O Galo das individualidades. O Galo que não é uma equipe

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Bruno Cantini/Atlético-MG
Marcelo Oliveira durante treino do Atlético-MG
Marcelo Oliveira durante treino do Atlético-MG

Fred, Robinho, Pratto, Victor, Rafael Carioca... Qual torcedor não gostaria de ter essa qualidade em seu elenco atualmente? E todos eles juntos? Pois é, o Atlético-MG tem e, se hoje briga na parte de cima da tabela, deve-se muito aos talentos individuais destes atletas. Robinho pode decidir a qualquer momento. Fred precisa de poucas chances para guardar. Victor faz milagres. Rafael Carioca organiza como ninguém a iniciação das jogadas e hoje é jogador de Seleção Brasileira. Mas perceba que, em quase um parágrafo escrito você não leu nenhuma vez a palavra equipe, jogo coletivo, modelo de jogo, organização...

Estava eu aqui assistindo o jogo contra o Fluminense nesta segunda-feira para fazer a análise do DataESPN com em toda rodada. Ao terminar o primeiro tempo, com o Galo na frente, eu me perguntava: mas o que o Atlético-MG está fazendo para ganhar que até agora eu não consegui enxergar? Passei o intervalo reprisando pedaços da partida, tentando achar algum conceito ou ideia que confirmasse o 1 a 0. Isso mostra que meu senso crítico, independente do placar, já me norteava. Creio que existem muitos torcedores, inclusive, que já conseguem diferenciar essa questão do resultado x desempenho.

Apesar da boa campanha até aqui, o Atlético hoje é um time individual em sua essência. Depende 100% do desequilíbrio das peças que tem. Olhar para a equipe de Marcelo Oliveira hoje é enxergar pouco conceito coletivo. Contra o Flu, por exemplo, deu-se espaços para tomar oito gols e não quatro como ocorreu. Os atletas não sabem se marcam zona ou por encaixes individuais. Basta colocar um pouco de mobilidade ofensiva (que foi o que Levir fez com Scarpa, Danilinho, Wellington e Marcos Junior) para ver espaços sendo gerados a cada desgarre da linha e não cobertura nos setores (veja a análise em vídeo da quantidade de espaços que o Galo deu na partida).

Erro de posicionamento da defesa do Atlético-MG deixou espaços gigantes para o Fluminense

Quando falamos em modelo de jogo, isso vai muito além do esquema tático que estamos tão habituados a numerar. Falamos sobre ideias dentro de uma engrenagem que dão um norte para a equipe jogar coletivamente. O que faremos quando recuperamos a bola? A estratégia é acelerar o jogo e chegar com passes verticais ao gol adversário? Ou é melhor circular a bola, trabalhar com passes curtos e ir ganhando o terreno de forma paciente? E quando perdemos a bola? Pressionamos o portador da mesma até recuperá-la? Ou é melhor fazer a transição defensiva e se colocar atrás da linha da bola? Olhe que usei vários verbos em terceira pessoa, sempre com "nós" e não com "eu". Sim, o futebol tem que ser tratado como "nós".

Contra o Fluminense especificamente, jogo que está mais fresco em minha memória, é possível chegar a conclusão que as decisões dos jogadores nestes momentos do jogo são totalmente intuitivas e aleatórias. Uns aceleram o jogo quando recuperam a bola, outros querem diminuir o ritmo. Quando a posse é perdida, metade ataca a bola e a outra metade prefere recompor. Não há um plano geral a ser seguido.

Assisti outras partidas do Galo nos últimos meses. Vitórias importantíssimas, mas que não escondiam algumas dessas deficiências, agora potencializadas na derrota contra o Tricolor Carioca. São problemas recorrentes.

Não gosto muito de usar trabalhos anteriores para se criticar X ou Y, mas é fato que o Atlético-MG de hoje lembra muito o Palmeiras de 2015. Não existe um modelo de jogo por trás do 4-2-3-1 no momento ofensivo e o 4-4-2 no momento defensivo. Há poucas boas ideias, como abrir mão de infiltração dos volantes e fortalecer seu balanço defensivo para Fred, Robinho e Pratto atuarem juntos. É pouco para um investimento tão alto e que mira títulos importantes.

Quando se manda Levir Culpi embora, se traz Aguirre e o troca por Marcelo Oliveira, também há um dedo podre da diretoria no planejamento da temporada. É a mesma coisa que se falar em maça pela manhã, de couve pela tarde e refrigerante antes de dormir. São três perfis totalmente diferentes. Três profissionais que pensam e trabalham o futebol de maneiras bem distintas (escrevi sobre isso em maio, clique aqui e veja).

Ao trazer um treinador é necessário fazer duas importantes perguntas: Que tipo de futebol eu quero praticar? Que tipo de elenco eu tenho para praticar esse futebol? Claramente não foi neste tipo de processo que as decisões foram tomadas na Cidade do Galo. Conseguiram, como ninguém, trocar seis por meia duzia e meia duzia por cinquenta, infelizmente.

Que o Atlético-MG tem elenco de sobra para brigar de igual para igual com os postulantes ao título ninguém duvida. Mas fato é que hoje não existe uma equipe pelos lados alvinegros de Belo Horizonte. Digo equipe na maior essência da palavra, falo em futebol coletivo. Depois de derrotas, vitórias e oscilações não adianta falar em garra, vibração, capricho ou técnica... O futebol se faz com muito mais que isso em 2016.

 

Fonte: Por Renato Rodrigues, do DataESPN

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Como explicar a 'pane' do Flamengo na Libertadores? Veja a análise das falhas graves do 5 a 0 em Quito

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Gabigol e Bruno Henrique reclama durante Independiente del Valle 5x0 Flamengo
Gabigol e Bruno Henrique reclama durante Independiente del Valle 5x0 Flamengo Getty

Em mais um DataESPN de casa, mostraremos como em dois gols conseguimos explicar quase todos os problemas do Flamengo na derrota por 5 a 0 para o Independiente Del Valle, em Quito, na última quinta-feira, pela Copa Conmebol Libertadores:

Fonte: Renato Rodrigues

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Como explicar a 'pane' do Flamengo na Libertadores? Veja a análise das falhas graves do 5 a 0 em Quito

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A construção de Dome: quais ideias o treinador já instaurou no Flamengo e quais são os ajustes necessários?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Com o DataESPN totalmente de casa, analisei as ideias de Domenec Torrent que começaram a surgir nos últimos jogos. Como ataca, como defende, pontos fortes e onde o catalão ainda precisa fazer ajustes. Assista o vídeo:


         
     

Fonte: Renato Rodrigues

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O desempenho de Neymar na final da Champions e as diferentes formas de se olhar para o jogo

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Neymar ficou sem o título da Champions League em 2019-20
Neymar ficou sem o título da Champions League em 2019-20 Getty Images

O Bayern de Munique, que se mostrou mais forte coletivamente nos últimos meses, levou a UEFA Champions League contra o PSG. Apesar do equilíbrio no confronto que terminou 1 a 0, no último domingo, a conquista foi bastante merecida dado ao nível de jogo que os bávaros apresentaram sob o comando de Hans Flick e dentro da própria decisão no Estádio da Luz.

Mas como em qualquer fracasso, a missão número 1 de nós brasileiros veio à tona: achar um culpado. E não poderia ser diferente que Neymar seria um dos alvos perfeitos para descarregar a fúria da caça às bruxas. 

Exista também quem tente o defender. Enfim, não podemos negar que o astro divide amor e ódio por onde passa. Mas vamos tentar olhar tudo isso de uma maneira mais fria e racional.

O ponto principal para olharmos para o que foi a atuação de Neymar na final em Lisboa é o posicionamento dele escolhido por Thomas Tuchel. Questão, inclusive, que passou a ser uma crítica a seu treinador após o duelo.

O brasileiro atuou centralizado no ataque ao lado de Mbappé (pela esquerda) e Dí Maria (pela direita) como vemos na foto tirada do jogo logo abaixo. 

Na imagem vemos com Tuchel escalou seu ataque: Dí Maria na direita, Neymar por dentro e Mbappé pela esquerda
Na imagem vemos com Tuchel escalou seu ataque: Dí Maria na direita, Neymar por dentro e Mbappé pela esquerda DataESPN

"Mas como assim?". "Neymar não é centroavante". "Esse treinador dele fez m...". Definitivamente, não é bem assim.

Ao analisar um jogo ou o desempenho de uma equipe/jogador, busco partir sempre do princípio de entender a ideia por trás da escolha. O que o treinador quis a partir daquela decisão. Para aí sim não apenas definir se foi certo ou errado, mas sim tentar entender se fazia sentido a escolha e se ela deu certo ou não no fim das contas.

No caso de Neymar como centroavante: a ideia fazia sentido. Pelo menos na minha interpretação, Thomas Tuchel quis, além de deixar sua principal referência técnica com o mais liberdade possível para se mover, também evitar desgaste físico de Neymar. Deixá-lo inteiro para quando a bola chegasse até ali para corridas em velocidade e duelos de 1x1.

Outro aspecto importante para deixar o brasileiro centralizado foi usá-lo no limite da linha defensiva do Bayern, que joga sempre muito alta e que mostrou alguns problemas com adversários anteriores. O gol do Barcelona, por exemplo, sai de uma infiltração de Jordi Alba neste exato cenário. Então está mais que comprovado que a ideia fazia sentido e que o treinador não foi tão imprudente assim. Mais que isso, estudou seu rival e planejou uma estratégia em cima de suas características.

A desolação de Neymar, vice-campeão da Champions League

A execução por outro lado, não saiu dentro do esperado. E muito por conta do que o próprio Bayern impôs no confronto. Para se lançar essa bola em profundidade por trás da defesa, o PSG precisaria, pelo menos por alguns instantes, ter situações que não tivesse tanta pressão na bola, para justamente alguém levantar a cabeça e enfiar essa bola no espaço. 

Mas isso pouco aconteceu. Os bávaros dominaram o confronto no aspecto físico. Pressionaram a bola freneticamente durante os 95 minutos de futebol em Lisboa. A saída de bola do PSG foi nitidamente quebrada por essas subidas de pressão e impactou muito no desempenho de Neymar e seus companheiros de frente, que também estiveram posicionados para receber essa bola nas costas da defesa durante boa parte do confronto.

Com isso, Neymar passou a receber bolas, muitas vezes, de costas para o gol, como na imagem abaixo. Aí sim um cenário totalmente desconfortável para ele, que tem como forte jogar de frente, arrancando e superando adversários no drible. Com os zagueiros usando a força física e encurtando, pouco rendeu o brasileiro que, com o passar do tempo, foi se irritando e recuando de forma significativa para tentar pegar a bola. Aí, com muitos metros longe do gol, ficou mais difícil atingir seu objetivo.

Neste lance, Neymar recebe a bola de costas, com o zagueiro pressionando
Neste lance, Neymar recebe a bola de costas, com o zagueiro pressionando DataESPN

Ao decorrer da partida, Tuchel jogou Neymar para a esquerda na tentativa de ajustar a equipe e sua influência nas ações ofensivas do PSG cresceu. Mesmo assim, não foi uma noite muito brilhante do camisa 10, que tomou decisões ruins e tem sua parcela de culpa em seu desempenho. Chorou e sentiu o baque de uma derrota dolorida. Traz consigo uma série de erros na sua trajetória no futebol, mas sente uma noite triste como qualquer ser humano.

Mais que isso, deixa também uma lição importante: que existem diversas formas de olhar para o jogo e entender os porquês dele. E dá sim para criticar personagem e questionar as decisões dele, mas podendo fazer isso de forma honesta e respeitosa. Assim só o futebol triunfa.

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Sai Boselli, entra Jô: Renato Rodrigues analisa diferenças com a troca de centroavantes no Corinthians

Renato Rodrigues
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Fonte: Renato Rodrigues

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O São Paulo do 'falso controle'

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Fernando Diniz divide opiniões sobre seu trabalho no São Paulo
Fernando Diniz divide opiniões sobre seu trabalho no São Paulo []

O São Paulo protagonizou uma eliminação dura na noite desta quarta-feira, no Morumbi. Sucumbiu frente a um Mirassol valente e organizado (3 a 2), mas que perdeu 8 jogadores titulares durante a pausa da pandemia. Mais do que isso, mostrou problemas estruturais e de escolhas que pairam no clube nos últimos anos e que, mais uma vez, questiona as diretrizes de uma direção pressionada.

E a queda nas quartas de final do Campeonato Paulista se torna ainda mais dura pelo fato de o Tricolor ter sido a equipe mais promissora entre as grandes antes da parada. Muito por demérito dos seus rivais, que não decolaram, mas com pontos positivos e, principalmente, mostrando certa ascensão em cima das ideias de Fernando Diniz. Alguns velhos problemas, no entanto, sempre estiveram ali e vieram à tona.

Tentar entender a situação que o São Paulo se encontra hoje e nos últimos anos requer mais do que achar um culpado. Trata-se de muitas variáveis, um contexto extremamente complexo que vai do campo à direção. Das escolhas, seja para o comando técnico ou escalações, e também uma questão de identidade, raramente vista na última década.

Se olharmos para dentro de campo, para as últimas atuações em si, talvez a palavra que mais me venha à cabeça é controle. Ou melhor, falso controle. Por isso o título do post.

Controle talvez seja uma das coisas mais preciosas que se tenha no futebol. E justamente pelo fato de ninguém tê-lo 100% dentro do campo de jogo. Mas é quase que uma unanimidade: quanto mais controle você tem, mais perto da vitória está. Por isso, trabalha para maximalizá-lo. Tentar ter nas mãos o máximo da narrativa do confronto, antecipando e neutralizando movimentos.

A expressão controle no futebol também vai muito além de ter ou não a bola. Mais uma vez não entrarei no discussão de melhor vs pior ou mesmo bonito vs feio. Mas é fato que existem formas e formas para se dominar um adversário. Para ser mais simples e direto: com ou sem a bola. E por isso é importante contextualizar toda essa perspectiva para entender esse São Paulo de Fernando Diniz.

 

Problemas estruturais



Jogadores do São Paulo antes de jogo contra o Mirassol, pelo Paulista
Jogadores do São Paulo antes de jogo contra o Mirassol, pelo Paulista Rubens Chiri/São Paulo FC

Não precisa ser amante das táticas para entender qual tipo de jogo Fernando Diniz pratica e quer praticar. Quem o contrata também sabe para o que é. Definitivamente essa não deveria ser uma crítica ao treinador. O ponto aí é: como executar todas essas ideias? E é aí que os problemas acabam expostos.

Vamos começar pela fase ofensiva, momento em que a equipe tem a bola. O fato de querer ter a bola, de ser protagonista no jogo é, sim, elogiável. A saída de bola, por exemplo, tem mecanismos bem estabelecidos a meu ver. O time flui nesta etapa de construção. A ideia de ter Tchê Tchê e Dani Alves por ali, se revezando, nessa iniciação, tem bastante lógica.

Mas é quando a bola chega perto do terço ofensivo que as coisas não encaminham bem. Vemos números de 20, 25, 30 finalizações em alguns jogos... Números frios que, por vezes, podem nos trazer uma falsa métrica. Mas quantas chances realmente foram cristalinas? Quantas partiram de uma finalização que nem deveria ser feita? Em quantas existia pressão na bola? Quantas no alvo? Quantas para fora?

Essa é uma impressão recorrente acerca deste São Paulo. Uma equipe que tem volume ofensivo, mas que não tem consistência, “punch”, nas ações com bola. E isso tem a ver com a filosofia também.

Um time que tem a bola, mas, do meio para frente, parece um pouco aleatório em seus movimentos. Uma espécie de “movimentem-se!”, mas não necessariamente como. Uma liberdade mal programada, extremamente intuitiva e que acredita no talento dos seus jogadores. Obviamente que não explorar suas qualidades seria um erro. Engessar a estrutura não é o caminho, mas o ideal seria sair do extremo. Criar situações e padrões que potencializassem essas qualidades, já que o São Paulo tem isso no elenco.

Mas não, esse livre caos, sem alguma lógica, traz a falsa sensação de controle. Porque ele não se resume a gols necessariamente. E acaba empilhando jogadores num mesmo setor, confundindo posições e funções.

Uma questão muito nítida contra o Mirassol foi a falta de “abrir o campo”. Não que isso seja uma regra. Mas foi perceptível que todos os jogadores se concentravam por dentro, fazendo exatamente o que o adversário queria. Com jogadores um pouco mais na amplitude, talvez espaços pelo centro seriam melhor utilizados. Ou mesmo trocas de lado, para gerar desequilíbrio. Mas o que vimos foram dois laterais jogando na base, com abrindo pouco o campo e dando quase nada de profundidade.

Sem a bola, os problemas ficam muito em cima das transições defensivas, momento da famosa recomposição. É bem verdade que, antes da parada, o São Paulo mostrava certo crescimento neste sentido e sofria cada vez menos nos contra-ataques. Mas esse é um ponto negativo que acompanha o trabalho de Fernando Diniz em outros clubes. O que deixa, muitas vezes, o jogo aberto, sempre a um passo de escorrer das mão. O tal do controle que tanto falo.

Momento em que o São Paulo disputa e perde 1ª e 2ª bola antes do gol do Mirassol: não existe linha defensiva
Momento em que o São Paulo disputa e perde 1ª e 2ª bola antes do gol do Mirassol: não existe linha defensiva DataESPN

Os dois primeiros gols sofridos na noite desta quarta-feira, principalmente, não podem acontecer num nível de competitividade que o São Paulo joga. O primeiro, de um escanteio sem rebotes, e um jogador se aproveitando de todo um espaço por trás da marcação. O segundo, perda de segunda bola e time totalmente desequilibrado para sofrer o ataque rápido. Essa transição descoordenada custou caro. Jogar bem é defender bem também.

Mas todas essas falhas estruturais também passam por escolhas individuais.

 

Priorização do talento “sem fome”


Jogar no modelo de jogo que Fernando Diniz tenta implementar exige muito mais que qualidade técnica. Essa organização deve sempre partir do princípio da intensidade, seja com ou sem bola. Jogar com uma linha defensiva alta, com muitos espaços nas costas dos zagueiros, pede muita proatividade dos atletas no momento em que a posse é perdida. Com ela, a necessidade é de um jogo dinâmico, com passes rápidos e mais profundidade.

Não sofrer o contra-ataque está muito atrelado ao que você faz no momento em que perde a bola. E isso falta ao Tricolor. Por vezes nem por ausência de vontade mesmo, mas por características individuais dos atletas escolhidos. Pegando de trás para frente, partindo do ponto que o São Paulo vai pressionar alto, Vitor Bueno e Pato, por exemplo. Ninguém dúvida da qualidade técnica de ambos. Mas e no momento em que se é necessário reagir rapidamente e pressionar a bola “como se não houvesse amanhã”?. A dupla, definitivamente, não entrega agressividade. Não se encaixa no plano. Igor Gomes até tenta, mas também não é algo destacável nas suas características.

Pato em disputa de bola contra o Mirassol
Pato em disputa de bola contra o Mirassol Rubens Chiri (São Paulo FC)

Então vamos lá: se sua ideia é pressionar alto, ser agressivo lá na frente e asfixiar seu adversário, como fazer isso com três jogadores que não tem essas virtudes? Realmente é uma lógica que não faz sentido e que, por mais que funcione em jogos e jogos, uma hora outra pode estourar num contra-ataque letal. E nem que isso tenha sido um problema contra o Mirassol, mas essa bola saindo de uma primeira pressão é um problema.

Se instalar no campo do adversário também exige resistência, capacidade de se repetir movimentos. Joga, perde, pressiona, recupera, joga, perde, pressiona, recupera... Essa é a dinâmica necessária para fazer esse tipo de jogo ser efetivo. Outro ponto é a capacidade dos jogadores de lado percorrerem longas distâncias durante todo o jogo. Reinaldo e Juanfran, apesar de terem suas qualidades, estão longe de ser esses caras. Até por isso não geram amplitude/profundidade pelos lados. Deixa-se de abrir o campo e empurrar o adversário para trás, ganhando espaço entre os jogadores de defesa do rival e na entrada da área.

Por mais que Igor Vinícios e Léo tenham seus defeitos, os vejo com com essas características. Força e resistência para subir e descer, além da capacidade de se impor fisicamente nos duelos. As recentes atuações da dupla, aliás, também credenciam uma maior regularidade no time titular e, por suas particularidades, poderiam acrescentar equilíbrio ao time, principalmente sem a posse da bola.

É simples escolha. Você ganha de um lado e perde do outro. Juanfran e Reinaldo te trazem mais experiência e qualidade técnica, mas deixam a desejar em outros aspectos. É a mesma lógica com os laterais mais jovens. Mas vejo necessidade de mais fisicalidade neste São Paulo. E talvez seja um dos times com mais material humano no Brasil para poder mudar um cenário com seu próprio elenco. São muitos jogadores promissores vindo de Cotia para trazer qualidade com a bola e fome sem ela.

 

O dilema da demissão


A problematização sobre manter ou não Fernando Diniz no cargo não se trata de “passar pano” como muita gente tende a acusar. É o simples fato de entender ser uma escolha complexa. Justamente por ser algo feito com certa recorrência no clube nas últimas temporadas e que só jogou o clube ainda mais para trás. Por isso é uma decisão difícil.

Um dos grandes erros do time do Morumbi nesta década foi a falta de norte. Uma gestão técnica mais coerente. Já repeti isso algumas vezes. Escolhas para o comando técnico que iam de Bauza a Osório, Doriva a Jardine, Cuca a Jardine... Sem entrar no mérito da qualidade desses profissionais, que são capazes, mas sim no tipo de trabalho que cada um tentava propor. Extremos totais, fazendo com que o clube rompesse com linhas diversas vezes, e deixando de criar qualquer identidade que seja.

Presidente Leco e Raí tem dura missão pela frente
Presidente Leco e Raí tem dura missão pela frente GazetaPress

Ao apostar em Diniz, a diretoria são-paulina deu o recado que a linha que querem seguir é a mesma de Jardine, Rogério Ceni e Osório. Mas trocar agora seria em qual sentido? Romper de novo ou apostar mais uma vez nesse estilo? Quem escolher? Vão sustentar e apoiar a próxima escolha? São todas perguntas muito necessárias e difíceis de serem respondidas pelo histórico recente da atual administração.

Por mais que o baque dessa última eliminação tenha sido forte, vejo o São Paulo com problemas ajustáveis. E pelo próprio Diniz. Em questão de ambiente e condução de trabalho, as referências são as melhores. É um treinador trabalhador e preocupado com os detalhes, agregador e que tem o grupo ao seu lado. Resta saber o quão disposto ele está de se desprender de algumas convicções e tentar essa volta por cima.

Fonte: Renato Rodrigues

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Premier League: Renato Rodrigues analisa estilo de jogo e fala sobre título avassalador do Liverpool

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Fonte: Renato Rodrigues

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Alemanha x Portugal: intensidade de jogo é a grande diferença no futebol dos países no retorno pós-pandemia

Renato Rodrigues
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Efeito quarentena: psicologia esportiva ajuda na “gestão emocional” e busca referências até na vivência em submarinos

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Bruno Henrique lamenta após gol perdido pelo Flamengo
Bruno Henrique lamenta após gol perdido pelo Flamengo MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images

Em tempos de pandemia, onde praticamente toda a humanidade sofreu algum tipo de impacto direto em sua vida, o futebol passa por sua maior parada das últimas décadas. Uma rotina totalmente diferente para todos que cercam o esporte e, principalmente, para quem o pratica. Se os danos passam pela parte financeira, física e médica dos clubes, a mente não deixaria de ser um aspecto preocupante nessa ruptura tão brusca em nosso cotidiano.

No quarto episódio da série “Efeito quarentena”, o blog agora tenta traçar a realidade e o futuro da saúde mental dos atletas em meio ao distanciamento social. Para isso, ouviu especialistas do Brasil e da Europa para entender suas realidades e preocupações neste momento.

Clique - Episódio 1: treinadores e auxiliares se apegam à tecnologia

Clique - Episódio 2: como a preparação física tenta minimizar danos?

Clique - Episódio 3: médicos e fisioterapeutas usam protocolos de bem-estar

Obviamente que qualquer profissional do futebol está sujeito a ter adversidades a ser superadas neste aspecto, mas o jogador em si acaba se vendo em uma realidade totalmente diferente. E a psicologia, como mais uma das áreas estratégicas dos clubes, tem tentado minimizar os danos.

Acostumados a viver e trabalhar de forma muito coletiva desde muito jovens e cercados de pessoas em todos os momentos, seja com muitos amigos, companheiros de trabalho ou mesmo em estádios cheios, estes atletas agora se deparam com uma convivência extremamente limitada. Alguns, longe de parentes e do próprio país, acabam vivenciando tudo isso sozinhos.

E essa preocupação vai muito além dos seus clubes propriamente, mas sim de uma maneira geral da população. Por exemplo, a OMS, além de todo trabalho contra a Covid-19 envolvendo planejamento de pesquisas e protocolos, se mostra extremamente preocupada com a saúde mental da população, inclusive já prevendo aumentos significativos de casos de depressão ao redor do mundo. A FIFA, por sua vez, também se mantém atenta a estes casos. Por conta disso, vem alertando confederações e planejando ações para minimizar danos futuros.

- Os impactos ainda são cientificamente desconhecidos, dada a novidade da situação. Mas sabemos que situações de estresse prolongado podem incidir em uma baixa da imunidade, dificuldades de concentração e ansiedade. A própria ansiedade por si só pode trazer diversas outras complicações, como dificuldade de concentração, tomada de decisão, de descanso e até conflitos com outras pessoas – explica Maurício Pinto Marques que é doutor em Psicologia do Esporte pela Universitat Autònoma de Barcelona e atualmente atende atletas do futebol em consultório.

Os profissionais da área alertam muito sobre a necessidade de se abordar cada caso de maneira exclusiva, já que cada indivíduo tem a capacidade de lidar com problemas de maneira totalmente diferente. Até por isso, o impacto de todo este momento vai variar muito de jogador para jogador. A estrutura que tem em casa para se manter ativo, por exemplo, é algo que poderá ser decisivo. A quantidade de pessoas que lhe faz companhia durante o confinamento e até o nível financeiro que cada uma já atingiu na carreira são fatores para se levar em conta. Principalmente pelo fato de sabermos que, na realidade brasileira, os atletas com altos salários e em clubes grandes, são apenas uma parcela do mercado.

Uma das grandes surpresas da temporada 2019/2020 na Europa, o Levante tem contado com um trabalho minucioso em cima da saúde mental de seus atletas. O clube, que está longe de ser uma das potencias financeiras da própria Espanha, tem Juan Miguel Bernat com um de seus profissionais desta área. Em entrevista ao blog, ele conta como tem tentado ajudar os jogadores neste momento de muitas incertezas.

- Como qualquer pessoa hoje em dia, o jogador de futebol está sujeito a muitos questionamentos: o que acontecerá com a doença no futuro? Algum membro da família está doente? E o que vai acontecer com o meu contrato? A competição voltará? A incerteza gera inquietação e preocupação. Para aliviar esse desconforto, a gente tem orientado todos a seguirem alguns hábitos. Um deles é aceitar que você não pode agir e concentrar em tudo o que depende diretamente de você e em tudo o que você pode controlar. Manter-se atento às realidades do presente e não prever o que pode acontecer no futuro. Respeitar hábitos e rotinas, para ter certa estrutura no seu dia a dia – nos conta.

Psicólogo esportivo do São Paulo, Augusto Carvalho chama a atenção para aspectos até que não envolvem o futebol como algo para ajudar a controlar melhor as emoções. Essa “gestão dos pensamentos”, para o profissional, é muito importante.

- É fundamental que os atletas busquem gerenciar, de forma positiva, suas emoções. Os pensamentos influenciam nas emoções, sendo até determinantes para a resposta emocional do indivíduo, ao passo que as emoções influenciam na capacidade de agir e de tomar decisões. Assim, quanto melhor for a qualidade dos pensamentos e, consequentemente, das emoções, melhor será a forma como o atleta irá enfrentar a situação. Além da organização de uma rotina diária com estabelecimento de atividades e horários, uma boa alimentação e hidratação, é importante que eles desfrutem de momentos de lazer e diversão como brincadeiras em família, jogos educativos, videogame, filmes e leitura. São aspectos fundamentais para levar a vida de forma saudável – explica.

 

 

Busca por referências vai de submarinos a estações espaciais

Sergi Enrich, capitão do Levante, motiva seus companheiros durante jogo
Sergi Enrich, capitão do Levante, motiva seus companheiros durante jogo Juan Manuel Serrano Arce/Getty Images

Um dos grandes dilemas de área da psicologia esportiva neste momento, assim como qualquer outra, é a busca por referências já estudadas para aplicação. Criar protocolos e metodologias, por mais complexo que seja, acaba por ser muito importante nesta realidade de pandemia.

Por ser uma situação praticamente inédita a nível mundial, a busca por conhecimento acaba sendo feita em outros campos que, por mínimo que seja, tenha experiência semelhantes com as vividas pelo mundo esportivo atualmente. É o que tem feito o Levante que, ainda em busca de uma vaga inédita na próxima Champions League, destrincha saídas para cuidar da saúde mental de seus atletas e profissionais do futebol.

- No departamento de psicologia de alto desempenho da Levante UD, realizamos uma revisão bibliográfica de estudos científicos sobre como um estado prolongado de confinamento pode afetar psicologicamente. Esses estudos se referem ao trabalho em estações espaciais, submarinos ou mesmo estações polares. De acordo com alguns desses estudos (Liberman et al., 2005; Gunderson, 1966; Palinkas et al., 2000), processos como velocidade de reação e processamento, manutenção da concentração, capacidade de aprendizado, memória e humor, podem ser temporariamente alterados – afirma Juan Miguel Bernat.

Já Augusto Carvalho, que trabalha principalmente nas divisões de base do São Paulo, o conceito de “inteligência emocional” pode ser decisivo nas dificuldades recentes. Principalmente pelo fato de atletas e profissionais do futebol conviverem com a falta de prazos para o retorno à normalidade.

- Chamamos de inteligência emocional a capacidade do indivíduo de permanecer motivado e persistir em seus objetivos mesmo diante de situações adversas, mantendo o controle dos impulsos e impedindo que a ansiedade interfira na sua capacidade de raciocinar e de ser empático e autoconfiante.

- É, portanto, através da inteligência emocional que o indivíduo se percebe, consegue entender e gerenciar suas atitudes e consegue canalizar as suas energias e o seu foco para situações em que ele tem controle, de modo que não fique desperdiçando energia e tempo se preocupando com situações sobre as quais não tem controle. Como, por exemplo, a falta de prazo para retornar à rotina normal diante da atual pandemia – completa o psicólogo do Tricolor.  

Se treinadores e preparadores convivem cheio de dúvidas sobre a real situação física que os atletas retornaram para as atividades, o aspecto psicológico também deveria ser uma prioridade quando treinamentos e jogos forem liberados. Juan Miguel Bernat ressalta essa importância:

- Por isso, é muito importante poder ajustar as expectativas no retorno ao treinamento. Jogadores e treinadores devem estar cientes e assumir que levará tempo para retornar ao nível mostrado antes do intervalo. Seria altamente recomendável que, no retorno ao treinamento, fosse realizada uma avaliação psicológica dos jogadores.

 

A falta de competição para seres altamente competitivos 

O CT de Cotia é onde o São Paulo desenvolve suas categorias de base
O CT de Cotia é onde o São Paulo desenvolve suas categorias de base Rubens Chiri/São Paulo FC

Se tem algo que difere o atleta profissional para qualquer outra pessoa comum é a competitividade. E vivenciar isso desde tão cedo em qualquer esporte acaba por criar uma raiz muito grande em suas vidas, algo que passa a ser, sem nenhum exagero, parte da sua própria existência.

Agora vamos fazer um exercício: imagine cortar do nada algo que está extremamente entrelaçado com a sua essência como pessoa. Pense em algo essencial em sua vida, que você faz desde muito novo e que, sem nenhum aviso prévio, lhe tiram. Com certeza seria um trauma bastante significativo na sua maneira de ser.

- O atleta adora esportes e adora competição. Faz isso desde sempre. Ele gosta de desafiar a si mesmo, superar os rivais e superar a si mesmo. Nesta situação, o jogador pode continuar praticando esportes, mas fica sem a possibilidade de competir e, portanto, sem uma de suas motivações fundamentais da vida – afirma Juan Miguel Bernat.

Para o profissional do Levante, existem maneiras de se diminuir estes abalos que os atletas de alto rendimento têm sentido na pele. Um deles é ressignificar suas motivações. Manter o foco no que faz hoje para colher frutos num futuro próximo.

- Existem maneiras de aliviar a ausência de concorrência. O jogador de futebol deve estar ciente de que, embora ele não veja seu rival, ele está competindo contra ele todos os dias. O atleta deve estar ciente de que seus rivais estão na mesma situação e que pode "tirar vantagem” hoje em dia. Assim retornaria aos jogos com uma vantagem competitiva sobre o rival – explica.

O espanhol também chama a atenção para a necessidade de um trabalho em conjunto das áreas do futebol neste momento. Bernat afirma que cabe aos profissionais de preparação física, por exemplo, passar exercícios que também estimulem os jogadores na parte mental.

- Outro fator a ser levado em consideração é que, durante as sessões de treinamento do dia a dia normal, pré-pandemia, o jogador de futebol não apenas trabalhava o corpo, mas também estava sujeito a uma carga cognitiva significativa, devido ao grande número de estímulos aos quais ele deve comparecer. Embora eles agora continuem treinando em casa, se a equipe técnica não fornecer uma carga cognitiva considerável, o jogador poderá cansar mentalmente. E isso pode afetar o sono, a presença pensamentos negativos... É interessante, portanto, que essas áreas mais técnicas forneçam uma carga cognitiva aos jogadores, por exemplo, com a análise de sua estação, seus pontos de melhoria, de rivais... – conclui Juan Miguel Bernat.

 

Indecisão e pressão para a volta dos jogos podem impactar

Ayoze Perez reage após perder gol pelo Leicester
Ayoze Perez reage após perder gol pelo Leicester LINDSEY PARNABY/AFP via Getty Images

O fato de não saber o que vem pela frente talvez seja o grande problema de todos que habitam o planeta neste momento. Evidentemente isso não deixaria de ser uma preocupação dos jogadores de futebol e profissionais que vivem do esporte. E está nessa indecisão o maior problema para lidar nos dias atuais.

A pressão de confederações e, por vezes, do próprio clube também acabam sendo um complicador para a saúde mental dos atletas. É o que destaca Maurício Pinto Marques que recentemente teve passagens pelo futebol em trabalhos pelo Coritiba e Aimoré-RS.

- Estamos vendo a primeira grande liga retornando, na Alemanha, em um país muito menor e menos prejudicado que o nosso. Ninguém sabe realmente o que esse contexto pode trazer para a saúde mental de todos envolvidos. Não só dos atletas, mas de comissão técnica, dirigentes... Cada um realmente é um sistema que envolve muitas pessoas.  O futebol movimenta muitas pessoas. Te pergunto: como estão os jogadores do Flamengo sabendo que tem mais de 30 pessoas do seu entorno direto contaminadas? Eles podem se expressar? – questiona o psicólogo do esporte.

- Infelizmente há poucas equipes no Brasil com psicólogos no plantel profissional, que conhecem os atletas e tem um vínculo já estabelecido para que eles possam trazer suas questões. Nesse ponto o Brasil ainda está no passado – adverte.

O pós-pandemia, sem dúvida alguma, é uma das preocupações não só da área da psicologia esportiva, mas de todas as outas. Mas, olhando para o âmbito mental do jogo, algumas mudanças podem ser avistadas, pelo menos num primeiro momento.

Situações cognitivas relacionadas ao jogo podem causar impactos não só na confiança dos atletas, mas também nas escolhas durante as partidas. O fato do longo tempo inativo, sem receber os devidos estímulos de um jogo de futebol competitivo, pode prejudicar ações técnicas consideradas até simples.

- Em relação aos aspectos psicológicos, acredito que alguns atletas poderão apresentar mais ansiedade e insegurança, enquanto outros poderão apresentar mais vontade, determinação e motivação – tudo vai depender de como cada um está encarando o período em que estamos vivendo hoje. E essas questões psicológicas, por influenciarem na tomada de decisão, podem afetar a relação do jogo em si – afirma Augusto Carvalho.

Bastante atualmente nas categorias de base do São Paulo, mais especificamente no CT de Cotia, o profissional também ser impossível separar o aspecto psicológico do jogo de outras vertentes. Ele explica como todas essas áreas estão relacionadas para atletas atingirem o alto rendimento.

- O comportamento dos atletas no jogo é influenciado pelas questões físicas, técnicas e táticas, sendo que os aspectos psicológicos se relacionam a todo momento com tais questões, influenciando e sendo influenciados. Ou seja, a capacidade física e os aspectos técnicos e táticos influenciam e são influenciados, a todo momento, pela condição psicológica do atleta. Daí porque é imprescindível que o desenvolvimento de todas essas habilidades (físicas, técnicas, táticas e psicológicas) seja constante e simultâneo na vida dos atletas – termina.

Fonte: Renato Rodrigues

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Efeito quarentena: psicologia esportiva ajuda na “gestão emocional” e busca referências até na vivência em submarinos

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Efeito quarentena: da preocupação com o sono dos atletas até as orientações de saúde, medicina e fisioterapia adaptam abordagem

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Neymar recebe atendimento no PSG, que conta com o brasileiro Bruno Mazziotti como fisioterapeuta
Neymar recebe atendimento no PSG, que conta com o brasileiro Bruno Mazziotti como fisioterapeuta Getty Images

Enquanto a área da saúde é a mais impactada em todo o planeta por conta da pandemia do novo Coronavírus, dentro do futebol, médicos e fisioterapeutas também experimentam um novo dia a dia, com preocupações e processos diferentes que o habitual. Da mudança nas orientações à atletas e familiares até a preocupação com o sono dos mesmos, tanto para tratar como prevenir lesões, estes profissionais vão se adaptando dependendo das novas demandas e rotinas.

No terceiro episódio da série “Efeito Quarentena”, toda semana aqui no blog, vamos abordar as transformações dentro da área da saúde dos clubes. Buscar entender que tipo de adaptações estes especialistas precisam ter neste momento e, principalmente, como ser eficiente e influente neste processo de manter elencos, comissões e até parentes saudáveis.

Clique - Episódio 1: treinadores e auxiliares se apegam à tecnologia

Clique - Episódio 2: como a preparação física tenta minimizar danos?

Talvez o primeiro ponto que vem a cabeça do torcedor comum seja a questão de algum atleta lesionado. Como fica o problema? Como recuperar problemas mais sérios? Como praticar medicina/fisioterapia sem ter o “paciente” por perto? Pois bem, acaba por ser um novo desafio, visto não só no esporte, mas na sociedade em geral. A ferramenta, como todos nós temos abusado nos últimos tempos, são as chamadas de vídeo.

Apesar de boa parte do trabalho feito de maneira online, existem sim as exceções. E neste momento, a medicina acaba por correr seus riscos, como todos os profissionais de Hospitais, por exemplo, têm corrido.

- É tudo muito novo. Mesmo para nós da área médica. A gente nunca tinha passado por algo parecido. Estamos tentando, acima de qualquer coisa, seguir as recomendações dos especialistas. Estamos aguardando as próximas definições. Enquanto isso, estamos totalmente à disposição dos atletas, mas tudo online. Caso exista a necessidade, claro, estaremos presencialmente também. Não teria problema a gente se deslocar dependendo do caso, estamos ali para isso. Desde que se respeite os cuidados necessários com segurança e EPIs. É um momento de adaptação, a gente tem que se cuidar, mas ao mesmo tempo se proteger também. É uma responsabilidade grande – afirma o Doutor José Sanchéz, médico do São Paulo, em contato com o blog.

O fato de não estar com o jogador como normalmente acontece, impacta também na área de fisioterapia, já que a comunicação e monitoramento são imprescindíveis para recuperar lesões. Principalmente no momento das orientações de movimentos e exercícios.

Com passagens por Corinthians, Flamengo e Seleção Brasileira, Bruno Mazziotti agora vive essa nova realidade de quarentena na Europa. Atualmente no PSG, o fisioterapeuta chegou a Paris para ajudar na construção de todo processo da área de saúde do clube.

- Há uma preocupação das entidades esportivas de como manejar os nossos atletas, principalmente porque a gente não tem um precedente de ficar tanto tempo sem atividade. É difícil imaginar um desfecho. Dentro da minha realidade eu tenho atletas que se machucaram e que continuam num processo de reabilitação. Temos feito o trabalho através de vídeo. O que eu posso dizer é que essa é uma demanda que a medicina e todas as áreas da saúde começaram a descobrir melhor. Principalmente esse tipo de atendimento sem colocar as mãos no paciente, que chamam de “handsoff”. Então é uma oportunidade também de lidar com coisas novas. Logicamente que temos de ter cuidados para não pesar na dosagem dos trabalhos e na complexidade dos exercícios – explicou Mazziotti.

Apesar de ir “se virando como podem”, estes profissionais deixam claro que o cenário está bem distante do ideal. E mais, o tratamento, ou reabilitação, depende muito do tipo de lesão e o estágio que cada atleta está.

- Cada caso é um caso. Temos que ver as características das lesões, o nível de complexidade, se tem cirurgia ou não. Lógico que o ideal é manter pelo menos uma ou duas vezes esse atendimento de forma presencial. São patologias, lesões que precisam de mais cuidado. O ideal é um semi-presencial. Usar o teleatendimento online, ir dosando as coisas. Tem alguns cuidados que não tem muito jeito, precisam ser presenciais. Agora, casos menos graves, de repercussão pequena, muda um pouco. Entorses e lesões musculares, por exemplo, você consegue manter esse tipo de auxilio de longe – completa o profissional do clube francês, que lida com estrelas como Neymar, Cavani, Di Maria e outros no seu dia a dia.

No caso do médico em si, a rotina acabou mudando bastante se tratando da pandemia. Se antes as preocupações eram com avaliações de lesões e cirurgias, agora a atenção acaba sendo dada totalmente às orientações de como agir em meio a este caos na saúde. Para o Doutor Sanchéz, o foco mudou nas questões de novos hábitos para se proteger.

- Eu como médico do clube, não muda muito. Mas médico é médico em qualquer lugar. Estamos no meio de uma pandemia, temos que estar a postos e cuidar. Além das orientações ligadas a área esportiva, temos que buscar estar sempre orientando a todos sobre os novos hábitos. Isto tem sido a parte mais importante. Com relação a prevenção, até pensando nos seus familiares. É preciso ter atenção agora. Isso tudo está impactando muito a nossa sociedade. Então temos que ficar muito atentos – conta o médico do São Paulo.

 

 Olho na prevenção pensando na volta do futebol

Bruno Mazziotti chegou ao PSG para ajudar no departamento de saúdo do clube
Bruno Mazziotti chegou ao PSG para ajudar no departamento de saúdo do clube Getty Images

A expectativa de quando os jogos poderão ser disputados de novo é grande de todos os lados. Desde os torcedores até comissões e jogadores. Apesar de a maioria dos países ainda viver uma indecisão com relação a datas e prazos - na França a Ligue 1 foi encerrada e na Alemanha existe a possibilidade de volta nas próximas semanas) -, as áreas médicas dos clubes, além de tratar lesões, têm trabalhado muito no sentido de prevenir futuros problemas.

Cientes de que podemos viver os próximos anos de calendários apertados e jogos atrás de jogos, todo planejamento neste momento por fazer a diferença lá na frente, mesmo que o cenário ainda seja bastante nebuloso para quase todas as áreas.

Para Bruno Mazziotti, o resultado de toda a mobilização feita neste momento só poderá ser colhido quando as atividades regressarem, já que todos eles poderão avaliar individualmente cada jogador. Para o fisioterapeuta do PSG, toda a área médica poderá aprender bastante com os impactos do atual cenário.

- Essa questão de prevenção a gente só vai saber se deu resultado depois que tudo isso passar e a gente se reapresentar. A gente não sabe quando vamos restabelecer uma rotina. Eu nem falo em vida normal porque eu acho não dá para comparar o que é normal com o que a gente espera no futuro. Eu estou muito curioso para entender esse desfecho. Até porque já estamos mais de dois meses parados. Os atletas, em situação de férias, ficam 30 dias corridos sem atividades específicas. E esse período pode nos trazer aspectos interessantes, desde o positivo até o negativo. Mas isso é algo que nós da área de performance e saúde vamos ter que trabalhar e entender melhor – afirma.

 

O bom sono segue sendo importante: PSG mantém monitoramento

 Se a grande missão dos departamentos médicos e de fisioterapia dos clubes é tratar e manter jogadores saudáveis para um futuro próximo, o aspecto mental também é uma preocupação e tem sido acompanhado de perto (inclusive entraremos mais neste assunto no próximo episódio). Mas a relação com o sono segue sendo uma preocupação para estes profissionais.

Cientificamente comprovado que ajuda a tratar e, principalmente, prevenir lesões, a qualidade do sono é algo bastante monitorado dentro do PSG. Com protocolos diários de bem-estar, onde se é abordado essa parte do descanso, o clube de Paris mantém acompanhamento mesmo sem a rotina de jogos e treinos.

- A gente já acompanha muito essa questão de stress e saúde mental dos atletas no PSG com os questionários de bem estar que temos como protocolo no clube. Isso é feito quase que diariamente. Até para estudar bem as cargas de treinos e jogos.

- A qualidade do sono é questionada, já que ela tem um papel importantíssimo na prevenção e tratamento de lesões. Sabemos que alguns hormônios são liberados só na fase mais profunda do sono. E existe uma relação forte com a quantidade e qualidade do sono. Sabemos que os atletas que dormem menos têm mais possibilidades de ter lesões musculares. Então é algo que a gente está procurando avaliar também – completa Bruno Mazziotti.

O fisioterapeuta brasileiro explica também que estes protocolos são feitos com um maior espaçamento, partindo de diário para semanal, até para não ficar muito em cima dos atletas na atual situação. Mazziotti ainda conta que não é uma abordagem restritamente feita por membros da área da saúde, mas que outros profissionais do departamento de futebol ajudam coletar essas informações.

- Tentamos sempre explicar que é uma monitoração e não um controle do sono deles. Temos que ter cuidado com isso, já que tudo que é novo acaba trazendo essa sensação ruim, até de controle mesmo. De parecer que você está invadindo a intimidade do atleta, mas é algo importante hoje em dia. A gente tem tentado atuar forte nisso dentro do nosso clube e estamos acompanhando isso por conversas com eles. Tentando entender se existe a necessidade de uma intervenção, de tentar uma conversa por plataformas para alguma informação mais precisa. E tentamos trabalhar isso em conjunto. Alguns profissionais do clube que têm mais acesso a esse ou aquele jogador, até por questão de empatia, também fazem. Essas informações seguem sendo coletadas de maneira controlada – afirma.

Com reconhecimento internacional da área de fisioterapia e prevenção de lesões, inclusive com o trabalho de longa data realizado com Ronaldo Fenômeno, Mazziotti faz muita questão de bater na tecla do que vem no futuro com relação a sua área. Mais que isso, aponta também uma oportunidade para todos do futebol refletirem sobre o que vem sendo feito e como agir daqui para frente.

Questionado como tem sentido que os jogadores estão lidando com todas essas mudanças repentinas e severas em suas rotinas, ele conta que no geral eles têm recebido bem as orientações, mas que também é um momento de cada um fazer sua parte.

- Eles (jogadores) são profissionais, entendem a realidade e o que se espera deles. Principalmente aqueles que ainda terão calendário pela frente. Logo que tudo isso se resolver a gente vai precisar desvendar muitas coisas, todo o mistério por trás de um acontecimento que impactou tanto a humanidade. Não só no lado físico e médico, mas também mental. Tudo isso nos dá a chance de olhar para tudo de maneira diferente, de buscar outras alternativas. Poderemos avaliar esse acompanhamento mais distante, entender o próprio senso dos atletas. Vai colocar em prova várias questões que temos como verdade até o dia de hoje. Eu acredito que, dentro deste cenário, deveríamos refletir e se preocupar de como vamos agir daqui para frente – pondera o fisioterapeuta.   

 

 Vale a pressão para retornar os jogos logo? 

Dr. Sanches, médico do São Paulo, está há mais de 3 décadas no clube do Morumbu
Dr. Sanches, médico do São Paulo, está há mais de 3 décadas no clube do Morumbu Getty Images

Apesar de ver o número de mortos passar de 8 mil nesta quarta-feira, o cenário brasileiro é de pressão de algumas partes para que o futebol retorne. Mesmo batendo recordes atrás de recordes de óbitos diários nos últimos dias, alguns clubes entram num processo de volta às atividades. Estudam fórmulas e protocolos de, ao menos, liberar seus CTs para treinamentos.

Por se tratar de uma pandemia dentro de um país com dimensões continentais, obviamente que cada cidade convive com uma realidade, umas mais duras outras ainda em processo de crescimento das notificações da doença. Até por isso, as federações tem tratado internamente com seus governos planos para a volta do futebol. Os estaduais, por enquanto, seguem sem um destino traçado e a única vontade é de que eles sejam terminados.

Na cidade de São Paulo, o combinado em última reunião é que, quando se tiver a autorização para voltar aos treinamentos, ela será para todos. Ou seja, todos os clubes passaram a se preparar na mesma data, tirando qualquer tipo de vantagem esportiva da discussão. Algo que considero bastante correto, aliás.

Segundo o Doutor José Sanchez, médico do São Paulo há mais de três décadas, o seu clube não tem nenhuma intenção de pressionar autoridades para a volta das partidas. Ao contrário disso, mesmo não sendo um especialista da área de infectologia, por exemplo, o profissional deixa claro que todos no Morumbi só agirão de acordo com as orientações dos especialistas.

- Obviamente que não é minha área de atuação, mas o que posso dizer é que no nosso clube, o São Paulo, não tenho sentido essa pressão de voltar a jogar a qualquer custo. Estamos acompanhando atentamente as informações vindas das autoridades confiáveis. De acordo com o que se coloca, sobre flexibilização ou não desse isolamento, a parte diretiva, junto com o departamento médico, vai tomar as medidas para um possível retorno. Na verdade, os atletas estão acompanhando a distância tudo isso. Difícil falar o que estão sentindo agora com relação a essa pressão de voltar, mas nós estamos tomando medidas de acordo com que as autoridades sanitárias nos passam – afirma.     

Para Bruno Mazziotti, que se sagrou campeão francês mais uma vez pelo PSG por ordem do governo, que não autorizou o término da Ligue 1, é difícil projetar algo para o futuro neste momento. Muito pela velocidade que as informações mudam de acordo com o crescimento da pandemia. Para ele, no entanto, é hora de se apoiar na ciência para qualquer decisão.

- São muitas variáveis. Só o futuro vai nos dizer. O que a gente está falando neste momento pode mudar daqui alguns dias. Se falarmos algo ao contrário disso, a gente fica na “achologia”. O que a gente pode tirar como parâmetro, e como tem agido a maioria das autoridades, é se basear na ciência. Ela não te traz a certeza de tudo, mas com certeza vai diminuir as incertezas. A ciência não é infalível, mas pode deixar as coisas menos falíveis. E vai ser por aí que a gente vai desenvolver todo um planejamento – conclui o brasileiro.

Fonte: Renato Rodrigues

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Efeito quarentena: da preocupação com o sono dos atletas até as orientações de saúde, medicina e fisioterapia adaptam abordagem

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Efeito quarentena: na preparação física, a missão é ‘minimizar danos’, e volta imediata dos jogos é sinal de alerta para os atletas

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Jogadores do Chelsea em trabalho físico
Jogadores do Chelsea em trabalho físico Getty Images


As incertezas sobre o futuro do futebol nos próximos meses são inevitáveis ao redor do mundo. Apesar de calendários e fórmulas de temporadas distintas, países trabalham para volta dos jogos o mais rápido possível, mas também mirando uma maneira segura para todos os envolvidos. Alguns clubes na Europa, por enquanto, estão liberados apenas para voltar a treinar.

Em meio a todo esse caos, os profissionais da preparação física se desdobram durante a quarentena para arrumar formas eficazes de, pelo menos, reduzir as perdas fatais que os atletas terão neste tempo de inatividade. A expressão mais utilizada por eles durante as entrevistas, sem dúvida alguma foi “minimizar danos”.

Na sequência da série de postagens “Efeito Pandemia”, o blog agora tenta entender como a capacidade física dos jogadores será impactada por conta do novo Coronavírus. Com a missão de destrinchar os bastidores de áreas estratégicas do futebol durante essa parada, chegamos à realidade de quem precisa preparar os atletas sem necessariamente estar junto deles. Um desafio que bateu à porte de muitos eles e de diferentes formas.

A necessidade de adaptação talvez seja o maior trunfo destes profissionais. Cientes de que cada jogador tem uma cenário diferente em seu isolamento, eles buscam atacar quesitos básicos da preparação física. Enquanto alguns dispõem de boa estrutura, com academia, esteira e até bicicletas ergométricas dentro de suas casas, outros se veem num espaço pequeno, onde qualquer tipo de exercício passa a ser uma adversidade.

- Na verdade é tudo muito paliativo. É minimizar danos. Então a gente tenta buscar formas para que eles não percam muita condição física. Mas também depende da realidade de cada um. Numa situação de estrutura maior, onde o cara tem uma esteira, uma bicicleta... Claro que você consegue atingir resultados maiores de condição atlética. Mas mesmo assim ainda fica devendo. O futebol é mais que isso, não é só correr. Tem a frenagem, a troca de direção, aceleração e desaceleração... E tem o contato com a bola também que, dependendo do espaço, você até consegue exercitar algo. Mas o jogo é muito mais que isso, tem a tomada decisão, domínio, o improviso... Todas coisas que não tem como treinar. Acaba dependendo muito das condições – explica Fabrício Pimenta, um dos preparadores físicos da equipe profissional do Corinthians, em contato com o blog.

Atualmente envolvido com treinamento e performance individual de alguns atletas como Yuri Alberto (Santos) e Robson Bambu (Athletico-PR), Gustavo Jorge também destaca que, por mais bem planejado e executado a sessão de exercícios que ele faz totalmente online com seus clientes, nada substitui a carga e estímulos que os jogadores têm no seu dia a dia natural.

- É muito mais uma questão de amenizar danos, quando a gente fala de futebol a gente sabe que pós-quarentena o campeonato pode vir em seguida. Na verdade, está tudo sob estudo ainda, não sabemos como será. Mas o certo é que os atletas precisam estar ativos. É um trabalho de minimamente manter as especificidades do futebol, tentar achar uma forma de fazer isso. Mas, sem dúvida alguma, nada que for feito vai ser comparável ao treinamento com bola, de forma coletiva – conta o profissional, que tem passagens por Corinthians e Santos.

O que treinar também acaba sendo uma pergunta recorrente a quem é leigo no assunto. Por mais que a realidade que estes atletas vivem em tempos normais seja impossível de ser atingida no atual estágio, os preparadores têm focado muito em exercícios de força. Principalmente os que acabam por usar o próprio peso corporal do atleta. Estes movimentos, cada vez mais utilizados não só no futebol, mas no mundo geral dos esportes, são mais eficazes pois não necessitam de grande aparelhagem e espaço. Com isso, é possível manter o mínimo de uma estrutura muscular dos jogadores, o que pode ajudar lá na frente quando a volta for sacramentada. Segundo Gustavo Jorge, que trabalha especificamente em cima de cada necessidade, este período tem sido usado para atacar

- O desafio é manter o cara mais preparado possível dentro da modalidade que ele pratica. No caso do futebol, deixá-los fortes para os movimentos que necessitam, as ações, as técnicas... A maioria dos atletas que trabalho eu já conheço bem porque já os avaliei. Essa prévia te dá grandes índices, te aponta como trabalhar. Meu trabalho tem sido em melhorar aspectos que eles já precisavam. Qualquer atleta de alta performance tem pontos a serem melhorados. Desde o suporte de musculatura de alguma parte do corpo até algo relacionado a força ou mesmo elasticidade – afirma.

 

Manter o peso, pelo menos próximo do ideal, é um desafio

Se por um lado a necessidade de fazer com que estes atletas mantenham minimamente preparados engloba aspectos como a força, que podem adiantar o processo mais para frente, por outro a mudança nos hábitos pode mexer com um ponto importante para qualquer jogador: o peso.

Acostumados a gastar muita energia durante jogos e treinamentos, agora eles convivem com uma rotina diferente. Com o confinamento, a intensidade e carga dos treinamentos diminuem. O que faz com que eles queimem menos calorias nas suas rotinas.

- A gente tenta manter uma carga metabólica, até para aumentar o consumo calórico deles. É um ponto importante isso. A dieta é um hábito. E estes atletas estão acostumados a comer uma quantidade de comida normalmente. Tem também a qualidade destes alimentos, que é algo que no CT você tem mais controle.  Estando no confinamento isso pode mudar um pouco. Então a gente precisa regular esse gasto calórico, já que é difícil romper os hábitos de uma vez. Por mais que muitos se esforcem, acaba tendo mudanças. Inclusive na composição corporal. Óbvio se você consegue manter uma dieta restritiva, ajuda. Mas eles têm o hábito de consumir muitas calorias. Isso é normal para qualquer atleta. E a partir do momento que não se gasta todas essas calorias, podemos ter problemas – relata o preparador físico Fabrício Pimenta.

A partir do momento que esse novo cotidiano é estabelecido, atletas e todos os profissionais envolvidos no futebol passam a ter uma realidade totalmente nova. É sempre importante ressaltar que se trata de um momento totalmente atípico. Aliás, uma pandemia dessa magnitude não ocorre há mais de 100 anos.

Jogadores do Corinthians se preparam para jogo contra o Ituano
Jogadores do Corinthians se preparam para jogo contra o Ituano Agência Corinthians


Muitos questionamentos acabam por vir a respeito deste período de inatividade com algo parecido com férias. Enquanto muitos profissionais de fora do futebol mantém uma rotina de trabalho estabelecida mesmo estando em casa, os jogadores passam por um momento totalmente diferente. Vai muito além de um período de descanso. Isso implica diretamente no planejamento de uma temporada e no rendimento dos mesmos.

- Quando os atletas estão de férias, isso de uma temporada para outra, o que realmente acontece? A maioria deles até treina, tenta manter uma condição. Mas eles têm seu convívio social, o descanso mental, tiram o stress da competição... Hoje isso não está acontecendo e eles precisam se manter ativos. Para os atletas de esportes individuais por vezes existem momentos de polimento, na construção de uma periodização de um treino. Um exemplo: pega um cara do atletismo, ele monta um planejamento do ano e, próximo da competição, a gente tira a carga de treino. Chamamos isso “taper”. A literatura mostra que esse “descanso” fisiológico e psicológico faz muito bem. Os índices neurais, de consumo de oxigênio e de força, melhoram muito pós esse período de pausa. Agora é algo bem diferente. Eles precisam lidar com mais cobrança e toda a situação afeta a eles também – explica o fisiologista do exercício Gustavo Jorge.

 

Lesões: o sinal de alerta para quando o futebol voltar

Em praticamente nenhuma liga ou campeonato do mundo existe algo definido com relação à volta das partidas de futebol. Por mais que o momento seja nebuloso, a preocupação de preparadores físicos ao redor do mundo está muito ligada ao tempo de adaptação que os atletas terão até os “jogos valendo” voltarem.

Até por isso, a FIFA já cogita mudar a regra de substituições no futebol visando o fim desta temporada e a próxima, que certamente também será muito afetada pela Pandemia. A ideia é que os times passem a ter cinco substituições por jogo ao invés de três (clique aqui e veja mais detalhes desta possível mudança). Com isso, a rotatividade dos atletas poderia minimizar os ricos de lesão, algo que vem sendo muito sintetizado pelos profissionais de preparação.

- Quando as atividades voltarem, teremos a missão de reavaliar todos os jogadores rapidamente. Aumenta a carga de treinamentos, seja físico analítico, técnico ou tático... Isso tem consequências e acabamos correndo mais riscos com lesões. O calendário também ficará mais apertado e vai ter uma sequência maior de jogos. Pode ser que a gente passe a ter um maior número de lesões. É uma preocupação. Até porque quando a gente parou tudo, acredito que os times ainda vinham num crescimento neste aspecto. Era início de temporada ainda. E agora a tendência é de irmos de um jogo para outro com um menor tempo de recuperação, ou seja, com maior desgaste – avisa Fabrício Pimenta.

Recentemente o esporte teve um bom exemplo de um longo período de inatividade. E com ele, algumas complicações foram bem notórias. Em 2011 a NFL esteve parada por praticamente 5 meses, tudo por conta de uma falta de acordo financeiro entre as franquias e sindicato dos atletas. O “locaute”, como foi chamado, foi de março a julho, o que impactou diretamente na preparação dos jogadores. Estudos e artigos da época afirmam que essa temporada do futebol americano teve seus números de lesões praticamente dobrado com relação às anteriores.

No futebol, para muitos profissionais, essas complicações poderiam ser parecidas. O ideal seria pelo menos uma mini pré-temporada – que na verdade já acontece em janeiro de forma bem criticável – para ao menos retomar um pouco do ritmo e forma física dos jogadores. Resta saber como clubes e federações, no caso do Brasil, vão lidar com essa questão.

- Não tenho dúvidas que ser necessária uma readaptação antes de qualquer partida. Colocar os atletas para voltarem a trabalhar nessas condições e na sequência marcar jogos, é comprometer demais a saúde deles. Então eles vão precisar de uns 15 a 20 dias no mínimo. É muito importante que estes atletas tenham um período de preparação. Não tem como. Tem muita literatura e muitos dados que nos mostram isso. Se eles voltarem a jogar imediatamente, a tendência é de muita lesão e muitos atletas com problemas para terminar a temporada – alerta Gustavo Jorge.

Flamengo trabalha físico com os jogadores
Flamengo trabalha físico com os jogadores Divulgação

Pós-quarentena: que tipo de jogo teremos?

Se tentar projetar quando teremos partidas no futebol profissional novamente já é tarefa difícil, imagina tentar idealizar como elas serão. Muito se fala que, por um bom tempo, todos nós precisaremos manter hábitos e tomar certas precauções enquanto uma vacina ou um tratamento efetivo não serem descobertos. Agora imagina tais comportamentos na rotina deste esporte. Mais que isso, no momento que a bola rolar e tiver 22 jogadores dentro de campo.

Se todo esse cenário acima é ainda bem distante para projetarmos, outras mudanças já são bastante esperadas, pelo menos nos primeiros meses de retomada. Como já alertamos acima, trata-se de um contexto bem diferente de férias. E, ao que tudo indica, o período de inatividade será bem maior que os cerca de 30 dias que os atletas normalmente passam descansando. Até por isso, é previsto alguma influência da Pandemia no “jogar” dos atletas.

 - Tenho a percepção que, de cara, a velocidade do jogo vai ser reduzida. Vai ser algo que vai melhorando com o tempo, mas teremos essa mudança. E essa velocidade vai mudar por vários motivos. Nas corridas, nos arranques... Mas também na leitura do jogador sobre o que está acontecendo no jogo, na tomada de decisão e aplicação de uma ação motora. Vão ser muitas defasagens. Teremos que trabalhar forte o aspecto de força, até para eles terem uma condição estrutural melhor. Será um jogo menos intenso. Os deslocamentos serão mais lentos. Vai ter menos resistência de repetir ações num curto espaço de tempo. Mas vai ser ruim para os dois lados, por isso vejo que teremos jogos mais mornos – projeta Fabrício Pimenta.

Fonte: Renato Rodrigues

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Efeito quarentena: na preparação física, a missão é ‘minimizar danos’, e volta imediata dos jogos é sinal de alerta para os atletas

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Efeito quarentena: Treinadores e auxiliares vivem rotina sem o campo e recorrem à tecnologia durante paralisação

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Allianz Parque, casa do Palmeiras
Allianz Parque, casa do Palmeiras Getty

Foram poucos meses de futebol no Brasil até a parada por conta do coronavírus. Para ser mais preciso, cerca de 75 dias em que treinadores, comissões e atletas iniciavam uma temporada cheia de esperanças, sonhos e metas, mas que se congelou completamente quando a pandemia se espalhou pelo mundo.

Se na Europa falamos em reta final de temporada, no Brasil ela apenas começava. Alguns destes casos, com trabalhos iniciados em 2020, outros vindos do ano passado, mas com a perspectiva de consolidação. Em comum, todos buscando o modelo de jogo ideal, o encaixe perfeito para que o ano fosse repleto de títulos e conquistas.

Todos sabem que estabelecer um modelo de jogo consistente, que o faça competir forte em várias frentes, não é das tarefas mais fáceis. Ainda mais num calendário apertado como o brasileiro. Mas com a repentina parada do futebol os desafios triplicaram. Uma nova rotina, uma nova busca e a incerteza de quando tudo voltará ao normal.

É com este cenário que treinadores, auxiliares, preparadores físicos, fisioterapeutas e todo staff do futebol vem tentando minimizar danos sob o efeito dessa inesperada quarentena. Os treinadores e auxiliares, responsáveis por criar engrenagens e treiná-las para virarem grandes times, respectivamente, perderam seu maior aliado: o campo.

Se outras áreas tentam se virar nas últimas semanas, seja com instruções de comportamento ou mesmo treinamentos remotos, com uso de tecnologia, quem precisa da bola rolando sofre com mais impactos. Mais que isso, fica praticamente de mão atadas. A verdade é que terão pouca relevância em processos determinantes neste momento tão atípico.

O caso de Felipe Conceição é bem emblemático. Depois de passagens por Botafogo e Macaé, o jovem treinador de 40 anos assumiu um dos projetos mais promissores do futebol brasileiro: o Red Bull Bragantino. Com toda a montagem do elenco acontecendo em meio à disputa do Campeonato Paulista, o comandante, aos poucos, foi encontrando um padrão de jogo para sua equipe, que antes da parada vinha com três vitórias consecutivas.

 "A parada interrompe um processo de crescimento dentro de um início de temporada. E isso, com certeza, traz um prejuízo. Ainda mais no nosso caso, já que conseguimos chegar em um ótimo nível antes de suspenderem os jogos. Passamos a ser a melhor equipe do Campeonato Paulista desde a minha chegada e a primeira equipe classificada para a próxima fase. Lógico que teremos que dar alguns passos atrás, mas pelo bom processo que fizemos, temos tudo para voltar rapidamente para o estágio que estávamos",  afirma o treinador, em entrevista ao blog.

Outra realidade da grande maioria das equipes em solo nacional é o pouco tempo de pré-temporada, algo que é muito determinante para os europeus, por exemplo. É bem claro que no Velho Continente este período é tratado como algo muito além de dar condição física aos atletas, mas sim fincar conceitos e pilares do modelo de jogo que ganhará corpo com o passar dos jogos. Parar neste momento, acaba por ser quase que uma pré-temporada sem treino. O que piora ainda mais a situação, já que não sabemos quando o futebol voltará e quanto tempo as equipes terão para se preparar – na verdade grandes chances de não ter tempo algum, já que, com tudo espremido, cada dia será ultra valioso.


Também no Estado de São Paulo, o Palmeiras é outro clube que gera grandes expectativas em 2020. Com o retorno de Vanderlei Luxemburgo e algumas mudanças em sua administração, como troca de diretoria e enxugamento do plantel, se esperava muito dos alviverdes nesta temporada. A forma de jogar, que já vinha ganhando corpo, principalmente com a ideia de um jogo mais vertical e de exploração de suas melhores individualidades, foi freada com a pandemia.

"Parar é ruim. Você está desenvolvendo um modelo de jogo, os jogadores estão se adaptando e entendendo as ideias. E também são os próprios jogos que vão dando esse crescimento. É maléfico para todos os profissionais. Não tem como. Atrapalhou todo mundo, mas é o que estamos vivendo", explica Maurício Copertino, auxiliar técnico de Luxemburgo no Palmeiras.

Imagine que a construção de uma equipe tem suas casas num jogo de tabuleiro. Conforme conceitos vão se tornando naturais, ideias vão se estabelecendo e a forma de jogar vai melhorando, a equipe vai avançando casas. Olhando para o cenário atual, podemos dizer que muitos times andarão muitas casas para traz. Algumas, inclusive, precisarão recomeçar o jogo.

 O que dá para se fazer à distância?

Talvez esta tenha sido a primeira pergunta que as comissões técnicas fizeram assim que foi anunciado a parada total do futebol no Brasil. Enquanto outras áreas foram se organizando dentro de suas possibilidades, o papel de treinadores e auxiliares ficou extremamente limitado.

Sem o contato frequente, o tato no dia a dia e, principalmente, os treinamentos. Pouco pode ser feito. Por conta disso, os vídeos passaram a ser uma saída. Sempre olhando para trás, tentando, no máximo, projetar o que vem pela frente.

"Nesse período só temos como analisar o processo já feito. Rever os jogos, treinos e tudo o que já foi construído. Além disso, dá para analisar o que os adversários já construíram", explica Felipe Conceição.

"Os vídeos são ferramentas que podem ser utilizadas sim, porém devem ser pensados em que momento serão proveitosos. Sem a dinâmica dos treinamentos e jogos, o impacto dos vídeos tem uma limitação", completa o comandante do RB Bragantino.


A capacidade de adaptação acaba sendo um trunfo para alguns profissionais e a ideia de adquirir mais conhecimento e experiências na área acaba sendo uma saída bem recorrente, assim como em outras profissões.

"É uma situação nova para todos. É uma questão de se adaptar mesmo, não fugimos disso. No meu caso, tenho tentado assistir muitos jogos, trocar informações de conceitos e esquemas. Estou tentando conhecer novos jogadores também, já que é algo que às vezes falta um pouquinho de tempo para gente que vive o dia a dia. Ver times de outras regiões que a gente não acompanha de perto também é outra coisa que tenho feito", conta Copertino.

Celular e aplicativos ajudam no contato, mas mais entre a comissão

Em tempos de isolamento social, a falta de contato diário obviamente é algo bastante danoso para a vida dos profissionais do futebol, que estão sempre muito rodeados de pessoas (esse tema virá com mais profundidade nos próximos capítulos da série). Então a saída acaba por ser a internet, celulares e aplicativos.

Mas esta rotina de conversas acaba por envolver mais as comissões técnicas, diretorias e também profissionais mais da área física/fisioterapia. Com muito tempo livre, os treinadores têm tentado fomentar discussões e ajustar planejamento para quando as coisas voltarem ao normal.

"O contato com o professor Vanderlei (Luxemburgo) é diário. Com o Mello também (Antônio, preparador físico). A gente tem discutido muito algumas questões de trabalho envolvendo o Palmeiras. Falando sobre possíveis atletas. A ideia é tentar canalizar esse tempo vasto para refletir e trabalhar o que podemos melhorar. Mas, obviamente, nada disso que a gente tem feito é melhor que o dia a dia", revela Maurício Copertino, que tem sido muito influente na rotina de treinamentos do time alviverde.

Já Felipe Conceição explica que neste momento a ideia tem sido manter todos atualizados. Mas que trabalhar mesmo acaba ficando mais a cargo da área física e médica, já que tem a responsabilidade de preparar/tratar os atletas neste período. Segundo ele, o olhar mais técnico se dará no momento que algum prazo para a voltar estiver estipulado.

"Desde a parada, toda a comissão e diretoria vem mantendo contato com os atletas para minimizar o afastamento social e mantê-los atualizados. Temos alguns processos na parte física e na parte técnica/tática sendo desenvolvidos para um possível retorno. Quando estivermos cientes da data de um retorno, esse contato será mais voltado para a área técnica", afirma.

Apesar de os clubes terem entrados de férias no momento, Maurício Copertino não crê que o contato constante com os atletas neste momento terá grande influência. Para ele, questões de planejamento são mais importantes vislumbrando a volta do futebol.

"Eu acredito muito no dia a dia. No cara a cara. Esse negócio de você em casa e os caras na casa deles, tentando manter uma rotina, é complicado. A gente tem tentado não interferir muito neles. Realmente não acredito muito que possa ter efeito. Claro que você pode trabalhar o planejamento, tentar se organizar melhor. Trocar ideias, pensar em outros caminhos no que pode ser feito", conclui o auxiliar técnico do Palmeiras.

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Efeito quarentena: Treinadores e auxiliares vivem rotina sem o campo e recorrem à tecnologia durante paralisação

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O River Plate de Gallardo: um case sul-americano em formação de jovens, critério no mercado de transferências e saúde financeira

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Em dezembro de 2019, Marcelo Gallardo anunciava permanência no River Plate


No sábado 18 de abril, completou-se 27 anos da estreia de Marcelo Gallardo como jogador profissional de futebol. Atualmente treinador do River Plate – onde também foi formado como atleta –, o ex-meia é uma grande unanimidade não só dentro do clube argentino mas também em toda a América do Sul.

Campeão da Sul-Americana, da Recopa Sul-Americana (três vezes), Supercopa, Libertadores da América (duas vezes), Copa Argentina (três vezes) e da Supercopa Argentina, Gallardo conseguiu consolidar no River Plate um estilo de jogo altamente agressivo e capaz de se adaptar a diferentes cenários. Apesar de ter variações táticas, o treinador foi capaz de explorar muito bem as características dos atletas que teve em mãos e elevar o nível coletivo de sua equipe, que, mesmo quando não conquista seus objetivos, está sempre nas cabeças. 

Técnico do River Plate, Marcelo Gallardo celebra a conquista da Libertadores
Técnico do River Plate, Marcelo Gallardo celebra a conquista da Libertadores Getty Images

Para isso, o treinador argentino precisou lidar com saídas de atletas e remontagens constantes de elencos durante estes seis anos à frente do clube. Algo recorrente à realidade do futebol sul-americano, mas nem sempre bem gerido.

Depois de assumir o River, que tinha vindo recentemente de uma queda para a segunda divisão, 'El Muñeco', como é conhecido por lá, fez muito mais que colocar o seu time de coração de volta às glórias. Ao lado de uma diretoria criteriosa, tocou um dos projetos mais brilhantes do continente. Foi peça importante para tornar seu clube autossustentável e exemplo de como usar suas categorias de base para formar, preparar e vender de forma responsável e eficiente. Ao lado disso, trabalhou com grande eficácia no mercado de transferências, o que gerou lucros e estabilidade ao clube.

E grandes treinadores vão além de títulos. São capazes de mudar culturas e deixar legados produtivos à estrutura que criaram. Longe de ter as cifras de grandes clubes europeus, Gallardo e toda a estrutura do River foram supercirúrgicos em um dos processos mais complicados do futebol: a transição do atleta da base para o profissional. E fizeram isso com planejamento, fazendo a roda girar sem impactar nos resultados esportivos.

O técnico Marcelo Gallardo comemora gol do River Plate
O técnico Marcelo Gallardo comemora gol do River Plate Getty Images

No mercado de transferências, quando necessário, apostou em jogadores jovens de equipes menores. Quase todos abaixo dos 23 anos. A ideia era terminar de formar, colher frutos técnicos dentro de campo e vender de forma justa, para continuar investindo em jovens. 

Abaixo, os dados levantados do site Transfermarkt mostram como o clube agiu no mercado olhando para faturamentos e gastos com transferências. E usou bem as categorias de base como uma das máquinas por trás de todo sucesso recente da equipe. Os jogadores destacados abaixo que não são oriundos das divisões inferiores, a maioria, vieram de equipes menores e se notabilizaram com a camisa do River Plate.

Ao olhar os dados a seguir, perceba o mais importante: como o clube operou em saldo positivo nos seus últimos cinco anos. Algo bastante incomum se pensarmos na organização geral do futebol na América do Sul, onde dirigentes normalmente metem os pés pelas mãos em busca do sucesso rápido e repentino, sem nenhum olhar para o futuro.

 Temporada 2015/2016

Principais vendas (valores em euros):
Ramiro Funes Mori (base) – 12,9 milhões (Everton-ING)
Matías Kranevitter (base) – 8 milhões (Atlético de Madrid-ESP)
Téo Gutiérrez – 3,4 milhões (Sporting-POR)
Germán Pezella (base) – 2,25 milhões (Bétis-ESP) 

Total de vendas: 27,54 milhões
Total de compras: 9,88 milhões
Saldo: + 17,66 milhões 


Temporada 2016/2017

Principais vendas (valores em euros):
Emanuel Mammana (base) – 8,5 milhões (Lyon-FRA)
Giovanni Simeone (base) – 5,1 milhões (Genoa-ITA)
Éder Balanta (base) – 3,5 milhões (Basel-SUI)
Gabriel Mercado – 2,5 milhões (Sevilla-ESP)
Guido Rodríguez (base) – 1,75 milhões (Tijuana-MEX)
Tomás Martínez (base) – 1,3 mihões (Braga-POR) 

Total de vendas: 23,1 milhões
Total de compras: 15,78 milhões
Saldo: + 7,32 milhões


Temporada 2017/2018

Principais vendas (valores em euros):
Lucas Alario – 24 milhões (Leverkusen-ALE)
Sebástian Driussi (base) – 15 milhões (Zenit-RUS)
Augusto Solari (base) – 2 milhões (Racing-ARG) P) 

Total de vendas: 41,68 milhões
Total de compras: 32,55 milhões
Saldo: + 9,13 milhões

 
Temporada 2018/2019

Principais vendas (valores em euros):
Pitty Martínez – 14,5 milhões (Atlanta United-EUA)
Marcelo Saracchi – 12 milhões (RB Leipzig-ALE)
Maidana – 1,32 milhões (Toluca-MEX)

Total de vendas: 27,95 milhões
Total de compras: 7,40 milhões
Saldo: + 20,55 milhões

 
Temporada 2019/2020

Principais vendas (valores em euros):
Exequiel Palacios (base) – 17 milhões (Leverkusen-ALE)
Alexander Barboza (base) – 3,3 milhões (Independiente-ARG)
Leandro Veja (base) – 1 milhão (Emelec-ECU)

Total de vendas: 21,53 milhões
Total de compras: 8,1 milhões
Saldo: + 13,43 milhões

 
A roda segue girando, e uma nova fornada vem por aí

Prova de que esse processo é algo pensado e não aleatório, o River Plate mantém sua roda girando da mesma maneira que nas temporadas anteriores. Mostra que não se trata de uma ideia ocasional, mas sim algo estipulado e que tende a ser o norte do clube nos próximos anos.

Elenco do River Plate posa para foto antes de partida pela Copa Libertadores
Elenco do River Plate posa para foto antes de partida pela Copa Libertadores Getty Images

Para se ter um exemplo disso, basta olhar para o atual elenco dos Millonários. Ao todo são 13 atletas com menos de 23 anos. Em sua maioria, formados dentro do próprio clube. São dois nascidos em 1997, dois em 1998 e quatro de 1999. Este número é completado por três nascidos em 2000 e mais dois em 2002.

Dentre estes nomes, destaques para Gonzalo Montiel, Nicolás De La Cruz e Jorge Carrascal, todos já firmados e peças importantes dentro da equipe principal. Além destes, vão ganhando espaço jovens como Julian Álvarez, Santiago Sosa e Elías López, todos com passagens por seleções de base da Argentina e com boa projeção num breve futuro.

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Efeito quarentena: série vai retratar a realidade e tentar projetar o futuro de áreas estratégicas do futebol

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues


O impacto da pandemia do novo coronavírus no mundo fica cada vez mais pesado. E toda essa mudança não deixaria de causar um abalo diretamente ao futebol. Se para os olhos nus dos torcedores o que mais aperta é a falta do futebol em si, nos bastidores do esporte mais praticado no planeta as interferências são enormes. Mais que isso, a comunidade do futebol vive um momento de pura adaptação e incertezas.

De olho nisto, o blog vai preparar nas próximas semanas materiais explicando a atual realidade de vários seguimentos do jogo. A ideia é entender como estão sendo feitas as adequações setores de grande relevância e tentar esboçar em qual cenário cada uma delas voltará quando todo esse problema de saúde pública passar.

Iremos abordar desde aos aspectos técnicos e táticos do jogo, pela figura do treinador, até questões como recuperação e prevenção de lesões. Passaremos pelo lado físico e a tentativa de seus profissionais de minimizar os danos de um longo tempo sem atividade, pelo mercado de transferências com seus observadores ao redor do mundo e também como quem cuida da mente dos atletas tem lidado com esse momento atípico que a humanidade vive.

Imagem do Estadio Olimpico de Roma: Itália é um dos países mais atingidos pela pandemia
Imagem do Estadio Olimpico de Roma: Itália é um dos países mais atingidos pela pandemia Getty Images

Uma abordagem mais técnica e com conteúdo mais aprofundado do futebol para tentar levar a você, fã do esporte, o máximo de detalhes sobre como os bastidores seguem “tentando” funcionar, mesmo com o mundo inteiro parado.

Espero vocês aqui no blog nas próximas semanas!

Fonte: Renato Rodrigues

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Do grande 9 de área a Arnold no Liverpool: entenda a transformação dos cruzamentos nos últimos anos

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Alexander-Arnold, do Liverpool, tem um dos cruzamentos mais precisos do mundo na atualidade
Alexander-Arnold, do Liverpool, tem um dos cruzamentos mais precisos do mundo na atualidade Getty Images

Não tenha dúvida que boa parte dos gols que você acompanhou na sua vida vieram de um cruzamento. Alguns deles vindos dos laterais, muito requisitados neste aspecto nas últimas décadas. Mais lá atrás, dos pontas, acostumados a driblar e ir para a linha de fundo. Em comum: todos jogadores de lado de campo e com grande capacidade de “colocar com a mão” a bola para aquele centroavante grandalhão escorar para dentro do gol.

Obviamente que este segue sendo um artifício muito utilizado no futebol contemporâneo. Por mais que exagerado em alguns momentos, o cruzamento, assim como o futebol no geral, tem vivido suas transformações.

Neste caso, esse tipo de tentativa de assistência tem nos mostrado uma tendência bem clara nas últimas temporadas. Seguem sendo feitos, mas, para serem mais efetivos, mostram uma nova abordagem.

Um dos grandes exemplos de futebol em alto nível de desempenho nas últimas temporadas tem sido o Liverpool. Regular, intenso e muito eficaz, o time treinado por Jurgen Klopp tem no cruzamento uma de suas armas mais mortais. E muito disso por conta de seus laterais: Robertson e Alexander-Arnold – em especial o segundo citado.

 

De onde vieram as mudanças?

 Para contextualizar melhor, acho legal a gente recordar o tipo de cruzamento muito utilizado, por exemplo, nos anos 90 e em meados dos anos 2000. A ideia é de não ir tão longe, justamente para conseguirmos ter referências mais nítidas em nossa memória.

Obviamente que, ao fazer menção a estes tipos de jogadas, estou longe de dizer que eles não ocorrem mais. Mas neste passado recente era bem normal acompanhar equipes que tinham um camisa 9 alto e forte, capaz de subir tão alto quanto o zagueiro e ter grande técnica no cabeceio para tirar a bola dos goleiros.

Muitas vezes, essa bola pelo alto vinha de forma mais viajada e lenta, dando ao atacante um certo tempo e a preparação necessária para se colocar no espaço correto. Por outro lado, pedia um gesto mais técnico para conseguir direcionar bem a bola ao ponto de ficar fora do alcance do goleiro. Resumindo: com uma bola mais lenta, o atacante precisava ter mais força no gesto da conclusão.

Olhando aqui para o Brasil, Jardel, que marcou história no Grêmio, talvez seja um dos maiores exemplos que temos. Era mestre nisso. Luizão, Trezeguet, Fernandão, Elber e Oliver Bierhoff também tinham essas características bem marcantes.

Conforme o tempo foi passando, as linhas defensivas começaram a controlar mais estes tipos de cruzamentos. Principalmente pelo fato de grande parte destas defesas passarem a marcar de forma mais zonal, tendo o espaço como referência, não o adversário a ser marcado. Os zagueiros, num geral, também melhoraram muito suas capacidades de disputar bolas altas. Com perfis mais atléticos, não deixaram de ser fortes, mas passaram a ter mais velocidade e principalmente alcance no salto. Outro fator que melhorou essa abordagem defensiva, foi o melhor posicionamento do corpo dos jogadores que defendem sua área.

Luiz Felipe reconhece a mudança no estilo dos cruzamentos
Luiz Felipe reconhece a mudança no estilo dos cruzamentos Ivan Storti/SFC

Voltando ao cenário brasileiro, é bem comum vermos equipes que rodam e rodam a bola, sem achar espaços para infiltrar. No fim, arriscam o famoso “chuveirinho” da entrada da área. Uma bola que vem lenta, alta e viajada, normalmente de frente para o zagueiro, que fica numa posição muito mais confortável. Luiz Felipe, zagueiro do Santos, explica melhor:

- Minha opinião é que o cruzamento mais viajado é mais fácil de se tirar. Você consegue ter tempo de se posicionar melhor e muitas das vezes acaba não gerando muito perigo. Acaba que você pode ter a ajuda do goleiro, tempo para fazer a leitura e se colocar melhor... Quando a bola vem rápida, você não tem muito tempo – opinou o defensor, ao blog.

Para Fagner, lateral do Corinthians, a característica do atacante conta bastante na hora escolher o tipo de cruzamento. Com passagens recentes pela Seleção Brasileira, o corintiano tem ao todo 5 assistências em 14 jogos na atual temporada. Pelo time de Parque São Jorge, já soma 46 passes para gol.

- Acredito que muda de acordo com as características do atacante que você joga junto. Pelo futebol ter mudado tanto e exigir muito da força física, quanto mais a bola viaja mais pode prevalecer o goleiro e a linha de defesa - afirma.

Fagner tem sido um dos laterais mais regulares do Brasil nas últimas temporadas
Fagner tem sido um dos laterais mais regulares do Brasil nas últimas temporadas Djalma Vassão/Gazeta Press

Por todo este contexto, mais do que normal que treinadores e jogadores passaram a buscar novas alternativas para se buscar o tão necessário gol. O movimento natural do futebol: problema e resposta, problema e resposta... Se pensar em algo novo, se pensar em algo para neutralizar. Algo cíclico e muito necessário para o desenvolvimento de qualquer esporte.

Então voltamos ao Liverpool...

 

 Rápido, rasante e no tempo certo: como Klopp, sem um 9 de ofício, faz tantos gols de cruzamento?

Claro que os pontos que irei abordar usando o Liverpool como exemplo não são de exclusividade do time inglês. Existem equipes que usam deste artifício e de maneira até parecida na própria Premier League, como é o caso do Manchester City. Mas chama a atenção como Klopp conseguiu fazer dos seus cruzamentos uma arma mortal. E mais: sem ter um camisa 9 característico, de força e imposição física.

Ao todo são 46 chances criadas pelo líder da Premier League que vieram de cruzamentos.

O primeiro passo é entender rapidamente as características do trio de ataque dos Reds. Roberto Firmino, o 9 com características de 10 – ou falso 9 no caso –, é um jogador de pouca profundidade e muito mais um armador que recua, gerando opções de apoio. Trabalha sempre se descolando dos zagueiros, com liberdade de circulação, para atrair e gerar espaços. Enquanto isso, Salah e Mané, dois pontas agudos e de capacidade para terminar bem as jogadas, atacam a área em diagonais.

Pois bem, muitas vezes, por gerar uma “falsa não profundidade”, o Liverpool acaba deixando seus adversários com a linha defensiva mais livre para avançar e “encurtar o campo” – lembre-se que, com a linha de defesa mais alta, ela se aproxima das outras e compacta o time, por isso o termo.

E é neste momento que Arnold e Robertson se aproveitam de cruzamentos rápidos, e muitas vezes antecipados (sem necessariamente chegar à linha de fundo e já mandar a bola da área da entrada do terço ofensivo), para achar, principalmente a dupla de pontas infiltrando em alta velocidade e usando todo seu arranque para chegar à frente dos zagueiros.

Este movimento gera um total desconforto para a defesa que, normalmente fazendo o movimento de saída, se depara com os atacantes entrando em velocidade.

- Pra mim, sem dúvida alguma, hoje é o tipo de cruzamento mais perigoso pra gente que está defendendo. Até porque a gente está correndo de frente para o gol, quando entra essa bola entre nós zagueiros e o goleiro, fica aquela indefinição. Você não sabe se tira, se o goleiro vai chegar... E pelo fato de estar em velocidade, fica mais difícil de direcionar a bola. Você corre mais riscos de qualquer desvio ou tirada errada, acaba resultando em gol – relata Luiz Felipe.

Na imagem, Arnold acha Salah em cruzamento rápido e rasante
Na imagem, Arnold acha Salah em cruzamento rápido e rasante DataESPN

Perceba na imagem acima o posicionamento da linha defensiva (sem afundar muito dentro de sua própria área) e do espaço que fica entre ela e o goleiro (o retangulo), exatamente o local onde Alexander-Arnold vai cruzar a bola para Salah atacá-la de frente. Obviamente que, dependendo de onde está a bola, a linha defensiva vai se posicionar em uma altura do campo. Quando mais o time ganha campo com a posse, mais ela se aproxima do goleiro, o que deixa a ação de cruzar ainda mais difícil, já que o espaço diminui. 

Agora é Renan Loddi, ex-Athletico-PR, que usa o artifício do cruzamento rápido nas costas da defesa
Agora é Renan Loddi, ex-Athletico-PR, que usa o artifício do cruzamento rápido nas costas da defesa DataESPN

Agora um exemplo pensando em futebol brasileiro. Nas últimas temporadas o Athletico Paranaense, treinado por Tiago Nunes e com Renan Lodi na lateral-esquerda, usou muito este artifício do cruzamento mais rápido e normalmente adiantado, principalmente quando tinha Pablo, hoje no São Paulo, como seu homem mais avançado e com essas características de mais mobilidade e menos imposição física. O perfil deste atacante, obviamente, acaba sendo decisivo para montar uma estratégia de jogo e escolher o melhor tipo de cruzamento a se fazer. Se você tem um 9 de força e estatura, mas sem a velocidade e arranque necessário para ganhar dos zagueiros na infiltração, não fará tanto sentido investir neste tipo de bola.

 

 As mudanças nos comportamentos: quem cruza, quem ataca e quem defende...

 O futebol, naturalmente, vai sofrendo suas variações e mudanças no aspecto coletivo ao longo dos anos. Mas individualmente os atleta também precisam se reinventar para se manterem em alto rendimento. É bem óbvio que, quando isso não acontece, suas carreiras acabam sofrendo um grande declínio. E então é natural que essas percepções de cruzamento acabam fazendo parte do dia a dia destes profissionais, que precisam dar alguma respostas à essas transformações.

Então por que não começar com os laterais, talvez os mais requisitados neste sentido – aliás, não só eles, que passaram a cumprir funções mais variadas nos últimos anos (clique no link).

Paulo Otávio, lateral-esquerdo do Wolfsbug-ALE e com passagens por Coritiba e Santo André, tem essa compreensão. Mais que isso, o atleta formado pelo Atheltico Paranaense, revela até como alguns treinadores tem trabalhado este ponto no dia a dia.

- Com certeza a forma de cruzar tem mudado. Acho que o cruzamento mais alto e viajado perdeu um pouco de força mesmo. Se a gente parar para analisar, faz sentido. Tive até um treinador na temporada passada que dava umas instruções neste sentido: ele passava vídeos para gente dizendo que a gente não precisava olhar para área, mas sim focar num cruzamento rápido pelo chão, visando a primeira trave. Que era onde saiam os maiores índices de gols. E realmente os laterais e pontas tão buscando essa bola mais rápida – explica.

Paulo Otávio atual pelo Wolfsburg da Alemanha
Paulo Otávio atual pelo Wolfsburg da Alemanha Arquivo pessoal

Depois de passar pelo futebol austríaco e pelo Igolstaldt, também da Alemanha, o lateral nascido em Ourinhos-SP também destaca também as dificuldade para se defender deste cruzamento mais rasante. Assim como Luiz Felipe, ele cita muito a questão do risco que envolve desviar esse tipo de bola.

- A grande dificuldade para se adaptar para defender esse cruzamento relação com o posicionamento do corpo. Normalmente a gente está correndo em direção ao gol e precisamos dar um jeito de tirar essa bola para o lado ou para trás. E geralmente, quando você tira para trás, tem um atacante ou um meia atacando esse espaço e podendo ter uma situação mais limpa para finalizar. Tirar para o lado é o mais viável, mas se ela vem rápida e forte, fica mais difícil. Porque aí você acaba correndo o risco da bola espirrar e marcar um gol contra – afirma Paulo Otávio.

 Se por um lado os laterais apontam maior tendência a esse tipo de jogada, os atacantes começam a entender a necessidade se posicionar e se movimentar corretamente para aproveitar essas chances. Felippe Cardoso, centroavante do Fluminense, e que tem essa capacidade de arranque para chegar na frente dos zagueiros, entende que trata-se de uma grande vantagem para quem ataca:

- Essa bola rápida, entre os dois zagueiros e o goleiro, é bem mais difícil para os defensores treinarem. Diria quase que não tem como (risos). Se o centroavante estiver esperto e preparado para se posicionar ali, buscando essa bola mais rápida, é quase que certo que vai ter mais chances de concluir uma jogada em gol. Mais do que a viajada, que oferece mais dificuldade na hora da conclusão – conta o atacante do Flu.

 

As dificuldades do Brasil e a importância de chegar, não de estar

 A fala de Fellipe Cardoso no parágrafo acima pontua algo muito importante para o atacante se dar bem neste tipo de cruzamento: posicionamento. Mais que isso, cabe a quem vai finalizar ter a leitura e saber o tempo certo de romper a linha. Se trata de uma necessidade de chegar na bola e não necessariamente estar onde ela vai chegar, já que como isso o mesmo já terá chamado a atenção de um defensor.

Felippe Cardoso chegou ao Fluminense para a temporada 2020
Felippe Cardoso chegou ao Fluminense para a temporada 2020 Lucas Merçon/Fluminense FC


Se olharmos para o cenário nacional, talvez este seja um dos problemas para a nossa baixa efetividade ofensiva nos últimos anos. Se por um lado organizamos melhor nossas defesas e nos tornamos equipes mais confiáveis neste aspecto, por outro ainda necessitamos desenvolver melhor nossas organizações ofensivas.

E o cruzamento está diretamente ligado a esse momento. Como já citado, nos deparamos muitas vezes com equipe de boa capacidade técnica, mas que não conseguem desenvolver todo seu potencial ofensivo coletivamente. A posse não se resume a infiltração, finalização e muito menos chances de gol. O tempo passa e naturalmente... Começam os incessantes cruzamentos para área. Uma ação muito conectada à ansiedade de se marcar e, muita vezes, a estratégia do adversário que tende a fechar mais o centro do campo e liberar espaços laterais – o que faz sentido, já que quanto mais ao centro, mais perto da meta adversária você está.

Eis que aparecem os tão abordados cruzamentos viajados. Bolas jogadas para área normalmente de uma região recuada, lentas e com grande confortabilidade para os defensores colecionarem rebatidas ao longo dos 90 minutos.

- Tem surtido menos efeito nos jogos de hoje essa bola mais longa. Isso porque os zagueiros de todos os times começaram a trabalhar demais essa bola viajada. Virou algo trabalhado diariamente nos treinos pelas defesas, o que vai dificultando para gente que é centroavante – ressalta Felippe Cardoso, normalmente preso entre os zagueiros nestes momentos e tendo raras chances de concluir uma bola em gol.

Mas isso vai muito além do simples cruzamento. Tem a ver também com quem não está com a bola neste momento.

Vemos no Brasil recorrentes cenários que, a equipe nesta situação, enche a área de gente e sai cruzando bola. E é aí que mora o erro. Você estando num lugar antes da jogada acontecer, você não ataca espaço. Mais que isso, traz para perto a marcação, o que gera zero surpresa. O Flamengo atualmente seja a grande exceção, utilizando Bruno Henrique e Gabriel Barbosa como atacantes. Ambos estão longe de ser aquele 9 típico, e entendem muito bem a necessidade destes deslocamentos em profundidade para gerar chances.

O ideal neste caso é partir do ponto A e finalizar do ponto B. O que mostra a imagem abaixo, de um cruzamento bem recuado de Alexander-Arnold, Salah ataca o espaço nas costas da linha defensiva e, mais rápido, alcança o ponto de chegada da bola para finalizar. Mané, ao seu lado na foto, teve a mesma ação no gol marcado pelo Liverpool.

A dupla Salah e Mané infiltrando na defesa para concluir a jogada
A dupla Salah e Mané infiltrando na defesa para concluir a jogada DataESPN

- Tenho sentido que o pessoal que tem mais essa função de cruzar as bolas para área estão se aprimorando neste tipo de bola – afirma Luiz Felipe, zagueiro do Santos.

Portanto, fica claro que usar este tipo de cruzamento não simplesmente a fórmula para o sucesso. Para que esta jogada seja efetiva, ela depende de todo um mecanismo para torna-la letal. Uma boa batida na bola de quem cruza, estruturas para gerar espaços nas costas da defesa e, principalmente, jogadores que controlem tempo e espaço para escolher e chegar na hora certa para a jogada. Isso, naturalmente, demanda muito treinamento e entrosamento entre as partes. Mais que isso, cooperação coletiva. Por mais que apenas um cruze e outro coloque a bola para dentro. É um trabalho extremamente coletivo.

 

O bom e velho cruzamento para trás

 Muito recorrente por toda a história recente do futebol, o cruzamento para trás, por vezes chamados de passe, também tem papel importante neste jogo de perguntas e respostas, problemas e resoluções, invenções e antídotos. E também tem certa ligação com esse cruzamento mais rápido entre goleiro e linha defensiva.

Conforme foram percebendo que as equipes usam essa bola veloz nas costas dos defensores e que seja um local que o goleiro também não consiga chegar, os adversários começaram a baixar mais a linha defensiva, achatando o espaço onde essa jogada entraria. Deixando zagueiros e laterais muito próximos do seu gol e a postos para rebater estas tentativas.

Com isso, o cruzamento para trás passou a ter, mais uma vez, um papel importante como repertório ofensivo das equipes. Como futebol é um cobertor curto, a partir do momento que a defesa afunda, a entrada da área passa a ser um espaço alvo, já que não dá para estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Pergunta, resposta e problema. Se resolve um problema, o adversário te cria outro. E por aí vai.

Messi ataca a entrada a área e marca pelo Barcelona contra o Sevilla
Messi ataca a entrada a área e marca pelo Barcelona contra o Sevilla DataESPN

A imagem acima mostra exatamente essa contrapartida. O Barcelona ataca pelo lado esquerdo e cria uma possibilidade de cruzamento. Como dois jogadores fazem o movimento para ganhar profundidade (os circulados), a linha defensiva do Sevilla afunda e abre-se o espaço na entrada da área para Messi finalizar. Aliás, o argentino é especialista neste tipo de leitura. Ainda mais por atuar ao lado de Luis Suárez, muito bom neste tipo de movimento sem bola para afundar os defensores.

Cabe a quem defende, neste momento, fechar essa região chamada de funil – entre o meio circulo da área e a pequena área. Estudos comprovam que boa parte dos gols marcados no planeta acontecem nesta região, que geralmente é fechada por médios e volantes, que geralmente estão mais próximos desta região quando a linha defensiva baixa demais.

Como tudo no futebol, o cruzamento também passa, dia após dia, por suas transformações. Se adaptam a quem vai faze-lo e a quem vai recebe-lo, a equipes ofensivas e às defensivas, a “Klopps”, “Guardiolas”, “Simeones” e tantos outros. Seguem sendo um fundamento importantíssimo para se conseguir vitórias. Estudado por ataques e defesas, desenvolvidos desde os primeiros toques na bola de qualquer prodígio.

Entre exageros e quase nulos, os cruzamentos são usados e abusados. Nos fazem rir e chorar também. E, acima de tudo, trazem consigo grandes possibilidades do que mais gostamos: o gol.

 

 

Fonte: Renato Rodrigues

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Do grande 9 de área a Arnold no Liverpool: entenda a transformação dos cruzamentos nos últimos anos

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Genial, mas sem deixar de correr: por que Kevin De Bruyne é o maior "craque humilde" do mundo?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

De Bruyne comemora um dos seus gols com a camisa do Manchester City
De Bruyne comemora um dos seus gols com a camisa do Manchester City Laurence Griffiths/Getty Images

A temporada 2019/2020 que ainda nem se sabe como terminará, trazia consigo alguns destaques individuais na Europa. Entre a regularidade de Messi, a eficiência de Cristiano Ronaldo e a ousadia de Neymar, um certo jogador vem encantando o futebol mundial nos últimos anos não só pelo que faz com a bola, mas também muito pelo que faz sem ela.

Ouso a dizer que Kevin De Bruyne é o maior “craque humilde” atuando em alto nível atualmente. A palavra humildade se dá pelo que também produz o meia do Manchester City quando sua equipe não tem a posse. Dono de uma resistência gigante, o belga pressiona os adversários como se fosse aquele volante brucutu que só se destaca pela marcação. Percorre grandes espaços e é capaz de repetir movimentos exaustivamente sem perder a intensidade. Além disso,  faz leituras e fecha espaços como grandes zagueiros. A eletricidade em pessoa, capaz de virar a chave nos momentos de transição num piscar de olhos.

Falar em humildade ao tentar analisar De Bruyne vai muito além. O destaca dentre grandes jogadores pelo simples motivo de entregar tudo, de forma completa e precisa. Mesmo atingindo um grande nível de carreira, não se escondeu atrás da sua qualidade. Aliás, é algo até normal para os diferenciados. Já ouviu o papo que "craque não marca"? Pois é, o belga quebra esse clichê como poucos.

Mas vamos primeiro trazer alguns dados que mostram as qualidades do camisa 17 de Guardiola com bola. A primeira coisa que precisamos pontuar é sobre a sua função dentro do City. Antes de chegar a Manchester, por exemplo, o belga chegou a ser um jogador de beirada de campo em alguns momentos. Em outros, atuava mais adiantado, encostando mais nos atacantes – atribuição que ainda tem hora ou outra agora. Mas foi com Pep que se transformou num “todo-campista”, adjetivo usado para destacar a capacidade de um atleta do setor de preencher praticamente todos os espaços na faixa central do campo (veja abaixo o mapa de calor desta temporada). 

Mapa de ações de De Bruyne na atual temporada
Mapa de ações de De Bruyne na atual temporada DataESPN

Vale ressaltar que também jogou como uma espécie de falso 9 em momentos específicos, o que mostra sua extrema capacidade de se adaptar a vários cenários.

Por esse “médio”, termo usado para meio-campistas que não atuam nem tão recuados e nem tão avançados, KDB desenvolveu uma grande capacidade de equilibrar necessidades defensivas à sua capacidade ofensiva. Mas chegaremos lá.

Na temporada 2019/2020 De Bruyne traz consigo, além dos 7 gols marcados, o maior número de assistência das 5 maiores ligas da Europa – Thomas Muller, do Bayern de Munique, está empatado com o belga com os mesmos 16 passes para gols. Outra marca interessante que o jogador do Manchester City busca é de se tornar o maior garçom da Premier League em uma só temporada. Com 16 assistências e ainda 10 jogos pela frente, tenta alcançar Thierry Henrique que é o recordista, com 20, na temporada 2002/2003 pelo Arsenal. Mas estes dados no quesito construção vão além. Para isso, vamos compará-lo com os melhores nestes sentidos pelas 5 principais ligas da Europa: gols + assistências, maiores em assistências e maiores em passes decisivos (que seria chances claras de gol). 

Com bola: Top 10 em Gols + Assistências nas 5 principais ligas da Europa
Com bola: Top 10 em Gols + Assistências nas 5 principais ligas da Europa DataESPN

O primeiro ponto a se destacar no ranking acima, que são os jogadores com mais gols e assistências somadas na temporada, é que De Bruyne é o jogador que atua mais recuado dentre o top 10. Com uma maioria gigantesca de atacantes e centroavantes, o belga perde apenas para Lionel Messi na média de ações com bola (números de suas respectivas ligas). Esse dado, apesar de frio como qualquer um, traz uma perspectiva do quanto o jogador participa do jogo, já que mede todas as ações do mesmo em contato com a bola.

Obviamente que os números nos trazem apenas uma parte da análise. Diria que longe de ser a parte maior, inclusive. Mas eles ajudam a mensurar alguns aspectos. Neste sentido, o camisa 17 do Manchester City é o melhor em assistências para finalização. Apenas Dí Maria e Messi, que passam da marca de 2 passes para chutes por jogo, chegam perto dele.

Com bola: Top 5 em assistências nas 5 principais ligas da Europa
Com bola: Top 5 em assistências nas 5 principais ligas da Europa DataESPN

Quando olhamos para as mesmas métricas listando os jogadores com maior números de assistências nas 5 principais da Europa, De Bruyne tem vantagem nas ações com bola e também nos passes para finalização. Mais uma vez destaque para Dí Maria, que faz grande temporada pelo PSG, e para Thomas Muller, que retomou o alto nível no Bayern de Munique.

Com bola: Top 5 em passes decisivos nas 5 principais ligas da Europa
Com bola: Top 5 em passes decisivos nas 5 principais ligas da Europa DataESPN

Em passes decisivos, o argentino do PSG leva vantagem. Mas, como vimos acima, perde nos outros quesitos. Nesta tabela, pela primeira vez, vemos defensores entre os melhores. Que é o caso dos laterais-direito Alexander-Arnold (Liverpool) e Jesús Navas (Sevilla). 

 Mas é no aspecto defensivo que Kevin de Bruyne mais se destaca contra estes mesmos oponentes mostrados nas tabelas acima. O rótulo de jogador completo que o belga carrega pode ser comprovado com números que mostram o tamanho da sua influência defensiva dentro do Manchester City na Premier League. Com potência física, resistência e estatura para confrontar grandes oponentes no setor mais importante do futebol, consegue se sobressair em aspectos muito importantes e sempre bem compactuados entre os profissionais do futebol. Então vamos a estes dados, na mesma dinâmica de construção que mostramos anteriormente:

Sem bola: Top 10 em Gols + Assistências nas 5 principais ligas da Europa
Sem bola: Top 10 em Gols + Assistências nas 5 principais ligas da Europa DataESPN


Na tabela de jogadores que mais contribuíram em gols e assistências, o destaque do jogador do Manchester City já vem no primeiro quesito, que é o de duelos defensivos (este nada mais é que ações defensivas que geram contato). Apesar de não ser o campeão no aproveitamento, a média de duelos é significativamente maior. Claro que se trata, de todos os nomes listados, do atleta que atua na região mais recuada do campo. Mas sem dúvida, tamanha a diferença, é uma questão a ser destacada. Em recuperações de bola (que é igual a desarmes certos), a vantagem também é enorme na média por jogo. Em interceptações, que é a recuperação sem contato físico, que necessita mais da leitura do jogador, a liderança também vem com folga.

Já no quesito contribuição geral, que é a soma dos dois anteriores, chega a ser devastadora a vantagem de Bruyne, mostrando o tamanho de seu protagonismo na sua equipe, indo muito além dos passes milimétricos para seus companheiros marcarem.

Sem bola: Top 5 em assistências nas 5 principais ligas da Europa
Sem bola: Top 5 em assistências nas 5 principais ligas da Europa DataESPN

Já no quadro de maiores assistentes da temporada, um rival que apenas chega perto: Thomas Muller. Com um número de interceptações quase igual do belga, o jogador do Bayern mostra como tem dado uma contribuição imensa na recuperação dos bávaros na Bundesliga. Mesmo assim, espanta a diferença em números de duelos. E com um detalhe: esta tabela já mostra jogadores que atuam mais recuados, como o caso de Luis Alberto, um dos destaques da grande temporada da Lazio. Sancho, do Borussia Dortmund, desde as primeiras também é outro personagem a se destacar em 2019/2020.

Sem bola: Top 5 em passes decisivos nas 5 principais ligas da Europa
Sem bola: Top 5 em passes decisivos nas 5 principais ligas da Europa DataESPN

Por fim, a comparação dos jogadores que deram mais passes decisivos na 5 principais ligas da Europa. E é neste prisma que De Bruyne vê adversários levando a melhor em alguns aspectos. Se na quantidade de duelos o belga segue sobrando, nos outros pontos perde para Arnold e Navas. Mas aí temos um aspecto defensivo: ambos são defensores que atuam na primeira linha, ou seja, estão bem mais suscetíveis a recuperações e interceptações. Mesmo assim, se olharmos para a contribuição defensiva total, não são margens tão distantes.

 

É sempre importante que os números pegam apenas fragmentos do jogo, que é bem mais complexo que isso. São apenas uma forma de balizar algumas situações, que inclusive depende muito das referências de quem está computando. Mas os dados acima dão mais que uma mostra da influência do jogo de Kevin de Bruyne no cenário mundial atualmente, eles confirmam impressões.

Talvez no seu ápice físico e técnico, o belga de 28 anos é muito mais que o maior “craque humilde” do mundo. De um jogador que equilibra importância defensiva e ofensiva num dos melhores times do planeta, que não tem vergonha alguma de marcar como um volantão e atacar como um dos mais geniais de sua geração. Kevin De Bruyne é uma das maiores referências do que jogo atual pede. Intensidade, senso coletivo e capacidade de resolver problemas. É o (ou um dos) jogador mais completo do cenário mundial.


Fonte: Renato Rodrigues

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Ruptura e ambiente: como Diniz atingiu a estabilidade tão procurada pelo São Paulo nos últimos anos?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Fernando Diniz tem conseguido fazer com que o São Paulo cresça em campo
Fernando Diniz tem conseguido fazer com que o São Paulo cresça em campo Rubens Chiri (São Paulo FC)


A pandemia do novo coronavírus travou não só o mundo, mas também o futebol. E se olharmos aqui para o Brasil, um dos times mais prejudicados por este momento delicado que vivemos talvez seja o São Paulo. Justamente por se mostrar um dos times em maior crescimento nas últimas semanas, com bons resultados e, principalmente, desempenho.

Era bastante nítido que, entre uma oscilação ou outra, o time comandado por Fernando Diniz dava sinais de, enfim, ter um ano mais promissor. O modelo de jogo bem característico do treinador ia ganhando forma. Os jogadores iam amadurecendo as ideias e, sem dúvida alguma, trazendo uma consistência tão aguardada por sua torcida.

E essa regularidade, não necessariamente se tratando de resultados, mas sim dos comportamentos e mecanismos mostrados pela equipe dentro de campo, é o que trazia um otimismo raro entre seus torcedores nos últimos anos. Depois de ver sua contratação criticada e balançar no cargo com jogos ruins, Fernando Diniz enfim parecia ter encontrado o tão buscado equilíbrio. Algo que buscava não só no time do Morumbi, mas na sua carreira se olharmos toda rota do comandante.

Obviamente que a constatação de talvez se tratar do melhor trabalho de Diniz em sua trajetória até aqui é algo totalmente opinativo. Mas a verdade é que esta estabilidade atingida nos primeiros meses de 2020 vai muito além do campo e bola – que, de fato, necessitava de ajustes e um melhor caminho. É fruto de mudanças já tentadas por outros, mas que o treinador tem conseguido tocar e fazer refletir dentro de campo.

Por isso separarei os pontos abordados por tópicos. Justamente pra mostrar que, quando se ganha, nem tudo está tudo bem. E quando se perde, certamente, não é só uma coisa que está errada. Outro ponto importante é: ninguém faz futebol sozinho. Por isso não existe herói ou Messias que coloca a mão e tudo se resolve.

O futebol, no fim de tudo, é tão sistêmico e complexo que ninguém vai conseguir ter controle sobre tudo. É muito mais uma questão de minimizar erros e maximizar acertos. A soma costuma dar certo no final.

 

Ambiente: o calcanhar de Aquiles são-paulino

Não é segredo para ninguém que o ambiente do São Paulo nos últimos anos é de muita pressão e crises para todo o lado. Até por isso, por vezes, coisas que seriam pequenas em outros contextos viram gigantescas dentro do Morumbi. Mas toda essa “obrigação” de voltar a ganhar títulos expressivos mexeu com toda estrutura do clube.

As últimas temporadas foram de muitas mudanças. Troca de funcionários, alteração do elenco e trocas contínuas de treinadores. Tais medidas, vistas como necessárias na alta hierarquia do clube, causaram fortes rupturas. E não só na forma de jogar (que será o próximo tópico), mas na maneira de se viver o clube em seu dia a dia.

E foi exatamente neste ponto que Fernando Diniz talvez tenha conseguido se sobressair num primeiro momento. Com um perfil mais agregador – não que os treinadores anteriores não fossem –, o comandante tricolor conseguiu, além de vender a ideia do tipo de futebol que gostaria de praticamente, aproximar mais as áreas e fazer com que um processo mais harmônico começasse a andar. Por ser pouco centralizador, conquistou a confiança de todos ao seu redor delegando tarefas e, principalmente, abrindo o diálogo para que todo staff tivesse sua importância dentro da construção do jogo/equipe. Sem deixar de tomar as decisões, mas dando autonomia a quem achasse ter competência para isto.

Diniz durante treinamento no São Paulo
Diniz durante treinamento no São Paulo Rubens Chiri (São Paulo FC)

Por mais que isso não entra em campo, faz uma diferença grande. Criar um ambiente positivo, com gente satisfeita e se sentindo relevante, faz com que o processo flua. Como disse acima, claro que estamos falando de uma pequena parte da temporada e que dificilmente um clube de futebol vai ter tudo 100% certo, mas a ideia de ter e se respeitar processos, pelo menos a meu ver, é um passo decisivo para se chegar ou não ao sucesso.

Essa guinada também passa pelo discurso claramente comprado pelo elenco. A primeira grande jogada de um treinador de futebol para obter resultados talvez seja o convencimento de uma ideia. É um mérito, mas que no dia a dia precisa ser confirmado com treinamentos e partidas. E o desafio agora parte deste ponto: qualidade de treino/abordagem, que elevará a capacidade competitiva do time, que ainda precisa crescer em alguns aspectos.

Um norte e a confiança em forma de posicionamento

Quem me acompanha, seja nas redes sociais, blog ou em alguns programas na TV, sabe bem como eu tenho apontado a falta de norte do São Paulo nos últimos anos com relação a que tipo de jogo se quer jogar. Faltava ao clube – em sua gestão esportiva, claro – possuir minimamente algumas referências de caminho a ser trilhado.

A rotatividade de treinadores nas últimas temporadas vai além do trocar por trocar. O ponto aqui é: sair de Juan Carlos Osorio e ir para Doriva. Depois, de Bauza para Ricardo Gomes. Mas na frente, ir de Aguirre passando por Jardine e tendo ainda Mancini e Cuca.

E sem entrar no mérito da qualidade destes profissionais. Mas consegue perceber o quão diferentes eles são. Formas de se ver e praticar futebol totalmente distintas. E isso fez do São Paulo nos últimos anos um time sem identidade de jogo. Chega treinador pede estes reforços, chega o outro e ele não quer estes ou aqueles jogadores, aí se desfaz dos mesmos, aí outro nome é escolhido e aqueles dispensados fazem a ser necessários... Não existe clube no mundo que vá conseguir ter estabilidade – muito menos títulos – nessa toada.

Na temporada passada, ao apostar em André Jardine, o São Paulo começava a dar mostras do que queria como modelo de jogo. É verdade que passou por nomes como Mancini e Cuca, mas com Diniz voltou a se posicionar neste sentido, de um jogo controlado através da posse e com mais vertentes ofensivas. Essa, aliás, é uma busca ferrenha de Raí, atual coordenador técnico do clube.

Mas aí faltava a segunda parte do plano. De que adiantava ter um norte, escolher uma forma de jogar e não bancá-la, como aconteceu em 2019?

Em 2020 isso parece (PARECE!!!) ter mudado. Depois de uma sequência de resultados ruins, mesmo com o desempenho mostrado não sendo dos piores, o clube se posicionou fortemente e garantiu a sequência do trabalho. Coincidência ou não, a equipe passou a obter melhores resultados e se mostrar mais promissora depois deste fato.

Ficou bem claro também que essa confiança no trabalho, que desde sempre foi defendido pelos jogadores, passou a ter reflexo em campo. Principalmente no que se diz fazer gols. De um time que perdia chances e chances, o São Paulo passou a marcar mais tentos e, naturalmente, tendo mais controle dentro das partidas.

 

Modelo de jogo vs equilíbrio

 A forma como Fernando Diniz gosta de construir suas equipes é bem explícita. Mais que o controle através da posse e os constantes apoios a quem tem a bola, o treinador traz consigo o discurso de ter prazer no que se faz e, principalmente, a necessidade de solidariedade entre os atletas dentro de campo. Trabalha muito o aspecto de coletividade e parceria nos setores, seja para atacar com movimentos e linhas de passe, seja para pressionar imediatamente após a perda. Até por isso, ninguém pode pensar duas vezes durante as ações conjuntas.

Dados estes estímulos, que são os pilares do modelo de jogo do treinador, seu trabalho em 2020 tem sido, além de encontrar os melhores lugares para suas peças, ajustar os comportamentos coletivos durante os problemas que a sua forma de jogar trazem.

Talvez o grande ponto aí seja a forma como neutralizar os contra-ataques adversários. E essa deficiência é algo que acompanhou o comandante são-paulino em alguns dos seus trabalhos. Como jogar em cima do oponente, atacando com muita gente, pressionando e não ceder espaços durante as transições defensivas?

Seu último trabalho no Fluminense, por exemplo, escancarou essa deficiência. Se por um lado sua equipe empilhava chances criadas e não era eficiente nas finalizações, por outro cedia espaços em campo aberto, o que fazia dos jogos do tricolor carioca uma partida de trocação infinita, com zero controle sobre o jogo.

Neste São Paulo de 2020 a falta de efetividade no ataque passou a ser um problema. Mas, defensivamente, a equipe foi se mostrando cada vez mais consistente com o passar dos jogos. Os contra-ataques, aos poucos, foram deixando de ser um problema.

Para estancar este tipo de problema a equipe necessita estar com a concentração alta. Se a ideia é pressionar logo após a perda, essa chave tem que ser trocada rapidamente. E neste sentido o São Paulo tem mostrado um comportamento positivo. Muito mais que pressionar a bola, os atletas tem compreendido bem a ideia de não necessariamente marcar a bola, mas fechar as linhas de passe e as possibilidades de saída do adversário. Por vezes, optam por direcionar o rival para zonas pré-estabelecidas, onde terá vantagens para retomar.

Outro ponto perceptível é a escolha melhor quando se tem a bola, o que diminui as chances de perde-la (e automaticamente de entrar toda hora em transição defensiva). A equipe tem tomado melhores decisões e entende bem a necessidade de se concluir as jogadas, evitando também rebotes que podem virar contra-ataques.

Com bola o epicentro do São Paulo está na sua dupla de “volantes”. Entre aspas porque Tchê Tchê e Daniel Alves estão longe da figura daqueles meio-campistas defensivos. Normalmente posicionado no 4-2-3-1, os são-paulinos têm nessa dupla a garantia de uma circulação da bola mais fluída e com critério, já que é de extrema importância que essa posse saia dessa primeira etapa de construção de maneira limpa, o que também aumenta as chances de não sofrer o contragolpe.

Tche Tche vive grande momento com a camisa do Tricolor
Tche Tche vive grande momento com a camisa do Tricolor Gazeta Press

Enquanto Tchê Tchê é quem baixa mais entre os zagueiros para iniciar as jogadas, Dani joga mais solto, cobrindo uma grande faixa de campo. O capitão da Seleção Brasileira, aliás, tem mostrado grande resistência para, por vezes, ajudar na saída de bola e ainda chegar na área para finalizar. Já o camisa 8 vive seu grande momento com a camisa tricolor e tem sido o ponto de equilíbrio defensivo, sendo importante ao cobrir e compensar espaços defensivos.

Igor Gomes é outro que tem se desenvolvido muito no contexto atual. Meia centralizado da linha de três, o jovem mostra uma inteligência para ocupar os espaços e também atacá-los, já que tem total liberdade para circular pelo terço ofensivo. Sua entrada deu mais fluidez aos ataques, mais ritmo e capacidade de retenção da posse em zonas mais pressionadas. A construção, aliás, não chegou a ser problema nesta temporada. O que faltava era ser mais criterioso na hora das finalizações. Além de chutar melhor, escolher a melhor hora para isso.

Tanto Vitor Bueno quanto Antony, ambos que partem dos lados do campo, têm total capacidade de flutuar por dentro, o que abre o corredor para as chegadas dos laterais. Reinaldo, aliás, é quem mais se beneficia desse espaço. Com força e chegada ofensiva, o lateral-esquerdo faz mais uma boa temporada.

Se tem um ponto que eu colocaria ainda como necessário para se trabalhar em alguns momentos no São Paulo seria a amplitude. Por vezes a equipe sofre um pouco para se infiltrar justamente por não abrir o campo, ter jogadores mais abertos, o que ajudaria a alargar as defesas adversárias. Obviamente que pode se tratar de uma opção de Diniz, para manter uma certa compactação justamente para a equipe está próxima no pós-perda. Mas sem dúvida seria um artifício que agregaria a momentos de maior desconforto.

Quem parece também ter atingido seu ápice nas últimas semanas foi Alexandre Pato. Como um 9 mas móvel, o atacante enfim tem justificado tudo que o clube investiu nele. Técnico e inteligente para resolver as jogadas com poucos toques, ele tem entendido a necessidade de ser agressivo sem a bola, algo imprescindível para o funcionamento da equipe.

                                                                                                                                                                   -                

Certamente estamos em um momento de pouquíssimas certezas. Aliás, ainda não sabemos o impacto que toda essa paralisação terá sobre o futebol num todo, imagina então tentar projetar um São Paulo daqui para frente. Não teria nexo algum.

Mesmo que não vivêssemos o que estamos vivendo, jamais teríamos a certeza que Fernando Diniz e seus comandados trariam a tão esperada taça pelos são-paulinos. Mas, mais que promissor, o trabalho feito no CCT da Barra Funda atualmente tem um sentido. É possível enxergar um processo. Apesar de isso não ser garantia de nada, o mesmo os deixa mais perto dos seus objetivos. 

Fonte: Renato Rodrigues

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Caixa de pressão amarela: como o Borussia Dortmund travou Neymar e o PSG na Alemanha?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Neymar sofreu com a marcação e acabou encaixotado em boa parte do confronto em Dortmund
Neymar sofreu com a marcação e acabou encaixotado em boa parte do confronto em Dortmund []

Foram dois anos de muita espera. Apesar do bom jogo, ainda não foi desta vez que Neymar usou seu protagonismo em um jogo decisivo de Champions League para vencer com o PSG. Sem jogar o mata-mata da competição desde a temporada 2017/2018, o brasileiro teve uma noite difícil em Dortmund. Não se omitiu em nenhum momento, marcou um gol e acertou uma na trave, mas, no fim, acabou "travado" pelo cerco imposto pelo Borussia: 2 a 1 para os donos da casa.

Com uma compactação defensiva muito rígida, os auri-negros montaram uma "caixa de pressão" no centro do campo. E isso dificultou não só o jogo de Neymar, mas de todo ataque do time francês. Mbappé e Dí Maria, por exemplo, foram outros que acabaram encaixotados em boa parte do confronto.  Em uma escapada do prodígio francês, o PSG conseguiu o seu gol, o que deixa a eliminatória totalmente aberta.

O que se viu, apesar de ter sido um dos jogadores mais ativos da equipe, foi um Neymar dentro de um cenário extremamente desconfortável. Lukasz Piszczek, atuando como zagueiro pela esquerda, fez vários encaixes no camisa 10 e pressionou muito a bola a cada recepção do mesmo. Não teve respiro. A estratégia do Borussia foi certeira: tirou os espaços, principalmente na profundidade, pressionou a bola a todo custo e automaticamente anulou a velocidade do PSG.

Posicionado num 5-4-1 sem a bola (veja no frame abaixo), os alemães povoaram bem a zona central do campo. O espaço entre a primeira e segunda linha foi bem minúsculo. Como Neymar tem a função de partir da esquerda para dentro, inclusive abrindo o corredor para Kurzawa (PSG também atuou com três zagueiros), acabou batendo em uma muralha. Com isso, quase não teve oportunidades para fazer para jogadas velozes em condução, sua principal e mortal característica.

Dortmund posicionado no 5-4-1 sem a bola: muita compactação e Neymar com pouco espaço
Dortmund posicionado no 5-4-1 sem a bola: muita compactação e Neymar com pouco espaço DataESPN

O impacto desta organização fez com que o camisa 10 parisiense recebesse muitas bolas de costas para o gol (na imagem abaixo isso fica bem claro). Isso, por vezes, matou seu jogo. Mal pegava na bola e o contato vinha forte. Pressão, pressão e pressão. Apesar de ter levado vantagens em alguns momentos, o brasileiro acabava parado pelas coberturas muito bem ajustadas por Lucien Favre, treinador do Dortmund. 

Neymar recebe de costas e quase não tem espaço para girar e acelerar. Pelo menos quatro jogadores do Dortmund pressionam
Neymar recebe de costas e quase não tem espaço para girar e acelerar. Pelo menos quatro jogadores do Dortmund pressionam DataESPN

Só na primeira etapa foram somadas 13 perdas de posse de Neymar (no total foram 30). Números bem expressivos por sinal. 

Por se ver sem saída em vários momentos, a tentativa foi sair um pouco desta zona mais combativa do Dortmund. Para isso, o brasileiro precisou recuar para, aí sim, conseguir girar e jogar de frente para o jogo (na próxima imagem um exemplo bem claro disso). Mas aí acontecia o cobertor curto: ele acabava se vendo longe da meta de Burki. Neste quadro, foram tentadas muitas bolas por elevação, buscando as infiltrações de Mbappé e Dí Maria, mas o bom trabalho da linha defensiva alemã quebrou grande parte das investidas.

Agora sim: Neymar precisa recuar para receber e ter espaço para girar e jogar de frente
Agora sim: Neymar precisa recuar para receber e ter espaço para girar e jogar de frente DataESPN

Foram bem raros os momentos em que o PSG conseguiu atacar o Borussia em campo aberto. Muito pela boa transição defensiva dos mandantes. Com um ataque composto por Neymar, Mbappé e Di Maria, aliás, os alemães foram inteligentes em tirar ao máximo os espaços em profundidade. Dar este tipo de brecha para o trio acelerar, inclusive, seria um atestado de óbito. 

A ideia então foi dar a bola para a equipe treinada por Thomas Tuchel sempre que possível. Sem deixar de atacar quando tivesse a posse, mas sustentando o seu jogo nos contra-ataques puxados, principalmente, pelos jogadores de lado: Hazard e Sancho.

E foi assim que os donos da casa levaram mais perigo. Com o trio de zagueiros do PSG jogando bem adiantado, o Borussia assustava a cada recuperação da bola. E algumas das boas transições ofensivas da equipe, que vem lá da época de Jurgen Klopp, encaixaram. Se as tomadas de decisão, principalmente dos jogadores de lado, fossem melhores, a vantagem poderia ser maior. 

O gigante Haaland, que vem de uma ascensão meteórica desde que chegou à Alemanha, tinha poucas oportunidades de concluir as jogadas. Até que, no segundo tempo, nas duas que chegaram, ele guardou. Destaque para o segundo gol: construído desde o passe vertical de Hummels, que achou o também jovem Reyna, que passou para o centroavante. Dois toques verticais que avançaram praticamente todo o campo.

Sem dúvida Haaland terminou com o protagonismo tão cobrado de Neymar. E toda a expectativa criada em cima do norueguês vai bem além dos números (11 gols nos últimos 8 jogos). O que chama a atenção em si são suas características e uma maturidade enorme com apenas 19 anos. Com 1,94m, o camisa 17 passa bem longe de ser lento, o que já é incomum. Se mostra um jogador extremamente concentrado e envolvido com o jogo, mesmo pegando pouco na bola. Pressiona os adversários a todo momento e tem uma força no arranque muito privilegiada. Sem dúvidas, trata-se de um atleta que tem condições de atingir níveis extraordinários nos próximos anos.

No lado do PSG, destaque para a boa atuação de Verrati. Apesar do cartão amarelo no fim, que o tira do jogo de volta, o italiano foi quem controlou o meio de campo da equipe francesa. Com grande capacidade para alternar o ritmo do jogo com bons passes (93% de aproveitamento em 109 toques), ele ainda foi muito importante defendendo. Nos duelos defensivos pelo chão ganhou 10 de 14 e ainda somou 8 desarmes. 

É verdade que, já para o fim do jogo, o PSG criou algumas situações para igualar novamente a partida. Mas o Borussia, com um nível de investimento inferior, executou de forma bem consistente sua estratégia e agora sai na frente no confronto. Foi maduro e certo do que precisava fazer para obter sucesso nesta primeira parte do enfrentamento. 

A volta, que acontece dia 11 de março, em Paris, tem tudo para ser mais um jogo de alto nível. E tende a ser uma extensão da história contada em Dortmund. Franceses com a bola, alemães esperando, contra-atacando... Resta saber quem sairá vitorioso. E quem será o protagonista da vez.

Fonte: Renato Rodrigues

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Flu controla e vê seu lado direito fluir; Botafogo, definitivamente, precisa de muito mais que Honda

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Nenê marcou dois belos gols na vitória do Fluminense sobre o Botafogo
Nenê marcou dois belos gols na vitória do Fluminense sobre o Botafogo Gazeta Press

O Fluminense controlou praticamente toda a partida no Maracanã e bateu o Botafogo no clássico carioca deste domingo: 3x0. Apesar de ambos estarem classificados, foi a equipe de Odair Hellmann que imprimiu um ritmo mais forte e, mais coesa na implicação de suas ideias, resolveu o confronto ainda no primeiro tempo. 

No lado alvinegro da história, que teve o reforço de Honda apenas nas arquibancadas acompanhando a derrota de sua equipe, pouco a se tirar de uma partida passiva, de grande desorganização defensiva e de quase nenhuma efetividade com a bola.

Apesar do revés, o Botafogo até que iniciou de forma razoável o confronto. Antes de sofrer o primeiro gol, quando praticamente desmoronou psicologicamente, a equipe de Valentim buscava pressionar alto, tentando ganhar a bola no campo ofensivo e não deixar o rival iniciar as jogadas de forma confortável. O problema é que tal estratégia durou pouco tempo. Ou melhor, quase nada.

Conforme os minutos foram passando, a intensidade foi se diluindo e o Flu foi saindo com mais tranquilidade do sem campo. E era neste momento, quando tirava a bola da pressão, que encaixava seus ataques rápidos. Com o rival adiantado, os tricolores tinham o campo aberto para avançar e explorar espaços. E foi nesta toada que aconteceu o atropelo dos primeiros 45 minutos de clássico.

Com uma transição defensiva lenta e movimentos para compensar espaços mal feitos, o Botafogo cedeu muito espaço para o Fluminense circular a bola e combinar jogadas de aproximação, principalmente pelos lados do campo.  Aliás, foi aí o ponto alto do dia no time das Laranjeiras. Apesar das boas descidas de Egídio, inclusive com assistência, foi o lado direito a grande notícia para Odair Hellmann.

Com Gilberto e o estreante Wellington Silva alternando posições para atacar - enquanto um infiltrava por dentro o outro abria e vice-versa -, o Flu construiu muito por ali. Quando Nenê flutuava e se aproximava da dupla, as jogadas fluíam ainda mais. Fazia-se superioridade numérica e, com os volantes do Fogão demorando a encostar para igualar o número de jogadores, os tricolores chegavam a todo o momento no fundo do campo. Era um Botafogo marcando de longe, pouco intenso.

Além dos dois belos gols, Nenê foi bastante importante neste papel de circular e gerar apoios curtos para a equipe. Com total liberdade para rodar por todo terço ofensivo, fez boas leituras e jogadas trabalhadas, tendo grande influência no desempenho de sua equipe. Outro destaque, apesar de sem gols, foi o jovem Evanílson. Longe de ser aquele típico centroavante de força e estatura, o camisa 9 mostrou um grande entendimento de jogo para jogar sem bola. Além das boas corridas em profundidade, investiu em diagonais para fora e atacou a linha defensiva do adversário com muita mobilidade, abrindo espaços importantes e gerando grandes dúvidas na linha defensiva botafoguense. 

Nos raros momentos que conseguia uma escapada em velocidade, principalmente com Luis Henrique, o Botafogo quase sempre terminava mal suas jogadas. O camisa 11, aliás, apesar de mostrar muita força e velocidade, manifestou grandes problemas no acabamento das jogadas. Bruno Nazário (mais centralizado) e Warley (pela direita), foram no mesmo caminho. O penúltimo e último passe alvinegro, definitivamente, não entraram. 

Enquanto isso, vimos Pedro Raul pouco participou do jogo. Centroavante mais típico, conseguiu escorar algumas bolas e trabalhar de costas, mas muito distante do que poderia produzir. Muitas vezes os companheiros tentavam o passe no espaço para o camisa 9, que normalmente prefere o jogo mais no pé, já que não é um atleta de velocidade.

Diante de todas as dificuldades que se tem, o Fluminense dá boas mostras neste início de temporada. Fez um clássico totalmente controlado - onde poderia ter feito mais gols, inclusive. Mais que isso, se provou uma equipe num estágio mais adiantado que seu rival com relação ao que seus treinadores buscam como modelo de jogo. Sólido defensivamente e buscando sempre os espaços para acelerar, construiu o placar de maneira bem natural. 

Obviamente que o caminho ainda é bem longo e que Odair ainda terá dias mais difíceis pela frente. Mas trata-se de um trabalho bastante coerente até aqui e que será melhor testado na próxima fase do carioca - tem o Flamengo pela frente nas semifinais - e também no Brasileirão.

Já o Botafogo preocupa. Não pelo resultado e o dia ruim em si, mas pela maneira como conduz seu jogo. Até no sentido de atitude. Se mostra, mais uma vez, uma equipe com ideias claras e que poderiam vir a ser interessantes, mas que continuam longe de serem cumpridas. Em nível estratégico e de modelo de jogo, não conseguiu aplicar nada no clássico. E sem entrar no mérito se o que Alberto Valentim pede é certo ou errado - já que algumas decisões são até questionáveis. 

Tecnicamente o Botafogo também está distante de ter opções capazes de acrescentar de forma direta no desempenho do time. Até por isso, mais do que nunca, precisará crescer a nível coletivo para conseguir ser competitivo ao longo de 2020.

A esperança fica no japonês Honda. Tecnicamente, sem dúvidas, é quem mais pode acrescentar em repertório à equipe. Mas o contexto, de cara, não é dos melhores. A verdade é que o Botafogo tem muito mais trabalho pela frente. E ele vai bem além de trazer uma contratação de impacto. Trata-se de, minimamente, ter um time para acomodar o seu reforço.

Fonte: Renato Rodrigues

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Flu controla e vê seu lado direito fluir; Botafogo, definitivamente, precisa de muito mais que Honda

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Mudança drástica de perfil e controle: quais são os verdadeiros pilares deste novo Corinthians?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Tiago Nunes vai construindo um novo Corinthians pelo meio de campo
Tiago Nunes vai construindo um novo Corinthians pelo meio de campo Daniel Augusto Jr

O primeiro passo antes de fazer qualquer análise neste período da temporada é deixar claro o fato de termos um lastro muito pequeno de jogos - inclusive com equipes ainda retomando sua forma física - para cravar verdades absolutas. Também não temos o conhecimento dos treinamentos, sem viver o dia a dia. O que deixa a tarefa ainda mais difícil. Dito isso, podemos sim observar ideias e os primeiros passos das direções que cada treinador pretende levar suas equipes ao decorrer do ano. Trata-se do "nascimento" de estruturas, das primeiras experiências e, principalmente, de respostas que podem ser muito importantes para a continuidade ou não de processos.

E um dos clubes que praticamente iniciam do zero todo esse movimento de construção de algo novo é o Corinthians. Depois de praticamente uma década com um modelo de jogo muito bem estabelecido, seguindo uma mesma linha de trabalho e de perfis de treinadores semelhantes, o time de Parque São Jorge busca respirar novos ares e aposta em Thiago Nunes, vitorioso no Athletico-PR, para isso. 

Por mais que o novo comandante siga alguns conceitos de seus sucessores (por exemplo, a ideia de linha defensiva compacta em largura), existem alguns pontos que passam a ter uma ruptura mais radical. E não é o caso de pontuar certo ou errado, mas sim as diferenças. Por serem drásticas em alguns aspectos, fica ainda mais vísiveis, mesmo em pouco tempo de temporada.

Em busca de um jogo mais propositivo, de controle do jogo através da posse e predomínio no campo do adversário, Nunes já deixa bem claro por onde as mudanças começaram e quais serão seus pilares para o desenvolvimento de um modelo de jogo vitorioso: os volantes.

Bom momento de Boselli, contratação de Luan, recuperação de Ramiro... Todos estes são pontos importantes, mas, pelo menos por agora, se mostram até secundários se observarmos a influência de Camacho e Cantillo no jogo alvinegro. A dupla, alinhada à frente da linha defensiva no 4-2-3-1 de Thiago Nunes (que vira 4-4-2 sem a bola), é o epicentro do Corinthians nestes primeiros jogos. E não se trata de uma mudança de forma de jogar, mas também de perfil de jogadores nesta posição.

Elias, Paulinho, Maycon, Junior Urso... Independente da qualidade de cada um destes jogadores, eles têm uma característica essencial em comum: são todos volantes de infiltração, chegada na área e gols importantes nas últimas temporadas pelo Timão (uns mais e outros menos, normal). Já Camacho e Cantillo apresentam outro tipo de repertório à equipe. São baseados na construção, no passe e, principalmente, no controle.

Obviamente que isso não os impede de chegar no terço ofensivo por algum momento. Neste caso, vejo Cantillo até com mais possibilidades. Mas ambos estão ali, como representantes do jogo que Thiago Nunes quer praticar, para gerienciar o controle e o ritmo da equipe. Entender o momento de pausar e acelerar, fazer com que a bola avance o campo de forma mais qualificada e ajustar a ligação entre os setores. E melhor: tudo isso com menos pressão na bola, já que estão numa faixa mais recuada, e de frente para o jogo.

Até a estrutura da equipe quando já instalada em fase ofensiva muda: ao invés de uma saída mais sustentada, usando predominantemente os laterais, o jogo passa a fluir mais pelo centro também. Com isso, Fagner e Sidcley ganham mais liberdade para avançar e gerar até profundidade. Mais "presos", Camacho e Cantillo não só administram a posse e o ritmo, mas também estão prontos para defender numa eventual perda da posse, já que não avançam tanto (veja a sequência de fotos abaixo). No caso do colombiano, ainda se tem um ganho em força física para duelos em transição defensiva.

Nesta primeira imagem, veja como Camacho e Cantillo estão bem próximos aos zagueiros e os laterais nem sequer aparecem no recorte
Nesta primeira imagem, veja como Camacho e Cantillo estão bem próximos aos zagueiros e os laterais nem sequer aparecem no recorte Reprodução: TV Globo

Agora sim: saída com zagueiros/volantes e os laterais mais avançados
Agora sim: saída com zagueiros/volantes e os laterais mais avançados Reprodução: TV Globo

E tudo parte da capacidade destes dois meio-campistas. Uso até este termo para fugir um pouco da pecha de "volante", normalmente usada para jogadores mais físicos e que trazem consigo apenas funções de destruição. São deles que a bola sai. São deles os gatilhos para os pontos deixarem o lado no momento certo e flutuarem por dentro, abrindo o corredor para os laterais. São neles que todos jogadores à frente da linha da bola focam para abrir linhas de passe e possibilidades para avançar no campo. 

Neste novo modelo os zagueiros também ganham maior importância nesta primeira fase de construção. Assim como Cássio. Mas é em Camacho e Cantillo que o time desenvolve seus ataques mais promissores. Novamente é importante ressaltar, não se trata de certo ou errado, mas de escolher bem para executar bem. Mas é nítida a mudança de perfil se pensarmos que o próprio Corinthians chegou a atuar com Ralf e Gabriel, juntos, em alguns momentos de 2019. 

Muda-se não só a forma de pensar futebol, mas o perfil do coração e cérebro de um time. Muda-se os protagonistas. Muda-se a essência de um time de futebol.

Fonte: Renato Rodrigues

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Vídeo análise: os movimentos sem bola de Gabriel Jesus, que volta a ter momentos de protagonismo no City

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Gabriel Jesus comemora mais gols pelo City
Gabriel Jesus comemora mais gols pelo City Mike Egerton/PA Images via Getty Images

Gabriel Jesus voltou a ter momentos de brilho com a camisa do Manchester City. Depois de oscilar muito durante as oportunidades que teve nos últimos meses e, principalmente, ter feito uma Copa do Mundo sem grande destaque, o atacante brasileiro vai fazendo valer a continuidade como titular enquanto Sergio Aguero se recupera de lesão. Ao todo são 5 gols em 5 jogos após a lesão do argentino, incluindo um hat-trick em plena Champions League.

Mas o que de fato mudou no ex-palmeirense? Na análise abaixo tentamos explicar:


         
     

A verdade é que não se trata de mudança, mas um apanhado de confiança e desenvolvimento de inteligência de jogo. Atuando como centroavante nesta sequência, Gabriel Jesus tem tido poucas ações com bola por jogo. Participa pouco das construções, mas tem sido letal e inteligente para ler espaços corretamente. O grande destaque, por incrível que pareça, é no seu jogo sem a bola.

No primeiro lance já vemos de cara sua contribuição defensiva mesmo sendo o centroavante da equipe. Mais adiantado, pressiona, fecha linhas de passe e serve com uma espécia de "gatilho" para sinalizar ao time a hora de subir jogadores e adiantar seu bloco defensivo para pressionar. O lance mostra bem isso. No fim da primeira jogada ainda vemos um movimento bem característico dele: a leitura do espaço vazio e a infiltração nas costas do zagueiro que o marca.

Já na segunda jogada vemos muito uma questão de timing para os movimentos. Mesmo longe da onde a jogada se desenvolve, o brasileiro se mostra atento para ler e atacar espaços, mesmo que a bola não chegue naquele momento. Uma sequência de movimentos inteligentes, feitos antes mesmo do passe/cruzamento, que acaba em gol. No final, um arranque para cima do defensor, que acaba sendo decisivo ao achar o espaço correto.

Na terceira e última jogada, mais uma vez a questão da leitura do espaço vazio + o potente arranque para deixar o marcador para trás e antecipar a jogada. Mais uma conclusão e um gol anotado.

A ideia é mostrar um dos motivos do crescimento de Gabriel Jesus nos últimos jogos. Lógico que os gols contam muito, mas é o seu trabalho sem bola que tem não só ajudado a equipe, como também gerando espaços para que o atacante esteja em boas condições de terminar as jogadas. Os lances vão desde a sua função de puxar a pressão mais alta, sendo o gatilho para o time subir, até movimentos nos espaços vazios, que é onde ele se marca os gols. Pouco participativo na construção dos ataques, mas terminal e letal. Assim o brasileiro vem se destacando com a lesão de Aguero.

Fonte: Renato Rodrigues

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