, a gente tem que buscar isso no nosso jogo. A gente, historicamente, levou para o mundo essa forma de jogar. A Espanha, que também tem um jogo bastante ofensivo, dá para dar uma olhada. A Alemanha com um jogo forte de transição, de marcar alto... Então, mais que os treinadores, as culturas, sobretudo, acaba te ajudando. Eu quero na verdade ter um novo olhar sobre o nosso jogo. Da nossa cultura, do futebol brasileiro... Afinal de contas, todo mundo bebeu da nossa água. Nós vemos na raiz, na essência de várias culturas, um pouco do nosso jogo. Por isso eu gosto muito de ver grandes times da década de 70, 80... Procurar entender alguma coisa daquele jogo e atribuir os conceitos mais contemporâneos, na forma de jogar atualmente, com um futebol mais intenso, mais rápido. Mas tentar extrair do nosso jogo as qualidades para construir as equipes. E como treinador, por mais que eu tenha conseguido montar time no trabalho anterior com características peculiares, eu tenho que perceber o material humano que está nas minhas mãos e tenho que me adaptar muito ao que estes jogadores vão me oferecer em campo. Preciso descobrir que tipo de jogo eu posso praticar com os atletas que tenho em mãos.

Jogo apoiado, aproximação, passes curtos e rápidos, abertura de linhas de passe... Talvez esta tenha sido a grande característica do seu Grêmio e que aos poucos o Galo vai tentando colocar em prática. Qual a importância disso na sua forma de pensar futebol? É algo muito treinador? Como você tem cobrado e estimulado isso com este grupo novo de atletas?

Sim. Se eu quero que essas ideais sejam transferidas para o jogo, eu preciso, antes de tudo, treiná-las. E faço isso quase que diariamente. Dois fundamentos básicos do futebol são o passe e o domínio, o controle da bola. Quando tem isso, já tem parte do jogo dominado. Então eu trabalho o passe dentro de uma estrutura de apoio, de jogo apoiado. Por que o jogo apoiado é a minha concepção de jogo? Porque existem duas formas de se levar vantagem sobre o adversário: pela superioridade numérica no setor da bola ou com habilidade. Eu desejo que, em uma fase de construção, eu ganhe campo e ultrapasse os obstáculos que o meu oponente vai me oferecer pela aproximação e essa superioridade no setor. A medida que eu consigo transferir isso para um jogador que tem como virtude a vitória pessoal no 1x1, vou brigar por essa habilidade na hora e no lugar certo. Então a gente trabalha muito passe e apoio. Não a posse pela posse. A posse como meio para você desestruturar o adversário e atacar profundidade. Quando você consegue jogar apoiado, sempre com boas linhas de passe, principalmente com diagonais muito próximas ao portador da bola, você consegue progredir no campo e atacar a área com um número maior de jogadores. Você pode optar por uma profundidade mais direta, com jogadas de um tempo só. Nesse caso você terá uma velocidade maior, mas talvez sem um número relevante de jogadores à frente da linha da bola.

Superioridade na esquerda e movimentação de Luan

Muitas equipes brasileiras mostram alguma dificuldade na iniciação das jogadas e o Atlético-MG chegou a ter problemas neste sentido em alguns momentos da temporada. Por outro lado, nos grandes centros, os zagueiros estão virando até peça chave nessa construção ofensiva, com passes mais agudos e que quebram linhas. O quanto você acha importante estimular os zagueiros a dar esse tipo de passe mais vertical?

Hoje o goleiro no futebol mundial já é uma peça importante no início da construção ofensiva. No Brasil ainda não temos esse hábito. E em alguns momentos, quando você pega um campeonato estadual, por exemplo, que a qualidade dos gramados não é tão boa, por vezes você não consegue usar a figura do goleiro. Agora os zagueiros já não participam apenas do momento defensivo da partida. A medida que você precisa colocar mais gente atrás da primeira linha do adversário, muito em função do encurtamento do campo, de um bloco mais baixo, esses jogadores acabam participando do processo de iniciação, principalmente no terço central do campo. Porém, em alguns momentos, algumas situações fazem com que os zagueiros tenham que abrir lateralmente muito para dar uma opção de passe, com uma linha de três para gerar desequilíbrio no adversário. Mas tem também o processo de transição defensiva, que eles estariam longe do centro da ação e podendo ter um pouco mais de dificuldade em intervir de forma precisa no jogo defensivo. Talvez usar isso com um pouco de cuidado, muitas vezes dou uma preferência de formar uma linha com três com um volante ou até mesmo rodando o time e fazendo uma saída com três usando um lateral. Isso para que os zagueiros fiquem onde eles podem ser mais úteis na sua principal característica, que surgem no momento de guardar o gol e defender bem a nossa meta.

Antes de assumir o Atlético-MG você ficou um tempo parado. Que tipo de experiência você buscou nesse período? Vemos que o Tite, por exemplo, buscou muitas referências na construção ofensiva enquanto esteve parado. Quais necessidades você via como melhoria para sua carreira? Tentou absorver mais coisas que o te fizessem dar um passo adiante na carreira?

De um modo geral a gente busca observar um pouco de cada coisa. Sempre existe espaço para você observar, mesmo que você entenda que dentro do princípio do seu jogo você consiga construir bem, sempre tem espaço para evoluir. Seja no que for. No ano passado, em alguns momentos, ainda no Grêmio, a gente sofreu com as bolas paradas defensivas e isso me fez refletir, busca algumas questões relacionadas a isso. Observar as variações no processo, as diferentes culturas, ver as respostas em cada forma de marcar, seja por zona, mista, zona com bloqueio... Para agregar um pouco mais mesmo. E também dentro do processo ofensivo, a forma como você chega ao gol, como constrói esse momento. Com quantos jogadores as equipes estão atacando a profundidade, como faz esse desequilíbrio no adversário, quanto de posse para isso, a busca por um momento adequado para fazer esse ataque... Isso tudo você vê em culturas diferentes e às vezes vê que ter a bola não significa que você tem o controle do jogo. Que por vezes você pode oferecer a bola para o adversário e controlá-lo também, porque você está controlando os espaços. Essas coisas eu busquei bastante.

DataESPN analisa marcação aérea por zona do Grêmio e deficiência na bola parada

Hoje, depois de ter visto outras maneiras de marcar, outros processos, você consegue identificar melhor o por quê teve tanto problema com bola parada defensiva no Grêmio? Você chegou a trocar as maneiras de marcar esse tipo de situação, tentou mudar, ajustar... Já era algo detectado naquela época?

Na verdade, a média de gols de bola parada que a gente sofreu no ano passado, não foi maior que a média mundial deste tipo de gol. A questão é que alguns jogos importantes foram decididos nessa bola parada. Por conta disso, chamava mais a atenção. Se a gente pegar o último mundial, 40% dos gols foram feitos de bola parada. Seja de forma direta, com cruzamentos e cabeceios, por exemplo, ou em um segundo lance após ganhar segunda bola, que acabavam se transformando em gol. Ainda com as equipes em organização de bola parada. Então mais que a questão da forma de marcar, seja individual, mista ou por zona, talvez seja muito mais a questão do hábito diário, do número de sessões de treino que tu disponibiliza para este tipo de ação. Se a gente entender que de 30 a 40% dos gols acontecem assim, pelo menos 30% das minhas sessões de treinamento eu devo direcionar para trabalhar essas variáveis. Acho que é muito de identificar o perfil dos jogadores. Por vezes um atleta pode não ser bom no enfrentamento individual, no corpo a corpo, mas ataca bem a bola em um ponto mais alto. Detectar essas características e tomar a decisão em qual tipo de marcação você pode investir. Às vezes você não tem um time muito alto, mas com jogadores de imposição física, você acaba fazendo uma mista com bloqueio... Eu vi muito e de várias formas isso. Li muitos artigos falando das diferenças desse tipo de marcação, qual a incidência e o percentual de acerto dessas variáveis. Esse ano no Atlético-MG foram dois gols assim e estamos abaixo da média. E eu tenho feito o mesmo tipo de marcação, que é a zona com bloqueio. Isso para que os caras que podem embalar e na velocidade lançada acavalar na minha linha, não consigam ter vantagem contra meus jogadores de zona, que vão atacar o ponto mais alto.

Em seu trabalho no Grêmio, durante momento defensivo, você usou muito o conceito de marcação zonal. Já o Atlético-MG, nos últimos anos, sempre usou um sistema de encaixes individuais, com perseguições longas e desgarres da linha defensiva. O futebol vem mudando bastante nos últimos anos, antes com essa individual forte, depois bem zona, agora um pouco de cada uma... Como você vê toda essa mudança constante no futebol?

Bom, eu costumo caracterizar como marcação de encaixe com perseguição curta, média ou longa. Uma marcação zona, mas com encaixe por setor, se desfazer muito das linhas porque quanto mais eu conseguir que minha equipe se mantenha organizada para tomar a posse do adversário, mas os jogadores estarão nas suas posições para iniciar o processo ofensivo. Hoje todos jogadores conseguem visualizar isso. Os jovens já sobem da base com esse conceito de marcação por zona. Os mais velhos com uma experiência no exterior também já viveram muito disso. O que eu vejo nessa questão é que a zona te dá muita capacidade de tu fazer uma leitura do espaço, jogar em aproximação, atacar as profundidades e ocupação dos espaços. Já a marcação encaixada te permite muitos duelos individuais, e aí a capacidade de vitória pessoal tanto ofensiva quanto defensiva diz muita coisa. Mas para mim não existe um certo e um errado. A por zona te dá algumas coisas e tira outras, assim como na individual. Agora, se você acredita mais em uma do que na outra, trabalhando muito bem e fazendo com que os jogadores tenham o entendimento necessário, das duas formas podem acontecer. Eu vejo o futebol como algo muito cíclico. Acredito que a marcação de forma mais zonal tenha vinda de outros esportes para sobrepor a capacidade individual do nosso jogador, que tem muito da vitória pessoal. A partir do momento que você faz por zona, com boas coberturas de suporte, fica mais difícil para que ele execute e vença nesse 1x1 contra uma sombra mais dobrada. É acreditar e trabalhar. Não tenho preconceito com nenhuma ideia, mas tenho por preferência uma marcação mais zonal, com pressão ao portador da bola, cuidando bem dos espaços, induzindo o adversário para alguma faixa determinada do campo e roubando a bola de forma mais organizada.

No futebol sabemos o quanto é necessário circular a bola com velocidade para desequilibrar seu oponente e achar espaços para serem atacados. Essa melhora na velocidade de execução de seus atletas é algo que você continua buscando? Mantém um sistema de métrica e metas para os jogadores atingirem neste sentido?

Sim. A gente tem essas métricas e temos alguns parâmetros para alcançar. Na verdade a troca de passes precisa ter alternância de distância, de velocidade e de direção. Na medida que eu não mude a velocidade do passe, seja ele mais rápido ou mais lento, o adversário consegue identificar e passa a se comportar da mesma forma. Se for na mesma direção, acontece a mesma coisa. Então é preciso ter essa alternância nestes três quesitos que me referi. Isso para que você consiga fazer com que o adversário fique focado no objeto central do jogo, que é a bola, e perca a noção do entorno, onde você pode se aproveitar dos espaços que vão aparecendo. Pode ser atacando entrelinha, seja em profundidade... A gente tem feito muito esse trabalho aqui no Atlético. Algumas coisas bem definidas, como o pós-perda, a velocidade dessa troca de passes, o tempo dessa retomada da posse... Quatro ou cinco variáveis, seja ofensivas ou defensivas, a gente tem mapeado e acompanhado a evolução disso nos jogos e treinamentos.

Muito em cima dessa última resposta, o quão necessário você vê que no Brasil a gente passe a trabalhar cada vez mais a questão cognitiva dos atletas? Qual a importância de formarmos jogadores mais inteligentes?

A verdade é que braços e pernas são apenas ferramentas. O jogo em si é cognitivo de um modo geral. Aliás, muito cognitivo. O jogador de futebol toma, em 90 minutos, 40% a mais de decisões que uma pessoa comum em um dia inteiro. Então é um esporte altamente cognitivo. Uns usam mais suas virtudes físicas, outros essa capacidade cognitiva para decidir as ações do jogo. Então, você produzir problemas através do treinamento para que o atleta solucione, e que estes problemas sejam condizentes com os que acontecem dentro de uma partida, para mim é você instrumentalizar para que ele possa tomar as melhores decisões. O talento do brasileiro, do nosso jogador, que improvisa, que por vezes faz um jogo mais plástico, vai ser sempre decisivo. Mas, na medida que esse jogo se transfere para todas as áreas do campo, e cada vez mais com a velocidade muito maior, tomar decisões mais rápidas vai tornar aquele que conseguir executar bem muito mais valioso para o esporte. E a gente tem que tomar cuidado para não perder a característica do nosso jogador, que é habilidoso, faz um jogo muitas vezes mais intuitivo, que é muito importante. Porque é dado ao atleta um problema dentro do campo, ele tem três ou quatro resoluções, mas é através dessa capacidade que ele vai achar uma saída que não foi treinada e quem ninguém imaginava que poderia acontecer. Então é criar problemas no treinamento e estimulá-los a resolver em campo da melhor forma.

O que faz de Fred tão especial? DataESPN um pouco disso e a inteligência de jogo do centroavante


Como vê o atual momento do futebol brasileiro? Acha que é um período de ruptura e quebras de paradigma em várias áreas que envolvem o esporte?

É preciso entender o futebol como um fenômeno. Desde muito tempo é analisado e estudado os eventos do jogo, só que agora de uma forma mais profunda e com um conhecimento maior. Isso por ter surgido também novas ferramentas para te trazer um pouco melhor o que acontece dentro de uma partida. Hoje se tem muito conteúdo sendo produzido. É só olhar para as estatísticas, as métricas... Vejo isso com bastante otimismo, mas também com um pouco de cuidado porque quantitativamente a gente tem muitos dados, mas é preciso também olhar e analisar de forma qualitativa. Algumas coisas que não aparecem na estatística, você precisa observar de forma mais qualitativa estes dados. Temos elementos táticos envolvidos. Tem o adversário que impõem uma dificuldade, por exemplo. Muitas vezes o número puro não te traduz o que acontece dentro do jogo. São muitas variáveis envolvidas. Mas é bacana perceber que há um interesse muito maior, que existe um envolvimento dos clubes cada vez maior desenvolvendo departamentos, que os profissionais do campo estão usando, a tecnologia sendo desenvolvida... Aí você também vê o interesse em entender a importância não só de quem fez o gol. Pessoas querendo entender um pouco desse nosso esporte que é tão rico.

Vemos cada vez mais equipes que não têm grande tradição e poderio financeiro complicando as coisas para clubes maiores. A Libertadores mesmo é um grande exemplo para vocês do Atlético-MG. Como enxerga este tipo de situação? É difícil lidar com a cultura do brasileiro que acha uma "obrigação" golear essas equipes menores?

Você pode, muitas vezes, não ter jogadores brilhantes individualmente, mas construir grandes equipes coletivamente. O talento vai sempre decidir, porém, se você não tem isso individualmente, você pode criar grandes dificuldades no aspecto coletivo. E hoje você tem todos esses países que não tinham uma cultura muito forte dentro de uma competição com a Libertadores muito mais evoluídos. Não ter a tradição de não disputar a competição não quer dizer muito. Se você chegou à competição é porque no anterior você se capacitou e se credenciou a disputar uma competição desse tamanho. Com isso tem se mesclado cada vez mais grandes clubes com outros de pouca tradição, mas que fizeram grandes temporadas em seus respectivos países. É um pouco de arrogância da nossa parte imaginar que, por produzirmos grandes jogadores e historicamente ter tradição na Libertadores, não vamos enfrentar dificuldades. É um campeonato muito duro, que se decide rapidamente em 14 rodadas. E às vezes, em um momento bom que a equipe está pode fazer toda diferença na hora de avançar e buscar um título.

Qual liga no mundo você gosta mais de ver? Existe um campeonato que te atrai mais? Por que?

Eu gosto de ver vários níveis e várias escolas. Em alguns momentos você vê em campeonatos com menos tradição treinadores mais jovens, mais atualizados, e que estão pensando algumas coisas diferentes. Caras que podem fazer história no futuro. Gosto de ver de tudo, não tenho uma grande preferência ou um mercado em si. Até porque você olha um Campeonato Espanhol, por exemplo, onde a questão financeira acaba determinando, você pode não encontrar um tipo de organização que demonstre uma forma diferente de se jogar. Os jogos acabam sendo muito decididos com talento individual, nos grandes nomes que estes times têm em seu elenco. Vejo todos e também gosto de ver outros esportes. Assisto muito o rúgbi, porque vejo um jogo coletivo muito forte, situações muito próximas com as que acontecem no futebol. Gosto muito de ver o basquete, o handebol também, pelo fato de o princípio do jogo ser muito parecido. Assisto um pouco do futebol americano também. Por ter o processo ofensivo e o defensivo bem diferente, separados por duas equipes e você consegue enxergar bem algumas coisas nestes momentos do jogo. Resumindo, vejo de tudo.

O que é jogar bem para você?

Pois é, cara. O que é jogar bem? Vamos lá. O princípio do jogo de futebol é você fazer gols e não tomá-los. O jogo tem fases e momentos, organização ofensiva, defensiva, transições e as bolas paradas. Você pode muito bem acreditar nisso e fazer um jogo que priorize totalmente o momento da bola parada. De usar bem os tiros de meta, os laterais mais longos, escanteios, faltas laterais... Você pode acreditar em ter a bola e tentar dominar o jogo e o adversário com 80% de posse. Por outro lado você pode abrir mão da bola, ter 40% de posse, apostar nas transições defesa/ataque e chegar no gol do seu oponente em menos de 10 segundos. Às vezes até com pouquíssimos toques na bola. Nós como treinadores precisamos estar sempre muito aberto e prestando bastante a atenção no que você tem de material humano. Jogar bem é vencer e vencer significa fazer gols e não tomar gols. Agora, a forma que você faz, plasticamente pode ser mais bonita, jogando com a bola no chão e envolvendo o adversário. Por outro lado você pode usar a característica de um jogador de área, por exemplo. Eu joguei em um time na década de 90 (Grêmio) que tinha o Jardel de centroavante. Ele pedia para gente não tocar a bola no pé dele, que não era para tentar uma tabela. Ele queria bola no alto, bola para disputar de cabeça. Era chegar no lado do campo e alçar bem essa bola para área. Ele pedia para chutar na cabeça dele. A gente fazia e lá dentro ele acabava resolvendo. Então o jogar bem é relativo. O esporte é um espetáculo. Para mim, prestigia o espetáculo é ter o maior tempo possível de bola rolando. E você pode fazer isso de várias formas. Pode ser com a bola, sem a bola, transição... Acho que o que está na regra do jogo a gente deve usar. Existem várias maneiras de se ganhar e várias de se jogar bem. Você pode ter uma bola e ser eficiente. Pode criar dez chances e não conseguir marcar, passando a ser considerado um ataque pouco eficiente por você ter concluído mal perto das chances que você criou. Então depende, depende muito...

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Análise técnica: conheça os reforços "desconhecidos" que chegam ao Brasileirão no pós-Copa

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN

A parada para a Copa do Mundo não serviu apenas para treinamentos e ajustes nas equipes que voltam a disputar o Brasileirão a partir do dia 18 deste mês. Entre uma folga inicial e uma mini pré-temporada, muitos elencos foram modificados. Se por um lado alguns nomes importantes como Vinicius Junior e Arthur rumaram à Europa, por outro, chegaram alguns reforços para a sequência da temporada.

Muitas destas contratações, aliás, um pouco desconhecidas do torcedor brasileiro. Chegaram nomes repatriados da Europa, artilheiro no México e até apostas do mercado sul-americano. Abaixo preparei uma breve análise de alguns destes nomes. Nem todos são gringos, mas tentei ir dentro das características e o que cada um pode oferecer para cada clube. Pontos fortes e fracos, posições preferidas, onde evoluir... 

É sempre importante olhar para os contextos antes de analisar individualmente qualquer jogador. Portanto, antes de qualquer verdade absoluta, precisamos sempre levar em conta onde estava e onde chega cada atleta. O modelo, o ambiente, a cultura do clube, a adaptação... Tudo isso é muito importante para dar ou não certo dentro de uma variável muito grande que é o futebol.

Peço perdão se esqueci de algum nome e aceito sugestões para um segundo post com mais perfis - lembrando que os dois estrangeiros que chegaram no Atlético-MG eu já dissequei aqui neste post.


INTERNACIONAL

Martin Sarrafiore – Meia-atacante – 1,80m  20 anos – canhoto – argentino

Martin Sarrafiore já foi apresentado pelo Internacional
Martin Sarrafiore já foi apresentado pelo Internacional Twitter: @SCInternacional


Fez uma grande Copa Ipiranga RS na temporada passada, sendo um dos melhores jogadores da competição sub-20 pelo Huracan-ARG. 

Sarrafiore é um camisa 10 com grandes atributos de atacante. Uma mescla dos dois, mas com maior essência organizadora. Vai muito bem dentro da área.

Sua posição preferida é atrás do centroavante (pode ser num 4-2-3-1, por exemplo) ou mesmo como um segundo atacante (4-4-2). Não chega a ser aqueles enganches argentinos típicos, que são mais baixos, leves e motorzinhos. É um cara de maior estatura, trabalha mais com a força física no setor. Suporta bem os contatos, algo importante para uma região do campo sempre com muita pressão na bola e encontrões.

Jogador com boa capacidade de criação e finalização. Mostra um bom primeiro toque na bola e tem um bom repertório técnico. Tem qualidade no passe final, com capacidade de achar companheiros em profundidade.

Sem bola ajuda. Dentro do contexto da sua ex-equipe, que tinha como modelo pressionar a saída dos adversários, fazia bem esse papel de puxar as pressões. Pode ser melhor estimulado na reação à perda da posse. Ainda pode crescer neste sentido. É algo para ser trabalhado na sua passagem pelo Internacional.

Não é um jogador rápido e está longe de ser um cara com boas trocas de direção, de ter grande mobilidade.  Talvez aí seja o seu ponto mais baixo.

Tem a questão não só de adaptação a um novo país, mas também ao âmbito profissional. Martin ainda não teve experiência neste sentido ainda. Atuou apenas no time sub-20. Mas é um cara que tem potencial. Um perfil que tem qualidades e características ainda a serem potencializadas. Vejo como uma aposta, mas bem interessante.

 

SÃO PAULO

Joao Rojas – ponta (direita/esquerda) – 1,72m 29 anos – destro – equatoriano

Joao Rojas em entrevista ao canal oficial do São Paulo no YouTube
Joao Rojas em entrevista ao canal oficial do São Paulo no YouTube YouTube: São Paulo FC


Já tem uma certa rodagem no futebol, inclusive com experiência em Copa do Mundo. Esteve entre os convocados do Equador no Mundial de 2014. O ponto alto de sua carreira foi durante a passagem pelo México. Lá marcou 44 gols e ajudou Monarcas e Cruz Azul com 37 assistências.

É um ponta mais característico. Jogador de velocidade e que busca muito o 1x1. Bem agudo e vertical, é mais criador que finalizador. Atleta leve, com boa troca de direção e projeção nos espaços. Pode atuar pelos dois lados do campo. Pelo Talleres-ARG, seu último clube, terminou a temporada mais pela esquerda. Nesta posição, buscava centralizar mais as jogadas, trazendo para o pé bom (direito). Foi possível vê-lo flutuando muito para o centro, tentando o lance pessoal ou passe em profundidade.

Mapa de ações com bola de João Rojas nas suas duas últimas temporadas
Mapa de ações com bola de João Rojas nas suas duas últimas temporadas DataESPN

Neste sentido mostrava algum problema nas tomadas de decisão. Questão de escolher a melhor a jogada. Vai melhor quando prende menos a bola. Tem uma jogada bem característica: de recuar pela ponta na iniciação, escorar e de primeira e atacar as costas do lateral. Vai bem assim. Faz bem as diagonais para dentro e tem certa chegada na área.

Pelo lado direito, como vem treinando no São Paulo, fica um jogador mais de fundo do campo. Vai buscar a finta e o cruzamento, com maior enfoque na preparação das jogadas.

Sem bola é um cara que faz bem o retorno pelo corredor e ajuda o lateral a não ficar no 2 contra 1. A sua reação depois da perda da bola pode ser melhorada. Às vezes demora um pouco, mas é algo que pode ser assimilado e concertado. Não tem uma relação com a bola exuberante, mas vai bem na condução da mesma. Pode ser um bom escape nas transições ofensivas.

Pelos moldes do negócio – pelo que parece veio à custo zero -, Rojas é uma boa aposta e pode ser uma peça importante na composição do elenco, que teve as perdas de Marcos Guilherme e Valdivia. É um cara para ajudar, mas não creio que seja para resolver. Tem sua utilidade e pode se beneficiar do modelo de jogo atual do São Paulo, que usa bem a velocidade pelos lados e costuma se dar melhor quando aposta num jogo mais reativo.

 

FLAMENGO

Fernando Uribe – centroavante – 1,82m – 30 anos – canhoto – colombiano

Fernando Uribe treina na academia do Flamengo
Fernando Uribe treina na academia do Flamengo YouTube: FLA TV


Centroavante com características bem diferentes do Henrique Dourado. Dará boa profundidade ao elenco, oferecendo outras alternativas para a posição (não se sabe ainda se o Guerrero continua). 

Foi muito bem nos seus dois últimos clubes: Once Caldas-COL e Toluca-MEX. Marcou 74 gols em 145 partidas.

Muito se fala que sua saída do México se deu por conta do mau relacionamento com o treinador. O negócio parece ainda mais vantajoso pelo fato de o Flamengo o trazer a custo zero, já que o colombiano estava em fim de contrato – claro que existe as luvas, que geralmente causam um gasto maior ao clube. Mas, dependendo do que pensa Barbieri, me parece um cara que chega pronto para jogar. Ainda mais que o atual titular ainda não conseguiu ter um desempenho dos melhores.

Uribe é um centroavante mais móvel. Mais leve. Se mexe muito no campo ofensivo. 

Sai da área para trabalhar no espaço entrelinha, nas costas dos volantes. Procura abrir linhas de passe ali para ajudar na construção. Não é um cara de grande imposição física, por isso não retém muito a bola de costas, como um pivô. Prefere executar rápido, de primeira ou com dois toques. Geralmente aparece, escora a bola e já ataca espaços na área.

Mapa de ações com bola de Uribe nas suas duas últimas temporadas
Mapa de ações com bola de Uribe nas suas duas últimas temporadas DataESPN

Longe de ser o típico 9 grandalhão e mais pesado, tem uma ótima explosão no arranque para atacar profundidade e antecipar bolas rápidas na área. Essa talvez seja sua grande característica. É um cara muito ligado. É elétrico. Está sempre buscando o melhor posicionamento na área e geralmente chega primeiro que o zagueiro se acionado em velocidade. 

É um cara que busca a infiltração e recebe bem a bola no ponto futuro. Não tem um grande repertório técnico e capacidade de improviso, mas costuma ser simples em suas ações. Não “mata” o jogo da equipe duranta  construção. 

Apesar de não ser dos mais altos e fortes, Uribe tem boa impulsão. Se acionado com bolas mais rápidas, tende a ganhar pelo alto dos defensores por sua agilidade. É um cara que depende do tipo de jogada que chega até ele. A equipe precisa entender o tipo de bola que ele costuma levar vantagem, se não tem dificuldades para se impor entre os zagueiros.

Sem bola é um jogador muito proativo. É agressivo, está sempre pressionando e causando dificuldades ao portador da bola. Incomoda bastante, está sempre brigando. Logicamente que um centroavante precisa ter outras qualidades, principalmente fazer gols, mas julgo ser um aspecto importante no seu jogo.

 

PALMEIRAS

Nicolás Freire – zagueiro – 1,86m – 24 anos – canhoto – argentino

Nicolas Freire responde perguntas em apresentação à torcida no canal de YouTube do Palmeiras
Nicolas Freire responde perguntas em apresentação à torcida no canal de YouTube do Palmeiras YouTube: TV Palmeiras/FAM


Chega da Holanda depois de um bom início na Eredivisie. Individualmente foi bem no começo da temporada, mas muito amparado também ao bom momento da sua equipe. O PEC Zwolle costumava até atuar com uma linha defensiva mais alta. Depois o modelo foi perdendo a consistência e seu ex-clube terminou a temporada na nona colocação. Isso impactou muito na confiança do próprio zagueiro. Seu rendimento caiu um pouco nas rodadas finais, assim como todo aspecto coletivo da equipe.

Freire é um zagueiro com uma boa capacidade técnica para a posição. Boa relação com a bola e principalmente com capacidades para iniciar as jogadas. Busca um passe mais vertical e acha companheiros nos espaços ofensivos. É até um pouco acima da média neste sentido para o mercado brasileiro. Tende a ajudar neste aspecto do jogo, principalmente dentro de um modelo que busca mais propor do que reagir.

Tem uma boa leitura das jogadas para cobrir profundidade e encurtar coberturas. É um cara que entende bem o jogo, toma boas decisões e não se precipita toda hora. É agressivo, mas exerce essa qualidade nos momentos certos. 

Por outro lado, não é um defensor muito físico. Inclusive tem alguma dificuldade para se impor em alguns momentos, principalmente nas bolas pelo alto. Busca a antecipação através da leitura. Acabou desenvolvendo isso por não ser um cara tão físico nos duelos. Acaba compensando de alguma maneira. Mas de fato é algo que preocupa pelas características do nosso futebol.

Mapa de ações com bola de Freire nas suas duas últimas temporadas
Mapa de ações com bola de Freire nas suas duas últimas temporadas []

Mostra um bom aspecto de liderança dentro da partida. Na Argentina, pelo Argentinos Juniors, por exemplo, chegou a ser capitão. Era um cara bem comunicativo, que falava muito em campo, buscava organizar o setor.

Pelo molde do negócio – empréstimo de 1 ano com opção de compra -, parece ser mesmo uma aposta. Não o vejo chegando e tomando conta da posição, mas é um cara que pode ajudar na composição do elenco e se desenvolver dentro do próprio Palmeiras. Ainda tem alguns aspectos a melhorar e tem algum potencial para evoluir. Se conseguir desenvolver algumas deficiências, pode se firmar.

 

CORINTHIANS

Danilo Avelar – lateral-esquerdo – 1,85m – 29 anos – canhoto – brasileiro

 Danilo Avelar, jogador do Corinthians, durante sua apresentação no CT Joaquim Grava
Danilo Avelar, jogador do Corinthians, durante sua apresentação no CT Joaquim Grava DJALMA VASSÃO/Gazeta Press


Atleta com longa rodagem pelo futebol europeu. Experiências na Ucrânia, Itália, Alemanha e na França. Estava no Amiens-FRA, com certa consistência de minutos jogados nos últimos anos, principalmente no futebol francês. Tem características importante para dar equilíbrio ao elenco. Tem um perfil bem diferente do Juninho Capixaba, com quem vai brigar por espaço após a Copa do Mundo.

Lateral mais base. Jogador equilibrado, que se destaca mais pelos aspectos defensivos. Costuma trabalhar mais por trás, na base da jogada, organizando e iniciando as construções. Tem uma boa leitura dos espaços, se comporta bem na linha defensiva. Sabe fechar bem ali, algo importante dentro do contexto do Corinthians das últimas temporadas. Esteve em ambientes que o estimularam a isso. Pode até jogar numa linha mais avançada, mas aí gerando mais imposição no meio. Longe de ser ponta de velocidade.

Jogador mais de imposição física, vai bem no contato e tem bom desenvolvimento do seu jogo pelo alto. Inclusive aumenta bem a estatura da linha defensiva, algo importante, até reforçando as bolas paradas defensivas.

Mapa de ações com bola de Avelar nas suas duas últimas temporadas
Mapa de ações com bola de Avelar nas suas duas últimas temporadas DataESPN

Relação com a bola é média. Não é um cara com grande capacidade de desequilíbrio com a posse. Tem um passe seguro, não arrisca muito. Quando avança no campo, vai mais na força. Tem até um bom cruzamento. Costuma achar bem os companheiros neste sentido, sempre com uma uma bola mais rápida. Não é um cara de grande condução da bola, prefere tocar e projetar. Não tem grande capacidade na troca de direção. É mais pesado.

Me parecia mais um jogador para compor o elenco, ainda mais por se tratar de um setor bem carente no Corinthians. Mas agora, com a saída de Sidcley, deve já iniciar sua passagem como titular, já que Juninho Capixaba ainda não conseguiu se firmar. Vem por empréstimo, até dentro da realidade financeira do clube, que não é das melhores. 

 

Jonathas – centroavante – 1,90m – 29 anos – destro – brasileiro

Jonathas de Jesus em foto publicado em seu Instagram
Jonathas de Jesus em foto publicado em seu Instagram Instagram: @jonathasjesus09

Já esteve na mira do Corinthians antes. Em 2015, após marcar 14 gols no Campeonato Espanhol pelo pequeno Elche, chegou a negociar com o clube. Na época, sem contrato, acabou indo para a Real Sociedad, onde não se firmou totalmente. No Rubin Kazan da Rússia, por outro lado, conseguiu maior sequência.

Sua passagem pelo Hannover (seu último clube) foi muito minada por lesões. Fez 12 jogos na Bundesliga, sendo sete como titular e com três gols marcados. A falta de oportunidades acabou abrindo o caminho para voltar ao Brasil.

Revelado pelo Cruzeiro, Jonathas é um centroavante bem característico. Estatura muito boa para a posição. É um cara com ótima imposição física. Vai bem no contato, busca a retenção e proteção da bola quando acionado. Tecnicamente não tem grandes recursos, até por isso, busca escorar as bolas com simplicidade. Não inventa muito e está longe de ser um atleta com grandes qualidades criativas.

É muito mais terminal. Quando constrói, o faz de costas, retendo e achando opções de passe mais próximas. Apesar de ser bem alto, não é um jogador totalmente lento. Tem uma boa força no arranque em distâncias curtas. É um cara para jogar no limite da linha defensiva, para infiltrar e antecipar os zagueiros. Gosta de puxar no primeiro pau na hora de finalizar. 

Mapa de ações com bola de Jonathas nas suas duas últimas temporadas
Mapa de ações com bola de Jonathas nas suas duas últimas temporadas DataESPN

Por outro lado, está bem longe de ser um jogador com bola agilidade. Tem problemas na troca de direção. Também não tem grande característica de 1x1, de ganhar do oponente com o drible. Vai mais na força do que na habilidade.

É um bom alvo nas disputas de primeira bola (tiros de meta, saídas de laterais...). Se impõem em jogadas aéreas, vai bem neste sentido. 

Sem a posse é um jogador agressivo. Reage bem às perdas da posse. Busca pressionar a bola, ajudar na recuperação. No entanto é um pouco afobado neste sentido. Não tem grande cacoete para marcar/desarmar e acaba fazendo muitas faltas.

A grande questão é observar sua readaptação ao futebol brasileiro e, principalmente, como chega fisicamente. Não é um cara com uma carreira muito regular, mas com algumas boas temporadas na Europa. Conseguiu ser influente no jogo de algumas equipes. Em outras, não se firmou.

 

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Análise técnica: conheça os reforços "desconhecidos" que chegam ao Brasileirão no pós-Copa

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Os contextos da Seleção na Copa, o Paulinho, a cabeça e a importante "escapada" da Suécia

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Philippe Coutinho foge da marcação de Matic durante partida entre Brasil e Sérvia
Philippe Coutinho foge da marcação de Matic durante partida entre Brasil e Sérvia André Mourão/MoWA Press

O título acima tem muita informação, confesso. Mas trata-se de uma ordem lógica. E ela tem a ver com maneira que tratarei a classificação da Seleção Brasileira para as oitavas de final da Copa do Mundo. Tentarei fazer uma espécie de balanço, de acertos e erros, escolhas e, principalmente, contextos. Estes sim são muito importantes para se assimilar.

Talvez a grande lição para Tite e seus comandados até aqui tenha a ver com os cenários enfrentados.  E de fato o contexto apresentado pela Sérvia nos privilegiou.  Isso não tem a ver com tirar o mérito, ao contrário, mas como forma de entender nossas virtudes e potencializa-las. 

Nos vimos desconfortáveis em campo contra Suíça e Costa Rica. Cada um destes adversários têm suas particularidades, mas também têm algumas semelhanças importantes para levarmos em conta durante a análise.

Ambos usaram um modelo de jogo com uma linha defensiva um pouco mais baixa. Conforme o tempo passava, o bloco defensivo se enfiava dentro da própria área. Com isso, zero profundidade e espaço nas costas dos zagueiros para atacar. Perceba nas imagens abaixo, como os adversários tiraram "campo para correr" nas costas da defesa (LEIA AS LEGENDAS TAMBÉM). E comece a refletir sobre as características de nossos principais jogadores.

Suíça encaixou melhor a marcação no segundo tempo e, com a linha defensiva mais baixa, colocou dificuldade para o Brasil infiltrar
Suíça encaixou melhor a marcação no segundo tempo e, com a linha defensiva mais baixa, colocou dificuldade para o Brasil infiltrar DataESPN
Já a Costa Rica usava um sistema com três zagueiros e uma linha defensiva com 5, mas, assim como a Suíça, fechava bem os espaços na área
Já a Costa Rica usava um sistema com três zagueiros e uma linha defensiva com 5, mas, assim como a Suíça, fechava bem os espaços na área DataESPN

E ainda tinha um detalhe ainda mais importante, principalmente olhando para o segundo tempo da Suíça: muita pressão na bola.  Este é um dos princípios básicos para não tomar lançamentos nas costas da defesa, principalmente quando se joga com ela mais alta. No gol marcado contra a Sérvia, vemos uma situação diferente das imagens acima. Ninguém encurtando no homem da bola, linha defensiva mais alta e Paulinho se projetando. Observe também o movimento de Gabriel Jesus arrastando os dois zagueiros, abrindo espaço onde o volante artilheiro se projetar (veja na imagem abaixo).

Linha defensiva da Sérvia mais alta, Gabriel atrai os zagueiros e Paulinho se projeta. O contexto diferente
Linha defensiva da Sérvia mais alta, Gabriel atrai os zagueiros e Paulinho se projeta. O contexto diferente DataESPN

Agora voltando às características dos  nossos jogadores, mas sem tirar o olhar para o contexto. Paulinho  e Gabriel Jesus foram criticados pelas suas duas primeiras aparições na Copa. Mas vamos brevemente dissecá-los: em qual principal característica eles se assemelham? São infiltradores, caras que fazem leituras dos espaços para se projetar no ponto futuro. Precisam de profundidade e campo para atacar. Contra linhas defensivas mais baixas, mesmo que a bola entre num lançamento, o goleiro vai antecipar e ficar com a bola. Este tipo de situação, definitivamente, trava o que cada um oferece de melhor.

É aí que entra a importância de chegar, e não em estar. Contra times que usam blocos defensivos mais baixos, ambos ficam "presos" na área e perdem essa essência. A referência deles é o espaço. Observar, detectar e chegar neles. Autor do importante e primeiro gol, Paulinho tem sua melhor versão assim. Por isso, pelo menos para mim, fazia mais sentido ter Firmino e Renato Augusto/Fred nos primeiros confrontos. Jogadores mais associativos, que mostram mais mobilidade e se sentem mais confortáveis em um espaço muito reduzido. 

E é claro que isso não quer dizer que eles não servem. Ao contrário. São super influentes quando enfrentam este ambiente. Quando não, ajudam a dar profundidade, a ganhar duelos físicos e no trabalho sem bola. São agressivos e voluntariosos. Ajudam de outra forma, talvez fora do holofote. Mas é importante enxergar o que cada jogador oferece em determinada circunstância.

Agora chegamos à cabeça. E ela não tem a ver apenas com a Seleção Brasileira. Bolas paradas, sistemas defensivos fortes, VAR... Tudo isso tem sido pontos recorrentes na Copa. Mas não tem como tirar o fator psicológico no Mundial. Vemos na Rússia, além de toda riqueza tática e técnica que as equipes trazem, o mental jogando para cima e para baixo seleções de alto nível. Grandes times, não só pelo histórico, mas na qualidade também, se desmanchando em situações de alta pressão. Argentina e Alemanha são grandes exemplos. O gol não sai, o campo diminui e as ideias pré-estabelecidas vão se deteriorando com o tempo. Ansiedade, decisões precipitadas, escolhas erradas... 


Alemanha, nervosa, sucumbiu perante à Coreia do Sul e deu adeus à Copa do Mundo
Alemanha, nervosa, sucumbiu perante à Coreia do Sul e deu adeus à Copa do Mundo Saeed Khan/AFP/Getty Images

E foi um enredo que vivemos na segunda etapa contra a Suíça e também contra a Costa Rica. Hoje, contra a Sérvia, melhoramos neste sentido. Obviamente que um gol condiciona muita coisa dentro do futebol, mas sim, vi uma equipe mais leve, desfrutando mais do jogo, funcionando de maneira mais natural. Neymar se mostrou mais estável e coletivo. Fazendo as leituras corretas, entendendo a hora de prender e soltar a bola. Aliás, mais solto. Depois de meses parado, os movimentos e gestos técnicos vão voltando ao normal. Algo importantíssimo para a sequência na competição.

A Copa do Mundo de Coutinho até aqui é monstruosa. Adaptado ao jogo por dentro, ajudando na iniciação das jogadas e cobrindo espaços durante as transições. Casemiro, Thiago Silva e Miranda fortes nos duelos pessoais. Antecipando e ganhando bolas para ativar o segundo lance, encurtando e retardando na hora certa. A dupla de zaga tem um desempenho impecável até aqui. Fagner, que seria uma catástrofe para muitos, sendo o que é faz anos. Regular. Nem para cima e nem para baixo. Segurando muito bem o rojão apesar de toda responsabilidade que lhe caiu sobre os ombros.

A preocupação, pelo menos na vitória contra a Sérvia, foi o lado esquerdo. Mladen Krstajic iniciou a partida com Rukavima na lateral-direita. O treinador sérvio tentou gerar jogo por ali com um jogador mais ofensivo. Em alguns momentos, com Neymar não baixando até o final para ajudar Marcelo/Filipe Luis, algumas situações foram criadas. As boas coberturas de Coutinho e Casemiro estabilizaram o problema, que pode ser melhor trabalhado nos próximos dias. É um ponto para ajustar.

Por fim, chego à "escapada" da Suécia. Vai parecer meio louco da minha parte, mas não ter batido de frente com a Suécia neste momento foi importante. Caso não ficasse em primeiro, o Brasil pegaria um time extremamente chato de enfrentar. E aí voltamos para o contexto. Apesar de não ser uma equipe com grande repertório técnico,  os suecos proporcionam o jogo que mais nos incomoda. Bloco defensivo baixo, pouco espaço, imposição física e muita concentração.

Não à toa, deixou Itália, Holanda (Eliminatórias) e Alemanha para trás até aqui.  Certamente seria um jogo de muita exigência da nossa parte. Não só ofensiva, para desequilibrar o sistema adversário com passes e dribles, mas também psicológica. Aquele gol que não sai. A rigidez nos movimentos. A posse sem efetividade. Cenário completo para fazer a gente entrar em parafuso dentro do próprio jogo. México e Alemanha sentiram isso na pele.

O México também é perigoso. Tem um treinador que não pensa duas vezes em ousar (INCLUSIVE NAS BOLAS PARADAS, CLIQUE AQUI), mas a tendência é de mais espaço. Mais campo para atacar, mais trocação. Acho que vai ser por aí.

O que não dá é para achar que vai ser fácil - e digo isso para nós torcedores e analistas. É o momento para firmar o pé no chão e seguir as convicções. Mas também dar espaço para um ajuste ou mudança. Os contextos, num torneio tiro curto como a Copa, são importantes e devem ser levados em conta. Até as oitavas!


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Na Copa das bolas paradas, Juan Carlos Osório é ponto fora da curva em escanteios e faltas do México

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Osorio deixou o São Paulo para comandar a seleção  mexicana
Osorio deixou o São Paulo para comandar a seleção mexicana Getty

Na Copa do Mundo que vem se evidenciando pelo alto número de gols marcados através das bolas paradas - cerca de 49% até o início do dia de hoje 22/6) -, Juan Carlos Osório, conhecido dos brasileiros por conta de sua passagem pelo São Paulo, tem sinto um ponto fora da curva em faltas e escanteios, principalmente nos defensivos.  O jogo contra a Alemanha já nos mostrou um pouco disso. Amanhã, contra a Coréia do Sul, poderemos ter mais mostras disso. 


Famoso, e também muito criticado, por seus rodízios de jogadores e funções dentro de campo, "Profe" sempre se colocou como um treinador ofensivo em sua abordagem do jogo. Tal visão, inclusive, reflete na forma como vem se defendendo de escanteios e faltas laterais. Diferente do grande padrão atual, que consiste em se organizar com 10 ou 9 jogadores posicionados, Osório tem se defendido sua meta neste momento do jogo com apenas 7 jogadores (confira na imagem abaixo).

No escanteio defensivo contra Alemanha, jogadores ficam praticamente no mano a mano
No escanteio defensivo contra Alemanha, jogadores ficam praticamente no mano a mano Reprodução DataESPN

O lance acima aponta para um escanteio, mas a ideia se mantém também em faltas cruzadas na área. Perceba como o número é o mesmo (ilustração abaixo).

Veja o mesmo número de defensores na falta lateral contra a Alemanha
Veja o mesmo número de defensores na falta lateral contra a Alemanha DataESPN

A ideia é que, enquanto estes jogadores defendem, inclusive ficando no mano a mano em algumas oportunidades, três escapes ficam mais adiantados para aproveitarem os contra-ataques. Contra a Alemanha, por exemplo, o trio Lozano, Chicharito Hernández e Vela - em alguns casos Layún - ficava mais à frente. E não era nem uma situação de rebote. Se posicionavam quase no círculo central, sustentando a saída rápida e acelerando o jogo. IMPORTANTE: repare nos minutos da partida na imagem acima e também na que vem em seguida. Se trata da mesma jogada. Recuperação da posse após a falta e contra-ataque armado.

Trio de ataque do México recebe a bola em contra-ataque. Situação de 3 vs 3
Trio de ataque do México recebe a bola em contra-ataque. Situação de 3 vs 3 DataESPN

E para tal estratégia dar certo se exige muita organização. Primeiro na reação dos jogadores no pós-recuperação. A necessidade de todos estarem coordenados na corrida e também nas projeções dos espaços que se abrem. Neste sentido, Chicharito fez um grande jogo. Era ele o primeiro escape (inclusive na jogada do gol), para reter a bola ou simplesmente dar de primeira nas investidas de Lozano, muito eficiente nas diagonais de fora para dentro do campo.

Se por um lado esta abordagem da bola parada dá vantagens ofensivas ao México, por outro também pode favorecer defensivamente. Simplesmente pelo fato de, ao deixar três jogadores posicionados para o contra-ataque, faz com que a equipe adversária deixe no mínimo três defensores encaixados nestes jogadores para uma suposta transição, como fizeram os alemães. Em outros casos, acontecia de optarem por quatro defensores, usando um na sobra. Ou seja, Osório conseguia esvaziar e ter vantagem numérica dentro da sua área ao mesmo tempo. 

Mas se engana quem pensa se trata de uma estratégia nova para o treinador colombiano. Antes do México, já utilizava esta ideia pelo São Paulo (confesso que não sei se fazia em trabalhos anteriores). Foram vários os casos de indecisões de adversários pelo Brasil: deixar todo mundo no mano a mano ou ser mais conservador e ficar com uma sobra? Um dilema que muitos viveram na estratégia para as partidas contra o time paulista.

Existem algumas situações para tentar gerar vantagens em cima desta escolha de Osório. O escanteio curto, usado pela a Alemanha em alguns momentos, inclusive, é uma opção. E ao deixar todo mundo no mano, qualquer vacilo pode ser fatal, já que um duelo pessoal/físico vencido neste momento implicará num efeito dominó.

De fato tal estratégia é algo fora da curva na Copa do Mundo onde a maioria das equipes preferem defender a sua área com o máximo de jogadores (no caso todos). A Seleção Brasileira, por exemplo, usa os 10: oito marcando de maneira mista (com bloqueios na maioria das vezes) + dois prontos para o rebote, mas muitas vezes também dentro da área (veja na imagem abaixo).

Seleção Brasileira se defendendo de escanteio contra a Suíça, antes do gol de empate
Seleção Brasileira se defendendo de escanteio contra a Suíça, antes do gol de empate DataESPN

Outra grande seleção que adota tal estratégia é a Espanha. Apesar de toda obrigação e necessidade de furar o bloqueio do Irão, os espanhóis também usaram seus 10 atletas na defesa de escanteios (veja abaixo).

Espanha se defende com 10 jogadores nos escanteios do Irã
Espanha se defende com 10 jogadores nos escanteios do Irã DataESPN

Está mais do que evidente o quanto a bola parada pode ser decisiva dentro do futebol. A Copa do Mundo talvez seja o ápice destra mostra. Momento do jogo totalmente diferente, este tipo de situação exige muito mais estratégia e concentração. Trata-se da hora que todos param, se organizam e agem para uma só situação, lembrando até ataques e defesas de futebol americano, por exemplo. É um jogo de gerar vantagens, assim como o futebol num todo. Quantos vão e quantos ficam pode ser determinante. Juan Carlos Osório, tido como louco por alguns, segue sua jornada de surpreender. Que bom pra nós! 


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Brasil, Argentina, Neymar e Messi: a grande arte da "análise de um time só" chega à Copa do Mundo

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Tite comanda treino da Seleção Brasileira antes de enfrentar a Suíça
Tite comanda treino da Seleção Brasileira antes de enfrentar a Suíça Lucas Figueiredo/CBF

A Copa do Mundo vai de vento e popa. Uma rodada inteira já foi disputada. Mas aqueles nossos velhos hábitos permanecem no olhar para o jogo. Se sempre achamos que Palmeiras, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo e outros gigantes de nosso futebol têm a obrigação de atropelar adversários "sem tradição" em Copa Libertadores, por exemplo, o que acharemos de Argentina e Brasil contra Islândia e Suíça, respectivamente?

Pois é. São muitos os protestos usando uma palavra talvez muito forte para o futebol nos dias atuais: obrigação. Obviamente que algumas equipes são melhores que as outras. Favoritismo existe. Até aí normal. 

Mas o absurdo é achar que não existe um trabalho por trás de cada uma das 32 seleções que estão na Rússia. O saco de pancadas, tão comum décadas atrás, é cada vez mais raro. E existe um porquê. A informação está por todos os lados e existe um desenvolvimento enorme do futebol em países de menor expressão. Não à toa todo mundo se prepara bem e são muitas as variáveis que definem o ganhador de uma partida. O alto nível que uma Copa pede não dá espaço para algo diferente.

O jogo do último sábado, entre Argentina e Islândia, nos deu uma boa mostra disso. O 1 a 1 foi inacreditável para quem olha apenas para o "time mais forte". Não é nenhuma novidade o ciclo turbulento que nossos vizinhos viveram até a Copa do Mundo. Conseguiram, no fio da navalha, a classificação nas Eliminatórias, mesmo não tendo um desempenho satisfatório em várias rodadas. Trocas de treinadores - com mudanças drásticas de metodologias e modelos de jogo -, lesões, crises internas... 

Jorge Sampaoli durante as Eliminatórias para a Copa do Mundo
Jorge Sampaoli durante as Eliminatórias para a Copa do Mundo Getty

E ainda tem a Islândia nisso tudo. Sim, por incrível que pareça, temos que lembrar disso. País com menor população nesta Copa, tiveram a primeira participação na Eurocopa em 2016. O resultado? Quartas de final. Líder de seu grupo nas Eliminatórias e primeira ida a Copa do Mundo, deixando Croácia, Turquia e Ucrânia para trás (croatas passaram pela repescagem). Alguma coisa estava acontecendo ali. Só não parou para olhar antes quem não quis. 

Mas aí veio o jogo.

De fato, olhando para as últimas atuações da equipe de Sampaoli antes do Mundial, não foi um jogo todo ruim dos argentinos.  Obviamente que, coletivamente, ainda falta muito. A grande posse de bola durante os 90 minutos (72%) tinha que ser mais eficaz. Faltou movimento, passes mais rápidos e, principalmente, jogadores que pudessem infiltrar no tempo e espaço certo dentro da área adversária. Por outro lado, a Argentina conseguiu quebrar parte do plano da Islândia: os contra-ataques. Boas reações pós-perdas e muito agressividade no terço final fizeram com que Messi & Cia. conseguissem neutralizar as fortes saídas rápidas do rival. Isso é desempenho, é a execução de um plano.

Mas a Islândia teve um desempenho melhor. Dentro do que se propôs a fazer, fez um jogo quase perfeito. De fato é uma das seleções do Mundial que parecem ter atingido quase o máximo do que pode entregar. Se de alguma forma a Argentina não conquistou o resultado esperado, muito disso tem a ver com as dificuldades condicionadas pelo adversário, pelos méritos do mesmo. Duas linhas de 4, muita rigidez defensiva e proteção da própria área (veja as fotos e as legendas abaixo). Fora a concentração para se manter alerta e intenso nos 90 minutos e, principalmente, a força física para vencer os duelos corporais. Os islandeses serão osso duro para qualquer seleção nesta Copa. Esqueça sua tradição, olhe para o que eles dão em campo.

Posicionamento defensivo da Islândia com duas linhas de 4 e todos os jogadores de linha atrás da linha da bola
Posicionamento defensivo da Islândia com duas linhas de 4 e todos os jogadores de linha atrás da linha da bola DataESPN
Agora perceba como a Islândia protege a sua área, priorizando o centro e não os lados do campo
Agora perceba como a Islândia protege a sua área, priorizando o centro e não os lados do campo DataESPN

Já o caso da Seleção Brasileira é um pouco diferente. Grande preparação, bons resultados, confiança... Tite não pegou o ciclo de Copa do Mundo lá no seu início, como o ideal, mas é perceptível que existe um processo, uma ideia por trás de todo trabalho. A obrigação não é de vencer, mas sim de ser competitivo e estar nas cabeças. Ser um dos candidatos ao título não só na teoria, mas também na prática. 

E os 25 primeiros minutos foram de bom desempenho. Equipe agressiva, controlando o jogo e tendo boas associações pelo lado esquerdo com Neymar, Coutinho e Marcelo. O gol sai de uma grande jogada coletiva, que ainda contou com a forte pontaria de Coutinho em sua jogada característica. Mas tal performance não foi mantida. E mais, a Suíça melhorou no jogo. Ajudou a condicionar o baixo desempenho brasileiro até certo momento do jogo.

Travou o lado esquerdo de nossa Seleção. Ajustou as marcações e pressionou muito a bola (veja a próxima imagem e legenda). Não existia sequer um brasileiro a partir do terço central se sentindo confortável com a bola. O gol de empate caiu como uma bomba psicológica para nós. A concentração baixou, pouco se criou e a ansiedade, principalmente se tratando de estreia, se aflorou. Os últimos minutos ainda foram de maior domínio de nossa parte, mas a proteção da área suíça foi bem feita e não conseguimos furar os bloqueios. Apesar das 20 finalizações, boa parte delas não foi condicionada, como uma chance realmente clara de se marcar o gol. Devemos na construção e organização ofensiva. 

Marcelo com a bola e a Suíça travando todas as opções de passes para a frente da Seleção Brasileira
Marcelo com a bola e a Suíça travando todas as opções de passes para a frente da Seleção Brasileira DataESPN

As criticas a Neymar e Messi também viram um epicentro de todo este debate. Ambos não tiveram grande desempenho, mas é no mínimo leviano acusar a dupla de omissão em seus respectivos jogos. Buscaram, tentaram... Até de forma exagerada em alguns momentos. 

No caso do craque brasileiro, a insistência em jogadas individuais em vários instantes foi um erro. O tempo foi passando, e a necessidade de resolver foi crescendo. Melhores decisões, mais desmarques e trabalho sem bola, mais dinâmica para receber, tocar e se projetar... São todos aspectos que melhorariam seu jogo. O coletivo da Seleção, é sempre bom lembrar, também não esteve num grande dia e contribuiu para tais ações. Não tem como desvincular o jogador do seu contexto. Esse é um aspecto importantíssimo dentro de qualquer análise.

Já Messi sentiu bastante o pênalti perdido. Seu entorno já não ajuda faz anos. A ruptura de trabalhos, com trocas de modelos e até de elenco, contribuem para isso. Mas não foi um grande dia, independentemente do penal. Erros técnicos e de tomadas de decisão que não fazem parte do seu normal. Os problemas da equipe como um todo, também foram impactantes no seu desempenho. Se viu, em vários momentos, seus companheiros tocando para ele e esperando. Não existia uma segunda ação após o passe. Era jogar no craque e esperar (rezar?). Os problemas de Sampaoli para os próximos jogos vão muito além de Messi estar bem ou não. Isso é nítido. 

Tais considerações servem para apontar dois vícios que carregamos no nosso dia a dia. O primeiro é achar que o time mais forte joga contra ninguém. Que não existe nada do outro lado além de jogadores prontos para serem atropelados. Essa reflexão busca apurar o nosso olhar, perceber que nem sempre uma má atuação se dá somente por um dia ruim de uma equipe, mas também pelo ótimo desempenho do adversário. O segundo ponto é ainda mais simples: retratar a nossa mania de individualizar e desumanizar o futebol que tanto amamos. O talento individual faz parte de um todo. Tende a ser cada vez mais decisivo quando bem aparado. Do contrário, a única andorinha não fará verão por tantos anos.


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Copa do Mundo: O dilema uruguaio, a pressa marroquina e o desempenho vs Cristiano Ronaldo

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Cristiano Ronaldo celebrando gol contra Portugal
Cristiano Ronaldo celebrando gol contra Portugal Getty

Enfim, Copa do Mundo! Para não encher o blog de textos e a paciência de vocês com uma enxurrada de divulgações por dia, vou tentar escrever um texto por data para analisar rapidamente as partidas que eu for asssitindo na competição. 

Esta sexta-feira, o primeiro dia com rodada tripla na Rússia, trouxe diversos contextos e modelos de jogo para serem analisados. Nada que fuja do que as seleções vinham mostrando durante Eliminatórias e últimos amistosos, mas confrontos de ideias e estilos bem diferentes. Tivemos bons e maus momentos de desempenho, o duelo entre Espanha e Portugal com futebol em alto nível e, principalmente, Cristiano Ronaldo arrasador.

Vamos às análises:

Egito 0x1 Uruguai (Grupo A)

Óscar Tabárez tem um dilema para resolver no time do Uruguai no restante da Copa
Óscar Tabárez tem um dilema para resolver no time do Uruguai no restante da Copa Getty

O dilema uruguaio já entrou em cena logo em sua primeira aparição na Copa do Mundo. No cargo desde 2006, Oscár Tabázer, enfim, deu uma leve mostra que abriria mão do jogo mais físico e direto praticado nas últimas temporadas. Modelo que, aliás, trouxe grandes resultados para o Uruguai em suas últimas participações em grandes competições.

Vecino, Bentancur, De Arrascaeta e Nandez iniciaram o Mundial entre os titulares. O jovem e promissor Lucas Torreira, com grande temporada na Sampdoria, ficou no banco. Todos eles jogadores com maiores capacidades técnicas que os meio-campistas das últimas Copas, por exemplo. Atletas para elevar o jogo mais curto e associativo com a posse. E de início vimos um pouco disso. Ou pelo menos uma tentativa.

Os uruguaios buscaram um posicionamento nos espaços entrelinha (nas costas dos volantes e à frente dos zagueiros). Arrascaeta flutuou muito por ali. Tentaram sair pelo chão, com passes mais verticais é verdade, mas tentando ter mais controle com posse. 

O tempo foi passando e a proposta do Egito foi tomando conta do jogo. Bloco médio/baixo, muita pressão na bola e controle dos espaços. Sem Salah, ainda no banco por conta da lesão no ombro, Trezeguet e Warda não foram muito efetivos como escapes nos contra-ataques. Um primeiro tempo do Uruguai pouco criativo, mas também sofrendo pouco com as saídas rápidas dos africanos.

A segunda já iniciou diferente para os sulamericanos. Apesar de não fazer substituições no intervalo, ficou percepítivel o jogo mais direto sendo resgatado no Uruguai. Bolas mais longas, pouca circulação e muita disputa física para Cavani e Suarez no terço final. As trocas de Arrascaeta e Nandez por Cebola Rodriguez e Carlos Sanchez foi a mostra de que o plano B, que por muito tempo foi o plano A, entraria em cena. Time mais agressivo, físico e direto.
 
O gol na bola parada resolveu uma estreia com muita oscilação uruguai. Um dia ruim de Suaréz e com Cavani melhor oferecendo alternativas quando saia da profundidade para ajudar na construção. A questão para Tabárez agora é: como seguir até o final? Se ajustar a cada adversário? Manter ou trocar a ideia?

Para o Egito, agora é só decisão pela frente  contra Rússia e Arábia Saudita. O grande acréscimo de qualidade com Salah é a esperança. A fase defensiva é o grande trunfo do treinador argentino Héctor Cúper. A melhora tem que ser nas tiradas de pressão para acelerar. Tentar condicionar as melhores situações de jogo para potencializar seu astro. Não vai ser fácil.


Marrocos 0x1 Irã (Grupo B)

Jogadores do Irã comemoram gol da vitória sobre Marrocos
Jogadores do Irã comemoram gol da vitória sobre Marrocos Getty

Jogo com propostas bem claras. O Irã, com um projeto já bem estabilizado com Carlos Queiroz, treinador da equipe desde 2011, não fugiu do seu modelo: controle de espaços, bloco baixo (alternou médio em alguns momentos) e muita rigidez defensiva. Algo que já havia mostrado durante a Copa de 2014, sendo um dos adversários mais difíceis de ser furados durante a o Mundial em solo brasileiro. Proposta e execução. Simples assim. Eficiente e letal no 1 a 0 no finalzinho do jogo.

Já Marrocos colocou toda sua agressividade e mobilidade em campo. Muito do que fez principalmente contra a Sérvia, adversária do Brasil, num amistoso recente. Pressão na bola, perseguições por setor e muita intensidade para recuperar a posse e acelerar o jogo. O primeiro tempo foi muito disso. Tamanha a efetividade destas recuperações pós-perda, fez com que a equipe treinada por Hervé Renard quase não entrasse em fase defensiva, que é o momento em que a equipe se posiciona atrás da linha da bola e se organiza em seu próprio campo. Posse, transição e recuperação.

O grande problema, ao meu ver, foi a pressa. Não ter alternado ritmo durante o confronto. Várias situações mostraram que nem sempre o melhor a se fazer é acelerar. Entendo que tal característica é a essência da equipe, mas tais ações fizeram com que os jogadores jogassem sempre no limite, a mil por hora. Quanto mais rápido, maior a chance de erros. E de fato, o último passe, as ações finais antes da conclusão, não tiveram grande qualidade.

Hakim Ziyech (Ajax) e Belhanda (Galatasaray), as referências técnicas da equipe, não conseguiram exercer a grande influência que se espera deles dentro da estrutura marroquina. E isso muito pelo mérito iraniano, que marcou de forma agressiva, controlando espaços como ninguém. 

O Irã soube encaixar suas boas transições ofensivas. No contra-ataque, usava bem as tentativas de antecipações dos zagueiros Benattia e Saïss, quebrando a linha defensiva de Marrocos e ganhando campo (com superioridade numérica) para acelerar. Foi assim que criaram as melhores chances além da bola parada derradeira nos instantes finais do duelo. Aliás, situação importante para os africanos corrigirem no decorrer da competição, inclusive. Estas quebras deixaram a equipe vulnerável. 

O grupo é pesado. Espanha e Portugal são as grandes favoritas à avançar. Mas o Irã, mais uma vez, vai demonstrando um forte coletivo dentro de suas limitações. Nada fora do esperado, mas com bom desempenho no que se propõem a fazer. O Marrocos, com melhores individualidades, acabou pecando pela falta de precisão. É uma equipe legal de ver, mas podia ter dado mais em sua estreia. 


Portugal x Espanha

Espanha x Portugal duelaram em Sochi e ficaram no 3x3
Espanha x Portugal duelaram em Sochi e ficaram no 3x3 Getty

A  foi Espanha melhor coletivamente e Cristiano Ronaldo melhor que o coletivo da Espanha. Ou não?

Impossível olhar para o contexto de um 3 a 3 alucinante em Sochi sem discutir o quão influente é Cristiano Ronaldo dentro da estrutura portuguesa. Odeio o papo do "ele joga sozinho". Mas o seu hat-trick chegou perto disso. Muito pelo fato de algumas individualidades portuguesas não funcionarem hoje. Mas, por outro lado, também não dá para negar que portugueses têm muita qualidade no plantel que foi para a Rússia. Talvez até com um nível maior se compararmos ao elenco do título da Euro, dois anos atrás.

William Carvalho, por exemplo, fez um grande jogo. Ocupou bem os espaços, fez boas leituras e conseguiu dar equilíbrio defensivo para Portugal. Talvez tenha faltado uma melhor saída, principalmente para acionar a velocidade nos contra-ataques, já que, em vários momentos, sua equipe esteve com a vantagem no placar e posicionada para explorar as transições ofensivas. Guedes, Bernardo Silva e Bruno Fernades, que terminaram a temporada europeia em alta, não estiveram em seu melhor nível.

O gol cedo condicionou muito a história do jogo. A Espanha demorou um pouco para assimilar o golpe inicial. Mas foi se estabelecendo, recolhendo os cacos e... Colocou seu modelo para funcionar. As boas associações entre Isco, Iniesta e Alba pelo lado esquerdo foram importantes para tal domínio. Chances criadas, bola na trave... Mas o empate veio em jogada brilhante (e polêmica) de Diego Costa, em uma aula de "centroavância".

O segundo gol português veio, além de uma falha de De Gea, num dos melhores momentos espanhóis no jogo. As transições ofensivas de Portugal não funcionava. A Espanha trabalhava a bola, com apoios próximos, se movendo muito no campo ofensivo. A bola era perdida e recuperada rapidamente, com boas reações no pós-perda. 

A virada espanhola aconteceu. E o jogo ficou confortável para a equipe de Hierro que, defendia com a posse, escondia a bola e tentava atrair os portugueses para seu campo. Um cenário bastante complicado para a equipe de Fernando Santos. Mas não para Cristiano Ronaldo. Falta, perto da meia lua e... Caixa!

De fato o empate não é uma tragédia para ninguém. Se tudo correr como esperado, ambos disputam a primeira colocação por saldo de gols. Dentro do que se propõem a fazer, a Espanha foi melhor e tende manter este nível de atuação contra Marrocos e Irã. Já Portugal precisará propor com mais qualidade, já que tem, teoricamente, duas equipes que vão esperar mais em seu campo nos próximos duelos.


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Copa do Mundo: O dilema uruguaio, a pressa marroquina e o desempenho vs Cristiano Ronaldo

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Análise técnica: como jogam os novos gringos do Atlético-MG?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Thiago Larghi, treinador do Atlético-MG, recebeu dois reforços estrangeiros
Thiago Larghi, treinador do Atlético-MG, recebeu dois reforços estrangeiros Gazeta Press

O Atlético-MG acertou a contratação de dois reforços vindos de fora do Brasil para se juntar ao elenco de Thiago Larghi após a Copa do Mundo: Yimmi Chará (ex-Junior Barranquilla-COL) e David Terans (ex-Danubio-URU) - o segundo, é importante ressaltar, ainda passa por exames antes de ser anunciado. 

Se por um lado o meia-atacante colombiano é um pouco mais conhecido e rodado, muito pelas suas boas aparições em Copa Libertadores, por outro o meia uruguaio ainda não tem uma longa rodagem no futebol. Muito por conta disso, o blog resolveu analisar as principais características de ambos. Uma análise de seus comportamentos em campo, pontos fortes, pontos fracos e como cada um pode encaixar na estrutura atual do Galo. Confira:

Yimmi Chará
02/04/1991 - 27 anos
Meia-atacante - Destro - 1,62m

Yimmi Chará, sendo apresentado como novo reforço do Atlético
Yimmi Chará, sendo apresentado como novo reforço do Atlético Gazeta Press

De fato o colombiano, que começou sua carreira no Deportes Tolima-COL e passou por Atlético Nacional-COL, Dorados-MEX e Monterrey-MEX, antes de desembarcar em Belo Horizonte, chega com um jogador mais pronto e com grandes qualidades para agregar ao elenco atleticano. Chará, apesar de ser um ponta com muita velocidade, 1x1 e com rápidas trocas de direção, pode acrescentar mais ao modelo de Largui. Muito por conta disso o denominei como um meia-atacante.

Apesar de todas características peculiares do bom e velho ponta-direita, o novo camisa 11 do Galo tem potencial para não ser apenas um beirada agudo, de buscar o fundo do campo e a velocidade a todo custo. 

Em suas últimas aparições pelo Junior, Chará mostrou bom repertório técnico para jogadas combinadas, centralizando a posse e gerando constantes apoios. Trata-se de um jogador que, além do poder de aceleração, tem também uma veia mais organizadora, do jogo curto e trabalho sobre pressão no terço final do campo. Pode muito bem fazer às vezes de um "ponta-armador", saindo do lado e flutuando por dentro. Aí vai muito do que Larghi pensa para ele dentro do modelo de jogo estabelecido.

Mesmo sendo um jogador com capacidade de criar situações de gol, com boa capacidade de passe para a posição (tem um aproveitamento de 80% dos tentados entre Libertadores e Torneio Apertura em 2018), Chará tem em sua essência a ideia de sempre acelerar. Bastante dinâmico e móvel, tende a tocar e se projetar no espaço. Sua natureza é de verticalizar as jogadas, mas é também um cara preocupado em abrir linhas de passe e participar da fase ofensiva da equipe.

Tem boa relação com a bola. Não é excepcional neste sentido, mas tem gestos rápidos e executa com velocidade suas ações, algo importante para a exigência atual do futebol. Tem boa leitura dos espaços ofensivos e, sempre que os detecta, busca a infiltração. Pisa bastante na área. Em sua ex-equipe, inclusive, sempre teve grande liberdade para se movimentar. É bom sempre lembrar que o contexto é muito importante dentro da análise.  A estrutura que ele estava inserida o ajudava a potencializar algumas de suas características.

Está longe de ser um atleta de grande estatura, e por conta disso, tende a não ter muito sucesso nas bolas disputadas pelo alto. Já por outro lado, se trata de um atleta com bastante força física. Sustenta bem no contato, é agressivo e se impõem nos duelos corporais. Se olharmos para sua altura, podemos dizer que lida muito bem com tais situações. Confesso que era uma preocupação que eu tinha antes de analisá-lo com mais critério.

Defensivamente é um cara com bastante resistência e pulmão para fazer os retornos pelo lado direito. No entanto, pelo contexto que estava inserido, muito por ser uma das referências do Junior, devia um pouco neste sentido em algumas partidas. Demorava a reagir no pós-perda da bola. Em alguns momentos retardava um pouco a transição defensiva, se desligava. Obviamente são questões que tem a ver com o ambiente que estava inserido e o status conquistado no antigo clube. Algo que deve ser mais estimulado aqui no Brasil. Pela Libertadores o vi com mais energia, executando tais ações com mais intensidade.

Outra preocupação que tenho é com a adaptação. Apesar de toda qualidade, Chará não conseguiu se firmar nas experiências fora de seu país. Teve alguma sequência no México, mas era constantemente substituído e acabou voltando muito rápido para a Colômbia. Sem ter acompanhado de perto estas passagens, é difícil afirmar que foi algo relacionado à aclimatação, mas é algo relevante de se salientar e por vezes é um processo complicado para muitos atletas. 

O contrato de 5 anos com o Galo, aliás, mostra a confiança que o clube mineiro tem no reforço. Por conta disso terá que o ajudá-lo neste primeiro momento.  Lembrando que cada caso é um caso e as reações são sempre variadas. O vínculo longo, por outro lado, pede um alerta maior sobre o jogador.  É necessário ambientá-lo e estimulá-lo, já que contrato mais extensos, por vezes, traz um certo relaxamento a certos jogadores.

Tendo pontuado seus pontos fortes e algumas das minhas preocupações, acredito ter sido uma ótima contratação. Para alguns observadores técnicos com que tive contato, trata-se de um dos pontas mais qualificados que ainda jogam em nosso continente. Cabe agora respeitar sua adaptação e individualidades, estimulando e potencializando o que Chará tem de melhor em seu jogo. Sem dúvidas pode ser uma peça influente no grupo atleticano.


David Terans
11/08/1994 - 23 anos
Meia - canhoto - 1,76m

David Terans em ação pelo Danubio-URU
David Terans em ação pelo Danubio-URU Gazeta Press

Já a contratação de Terans tem um outro viés, pelo menos ao meu ver. Trata-se de um jogador que ainda precisa evoluir em alguns sentidos e, se bem estimulado, pode atingir um patamar melhor de desempenho. O Atlético-MG não revelou valores, mas creio eu que esteja pagando um valor menor, apostando no desenvolvimento do atleta jovem e que, num primeiro momento, pode ser uma peça de composição do elenco.

David é mais meia em sua essência. Chegou a jogar pela beirada esquerda no Santiago Wanderers-CHI, mas nunca foi um cara de buscar o fundo do campo, de explosão e jogadas de 1x1. Mesmo jogando com o seu pé por fora, fazia o movimento para dentro, flutuando e sendo mais um organizador.

Pelo Danubio seu posicionamento mudou. Hoje é um jogador mais interior, que se aproxima do centroavante e que, sem bola, fica até mais adiantado com a equipe fechando duas linhas de 4. Até por isso tem tido um rendimento maior, já que marcou 14 nesta temporada.

Terans tem um bom repertório técnico. É um atleta que tem uma boa relação com a bola. Finaliza bem de média e longa distância, pisa na área, ajuda na construção ofensiva. Tem dinâmica para acrescentar nestes sentidos citados anteriormente. Sua bola parada tem bastante qualidade. Tem uma boa leitura e batida na bola para achar um companheiro neste momento do jogo.

Fisicamente é a minha grande preocupação. Não é um jogador rápido e também está longe de ser um especialista no contato físico. Lhe falta a explosão nas trocas de direção, mais agilidade no giro do corpo e nas tomadas de decisão. Coisas que podem ser melhoradas se bem estimuladas, mas que dificilmente darão um salto tão grande em sua carreira. 

O que ainda pode se desenvolver no jovem é a inteligência individual e coletiva. Coisas que o farão se posicionar melhor e tomar melhores decisões. Controlar melhor os espaços em que se coloca. Isso potencializará suas qualidades e compensará algumas deficiências. E isso não é nenhum demérito, afinal jogadores que são bom em tudo, normalmente, são os top mundiais. 

Sem bola é um cara agressivo. Busca pressionar os adversários, busca a recuperação da bola. Mas a questão física também implica nisso. Seu arranque para reagir, para prontamente atacar a bola, não é dos melhores. Também é uma questão que pode ser melhorada. 

Terans é um cara que ainda pode ser lapidado e melhorado. Seus comportamentos dentro de campo dão indícios que é um cara proativo, que aparece, oferece apoio, participa... De fato se mostra alguém interessado, que tende a não ser resiliente ao aprendizado, coisa que o favorecerá nos treinos se bem estimulado. 

Ainda existe a questão da adaptação. O jovem chegará em um futebol bem diferente de onde ele joga atualmente. Essa questão física pode ser uma dificuldade em seu início no Brasil. Por conta de tudo acima citado, acredito ser um jogador que não chega tão pronto assim como Chará. Mas que tem qualidades que podem ser potencializadas e, em algum momento, ajudar o Galo nos próximos anos. 



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Real Madrid e Liverpool duelam “liberdades criativas” e confrontam CR7 e Salah, os grandes mutantes da Europa

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Zidane e Klopp, rivais na final da Champions
Zidane e Klopp, rivais na final da Champions Getty

Real Madrid e Liverpool se enfrentam no próximo sábado, em Kiev, na Ucrânia, para definir qual é o melhor clube da Europa na temporada 2017/2018. E esta final de Champions League nos traz, acima de tudo, particularidades bem interessantes. A maior, que se faz presente em ambos os lados - cada uma da sua maneira, claro - , trata-se da liberdade criativa que os treinadores impuseram aos seus jogadores durante toda a temporada.

Apesar de praticarem futebol de formas distintas, Zenédine Zidane e Jürgen Klopp prezam o jogo ofensivo e, principalmente, de muita mobilidade com a posse de bola. Tais ideais, inclusive, dificultam até no estabelecimento de uma só plataforma de jogo durante os confrontos até aqui – com os madridistas é ainda mais difícil definir um sistema de jogo. 

Muita variação, trocas de posições e jogadores de qualidade no último terço do campo faz das equipes os melhores ataques da competição até aqui (ingleses com 40 gols marcados e os espanhóis com 30). Marcas e formas de jogar que deixam o confronto único em campo neutro totalmente aberto.

O duelo entre ingleses e espanhóis também colocará frente a frente Cristiano Ronaldo e Mohamed Salah. Jogadores que precisaram sofrer algumas transformações para chegar ao grande número de gols marcados na temporada: ambos têm 44. 

Confira na íntegra a análise dos times e dos craques que envolvem este jogão:

REAL MADRID: COM QUAL TIME, ZIZOU?

É totalmente plausível afirmar que o Real Madrid fez uma temporada de altos e baixos. Mais que nos resultados, a equipe comandada por Zinédine Zidane oscilou bastante em desempenho. E tal afirmação não fica apenas dentro da não briga pelo título espanhol vencido pelo Barcelona, mas também escorre no caminho trilhado na UEFA Champions League.

Foram vários os momentos de aperto durante os mata-matas da competição. Temos que ressaltar que o caminho até a final não foi dos mais fáceis: PSG, Juventus e Bayern de Munique foram derrubados. Mas também é fato que o Real não conseguiu exercer grande controle durante estes duelos. Na verdade foi mais controlado. Se viu pressionado e encurralado em vários momentos, mas a fortaleza psicológica fundada em seus jogadores nos últimos anos acabou sendo decisiva.

O contexto da equipe madridista vai muito além da parte tática. Tem um time que, apesar de se desorganizar em várias situações, consegue ser letal nas chances que cria. E normalmente em momentos cirúrgicos do jogo, muitas vezes condicionando o restante da partida. 

Além da qualidade acima da média no terço final do campo, que é totalmente determinante durante sua campanha, paira no Santiago Bernabeu uma mentalidade vencedora, capaz de dar a tranquilidade necessária ao grupo de jogadores nos momentos mais difíceis. Uma coisa é certa: se você não matar sua chance, será morto na sequência. Não tem como, o aproveitamento tem beirado a perfeição neste sentido.

A mobilidade talvez seja a grande virtude da equipe treinada por Zinédine Zidane. Muitas trocas de posição no setor ofensivo e ataques aos espaços, somada à liberdade criativa que os jogadores obtiveram com seu comandante, acaba por ser um dos grandes motivos do sucesso recente. Uma engrenagem cheia de intuição e talento, com sua organização para justamente potencializar todo esse repertório técnico.

A flexibilidade dos esquemas táticos utilizados até aqui também mostra muito deste retrato de autonomia dos atletas em campo. O Real varia entre 4-3-3 (normalmente com o trio BBC em campo), 4-3-1-2 (com Isco na ponta do losando e três meio campistas por trás) e até mesmo o 4-4-2 em linha (este quando Zizou opta por Asensio e Vazquez). Durante sua passagem pelo Santiago, o treinador francês chegou a usar três zagueiros, mas não foi algo que se manteve com regularidade.

Tal metamorfose nas plataformas de jogo traz até o questionamento de qual time iniciará o duelo contra o Liverpool no próximo sábado. Zidane tem, por vezes, se baseado nos adversários para escolher os 11 jogadores que iniciam. Me parece, inclusive,  que a formação com um losango no meio e Isco municiando os atacantes (normalmente Benzema e Cristiano avançados) é a preferida. Por outro lado, Bale vem de bons desempenhos nos últimos jogos e pode estar cavando sua vaga na decisão.

A terceira opção (como mostra o vídeo abaixo), no entanto, tem dado um maior equilíbrio ao Real Madrid, principalmente durante as transições. Foram vários os momentos que Zidane recorreu aos jovens Asensio e Lucas Vazquez (virada contra o PSG e partida contra a Juve), ambos fechando os lados e auxiliando o trabalho defensivo dos seus laterais. Um time mais agressivo, mais intenso e, principalmente, com melhor ocupação dos espaços defensivos. 


O lado esquerdo, inclusive, é o céu e o inferno do Real Madrid. Tem Marcelo, com grande repertório técnico e cognitivo chegando muito ao ataque, inclusive pisando na área em vários momentos, porém a necessidade de coberturas e compensações, já que o brasileiro é incapaz de estar em dois lugares ao mesmo tempo. É aí que a importância das coberturas e o jogo físico de Casemiro, peça importante para a grande engrenagem funcionar. Certamente será um espaço observado por Klopp e atacado durante o confronto.

LIVERPOOL: INTENSIDADE E CONTRA-ATAQUE FULMINANTE

A grande marca do Liverpool na vitoriosa caminhada até a final da UCL, sem dúvida nenhuma, é a intensidade. Um time elétrico em campo nos grandes jogos. Agressividade, transições fortes e muita, mas muita mesmo, velocidade no terço final do campo.

E talvez a grande referência para Klopp neste processo à frente do clube inglês seja os primeiros 45 minutos do mata-mata contra o Manchester City de Pep Guardiola. O dia em que o campeão da Premier League praticamente não respirou dentro de campo, tamanho o sufocamento dos Reds, que exerceram muita pressão na bola durante o confronto. Foi o ponto alto do Liverpool durante a temporada.

E é no momento da recuperação da posse que mora o maior perigo nesta equipe do Liverpool. As reações dos seus jogadores são instantâneas. Projetam e atacam os espaços em velocidade máxima, sempre buscando o gol com muita objetividade. Este contra-ataque, aliás, gera uma jogada bastante padronizada em gols e lances de perigo criados ao longo da temporada (veja no vídeo abaixo).


Perceba que, ao retomar a bola, Roberto Firmino tem um papel de grande relevância para que a bola chegue até a área dos adversários. É o camisa 9 o escape, o jogador para receber a posse num primeiro momento de transição ofensiva. Cabe a ele, nesta altura do jogo, tomar as melhores decisões possíveis: reter a bola e esperar os movimentos de Salah e Mané? Jogar de primeira e já se projetar no espaço mais próximo? Atacar a profundidade? Pois é. Isso não tem sido problema para o brasileiro.

Apesar da grande número de gols anotados por Salah, Firmino tem tido um papel de grande importância no sucesso do Liverpool. Entende o tempo e a maneira certa de soltar a bola, onde coloca-la e onde ir após a ação (vídeo acima mostra bem isso, com ele concluindo jogadas após ajudar na criação das mesmas). Depois de muita crítica, sobretudo com a camisa da Seleção Brasileira, o "meia que joga de centroavante", enfim, tem conquistado a confiança de todos.  Faz até aqui uma temporada impecável.

E essa força nas transições ofensivas tem muito a ver com uma escolha de Klopp que, por vezes, faz a opção de defender com menos jogadores para, inevitavelmente, ter mais peças para atacar na retomada da bola. Retorna com 7 ou 8 jogadores (Firmino recua mais que os pontas) e, quando a posse é recuperada, tem dois jogadores de muita velocidade para atacar a profundidade. Perceba no vídeo acima como o posicionamento corporal deles é importante neste momento, de como estão todos prontos para o primeiro arranque, deixando os marcadores (na maioria mais lentos) para trás. E existe outro sentido na ideia: ao segurar dois atacantes mais avançados, o treinador também pense que eles possam segurar três defensores. Existe toda uma lógica nisso, pensando em duelos no mano a mano e em sobras.

E o bom momento do Liverpool não se dá apenas pela fase de seu trio de ataque, Klopp achou e conseguiu evoluir jogadores importantes. Robertson, Alexander-Arnold, Oxlade Chamberlain e Milner... Todos casos destes, seja em soluções ou mesmo reinvenção de talentos num contexto que os potencializam. Hoje, de fato, o elenco do Liverpool entende como ninguém o jeito Klopp de jogar.

O desequilíbrio defensivo também foi melhorado. Depois de um início de temporada oscilante, tomando gols infantis e, muitas vezes com erros individuais durante a jogada, o treinador alemão teve a contratação de Van Dijk (zagueiro mais caro da história) como um ponto determinante da caminhada até Kiev. Foi muito dinheiro, mas foi uma movimentação de mercado bem precisa. O holandês qualificou a linha defensiva e se encaixou prontamente ao jogo alucinante da equipe.

 

CR7 E SALAH: MENOS CONSTRUTORES, MAIS LETAIS

Se somarmos as redes balançadas por Cristiano Ronaldo e Mohamed Salah nesta temporada, chegamos a um número de 88 gols. Agora, se pensarmos que, tempos atrás, tratava-se de dois pontas, que não jogavam necessariamente dentro da área dos adversários, tal marca impressiona ainda mais.

Mohamed Salah em ação pelo Liverpool no dérbi contra o Everton
Mohamed Salah em ação pelo Liverpool no dérbi contra o Everton Getty

De fato, são jogadores que passaram por um tipo de mutação nos últimos anos. Deixaram de ser mais construtores, criadores de situações de gol para ser a outra ponta da jogada: a conclusão. E os números abaixo (TODOS NO FORMATO DE MÉDIA) mostram bastante disto.

Médias ofensivas de Salah na atual temporada (legenda: quanto mais escura a cor, melhor a marca)
Médias ofensivas de Salah na atual temporada (legenda: quanto mais escura a cor, melhor a marca) ESPN

Perceba na tabela acima como Salah praticamente dobrou sua média de gols se compararmos com as duas temporadas anteriores (Roma e Chelsea). Outros números que chamam a atenção são os de finalizações e ações dentro da área adversária. Todos numa crescente.

Na contramão disso, o egípcio tem uma queda no número de chances criadas, algo que era muito recorrente nos tempos em que era um ponta direita mais característico, sempre trabalhando no corredor, ajudando o lateral na marcação e criando situações de linha de fundo ou mesmo cruzamentos com a perna esquerda. No seu caso, não foi bem uma mudança de posição, mas sim de função, de como trabalhar os movimentos em campo.

Atualmente Salah não tem a obrigação de se manter aberto pela direita a todo custo. Ao contrário disso, tem liberdade para jogar mais por dentro. Em muitos momentos, se coloca até mais avançado que Firmino que, teoricamente, é o centroavante da equipe (usei o teoricamente porque se trata de um falso 9, que tem como ideia justamente sair da referência e abrir espaços). Cabe a ele então jogar sempre atacando a profundidade, infiltrando e tendo mais chances de sair na cara do gol (o vídeo abaixo mostra bem isso).


Ainda dentro da análise acima, perceba como o egípcio se mantém sempre no limite da linha defensiva. Quando sai, toca e já projeta nos espaços. Para dar este tipo de liberdade para ele, Klopp por vezes usa meias, volantes e até mesmo laterais para abrir o campo. O conceito de amplitude, para alargar o bloco defensivo do adversário, se mantém. Mas com outras peças exercendo tal ideia.

Além desta leitura e inteligência para saber o momento certo das infiltrações, Salah ainda tem o privilégio de não precisar percorrer um espaço tão grande do campo. Como é um dos jogadores que se mantém posicionados para atacar enquanto a equipe defende (chamamos isso de balanço ofensivo), acelera em distâncias menores, tendo uma reserva energética maior para, na hora do arranque, deixar seus marcadores para trás. Ou seja, trabalha dentro de um contexto para, nos momentos certos, dar tudo de si na questão física. Isso sem dúvida potencializa seu poder de destruição contra as defesas.

Cristiano Ronaldo com 5ª Bola de Ouro no Santiago Bernabeu
Cristiano Ronaldo com 5ª Bola de Ouro no Santiago Bernabeu Getty Image


O caso de Cristiano Ronaldo é diferente. Apesar de também estar passando por uma transformação na sua maneira de jogar, sua mudança também é, em vários momentos, de posição. Com o passar dos anos, o português deixou de ser um ponta-esquerda típico e tem se movimentado praticamente como um centroavante, principalmente quando Zidane usa uma formação sem Bale e com dois atacantes.

A ideia, assim como no caso de Salah, é fazer com que o camisa 7 deixe de percorrer grandes distâncias e, principalmente, fique próximo ao gol. Veja nos números abaixo, nos mesmos moldes do rival do Liverpool, como suas ações dentro da área aumentaram. Mais que isso, maior média de gols e menos assistências. O número de finalizações também chegou ao seu ápice nesta temporada.

Números ofensivos de Cristiano Ronaldo na atual temporada (legenda: quanto mais escura a cor, melhor a média)
Números ofensivos de Cristiano Ronaldo na atual temporada (legenda: quanto mais escura a cor, melhor a média) ESPN

A adaptação de Cristiano Ronaldo neste novo papel é assustadora de tão eficaz. Claro que já vem de alguns anos, mas mostra características muito próprias de um camisa 9, principalmente em questões como leitura dos espaços e primeiro toque, sempre muito usado para concluir jogadas de primeira. Na análise abaixo, perceba como ele consegue trocar de direção e, em muitos momentos, enganar a marcação na hora da conclusão a gol.


Outra questão muito perceptível em seu jogo é a infiltração. O craque português consegue, por vezes, ter um timing perfeito para antecipar jogadas. Atua sempre no limite do impedimento, deixando as condições dos zagueiros em levarem a melhor nos lances ainda menores. Preenche bem o funil (entrada da área), arremata de pequena, média e longa distância, finaliza por cima e por baixo, de cabeça, direita, esquerda... Consegue ser letal em espaços cada vez menores e cheios de pressão na bola.  Uma reinvenção como atleta de futebol profissional, muito da sua busca pela perfeição, profissionalismo e inteligência para entender o jogo de uma maneira mais ampla.

Está longe de ser aquele jogador de beirada potente dos tempos de United, com transições e distâncias enormes percorridas no campo, mas qualificado para ser um dos melhores (se não o melhor) centroavante no mundo. Uma força mental sem limites, capaz de resolver jogos com poucas chances. Peça essencial para o Real Madrid, apesar de suas oscilações, chegar a mais uma final de UCL.

 

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Análise do Dérbi: formas de controlar, o talento potencializado e desempenho na Arena Corinthians

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Roger, Rodriguinho e Edu Dracena durante Corinthians x Palmeiras, pelo Campeonato Brasileiro, na Arena Itaquera
Roger, Rodriguinho e Edu Dracena durante Corinthians x Palmeiras, pelo Campeonato Brasileiro, na Arena Itaquera Gazeta Press

Corinthians e Palmeiras voltaram a se encontrar após a polêmica final do Campeonato Paulista. Vindo de uma boa atuação contra o Vitória, pela Copa do Brasil, tanto em resultado quanto em desempenho, o time alvinegro fez prevalecer o mando de jogo contra os alviverdes que, por outro lado, vinham de uma sequência de quatro vitórias seguidas longe do Allianz Parque: 1x0 na Arena Corinthians.

Muita competitividade e, principalmente, estratégia por trás das mentes de Fábio Carille e Roger Machado. Se por um lado o Verdão teve um leve desempenho melhor durante o primeiro tempo, controlando os espaços mesmo sem ter a bola (apesar do gol corintiano nos minutos finais), por outro o Corinthians teve amplo domínio nos últimos 45 minutos. O time alvinegro alternou momentos de supremacia com e sem a posse. Exerceu diferentes maneiras de controle.

O único gol do jogo, aliás, teve grande participação de Pedrinho. O jovem, que tem um potencial enorme pela frente, foi decisivo na jogada concluída por Rodriguinho após grande construção com Jadson e Maycon.

O tento, aliás, é a prova do talento colocado na melhor situação e sendo potencializado pela organização. Ou seja, nenhuma das duas coisas caminhando sozinha, mas sempre interagindo e gerando desempenho. Nem 8 e nem 80. Equilíbrio é a palavra.

Confira análise do jogo:

 1º TEMPO: EQUILÍBRIO E TALENTO DECISIVO

A partida foi de muito equilíbrio nos primeiros 45 minutos. A estratégia palmeirense, logo de cara, foi de dar a bola para o Corinthians e buscar acelerar o jogo após recuperá-la – algo que já havia feito com bastante eficiência no jogo de ida na final do Paulistão e Contra o Boca, na Bombonera, pela Copa Libertadores.  

Marcando em bloco médio (como mostra o vídeo abaixo), os alviverdes controlaram bem os espaços de uma forma geral. Com sua já conhecida saída sustentada, envolvendo zagueiros e laterais, o Timão teve certo êxito nos primeiros minutos de jogo.


Gabriel e Maycon abriam boas linhas de passe. Jadson e Rodriguinho, com muita mobilidade e sem uma referência no ataque, arrastavam os zagueiros rivais para fora da área a cada movimento nas costas de Tiago Santos e Bruno Henrique. Foram algumas chegadas seguidas no último terço do campo, mas sem nenhuma chance real criada.

O tempo foi passando e o time visitante encaixou melhor as marcações por setor. A pressão na bola também foi mais perceptível e a iniciação alvinegra já não fluía tanto. Foram momentos desconfortáveis de circulação da bola por parte do Corinthians.

O time de Roger Machado variava do 4-2-3-1 para um quase 4-2-4 em fase defensiva. Em alguns momentos avançava mais Lucas Lima, Dudu e Keno para, junto com Borja, fazerem uma primeira linha de marcação. A ideia era bloquear a saída do adversário. Este posicionamento, também chamado de “cinturão”, tem duas linhas de 4 (defensiva e ofensiva) com dois meio campistas entre elas (no vídeo abaixo dá para ver bem essa 1ª linha de marcação).

Quando se organizou melhor sem a bola, o Palmeiras de fato cresceu. Sempre que recuperava a posse, ainda no centro do campo, acionava Lucas Lima para acelerar o jogo. O meia, servindo como escape nas transições ofensivas, buscava sempre Keno e o seu forte 1x1 pelo lado direito.

Com melhores tomadas de decisão após sair vitorioso em duelos pessoais, o camisa 11 do Verdão poderia ter colocado o seu time à frente no placar (confira no próximo vídeo).  


Ainda dentro dessa melhora no confronto, o Palmeiras perdeu a primeira chance real de gol na partida. Depois de uma bola recuperada no campo de ataque e troca rápida de corredor, um bate e rebate deixou Tiago Santos na cara de Cássio. O volante, com a bola quicando na sua frente, optou pela força ao invés do jeito. Até tirou a bola do goleiro rival, mas a fez explodir na trave.

No lance seguinte Pedrinho deu, enfim, a contribuição de talento que o jogo tanto pedia. O jovem corintiano, de grande potencial futuro, foi acionado da maneira que melhor explorar as suas características. O Corinthians, em um dos raros momentos que teve campo e profundidade para acelerar no 1ºT, abriu o placar.  O garoto recebeu em velocidade e, num lance de puro talento, passou por Tiago Santos e Bruno Henrique, abrindo um clarão e deixando o Palmeiras desorganizado. De um 5 palmeirenses contra 4 corintianos, a jogada passou a ter um 3x4. E a superioridade numérica alvinegra foi letal. Jadson, Maycon e Rodriguinho, cnesta sequência de construção da jogada, colocaram os alvinegros na frente (o próximo vídeo mostra exatamente como foi a construção do gol).


2º TEMPO: EQUILÍBRIO E DOMÍNIO CORINTIANO

O gol do Corinthians na primeira etapa condicionou o jogo e praticamente inverteu os papeis dentro da Arena. Agora era momento de o Palmeiras abrir mão de sua estratégia inicial, deixando o time da casa mais confortável para explorar espaços em velocidade. Isso na teoria, já que o time palmeirense teve dificuldades para construir, com poucos apoios verticais e dificuldade para quebrar a marcação do rival (vídeo abaixo mostra bem isso).


Se no início da segunda etapa o Timão de fato conseguiu encaixar alguns contra-ataques, o restante da partida mostrou o contrário. O time de Carille conseguiu equilibrar as ações e foi equilibrado com e sem a bola, até desmistificando a fama de sair na frente e só se defender. Motivo até para o próprio treinador afirmar que foi a melhor atuação (em desempenho) da sua equipe nesta temporada.

Jadson e Rodriguinho foram importantíssimos para isso. Foram os termômetros do jogo corintiano, retendo bola, trocando a posse de lado, acelerando quando as jogadas pediam... Foram os dois grandes controladores do jogo. Boas leituras, infiltrações e passes para criar situações claras para ampliar o placar. Prova do quanto está encaixado e absorvido este sistema sem um jogador de referência, mas com muita gente trocando de posição e alternando profundidade. Movimentos naturais (confira no vídeo abaixo), que fizeram do Corinthians o dono da partida na etapa final.


Pelo lado alviverde, mais uma vez o “construir” foi um problema. Obviamente que o rival teve seus méritos, pressionando sempre a bola e fazendo o time de Roger jogar para trás, mas as associações entre os jogadores não foram tão fluídas. Nem a entrada de Guerra, que se movimentou muito, deu esse upgrade do Palmeiras em fase ofensiva.

Apesar da chance criada já no finalzinho com Antônio Carlos – inclusive, a segunda bola na trave -, o Palmeiras não foi sólido e não conseguiu dominar os diferentes momentos do jogo. Em movimentos de ansiedade por parte dos jogadores, escolheu muito errado, acelerando quando não devia, segurando quando era para colocar velocidade. Muitos erros técnicos (veja no próximo vídeo um exemplo claro disto).



Nos últimos minutos do jogo, tudo conspirou a favor dos alvinegros. Com um Palmeiras correndo contra o tempo, a bola ficou viva e vimos um jogo mais de transições, duelos pessoais e muitos embates físicos no terço central. Faltou imposição do time visitante, sobrou maturidade para controlar o jogo do time da casa.

E assim foi mais um Dérbi Paulista em 2018.


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Análise do Dérbi: formas de controlar, o talento potencializado e desempenho na Arena Corinthians

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Entrevista do mês - Mano projeta Copa do Mundo, diz que "brasileiro nunca gostou de defender" e fala sobre críticas no Cruzeiro: "Acho que são justas, podemos mais"

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Mano Menezes espera recuperar a identidade do Cruzeiro
Mano Menezes espera recuperar a identidade do Cruzeiro Light Press/Cruzeiro


Mano Menezes gera muitas emoções no torcedor brasileiro. Carrega boas lembranças no Grêmio. Da volta à primeira divisão à semifinal de Libertadores. Já no Corinthians fez parte de toda uma estruturação de um DNA que rende frutos até hoje. Ganhou títulos, perdeu outros, saiu e voltou. Não se firmou na Seleção Brasileira. No Flamengo, saiu de maneira traumática...

Tem quem goste muito da sua figura como treinador. Por outro lado, muita gente o vê apenas como um bom e velho “retranqueiro”. Embates com a imprensa, respostas mais ríspidas e um jeito mais sisudo também criaram certa empatia por onde ele passou.

Mano Menezes de fato divide opiniões. Inclusive no seu atual clube.

Depois de visitar Dorival Júnior, ainda treinador do Santos em 2015, e Fábio Carille no Corinthians, antes do título Brasileiro de 2016, o DataESPN agora foi até Belo Horizonte para tentar dissecar o trabalho e as ideias de Mano Menezes em sua segunda passagem pelo Cruzeiro (primeira foi entre setembro e dezembro de 2015, antes de se aventurar no futebol chinês).

Dessa vez não tive a companhia de Paulo Calçade como em outras edições, mas o papo com o comandante cruzeirense rendeu quase uma hora na Toca da Raposa. Os assuntos foram do momento em que vive com o Cruzeiro, com muita cobrança e oscilação de desempenho, até expectativas para a Copa do Mundo de 2018.

Uma conversa só sobre futebol. Conceitos, ideias, sistemas, referências... Mano não se preservou em nenhuma resposta. Mais que isso: expos de forma bastante clara como pensa e vê futebol. Falou sobre sua visão do trabalho de Paulo Bento na própria Raposa, sobre seu planejamento para o time em três etapas e se posicionou pelas críticas que vem sofrendo por não praticar um futebol com mais posse.

Viu vídeos e análises do DataESPN, explicando momentos e ideias do seu atual Cruzeiro.

Não parou por aí. O treinador ainda firmou que o “brasileiro demorou para aprender defender”, se posicionou sobre o calendário brasileiro e falou sobre o que os treinadores mais jovens precisam para se firmar de vez no nosso mercado. Também analisou a qualidade do jogo no Brasil, jogadores que dão certo em um clube e em outro. Explicou de onde tirou seus conceitos de linha de 4, projetou Copa do Mundo, apesar de não concordar com tal “rixa”, viu como natural a resistência com novos termos e o estudo no futebol. Até sobre a imprensa, com quem já teve seus problemas, Mano Menezes se posicionou.

Veja na íntegra, nos três vídeos abaixo, a entrevista completa com o treinador:

CRUZEIRO, PROCESSO NO FUTEBOL, PAULO BENTO E ATACAR VS DEFENDER


CRÍTICAS POR NÃO ATACAR BEM NO CRUZEIRO, CALENDÁRIO, NOVOS TREINADORES E ATLETAS QUE NÃO DÃO CERTO


RESISTÊNCIA AO ESTUDO NO FUTEBOL, QUALIDADE DA IMPRENSA, CORINTHIANS, CARILLE E “O QUE É JOGAR BEM? ”

 

 

 

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Entrevista do mês - Mano projeta Copa do Mundo, diz que "brasileiro nunca gostou de defender" e fala sobre críticas no Cruzeiro: "Acho que são justas, podemos mais"

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A qualidade do jogo no Brasil sob a ótica de Grêmio x Atlético-PR: verdade absoluta ou contraponto?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Luan, do Grêmio, em meio aos jogadores do Atlético-PR na partida na Arena
Luan, do Grêmio, em meio aos jogadores do Atlético-PR na partida na Arena Divulgação / Grêmio

Enquanto Grêmio e Atlético-PR se enfrentavam em Porto Alegre uma enxurrada de manifestações sobre futebol, qualidade do jogo e coisas do tipo dominavam as redes sociais. Os românticos, apreciadores da posse de bola e da troca de passes, vibravam a cada tabela. Viam o que acontecia na Arena como uma sobrevida ao futebol brasileiro, cobrando mais ideias similares dos outros 18 clubes da Série A.

De um outro lado os críticos. Estes não viam a hora que uma saída de bola errada virasse gol para descer a lenha no tal “jogo suicida” que Fernando Diniz. Também teve gente que, tamanha a expectativa gerada para este confronto, esperava mais.

O debate caminhava por aí. Uma sequência imparável de 8 e 80, radicalismos e até amargura (sim, existem os que só reclamam, mas estes o fazem com absolutamente tudo, então segue o jogo).

E se tirarmos o zoom sobre o jogo e aumentarmos a visão para o todo? Colocar o foco em cima do que o futebol brasileiro nos oferece atualmente. Creio ser uma ótima oportunidade para falar da qualidade do jogo. Sobre o tal do jogar bem.

De fato, o duelo na Arena do Grêmio foi acima da média do que estamos acostumados a ver a cada rodada de Estaduais e Brasileirão. E isso não tem a ver apenas com um enfrentamento de duas equipes que priorizam a manutenção da bola, a construção ofensiva através de apoios e mobilidade. A questão são as ideias ali presentes. De tão raras aqui, elas encantam.

E em toda essa troca de opiniões, surgem as verdades absolutas. Uma espécie de ditadura. Imposições radicais, confrontos histéricos acompanhados de muita gritaria Coisas que, cá aqui entre nós, nunca são saudáveis em qualquer ambiente.

Eis que se começa: os seguidores de Guardiola e Sarri, por exemplo, acreditam que o verdadeiro futebol só se faz assim, tendo a bola. O resto simplesmente não presta. Afirmam que, plasticamente, só este tipo de jogo emociona. Se você tem outra opinião – neste caso outro gosto -, você apoia a mediocridade do nosso futebol e faz um desserviço a ele.

Aí aparecem os que preferem as defesas sólidas. O “busões” na frente da área. Estes acharam o máximo ver o Leicester controlando espaços e utilizando o jogo direto, ganhando a Premier League 15/16 na base dos contra-ataques. Vibram com a força mental e os fortes sistemas defensivos montados por Diego Simeone. Ficaram loucos com a forma que a Internazionale de José Mourinho eliminou o Barcelona de Guardiola na Champions League 09/10.

No fim das contas não existe (e não deve existir) a tal da verdade absoluta. O que Grêmio e Atlético-PR nos ofereceram, além de um ótimo jogo, foi um contraponto da nossa realidade. Aí sim algo importantíssimo e digno de todos elogios. E não tem nenhum problema o brasileiro exaltar o futebol praticado na Arena do Grêmio. Afinal, é o que nos falta (assista abaixo a análise do jogo feita no BB na Veia da última segunda-feira).

Vivemos sim um ciclo onde dominamos melhor o controle dos espaços e as organizações defensivas, mas, em vários momentos, não sabemos o que fazer com a bola. Por isso viramos um país reativo. Que se sente confortável em apenas devolver uma ação e nunca de tomar a iniciativa. Um futebol de uma nota só. Com pouco confronto de estilos.

A cultura do resultado, que abomina os nossos treinadores, os fazem (além de outras coisas, inclusive a falta de ideias em alguns casos) ter medo de arriscar. Alguns profissionais têm conteúdo, mas não conseguem passar isso para a prática. Outros não contam com respaldo para construir uma ideia maior. Mas tem, acima de tudo, os que simplesmente preferem X ou Y. Estão convictos que X é o melhor e ponto. Não vejo problema nisso. O clube que contrata, por sua vez, que saiba ler o perfil e, ao trazer, tenha consciência do que o treinador faz de melhor e tem como sua essência de trabalho.

Propor o jogo é se expor mais. Diminuir os riscos de sofrer um contra-ataque que mate o jogo, tendo a bola, sufocando o adversário, é mais difícil. Construir demanda tempo, criatividade, sintonia e relações muito além das técnicas, táticas ou físicas. Mas também humanas. Um simples passe, por exemplo, não é uma ação individual. São duas pessoas se conectando. O bom passe não sai só com o bom gesto técnico de quem está com a bola, ele precisa de uma boa colocação de quem recebe. Imagine então criar isso entre 11 seres diferentes. E entre 30?

Defender exige coordenação de movimentos. Um nível de concentração máxima. Espírito coletivo, de mentalidade forte e, principalmente, ajuda ao companheiro. Uma cobertura, por exemplo, é um gesto de solidariedade. Você ataca a bola na sequência de ver o “amigo” perder um duelo pessoal. Por isso encosta para ajudá-lo no objetivo geral, que é recuperar a bola. Acha que é fácil criar todo essa mentalidade e organização? Convencer talvez seja um dos grandes (e mais difíceis) papeis de um treinador.

Se destruir é mais difícil que construir? Talvez. Mas de fato nenhum é fácil. No futebol de alto nível, nada é simples ou mágica.  

Existem inúmeras maneiras de ganhar e perder. E jogar bem, no fim das contas, é executar com excelência aquilo que foi proposto. Colocar em prática o que foi treinado e planejado na semana que antecede a partida. Se você quer ter a bola e faz mau uso dela, você está jogando mal. Se sua ideia é jogar reagindo e você não encaixa um mísero contra-ataque, também não tem desempenho aí. Não existe o bom ou ruim. Não tem essa de certo ou errado. É escolha.

Jogar bonito já são outros quinhentos. É totalmente pessoal. Cada um vê beleza de uma forma. Retranca, jogo apoiado, contra-ataque, cruzamento... É gosto. E sabemos bem que gosto é que nem...

Neste espaço a defesa será sempre por um futebol com ideias, independentemente de quais sejam elas. Tenho meu gosto e meu apreço por um estilo, mas a minha briga sempre será contra o jogo aleatório, pobre e a não aceitação do conhecimento. Equipes que fazem por fazer, que não apresentam nada conceitualmente. As zonas, para falar português claro.   Renato Gaúcho e Fernando Diniz nos mostram que dá para fazer diferente. Que o jogo que praticam não é uma verdade absoluta. Mas que a diversidade no futebol é a chave para o crescimento. Que confrontar ideias é o melhor caminho para evoluirmos por aqui.

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Ter ou não a bola no Allianz, eis a questão: o que o Palmeiras pode esperar do Boca nesta quarta?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Tevez  e Gustavo Barros Schelotto, treinador do Boca Juniors
Tevez e Gustavo Barros Schelotto, treinador do Boca Juniors EFE/NICOLÁS AGUILERA

O Boca Juniors chega ao Brasil para enfrentar o Palmeiras falando em, pelo menos, pontuar no Allianz Parque. Depois de um empate e uma vitória na Libertadores, os argentinos, como esperado, se apresentam como a grande força do grupo ao lado dos alviverdes. Fruto não só da tradição xeneize na competição continental, mas também do alto investimento feito nas últimas janelas em busca de novos triunfos pela América.

Capacidade de contratação, inclusive, que pode ser comparada à do Verdão. Sem dúvidas dois dos clubes que mais investiram nos últimos anos aqui no continente. Formando elencos não só qualificados, mas também numerosos. Tudo em busca de sonhos maiores.

Nahitan Nández (Peñarol-URU), Emmanuel Más (Trabzonspor-TUR), Paolo Goltz (América-MEX), Ábila (Cruzeiro), Reynoso (Talleres-ARG), Buffarini (São Paulo), Tevez (Shenhua-CHN) e Cardona (Monterrey-MEX) foram as últimas chegadas na Bombonera. Investidas que, apesar de não firmar todos como titulares, dá à equipe xeneize a liderança tranquila do Campeonato Argentino, com sete pontos à frente do Godoy Cruz.

Melhor ataque do seu campeonato nacional com 40 gols marcados e a segunda melhor defesa ao lado do Independiente, com 15 tentos sofridos, o Boca vê o título encaminhado. Entre o meio e o final do ano passado, emplacou uma série de nove vitórias consecutivas e, mesmo oscilando nas últimas rodadas, vive uma situação relativamente tranquila.

Entre lesões e suspensões, mas também por decisões técnicas, o treinador Guillermo Barros Schelotto, ex-jogador e ídolo do clube, tem rodado o elenco nos últimos compromissos. Ainda busca uma alternativa para o centroavante Benedetto, artilheiro da equipe com 9 gols e que segue lesionado. Entre Tevez, Walter Bou e Ábila, deve optar pelo ex-cruzeirense para iniciar o jogo na capital paulista. O trio tem se alternado, mas ninguém virou unanimidade até aqui.

Pérez, Reynoso e Nandéz também se revezam no meio campo, geralmente com a companhia do bom colombiano Wilmar Barrios. Apesar de não ter grande estatura e imposição física, é ele o volante que atua à frente da linha defensiva protegendo a área.

Se olharmos para a plataforma de jogo usada nas últimas partidas, pouca variação. As trocas ficam sempre entre o 4-3-3 (4-1-4-1 sem a posse) ou o 4-2-3-1. Todos sistemas praticamente “irmãos”, que mudam com ajustes bem sutis. É nítido que existe ali um modelo firmado e uma ideia pré-estabelecida. Me surpreenderia se algo diferente disso aparecesse nos minutos iniciais da partida contra o Palmeiras.

Em solo argentino fala-se muito na seguinte escalação para enfrentar os alviverdes: Rossi; Jara, Goltz, Magallán e Fabra; Barrios, Pablo Pérez e Reynoso; Pavón, Abila e Cardona. Se olharmos para último jogo disputado (derrota em casa para o Defensia por 2x1), são oito os atletas que serão mantidos. Neste caso os que saem são: Buffarini, Nandéz e Bou. Com essas peças, o posicionamento de Pérez, mais adiantado ou alinhado a Barrios, vai definir o sistema. Carlitos Tevez, ao que tudo indica, começa no banco após voltar de lesão. 

 

PADRÕES COM BOLA

O Boca Juniors é, de fato, uma equipe que gosta de ter a bola. Dentro do Campeonato Argentino é o time com a segunda maior média de posse com 55,3% - perde apenas para o rival River Plate. Claro que o poderio técnico e financeiro é mais que relevante neste contexto, principalmente para se tomar a iniciativa dentro dos jogos domésticos, mas a equipe de Schelotto tem alguns padrões posicionais e de movimentos bem claros quando está em organização ofensiva. Resta saber se, contra o Palmeiras, fora de casa, eles vão manter a ideia de controlar com posse ou se vão ajustar uma outra estratégia.

Quando se instala no campo do adversário, os xeneizes iniciam as jogadas sempre com os zagueiros Goltz e Magallán. Barrios também encosta e por vezes tem a ajuda de um dos meias centrais mais avançados. No entanto, são os três primeiros citados que, além de construir o jogo por trás, são designados a ficarem a postos para defender enquanto o time ataca (veja na imagem abaixo).

Boca instalado no campo do rival: Barrios à frente dos zagueiros, laterais abertos e pontas por dentro
Boca instalado no campo do rival: Barrios à frente dos zagueiros, laterais abertos e pontas por dentro DataESPN

Normalmente são os laterais Fabra e Jara que buscam abrir o campo para gerar amplitude (imagem acima mostra isso). Avançam e, espetados, geram até profundidade em determinados momentos. Com isso, cabe aos pontas Pávon e Cardona flutuarem mais pela região central, se juntando à Reynoso e Pérez. Com isso, eles formam trios pelos lados do campo (lateral + meia + ponta do mesmo setpr) para triangular e avançar pelo campo. Por vezes é Pávon que fica rente à linha lateral. Neste momento, Jara faz a ultrapassagem por dentro. É uma troca que costuma acontecer. Pela esquerda já é mais difícil, justamente pelas características dos atletas.

Pela direita Pavón é o típico ponta. Velocidade, 1x1 e muita verticalidade em seus movimentos. Gera volume mais com jogadas agudas, não tem grande perfil de organizador. Apesar de ser o maior assistente do Campeonato Argentino (8 passes para gol no total), o jovem e promissor camisa 7 ainda peca um pouco nas tomadas de decisão. Já pela esquerda, Cardona é mais meia em sua essência. Faz o papel de “ponta-construtor”, saindo da beirada para gerar tabelas e associações por dentro. O fato de ser destro facilita tais movimentos do colombiano, que tem muita qualidade técnica, além de força e imposição física. Também chuta bem de fora da área, mas não chega a ser um atleta de grande mobilidade.

Por dentro, Reynoso e Pérez são meio-campistas leves. Pouca estatura e força, mas muita dinâmica para fazer a bola rodar. Jogadores que dão ritmo ao time e que precisam ser pressionados para não pensarem o jogo. Mais à frente, a entrada de Ábila tende a dar mais imposição física na área. Com bom pivô e jogo aéreo, o camisa 17 já é um velho conhecido de nós brasileiros.

Apesar de buscar um jogo mais apoiado e propositivo, o Boca também encaixa boas transições ofensivas. Normalmente é Pavón o grande escape para estas saídas rápidas. O ponta de 22 anos tem boa leitura para atacar espaços quando a bola é retomada e costuma ter velocidade na condução da posse, chegando rapidamente na área adversária.

 

PADRÕES SEM BOLA

Ao olhar para os últimos jogos uma coisa fica bem clara: o Boca tem sido uma equipe que joga e, ao mesmo tempo, deixa os adversários jogarem. E talvez o maior calcanhar de Aquiles nos seus últimos compromissos pelo Campeonato Argentino tem sido os contra-ataques.

Ao se instalar no campo do rival, os comandados de Schelotto não têm mostrado boas reações à perda da posse e, normalmente com a linha defensiva mais alta, sofrem no retorno para atrás da linha da bola. Barrios e zagueiros (que estão longe de ser rápidos) são atormentados com jogadas em velocidade, sempre correndo para trás e tendo, em muitos os casos, superioridade ou igualdade numérica do oponente (veja na imagem abaixo).

Defensia, última adversário, encaixa contra-ataque e chega em igualdade numérica. Os dois gols da vitória foram assim
Defensia, última adversário, encaixa contra-ataque e chega em igualdade numérica. Os dois gols da vitória foram assim DataESPN

O trio de meio de campo, apesar de ter qualidade técnica e mobilidade, sofre com o jogo mais físico. Não é capaz de se impor neste sentido e, geralmente, lançamentos mais diretos, que necessitam de vitórias em 1ª e 2ª bolas, acabam sendo perdidos e decisivos para estas escapadas em velocidade dos adversários.

Outra questão que o Palmeiras pode se aproveitar no duelo desta quarta-feira são os espaços entrelinhas deixados pelos argentinos. Por vezes é possível ver os setores pouco compactos sem a bola (veja na imagem abaixo). Barrios, entre as duas linhas de quatro afastadas, fica bastante sobrecarregado. Um passe mais vertical neste espaço pode ser determinante na criação de chances.

Entre Barrio e a linha defensiva do Boca: são três adversários se colocando no espaço
Entre Barrio e a linha defensiva do Boca: são três adversários se colocando no espaço DataESPN

Com bastante mobilidade dos meias e atacantes alviverdes e, principalmente, usando a forte saída de Felipe Melo, capaz de dar esse passe que quebre a primeira linha de marcação, o Palmeiras pode gerar bastante volume ofensivo e bolas em profundidade para Borja.

O lado esquerdo, com o muito ofensivo Fabra e o pouco intenso Cardona, também pode ser um caminho importante a se explorar. O lateral costuma avançar bastante e o meia aberto, sem grande resistência física, tende a não recompor com grande regularidade.

Essa falta de compactação acaba por ser um problema até em disputas de tiro de meta, por exemplo. Perdido estes duelos no meio de campo, dificilmente a linha de meias/pontas participará da 2ª bola e muito menos será capaz de bloquear o ataque, já que estará à frente da linha da bola (veja na imagem abaixo).

Contra o San Lorenzo, vemos os setores do Boca bastante espaçados
Contra o San Lorenzo, vemos os setores do Boca bastante espaçados DataESPN

A bola parada defensiva também tem sido um tormento pelos lados da Bombonera. Nos últimos três jogos pelo torneio nacional foram dois gols sofridos desta maneira (Tucuman e Talleres).

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A eletricidade do Liverpool "modo NBA" e a cara de um treinador em 45 minutos de Champions

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Klopp x Guardiola: alemão levou a melhor na vitória sobre o City
Klopp x Guardiola: alemão levou a melhor na vitória sobre o City Getty


Se para muitos (inclusive eu) o Manchester City é o time que melhor pratica futebol na atual temporada europeia, o Liverpool pode ser apontado como o time que fez o melhor primeiro tempo do ano até aqui. E foram estes 45 minutos alucinantes contra a equipe de Pep Guardiola que garantiram a ótima vantagem de 3x0 para a partida de volta, no Etihad Stadium, semana que vem, pelas quartas de final da Champions League.

O melhor estilo Jurgen Klopp esteve presente como nunca em Anfield: pressão, pressão e pressão na bola! Transições rápidas e muita intensidade nas ações com/sem a bola. Um Liverpool elétrico. Um Liverpool que encurralou um adversário forte em todos os aspectos e se fez grande na primeira parte do duelo inglês na competição continental.

Ganha a posse, transição! Perda a bola, transição! Recupera, perde, acelera, transição, transição e transição! Essa foi a tônica do jogo imposto pelo Liverpool. Situações que lembravam grandes partidas da NBA. Afinal, basquete em alto nível é jogado com transições cada vez mais organizadas, inclusive servindo, e muito, como estudo para o futebol. Trocas de fases do jogo contínuas, ataque aos espaços e muita concentração no plano de jogo. 

Tanto que pouco se viu na primeira etapa os donos da casa instalados em seu campo, em organização defensiva. As reações após a perda da bola eram instantâneas e organizadas, deixando o City praticamente sem reação em muitos momentos.

Foi um tempo de forte trocação de golpes. O problema é que só um dos times acertava de fato as partes vitais do rival. Sabe aquele amigo que não sabe brincar? Você vai lá e dá um tapinha nele na brincadeira e ele devolve com um murro de mão fechada? Perguntas e respostas desproporcionais. O City praticamente nas cordas.

Talvez o grande erro da equipe de Manchester foi iniciar a partida também tentando acelerar o jogo. Feito isso, deixou o Liverpool em seu habitat natural, com um cenário perfeito para impor as suas melhores características.

A impressão era que, a cada investida de De Bruyne, Silva, Jesus & Cia., o time da casa respondia com uma velocidade dobrada. Essa perda e recuperação da bola, abrindo espaços na defesa adversária, deixou o Liverpool confortável no jogo, potencializando o que tem de melhor: a velocidade e a mobilidade do trio Firmino, Mané e Salah.

E o primeiro gol já deu a letra do que seria essa noite mágica para os torcedores vermelhos. Retomada da posse, Salah no limite da linha defensiva do City (até me parecendo impedido, inclusive), poucos toques e bola rápida na diagonal de Firmino. Dois minutos depois Salah (que temporada!) já fazia o movimento contrário. Acompanhava um contra-ataque do rival, fechando o passe em De Bruyne e percorrendo quase o campo inteiro para defender a sua meta. A essência do que Klopp sente futebol, tudo que foi praticado pelo Borussia Dortmund em seus melhores momentos na Alemanha.   

Em 2013, Klopp e Götze dividiam espaço no Dortmund
Em 2013, Klopp e Götze dividiam espaço no Dortmund Getty


A pressão forte não sessava. Vimos momentos em que os zagueiros Lovren e Van Dijk davam botes nos atacantes do City quase que na entrada do terço ofensivo (deles) do campo. O suprassumo do conceito de “ataca marcando”. Explico o termo: seu time está atacando, os jogadores que ficam na retaguarda (balanço defensivo), ao invés de assistirem seus companheiros tentarem o gol, eles já se posicionam e ficam encaixados em possíveis escapes do rival. Quando estes oponentes recebem ou tentam receber a bola para acelerar um contra-ataque, estes atletas (normalmente zagueiros e um dos volantes, justamente o que não sobe tanto) estão prontos para atacar a bola, seja para recuperá-la ou matar a jogada com uma falta.

Enquanto isso, o Manchester City saia cada vez mais do eixo. Vários de seus jogadores, principalmente Sané, vivendo uma noite bastante infeliz. Tomadas de decisão erradas, erros técnicos no gesto do passe ou chute, movimentos sem bola incorretos... Ficou claro que todos de azul claro ali não viam a hora do árbitro determinar o fim do primeiro tempo. Só assim para estancar tamanha tortura vivida em campo até então.

O contexto do Liverpool – e do jogo, naturalmente – mudou bastante na segunda etapa. Era impossível manter o mesmo ritmo imposto no tempo anterior. O jeito foi baixar um pouco mais o bloco defensivo e, ao invés de atacar a bola no campo todo, cuidar melhor dos espaços. Compactado, o time de Klopp pouco sofreu. Já sem Salah e Firmino no fim da partida, tão pouco conseguiu explorar contra-ataques, mas nunca deixou de ter o controle. Só teve as rédeas da partida de uma forma diferente. Mas teve.

De fato as críticas sobre a escalação de Guardiola são bastante consistentes. Principalmente a escolha por Laporte na lateral-esquerda quando o time defendia. Justo no setor do Salah. Mas o segundo tempo, apesar da maior posse, foi de pouca efetividade. Longe do desempenho e da regularidade que vinha tendo durante a temporada até então. Um apagão de 90 minutos que pode custar caro na próxima semana.

Já Klopp deve ter saído do campo anestesiado. Se é que ele não vai dormir por lá mesmo. Intenso a cada gesto, reclamação ou comemoração, o alemão viu sua face em seu Livepool. Foi protagonista contra um protagonista. E isso não tem preço para quem está lá dentro. 

Jurgen Klopp é um personagem peculiar. E é maluco. É só olhar para sua cara para constatar que se trata daquele “doidão do bem” que todos gostam. O tipo de jogo que gosta de praticar é tão insano quanto. Por isso é tão difícil. Pressão, pressão e pressão... Parecia um time com 22 jogadores em campo. E quando essa eletricidade toda encaixa, quase ninguém acompanha. 

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O desafio contra a linha de 5, as ideias e a execução: como foi o desempenho da Seleção Brasileira contra a Rússia?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Tite comanda treino da seleção Brasileira. E ainda tem muito trabalho pela frente
Tite comanda treino da seleção Brasileira. E ainda tem muito trabalho pela frente Mowa

A Copa do Mundo se aproxima e tudo o que acontece daqui para frente tende a ser cada vez mais decisivo. Treinamentos, jogos, convocações... Tite, por sua vez, trabalha forte em cima de uma das maiores tendências do futebol mundial: a linha defensiva com 5 jogadores. Como enfrentar e furar tal organização que será recorrente no torneio? Que tipo de movimentos buscar e treinar? Quais características se apoiar para o desafio?

Depois de um difícil embate contra uma sólida Inglaterra e o 0x0 em Wembley – momento que inclusive despertou de maneira mais efetiva essa preocupação no treinador brasileiro –, agora um teste contra a Rússia, também com o sistema com três zagueiros, e uma vitória por 3x0. Momentos que são determinantes para uma compreensão e, principalmente, o desenvolvimento destes novos mecanismos para enfrentar diferentes ideias e conceitos que o Mundial vai oferecer.

Se olharmos sob uma ótica apenas em cima do desempenho voltado para essa ideia, a Seleção Brasileira voltou a sofrer na tarde desta sexta-feira. Pegou um adversário que, se por um lado faltava qualidade técnica, por outro mostrava bastante rigidez defensiva, com jogadores físicos e, principalmente, concentrados. O primeiro tempo mostrou bastante isso e a forte bola parada brasileira, que vai ser importante na competição, foi crucial para a vitória.

Mas se tem uma diferença do jogo contra os ingleses para este, ela está nas ideias. Tite mostrou uma maior mobilização para defrontar tal sistema, que congestiona a entrada da área e faz vítimas mundo à fora. As saídas buscadas para o confronto foram bastante interessantes. A execução delas, por sua vez, demonstrou alguns problemas, principalmente na naturalidade dos movimentos de alguns jogadores.

Assim como a Inglaterra, a Rússia manteve dois jogadores mais adiantados e se defendeu no 5-3-2 sem a bola. Os anfitriões da Copa foram mais agressivos sem a posse. Enquanto o último rival controlava mais espaços, o time russo foi mais intenso e buscou mais o contato físico, bem característico na sua cultura de futebol.

Quando tinha a bola, o Brasil buscou abrir o campo ao máximo. A lição no Reino Unido foi aprendida. E a ideia era fazer isso com os pontas. Willian e Douglas Costa, mais agudos, tinham que se manter na linha lateral para tentar abrir espaço entre os cinco jogadores russos alinhados.

Enquanto isso, Daniel Alves e Marcelo teriam que trabalhar mais por dentro. E faz sentido, já que ambos são laterais mais construtores, com facilidade no jogo curto, em trabalhar sob pressão. Mas a execução não foi totalmente efetiva. Dani até se posicionou assim na maior parte do tempo, mas Marcelo, em vários trechos do jogo, bateu na mesma região de Douglas. Simplesmente não se sentiu à vontade para centralizar as jogadas. No fim das contas, ambos laterais se associaram pouco com os jogadores de meio. Realmente não foram bem.

Sem a bola, tanto Marcelo quanto Daniel Alves foram mal nas transições defensivas. Demoraram a sustentar na linha defensiva e a Rússia criou algumas boas situações neste sentido. A presença de Casemiro, mais fixo e saindo pouco enquanto o time atacava, fez com que o estrago não fosse maior.

Brasil comemora um dos gols da vitória sobre a Rússia ALEXANDER NEMENOV/AFP/Getty Images
Brasil comemora um dos gols da vitória sobre a Rússia ALEXANDER NEMENOV/AFP/Getty Images ALEXANDER NEMENOV/AFP/Getty Images

Ainda na construção do jogo, a Seleção usou pouco a bola em profundidade pelo alto. Quando o fez – lance de Dani no Gabriel Jesus logo no início da partida é um bom exemplo – criou situações interessantes. Tite já havia detectado que o Manchester City de Guardiola, que defronta muito estes sistemas, usa muito deste artifício para furar tais barreiras. É um diagnóstico importante feito pela comissão técnica, mas que ainda não está totalmente amadurecido.

Coutinho, testado por dentro e não como um ponta mais armador (posição que arrebentou no Liverpool), também não fez uma boa primeira etapa. Não foi o controlador que o meio de campo exigia. Foi mais infiltrador que organizador. Na segunda etapa, com mais espaço e buscando faixas diferentes, melhorou.

Não existe dúvidas que tais observações devem ser feitas com bastante meticulosidade pela comissão técnica. Assim como a pouca participação de Casemiro na construção do jogo, o que tirava outros jogadores de suas respectivas faixas do campo para buscar jogo, engessando a criação de jogadas. A circunstância do jogo pedia alguém saindo com passes mais agudos. E o volante do Real Madrid tem capacidade para fazer isso. Fernandinho, seu reserva imediato, tem grande facilidade para tais ações.

Outra situação bastante evidente para se analisar foi a saída de bola. A Rússia, que alternou bem a pressão média e alta, criou problemas na iniciação das jogadas do Brasil. Estes momentos poderiam ser usados como arma dentro do confronto com a estratégia de atrair o adversário e, com a bola tirada da pressão, ganhar campo e profundidade para atacar em velocidade.

Ficou evidente que, quando a Seleção teve espaço para atacar, principalmente com duelos no 1x1 ofensivo, o jogo ficou mais fluente. E foi aí que a Rússia se quebrou totalmente no segundo tempo.

Tal constatação, mostra muito do que somos como essência de futebol. De fato, temos jogadores e uma cultura de explorar o drible e a velocidade. Tenho a sensação que, quando somos mais reativos, somos mais letais. Inclusive deixo tal reflexão aqui para quem lê (comentem). Temos mesmo a obrigação de propor? Devemos fazer isso sempre? Qual o melhor caminho para “performar” na Copa? Confesso que tenho minhas dúvidas. E vou esperar mais um pouco para formar uma opinião mais definitiva.  

Sem a bola ficou nítido que o ajuste precisa ser na transição defensiva. Foi neste ponto que o adversário mais criou. Como dito acima, os laterais precisam reagir mais rápido à perda da bola. O conceito de pressionar a bola logo após a perda, algo muito cobrado por Tite, mostrou boa regularidade num âmbito geral. Foram vários momentos de perda e retomada rápida. Inclusive com os zagueiros encurtando nos escapes russos, preparados para pressionar nas tentativas de contra-ataques. Tais ideias, principalmente nos 30 primeiros minutos, funcionaram de forma bastante coesa e precisam ser mais regulares nos 90 minutos.

Quando se instalou no campo defensivo, já organizado no 4-1-4-1, a Seleção reagiu bem. Controlou bem os espaços e quase não deu chances para a Rússia. Foram poucas infiltrações.

O Brasil vive um momento de preparação. Tudo que acontece agora é importante, mas não precisa ser definitivo.  É o momento do ajuste, dos testes e de lapidar convicções. Nem céu, nem inferno. De olho nas ideias, mas também na execução. Esse é o caminho.

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O desafio contra a linha de 5, as ideias e a execução: como foi o desempenho da Seleção Brasileira contra a Rússia?

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Organização, rigidez defensiva e competitividade: o que esperar de Diego Aguirre no São Paulo?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Diego Aguirre, na vitória do San Lorenzo sobre o Flamengo, com Zé Ricardo ao fundo
Diego Aguirre, na vitória do San Lorenzo sobre o Flamengo, com Zé Ricardo ao fundo Getty

Diego Aguirre inicia a partir desta quinta-feira seu terceiro trabalho como treinador no Brasil. Após ver seus processos serem quebrados em Inter e Atlético-MG de maneira até meio que precoce – nos dois casos não vi grandes motivos para a demissão – agora o uruguaio tem o instável São Paulo pela frente.

Sem dúvidas trata-se de um dos maiores desafios de sua carreira. Não pela grandeza da equipe paulista (isso não se discute), mas por um cenário totalmente desgastado com 25 trocas de comando nos últimos 10 anos. De referência em organização dentro e fora de campo, o time do Morumbi hoje não tem sequer uma identidade, uma forma de jogar estabelecida nos últimos anos. Vem ano e passa ano, nada de títulos, nada de competir por eles.

A pressão e insatisfação da torcida só cresce. Elencos montados e desmontados seguidamente, treinador chega, treinador cai... Uma bola de neve que não para de rolar e crescer. Uma ausência de lucidez que parece ser eterna para o são-paulino.

Mas o que o torcedor tricolor pode esperar de Aguirre dentro das quatro linhas? Enfim o São Paulo escolheu bem? O uruguaio pode ser a pessoa que estabeleça um DNA na forma de jogar da equipe? Quais são seus conceitos e ideias? Que tipo de futebol pratica?

Apesar de usar algumas referências das suas passagens por Belo Horizonte e Porto Alegre, usei como referência seu último trabalho. Ao analisar mais afundo o seu San Lorenzo, onde esteve de junho de 2016 até setembro de 2017, acredito ser o mais justo. Pela proximidade das ideias. Afinal, todos nós estamos em uma mudança contínua certo?

Bom, a primeira questão que precisamos clarear ao traçar o perfil do novo comandante tricolor é constatar que sim, o São Paulo trocou limão por melancia mais uma vez. Sai de Dorival, que tem como ideias de jogo ter a bola, propor e circular a bola com mais paciência, para um profissional que tende a ser mais reativo na sua forma de jogar. Aguirre é um treinador mais pragmático – e isso, apesar do tom pejorativo para muitos, tem lá suas vantagens.

Em todos seus trabalhos até aqui o uruguaio se mostrou um treinador adepto de uma estrutura mais rígida dentro de campo. Ou seja, prioriza a organização, principalmente sem bola. Busca sempre uma estrutura sólida, difícil de ser furada. Não abre mão (POR NADA!) da intensidade. Suas equipes são extremamente agressivas sem a posse da bola. Competem, competem e competem. Simplesmente não existe negociação neste sentido.

Tem uma veia mais estratégica. Um perfil que se adapta às necessidades de cada jogo e adversário. Busca sempre usar uma proposta de acordo com o que vem pela frente. Para isso roda peças e vária alguns sistemas. Uma das suas grandes marcas, inclusive, é aumentar a pressão na bola nos 15 primeiros minutos de jogo, buscando sufocar os adversários e já sustentar uma vantagem no placar para poder controlar melhor o jogo no restante do tempo. Fora de casa, por outro lado, consegue truncar o ímpeto do rival para, no momento certo, atacar suas deficiências. De fato, consegue ter boas leituras neste sentido. Contra o Lanús, na Libertadores, em casam, por exemplo, não pressionou alto de início. Entendia que Jorge Almiron e seus comandados, como modelo, tinham a ideia de atrair o adversário e atacar profundidade com jogadores eliminados na primeira etapa de construção.

Diego Aguirre tem alguns sistemas bem estabelecidos nos últimos anos. De uma forma geral circula entre o 4-2-3-1, o 4-1-4-1 e o 4-4-2, principalmente sem a bola. Na verdade são todas plataformas “irmãs”, que não exige uma grande ruptura na ideia para variar. Um ajuste, uma troca de peça. Não chega a ser mudanças drásticas de estrutura.


Em seus últimos jogos pelo San Lorenzo, Diego Aguirre usou o sistema 4-1-4-1
Em seus últimos jogos pelo San Lorenzo, Diego Aguirre usou o sistema 4-1-4-1 DataESPN

Suas equipes jogam muito sem a bola. Inclusive controlam jogos assim. Marca de forma zonal, mas com encaixes por zona que implicam em pressionar sempre o homem da bola. Sempre com muita agressividade. Estes pequenos encurtamentos de espaço no campo, por muitas vezes, quebra a saída de bola dos adversários. E isso independe de estar em bloco alto, médio ou baixo (faixa do campo que você começa a marcar). Seus times fazem isso muito bem. Bloqueiam a circulação, forçam o erro e, na recuperação da bola, aceleram em direção à área adversária para concluir o mais rápido possível.

San Lorenzo faz pressão na bola, recupera a posse e acelera para empatar o jogo contra o Cipolletti
San Lorenzo faz pressão na bola, recupera a posse e acelera para empatar o jogo contra o Cipolletti DataESPN

Jogando contra o Racing, em casa, o Ciclón de Aguirre sobe a marcação e encaixota a saída de bola do adversário
Jogando contra o Racing, em casa, o Ciclón de Aguirre sobe a marcação e encaixota a saída de bola do adversário DataESPN

Para manter sempre o portador da bola desconfortável em cada execução ou tomada de decisão, Aguirre libera muito seus laterais a desgarrarem da linha defensiva. Se a bola entra do lado, ambos pressionam e perseguem distâncias maiores. Os zagueiros, por sua vez, são mais podados neste sentido e sustentam mais a linha. Se a bola sai do setor deles, retornam e cuidam do espaço.

Quando o adversário inicia as jogadas com bola no chão, o San Lorenzo treinado pelo novo treinador são-paulino buscava o conceito do “direcionamento”, que tem como objetivo induzir o rival a progredir seu jogo em uma determinada faixa do campo. Neste caso, a ideia sempre foi de jogar a bola para o lado do campo, onde sua equipe busca pressionar a posse com superioridade numérica, fechando as linhas de passe para frente.

Veja na imagem, como o San Lorenzo direciona a saída do Lanús pelo lado do campo e fecha o setor. Mais atrás, lateral e zagueiro quebram a linha para
Veja na imagem, como o San Lorenzo direciona a saída do Lanús pelo lado do campo e fecha o setor. Mais atrás, lateral e zagueiro quebram a linha para DataESPN

Neste momento, como vemos na imagem acima, os laterais costumam ter mais liberdade para quebrar a linha defensiva e encurtar o espaço no ponta ou meia que cai pelo seu setor. Aguirre gosta de manter a linha de 4 sempre estruturada – geralmente não joga com ela tão estreita – mas, por outro lado, sofre com algumas quebras de laterais e zagueiros. Busca estruturar boas linhas de coberturas, mas para isso, em vários momentos, precisa liberar uma subida maior do zagueiro no campo adversário. São momentos que, numa tirada rápida da pressão, o time acaba desequilibrado defensivamente e cedendo espaços em profundidade para o rival atacar.

Linha defensiva da equipe de Aguirre sustentada mas, pela direita, lateral sai para caçar o adversário
Linha defensiva da equipe de Aguirre sustentada mas, pela direita, lateral sai para caçar o adversário DataESPN

Ainda em cima do comportamento sem bola, outra situação bastante usada pelo uruguaio em sua passagem recente pela Argentina são as subidas de pressão em cobranças de laterais. Como vemos na imagem abaixo, ele fecha o setor da batida e praticamente encaixota o rival em um pequeno espaço. Tudo isso para disputar e ganhar as 1ª’s e 2ª’s bolas. Na segunda foto, no entanto, um risco que se corre nestes momentos: o time sobe, mas para manter certa cautela, o restante da linha defensiva fica mais recuada. Caso essa bola saia dessa zona de pressão, serão poucos jogadores para duelos individuais e muito campo para o rival se projetar. Tal ideia, inclusive, persiste com bola rolando. Raramente Aguirre sobe seus zagueiros. Prefere sempre mantê-los num avanço intermediário, justamente para cortar campo do adversário atacar nas costas da linha.

Vemos o Lanús batendo o lateral no seu campo defensivo e oito jogadores do San Lorenzo pressionando o setor
Vemos o Lanús batendo o lateral no seu campo defensivo e oito jogadores do San Lorenzo pressionando o setor DataESPN

Na sequência do lance acima, vemos a linha defensiva metade no setor da bola e metade profunda, gerando um espaço central para o adversário
Na sequência do lance acima, vemos a linha defensiva metade no setor da bola e metade profunda, gerando um espaço central para o adversário DataESPN

Com a bola os times de Aguirre também mostram alguns padrões mais claros, principalmente no San Lorenzo. Prefere uma construção ofensiva mais vertical. Inclusive usando a bola longa em profundidade em alguns momentos. A ideia é sempre passar para frente. E rápido.

Para isso, algo bem nítido no seu último trabalho era o primeiro passe rompedor saindo dos pés dos zagueiros. Visando essa primeira quebra da marcação, usa apoios “entrelinhas” – entre os zagueiros adversários e as costas dos volantes. Quando a bola mais aguda entra no setor, a posse tende a ser ainda mais vertical, seja com infiltrações ou mesmo chegadas no fundo para cruzar, visando sempre preencher a área com bastante jogadores para concluir. As chances de gols, geralmente, são sempre construídas com poucos passes.

Zagueiro tem a bola e acha o companheiro entre as linhas de marcação do Lanús
Zagueiro tem a bola e acha o companheiro entre as linhas de marcação do Lanús DataESPN

Para abrir o campo, gerar amplitude e tentar criar espaços nos sistemas defensivos dos rivais, o novo treinador do São Paulo costuma usar seus laterais. Com isso vê pontas, meias e volantes circulando por dentro. Abrindo linhas de passes e gerando apoios rápidos.

É muito habitual também as tentativas de triangulações pelos lados do campo. Meia, ponta e lateral se aproximam e, em passes curtos e rápidos, tentam levar a bola à frente. A ideia é gerar superioridade numérica no setor e, com muita mobilidade, atacar espaços em profundidade.

San Lorenzo projeta três jogadores pelo lado do campo e tenta a triangulação para progredir no campo adversário
San Lorenzo projeta três jogadores pelo lado do campo e tenta a triangulação para progredir no campo adversário DataESPN

Se olharmos de uma maneira geral, os times de Aguirre são muito mais estruturados defensivamente do que com a bola – algo bem recorrente no futebol praticado aqui no Brasil. Os seus últimos trabalhos mostram alguma dificuldade para criar, principalmente quando não tem essa bola roubada um pouco mais avançada, que pega o adversário desequilibrado em seu campo. Muito por isso, traz consigo um histórico de bolas paradas ofensivas bastante interessante. No Ciclón, por exemplo, criou muitas chances e viu sua equipe marcar bastante gols desta forma.

Aguirre traz consigo conceitos e uma identidade de jogo que são fáceis de se observar. Características que podem ser importantes para o momento em que o clube passa. Dar solidez defensiva e recuperar a confiança para, lá na frente, incrementar o jogo ofensivo? Pode ser. Por outro lado, como dito acima, o uruguaio não negocia completividade e entrega. E a intensidade, definitivamente, não vem sendo a característica do elenco, principalmente se olharmos para os atletas mais rodados e que chegaram com um status mais elevado. 

 O seu grande desafio, sem dúvida alguma, será estimular tais comportamentos sem bola nos seus jogadores. E arrisco a dizer: quem não competir em campo, tem sérios riscos de não jogar. O recado, apesar de bem sutil, foi dado logo na sua chegada. É esperar para ver.

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O contexto coletivo e a melhora individual: por que o desempenho de Felipe Melo cresceu tanto em 2018?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN

Felipe Melo iniciou 2018 com ótimo desempenho com a camisa do Palmeiras
Felipe Melo iniciou 2018 com ótimo desempenho com a camisa do Palmeiras Gazeta Press

Uma das premissas para quem atua ou gostaria de atuar como observador técnico no futebol (o antigo olheiro) é que nunca devemos tirar uma conclusão permanente sobre um atleta sem considerar o ambiente que ele está inserido. Tal abordagem, inclusive, dá a convicção que diversos jogadores tidos como ruins pela opinião pública, na maioria dos casos, está dentro de um contexto que não potencializa ou extrai ao máximo de suas qualidades. 

Quantas vezes seu time ou mesmo os rivais trouxeram aquele atacante que todo mundo queria e simplesmente não deu certo? Fez gols por onde passou, sempre jogou bem... Mas fracassou no novo clube. Certamente todo mundo tem uma história dessa para contar. É algo muito recorrente, principalmente no cenário do futebol brasileiro, onde contratações são feitas muitas vezes sem ao menos ter uma forma de jogar definida.

O que esquecemos, na maioria das vezes, é que aquela maneira de jogar imposta pelo treinador pode ter sido uma das razões para um desempenho abaixo das expectativas - digo uma das razões, pois são inúmeras as variáveis neste caso. Um exemplo claro são pontas de extrema velocidade que fazem campeonatos impecáveis em equipes menores. Seu antigo clube quase sempre atua mais fechado e apostando em contra-ataques. Ao chegar em um time que normalmente propõem o jogo, muito por conta do adversário, que além de abrir mão da bola, quase nunca dá espaços para correr, o atleta sucumbe e vira uma aposta furada.

Mas existe um atleta neste início de temporada que inspira este post: Felipe Melo. Contratado cheio de pompa no início de 2017, o volante, com passagens por gigantes do futebol italiano como Juventus e Internazionale, entre polêmicas e desabafos, não conseguiu ter um primeiro ano regular. Claro que os motivos vão além da forma de jogar daquele Palmeiras, mas 2018 tem nos mostrado um desempenho em alto nível até aqui do camisa 30.

Sempre foi quase uma unanimidade que Felipe Melo é um jogador de qualidade. Tem um bom repertório técnico, principalmente na organização do jogo por trás, com passes verticais e bolas longas certeiras para achar companheiros em velocidade. O palmeirense também tem uma boa leitura dos espaços, se coloca bem em linhas de passe e  tem agressividade para ganhar duelos defensivos, seja pelo alto ou pelo chão. Mas ele também tem suas deficiências , como a grande maioria dos jogadores espalhados pelo mundo...

Quando chegou ao clube, Melo encontrou Eduardo Baptista. Adepto da marcação por zona, o agora treinador da Ponte Preta vislumbrava espaço e sequência para o volante, justamente por ele se enquadrar na sua ideia de jogo. O início de 2017 dele, inclusive, não foi ruim. Boas atuações, principalmente na Libertadores, o fizeram ganhar alguma sequência como titular.  Mas aí chegou Cuca, que tem uma maneira bem diferente de enxergar futebol -  e que fique claro:  não se trata de certo ou errado, mas sim de uma escolha.

Sergio Busquets, um dos melhores do mundo na função, tem leituras impecáveis à frente da linha defensiva

Campeão brasileiro com próprio Palmeiras em 2016, Cuca sempre foi adepto da marcação individual. Nas suas últimas passagens até trabalhou com algumas trocas de encaixe, justamente para não gerar perseguições longas nesta ideia de sempre defender no homem a homem. Mesmo assim, se tratava de um jogo que exigia muito fisicamente dos atletas. A intensidade era o grande pilar para este tipo de jogo funcionar. E foi aí que o camisa 30 alviverde perdeu espaço. Sem sequência como titular, vieram as queixas e as rusgas com o treinador.

Um dos pontos fracos de Felipe é a agilidade, principalmente na troca de direção. Por ser um jogador de força e estatura (1,83m), o volante nunca foi um jogador de grande velocidade. Por conta disso, sempre se adaptou à contextos que o mantinham competitivo. Normalmente em equipes que faziam um jogo mais posicional sem a bola e de menos exposição em duelos defensivos em velocidade. Agora, aos 34 anos, essa sua capacidade de mudar de direção foi naturalmente caindo.

Cuca sabia que o perfil de Felipe Melo não condizia à sua forma de jogar. Exigiria dele situações que o não deixariam confortável dentro de campo. Uma saída para caçar ou perseguir um atleta mais ágil poderia desequilibrar todo seu sistema defensivo. Uma tirada de primeira de um adversário mais habilidoso seria fatal, já que o volante não teria capacidade de recuperação na corrida. Viraria um efeito dominó. Um cobre o um que saiu da posição do dois. Uma bola de neve com grandes chances de o adversário chegar com vantagem numérica no último terço do campo.

Com Roger Machado, também adepto da marcação mais zonal, que prioriza sempre controlar os espaços, seja lá qual jogador adversário passe poe eles, o camisa 30 se fortaleceu. Mais que isso, dentro da ideia de jogo mostrada até aqui, virou peça de grande importância. Além de ser o principal encarregado de iniciar as jogadas afundando entre os zagueiros para dar mais qualidade na saída (veja na imagem abaixo), seja com passes verticais ou bolas longas de velocidade, Felipe Melo tem sido o ponto de equilíbrio à frente da linha defensiva.

Repare como o volante palmeirense afunda entre os zagueiros para buscar a bola e fazer a saída de 3
Repare como o volante palmeirense afunda entre os zagueiros para buscar a bola e fazer a saída de 3 DataESPN

O clássico contra o Santos, no último domingo, nos mostrou uma outra face deste novo Palmeiras. Tendo que propor e ser protagonista nos jogos anteriores, justamente por enfrentar equipes menores, a equipe de Roger se viu pela primeira vez obrigada a alternar momentos com e sem a bola. O gol cedo foi decisivo para tal comportamento. Com seu 4-1-4-1, normalmente defendendo em bloco médio, o Verdão teve Felipe Melo compensando espaços e coordenando as alternâncias de pressão na bola na entrada do último terço do campo. Veja na imagem abaixo que, ao ver Marcos Rocha quebrar a linha para pressionar o adversário, Felipe já se posiciona no espaço entre o lateral e o zagueiro pela direita (Antonio Carlos).

Marcos Rocha quebra a linha e Felipe Melo se coloca no espaço aberto
Marcos Rocha quebra a linha e Felipe Melo se coloca no espaço aberto DataESPN

O movimento de Felipe Melo vai sempre acontecer com a bola como referência. De acordo onde está a posse do adversário, ele flutua com a equipe, sendo uma importante peça para quebrar e impedir bolas entrando entrelinhas, nas costas de Lucas Lima e Tchê Tchê. Na ilustração abaixo fica fácil ter uma noção dessa movimentação de um lado para o outro, que é o que se exige do volante que atua sozinho à frente da linha defensiva. Inclusive já escrevi aqui no blog sobre essa função, que é de muita complexidade no futebol atual. Clique aqui e veja.

Perceba na ilustração como a referência posicional do volante se dá pelo local da bola e alinhado à linha defensiva
Perceba na ilustração como a referência posicional do volante se dá pelo local da bola e alinhado à linha defensiva DataESPN

A experiência de Felipe Melo em grandes centros na Europa contribuiu muito para estas leituras citadas acima. Tanto na Internazionale quanto na Juventus ele atuou nesta função com certa regularidade. Apesar das variações de plataformas de jogo, às vezes até com um outro volante ao seu lado, esteve sozinho com meias à frente em diversos momentos. No Galatasaray, apesar do 4-2-3-1 mais fixo usado na época, também contribuía com movimentos similares.     

Infelizmente ainda vemos o futebol no Brasil sob a ótica da individualidade. Temos conosco a ideia de que o craque resolve e não a organização. Felipe Melo é só um dos milhares de exemplos neste esporte que comprovam que a individualidade tem que servir o coletivo. E quando isso acontece, o talento é potencializado e decisivo. Então, antes de gostar ou não de algum jogador, busque observar o seu em torno. Às vezes tudo que o rodeia não ajuda. 

Acontece toda hora...


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Entrevista do mês: Fernando Diniz avisa que dá mais trabalho ter a bola, elogia Premier League e quer lado humano mais valorizado no futebol: 'Uma pessoa melhor é um jogador melhor"

Renato Rodrigues
Fernando Diniz assumiu o Atlético-PR neste início de temporada
Fernando Diniz assumiu o Atlético-PR neste início de temporada ESPN

Quando Fernando Diniz e o seu ousado Audax debutaram no Campeonato Paulista, a primeira sensação para quem acompanhava o estadual daquela época era de estranheza. "Mas como assim esse time não dá chutão?", todos se perguntavam. Pixotadas dos goleiros, erros na saída de bola, entregadas que custavam derrotas... O ano foi o de 2014 e nem para a segunda fase do Paulistão os "malucos de Osasco" conseguiram ir. O resultado, definitivamente, não veio. Mas veio o mais importante: o debate.

A discussão sobre o tipo de futebol desenvolvido por um grupo de atletas que, em sua maioria, haviam passado por diversos clubes e nunca haviam brilhado no cenário nacional, foi impactante. Seu treinador, ainda em começo de carreira, sonhava alto quando colocava um futebol de muita troca de passes, mudança de posições e jogos duros contra os grandes da capital. A gente mal sabia o que estava por vir.  Dois anos depois, uma final de igual para igual com o Santos. 

Ex-jogador profissional, Fernando Diniz passou por Palmeiras, Corinthians, Flamengo, Fluminense... Ganhou títulos pela maioria destes grandes clubes. Esteve no topo. Mas existe algo que o deixa mais feliz atualmente: ajudar outros  jogadores chegarem no topo. Tchê Tchê (Palmeiras) e Camacho (Corinthians), campeões brasileiros nos últimos dois anos, são exemplos e motivos de orgulho para o atual treinador do Atlético-PR.

Neste entrevista exclusiva ao blog, dias antes de sua estreia pelo Atlético-PR (0x0 com o Caxias, pela Copa do Brasil) Diniz bate muito na tecla do lado humano do esporte mais visto do mundo.  Diz usar sua formação em psicologia e luta para fazer de seus jogadores pessoas melhores. Ele ainda fala da qualidade do futebol brasileiro, sobre os pilares de seus trabalhos no futebol e mostra expectativas com o Furacão para 2018.

Ele ainda fala em resgatar a essência do futebol brasileiro, da importância do goleiro dentro do seu modelo de jogo e fala quais ligas e times do mundo gosta de assistir quando sobra um pouco de tempo entre os jogos e treinos que participa. Na íntegra você confere essa longa conversa só sobre futebol:

 

Depois de alguns anos de trabalho em um só clube (teve uma rápida passagem pelo Guarani), como tem sido seu início no Atlético-PR? Como você tem usado toda a estrutura que o clube te oferece?

Está sendo ótimo. De fato a estrutura é algo assim que só dá para falar quem vê. Mesmo sabendo que existe aqui uma estrutura muito boa, quando você chega acaba se surpreendendo positivamente. E isso é ótimo. Mas mais que a estrutura tenho profissionais aqui para me dar apoio que são de muita qualidade. Então nesse aspecto tem sido muito positiva a experiência. É acima do que eu imaginava.   

O que te fez ir para o Atlético-PR? Foi uma situação diferente na sua carreira. Você ficou anos no Audax e rejeitou ofertas por acreditar em um projeto e agora deixou o Guarani muito rapidamente. Algo mudou para você adotar uma outra medida neste caso recente?

A questão é que o meu acordo moral e ético com o Guarani eu cumpri da mesma forma que o fiz com o Seu Mário Teixeira (homem forte por trás do Osasco Audax). Eu deixei claro textualmente que eu não poderia mais deixar passar oportunidades como aconteceu quando eu estava no Audax. Disse que, se aparecesse alguma proposta de um time grande da Série A, provavelmente eu sairia. Sinceramente eu não acreditava que isso ia acontecer tão cedo. E nem o pessoal do Guarani. Foi uma coisa de comum acordo. Eles também falaram que não iriam me brecar. Então eu cumpri minha palavra com o Seu Mário no Audax e cumpri também no Guarani. São situações diferentes. Achei que era o momento, que era uma oportunidade grande. Eu tinha que aproveitar. Acima da estrutura que o Atlético-PR oferece, o que me trouxe para cá foi uma conversa muito significativa com o Seu Mario Celso Petraglia (CEO do clube paranaense). A gente teve uma grande afinidade de ideias. Parecia que a gente já se conhecia. Foi determinante para minha vinda. Me senti super confortável e confiante, vi uma sincronia de pensamentos. Isso me fez aceitar o desafio. Tenho convicção que fiz uma escolha certa.

Fernando Diniz chegou a assumir o Guarani meses atrás, mas teve passagem relâmpago
Fernando Diniz chegou a assumir o Guarani meses atrás, mas teve passagem relâmpago Divulgação/Guarani

Neste início de trabalho com os atletas o que você tem tentado mais desenvolver nos treinamentos? O que mais tem cobrado dos jogadores?

Eu tenho trabalhado com três pilares que eu acho fundamentais para um treinador de futebol. A primeira situação a pensar é na formação de um bom ambiente facilitador para que as relações humanas ocorram de maneira positiva. A segunda é muito trabalho tático. É preciso apostar nisso. E tem uma terceira coisa que também é muito importante, buscar sempre intensidade nos treinamentos. Na verdade, são estes três componentes que me acompanham em tudo que eu faço no futebol. O eixo central do trabalho está apoiado nestas três questões. Em termos táticos a gente treina exaustivamente a saída de bola, que é uma característica marcante das equipes que eu dirijo. É algo que a margem de erro tem que ser pequena, então é uma coisa que a gente tem que sempre trabalhar. As questões de compactação também. Temos que ter um time sempre próximo em qualquer setor do campo. São abordagens que sempre trabalho. E isso não depende de ser começo ou um estágio mais avançado do trabalho, são situações que a gente precisa sempre estar alinhados. Outra coisa que treinamos muito é como se comportar marcando em linha alta, média ou baixa. Depois disso, caminhamos mais para coisas mais específicas. Ainda não conseguimos trabalhar bola parada, mas teremos que fazer. Encaixe de marcação, ajustes, movimentações no último terço, como vamos elaborá-las... Tem que ser um passo de cada vez. 

Sua forma de jogar exige muita intensidade dos atletas, principalmente nas reações pós-perda da posse. Como você enxerga o estágio do Brasil neste sentido? Tem a impressão de que o jogo por aqui é mais lento? Claro que não devemos comparar isso com as maiores ligas do mundo, com a Premier League. Mas por que acha que estamos tão abaixo?

Eu acho que temos que aproveitar as características dos nossos jogadores. Quando um deles vai para fora, você o introduz em um todo, então facilita para ele se adaptar e passar a ter comportamentos que aqui não temos. Aqui não temos uma cultura enraizada sobre esses conceitos. O que temos aqui, se você for ver na prática do nosso jogo, olhando para os últimos campeonatos, está todo mundo jogando em transição. Ninguém quer a bola. Todo mundo tenta se defender bem para usar o contra-ataque para vencer os jogos. Sempre na transição defesa-ataque. E para quem joga dessa forma, não tem necessidade de treinar reações pós-perda. Não tem porque estimular esse tipo de intensidade. Então esse tipo de situação tem a ver com o tipo de modelo que você quer implantar. Para a maneira que eu gosto que minhas equipes joguem, esse tipo de conceito é muito importante. Velocidade no passe, no movimento e na reação pós-perda. Para mim a intensidade é muito importante. Para quem prefere "expor menos o time" - e digo isso entre aspas mesmo -, não é algo tão preponderante assim. 

Você percebe que no Brasil a gente absorveu muito conceitos de defesa, de controlar espaço e de jogar sem a bola nos últimos anos e que isso influencia na nossa maneira de jogar? O brasileiro acredita muito que organização tem a ver com defender, e sabemos que não é só isso. Não acha que é o momento de a gente dar um passo à frente na organização ofensiva também? Acha que falta conteúdo no nosso futebol neste sentido?

Eu não sei porque as pessoas acham tanto que organização no futebol serve só para defender. Claro que se organizar na fase defensiva é muito mais fácil do que quando você tem a bola. Dá muito trabalho ter a bola. Você tem que criar espaços, enfrentar linhas mais baixas... Quando isso acontece, você acaba se expondo mais. E no Brasil isso é ir contra a norma. Existe uma preferência para todos jogarem de uma forma mais conservadora. Você se protege melhor. Eu acredito que dois pilares fazem o futebol brasileiro caminhar para trás. A cultura do povo é de gente leve, a matéria prima ainda tem jogadores mais ousados, verticais, com bom drible, que sabem jogar com aproximação, serem criativos... E isso está na cultura do nosso povo. Os jogadores do futebol brasileiro, de uma forma mais geral, são oriundos de famílias menos favorecidas financeiramente. São caras que passam muito tempo na rua praticando futebol sem nenhuma inibição pois não tem um adulto monitorando as regras do jogo. Então a gente tem esse tipo de atleta e a gente está colocando ele para praticar um jogo com prioritariamente organização defensiva. Você precisa criar espaço para estimular a criatividade do jogador. E aí ele não cumpre de maneira satisfatória esses quesitos. O menino sonha ser jogador para jogar futebol. Não é porque ele quer marcar e jogar em transição. Isso é a contramão do que, principalmente o jogador brasileiro, sonha fazer quando é garoto. Avaliando de uma maneira mais profunda, eu tento, no geral, resgatar esse lado lúdico. Tentar trazer de volta o prazer que todo mundo teve de jogar futebol um dia. Todos estes jogadores já foram o melhor da escola ou da rua. Então se cria estruturas que favoreçam estes comportamentos para um jogo bem jogado. Sempre pensando em ter um time mais competitivo.

Muito se fala que o drible sumiu no futebol brasileiro. Muita gente sente falta disso, inclusive. Temos uma cultura forte de que devemos jogar a bola no melhor do time para que ele resolve sozinho, são situações criadas desde a base. Hoje se controla muito bem os espaços, se faz linhas de cobertura... Qual é o caminho para resgatar isso? A palavra não seria condicionar os jogadores a isso? Criar situações para este tipo de enfrentamento?

É condicionar, sem dúvida. Uma das coisas mais difíceis de ser feitas é você entrar na cabeça do jogador, na alma dele... Aquele atleta que tem o 1x1, que tem muita qualidade técnica. Fazer ele entender que o coletivo favorece as qualidades dele, que ajuda na sua criatividade. E não o contrário. O jogador precisa ser coletivo para participar do jogo de uma maneira relevante. Com isso ele terá mais espaço. Por fazer parte do todo. Neste momento ele vai ter a situação de 1x1. E para isso é preciso ter articulação, ter movimentos pré-estabelecidos... Não é uma receita de bolo. Você tem que criar estes movimentos, trabalhar padrões que favoreçam tanto o jogador mais técnico, com qualidades de enfrentamento, quanto aquele que prefere um jogo mais de aproximação. E isso dá trabalho, não é simples. Não vão ser 40 minutos de treinamento que vão gerar estas situações. Eu não acredito nisso. Os jogadores não vão se sentir confortáveis para estas coisas. De uma aproximação, de uma tabela com infiltração... Não é fácil, mas tem gente que faz isso muito bem no mundo. Tem outros que já não ligam muito para isso, preferem jogar em transição. Vai do gosto de cada treinador, do que acredita como futebol. Para mim o futebol só faz sentido desde que estes componentes estejam na prática do jogo. Não se trata de um jogo que você joga apenas pelo resultado, existem maneiras de você buscar uma vitória e eu acredito que a estética, o jogo bem jogado, intensidade e construção coletiva te colocam mais perto de ganhar um jogo. Eu não acredito que jogar em transição, mais fechado, te deixa mais perto da vitória. Eu não acredito nisso. Se você o faz bem, tem suas chances. Mas se você reage bem a perda da bola, se criar movimentos em sincronia e ataca espaços você tem maiores chances de levar o jogo. Tenho isso comigo. Não estou criticando quem ganha com linha mais baixa, esperando uma ou duas bolas para fazer o gol... Mas existe uma distorção destes conceitos. E mundo está aí para mostrar que não precisa ser assim. A Seleção de 82, quando não ganhou, criou-se uma distorção de pensamento que se o Brasil jogasse de maneira mais defensiva, teria maiores chances de ganhar a Copa. E para mim isso não faz sentido. A chance que aquela equipe foi muito maior daquela forma.  

Você bateu muito na tecla de que não é algo simples chegar em um nível de organização ofensiva mais aprofundado e o tempo está muito ligado a isso. No Audax você teve bastante respaldo para desenvolver estes conceitos durante anos. Acha que a realidade no Atlético-PR vai ser a mesma? Acredita que terá tempo?

É difícil fazer uma análise exata disso. Meu maior trabalho no Audax foi convencer os jogadores de que a gente podia jogar de igual contra equipes de maior expressão. E jogar até melhor, inclusive. E tudo isso levou um tempo realmente. Mas se a gente olhar para o meu início de trabalho lá ele foi bom. Não fiquei lá porque fui fazendo coisas erradas e ganhando tempo para consertar. Não acho que um treinador precise de 3 ou 4 anos para desenvolver um trabalho. Logo de cara a gente subiu da A2 para a A1 (do Campeonato Paulista). E batemos recordes de pontuação na competição. E para este primeiro time eu treinei uns 10 dias só. Claro que eu fiquei e as coisas foram evoluindo com o tempo. Em 2014 fizemos um primeiro jogo contra o Santos, que chamou a atenção das pessoas. Conseguimos um grande amadurecimento tático. Mas também uma evolução individual e coletiva dos jogadores, eles passaram a se sentir capazes de enfrentar grandes adversários. Sem dúvida foi o mais difícil. Tinha muitos jogos que a gente acabava jogando bem contra times grandes, mas por um erro muito infantil, acabava dando tudo errado. Teve um jogo no Morumbi, nosso primeiro tempo muito bom contra o São Paulo, mas por conta de uma expulsão e várias desatenções, tomamos uma série de gols. O tempo serviu muito para amadurecer a equipe. Fomos fazendo correções, criando alternativas... Quando eu peguei o grupo do Audax, a maioria dos jogadores vinham de insucessos na carreira. Então também foi um trabalho de resgatar a confiança deles. De criar um ambiente facilitador para que a comunicação entre eles fosse positiva. Foi um processo longo, que durou anos. No terceiro Campeonato Paulista juntos eles atingiram o nível máximo. 

Fernando Diniz durante final do Paulista entre Audax e Santos
Fernando Diniz durante final do Paulista entre Audax e Santos Gazeta Press



Sabemos que você estudou e se formou em psicologia. Nas suas abordagens sobre futebol você sempre bate muito na tecla também de questões humanas, de entender a pessoa naquele atleta. Como você usa esse conhecimento que você adquiriu durante sua vida?

Eu fui jogador antes de ser treinador. A impressão que tenho é muito clara para mim. Tive uma boa carreira, joguei em times grandes. E eu sentia que faltava muito esse contato mais humano. O jogador é tratado como um robô, como uma coisa qualquer. Eu vi muito isso durante meus anos como atleta. Quando um cara jogava bem, ele era tratado como uma pessoa muito legal. Mesmo, em muitas vezes, ele não sendo uma pessoa lá muito legal. Às vezes era um cara que na parte humana deixava bastante a desejar. Aí o cara que trabalhava duro, que tentava fazer seu melhor, buscava as coisas, mas vivia um momento ruim, era quase sempre destratado. Era visto como uma pessoa menor. E esse tipo de distorção sempre me incomodou, me marcava muito. E eu sei que isso continua acontecendo. Não acho que seja a maneira mais correta de conduzir um time de futebol. As pessoas precisam ser respeitadas, você tem que procurar facilitar para que as pessoas se encontrem e sintam prazer de estar ali naquele ambiente. É algo que busco promover isso o máximo que consigo. Para mim uma pessoa melhor é um jogador melhor. Todos têm suas angústias, seus medos. E quando a gente consegue oferecer algo que as pessoas consigam superar os desafios, você acaba tendo um jogador melhor.

Muitos questionam um pouco a relação de cobrança que você tem com seus atletas. De uma dura mais ríspida, uma chamada de atenção... Te chateia este tipo de comentário? Você acha que teve algum exagero durante sua carreira?

A verdade é que, quem nunca trabalhou comigo e não conhece quase nada do meu trabalho, que não conviveu comigo, não me conhece. Claro que você não agrada todo mundo, mas se você ver a minha aceitação é muito grande. E falo isso vendo as relações que tenho com os jogadores. A minha maneira de ver o futebol e de me relacionar com os atletas se mistura muito. Eu exijo muito. E faço isso porque quero o melhor para eles. Eles vão parar de jogar bola em algum momento e se eles não souberem aproveitar o agora, eles podem ter muitas dificuldades lá na frente. Eu não quero isso para nenhum deles. Às vezes o cara não tem muita consciência disso. Minhas cobranças vão muito em cima disso. De mostrar para os caras, de não admitir que eles estejam jogando uma parte da vida deles fora. Eu quero que eles joguem um grande futebol, que cheguem a grandes equipes, que ganhem títulos... Que vivam o melhor do futebol. Para que saiba usufruir, que guardem sua grana, que cuidem bem de suas famílias... Quando a carreira deles acaba, sabemos que eles vão viver pelo Estado, e sabemos que o Estado é falido. A escola é ruim, a saúde é ruim, a segurança é ruim... Esse lado está muito impregnado em mim. Nunca neguei isso. Claro que a gente precisa fazer ajustes o tempo todo. Você precisa melhorar, e eu estou procurando isso. Estou atento neste sentido, de buscar outras alternativas, achar outras formas de tirar o melhor de cada jogador. Mas essencialmente o meu movimento é sempre para beneficiar o atleta. Tenho respostas claras destes jogadores que tive convivência. De mensagens que recebo até hoje, de como falam de mim para outras pessoas. Em sua maioria eu tenho convicção que essa aceitação é grande. E o que eu ajudei a promover na vida deles me preenche muito. Me satisfaz. É algo muito verdadeiro em mim essa vontade de ajudar. Isso emana em mim de uma forma muito intensa. Claro que eu tenho que corrigir exageros que em alguns momentos existiram. Mas quando eu os fiz sempre foi com a melhor intenção possível. Tive muitas conversas com meus atletas, de saber o que incomoda neles, tentar entender porque aquela pessoa é daquele jeito, tentar entender o passado que eles trazem, como foi a construção existencial de cada um... Às vezes as pessoas enxergam aquele pedacinho, mas ele é só a ponta do iceberg. Mas ninguém quer saber do todo. Vai lá perguntar para o Tchê Tchê (Palmeiras) do quanto eu cobrei ele, como foi nossa evolução. Cada um ver o que quer nestes momentos. Às vezes aquele pouco que você perde da normalidade, aquele pouquinho, vira um estardalhaço. Mas existem muito mais coisas por trás. E no futebol as pessoas não costumam valorizar isso. Se dá muita importância à parte tática, e eu valorizo isso, trabalho de forma exaustiva o que quero jogar, fase de construção, é só ver os jogos dos meus times, mas ali por trás tem pessoas. É um todo e uma construção constante de vários aspectos. Temos caminhos ainda pouco percorridos no futebol. É preciso ter coragem. 

Quando olhamos para suas equipes chama muito a atenção o papel do goleiro dentro do modelo de jogo que você busca. Como tem sido aí no Atlético-PR? Você vai buscar alguém de fora? Dá para trabalhar a evolução do goleiro com os pés ou é algo que ele já trás da base?

Se você tem um goleiro que já tem um jogo com os pés mais elaborado, facilita muito. Realmente é algo que facilita muito a forma como eu gosto de jogar. A parte técnica, física e tática é bastante complexa. Tem goleiros que não tem tanta qualidade com o pé, mas sabem tomar as melhores decisões. Até por entender suas limitações. O goleiro não precisa ser um craque com o pé para jogar comigo. O Sidão, quando cheguei ao Audax, não tinha quase nada de trabalho com os pés. Mas foi se desenvolvendo. Tanto que foi para o Botafogo e agora no São Paulo também por conta de ter qualidade com os pés. Acho que muita coisa o goleiro pode melhorar com treinamento. E aqui no Atlético-PR tem uma escola excelente de goleiros. Tem uma nova geração sendo formada aqui por grandes profissionais. Encontrei bons goleiros aqui. Mas quando a gente encontra algum que já entende o sistema, tem essa facilidade a mais, ajuda. Mas não que seja uma coisa que vai se definir sozinha. Ele só não pode ser horroroso neste sentido. Que não tem nada de qualidade, que não tem margem de evolução. Realmente eu uso bastante. De maneira geral eu acho que todos os goleiros, se bem trabalhados, tem o que evoluir.

No Brasil existe muito uma discussão sobre treinamentos fechados. Qual sua opinião quanto a isso? É de fato relevante fechar uma atividade para a imprensa?

Não tenho uma opinião totalmente formada quanto a isso. A imprensa faz parte do futebol. Quando você não fala, não dá uma entrevista, vai se construir coisas em cima do que não se ouviu. Obrigar o profissional a caçar informações. Tanto que a gente lê coisas e escuta na televisão coisas que não correspondem à realidade. Então fica uma coisa meio chata. Mas tem momentos que eu acho que precisa ter privacidade. Um treino tático mais importante, por exemplo, você precisa estar mais fechado. Como você vai abrir isso? Você não conhece as pessoas que estão ali naquele ambiente. Acho importante neste momento ter só as pessoas envolvidas no processo. Ali estão suas ideias de jogo, suas estratégias... Tem treinos que não tem problema você mostrar. Mas tem situações que é importante você estar ali sozinho.

Uma pergunta que sempre faço aos treinadores é sobre a discussão do "velho vs novo", do "boleiro vs acadêmico"... Acha que é uma questão que enriquece o debate sobre o nosso futebol?

Eu acredito muito em vocação. E a pessoa precisa disso trabalhar no futebol. Tem gente que nunca jogou futebol, mas tem sensibilidade para ser treinador. Consegue ter uma percepção diferente, entender os jogadores... Eu tive a sorte de ter trabalhado, principalmente na base, com gente que aprendi muita coisa. E a grande parte dessas pessoas nunca tinha jogado futebol profissionalmente. Evolui pra caramba com esses caras! Tive treinadores que me marcaram muito, caso do Oswaldo de Oliveira. E ele nunca foi atleta. Eu nunca passei por estes preconceitos, tive sorte por isso. Acho que existe espaço para todo mundo. Existe preconceito de ambas as partes e isso não pode existir. Acima de tudo o futebol precisa de gente bem preparada. Que tenha vocação, mas que também se capacite para isso. E vale para qualquer função no futebol. Estudar todo mundo tem que estudar, não tem jeito. Estou percebendo que os ex-jogadores estão buscando isso de uns tempos para cá. E tem essa galera que vem da academia, que estuda bastante, que mostram bons trabalhos... É aliar o conhecimento de todos para um bem maior. No geral é uma discussão que não faz sentido. Que vença o time das melhores ideias, do protagonismo delas. Eu quero ver a ponta final, que é como o time destes treinadores joga. Não interessa se é acadêmico ou ex-jogador e sim o que vai ser apresentado dentro de campo. Temos que discutir a prática. Joga bem, corresponde? A ideia por trás daquele modelo é bem executada? O que interessa o que o time produz em campo. A discussão é essa. O mundo é das pessoas que fazem, não das pessoas que falam. A teoria só serve se for boa na prática. E isso vale para qualquer área da vida. O futebol precisa criar encantamento em quem assiste. Isso é importante, acima de tudo.

Fernando Diniz durante treino do Audax
Fernando Diniz durante treino do Audax Gazeta Press



Qual a importância hoje de o treinador ter uma boa comissão técnica? Você acha que a figura do treinador também tem mudado nos últimos anos? Principalmente na questão de centralizar menos as coisas nele e também saber delegar?

Realmente teve uma mudança. Para mim, por onde eu passei, sempre levei em conta o ambiente. No Atlético-PR eu fui acolhido da melhor maneira. E da mesma for eu também busco sempre acolher todo mundo. Eu procuro usar todo mundo no processo. Eu gosto de gente, gosto de conviver com as pessoas. Às vezes tem gente ao seu redor que está enxergando coisas que você não consegue ver. Então o treinador precisa estar aberto. Eu procuro sempre ouvir o maior número de pessoas possíveis. Claro que quando é possível, quando a situação pede. Sempre deixou claro que estou aberto a novas ideias e tento estimular as pessoas a serem criativas. Quero que pensem um pouco fora da caixinha. O que está aí já está aí, e a gente tem mais coisas para descobrir no futebol. Quando você consegue prover este tipo de sentimento, fazendo as pessoas se sentirem mais à vontade, elas acabam te ajudando mais. O que eu falei de criar um ambiente facilitador vale para os jogadores e também para os membros de comissão técnica. O trabalho que todo mundo faz pode ser melhor. Se ajudando, todos melhoram. Eu gosto deste contato próximo, que as pessoas tenham liberdade e confiança para poderem ousar. Que tentem coisas novas, que errem... Porque quando estamos imobilizados não saímos do lugar. E sempre temos um mundo novo para construir. Analista, fisiologista, preparador, nutricionista... Todos eles precisam ter liberdade para falar com o treinador. Sugerir coisas, buscar resoluções. Claro que é função do técnico tomar a decisão, somos pagos para isso. Mas eu estou sempre aberto a escutar tudo que as pessoas têm para falar. É importante deixar todos confortáveis para expor suas opiniões. Se você vai usar ou não é outra história. Posso achar que não é o melhor para a equipe, mas vou sempre respeitar e deixar esse canal aberto. É importante para ter um time forte também fora de campo. A gente precisa um do outro. 

Claro que o treinador brasileiro precisa estar sempre com olhar forte aqui no Brasil. Mas você acha importante também observar o que acontece fora do Brasil? Quais ligas e times você gosta de ver jogar?

Eu acho bastante importante se manter antenado com o que acontece lá fora. Eu trabalho com dois olhares. O meu principal é para o que eu estou praticando. Meu time, os adversários que terei pela frente. O que me sobra de tempo eu busco olhar para outros países. Gosto muito do futebol inglês. Gosto de ver as equipes que o Guardiola treina. Do Klopp. Gosto muito do Napoli que é treinado pelo Sarri. Defensivamente é uma ideia um pouco antagonista do que eu penso de futebol, mas gosto de ver o time do Simeone também. É importante você entender formas para se defender bem também. É muito interessante o que ele faz no Atlético de Madrid. Com seu estilo e com menos recursos ele conseguiu ser competitivo em alto nível, contra equipes muito mais poderosas. A gente tem que tirar o chapéu. Não que eu queira defender como defende o Simeone, mas é importante observar. De maneira geral acho que o futebol inglês está um pouco à frente. É um movimento que acontece de tempos em tempos. De um país que acaba tendo uma maior organização e mais recursos financeiros, conseguindo ter os melhores jogadores e técnicos. Ao logo do tempo acaba tendo mais incidência também nas categorias de base. O movimento que está acontecendo lá de um período para cá é bem interessante. Quando se investe muito e você leva os melhores jogadores, e consequentemente os melhores treinadores, isso tem impacto na formação de uma nova geração de jogadores. Eles vivem esse momento. Assim como a Itália já viveu, a Espanha... Outro que gosto de ver é o Sampaoli. Mas o que eu mais estudo mesmo são os meus times, no que precisa ajustar, melhorar, e os adversários.       

Mantendo a tradição das entrevistas que faço, eu sempre fecho com uma pergunta que sempre rende boas respostas. Até por elas serem bastante pessoais. O que é jogar bem para você?

Para mim jogar bem é ser competitivo, mas sempre que puder encantando que o assiste. É produzir coisas positivas em todo o processo que antecede o jogo em si. Ganhar e sentir prazer, dar prazer para quem joga e quem assiste. O futebol tem uma conexão muito forte com a minha vida. Eu quis jogar futebol porque os jogadores me encantavam, o jogo me trazia uma sensação única. Zico, Maradona, Romário, vídeos do Pelé... Para mim a essência do jogo é isso. É a arte, a beleza. Quando você consegue resgatar isso, você se torna muito mais competitivo. Ao resgatar a essência do jogo ele te dá uma ferramenta muito poderosa para ganhar. Jogar bem é construir um futebol coletivamente. Não adianta também colocar um monte de talentos e soltar a bola para eles resolverem. Já foi o tempo disso. Passou. É preciso ter uma amarração coletiva para se construir algo sólido. Ter a posse, terminar as jogadas com eficiência... Isso te exige o trabalho coletivo de forma gigantesca. É necessário construir muitas conexões entre os jogadores. E a parte humana entra de maneira sistemática nisso. Não é só o modelo de jogo, não é só a parte tática... Tudo precisa ser construído de maneira agregada. O futebol precisa ter algo mais. Não é só o resultado no final da partida, tem que ter um gosto, um sabor. As pessoas precisam gostar de ver o jogo.

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Entrevista do mês: Fernando Diniz avisa que dá mais trabalho ter a bola, elogia Premier League e quer lado humano mais valorizado no futebol: 'Uma pessoa melhor é um jogador melhor"

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O frenético Liverpool x Manchester City e as lições sobre intensidade dadas ao futebol brasileiro

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Liverpool comemora um dos gols da vitória sobre o Manchester City
Liverpool comemora um dos gols da vitória sobre o Manchester City Getty

Liverpool e Manchester City, no último domingo, protagonizaram um jogo com a essência da Premier League. Não faltaram transições, duelos pessoais, brigas em 1ª e 2ª bolas, gols... Mas a palavra mais certa para definir o confronto e, principalmente, a liga em que as duas equipes jogam é intensidade. Termo que, apesar de muito usado em solo brasileiro nos debates sobre futebol, não é totalmente compreendido.

Quando se fala em intensidade por aqui, logo vem em mente situações ligadas aos comportamentos de uma equipe/jogador sem a bola. Times intensos normalmente são denominados por conta da sua forte marcação,  da capacidade de desarmar ou mesmo pela garra em cada dividida pelo campo. Mas este conceito, se olharmos para dentro do jogo, vai muito além disso. 

Intensidade também inclui ações com bola e existem diversas maneiras de a ter com a posse. A velocidade de execução (tempo em que o jogador domina e passa/finaliza/lança), por exemplo, é um dos pilares deste conceito.  A mobilidade, como deslocamentos para achar linhas de passe, também entra dentro deste pacote. A rapidez na tomada de decisão idem. E temos também a reação após a recuperação da bola, que nada mais é o quanto você demora para atacar um espaço,  para dar uma opção de passe ou  infiltrar no exato momento em que recupera a posse. Ou seja, intensidade é bem diferente de "correria", como muitos acham.

A organização e a criação de um modelo de jogo que se integre ao tipo de jogadores e clube que está também são de extrema importância. Intensidade sem estrutura, sem uma ideia por trás, vira um catado. É correr errado apenas.

No duelo do último domingo em Anfield vimos muito disso. Um jogo frenético. O alto número de ações com e sem bola, principalmente do Liverpool, nos dá uma dimensão de como foi o jogo e nos dá uma referência na hora de "medir essa intensidade". Ao melhor estilo Jürgen Klopp, os Reds pressionaram a bola a desde o início, atrapalhando muito a saída de bola da equipe de Pep Guardiola. Na recuperação, acelerava e atacava espaços em profundidade. Firmino, em mais uma ótima atuação, flutuava por todo terço final, abrindo espaços e jogando com um ou dois toques, ajudando a desequilibrar a defesa de Manchester.

O duelo entre Arsenal e Chelsea (2x2) foi outro que também chamou a atenção neste sentido. Ainda mais por ter acontecido em meio ao boxing day (período no campeonato inglês com jogos seguidos em um curto espaço de tempo, que considero bastante inadequado, inclusive). Claro que os dois jogos citados aqui são de equipes gigantes, onde a qualidade técnica é maior pelo poderio financeiro, mas é possível ver tal velocidade, tal ritmo, tal intensidade, em jogos de menor porte também.

Obviamente que a Premier League é uma das (ou a) liga mais intensa do mundo. Seria até leviandade compará-la com o futebol praticado no Brasil neste sentido. Mas se olharmos para outros centros como Espanha, Alemanha, Itália e até Portugal, ainda estamos bastante atrás. Convivemos por aqui com um jogo lento, muitas vezes com posses pouco objetivas e, principalmente, quase sempre pragmáticos. Um arroz com feijão mal feito. Uma sonolência que tem a ver com a nossa cultura de jogo.

"Ah, mas os caras têm muito dinheiro!", "Mas os melhores jogadores estão lá!", "Vai jogar em Caruaru às 16h para você ver se tem intensidade!"... São vários os argumentos que recebi após levantar este assunto no Twitter. Todos com seu valor, inclusive. Já que englobam nas justificativas para um jogo tão pouco intenso que vemos no Brasil. 

Claro que a qualidade técnica é essencial para a boa prática do futebol. E é fato que nossos grandes jogadores já não estão por aqui. Mas apesar de tudo isso, não poderíamos fazer mais? Somos um dos países que mais carregam a bola no futebol mundial. Ainda não achei uma estatística que comprove isso, mas a olho nu é bastante perceptível. 

Cada lugar tem sua cultura e sua forma de ver/jogar futebol. Não dá para nós brasileiros abrirmos mão do nosso estilo. Quando cobramos uma melhora na qualidade do nosso jogo, não queremos simplesmente copiar. Mas sim adequar as boas lições que outros lugares podem nos dar e adaptá-las à nossa realidade, sem perder nossa essência. E o nosso problema vai além de dinheiro, qualidade técnica, organização... Tem a ver como tratamos e desenvolvemos futebol.

Primeiro que nossos métodos são ultrapassados. Claro que isso não é praxe de todos nossos treinadores, mas ainda enxergamos por aí treinamentos longos e exaustivos. Muitas vezes utilizando todas as dimensões do campo. Trabalhar espaço reduzido e em menor tempo tem sido a tônica nos grandes centros. E faz sentido. Você diminui o espaço, cresce as ações. Com o aumento de toques na bola, aumenta-se a participação de cada atleta. Mais ações = a mais intensidade. 

Também não adianta fazer um treino em campo reduzido e usar a continuidade nele. Por exemplo: faça um 6 vs 6, mas jogue os jogadores 40 minutos neste exercício. Depois de 15 minutos a intensidade dos movimentos começará a cair de força gradual. Por conta disso os exercícios intervalados são bem mais usados nos grandes centros do mundo. Ainda em cima disso, entram os objetivos destes treinamentos. Largura para trabalhar amplitude (abrindo o campo), cumprimento para trabalhar profundidade, regras para levar a bola num devido setor ou mesmo estimular algum tipo de comportamento nos atletas... O repertório é vasto e exige criatividade dos treinadores, já que eles precisam sempre ter um objetivo final para aquele exercício, sempre pensando em refletir este conteúdo no jogo.

Nosso calendário apertado também vira um vilão nestas horas. Em ano de Copa do Mundo a situação se agrava muito, já que algumas equipes não terão nem 15 dias para realizar uma pré-temporada decente. Inclusive já pontuamos por aqui a importância desse período (clique aqui). Ou seja, já se começa errado por aqui. E, inevitavelmente, essa demanda vai ser cobrada lá na frente. Questões como a temperatura também entram no pacote. Aqui os dias e regiões quentes castigam qualquer atividade física.

Mas temos também a nossa cultura de "picar os jogos". Caímos no chão após qualquer choque para esfriar o jogo. Fazemos bolinho no árbitro. Retardamos cobranças de tiro de meta. Enquanto alguns querem jogar a todo custo, nós queremos apenas ganhar. E não importa a forma como isso vai acontecer. São pequenas atitudes que colaboram para a qualidade do nosso jogo. A arbitragem, que ainda sofre com sua não profissionalização, também ajuda a complicar o cenário. 

Está mais do que na hora de darmos este salto de qualidade no futebol praticado em solo brasileiro. O produto que oferecemos está longe de ser interessante. Enquanto isso, perdemos cada vez mais espectadores. Os estádios esvaziam. Se vende menos, se paga menos. E para dar os primeiros passos nessa direção, a primeira coisa que precisamos é aprender ver o futebol num todo. Aceitar que ele é sistêmico e deixar de individualizar problemas, já que são várias as questões que o cercam. A mudança é necessária. E ser auto-crítico está longe de ter síndrome de vira-lata. Queremos mais porque podemos mais.

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O frenético Liverpool x Manchester City e as lições sobre intensidade dadas ao futebol brasileiro

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A incompreendida pré-temporada no Brasil e a construção de uma equipe vencedora

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Na Europa se respeita pelo menos um mês de pré-temporada. No Brasil ainda sofre com isso
Na Europa se respeita pelo menos um mês de pré-temporada. No Brasil ainda sofre com isso Getty Images

Virada de ano, fim das férias e chegada a hora tão esperada de religar os motores no futebol brasileiro. Eis que a pré-temporada, com seus fãs e críticos, passa a ser a bola da vez na cobertura jornalística, na conversa entre os jogadores e  também dentro das comissões técnicas. Mas, enfim,  qual a real importância deste período sem jogos em que só se treina país afora? Cabe a nós então tentar entender (e inclusive valorizar!) o papel destas semanas dentro da construção de uma equipe vencedora. 

Infelizmente a pré-temporada ainda é tratada, de uma forma geral, com bastante superficialidade em solo brasileiro. Muitos por aqui a tem apenas como um "período para se recondicionar fisicamente", "voltar ao peso ideal" ou simplesmente encontrar retiros de concentração "para entrosar o grupo"...  Mas a sua influência vai muito além disso. Aspectos importantes e decisivos, que deveriam entrar mais nos debates sobre futebol por aqui, simplesmente por estar aliado a toda performance durante o ano.

Obviamente que os fatos citados acima são de extrema importância e estão incorporados na demanda exigida dentro das primeiras semanas pós descanso. Afinal, voltar a ter seus atletas em plenitude física é um dos primeiros passos para formar uma equipe vencedora e competitiva. Mas esse é só o ponto de partida (ou deveria ser em alguns casos).

Antes de mais nada não podemos iniciar qualquer discussão que envolva pré-temporada sem antes ressaltar que no Brasil, assim como a grande maioria dos processos que envolvem o futebol, não se respeita tempo. Com ano de Copa do Mundo isso se agrava mais ainda. Em menos de um mês teremos equipes estreando em estaduais. Outras terão em jogo o seu futuro na Libertadores disputando mata-matas na fase eliminatória, com uma exigência física enorme. O fato de poder se preparar bem, afeta diretamente na qualidade do nosso jogo. E isso é notório.

Inclusive chega até a ser leviano cobrar alto rendimento de equipes após 20 dias de treinamento. Em outros países (nem precisa ser da Europa), se dá tempo ao tempo e essa preparação é muito melhor executada. 

Em muitos casos, essa falta de tempo complica ainda mais, já que muitas vezes este processo é iniciado com treinadores e metodologias novas. Ou seja, um novo técnico, uma nova ideia de jogo... É como começar a construir um prédio algo do zero. Não se tem os alicerces. Ou seja, raramente se tem uma ideia antecessora ou um norte preliminar. As coisas não funcionam, a pressão começa e... Troca de novo. E quem vem nem teve a vantagem de ter tido a pré-temporada para impor sua forma de trabalhar.

Enquanto isso muitos encaram o treinamento no Brasil como uma espécie de "castigo" para equipes ou jogadores que não vivem grande fase. Perdeu? Treina dois períodos, oras! Folga? Recuperação? Coloca esses caras para correr! Mas esta não pode ser uma visão de uma comissão técnica bem preparada (veja o depoimento de Dorival Junior, ainda no Santos, para o DataESPN Visita).  Para tais profissionais trata-se de um período raro e de extrema importância dentro da consolidação do trabalho. É o plantio de uma semente que, se bem plantada e cuidada durante o ano, tem tudo para florescer e render bons frutos.

Após reciclagem no Bayern, Dorival lembra quando Guardiola cancelou treino e venceu por 8 a 0

E é aí que mora a questão: não é o tanto que se treina, mas sim como se treina. O que devemos levar em conta é qualidade dos exercícios, os porquês de cada um deles e, principalmente, como se está sendo construído os pilares básicos do modelo de jogo. É a fundação de um edifício que, sem essa estrutura inicial, tem tudo para desmoronar quando for colocada em jogo. É o preparo não só físico, mas também do jogo que você escolheu jogar.

Em um cenário ideal, a pré-temporada se inicia bem antes da reapresentação do plantel. Quando existe a troca do treinador para o próximo ano (o que seria o encerramento de um ciclo, muito mais fácil para fazer julgamentos), já se começa a planejar imediatamente após o acerto. O primeiro passo destes profissionais junto ao comandante é entender o clube, os jogadores e a estrutura que você terá no dia a dia. Que tipo de futebol este time tem como DNA histórico? Quais comportamentos são valorizados por esta torcida, região ou cultura (afinal, os torcedores e a história são os maiores patrimônios de uma instituição). Ao não refletir estes quesitos, a chance de se começar errando já é grande.

Até que surgem mais duas importantes perguntas dentro do processo de construção de uma equipe: quais as características do meu elenco e qual é tipo de futebol que eu quero praticar? 

Então vamos praticar um breve exercício: tenho muitos jogadores verticais do meio para frente. Eles rendem mais quando podem acelerar o jogo e fazer transições ofensivas rápidas com a bola. Com a posse eles não me trazem grandes atributos técnicos. Não são atletas com grande qualidade no jogo apoiado, preferem um jogo mais direto. Também tenho uma linha defensiva com mais força e imposição física. Por outro lado, zagueiros e laterais mais lentos, sem agilidade na troca de direção. Do meio para trás meus atletas preferem um jogo mais posicional e de controle dos espaços. Em um todo tenho um elenco pouco criativo, mas com boa disciplina tática. Meu investimento financeiro para ir ao mercado também é bastante baixo. Não posso errar por nada.

Claro que a leitura acima é bem rasa e superficial. É preciso muito mais que isso para tomar as decisões corretas. São horas de estudo, de jogos assistidos, de pesquisas dentro do próprio estafe, de reuniões e discussões entre os profissionais da comissão técnica... Mas que tipo de futebol você escolheria dentro deste cenário? É possível montar uma equipe baseada na posse de bola e que tenta propor o jogo em qualquer situação? Jogar com uma linha defensiva alta, pressionando sempre o adversário no seu campo? Ou seria melhor optar, pelo menos num primeiro momento, por um jogo mais reativo e direto? (Na análise abaixo vemos um pouco da passagem de Aberto Valentim pelo Palmeiras: ideias claras e boas, mas sem tempo para conseguir executar com qualidade).

Boas ideias com falhas de execução: Renato Rodrigues e DataESPN dissecam Palmeiras de Valentim

São escolhas. Simples assim. E elas trarão prós e contras dentro de um trabalho. Mas sem dúvida é um exercício de adaptação por parte dos treinadores. De entender o contexto e tomar decisões em cima deles. Não jogar da forma que gosta, mas sim da forma que pode. No Brasil vivemos muito disso, uma linha tênue e perigosa entre a convicção e a teimosia.  Acredito sim que, com os treinos e estímulos certos, esse elenco desenhado acima pode fazer um jogo de posse. Mas certamente isso demandará tempo e paciência. Vale o preço? Minha direção vai das respaldo? Não é tão simples assim...

Tomada estas importantes decisões pontuadas acima, que darão o norte no longo caminho a se percorrer, chega o momento das ideias saírem do papel e se tornarem prática. E é neste momento que o planejamento do treinamento passa a ser de extrema importância. Os tipos de exercícios, as dimensões de espaço que serão feitos, as regras impostas dentro dos movimentos... E ainda tem controle da carga, imprescindível em qualquer esporte de alto rendimento. Todos estes pontos precisam ser muito bem alinhados. Serão eles que criarão os comportamentos que o modelo de jogo exige. 

Está mais do que na hora de entendermos que o treino reflete o jogo, que também deve refletir no treino. Pensa, cria, estimula, executa, corrige, evolui... Pensa, cria, estimula, executa, corrige, evolui... Sempre com a cabeça aberta, sempre pronto para o novo e atento aos problemas que virão pela frente. A dinâmica da criação de uma equipe passa muito por isso.

Por sua vez estes treinamentos estão cada vez mais evoluídos. Se corre mais, se duela mais pela bola... O número de ações com bola de um atleta no jogo só cresce a cada ao que passa. Geralmente quem não se atualiza dentro do esporte, acaba ficando para trás muito por conta disso. Dentro do futebol de alto rendimento atual, por exemplo, já não se treina com campo inteiro a todo tempo. As corridas em volta do campo também são raras. Geralmente os exercícios têm sempre a presença da bola. Mais intensidade, menos tempo de exercício. Nada de duas horas e meia de atividade. Quanto menos campo e jogadores no mesmo espaço, mas ações com bola. Abriu o campo, menos ações, mas senso coletivo e espacial. Se treina físico, técnico, tático e psicológico em uma mesma sessão. A busca é sempre pela realidade que o jogo vai trazer. 

Por acaso algum jogador dribla um cone dentro de uma partida? Seu goleiro vai sair em uma bola alta sem ninguém disputando espaço com ele? Alguém passa sem ninguém estar pressionando a bola? Por conta disso o treinamento analítico vai perdendo cada vez mais espaço. 

Os dias vão passando e o campo vai dando algumas respostas. Por isso a necessidade de mais tempo. Sem ele, quase nada se mostra com clareza. As definições de posição/função, por exemplo, ficam mais claras quando todos estão com a mão na massa. Os ajustes acontecem e, aos poucos, você vai vendo aquela estrutura ganhando forma. O ideal é sempre fazer isso forma bem gradual, partindo do mais fácil para o mais difícil. Tomando bastante cuidado com o tanto e o nível das informações que estão sendo passadas. Se preocupando com a absorção do conteúdo passado dia pós dia. Afinal, o nível intelectual de um grupo com 30 pessoas é bastante hibrido. Cada um aprende em um tempo e de uma forma diferente.

Será na pré-temporada que uma linha defensiva que jogará de forma zonal, por exemplo, terá seu primeiro contato com exercícios de flutuação, de fechar a zona da bola, de fazer ou não perseguições, de ajustar e aprender a trabalhar com coberturas mais alinhadas. O que faremos após a recuperação da bola? Acelera ou tira ritmo para trabalhar a posse? E quando perdemos? Pressiona ou se recompõem atrás da linha da bola? Por onde vou construir o jogo? Como vou abrir o campo? Para onde vou direcionar o adversário durante sua posse? O jogo e seus diferentes momentos exigem estas respostas à todo o momento (veja a análise abaixo que mostra o tipo de futebol praticado pelos times de Pep Guardiola ao longo de sua carreira. Vemos diferenças, mas os pilares do seu jogo se repetindo)

DataESPN analisa a trajetória de Guardiola; veja as semelhanças de Barça, Bayern e City

Em outra analogia bastante simples podemos dizer que a pré-temporada é o nosso "A E I O U" nos primeiros anos de escola. Sem ele muito bem feito e absorvido, nenhum de nós conseguiria escrever um bom livro. Com o nosso calendário louco, o quarta e domingo tem momentos apenas para relembrar lições e aprendizados. De ajustar erros e fortalecer alguns comportamentos. De incluir ideias mais pontuais que surpreendem ou neutralizam um adversário. Se cria quando essa rotina maluca pega para valer.

O futebol, como tudo na vida, muda. Alguns dizem que evolui. Outros já acham que só piora. Mas é fato que ele está em uma eterna mutação. A famosa pré-temporada, de corridas em volta do campo e rachões cheios de descontração, já pede outra coisa. Cabe a nós sempre responder o que o jogo pede. Quem dá a devida importância e trabalha bem neste período, certamente sai na frente. 

O futebol no Brasil já começou! 

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A incompreendida pré-temporada no Brasil e a construção de uma equipe vencedora

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Entrevista do mês: Paulo Autuori critica CBF, fala dos desafios na formação de novos craques e critica qualidade do jogo no Brasil: "Muito ruim"

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Paulo Autuori durante jogo do Atlético-PR contra o Flamengo, ainda como treinador
Paulo Autuori durante jogo do Atlético-PR contra o Flamengo, ainda como treinador Mauricio Mano/Atlético-PR

Paulo Autuori está no futebol há mais de 30 anos. Já passou por diversas experiências. Elas vão de países, clubes e até funções já desempenhadas durante a sua longa carreira. Conquistas, bons e maus trabalhos, turbulências, críticas... Você pode gostar ou não. Querer ou não o mesmo no seu clube. Mas se trata de uma figura que sempre merece  ser ouvida. Mais que isso, se trata de um eterno incomodado. Um cara que sempre quer e quis mais, independentemente da época e do que construiu ao logo de sua vida dentro do esporte.

Não dá para negar que Autori é da velha geração. Por outro lado ele não está nem aí para os 61 anos que tem. Para ele juventude é mais que isso. Está na cabeça, na vontade de evoluir ou não. "Existe muito jovem com a cabeça muito velha por aí", diz o ex-coordenador metodológico do Atlético-PR. Aliás também afirma ser "lamentável" o debate sobre "boleiro vs estudioso. Nesta longa entrevista a ideia foi falar apenas de futebol. Inclusive ela foi feita no início do último mês, sem saber da sua saída do Furacão, que foi divulgada no último domingo.

Neste papo exclusivo com o blog, o ex-treinador e agora gestor (ele mesmo fiz que não voltará à antiga função) faz duras críticas à CBF e, principalmente, ao nosso calendário. Fala da falta de identidade nos clubes brasileiros e é bastante critico quanto a qualidade do futebol jogado no país. Também cita as mudanças no futebol, da falta do "futebol de rua" e o quanto isso influencia na formação de novos craques por aqui.

Outro assunto abordado foi Rogério Ceni, com quem ganhou a Libertadores de 2005 com o São Paulo. Vê o agora treinador como um grande potencial na nova carreira e comenta sobre as dificuldades que o mesmo teve ao assumir a equipe que é ídolo durante esta temporada. Sua maior cobrança, inclusive, é o respeito ao processo, coisa rara aqui no Brasil quando o assunto é contração e queda de treinador. 

Veja na íntegra a entrevista:  

Depois de tantos anos como treinador, até com passagens fora do Brasil, o que tem te motivado nessa função de mais coordenação? O que tem encontrado de tão diferente?

Na verdade é uma função que, na maneira que o Atlético-PR me propôs, não existe no futebol brasileiro. Até porque eu não sou um gerente executivo, por exemplo. Eu não trato com negociações, com dinheiro... Eu mesmo deixei claro que não queria me envolver com isso. Minha área é totalmente técnica e no que isso pode refletir em questões estratégicas para o clube. A ideia é que, no futebol, você tenha alguém que se aprofunde em análises não só de contratações de jogador, mas também de profissionais que possam trabalhar aqui. Ter uma palavra que a direção creia, que seja importante e prioritária na qualidade profissional. Aqui se aposta muito em Recursos Humanos. Então apostamos também de forma infraestrutural, organizacional e metodológica. Mas nada adianta disso se não tivermos capacidade profissional. Gente com cabeça aberta para buscar novos conhecimentos, que não tenha preconceito de utilizar novas ideias. Falo isso porque o futebol é preconceituoso com isso. Então meu trabalho mira muito estas questões.   

Muito se fala hoje em não ter apenas um grande treinador, mas um staff de qualidade e que possa ser delegado à funções importantes. Como criar uma identidade de jogo? Como isso passa por escolher corretamente jogadores, um perfil de treinador? 

Isso nasce de uma situação que você precisa ter muito cuidado e respeito com as histórias dos clubes. Entender o que cada entidade busca. Ver o porquê de tantas pessoas acompanhar o clube, o que tanto identifica nelas... Tem que ter a ver com esse torcedor. Claro que existem outras coisas, mas essa é uma bastante importante. Cada clube traz consigo algumas características próprias durante a história e aqui no Brasil mais acentuadas por conta da diversidade cultural. Nosso país tem dimensões continentais. Então isso fica mais forte. Então o primeiro passo é respeitar essas origens. A partir daí sim, dentro de uma ideia de atualização, buscando a tendência do que é jogado agora, contextualizar tudo isso e, de alguma maneira, manter essas tradições. Sempre dentro de uma ideia clara de completividade que a cada dia fica mais exigente. A cobrança só aumenta neste sentido. Dentro dessa situação você precisa entender o por quê. Quando se fala em metodologia nada mais é que você ter uma ideia daquilo do que se quer fazer e como colocar isso em prática, como vai operacionalizar. A partir daí você cria sistemas, precisa ser algo sistemático. Não tem como fugir disso para se ter lógica. É necessário mirar o todo. Não podemos fazer uma análise isolada do futebol jogado em campo com decisões tomadas na gestão, por exemplo. Marketing, financeiro, jurídico... Hoje em dia é importante isso. Até na questão de decisão de comando. Você tem uma ideia central no clube, procura profissionais com perfil parecido e que possam agregar em conceitos táticos e faz entrevistas com eles isoladamente. Só depois define. Um processo seletivo desse cria um comprometimento maior de todas as partes.  o que eu vislumbro em termos de futuro, uma lógica para as coisas. Que não aconteçam coisas apenas circunstanciais. 

             
O que tem achado da formação de jogadores no Brasil? Concorda que precisamos nos atualizar nestas questões também? Quais são as mudanças mais significativas dos últimos anos na formação? 
  
Tem que desenvolver um jogo de futebol que tem a ver com excelência infraestrutural, estrutural e metodológica. E não é fácil fazer isso. Principalmente respeitando as tradições de cada clube. É um processo. Não é simples. Você vive competindo, vive se salvando por resultado. Então tem que entender como fazer, estar atento. E pra tudo isso, temos que estar ligado na formação destes jogadores. Ele precisa entender isso desde cedo e com o nível de complexidade sempre do menos para o mais. Entendo isso como uma progressão pedagógica. Tem que ser assim. Para você fazer as coisas com consciência e entender o por quê, esse processo precisa ser respeitado. Primeiro se aprende a somar, para depois ir para as operações mais complexas e no futebol é assim também. Eu concordo muito com o que você falou. O jogar mudou. As pessoas precisam entender que é futebol, mas que as maneira como se joga passou a ser diferente. Os interesses são maiores, os valores são diferentes também. As exigências e a falta de tolerância também só crescem. Você vê lá na Alemanha. O problema não é o Ancelotti que foi mandado embora. Se você ver isso está crescendo por lá também, teve mais gente saindo nos últimos anos. Até em outros países essa tolerância vem diminuindo. 

E como o "treinar" entra nessa conversa? 

Precisamos entender que quem faz futebol são as pessoas. E é da sociedade que vem os potenciais jogadores. Eles vão carregar consigo os maus hábitos, os vícios, má formação escolar... Isso tudo influencia no jogar de hoje. Eu costumo sempre dizer que dá para olhar como um bolo de chocolate. O jogar é o bolo. Então, quando você corta uma fatia, ela representa uma parte disso. Então é importante você trabalhar para essa fatia estar boa. Pessoal costuma reclamar: "Ah, esse negócio de campo reduzido, perde-se isso ou aquilo". Primeiro tem que se entender o que você pretende trabalhar. Como você vai criar comportamentos é importante que estes atletas tenham um grande número de ações. Ele repetindo muitas vezes, aquilo vai virar algo habitual para ele e vai se desenvolver dentro da partida. E isso não é e nunca será engessar alguém. De maneira alguma. Só pensar na pessoa que rói unha... Você vai pegar e engessar a mão da pessoa? Não. Você vai estimulá-la a parar de fazer aquilo, fazer com que crie um outro tipo de comportamento até que vire uma coisa consciente. Então você vai utilizando o campo menor, diminuindo os espaços, colocando gente dentro dele... Aí tem diversas maneiras de se fazer. Você usa mais horizontal, abrindo mais o campo, ou ao contrário, tentando gerar profundidade. Aí depende do que você quer trabalhar. Nisso você trabalha até questões físicas e fisiológicas. Você quer mais intensidade? Quais os intervalos entre um estímulo e outro? São respostas que você precisa ter e que dependem da sua análise da necessidade ali. Por isso os estafes hoje são maiores. E mais que multidisciplinares eles precisam ser transdisciplinares, ou seja, eles precisam interagir entre eles. Dentro dessa ideia, não se forma apenas jogadores, mas novos profissionais. Auxiliares, preparadores... Que o clube possa olhar primeiramente para dentro e depois pensar em buscar fora, seja jogadores ou qualquer tipo de função. 

Autuori conversa com o treinador Fabiano Soares. Ambos deixam o Furacão no fim desta temporada
Autuori conversa com o treinador Fabiano Soares. Ambos deixam o Furacão no fim desta temporada gazeta press

Ainda em cima da formação, Paulo. A gente vem de um histórico de formação muito vindo da rua, do futebol praticado de uma forma mais lúdica... E de certa forma isso estimulava muito nossos jogadores a resolverem problemas dentro de uma partida de futebol, de buscar um improviso. Como a gente se adapta a um cenário que cada vez mais os espaços públicos são menores e menos explorado? Existe alguma forma de lidar com isso sem perder essa nossa essência?

Essa é uma pergunta muito importante. Ela sempre aprece no nosso dia a dia. Antes a garotada tinha muito menos opções com relação à diversão e esportes. Alguns esportes foram crescendo muito e deram também uma condição de ascensão social. E isso era praticamente monopolizado pelo futebol. Hoje você tem o vôlei como um exemplo. Antigamente você não tinha aptidão para jogar futebol, mas era praticamente forçado a fazer porque era a oportunidade que você tinha. Você era forçado a crescer dentro da modalidade. A gente passava o dia na rua jogando bola. Fazia isso de forma natural, inata... E tentava sempre repetir os gestos do seu ídolo. Nem os pais ficavam ali dizendo para fazer isso ou aquilo. Os pais estavam em casa chateados porque o filho só queria saber de futebol. Então você buscava jogadores com 17 anos para os clubes. Já ia direto para um infantil, infanto juvenil... A rua proporcionava a estes atletas de forma inata determinadas situações que o jogo pede até hoje. Por exemplo: você jogava com idades diferentes, com biotipos e tamanhos diferentes, não havia árbitro nas peladas e falta era falta, os dois times tinha que concordar se não a porrada comia... Se você estivesse envolvido com gente de mais idade, com mais físico, você não podia afrouxar. E aquilo, de forma natural, desenvolvia a coragem. Tem gente que fala: "poxa, eu arrancava o tampão do dedo e mesmo assim continuava. Jogava o dia inteiro!". Isso desenvolvia sua exposição à dor de forma maior, do quanto aguenta ela. Acho que o jovem desfrutava mais do jogo. De 6 a 12 anos de idade é quando tudo acontece no sistema nervoso central. É nessa faixa que você desenvolve as coisas que são duradouras. E você tinha mais espaços públicos para desenvolver tudo isso. Tinha o futebol de salão, que hoje é o futsal e continua ajudando muito. Então a grande pergunta que a gente deve se fazer é: era só a qualidade técnica que desenvolvia aí? Só habilidade? Não é só isso! Como eu mencionei, tem mais coisas. Mas aí a gente pensa. Você vai trazer o espaço público de volta? Não. Mas você pode minimamente nas suas seções de treino trazer esses conceitos que eram desenvolvidos de forma inata. O grande desafio é como fazer isso. E é neste momento que tem que entrar a capacidade criativa das comissões técnicas. E existem situações assim. O Cruzeiro, por exemplo, foi fazer pelada na rua. Então porque não criar um festival que as categorias vão jogar entre elas, de uma forma que eles mesmo se organizem, formem as equipes trabalhando com idades diferentes. Isso para que eles tenham de novo o controle disso, para que se sintam úteis e participativos. Sintam que a ideia deles também é importante.         

De uns tempos para cá no Brasil tem surgido uma discussão, até que burra, sobre o treinador novo e o antigo, o moderno e o velho... Você, independentemente de resultados que vinham ou não e da sua idade, sempre se mostrou um cara que buscava atualização. Como você tem visto isso no cenário atual? Qual a relevância deste tipo de debate? Não acha que é algo que já devíamos ter ultrapassado?

É lamentável. Às vezes a gente se pega discutindo sobre velha guarda e nova geração de treinadores. Primeiro que você vai contratar um treinador no Brasil e vem o perfil: "Ah, eu quero um disciplinador. Não, eu quero um cara de diálogo". Não existe nada disso. Você tem que trazer um cara que conheça futebol, que exerça bem a função profissional dele. Esse cara precisa sim ser um bom gestor de pessoas, até para poder aplicar o conhecimento que tem. E depois entender a característica da personalidade dessa pessoas. Se é mais duro, se é mais distante do jogador... Isso é de cada um. A gente está longe de um processo seletivo. De colocar em prática aquilo que o clube quer. E a grande questão é que o clube não sabe o tipo de futebol que quer jogar. E assim vai indo. Não tem a coragem de enfrentar as dificuldades de imprensa, de torcida... Esse é um grande problema. Ninguém tem convicção de nada quando contrata. Aí a gente entra nestes tipos de discussões absurdas como a que você citou. Conheço muita gente de idade já, mas que está com a cabeça totalmente antenada e atualizada. E não só no futebol isso. E outras que são novas ainda, mas como diz o Mário Sérgio Cortela, "jogaram a âncora nas águas passadas e agora estão presos". O velho ao meu ver é isso. A idade é inevitável para todos nós. Agora, você vai ficar velho só se você quiser. Tem que sair do lugar. Agora a conjuntura do futebol brasileiro em si, ajuda. Você vai para um futebol inglês ou alemão, por exemplo, a ideia é sempre de te jogar para cima. Aqui o sistema faz você não pensar em evoluir. Um exemplo bem prático e sem fugir muito da pergunta: o nosso calendário é fator gerador de muitos problemas. Vou te dar apenas um: ele simplesmente não permite o desenvolvimento dos treinadores. Você treina, joga, recupera, viaja, joga, recupera... Isso faz com que você ao menos tenha tempo de colocar suas ideias em prática. Então vira um trabalho de papo e vídeo. Você acaba tendo até que diminuir carga de treino, por exemplo. Se não estoura os caras. Aí você trabalha o mais simples e o que menos desgasta: bola parada. Hoje mesmo você vai lá e contrata um jogador porque ele é bom na bola parada. Não se contrata porque ele interpreta bem o jogo. São todas situações que o calendário acaba te induzindo.  

                                       
Até na questão de contratar um jogador X que é bom nisso, nisso e aquilo, mas também tem isso e isso que ainda pode ser melhorado... Você acaba não tendo tempo para fazer dele um jogador melhor.

É por aí. E eu te dei apenas um exemplo com relação ao calendário. Mas tem muitos mais. Por isso eu sou um grande crítico a isso. Enquanto nós não mudarmos o calendário, não adianta. As ideias podem ser muito boas, mas vão sempre chegar de forma isolada. Sem interagir com todas as outras. E para você florescer, crescer, uma ideia precisa estar conectada à outra. Tem que ter uma visão sistêmica, uma visão do todo. É dentro de tudo isso que acho necessário se elevar o nível do debate. Refletir. E isso tem que vir por parte institucional. Não tem que vir de forma individual. E nossa entidade máxima no futebol não está preocupada com isso. Está sempre priorizando a Seleção, os patrocinadores... Sobre o futebol como um todo não tem grande preocupação. Não se debate. Vou te dar um exemplo: pensaram em fazer um campeonato sub-23 agora no final da temporada e em 40 e tantos dias. Refletiram sobre isso? Construíram isso junto com os clubes? É assim que as coisas acontecem. Aí falam que os clubes não quiseram participar, que deram a ideia. É por isso que eu critico tanto essas coisas e vou continuar assim. É muito do que tem na CBF e das pessoas que comandam lá hoje. E olha que tem muita gente de qualidade lá dentro, mas individualmente, com iniciativas próprias e não da entidade em si.

Você citou a questão de dar tempo para os treinadores poderem trabalhar suas ideias. Mas o Atlético-PR andou tendo problemas neste sentido nos últimos meses, com seguidas trocas no comando. Inclusive você deixou o cargo por um tempo exatamente por isso. O que de fato aconteceu? Como você enxerga essa alta rotatividade de treinadores no Brasil?

O que nos falta são ideias. Por isso não temos processo. Você tem sempre que partir de uma ideia inicial. Aí sim você vai ver como você vai operacionar isso e existem pessoas responsáveis  por esta etapa. Neste meio começam a aparecer situações que você não esperava. É preciso parar, refletir e tentar ajustar o entorno. E tem a ver com o que aconteceu aqui comigo. Quando o Eduardo Baptista veio eu falei com o clube muito claramente que, na saída do treinador, que a gente precisava agora terminar esse ciclo, eu sairia também. Que a gente precisaria passar por um processo, por eu estar ali já um ano e meio, enxergava todo esse cenário. Tive que tomar uma posição. Deixei claro isso no dia que o Eduardo veio. E podia ser qualquer outro treinador, eu faria a mesma coisa. Que se quebrassem no meio do caminho eu ia estar fora do projeto. E isso aconteceu mesmo. E no geral eu não tinha motivo para sair, o clube também não queria. O trabalho estava se desenvolvendo. Só que eu cravei. Eu acho que quem tem que pagar a conta não são só os treinadores. No momento que as coisas não vão bem, que alguém tenha os culhões para dizer que sai também. Até porque eu também tive parcela de culpa em tudo, não foi só o treinador. Quando eu entrei nessa função eu me propus a fazer isso. E eu sai mesmo o clube não se conformando. Cheguei a negociar com alguns clubes, teve contatos. Até me querendo como treinador e eu recusei, pois não quero mais isso aqui no futebol brasileiro. O Atlético-PR entrou no meio e garantiu que seria concorrente, que eu estava livre, mas que eles ainda queriam contar comigo. Chegamos à conclusão que era é o momento de esperar o ciclo do profissional. No final de tudo, iriamos analisar. A ideia é sair do lugar comum, não cair mais em contradição.  

Paulo Autuori comandando o Vasco
Paulo Autuori comandando o Vasco Divulgação / Vasco

 

Você tem uma boa identificação com o São Paulo e acompanhou, mesmo que de longe, a passagem de Rogério Ceni como treinador do clube. Acha que faltou processo e paciência no caso do ex-goleiro? 

Primeiro que eu tenho certeza que o Rogério tem todas condições para ser treinador. E a gente vê isso pelo que ele mostrou durante toda sua carreira como jogador. Isso é claro para todo mundo. Agora terá mais uma oportunidade para isso. É um cara com um nível intelectual acima da média e que tinha ideias claras. Sempre foi um profissional que se posicionou. Isso é uma das coisas que mais admiro nas pessoas. E se posicionar independente de local, pessoas... Mas isso gera alguns receios, ainda mais dentro do ambiente do futebol. Eu mesmo sempre gostei de ter caras assim por perto. Agora, a maneira como aconteceu ninguém mais do que ele e o pessoal do clube sabem. Eu não posso entrar mais fundo nisso porque é algo que não participei. O que eu tenho é uma visão superficial do que aconteceu. Conversei com ele antes, conversei depois... Mas é aquilo que eu digo. Você tem que refletir muito. Tem que ter ideias. Só que existem vários fatores que são determinantes para que essa ideia vá para frente ou não. Aqui no Brasil, pela ideia de fazer as coisas para agradar pessoas, se perde em vários momentos, e isso vai além do futebol, deixa de tomar medidas que são impopulares, mas que são necessárias. Eu sempre cito Margaret Thatcher para falar do papel do líder, porque ela sabia que tomaria decisões impopulares e aguentou o tranco para isso. Lá na frente se colheu os frutos. Por isso eu valorizo as ideias. Hoje estou aqui, amanhã posso estar lá... Mas eu tenho orgulho de estar tentando quebrar alguns paradigmas. A gente tem que ter coragem de tomar algumas decisões. Isso não quer dizer que vai ganhar, longe disso, são coisas diferentes. Mas são posições que você começa a estabelecer quando tem ideias claras e lógicas. Voltando a situação do Rogério, eu acho que teria de ser um processo melhor construído em relação à ele, como ídolo do clube. Era importante entender isso e, junto com a direção, construir algo mais sólido. Eu mesmo sou obsessivo em criar cenários. E no futebol você tenta sempre criar um cenário positivo e esquece de criar o negativo, sem se preparar para o mesmo. Depois as coisas acontecem e você não tem soluções e respostas. Por isso é importante você construir as coisas com lógica, para que tudo tenha consistência. Para passar por períodos de turbulência, porque tudo e todos passam por isso. Mas sempre evitando acabar com o processo. Tem que ser último caso. A ideia tem que ser sempre de realinhar e seguir em frente. Se você teve desde o ponto de partida coerência naquilo que você propôs e naquilo que você trabalhou, as coisas vão melhor.                                  

Em qual estágio você vê o futebol brasileiro atualmente? O que tem achado da qualidade do nosso jogo?

Ruim. Muito ruim. E aí entra a questão do calendário  e entra o assunto "quem está jogando esperando o contra-ataque vem ganhando". Isso é uma estatística fria, que pode mudar ano que vem. E as pessoas vão dizer que foi feito o que para mudar isso? O calendário te força a isso, você opta pelo mais simples, o mais seguro. E as equipes que precisam propor jogo vão se expor mais e para se expor você tem que ter qualidade de jogo, trabalho ofensivo. Nós só temos trabalho defensivo. A minha bronca com a CBF vem disso, ela utiliza a Seleção para dizer que está tudo bem, mas está tudo mal. A realidade do futebol brasileiro é uma e da seleção é outra. Ela só vem bem graças ao profissional inteligente que é o Tite. Porque tem conceitos claros e conceitos importantes para o que é o futebol atual. 

Nós vivemos uma discussão de "boleiro vs acadêmico", do "tatiquês"... Você acha que é um momento de ruptura no modo de tratar o futebol? Até em nível de vocabulário mesmo?

O que mais me irrita é isso. Por exemplo, no jornalismo, deveriam usar termos antigos que não se usam mais. Então ninguém fala disso. Você tem situações que tudo está mudando. Essa é a justificativa que tem para criticar os termos atuais. Esses dias eu ouvi um cara dizer: "no meu tempo era contra-ataque, hoje é transição". Não tem nada a ver uma coisa com a outra! Contra-ataque é o momento que você recupera a bola. Então para melhor entendimento você vai dividir em quatro fases: Fase defensiva, fase ofensiva, transição defensiva e transição ofensiva. E têm várias opções de fase defensiva, fase ofensiva e transições. Tem vários tipos.

Se bate muito na questão da imprensa. Falam que ela não tem importância na qualidade do jogo. Você acha que a imprensa é importante nessa construção de um futebol melhor?

Muito. Eu posso dizer isso porque já passei por muitos países no futebol, uns mais desenvolvidos e outros menos. Eu já vi e ouvi discussões de muito bom nível, em que você faz as pessoas entenderem. Se não há o desdém da imprensa em relação as novas terminologias, se não há crítica, vão usar de forma mais uniforme. Você vai induzir as pessoas a verem futebol dessa maneira. E outra coisa que falam: "o Brasil é o país do futebol." Isso é uma falácia! A paixão é tão ou mais exacerbada em outros lugares. Você vai na Turquia e é uma coisa de louco, só para te dar um exemplo. Aqui nós não sabemos torcer, só queremos ganhar. Torcer é o torcedor que compra carnê anual, o time está lutando para não ser rebaixado e ele está com o estádio cheio. Isso precisa ser falado. Mas falam? Ninguém fala. Todo mundo fala o que as pessoas querem ouvir, isso é populismo. E isso também é competência da imprensa. Precisamos de competência, de argumento. Com argumento, se tem conhecimento. Vocês nesse papel são importantes. Tem que mudar isso. Se não mudar, ficaremos estagnados. A imprensa é fundamental. Temos que parar com essa briga entre seguimentos, todos são importantes. Mas os verdadeiros protagonistas são jogadores e o público.

Como tem visto o momento do futebol peruano? Acompanhou a trajetória deles até a Copa do Mundo?

O jogador peruano é de qualidade. Só que a conjuntura de lá induz ele a ser displicente. Eles sofrem defensivamente, isso é histórico. Eu lembro do tempo que eu passei lá, tínhamos grandes resultados fora de casa porque não precisávamos se expor tanto no ataque. Em casa, como tinha essa obrigação de sair mais para o jogo, você falhava.

E como você vê a subida de nível dos centros mais periféricos da América Latina no cenário atual? E sobre a obrigação dos brasileiros "atropelarem" todos que impomos? 

Vejo gente torcendo o nariz e comparando a Venezuela com o futebol brasileiro. Isso é inadmissível, deveriam comparar eles com eles mesmo. Ver a realidade de lá e daqui. Essa arrogância de olhar só para nós é complicada. Houve evolução, isso é inegável. Quem não consegue ver isso é porque só consegue olhar aqui pra dentro. Seja analista, torcedor... Aí você vai em termos sociais e culturais,  falam dos americanos, que eles só olham para o próprio umbigo. E a gente no futebol só olha para o nosso umbigo, somos arrogantes nisso porque fomos pentacampeões. 

Pra fechar, professor, é uma pergunta que eu sempre faço para todos que entrevisto. Ela é bem reflexiva. Para você, o que é jogar bem?

Hoje há uma dificuldade de entender equipes que jogam como o Corinthians, com solidez defensiva. Não é feio, é eficiente. Isso é jogar bem! Interpretar a tua estratégia e executar. Isso é jogar bem. Vejo jogos por 5-4, todo mundo falando que foi um jogão; pra mim não foi. Tomar quatro gols é jogar mal. Porque não analisamos jogo, analisamos resultado. Enquanto isso prevalecer, estaremos afastados da realidade do futebol atual. Jogar bem é executar o seu plano de maneira eficaz, seja qual seja ele.

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O título de uma identidade

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Fábio Carille e Cássio comemoram título após o Corinthians derrotar o Fluminense por 3 a 1, em Itaquera
Fábio Carille e Cássio comemoram título após o Corinthians derrotar o Fluminense por 3 a 1, em Itaquera GazetaPress

Foram altos e baixos durante o longo Brasileirão 2017. Um primeiro turno não só de um grande aproveitamento, mas também de um futebol bem jogado - inclusive propondo o jogo em vários momentos, ao contrário de quem afirma que o time de Fábio Carille só joga em contra-ataques. Um pouco antes da virada do turno, veio a queda brusca de desempenho. Uma crise técnica que se alastrou no segundo turno. 

Grandes atuações, clássicos vencidos e uma eficácia grande para se manter no topo. Partidas de um nível técnico para se esquecer, falhas defensivas, principalmente, em bolas paradas, intensidade baixa. Talvez as duas frases anteriores seja o resumo da campanha "montanha russa" alvinegra. Mas uma coisa ninguém pode negar: o Corinthians triunfou, mais uma vez, com uma identidade.

Uns acham pragmático, outros competitivo. Tem gente que critica, existem os que sãos só elogios. Faz parte do gosto futebolístico (ou clubístico) de cada um. Mas não tem como tirar méritos de uma equipe que ficou 30 rodadas na liderança de uma competição desgastante e difícil. Mais que isso, é preciso enxergar o futebol além do resultado. E podemos facilmente perceber elementos de um futebol sólido, rico em conceitos e, principalmente, priorizando o coletivo para elevar suas individualidades.

A grande marca não só deste título, mas de uma era com um DNA vitorioso, é o trabalho defensivo desenvolvido a anos no Corinthians. O conceito de linha defensiva de 4 trazido por Mano Menezes, desenvolvido por Tite e agora estabilizado por Fábio Carille é uma das referências do futebol praticado atualmente no Brasil. Jogo, aliás, que se desenvolveu muito nos últimos anos neste sentido, mas que ainda precisa dar um passo adiante na organização ofensiva.

Não à toa, foram várias as peças que construíram esta forte linha defensiva durante a campanha do título: Fagner, Léo Príncipe, Paulo Roberto, Arana, Moisés, Marciel, Pablo, Balbuena, Pedro Henrique, Léo Santos... Uns com grande desempenho, outros um pouco abaixo. Mas todos com o conhecimento da causa absorvido. Certos do que fazer e como se comportar sem a bola. Setor estreito, linhas de coberturas bem organizadas, movimentos de recuo e avanços coordenados. Cumprir função independente da posição.

Se formos mais além ainda podemos colocar nesta lista nomes como Gabriel, Maycon, Rodriguinho, Romero, Clayson e até Jô. Apesar de não serem laterais e nem zagueiros, em vários momentos ajudaram a linha defensiva no trabalho de compensação, outro grande ponto na organização defensiva alvinegra. Preencheram espaços de companheiros, "substituíram" algum colega que por algum motivo não estava ali posicionado momentaneamente (entenda no vídeo abaixo). Ajudaram a preservar firme um dos pilares desta identidade alvinegra: manter a última linha sempre sustentada.

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"Perde e pressiona", "encurta o campo", "manter a bola coberta", "compensar posições", "pontas recompondo até o final e fechando o lado", "vigiar o funil (entrada da área)"... Todos estes foram elementos essenciais trabalhados no dia a dia e que, de tanto exercitados e falados, batem como um martelo na cabeça de cada peça do elenco alvinegro. Essência de um modelo de jogo enraizado na cultura do clube nos últimos anos (jogo contra o Grêmio, na análise abaixo, é um bom exemplo).

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Com a bola o Corinthians também jogou. Atuações como contra o Vasco em São Januário, Bahia, São Paulo, Sport e Palmeiras na Arena, entre outras, provam que não foram só de contra-ataques que os alvinegros viveram. Na virada do turno, por exemplo, o Corinthians trazia consigo um número bastante curioso: mesmo não tendo uma grande média de posse de bola - número por vezes mal qualificado (clique e veja aqui) -, era a equipe que mais passava na competição. Evidência de um futebol vertical, e não reativo, que buscava passar rápido e não ter a bola apenas por ter. Triangulações pelos lados, infiltrações de Rodriguinho e Maycon, avanços de Fagner e Arana, mobilidade de Jô para abrir espaços... Os pilares da construção ofensiva que, apesar de ter oscilado, é o terceiro melhor ataque da competição (veja exemplos de construção nos vídeos abaixo).  

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Tudo isso jamais seria possível sem uma palavra: processo. Apesar dos desvios conceituais com Oswaldo de Oliveira e Cristóvão Borges, a diretoria do Corinthians, que assim como a maioria no Brasil carrega consigo seus defeitos, tem apostado na continuidade não só de treinadores, mas de ideias. Não tenho total convicção que tais decisões e escolhas foram tomadas com o discernimento e conhecimento futebolístico ideal, mas de fato as mesmas foram decisivas para atingir o atual patamar de conquistas recentes do clube.

Ao apostar em Carille - mesmo o antigo auxiliar não sendo a primeira opção da direção - Roberto de Andrade & Cia. devolveram ao Corinthians uma identidade. Algo já aceito pelo torcedor. A competitividade aliada à intensidade - que está longe daquela raça por raça, comum em equipes desorganizadas e que correm errado - é motivo de orgulho para o corintiano. Hoje o torcedor conhece e se identifica com uma maneira de jogar. Tem mais referências para se julgar e, inevitavelmente, cobrar.

E foi na fase ruim que isso ficou bastante evidente. O Corinthians pouco performou no segundo turno do campeonato. Melhorou nas últimas partidas, mas não conseguiu atingir o nível de desempenho do início da competição. Caiu inclusive na intensidade de seu jogo. Enquanto muitos cobravam medidas drásticas, como troca de sistema e até em elementos valiosos do modelo de jogo trabalhando desde a pré-temporada, Carille mudou características. Demorou um pouco até, mas viu em Camacho, Marquinhos Gabriel e Clayson as respostas que precisava dar à queda técnica em Jadson e Maycon. Terminou as partidas contra Avaí e Fluminense voltando ao 4-1-4-1 vencedor de Tite em 2015. Um ajuste posicional apenas (se considerando que o sistema base é o 4-2-3-1), mas que surtiu efeito em momentos difíceis.

Mas a temporada não foi só da revelação Fábio Carille. Foi também das ressurreições de Cássio e Jô. O primeiro, de herói do Mundial aos problemas com a balança e perda da posição, ao posto de goleiro de Seleção. Atuações e defesas decisivas, aliados à liderança desenvolvida com os seis de clube. Um dos poucos remanescentes da geração que conquistou a América e o mundo no Japão. O caso de Jô é mais emblemático ainda. De problemas fora de campo a um amenizador de ansiedades, principalmente dos mais jovens. Um termômetro do vestiário, sempre enaltecido pelo comandante. O artilheiro do Brasileirão (veja no vídeo abaixo um pouco da mobilidade do centroavante).

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O futebol do Corinthians, queira você ou não, foi o melhor do Brasileirão. Está longe de ser uma equipe revolucionária, um conjunto que realmente eleve a qualidade do jogo por aqui. Traz consigo problemas estruturais como vários outros, principalmente quando falamos em se organizar para atacar. Esteve acima da pobreza conceitual que vivemos na atual edição do nosso maior campeonato e ainda tem um caminho a evoluir na próxima temporada. Foi um futebol de ideias, de respeito ao processo e, principalmente, de uma identidade forte. Uma identidade corintiana.  

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