O frenético Liverpool x Manchester City e as lições sobre intensidade dadas ao futebol brasileiro

Renato Rodrigues, do DataESPN
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Liverpool comemora um dos gols da vitória sobre o Manchester City
Liverpool comemora um dos gols da vitória sobre o Manchester City

Liverpool e Manchester City, no último domingo, protagonizaram um jogo com a essência da Premier League. Não faltaram transições, duelos pessoais, brigas em 1ª e 2ª bolas, gols... Mas a palavra mais certa para definir o confronto e, principalmente, a liga em que as duas equipes jogam é intensidade. Termo que, apesar de muito usado em solo brasileiro nos debates sobre futebol, não é totalmente compreendido.

Quando se fala em intensidade por aqui, logo vem em mente situações ligadas aos comportamentos de uma equipe/jogador sem a bola. Times intensos normalmente são denominados por conta da sua forte marcação,  da capacidade de desarmar ou mesmo pela garra em cada dividida pelo campo. Mas este conceito, se olharmos para dentro do jogo, vai muito além disso. 

Intensidade também inclui ações com bola e existem diversas maneiras de a ter com a posse. A velocidade de execução (tempo em que o jogador domina e passa/finaliza/lança), por exemplo, é um dos pilares deste conceito.  A mobilidade, como deslocamentos para achar linhas de passe, também entra dentro deste pacote. A rapidez na tomada de decisão idem. E temos também a reação após a recuperação da bola, que nada mais é o quanto você demora para atacar um espaço,  para dar uma opção de passe ou  infiltrar no exato momento em que recupera a posse. Ou seja, intensidade é bem diferente de "correria", como muitos acham.

A organização e a criação de um modelo de jogo que se integre ao tipo de jogadores e clube que está também são de extrema importância. Intensidade sem estrutura, sem uma ideia por trás, vira um catado. É correr errado apenas.

No duelo do último domingo em Anfield vimos muito disso. Um jogo frenético. O alto número de ações com e sem bola, principalmente do Liverpool, nos dá uma dimensão de como foi o jogo e nos dá uma referência na hora de "medir essa intensidade". Ao melhor estilo Jürgen Klopp, os Reds pressionaram a bola a desde o início, atrapalhando muito a saída de bola da equipe de Pep Guardiola. Na recuperação, acelerava e atacava espaços em profundidade. Firmino, em mais uma ótima atuação, flutuava por todo terço final, abrindo espaços e jogando com um ou dois toques, ajudando a desequilibrar a defesa de Manchester.

O duelo entre Arsenal e Chelsea (2x2) foi outro que também chamou a atenção neste sentido. Ainda mais por ter acontecido em meio ao boxing day (período no campeonato inglês com jogos seguidos em um curto espaço de tempo, que considero bastante inadequado, inclusive). Claro que os dois jogos citados aqui são de equipes gigantes, onde a qualidade técnica é maior pelo poderio financeiro, mas é possível ver tal velocidade, tal ritmo, tal intensidade, em jogos de menor porte também.

Obviamente que a Premier League é uma das (ou a) liga mais intensa do mundo. Seria até leviandade compará-la com o futebol praticado no Brasil neste sentido. Mas se olharmos para outros centros como Espanha, Alemanha, Itália e até Portugal, ainda estamos bastante atrás. Convivemos por aqui com um jogo lento, muitas vezes com posses pouco objetivas e, principalmente, quase sempre pragmáticos. Um arroz com feijão mal feito. Uma sonolência que tem a ver com a nossa cultura de jogo.

"Ah, mas os caras têm muito dinheiro!", "Mas os melhores jogadores estão lá!", "Vai jogar em Caruaru às 16h para você ver se tem intensidade!"... São vários os argumentos que recebi após levantar este assunto no Twitter. Todos com seu valor, inclusive. Já que englobam nas justificativas para um jogo tão pouco intenso que vemos no Brasil. 

Claro que a qualidade técnica é essencial para a boa prática do futebol. E é fato que nossos grandes jogadores já não estão por aqui. Mas apesar de tudo isso, não poderíamos fazer mais? Somos um dos países que mais carregam a bola no futebol mundial. Ainda não achei uma estatística que comprove isso, mas a olho nu é bastante perceptível. 

Cada lugar tem sua cultura e sua forma de ver/jogar futebol. Não dá para nós brasileiros abrirmos mão do nosso estilo. Quando cobramos uma melhora na qualidade do nosso jogo, não queremos simplesmente copiar. Mas sim adequar as boas lições que outros lugares podem nos dar e adaptá-las à nossa realidade, sem perder nossa essência. E o nosso problema vai além de dinheiro, qualidade técnica, organização... Tem a ver como tratamos e desenvolvemos futebol.

Primeiro que nossos métodos são ultrapassados. Claro que isso não é praxe de todos nossos treinadores, mas ainda enxergamos por aí treinamentos longos e exaustivos. Muitas vezes utilizando todas as dimensões do campo. Trabalhar espaço reduzido e em menor tempo tem sido a tônica nos grandes centros. E faz sentido. Você diminui o espaço, cresce as ações. Com o aumento de toques na bola, aumenta-se a participação de cada atleta. Mais ações = a mais intensidade. 

Também não adianta fazer um treino em campo reduzido e usar a continuidade nele. Por exemplo: faça um 6 vs 6, mas jogue os jogadores 40 minutos neste exercício. Depois de 15 minutos a intensidade dos movimentos começará a cair de força gradual. Por conta disso os exercícios intervalados são bem mais usados nos grandes centros do mundo. Ainda em cima disso, entram os objetivos destes treinamentos. Largura para trabalhar amplitude (abrindo o campo), cumprimento para trabalhar profundidade, regras para levar a bola num devido setor ou mesmo estimular algum tipo de comportamento nos atletas... O repertório é vasto e exige criatividade dos treinadores, já que eles precisam sempre ter um objetivo final para aquele exercício, sempre pensando em refletir este conteúdo no jogo.

Nosso calendário apertado também vira um vilão nestas horas. Em ano de Copa do Mundo a situação se agrava muito, já que algumas equipes não terão nem 15 dias para realizar uma pré-temporada decente. Inclusive já pontuamos por aqui a importância desse período (clique aqui). Ou seja, já se começa errado por aqui. E, inevitavelmente, essa demanda vai ser cobrada lá na frente. Questões como a temperatura também entram no pacote. Aqui os dias e regiões quentes castigam qualquer atividade física.

Mas temos também a nossa cultura de "picar os jogos". Caímos no chão após qualquer choque para esfriar o jogo. Fazemos bolinho no árbitro. Retardamos cobranças de tiro de meta. Enquanto alguns querem jogar a todo custo, nós queremos apenas ganhar. E não importa a forma como isso vai acontecer. São pequenas atitudes que colaboram para a qualidade do nosso jogo. A arbitragem, que ainda sofre com sua não profissionalização, também ajuda a complicar o cenário. 

Está mais do que na hora de darmos este salto de qualidade no futebol praticado em solo brasileiro. O produto que oferecemos está longe de ser interessante. Enquanto isso, perdemos cada vez mais espectadores. Os estádios esvaziam. Se vende menos, se paga menos. E para dar os primeiros passos nessa direção, a primeira coisa que precisamos é aprender ver o futebol num todo. Aceitar que ele é sistêmico e deixar de individualizar problemas, já que são várias as questões que o cercam. A mudança é necessária. E ser auto-crítico está longe de ter síndrome de vira-lata. Queremos mais porque podemos mais.

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A incompreendida pré-temporada no Brasil e a construção de uma equipe vencedora

Renato Rodrigues, do DataESPN
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Na Europa se respeita pelo menos um mês de pré-temporada. No Brasil ainda sofre com isso
Na Europa se respeita pelo menos um mês de pré-temporada. No Brasil ainda sofre com isso

Virada de ano, fim das férias e chegada a hora tão esperada de religar os motores no futebol brasileiro. Eis que a pré-temporada, com seus fãs e críticos, passa a ser a bola da vez na cobertura jornalística, na conversa entre os jogadores e  também dentro das comissões técnicas. Mas, enfim,  qual a real importância deste período sem jogos em que só se treina país afora? Cabe a nós então tentar entender (e inclusive valorizar!) o papel destas semanas dentro da construção de uma equipe vencedora. 

Infelizmente a pré-temporada ainda é tratada, de uma forma geral, com bastante superficialidade em solo brasileiro. Muitos por aqui a tem apenas como um "período para se recondicionar fisicamente", "voltar ao peso ideal" ou simplesmente encontrar retiros de concentração "para entrosar o grupo"...  Mas a sua influência vai muito além disso. Aspectos importantes e decisivos, que deveriam entrar mais nos debates sobre futebol por aqui, simplesmente por estar aliado a toda performance durante o ano.

Obviamente que os fatos citados acima são de extrema importância e estão incorporados na demanda exigida dentro das primeiras semanas pós descanso. Afinal, voltar a ter seus atletas em plenitude física é um dos primeiros passos para formar uma equipe vencedora e competitiva. Mas esse é só o ponto de partida (ou deveria ser em alguns casos).

Antes de mais nada não podemos iniciar qualquer discussão que envolva pré-temporada sem antes ressaltar que no Brasil, assim como a grande maioria dos processos que envolvem o futebol, não se respeita tempo. Com ano de Copa do Mundo isso se agrava mais ainda. Em menos de um mês teremos equipes estreando em estaduais. Outras terão em jogo o seu futuro na Libertadores disputando mata-matas na fase eliminatória, com uma exigência física enorme. O fato de poder se preparar bem, afeta diretamente na qualidade do nosso jogo. E isso é notório.

Inclusive chega até a ser leviano cobrar alto rendimento de equipes após 20 dias de treinamento. Em outros países (nem precisa ser da Europa), se dá tempo ao tempo e essa preparação é muito melhor executada. 

Em muitos casos, essa falta de tempo complica ainda mais, já que muitas vezes este processo é iniciado com treinadores e metodologias novas. Ou seja, um novo técnico, uma nova ideia de jogo... É como começar a construir um prédio algo do zero. Não se tem os alicerces. Ou seja, raramente se tem uma ideia antecessora ou um norte preliminar. As coisas não funcionam, a pressão começa e... Troca de novo. E quem vem nem teve a vantagem de ter tido a pré-temporada para impor sua forma de trabalhar.

Enquanto isso muitos encaram o treinamento no Brasil como uma espécie de "castigo" para equipes ou jogadores que não vivem grande fase. Perdeu? Treina dois períodos, oras! Folga? Recuperação? Coloca esses caras para correr! Mas esta não pode ser uma visão de uma comissão técnica bem preparada (veja o depoimento de Dorival Junior, ainda no Santos, para o DataESPN Visita).  Para tais profissionais trata-se de um período raro e de extrema importância dentro da consolidação do trabalho. É o plantio de uma semente que, se bem plantada e cuidada durante o ano, tem tudo para florescer e render bons frutos.

Após reciclagem no Bayern, Dorival lembra quando Guardiola cancelou treino e venceu por 8 a 0

E é aí que mora a questão: não é o tanto que se treina, mas sim como se treina. O que devemos levar em conta é qualidade dos exercícios, os porquês de cada um deles e, principalmente, como se está sendo construído os pilares básicos do modelo de jogo. É a fundação de um edifício que, sem essa estrutura inicial, tem tudo para desmoronar quando for colocada em jogo. É o preparo não só físico, mas também do jogo que você escolheu jogar.

Em um cenário ideal, a pré-temporada se inicia bem antes da reapresentação do plantel. Quando existe a troca do treinador para o próximo ano (o que seria o encerramento de um ciclo, muito mais fácil para fazer julgamentos), já se começa a planejar imediatamente após o acerto. O primeiro passo destes profissionais junto ao comandante é entender o clube, os jogadores e a estrutura que você terá no dia a dia. Que tipo de futebol este time tem como DNA histórico? Quais comportamentos são valorizados por esta torcida, região ou cultura (afinal, os torcedores e a história são os maiores patrimônios de uma instituição). Ao não refletir estes quesitos, a chance de se começar errando já é grande.

Até que surgem mais duas importantes perguntas dentro do processo de construção de uma equipe: quais as características do meu elenco e qual é tipo de futebol que eu quero praticar? 

Então vamos praticar um breve exercício: tenho muitos jogadores verticais do meio para frente. Eles rendem mais quando podem acelerar o jogo e fazer transições ofensivas rápidas com a bola. Com a posse eles não me trazem grandes atributos técnicos. Não são atletas com grande qualidade no jogo apoiado, preferem um jogo mais direto. Também tenho uma linha defensiva com mais força e imposição física. Por outro lado, zagueiros e laterais mais lentos, sem agilidade na troca de direção. Do meio para trás meus atletas preferem um jogo mais posicional e de controle dos espaços. Em um todo tenho um elenco pouco criativo, mas com boa disciplina tática. Meu investimento financeiro para ir ao mercado também é bastante baixo. Não posso errar por nada.

Claro que a leitura acima é bem rasa e superficial. É preciso muito mais que isso para tomar as decisões corretas. São horas de estudo, de jogos assistidos, de pesquisas dentro do próprio estafe, de reuniões e discussões entre os profissionais da comissão técnica... Mas que tipo de futebol você escolheria dentro deste cenário? É possível montar uma equipe baseada na posse de bola e que tenta propor o jogo em qualquer situação? Jogar com uma linha defensiva alta, pressionando sempre o adversário no seu campo? Ou seria melhor optar, pelo menos num primeiro momento, por um jogo mais reativo e direto? (Na análise abaixo vemos um pouco da passagem de Aberto Valentim pelo Palmeiras: ideias claras e boas, mas sem tempo para conseguir executar com qualidade).

Boas ideias com falhas de execução: Renato Rodrigues e DataESPN dissecam Palmeiras de Valentim

São escolhas. Simples assim. E elas trarão prós e contras dentro de um trabalho. Mas sem dúvida é um exercício de adaptação por parte dos treinadores. De entender o contexto e tomar decisões em cima deles. Não jogar da forma que gosta, mas sim da forma que pode. No Brasil vivemos muito disso, uma linha tênue e perigosa entre a convicção e a teimosia.  Acredito sim que, com os treinos e estímulos certos, esse elenco desenhado acima pode fazer um jogo de posse. Mas certamente isso demandará tempo e paciência. Vale o preço? Minha direção vai das respaldo? Não é tão simples assim...

Tomada estas importantes decisões pontuadas acima, que darão o norte no longo caminho a se percorrer, chega o momento das ideias saírem do papel e se tornarem prática. E é neste momento que o planejamento do treinamento passa a ser de extrema importância. Os tipos de exercícios, as dimensões de espaço que serão feitos, as regras impostas dentro dos movimentos... E ainda tem controle da carga, imprescindível em qualquer esporte de alto rendimento. Todos estes pontos precisam ser muito bem alinhados. Serão eles que criarão os comportamentos que o modelo de jogo exige. 

Está mais do que na hora de entendermos que o treino reflete o jogo, que também deve refletir no treino. Pensa, cria, estimula, executa, corrige, evolui... Pensa, cria, estimula, executa, corrige, evolui... Sempre com a cabeça aberta, sempre pronto para o novo e atento aos problemas que virão pela frente. A dinâmica da criação de uma equipe passa muito por isso.

Por sua vez estes treinamentos estão cada vez mais evoluídos. Se corre mais, se duela mais pela bola... O número de ações com bola de um atleta no jogo só cresce a cada ao que passa. Geralmente quem não se atualiza dentro do esporte, acaba ficando para trás muito por conta disso. Dentro do futebol de alto rendimento atual, por exemplo, já não se treina com campo inteiro a todo tempo. As corridas em volta do campo também são raras. Geralmente os exercícios têm sempre a presença da bola. Mais intensidade, menos tempo de exercício. Nada de duas horas e meia de atividade. Quanto menos campo e jogadores no mesmo espaço, mas ações com bola. Abriu o campo, menos ações, mas senso coletivo e espacial. Se treina físico, técnico, tático e psicológico em uma mesma sessão. A busca é sempre pela realidade que o jogo vai trazer. 

Por acaso algum jogador dribla um cone dentro de uma partida? Seu goleiro vai sair em uma bola alta sem ninguém disputando espaço com ele? Alguém passa sem ninguém estar pressionando a bola? Por conta disso o treinamento analítico vai perdendo cada vez mais espaço. 

Os dias vão passando e o campo vai dando algumas respostas. Por isso a necessidade de mais tempo. Sem ele, quase nada se mostra com clareza. As definições de posição/função, por exemplo, ficam mais claras quando todos estão com a mão na massa. Os ajustes acontecem e, aos poucos, você vai vendo aquela estrutura ganhando forma. O ideal é sempre fazer isso forma bem gradual, partindo do mais fácil para o mais difícil. Tomando bastante cuidado com o tanto e o nível das informações que estão sendo passadas. Se preocupando com a absorção do conteúdo passado dia pós dia. Afinal, o nível intelectual de um grupo com 30 pessoas é bastante hibrido. Cada um aprende em um tempo e de uma forma diferente.

Será na pré-temporada que uma linha defensiva que jogará de forma zonal, por exemplo, terá seu primeiro contato com exercícios de flutuação, de fechar a zona da bola, de fazer ou não perseguições, de ajustar e aprender a trabalhar com coberturas mais alinhadas. O que faremos após a recuperação da bola? Acelera ou tira ritmo para trabalhar a posse? E quando perdemos? Pressiona ou se recompõem atrás da linha da bola? Por onde vou construir o jogo? Como vou abrir o campo? Para onde vou direcionar o adversário durante sua posse? O jogo e seus diferentes momentos exigem estas respostas à todo o momento (veja a análise abaixo que mostra o tipo de futebol praticado pelos times de Pep Guardiola ao longo de sua carreira. Vemos diferenças, mas os pilares do seu jogo se repetindo)

DataESPN analisa a trajetória de Guardiola; veja as semelhanças de Barça, Bayern e City

Em outra analogia bastante simples podemos dizer que a pré-temporada é o nosso "A E I O U" nos primeiros anos de escola. Sem ele muito bem feito e absorvido, nenhum de nós conseguiria escrever um bom livro. Com o nosso calendário louco, o quarta e domingo tem momentos apenas para relembrar lições e aprendizados. De ajustar erros e fortalecer alguns comportamentos. De incluir ideias mais pontuais que surpreendem ou neutralizam um adversário. Se cria quando essa rotina maluca pega para valer.

O futebol, como tudo na vida, muda. Alguns dizem que evolui. Outros já acham que só piora. Mas é fato que ele está em uma eterna mutação. A famosa pré-temporada, de corridas em volta do campo e rachões cheios de descontração, já pede outra coisa. Cabe a nós sempre responder o que o jogo pede. Quem dá a devida importância e trabalha bem neste período, certamente sai na frente. 

O futebol no Brasil já começou! 

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Entrevista do mês: Paulo Autuori critica CBF, fala dos desafios na formação de novos craques e critica qualidade do jogo no Brasil: "Muito ruim"

Renato Rodrigues, do DataESPN
Mauricio Mano/Atlético-PR
Paulo Autuori durante jogo do Atlético-PR contra o Flamengo, ainda como treinador
Paulo Autuori durante jogo do Atlético-PR contra o Flamengo, ainda como treinador

Paulo Autuori está no futebol há mais de 30 anos. Já passou por diversas experiências. Elas vão de países, clubes e até funções já desempenhadas durante a sua longa carreira. Conquistas, bons e maus trabalhos, turbulências, críticas... Você pode gostar ou não. Querer ou não o mesmo no seu clube. Mas se trata de uma figura que sempre merece  ser ouvida. Mais que isso, se trata de um eterno incomodado. Um cara que sempre quer e quis mais, independentemente da época e do que construiu ao logo de sua vida dentro do esporte.

Não dá para negar que Autori é da velha geração. Por outro lado ele não está nem aí para os 61 anos que tem. Para ele juventude é mais que isso. Está na cabeça, na vontade de evoluir ou não. "Existe muito jovem com a cabeça muito velha por aí", diz o ex-coordenador metodológico do Atlético-PR. Aliás também afirma ser "lamentável" o debate sobre "boleiro vs estudioso. Nesta longa entrevista a ideia foi falar apenas de futebol. Inclusive ela foi feita no início do último mês, sem saber da sua saída do Furacão, que foi divulgada no último domingo.

Neste papo exclusivo com o blog, o ex-treinador e agora gestor (ele mesmo fiz que não voltará à antiga função) faz duras críticas à CBF e, principalmente, ao nosso calendário. Fala da falta de identidade nos clubes brasileiros e é bastante critico quanto a qualidade do futebol jogado no país. Também cita as mudanças no futebol, da falta do "futebol de rua" e o quanto isso influencia na formação de novos craques por aqui.

Outro assunto abordado foi Rogério Ceni, com quem ganhou a Libertadores de 2005 com o São Paulo. Vê o agora treinador como um grande potencial na nova carreira e comenta sobre as dificuldades que o mesmo teve ao assumir a equipe que é ídolo durante esta temporada. Sua maior cobrança, inclusive, é o respeito ao processo, coisa rara aqui no Brasil quando o assunto é contração e queda de treinador. 

Veja na íntegra a entrevista:  

Depois de tantos anos como treinador, até com passagens fora do Brasil, o que tem te motivado nessa função de mais coordenação? O que tem encontrado de tão diferente?

Na verdade é uma função que, na maneira que o Atlético-PR me propôs, não existe no futebol brasileiro. Até porque eu não sou um gerente executivo, por exemplo. Eu não trato com negociações, com dinheiro... Eu mesmo deixei claro que não queria me envolver com isso. Minha área é totalmente técnica e no que isso pode refletir em questões estratégicas para o clube. A ideia é que, no futebol, você tenha alguém que se aprofunde em análises não só de contratações de jogador, mas também de profissionais que possam trabalhar aqui. Ter uma palavra que a direção creia, que seja importante e prioritária na qualidade profissional. Aqui se aposta muito em Recursos Humanos. Então apostamos também de forma infraestrutural, organizacional e metodológica. Mas nada adianta disso se não tivermos capacidade profissional. Gente com cabeça aberta para buscar novos conhecimentos, que não tenha preconceito de utilizar novas ideias. Falo isso porque o futebol é preconceituoso com isso. Então meu trabalho mira muito estas questões.   

Muito se fala hoje em não ter apenas um grande treinador, mas um staff de qualidade e que possa ser delegado à funções importantes. Como criar uma identidade de jogo? Como isso passa por escolher corretamente jogadores, um perfil de treinador? 

Isso nasce de uma situação que você precisa ter muito cuidado e respeito com as histórias dos clubes. Entender o que cada entidade busca. Ver o porquê de tantas pessoas acompanhar o clube, o que tanto identifica nelas... Tem que ter a ver com esse torcedor. Claro que existem outras coisas, mas essa é uma bastante importante. Cada clube traz consigo algumas características próprias durante a história e aqui no Brasil mais acentuadas por conta da diversidade cultural. Nosso país tem dimensões continentais. Então isso fica mais forte. Então o primeiro passo é respeitar essas origens. A partir daí sim, dentro de uma ideia de atualização, buscando a tendência do que é jogado agora, contextualizar tudo isso e, de alguma maneira, manter essas tradições. Sempre dentro de uma ideia clara de completividade que a cada dia fica mais exigente. A cobrança só aumenta neste sentido. Dentro dessa situação você precisa entender o por quê. Quando se fala em metodologia nada mais é que você ter uma ideia daquilo do que se quer fazer e como colocar isso em prática, como vai operacionalizar. A partir daí você cria sistemas, precisa ser algo sistemático. Não tem como fugir disso para se ter lógica. É necessário mirar o todo. Não podemos fazer uma análise isolada do futebol jogado em campo com decisões tomadas na gestão, por exemplo. Marketing, financeiro, jurídico... Hoje em dia é importante isso. Até na questão de decisão de comando. Você tem uma ideia central no clube, procura profissionais com perfil parecido e que possam agregar em conceitos táticos e faz entrevistas com eles isoladamente. Só depois define. Um processo seletivo desse cria um comprometimento maior de todas as partes.  o que eu vislumbro em termos de futuro, uma lógica para as coisas. Que não aconteçam coisas apenas circunstanciais. 

             
O que tem achado da formação de jogadores no Brasil? Concorda que precisamos nos atualizar nestas questões também? Quais são as mudanças mais significativas dos últimos anos na formação? 
  
Tem que desenvolver um jogo de futebol que tem a ver com excelência infraestrutural, estrutural e metodológica. E não é fácil fazer isso. Principalmente respeitando as tradições de cada clube. É um processo. Não é simples. Você vive competindo, vive se salvando por resultado. Então tem que entender como fazer, estar atento. E pra tudo isso, temos que estar ligado na formação destes jogadores. Ele precisa entender isso desde cedo e com o nível de complexidade sempre do menos para o mais. Entendo isso como uma progressão pedagógica. Tem que ser assim. Para você fazer as coisas com consciência e entender o por quê, esse processo precisa ser respeitado. Primeiro se aprende a somar, para depois ir para as operações mais complexas e no futebol é assim também. Eu concordo muito com o que você falou. O jogar mudou. As pessoas precisam entender que é futebol, mas que as maneira como se joga passou a ser diferente. Os interesses são maiores, os valores são diferentes também. As exigências e a falta de tolerância também só crescem. Você vê lá na Alemanha. O problema não é o Ancelotti que foi mandado embora. Se você ver isso está crescendo por lá também, teve mais gente saindo nos últimos anos. Até em outros países essa tolerância vem diminuindo. 

E como o "treinar" entra nessa conversa? 

Precisamos entender que quem faz futebol são as pessoas. E é da sociedade que vem os potenciais jogadores. Eles vão carregar consigo os maus hábitos, os vícios, má formação escolar... Isso tudo influencia no jogar de hoje. Eu costumo sempre dizer que dá para olhar como um bolo de chocolate. O jogar é o bolo. Então, quando você corta uma fatia, ela representa uma parte disso. Então é importante você trabalhar para essa fatia estar boa. Pessoal costuma reclamar: "Ah, esse negócio de campo reduzido, perde-se isso ou aquilo". Primeiro tem que se entender o que você pretende trabalhar. Como você vai criar comportamentos é importante que estes atletas tenham um grande número de ações. Ele repetindo muitas vezes, aquilo vai virar algo habitual para ele e vai se desenvolver dentro da partida. E isso não é e nunca será engessar alguém. De maneira alguma. Só pensar na pessoa que rói unha... Você vai pegar e engessar a mão da pessoa? Não. Você vai estimulá-la a parar de fazer aquilo, fazer com que crie um outro tipo de comportamento até que vire uma coisa consciente. Então você vai utilizando o campo menor, diminuindo os espaços, colocando gente dentro dele... Aí tem diversas maneiras de se fazer. Você usa mais horizontal, abrindo mais o campo, ou ao contrário, tentando gerar profundidade. Aí depende do que você quer trabalhar. Nisso você trabalha até questões físicas e fisiológicas. Você quer mais intensidade? Quais os intervalos entre um estímulo e outro? São respostas que você precisa ter e que dependem da sua análise da necessidade ali. Por isso os estafes hoje são maiores. E mais que multidisciplinares eles precisam ser transdisciplinares, ou seja, eles precisam interagir entre eles. Dentro dessa ideia, não se forma apenas jogadores, mas novos profissionais. Auxiliares, preparadores... Que o clube possa olhar primeiramente para dentro e depois pensar em buscar fora, seja jogadores ou qualquer tipo de função. 

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Autuori conversa com o treinador Fabiano Soares. Ambos deixam o Furacão no fim desta temporada
Autuori conversa com o treinador Fabiano Soares. Ambos deixam o Furacão no fim desta temporada

Ainda em cima da formação, Paulo. A gente vem de um histórico de formação muito vindo da rua, do futebol praticado de uma forma mais lúdica... E de certa forma isso estimulava muito nossos jogadores a resolverem problemas dentro de uma partida de futebol, de buscar um improviso. Como a gente se adapta a um cenário que cada vez mais os espaços públicos são menores e menos explorado? Existe alguma forma de lidar com isso sem perder essa nossa essência?

Essa é uma pergunta muito importante. Ela sempre aprece no nosso dia a dia. Antes a garotada tinha muito menos opções com relação à diversão e esportes. Alguns esportes foram crescendo muito e deram também uma condição de ascensão social. E isso era praticamente monopolizado pelo futebol. Hoje você tem o vôlei como um exemplo. Antigamente você não tinha aptidão para jogar futebol, mas era praticamente forçado a fazer porque era a oportunidade que você tinha. Você era forçado a crescer dentro da modalidade. A gente passava o dia na rua jogando bola. Fazia isso de forma natural, inata... E tentava sempre repetir os gestos do seu ídolo. Nem os pais ficavam ali dizendo para fazer isso ou aquilo. Os pais estavam em casa chateados porque o filho só queria saber de futebol. Então você buscava jogadores com 17 anos para os clubes. Já ia direto para um infantil, infanto juvenil... A rua proporcionava a estes atletas de forma inata determinadas situações que o jogo pede até hoje. Por exemplo: você jogava com idades diferentes, com biotipos e tamanhos diferentes, não havia árbitro nas peladas e falta era falta, os dois times tinha que concordar se não a porrada comia... Se você estivesse envolvido com gente de mais idade, com mais físico, você não podia afrouxar. E aquilo, de forma natural, desenvolvia a coragem. Tem gente que fala: "poxa, eu arrancava o tampão do dedo e mesmo assim continuava. Jogava o dia inteiro!". Isso desenvolvia sua exposição à dor de forma maior, do quanto aguenta ela. Acho que o jovem desfrutava mais do jogo. De 6 a 12 anos de idade é quando tudo acontece no sistema nervoso central. É nessa faixa que você desenvolve as coisas que são duradouras. E você tinha mais espaços públicos para desenvolver tudo isso. Tinha o futebol de salão, que hoje é o futsal e continua ajudando muito. Então a grande pergunta que a gente deve se fazer é: era só a qualidade técnica que desenvolvia aí? Só habilidade? Não é só isso! Como eu mencionei, tem mais coisas. Mas aí a gente pensa. Você vai trazer o espaço público de volta? Não. Mas você pode minimamente nas suas seções de treino trazer esses conceitos que eram desenvolvidos de forma inata. O grande desafio é como fazer isso. E é neste momento que tem que entrar a capacidade criativa das comissões técnicas. E existem situações assim. O Cruzeiro, por exemplo, foi fazer pelada na rua. Então porque não criar um festival que as categorias vão jogar entre elas, de uma forma que eles mesmo se organizem, formem as equipes trabalhando com idades diferentes. Isso para que eles tenham de novo o controle disso, para que se sintam úteis e participativos. Sintam que a ideia deles também é importante.         

De uns tempos para cá no Brasil tem surgido uma discussão, até que burra, sobre o treinador novo e o antigo, o moderno e o velho... Você, independentemente de resultados que vinham ou não e da sua idade, sempre se mostrou um cara que buscava atualização. Como você tem visto isso no cenário atual? Qual a relevância deste tipo de debate? Não acha que é algo que já devíamos ter ultrapassado?

É lamentável. Às vezes a gente se pega discutindo sobre velha guarda e nova geração de treinadores. Primeiro que você vai contratar um treinador no Brasil e vem o perfil: "Ah, eu quero um disciplinador. Não, eu quero um cara de diálogo". Não existe nada disso. Você tem que trazer um cara que conheça futebol, que exerça bem a função profissional dele. Esse cara precisa sim ser um bom gestor de pessoas, até para poder aplicar o conhecimento que tem. E depois entender a característica da personalidade dessa pessoas. Se é mais duro, se é mais distante do jogador... Isso é de cada um. A gente está longe de um processo seletivo. De colocar em prática aquilo que o clube quer. E a grande questão é que o clube não sabe o tipo de futebol que quer jogar. E assim vai indo. Não tem a coragem de enfrentar as dificuldades de imprensa, de torcida... Esse é um grande problema. Ninguém tem convicção de nada quando contrata. Aí a gente entra nestes tipos de discussões absurdas como a que você citou. Conheço muita gente de idade já, mas que está com a cabeça totalmente antenada e atualizada. E não só no futebol isso. E outras que são novas ainda, mas como diz o Mário Sérgio Cortela, "jogaram a âncora nas águas passadas e agora estão presos". O velho ao meu ver é isso. A idade é inevitável para todos nós. Agora, você vai ficar velho só se você quiser. Tem que sair do lugar. Agora a conjuntura do futebol brasileiro em si, ajuda. Você vai para um futebol inglês ou alemão, por exemplo, a ideia é sempre de te jogar para cima. Aqui o sistema faz você não pensar em evoluir. Um exemplo bem prático e sem fugir muito da pergunta: o nosso calendário é fator gerador de muitos problemas. Vou te dar apenas um: ele simplesmente não permite o desenvolvimento dos treinadores. Você treina, joga, recupera, viaja, joga, recupera... Isso faz com que você ao menos tenha tempo de colocar suas ideias em prática. Então vira um trabalho de papo e vídeo. Você acaba tendo até que diminuir carga de treino, por exemplo. Se não estoura os caras. Aí você trabalha o mais simples e o que menos desgasta: bola parada. Hoje mesmo você vai lá e contrata um jogador porque ele é bom na bola parada. Não se contrata porque ele interpreta bem o jogo. São todas situações que o calendário acaba te induzindo.  

                                       
Até na questão de contratar um jogador X que é bom nisso, nisso e aquilo, mas também tem isso e isso que ainda pode ser melhorado... Você acaba não tendo tempo para fazer dele um jogador melhor.

É por aí. E eu te dei apenas um exemplo com relação ao calendário. Mas tem muitos mais. Por isso eu sou um grande crítico a isso. Enquanto nós não mudarmos o calendário, não adianta. As ideias podem ser muito boas, mas vão sempre chegar de forma isolada. Sem interagir com todas as outras. E para você florescer, crescer, uma ideia precisa estar conectada à outra. Tem que ter uma visão sistêmica, uma visão do todo. É dentro de tudo isso que acho necessário se elevar o nível do debate. Refletir. E isso tem que vir por parte institucional. Não tem que vir de forma individual. E nossa entidade máxima no futebol não está preocupada com isso. Está sempre priorizando a Seleção, os patrocinadores... Sobre o futebol como um todo não tem grande preocupação. Não se debate. Vou te dar um exemplo: pensaram em fazer um campeonato sub-23 agora no final da temporada e em 40 e tantos dias. Refletiram sobre isso? Construíram isso junto com os clubes? É assim que as coisas acontecem. Aí falam que os clubes não quiseram participar, que deram a ideia. É por isso que eu critico tanto essas coisas e vou continuar assim. É muito do que tem na CBF e das pessoas que comandam lá hoje. E olha que tem muita gente de qualidade lá dentro, mas individualmente, com iniciativas próprias e não da entidade em si.

Você citou a questão de dar tempo para os treinadores poderem trabalhar suas ideias. Mas o Atlético-PR andou tendo problemas neste sentido nos últimos meses, com seguidas trocas no comando. Inclusive você deixou o cargo por um tempo exatamente por isso. O que de fato aconteceu? Como você enxerga essa alta rotatividade de treinadores no Brasil?

O que nos falta são ideias. Por isso não temos processo. Você tem sempre que partir de uma ideia inicial. Aí sim você vai ver como você vai operacionar isso e existem pessoas responsáveis  por esta etapa. Neste meio começam a aparecer situações que você não esperava. É preciso parar, refletir e tentar ajustar o entorno. E tem a ver com o que aconteceu aqui comigo. Quando o Eduardo Baptista veio eu falei com o clube muito claramente que, na saída do treinador, que a gente precisava agora terminar esse ciclo, eu sairia também. Que a gente precisaria passar por um processo, por eu estar ali já um ano e meio, enxergava todo esse cenário. Tive que tomar uma posição. Deixei claro isso no dia que o Eduardo veio. E podia ser qualquer outro treinador, eu faria a mesma coisa. Que se quebrassem no meio do caminho eu ia estar fora do projeto. E isso aconteceu mesmo. E no geral eu não tinha motivo para sair, o clube também não queria. O trabalho estava se desenvolvendo. Só que eu cravei. Eu acho que quem tem que pagar a conta não são só os treinadores. No momento que as coisas não vão bem, que alguém tenha os culhões para dizer que sai também. Até porque eu também tive parcela de culpa em tudo, não foi só o treinador. Quando eu entrei nessa função eu me propus a fazer isso. E eu sai mesmo o clube não se conformando. Cheguei a negociar com alguns clubes, teve contatos. Até me querendo como treinador e eu recusei, pois não quero mais isso aqui no futebol brasileiro. O Atlético-PR entrou no meio e garantiu que seria concorrente, que eu estava livre, mas que eles ainda queriam contar comigo. Chegamos à conclusão que era é o momento de esperar o ciclo do profissional. No final de tudo, iriamos analisar. A ideia é sair do lugar comum, não cair mais em contradição.  

Divulgação / Vasco
Paulo Autuori comandando o Vasco
Paulo Autuori comandando o Vasco

 

Você tem uma boa identificação com o São Paulo e acompanhou, mesmo que de longe, a passagem de Rogério Ceni como treinador do clube. Acha que faltou processo e paciência no caso do ex-goleiro? 

Primeiro que eu tenho certeza que o Rogério tem todas condições para ser treinador. E a gente vê isso pelo que ele mostrou durante toda sua carreira como jogador. Isso é claro para todo mundo. Agora terá mais uma oportunidade para isso. É um cara com um nível intelectual acima da média e que tinha ideias claras. Sempre foi um profissional que se posicionou. Isso é uma das coisas que mais admiro nas pessoas. E se posicionar independente de local, pessoas... Mas isso gera alguns receios, ainda mais dentro do ambiente do futebol. Eu mesmo sempre gostei de ter caras assim por perto. Agora, a maneira como aconteceu ninguém mais do que ele e o pessoal do clube sabem. Eu não posso entrar mais fundo nisso porque é algo que não participei. O que eu tenho é uma visão superficial do que aconteceu. Conversei com ele antes, conversei depois... Mas é aquilo que eu digo. Você tem que refletir muito. Tem que ter ideias. Só que existem vários fatores que são determinantes para que essa ideia vá para frente ou não. Aqui no Brasil, pela ideia de fazer as coisas para agradar pessoas, se perde em vários momentos, e isso vai além do futebol, deixa de tomar medidas que são impopulares, mas que são necessárias. Eu sempre cito Margaret Thatcher para falar do papel do líder, porque ela sabia que tomaria decisões impopulares e aguentou o tranco para isso. Lá na frente se colheu os frutos. Por isso eu valorizo as ideias. Hoje estou aqui, amanhã posso estar lá... Mas eu tenho orgulho de estar tentando quebrar alguns paradigmas. A gente tem que ter coragem de tomar algumas decisões. Isso não quer dizer que vai ganhar, longe disso, são coisas diferentes. Mas são posições que você começa a estabelecer quando tem ideias claras e lógicas. Voltando a situação do Rogério, eu acho que teria de ser um processo melhor construído em relação à ele, como ídolo do clube. Era importante entender isso e, junto com a direção, construir algo mais sólido. Eu mesmo sou obsessivo em criar cenários. E no futebol você tenta sempre criar um cenário positivo e esquece de criar o negativo, sem se preparar para o mesmo. Depois as coisas acontecem e você não tem soluções e respostas. Por isso é importante você construir as coisas com lógica, para que tudo tenha consistência. Para passar por períodos de turbulência, porque tudo e todos passam por isso. Mas sempre evitando acabar com o processo. Tem que ser último caso. A ideia tem que ser sempre de realinhar e seguir em frente. Se você teve desde o ponto de partida coerência naquilo que você propôs e naquilo que você trabalhou, as coisas vão melhor.                                  

Em qual estágio você vê o futebol brasileiro atualmente? O que tem achado da qualidade do nosso jogo?

Ruim. Muito ruim. E aí entra a questão do calendário  e entra o assunto "quem está jogando esperando o contra-ataque vem ganhando". Isso é uma estatística fria, que pode mudar ano que vem. E as pessoas vão dizer que foi feito o que para mudar isso? O calendário te força a isso, você opta pelo mais simples, o mais seguro. E as equipes que precisam propor jogo vão se expor mais e para se expor você tem que ter qualidade de jogo, trabalho ofensivo. Nós só temos trabalho defensivo. A minha bronca com a CBF vem disso, ela utiliza a Seleção para dizer que está tudo bem, mas está tudo mal. A realidade do futebol brasileiro é uma e da seleção é outra. Ela só vem bem graças ao profissional inteligente que é o Tite. Porque tem conceitos claros e conceitos importantes para o que é o futebol atual. 

Nós vivemos uma discussão de "boleiro vs acadêmico", do "tatiquês"... Você acha que é um momento de ruptura no modo de tratar o futebol? Até em nível de vocabulário mesmo?

O que mais me irrita é isso. Por exemplo, no jornalismo, deveriam usar termos antigos que não se usam mais. Então ninguém fala disso. Você tem situações que tudo está mudando. Essa é a justificativa que tem para criticar os termos atuais. Esses dias eu ouvi um cara dizer: "no meu tempo era contra-ataque, hoje é transição". Não tem nada a ver uma coisa com a outra! Contra-ataque é o momento que você recupera a bola. Então para melhor entendimento você vai dividir em quatro fases: Fase defensiva, fase ofensiva, transição defensiva e transição ofensiva. E têm várias opções de fase defensiva, fase ofensiva e transições. Tem vários tipos.

Se bate muito na questão da imprensa. Falam que ela não tem importância na qualidade do jogo. Você acha que a imprensa é importante nessa construção de um futebol melhor?

Muito. Eu posso dizer isso porque já passei por muitos países no futebol, uns mais desenvolvidos e outros menos. Eu já vi e ouvi discussões de muito bom nível, em que você faz as pessoas entenderem. Se não há o desdém da imprensa em relação as novas terminologias, se não há crítica, vão usar de forma mais uniforme. Você vai induzir as pessoas a verem futebol dessa maneira. E outra coisa que falam: "o Brasil é o país do futebol." Isso é uma falácia! A paixão é tão ou mais exacerbada em outros lugares. Você vai na Turquia e é uma coisa de louco, só para te dar um exemplo. Aqui nós não sabemos torcer, só queremos ganhar. Torcer é o torcedor que compra carnê anual, o time está lutando para não ser rebaixado e ele está com o estádio cheio. Isso precisa ser falado. Mas falam? Ninguém fala. Todo mundo fala o que as pessoas querem ouvir, isso é populismo. E isso também é competência da imprensa. Precisamos de competência, de argumento. Com argumento, se tem conhecimento. Vocês nesse papel são importantes. Tem que mudar isso. Se não mudar, ficaremos estagnados. A imprensa é fundamental. Temos que parar com essa briga entre seguimentos, todos são importantes. Mas os verdadeiros protagonistas são jogadores e o público.

Como tem visto o momento do futebol peruano? Acompanhou a trajetória deles até a Copa do Mundo?

O jogador peruano é de qualidade. Só que a conjuntura de lá induz ele a ser displicente. Eles sofrem defensivamente, isso é histórico. Eu lembro do tempo que eu passei lá, tínhamos grandes resultados fora de casa porque não precisávamos se expor tanto no ataque. Em casa, como tinha essa obrigação de sair mais para o jogo, você falhava.

E como você vê a subida de nível dos centros mais periféricos da América Latina no cenário atual? E sobre a obrigação dos brasileiros "atropelarem" todos que impomos? 

Vejo gente torcendo o nariz e comparando a Venezuela com o futebol brasileiro. Isso é inadmissível, deveriam comparar eles com eles mesmo. Ver a realidade de lá e daqui. Essa arrogância de olhar só para nós é complicada. Houve evolução, isso é inegável. Quem não consegue ver isso é porque só consegue olhar aqui pra dentro. Seja analista, torcedor... Aí você vai em termos sociais e culturais,  falam dos americanos, que eles só olham para o próprio umbigo. E a gente no futebol só olha para o nosso umbigo, somos arrogantes nisso porque fomos pentacampeões. 

Pra fechar, professor, é uma pergunta que eu sempre faço para todos que entrevisto. Ela é bem reflexiva. Para você, o que é jogar bem?

Hoje há uma dificuldade de entender equipes que jogam como o Corinthians, com solidez defensiva. Não é feio, é eficiente. Isso é jogar bem! Interpretar a tua estratégia e executar. Isso é jogar bem. Vejo jogos por 5-4, todo mundo falando que foi um jogão; pra mim não foi. Tomar quatro gols é jogar mal. Porque não analisamos jogo, analisamos resultado. Enquanto isso prevalecer, estaremos afastados da realidade do futebol atual. Jogar bem é executar o seu plano de maneira eficaz, seja qual seja ele.

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O título de uma identidade

Renato Rodrigues, do DataESPN
GazetaPress
Fábio Carille e Cássio comemoram título após o Corinthians derrotar o Fluminense por 3 a 1, em Itaquera
Fábio Carille e Cássio comemoram título após o Corinthians derrotar o Fluminense por 3 a 1, em Itaquera

Foram altos e baixos durante o longo Brasileirão 2017. Um primeiro turno não só de um grande aproveitamento, mas também de um futebol bem jogado - inclusive propondo o jogo em vários momentos, ao contrário de quem afirma que o time de Fábio Carille só joga em contra-ataques. Um pouco antes da virada do turno, veio a queda brusca de desempenho. Uma crise técnica que se alastrou no segundo turno. 

Grandes atuações, clássicos vencidos e uma eficácia grande para se manter no topo. Partidas de um nível técnico para se esquecer, falhas defensivas, principalmente, em bolas paradas, intensidade baixa. Talvez as duas frases anteriores seja o resumo da campanha "montanha russa" alvinegra. Mas uma coisa ninguém pode negar: o Corinthians triunfou, mais uma vez, com uma identidade.

Uns acham pragmático, outros competitivo. Tem gente que critica, existem os que sãos só elogios. Faz parte do gosto futebolístico (ou clubístico) de cada um. Mas não tem como tirar méritos de uma equipe que ficou 30 rodadas na liderança de uma competição desgastante e difícil. Mais que isso, é preciso enxergar o futebol além do resultado. E podemos facilmente perceber elementos de um futebol sólido, rico em conceitos e, principalmente, priorizando o coletivo para elevar suas individualidades.

A grande marca não só deste título, mas de uma era com um DNA vitorioso, é o trabalho defensivo desenvolvido a anos no Corinthians. O conceito de linha defensiva de 4 trazido por Mano Menezes, desenvolvido por Tite e agora estabilizado por Fábio Carille é uma das referências do futebol praticado atualmente no Brasil. Jogo, aliás, que se desenvolveu muito nos últimos anos neste sentido, mas que ainda precisa dar um passo adiante na organização ofensiva.

Não à toa, foram várias as peças que construíram esta forte linha defensiva durante a campanha do título: Fagner, Léo Príncipe, Paulo Roberto, Arana, Moisés, Marciel, Pablo, Balbuena, Pedro Henrique, Léo Santos... Uns com grande desempenho, outros um pouco abaixo. Mas todos com o conhecimento da causa absorvido. Certos do que fazer e como se comportar sem a bola. Setor estreito, linhas de coberturas bem organizadas, movimentos de recuo e avanços coordenados. Cumprir função independente da posição.

Se formos mais além ainda podemos colocar nesta lista nomes como Gabriel, Maycon, Rodriguinho, Romero, Clayson e até Jô. Apesar de não serem laterais e nem zagueiros, em vários momentos ajudaram a linha defensiva no trabalho de compensação, outro grande ponto na organização defensiva alvinegra. Preencheram espaços de companheiros, "substituíram" algum colega que por algum motivo não estava ali posicionado momentaneamente (entenda no vídeo abaixo). Ajudaram a preservar firme um dos pilares desta identidade alvinegra: manter a última linha sempre sustentada.

Noção tática e companheirismo: DataESPN mostra o que faz do Corinthians um time diferente

"Perde e pressiona", "encurta o campo", "manter a bola coberta", "compensar posições", "pontas recompondo até o final e fechando o lado", "vigiar o funil (entrada da área)"... Todos estes foram elementos essenciais trabalhados no dia a dia e que, de tanto exercitados e falados, batem como um martelo na cabeça de cada peça do elenco alvinegro. Essência de um modelo de jogo enraizado na cultura do clube nos últimos anos (jogo contra o Grêmio, na análise abaixo, é um bom exemplo).

DataESPN: Calçade mostra movimentação defensiva do Corinthians contra o Grêmio

Com a bola o Corinthians também jogou. Atuações como contra o Vasco em São Januário, Bahia, São Paulo, Sport e Palmeiras na Arena, entre outras, provam que não foram só de contra-ataques que os alvinegros viveram. Na virada do turno, por exemplo, o Corinthians trazia consigo um número bastante curioso: mesmo não tendo uma grande média de posse de bola - número por vezes mal qualificado (clique e veja aqui) -, era a equipe que mais passava na competição. Evidência de um futebol vertical, e não reativo, que buscava passar rápido e não ter a bola apenas por ter. Triangulações pelos lados, infiltrações de Rodriguinho e Maycon, avanços de Fagner e Arana, mobilidade de Jô para abrir espaços... Os pilares da construção ofensiva que, apesar de ter oscilado, é o terceiro melhor ataque da competição (veja exemplos de construção nos vídeos abaixo).  

DataESPN: Calçade mostra o jogo de aproximação e triangulação do Corinthians contra o Vasco
DataESPN: Tironi mostra segredo de criação de jogadas do Corinthians

Tudo isso jamais seria possível sem uma palavra: processo. Apesar dos desvios conceituais com Oswaldo de Oliveira e Cristóvão Borges, a diretoria do Corinthians, que assim como a maioria no Brasil carrega consigo seus defeitos, tem apostado na continuidade não só de treinadores, mas de ideias. Não tenho total convicção que tais decisões e escolhas foram tomadas com o discernimento e conhecimento futebolístico ideal, mas de fato as mesmas foram decisivas para atingir o atual patamar de conquistas recentes do clube.

Ao apostar em Carille - mesmo o antigo auxiliar não sendo a primeira opção da direção - Roberto de Andrade & Cia. devolveram ao Corinthians uma identidade. Algo já aceito pelo torcedor. A competitividade aliada à intensidade - que está longe daquela raça por raça, comum em equipes desorganizadas e que correm errado - é motivo de orgulho para o corintiano. Hoje o torcedor conhece e se identifica com uma maneira de jogar. Tem mais referências para se julgar e, inevitavelmente, cobrar.

E foi na fase ruim que isso ficou bastante evidente. O Corinthians pouco performou no segundo turno do campeonato. Melhorou nas últimas partidas, mas não conseguiu atingir o nível de desempenho do início da competição. Caiu inclusive na intensidade de seu jogo. Enquanto muitos cobravam medidas drásticas, como troca de sistema e até em elementos valiosos do modelo de jogo trabalhando desde a pré-temporada, Carille mudou características. Demorou um pouco até, mas viu em Camacho, Marquinhos Gabriel e Clayson as respostas que precisava dar à queda técnica em Jadson e Maycon. Terminou as partidas contra Avaí e Fluminense voltando ao 4-1-4-1 vencedor de Tite em 2015. Um ajuste posicional apenas (se considerando que o sistema base é o 4-2-3-1), mas que surtiu efeito em momentos difíceis.

Mas a temporada não foi só da revelação Fábio Carille. Foi também das ressurreições de Cássio e Jô. O primeiro, de herói do Mundial aos problemas com a balança e perda da posição, ao posto de goleiro de Seleção. Atuações e defesas decisivas, aliados à liderança desenvolvida com os seis de clube. Um dos poucos remanescentes da geração que conquistou a América e o mundo no Japão. O caso de Jô é mais emblemático ainda. De problemas fora de campo a um amenizador de ansiedades, principalmente dos mais jovens. Um termômetro do vestiário, sempre enaltecido pelo comandante. O artilheiro do Brasileirão (veja no vídeo abaixo um pouco da mobilidade do centroavante).

DataESPN: Hofman mostra movimentação de Jô para abrir espaço em jogadas do Corinthians

O futebol do Corinthians, queira você ou não, foi o melhor do Brasileirão. Está longe de ser uma equipe revolucionária, um conjunto que realmente eleve a qualidade do jogo por aqui. Traz consigo problemas estruturais como vários outros, principalmente quando falamos em se organizar para atacar. Esteve acima da pobreza conceitual que vivemos na atual edição do nosso maior campeonato e ainda tem um caminho a evoluir na próxima temporada. Foi um futebol de ideias, de respeito ao processo e, principalmente, de uma identidade forte. Uma identidade corintiana.  

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O Palmeiras do desempenho e o Corinthians da falsa convicção

Renato Rodrigues, do DataESPN
SERGIO BARZAGHI/Gazeta Press
Gabriel Expulso Corinthians Palmeiras Campeonato Paulista 22/02/2017
Gabriel Expulso Corinthians Palmeiras Campeonato Paulista 22/02/2017

Corinthians e Palmeiras se enfrentam no próximo domingo. Enquanto o lado alvinegro se vê em um cenário de pressão e decepção pelas últimas atuações, o sentimento alviverde é de confiança, independente da não vitória contra o Cruzeiro. E o que faz do time treinado por Alberto Valentim um forte concorrente ao título não é a pontuação. Longe disso. A palavra é desempenho.

Do outro lado da história o medo do torcedor corintiano nem chega a ser diretamente de seu arquirrival. Apesar dos seguidos tropeços, ainda são cinco pontos na frente. Se olharmos para qualquer campeonato no mundo com uma equipe em uma situação semelhante, falaríamos que o momento é de tranquilidade e título bem encaminhado. Mas não é por aí. Os motivos para se temer um trágico final de ano tem a ver com a mesma palavra: desempenho. 

Apesar do discurso de "foco no G4" e o empate dentro de casa contra o sempre organizado Cruzeiro, o Palmeiras está em franca evolução. Até de maneira surpreendente, já que o seu atual treinador (interino, inclusive) teve pouco tempo até aqui para construir ideias totalmente opostas ao que pensava Cuca. Conceitos e escolhas que, de certa forma, até custaram o empate por 2x2 no Allianz, justamente por ainda não estarem totalmente absorvidos pelo elenco. 

Valentim veio para o duelo contra o Cruzeiro com uma proposta ousada. Depois de sair de um sistema de marcação com encaixes individuais e de um jogo mais direto com a posse de bola, o atual comandante alviverde foi além. Mais que posicionar seu time marcando de forma zonal (entenda um pouco deste conceito no vídeo abaixo), avançou sua linha defensiva em busca de um sufocamento celeste.  Queria, de fato, trabalhar sua transição defensiva ainda no campo do cruzeirense. Perdeu, pressiona, recupera e ataca. Perdeu, pressiona, recupera e ataca... Essa era a estratégia para superar Mano Menezes & Cia.

Nova formação, comportamento da defesa e movimentações: DataESPN analisa Palmeiras com Alberto Valentim

E aí veio o primeiro gol do Cruzeiro. Em um momento de não pressão ao portador da bola e um lançamento em profundidade, Valentim viu a sua linha defensiva demorar a correr para trás. Diogo Barbosa, nas costas de Mayke, cruzou. Juninho, "canhoto de tudo", preferiu mudar todo seu posicionamento corporal para tentar tirar a bola com a perna esquerda. O não uso da perna direita, gesto natural para a ocasião, custou caro. 

Bola descoberta, linha defensiva demorando a reagir e erro técnico de um jogador. Percebe como uma sucessão de problemas terminou em gol? Nos dois primeiros casos, problemas que já deveriam estar amadurecidos se não fosse as seguidas trocas de treinadores e, principalmente,  das ideias de jogo. Essa é a primeira dica de que quase nada no futebol tem um só culpado...

Do outro lado da cidade, o Corinthians tenta se desvencilhar de falsas convicções e recuperar uma confiança perdida após um 1º turno intacto. Quando Fábio Carille afirma que não vai mudar sua forma de jogar, ele não está mentindo. E mais, também não está errado. Poucas equipes no mundo tem uma maneira bem consolidada de jogar. Imagina desenvolver duas!? Isso, no entanto, não tira as responsabilidades do treinador, já que a queda de desempenho também tem a ver com algumas de suas escolhas. 

Vemos referências técnicas da equipe como Rodriguinho, Jadson, Maycon e Guilherme Arana  rendendo abaixo do que podem. A tomada de decisão tem sido um fator muito recorrente. Nível baixo de concentração e falta de confiança para arriscar também estão no meio de toda essa crise técnica e uma convicção ilusória em cima de jogadores que já não respondem bem aos problemas do jogo. Apesar de não ter um banco repleto de possibilidades, nomes como Clayson, Marquinhos Gabriel (lesionado no último jogo) e até Camacho podem ser a sobrevida que a equipe tanto busca. 

Assim como mesmo disse Carille, não se mexe na estrutura nesta altura do campeonato. Mas alternar as características pode ser um caminho. Mais que isso, tira peças importantes de suas zonas de conforto, estimulando, de forma saudável, mais competitividade por espaço no elenco. 

A construção ofensiva tem sido um sério problema, ainda mais que a maioria dos adversários tem buscado dar a bola ao Timão. Um time que sofre para se organizar com a bola (SIM, SE ORGANIZA PARA ATACAR TAMBÉM!). Contra a Ponte Preta foi possível ver os alvinegros iniciando as jogadas com cinco ou seis jogadores (zagueiros, laterais e volantes). Enquanto isso, o adversário pressionava no mesmo setor com um ou dois marcadores. Ampla superioridade numérica na primeira etapa de construção, mas que na frente acabava custando caro: pouca gente trabalhando entrelinhas e dando opções para passes mais verticais. De certa uma  forma um desequilíbrio, que trava a fluidez e a objetividade dos passes. Tudo isso, na maioria das vezes, acabando com a posse encaixotada em um dos lados do campo (veja o vídeo abaixo).

DataESPN: Renato Rodrigues identifica problemas na construção e na defesa do Corinthians

Sem a bola as coisas também não estão funcionando bem. O gol da Macaca (como você viu no vídeo acima) é uma das provas. Romero, fora de posição por conta da bola parada, não tem seu posicionamento compensando e, após recuperar a bola e acelerar, a Ponte chega com dois jogadores contra o sozinho Guilherme Arana na segunda trave. Um deles era Lucca. E o trabalho de compensação, tão bem coordenado na primeira metade da competição (vídeo abaixo explica um pouco sobre), ficou pelo caminho.

Noção tática e companheirismo: DataESPN mostra o que faz do Corinthians um time diferente

A intensidade de jogo também tem a ver com esse Dérbi que está por vir. Enquanto o Corinthians demora a reagir após perder a posse e compete cada vez menos pela bola, o Palmeiras agora corre certo. Largou suas longas perseguições e encaixes individuais que sacrificavam seus jogadores, para cobrir espaços e manter uma agressividade alta até os últimos minutos contra o Cruzeiro. Alviverdes aumentando e melhorando suas ações por jogo, Timão sem a força mostrada no primeiro turno para transitar pelos lados do campo. 

A melhora palmeirense não está vinculada a um só motivo. Muito menos a queda de desempenho do Corinthians, que agora "resolve jogar melhor" só depois de sair atrás, perdendo o controle e as rédias do jogo. Técnico, físico, comportamental, psicológico, confiança, dentro de campo, fora dele... Uma enormidade de fatores que são muito complexos para se identificar e, principalmente, corrigir com o barco em curso.  Tudo isso estará em jogo dentro da Arena em Itaquera. 

Resta ao Corinthians se blindar e pensar em desempenho antes de tudo. Só ele recolocará a equipe nos trilhos novamente.  Já o Palmeiras, ainda "sendo consertado" em movimento, tem a mobilização de seu promissor treinador como trunfo. 

Clássico é clássico, vice-versa e o Brasileirão agradece!

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