O contexto coletivo e a melhora individual: por que o desempenho de Felipe Melo cresceu tanto em 2018?

Renato Rodrigues, do DataESPN

Gazeta Press
Felipe Melo iniciou 2018 com ótimo desempenho com a camisa do Palmeiras
Felipe Melo iniciou 2018 com ótimo desempenho com a camisa do Palmeiras

Uma das premissas para quem atua ou gostaria de atuar como observador técnico no futebol (o antigo olheiro) é que nunca devemos tirar uma conclusão permanente sobre um atleta sem considerar o ambiente que ele está inserido. Tal abordagem, inclusive, dá a convicção que diversos jogadores tidos como ruins pela opinião pública, na maioria dos casos, está dentro de um contexto que não potencializa ou extrai ao máximo de suas qualidades. 

Quantas vezes seu time ou mesmo os rivais trouxeram aquele atacante que todo mundo queria e simplesmente não deu certo? Fez gols por onde passou, sempre jogou bem... Mas fracassou no novo clube. Certamente todo mundo tem uma história dessa para contar. É algo muito recorrente, principalmente no cenário do futebol brasileiro, onde contratações são feitas muitas vezes sem ao menos ter uma forma de jogar definida.

O que esquecemos, na maioria das vezes, é que aquela maneira de jogar imposta pelo treinador pode ter sido uma das razões para um desempenho abaixo das expectativas - digo uma das razões, pois são inúmeras as variáveis neste caso. Um exemplo claro são pontas de extrema velocidade que fazem campeonatos impecáveis em equipes menores. Seu antigo clube quase sempre atua mais fechado e apostando em contra-ataques. Ao chegar em um time que normalmente propõem o jogo, muito por conta do adversário, que além de abrir mão da bola, quase nunca dá espaços para correr, o atleta sucumbe e vira uma aposta furada.

Mas existe um atleta neste início de temporada que inspira este post: Felipe Melo. Contratado cheio de pompa no início de 2017, o volante, com passagens por gigantes do futebol italiano como Juventus e Internazionale, entre polêmicas e desabafos, não conseguiu ter um primeiro ano regular. Claro que os motivos vão além da forma de jogar daquele Palmeiras, mas 2018 tem nos mostrado um desempenho em alto nível até aqui do camisa 30.

Sempre foi quase uma unanimidade que Felipe Melo é um jogador de qualidade. Tem um bom repertório técnico, principalmente na organização do jogo por trás, com passes verticais e bolas longas certeiras para achar companheiros em velocidade. O palmeirense também tem uma boa leitura dos espaços, se coloca bem em linhas de passe e  tem agressividade para ganhar duelos defensivos, seja pelo alto ou pelo chão. Mas ele também tem suas deficiências , como a grande maioria dos jogadores espalhados pelo mundo...

Quando chegou ao clube, Melo encontrou Eduardo Baptista. Adepto da marcação por zona, o agora treinador da Ponte Preta vislumbrava espaço e sequência para o volante, justamente por ele se enquadrar na sua ideia de jogo. O início de 2017 dele, inclusive, não foi ruim. Boas atuações, principalmente na Libertadores, o fizeram ganhar alguma sequência como titular.  Mas aí chegou Cuca, que tem uma maneira bem diferente de enxergar futebol -  e que fique claro:  não se trata de certo ou errado, mas sim de uma escolha.

Sergio Busquets, um dos melhores do mundo na função, tem leituras impecáveis à frente da linha defensiva

Campeão brasileiro com próprio Palmeiras em 2016, Cuca sempre foi adepto da marcação individual. Nas suas últimas passagens até trabalhou com algumas trocas de encaixe, justamente para não gerar perseguições longas nesta ideia de sempre defender no homem a homem. Mesmo assim, se tratava de um jogo que exigia muito fisicamente dos atletas. A intensidade era o grande pilar para este tipo de jogo funcionar. E foi aí que o camisa 30 alviverde perdeu espaço. Sem sequência como titular, vieram as queixas e as rusgas com o treinador.

Um dos pontos fracos de Felipe é a agilidade, principalmente na troca de direção. Por ser um jogador de força e estatura (1,83m), o volante nunca foi um jogador de grande velocidade. Por conta disso, sempre se adaptou à contextos que o mantinham competitivo. Normalmente em equipes que faziam um jogo mais posicional sem a bola e de menos exposição em duelos defensivos em velocidade. Agora, aos 34 anos, essa sua capacidade de mudar de direção foi naturalmente caindo.

Cuca sabia que o perfil de Felipe Melo não condizia à sua forma de jogar. Exigiria dele situações que o não deixariam confortável dentro de campo. Uma saída para caçar ou perseguir um atleta mais ágil poderia desequilibrar todo seu sistema defensivo. Uma tirada de primeira de um adversário mais habilidoso seria fatal, já que o volante não teria capacidade de recuperação na corrida. Viraria um efeito dominó. Um cobre o um que saiu da posição do dois. Uma bola de neve com grandes chances de o adversário chegar com vantagem numérica no último terço do campo.

Com Roger Machado, também adepto da marcação mais zonal, que prioriza sempre controlar os espaços, seja lá qual jogador adversário passe poe eles, o camisa 30 se fortaleceu. Mais que isso, dentro da ideia de jogo mostrada até aqui, virou peça de grande importância. Além de ser o principal encarregado de iniciar as jogadas afundando entre os zagueiros para dar mais qualidade na saída (veja na imagem abaixo), seja com passes verticais ou bolas longas de velocidade, Felipe Melo tem sido o ponto de equilíbrio à frente da linha defensiva.

DataESPN
Repare como o volante palmeirense afunda entre os zagueiros para buscar a bola e fazer a saída de 3
Repare como o volante palmeirense afunda entre os zagueiros para buscar a bola e fazer a saída de 3

O clássico contra o Santos, no último domingo, nos mostrou uma outra face deste novo Palmeiras. Tendo que propor e ser protagonista nos jogos anteriores, justamente por enfrentar equipes menores, a equipe de Roger se viu pela primeira vez obrigada a alternar momentos com e sem a bola. O gol cedo foi decisivo para tal comportamento. Com seu 4-1-4-1, normalmente defendendo em bloco médio, o Verdão teve Felipe Melo compensando espaços e coordenando as alternâncias de pressão na bola na entrada do último terço do campo. Veja na imagem abaixo que, ao ver Marcos Rocha quebrar a linha para pressionar o adversário, Felipe já se posiciona no espaço entre o lateral e o zagueiro pela direita (Antonio Carlos).

DataESPN
Marcos Rocha quebra a linha e Felipe Melo se coloca no espaço aberto
Marcos Rocha quebra a linha e Felipe Melo se coloca no espaço aberto

O movimento de Felipe Melo vai sempre acontecer com a bola como referência. De acordo onde está a posse do adversário, ele flutua com a equipe, sendo uma importante peça para quebrar e impedir bolas entrando entrelinhas, nas costas de Lucas Lima e Tchê Tchê. Na ilustração abaixo fica fácil ter uma noção dessa movimentação de um lado para o outro, que é o que se exige do volante que atua sozinho à frente da linha defensiva. Inclusive já escrevi aqui no blog sobre essa função, que é de muita complexidade no futebol atual. Clique aqui e veja.

DataESPN
Perceba na ilustração como a referência posicional do volante se dá pelo local da bola e alinhado à linha defensiva
Perceba na ilustração como a referência posicional do volante se dá pelo local da bola e alinhado à linha defensiva

A experiência de Felipe Melo em grandes centros na Europa contribuiu muito para estas leituras citadas acima. Tanto na Internazionale quanto na Juventus ele atuou nesta função com certa regularidade. Apesar das variações de plataformas de jogo, às vezes até com um outro volante ao seu lado, esteve sozinho com meias à frente em diversos momentos. No Galatasaray, apesar do 4-2-3-1 mais fixo usado na época, também contribuía com movimentos similares.     

Infelizmente ainda vemos o futebol no Brasil sob a ótica da individualidade. Temos conosco a ideia de que o craque resolve e não a organização. Felipe Melo é só um dos milhares de exemplos neste esporte que comprovam que a individualidade tem que servir o coletivo. E quando isso acontece, o talento é potencializado e decisivo. Então, antes de gostar ou não de algum jogador, busque observar o seu em torno. Às vezes tudo que o rodeia não ajuda. 

Acontece toda hora...


Me siga no Twitter: @rnato_rodrigues

Entrevista do mês: Fernando Diniz avisa que dá mais trabalho ter a bola, elogia Premier League e quer lado humano mais valorizado no futebol: 'Uma pessoa melhor é um jogador melhor"

ESPN
Fernando Diniz assumiu o Atlético-PR neste início de temporada
Fernando Diniz assumiu o Atlético-PR neste início de temporada

Quando Fernando Diniz e o seu ousado Audax debutaram no Campeonato Paulista, a primeira sensação para quem acompanhava o estadual daquela época era de estranheza. "Mas como assim esse time não dá chutão?", todos se perguntavam. Pixotadas dos goleiros, erros na saída de bola, entregadas que custavam derrotas... O ano foi o de 2014 e nem para a segunda fase do Paulistão os "malucos de Osasco" conseguiram ir. O resultado, definitivamente, não veio. Mas veio o mais importante: o debate.

A discussão sobre o tipo de futebol desenvolvido por um grupo de atletas que, em sua maioria, haviam passado por diversos clubes e nunca haviam brilhado no cenário nacional, foi impactante. Seu treinador, ainda em começo de carreira, sonhava alto quando colocava um futebol de muita troca de passes, mudança de posições e jogos duros contra os grandes da capital. A gente mal sabia o que estava por vir.  Dois anos depois, uma final de igual para igual com o Santos. 

Ex-jogador profissional, Fernando Diniz passou por Palmeiras, Corinthians, Flamengo, Fluminense... Ganhou títulos pela maioria destes grandes clubes. Esteve no topo. Mas existe algo que o deixa mais feliz atualmente: ajudar outros  jogadores chegarem no topo. Tchê Tchê (Palmeiras) e Camacho (Corinthians), campeões brasileiros nos últimos dois anos, são exemplos e motivos de orgulho para o atual treinador do Atlético-PR.

Neste entrevista exclusiva ao blog, dias antes de sua estreia pelo Atlético-PR (0x0 com o Caxias, pela Copa do Brasil) Diniz bate muito na tecla do lado humano do esporte mais visto do mundo.  Diz usar sua formação em psicologia e luta para fazer de seus jogadores pessoas melhores. Ele ainda fala da qualidade do futebol brasileiro, sobre os pilares de seus trabalhos no futebol e mostra expectativas com o Furacão para 2018.

Ele ainda fala em resgatar a essência do futebol brasileiro, da importância do goleiro dentro do seu modelo de jogo e fala quais ligas e times do mundo gosta de assistir quando sobra um pouco de tempo entre os jogos e treinos que participa. Na íntegra você confere essa longa conversa só sobre futebol:

 

Depois de alguns anos de trabalho em um só clube (teve uma rápida passagem pelo Guarani), como tem sido seu início no Atlético-PR? Como você tem usado toda a estrutura que o clube te oferece?

Está sendo ótimo. De fato a estrutura é algo assim que só dá para falar quem vê. Mesmo sabendo que existe aqui uma estrutura muito boa, quando você chega acaba se surpreendendo positivamente. E isso é ótimo. Mas mais que a estrutura tenho profissionais aqui para me dar apoio que são de muita qualidade. Então nesse aspecto tem sido muito positiva a experiência. É acima do que eu imaginava.   

O que te fez ir para o Atlético-PR? Foi uma situação diferente na sua carreira. Você ficou anos no Audax e rejeitou ofertas por acreditar em um projeto e agora deixou o Guarani muito rapidamente. Algo mudou para você adotar uma outra medida neste caso recente?

A questão é que o meu acordo moral e ético com o Guarani eu cumpri da mesma forma que o fiz com o Seu Mário Teixeira (homem forte por trás do Osasco Audax). Eu deixei claro textualmente que eu não poderia mais deixar passar oportunidades como aconteceu quando eu estava no Audax. Disse que, se aparecesse alguma proposta de um time grande da Série A, provavelmente eu sairia. Sinceramente eu não acreditava que isso ia acontecer tão cedo. E nem o pessoal do Guarani. Foi uma coisa de comum acordo. Eles também falaram que não iriam me brecar. Então eu cumpri minha palavra com o Seu Mário no Audax e cumpri também no Guarani. São situações diferentes. Achei que era o momento, que era uma oportunidade grande. Eu tinha que aproveitar. Acima da estrutura que o Atlético-PR oferece, o que me trouxe para cá foi uma conversa muito significativa com o Seu Mario Celso Petraglia (CEO do clube paranaense). A gente teve uma grande afinidade de ideias. Parecia que a gente já se conhecia. Foi determinante para minha vinda. Me senti super confortável e confiante, vi uma sincronia de pensamentos. Isso me fez aceitar o desafio. Tenho convicção que fiz uma escolha certa.

Divulgação/Guarani
Fernando Diniz chegou a assumir o Guarani meses atrás, mas teve passagem relâmpago
Fernando Diniz chegou a assumir o Guarani meses atrás, mas teve passagem relâmpago

Neste início de trabalho com os atletas o que você tem tentado mais desenvolver nos treinamentos? O que mais tem cobrado dos jogadores?

Eu tenho trabalhado com três pilares que eu acho fundamentais para um treinador de futebol. A primeira situação a pensar é na formação de um bom ambiente facilitador para que as relações humanas ocorram de maneira positiva. A segunda é muito trabalho tático. É preciso apostar nisso. E tem uma terceira coisa que também é muito importante, buscar sempre intensidade nos treinamentos. Na verdade, são estes três componentes que me acompanham em tudo que eu faço no futebol. O eixo central do trabalho está apoiado nestas três questões. Em termos táticos a gente treina exaustivamente a saída de bola, que é uma característica marcante das equipes que eu dirijo. É algo que a margem de erro tem que ser pequena, então é uma coisa que a gente tem que sempre trabalhar. As questões de compactação também. Temos que ter um time sempre próximo em qualquer setor do campo. São abordagens que sempre trabalho. E isso não depende de ser começo ou um estágio mais avançado do trabalho, são situações que a gente precisa sempre estar alinhados. Outra coisa que treinamos muito é como se comportar marcando em linha alta, média ou baixa. Depois disso, caminhamos mais para coisas mais específicas. Ainda não conseguimos trabalhar bola parada, mas teremos que fazer. Encaixe de marcação, ajustes, movimentações no último terço, como vamos elaborá-las... Tem que ser um passo de cada vez. 

Sua forma de jogar exige muita intensidade dos atletas, principalmente nas reações pós-perda da posse. Como você enxerga o estágio do Brasil neste sentido? Tem a impressão de que o jogo por aqui é mais lento? Claro que não devemos comparar isso com as maiores ligas do mundo, com a Premier League. Mas por que acha que estamos tão abaixo?

Eu acho que temos que aproveitar as características dos nossos jogadores. Quando um deles vai para fora, você o introduz em um todo, então facilita para ele se adaptar e passar a ter comportamentos que aqui não temos. Aqui não temos uma cultura enraizada sobre esses conceitos. O que temos aqui, se você for ver na prática do nosso jogo, olhando para os últimos campeonatos, está todo mundo jogando em transição. Ninguém quer a bola. Todo mundo tenta se defender bem para usar o contra-ataque para vencer os jogos. Sempre na transição defesa-ataque. E para quem joga dessa forma, não tem necessidade de treinar reações pós-perda. Não tem porque estimular esse tipo de intensidade. Então esse tipo de situação tem a ver com o tipo de modelo que você quer implantar. Para a maneira que eu gosto que minhas equipes joguem, esse tipo de conceito é muito importante. Velocidade no passe, no movimento e na reação pós-perda. Para mim a intensidade é muito importante. Para quem prefere "expor menos o time" - e digo isso entre aspas mesmo -, não é algo tão preponderante assim. 

Você percebe que no Brasil a gente absorveu muito conceitos de defesa, de controlar espaço e de jogar sem a bola nos últimos anos e que isso influencia na nossa maneira de jogar? O brasileiro acredita muito que organização tem a ver com defender, e sabemos que não é só isso. Não acha que é o momento de a gente dar um passo à frente na organização ofensiva também? Acha que falta conteúdo no nosso futebol neste sentido?

Eu não sei porque as pessoas acham tanto que organização no futebol serve só para defender. Claro que se organizar na fase defensiva é muito mais fácil do que quando você tem a bola. Dá muito trabalho ter a bola. Você tem que criar espaços, enfrentar linhas mais baixas... Quando isso acontece, você acaba se expondo mais. E no Brasil isso é ir contra a norma. Existe uma preferência para todos jogarem de uma forma mais conservadora. Você se protege melhor. Eu acredito que dois pilares fazem o futebol brasileiro caminhar para trás. A cultura do povo é de gente leve, a matéria prima ainda tem jogadores mais ousados, verticais, com bom drible, que sabem jogar com aproximação, serem criativos... E isso está na cultura do nosso povo. Os jogadores do futebol brasileiro, de uma forma mais geral, são oriundos de famílias menos favorecidas financeiramente. São caras que passam muito tempo na rua praticando futebol sem nenhuma inibição pois não tem um adulto monitorando as regras do jogo. Então a gente tem esse tipo de atleta e a gente está colocando ele para praticar um jogo com prioritariamente organização defensiva. Você precisa criar espaço para estimular a criatividade do jogador. E aí ele não cumpre de maneira satisfatória esses quesitos. O menino sonha ser jogador para jogar futebol. Não é porque ele quer marcar e jogar em transição. Isso é a contramão do que, principalmente o jogador brasileiro, sonha fazer quando é garoto. Avaliando de uma maneira mais profunda, eu tento, no geral, resgatar esse lado lúdico. Tentar trazer de volta o prazer que todo mundo teve de jogar futebol um dia. Todos estes jogadores já foram o melhor da escola ou da rua. Então se cria estruturas que favoreçam estes comportamentos para um jogo bem jogado. Sempre pensando em ter um time mais competitivo.

Muito se fala que o drible sumiu no futebol brasileiro. Muita gente sente falta disso, inclusive. Temos uma cultura forte de que devemos jogar a bola no melhor do time para que ele resolve sozinho, são situações criadas desde a base. Hoje se controla muito bem os espaços, se faz linhas de cobertura... Qual é o caminho para resgatar isso? A palavra não seria condicionar os jogadores a isso? Criar situações para este tipo de enfrentamento?

É condicionar, sem dúvida. Uma das coisas mais difíceis de ser feitas é você entrar na cabeça do jogador, na alma dele... Aquele atleta que tem o 1x1, que tem muita qualidade técnica. Fazer ele entender que o coletivo favorece as qualidades dele, que ajuda na sua criatividade. E não o contrário. O jogador precisa ser coletivo para participar do jogo de uma maneira relevante. Com isso ele terá mais espaço. Por fazer parte do todo. Neste momento ele vai ter a situação de 1x1. E para isso é preciso ter articulação, ter movimentos pré-estabelecidos... Não é uma receita de bolo. Você tem que criar estes movimentos, trabalhar padrões que favoreçam tanto o jogador mais técnico, com qualidades de enfrentamento, quanto aquele que prefere um jogo mais de aproximação. E isso dá trabalho, não é simples. Não vão ser 40 minutos de treinamento que vão gerar estas situações. Eu não acredito nisso. Os jogadores não vão se sentir confortáveis para estas coisas. De uma aproximação, de uma tabela com infiltração... Não é fácil, mas tem gente que faz isso muito bem no mundo. Tem outros que já não ligam muito para isso, preferem jogar em transição. Vai do gosto de cada treinador, do que acredita como futebol. Para mim o futebol só faz sentido desde que estes componentes estejam na prática do jogo. Não se trata de um jogo que você joga apenas pelo resultado, existem maneiras de você buscar uma vitória e eu acredito que a estética, o jogo bem jogado, intensidade e construção coletiva te colocam mais perto de ganhar um jogo. Eu não acredito que jogar em transição, mais fechado, te deixa mais perto da vitória. Eu não acredito nisso. Se você o faz bem, tem suas chances. Mas se você reage bem a perda da bola, se criar movimentos em sincronia e ataca espaços você tem maiores chances de levar o jogo. Tenho isso comigo. Não estou criticando quem ganha com linha mais baixa, esperando uma ou duas bolas para fazer o gol... Mas existe uma distorção destes conceitos. E mundo está aí para mostrar que não precisa ser assim. A Seleção de 82, quando não ganhou, criou-se uma distorção de pensamento que se o Brasil jogasse de maneira mais defensiva, teria maiores chances de ganhar a Copa. E para mim isso não faz sentido. A chance que aquela equipe foi muito maior daquela forma.  

Você bateu muito na tecla de que não é algo simples chegar em um nível de organização ofensiva mais aprofundado e o tempo está muito ligado a isso. No Audax você teve bastante respaldo para desenvolver estes conceitos durante anos. Acha que a realidade no Atlético-PR vai ser a mesma? Acredita que terá tempo?

É difícil fazer uma análise exata disso. Meu maior trabalho no Audax foi convencer os jogadores de que a gente podia jogar de igual contra equipes de maior expressão. E jogar até melhor, inclusive. E tudo isso levou um tempo realmente. Mas se a gente olhar para o meu início de trabalho lá ele foi bom. Não fiquei lá porque fui fazendo coisas erradas e ganhando tempo para consertar. Não acho que um treinador precise de 3 ou 4 anos para desenvolver um trabalho. Logo de cara a gente subiu da A2 para a A1 (do Campeonato Paulista). E batemos recordes de pontuação na competição. E para este primeiro time eu treinei uns 10 dias só. Claro que eu fiquei e as coisas foram evoluindo com o tempo. Em 2014 fizemos um primeiro jogo contra o Santos, que chamou a atenção das pessoas. Conseguimos um grande amadurecimento tático. Mas também uma evolução individual e coletiva dos jogadores, eles passaram a se sentir capazes de enfrentar grandes adversários. Sem dúvida foi o mais difícil. Tinha muitos jogos que a gente acabava jogando bem contra times grandes, mas por um erro muito infantil, acabava dando tudo errado. Teve um jogo no Morumbi, nosso primeiro tempo muito bom contra o São Paulo, mas por conta de uma expulsão e várias desatenções, tomamos uma série de gols. O tempo serviu muito para amadurecer a equipe. Fomos fazendo correções, criando alternativas... Quando eu peguei o grupo do Audax, a maioria dos jogadores vinham de insucessos na carreira. Então também foi um trabalho de resgatar a confiança deles. De criar um ambiente facilitador para que a comunicação entre eles fosse positiva. Foi um processo longo, que durou anos. No terceiro Campeonato Paulista juntos eles atingiram o nível máximo. 

Gazeta Press
Fernando Diniz durante final do Paulista entre Audax e Santos
Fernando Diniz durante final do Paulista entre Audax e Santos



Sabemos que você estudou e se formou em psicologia. Nas suas abordagens sobre futebol você sempre bate muito na tecla também de questões humanas, de entender a pessoa naquele atleta. Como você usa esse conhecimento que você adquiriu durante sua vida?

Eu fui jogador antes de ser treinador. A impressão que tenho é muito clara para mim. Tive uma boa carreira, joguei em times grandes. E eu sentia que faltava muito esse contato mais humano. O jogador é tratado como um robô, como uma coisa qualquer. Eu vi muito isso durante meus anos como atleta. Quando um cara jogava bem, ele era tratado como uma pessoa muito legal. Mesmo, em muitas vezes, ele não sendo uma pessoa lá muito legal. Às vezes era um cara que na parte humana deixava bastante a desejar. Aí o cara que trabalhava duro, que tentava fazer seu melhor, buscava as coisas, mas vivia um momento ruim, era quase sempre destratado. Era visto como uma pessoa menor. E esse tipo de distorção sempre me incomodou, me marcava muito. E eu sei que isso continua acontecendo. Não acho que seja a maneira mais correta de conduzir um time de futebol. As pessoas precisam ser respeitadas, você tem que procurar facilitar para que as pessoas se encontrem e sintam prazer de estar ali naquele ambiente. É algo que busco promover isso o máximo que consigo. Para mim uma pessoa melhor é um jogador melhor. Todos têm suas angústias, seus medos. E quando a gente consegue oferecer algo que as pessoas consigam superar os desafios, você acaba tendo um jogador melhor.

Muitos questionam um pouco a relação de cobrança que você tem com seus atletas. De uma dura mais ríspida, uma chamada de atenção... Te chateia este tipo de comentário? Você acha que teve algum exagero durante sua carreira?

A verdade é que, quem nunca trabalhou comigo e não conhece quase nada do meu trabalho, que não conviveu comigo, não me conhece. Claro que você não agrada todo mundo, mas se você ver a minha aceitação é muito grande. E falo isso vendo as relações que tenho com os jogadores. A minha maneira de ver o futebol e de me relacionar com os atletas se mistura muito. Eu exijo muito. E faço isso porque quero o melhor para eles. Eles vão parar de jogar bola em algum momento e se eles não souberem aproveitar o agora, eles podem ter muitas dificuldades lá na frente. Eu não quero isso para nenhum deles. Às vezes o cara não tem muita consciência disso. Minhas cobranças vão muito em cima disso. De mostrar para os caras, de não admitir que eles estejam jogando uma parte da vida deles fora. Eu quero que eles joguem um grande futebol, que cheguem a grandes equipes, que ganhem títulos... Que vivam o melhor do futebol. Para que saiba usufruir, que guardem sua grana, que cuidem bem de suas famílias... Quando a carreira deles acaba, sabemos que eles vão viver pelo Estado, e sabemos que o Estado é falido. A escola é ruim, a saúde é ruim, a segurança é ruim... Esse lado está muito impregnado em mim. Nunca neguei isso. Claro que a gente precisa fazer ajustes o tempo todo. Você precisa melhorar, e eu estou procurando isso. Estou atento neste sentido, de buscar outras alternativas, achar outras formas de tirar o melhor de cada jogador. Mas essencialmente o meu movimento é sempre para beneficiar o atleta. Tenho respostas claras destes jogadores que tive convivência. De mensagens que recebo até hoje, de como falam de mim para outras pessoas. Em sua maioria eu tenho convicção que essa aceitação é grande. E o que eu ajudei a promover na vida deles me preenche muito. Me satisfaz. É algo muito verdadeiro em mim essa vontade de ajudar. Isso emana em mim de uma forma muito intensa. Claro que eu tenho que corrigir exageros que em alguns momentos existiram. Mas quando eu os fiz sempre foi com a melhor intenção possível. Tive muitas conversas com meus atletas, de saber o que incomoda neles, tentar entender porque aquela pessoa é daquele jeito, tentar entender o passado que eles trazem, como foi a construção existencial de cada um... Às vezes as pessoas enxergam aquele pedacinho, mas ele é só a ponta do iceberg. Mas ninguém quer saber do todo. Vai lá perguntar para o Tchê Tchê (Palmeiras) do quanto eu cobrei ele, como foi nossa evolução. Cada um ver o que quer nestes momentos. Às vezes aquele pouco que você perde da normalidade, aquele pouquinho, vira um estardalhaço. Mas existem muito mais coisas por trás. E no futebol as pessoas não costumam valorizar isso. Se dá muita importância à parte tática, e eu valorizo isso, trabalho de forma exaustiva o que quero jogar, fase de construção, é só ver os jogos dos meus times, mas ali por trás tem pessoas. É um todo e uma construção constante de vários aspectos. Temos caminhos ainda pouco percorridos no futebol. É preciso ter coragem. 

Quando olhamos para suas equipes chama muito a atenção o papel do goleiro dentro do modelo de jogo que você busca. Como tem sido aí no Atlético-PR? Você vai buscar alguém de fora? Dá para trabalhar a evolução do goleiro com os pés ou é algo que ele já trás da base?

Se você tem um goleiro que já tem um jogo com os pés mais elaborado, facilita muito. Realmente é algo que facilita muito a forma como eu gosto de jogar. A parte técnica, física e tática é bastante complexa. Tem goleiros que não tem tanta qualidade com o pé, mas sabem tomar as melhores decisões. Até por entender suas limitações. O goleiro não precisa ser um craque com o pé para jogar comigo. O Sidão, quando cheguei ao Audax, não tinha quase nada de trabalho com os pés. Mas foi se desenvolvendo. Tanto que foi para o Botafogo e agora no São Paulo também por conta de ter qualidade com os pés. Acho que muita coisa o goleiro pode melhorar com treinamento. E aqui no Atlético-PR tem uma escola excelente de goleiros. Tem uma nova geração sendo formada aqui por grandes profissionais. Encontrei bons goleiros aqui. Mas quando a gente encontra algum que já entende o sistema, tem essa facilidade a mais, ajuda. Mas não que seja uma coisa que vai se definir sozinha. Ele só não pode ser horroroso neste sentido. Que não tem nada de qualidade, que não tem margem de evolução. Realmente eu uso bastante. De maneira geral eu acho que todos os goleiros, se bem trabalhados, tem o que evoluir.

No Brasil existe muito uma discussão sobre treinamentos fechados. Qual sua opinião quanto a isso? É de fato relevante fechar uma atividade para a imprensa?

Não tenho uma opinião totalmente formada quanto a isso. A imprensa faz parte do futebol. Quando você não fala, não dá uma entrevista, vai se construir coisas em cima do que não se ouviu. Obrigar o profissional a caçar informações. Tanto que a gente lê coisas e escuta na televisão coisas que não correspondem à realidade. Então fica uma coisa meio chata. Mas tem momentos que eu acho que precisa ter privacidade. Um treino tático mais importante, por exemplo, você precisa estar mais fechado. Como você vai abrir isso? Você não conhece as pessoas que estão ali naquele ambiente. Acho importante neste momento ter só as pessoas envolvidas no processo. Ali estão suas ideias de jogo, suas estratégias... Tem treinos que não tem problema você mostrar. Mas tem situações que é importante você estar ali sozinho.

Uma pergunta que sempre faço aos treinadores é sobre a discussão do "velho vs novo", do "boleiro vs acadêmico"... Acha que é uma questão que enriquece o debate sobre o nosso futebol?

Eu acredito muito em vocação. E a pessoa precisa disso trabalhar no futebol. Tem gente que nunca jogou futebol, mas tem sensibilidade para ser treinador. Consegue ter uma percepção diferente, entender os jogadores... Eu tive a sorte de ter trabalhado, principalmente na base, com gente que aprendi muita coisa. E a grande parte dessas pessoas nunca tinha jogado futebol profissionalmente. Evolui pra caramba com esses caras! Tive treinadores que me marcaram muito, caso do Oswaldo de Oliveira. E ele nunca foi atleta. Eu nunca passei por estes preconceitos, tive sorte por isso. Acho que existe espaço para todo mundo. Existe preconceito de ambas as partes e isso não pode existir. Acima de tudo o futebol precisa de gente bem preparada. Que tenha vocação, mas que também se capacite para isso. E vale para qualquer função no futebol. Estudar todo mundo tem que estudar, não tem jeito. Estou percebendo que os ex-jogadores estão buscando isso de uns tempos para cá. E tem essa galera que vem da academia, que estuda bastante, que mostram bons trabalhos... É aliar o conhecimento de todos para um bem maior. No geral é uma discussão que não faz sentido. Que vença o time das melhores ideias, do protagonismo delas. Eu quero ver a ponta final, que é como o time destes treinadores joga. Não interessa se é acadêmico ou ex-jogador e sim o que vai ser apresentado dentro de campo. Temos que discutir a prática. Joga bem, corresponde? A ideia por trás daquele modelo é bem executada? O que interessa o que o time produz em campo. A discussão é essa. O mundo é das pessoas que fazem, não das pessoas que falam. A teoria só serve se for boa na prática. E isso vale para qualquer área da vida. O futebol precisa criar encantamento em quem assiste. Isso é importante, acima de tudo.

Gazeta Press
Fernando Diniz durante treino do Audax
Fernando Diniz durante treino do Audax



Qual a importância hoje de o treinador ter uma boa comissão técnica? Você acha que a figura do treinador também tem mudado nos últimos anos? Principalmente na questão de centralizar menos as coisas nele e também saber delegar?

Realmente teve uma mudança. Para mim, por onde eu passei, sempre levei em conta o ambiente. No Atlético-PR eu fui acolhido da melhor maneira. E da mesma for eu também busco sempre acolher todo mundo. Eu procuro usar todo mundo no processo. Eu gosto de gente, gosto de conviver com as pessoas. Às vezes tem gente ao seu redor que está enxergando coisas que você não consegue ver. Então o treinador precisa estar aberto. Eu procuro sempre ouvir o maior número de pessoas possíveis. Claro que quando é possível, quando a situação pede. Sempre deixou claro que estou aberto a novas ideias e tento estimular as pessoas a serem criativas. Quero que pensem um pouco fora da caixinha. O que está aí já está aí, e a gente tem mais coisas para descobrir no futebol. Quando você consegue prover este tipo de sentimento, fazendo as pessoas se sentirem mais à vontade, elas acabam te ajudando mais. O que eu falei de criar um ambiente facilitador vale para os jogadores e também para os membros de comissão técnica. O trabalho que todo mundo faz pode ser melhor. Se ajudando, todos melhoram. Eu gosto deste contato próximo, que as pessoas tenham liberdade e confiança para poderem ousar. Que tentem coisas novas, que errem... Porque quando estamos imobilizados não saímos do lugar. E sempre temos um mundo novo para construir. Analista, fisiologista, preparador, nutricionista... Todos eles precisam ter liberdade para falar com o treinador. Sugerir coisas, buscar resoluções. Claro que é função do técnico tomar a decisão, somos pagos para isso. Mas eu estou sempre aberto a escutar tudo que as pessoas têm para falar. É importante deixar todos confortáveis para expor suas opiniões. Se você vai usar ou não é outra história. Posso achar que não é o melhor para a equipe, mas vou sempre respeitar e deixar esse canal aberto. É importante para ter um time forte também fora de campo. A gente precisa um do outro. 

Claro que o treinador brasileiro precisa estar sempre com olhar forte aqui no Brasil. Mas você acha importante também observar o que acontece fora do Brasil? Quais ligas e times você gosta de ver jogar?

Eu acho bastante importante se manter antenado com o que acontece lá fora. Eu trabalho com dois olhares. O meu principal é para o que eu estou praticando. Meu time, os adversários que terei pela frente. O que me sobra de tempo eu busco olhar para outros países. Gosto muito do futebol inglês. Gosto de ver as equipes que o Guardiola treina. Do Klopp. Gosto muito do Napoli que é treinado pelo Sarri. Defensivamente é uma ideia um pouco antagonista do que eu penso de futebol, mas gosto de ver o time do Simeone também. É importante você entender formas para se defender bem também. É muito interessante o que ele faz no Atlético de Madrid. Com seu estilo e com menos recursos ele conseguiu ser competitivo em alto nível, contra equipes muito mais poderosas. A gente tem que tirar o chapéu. Não que eu queira defender como defende o Simeone, mas é importante observar. De maneira geral acho que o futebol inglês está um pouco à frente. É um movimento que acontece de tempos em tempos. De um país que acaba tendo uma maior organização e mais recursos financeiros, conseguindo ter os melhores jogadores e técnicos. Ao logo do tempo acaba tendo mais incidência também nas categorias de base. O movimento que está acontecendo lá de um período para cá é bem interessante. Quando se investe muito e você leva os melhores jogadores, e consequentemente os melhores treinadores, isso tem impacto na formação de uma nova geração de jogadores. Eles vivem esse momento. Assim como a Itália já viveu, a Espanha... Outro que gosto de ver é o Sampaoli. Mas o que eu mais estudo mesmo são os meus times, no que precisa ajustar, melhorar, e os adversários.       

Mantendo a tradição das entrevistas que faço, eu sempre fecho com uma pergunta que sempre rende boas respostas. Até por elas serem bastante pessoais. O que é jogar bem para você?

Para mim jogar bem é ser competitivo, mas sempre que puder encantando que o assiste. É produzir coisas positivas em todo o processo que antecede o jogo em si. Ganhar e sentir prazer, dar prazer para quem joga e quem assiste. O futebol tem uma conexão muito forte com a minha vida. Eu quis jogar futebol porque os jogadores me encantavam, o jogo me trazia uma sensação única. Zico, Maradona, Romário, vídeos do Pelé... Para mim a essência do jogo é isso. É a arte, a beleza. Quando você consegue resgatar isso, você se torna muito mais competitivo. Ao resgatar a essência do jogo ele te dá uma ferramenta muito poderosa para ganhar. Jogar bem é construir um futebol coletivamente. Não adianta também colocar um monte de talentos e soltar a bola para eles resolverem. Já foi o tempo disso. Passou. É preciso ter uma amarração coletiva para se construir algo sólido. Ter a posse, terminar as jogadas com eficiência... Isso te exige o trabalho coletivo de forma gigantesca. É necessário construir muitas conexões entre os jogadores. E a parte humana entra de maneira sistemática nisso. Não é só o modelo de jogo, não é só a parte tática... Tudo precisa ser construído de maneira agregada. O futebol precisa ter algo mais. Não é só o resultado no final da partida, tem que ter um gosto, um sabor. As pessoas precisam gostar de ver o jogo.

Me siga no Twitter: @rnato_rodrigues

O frenético Liverpool x Manchester City e as lições sobre intensidade dadas ao futebol brasileiro

Renato Rodrigues, do DataESPN
Getty
Liverpool comemora um dos gols da vitória sobre o Manchester City
Liverpool comemora um dos gols da vitória sobre o Manchester City

Liverpool e Manchester City, no último domingo, protagonizaram um jogo com a essência da Premier League. Não faltaram transições, duelos pessoais, brigas em 1ª e 2ª bolas, gols... Mas a palavra mais certa para definir o confronto e, principalmente, a liga em que as duas equipes jogam é intensidade. Termo que, apesar de muito usado em solo brasileiro nos debates sobre futebol, não é totalmente compreendido.

Quando se fala em intensidade por aqui, logo vem em mente situações ligadas aos comportamentos de uma equipe/jogador sem a bola. Times intensos normalmente são denominados por conta da sua forte marcação,  da capacidade de desarmar ou mesmo pela garra em cada dividida pelo campo. Mas este conceito, se olharmos para dentro do jogo, vai muito além disso. 

Intensidade também inclui ações com bola e existem diversas maneiras de a ter com a posse. A velocidade de execução (tempo em que o jogador domina e passa/finaliza/lança), por exemplo, é um dos pilares deste conceito.  A mobilidade, como deslocamentos para achar linhas de passe, também entra dentro deste pacote. A rapidez na tomada de decisão idem. E temos também a reação após a recuperação da bola, que nada mais é o quanto você demora para atacar um espaço,  para dar uma opção de passe ou  infiltrar no exato momento em que recupera a posse. Ou seja, intensidade é bem diferente de "correria", como muitos acham.

A organização e a criação de um modelo de jogo que se integre ao tipo de jogadores e clube que está também são de extrema importância. Intensidade sem estrutura, sem uma ideia por trás, vira um catado. É correr errado apenas.

No duelo do último domingo em Anfield vimos muito disso. Um jogo frenético. O alto número de ações com e sem bola, principalmente do Liverpool, nos dá uma dimensão de como foi o jogo e nos dá uma referência na hora de "medir essa intensidade". Ao melhor estilo Jürgen Klopp, os Reds pressionaram a bola a desde o início, atrapalhando muito a saída de bola da equipe de Pep Guardiola. Na recuperação, acelerava e atacava espaços em profundidade. Firmino, em mais uma ótima atuação, flutuava por todo terço final, abrindo espaços e jogando com um ou dois toques, ajudando a desequilibrar a defesa de Manchester.

O duelo entre Arsenal e Chelsea (2x2) foi outro que também chamou a atenção neste sentido. Ainda mais por ter acontecido em meio ao boxing day (período no campeonato inglês com jogos seguidos em um curto espaço de tempo, que considero bastante inadequado, inclusive). Claro que os dois jogos citados aqui são de equipes gigantes, onde a qualidade técnica é maior pelo poderio financeiro, mas é possível ver tal velocidade, tal ritmo, tal intensidade, em jogos de menor porte também.

Obviamente que a Premier League é uma das (ou a) liga mais intensa do mundo. Seria até leviandade compará-la com o futebol praticado no Brasil neste sentido. Mas se olharmos para outros centros como Espanha, Alemanha, Itália e até Portugal, ainda estamos bastante atrás. Convivemos por aqui com um jogo lento, muitas vezes com posses pouco objetivas e, principalmente, quase sempre pragmáticos. Um arroz com feijão mal feito. Uma sonolência que tem a ver com a nossa cultura de jogo.

"Ah, mas os caras têm muito dinheiro!", "Mas os melhores jogadores estão lá!", "Vai jogar em Caruaru às 16h para você ver se tem intensidade!"... São vários os argumentos que recebi após levantar este assunto no Twitter. Todos com seu valor, inclusive. Já que englobam nas justificativas para um jogo tão pouco intenso que vemos no Brasil. 

Claro que a qualidade técnica é essencial para a boa prática do futebol. E é fato que nossos grandes jogadores já não estão por aqui. Mas apesar de tudo isso, não poderíamos fazer mais? Somos um dos países que mais carregam a bola no futebol mundial. Ainda não achei uma estatística que comprove isso, mas a olho nu é bastante perceptível. 

Cada lugar tem sua cultura e sua forma de ver/jogar futebol. Não dá para nós brasileiros abrirmos mão do nosso estilo. Quando cobramos uma melhora na qualidade do nosso jogo, não queremos simplesmente copiar. Mas sim adequar as boas lições que outros lugares podem nos dar e adaptá-las à nossa realidade, sem perder nossa essência. E o nosso problema vai além de dinheiro, qualidade técnica, organização... Tem a ver como tratamos e desenvolvemos futebol.

Primeiro que nossos métodos são ultrapassados. Claro que isso não é praxe de todos nossos treinadores, mas ainda enxergamos por aí treinamentos longos e exaustivos. Muitas vezes utilizando todas as dimensões do campo. Trabalhar espaço reduzido e em menor tempo tem sido a tônica nos grandes centros. E faz sentido. Você diminui o espaço, cresce as ações. Com o aumento de toques na bola, aumenta-se a participação de cada atleta. Mais ações = a mais intensidade. 

Também não adianta fazer um treino em campo reduzido e usar a continuidade nele. Por exemplo: faça um 6 vs 6, mas jogue os jogadores 40 minutos neste exercício. Depois de 15 minutos a intensidade dos movimentos começará a cair de força gradual. Por conta disso os exercícios intervalados são bem mais usados nos grandes centros do mundo. Ainda em cima disso, entram os objetivos destes treinamentos. Largura para trabalhar amplitude (abrindo o campo), cumprimento para trabalhar profundidade, regras para levar a bola num devido setor ou mesmo estimular algum tipo de comportamento nos atletas... O repertório é vasto e exige criatividade dos treinadores, já que eles precisam sempre ter um objetivo final para aquele exercício, sempre pensando em refletir este conteúdo no jogo.

Nosso calendário apertado também vira um vilão nestas horas. Em ano de Copa do Mundo a situação se agrava muito, já que algumas equipes não terão nem 15 dias para realizar uma pré-temporada decente. Inclusive já pontuamos por aqui a importância desse período (clique aqui). Ou seja, já se começa errado por aqui. E, inevitavelmente, essa demanda vai ser cobrada lá na frente. Questões como a temperatura também entram no pacote. Aqui os dias e regiões quentes castigam qualquer atividade física.

Mas temos também a nossa cultura de "picar os jogos". Caímos no chão após qualquer choque para esfriar o jogo. Fazemos bolinho no árbitro. Retardamos cobranças de tiro de meta. Enquanto alguns querem jogar a todo custo, nós queremos apenas ganhar. E não importa a forma como isso vai acontecer. São pequenas atitudes que colaboram para a qualidade do nosso jogo. A arbitragem, que ainda sofre com sua não profissionalização, também ajuda a complicar o cenário. 

Está mais do que na hora de darmos este salto de qualidade no futebol praticado em solo brasileiro. O produto que oferecemos está longe de ser interessante. Enquanto isso, perdemos cada vez mais espectadores. Os estádios esvaziam. Se vende menos, se paga menos. E para dar os primeiros passos nessa direção, a primeira coisa que precisamos é aprender ver o futebol num todo. Aceitar que ele é sistêmico e deixar de individualizar problemas, já que são várias as questões que o cercam. A mudança é necessária. E ser auto-crítico está longe de ter síndrome de vira-lata. Queremos mais porque podemos mais.

Me siga no Twitter: @rnato_rodrigues

A incompreendida pré-temporada no Brasil e a construção de uma equipe vencedora

Renato Rodrigues, do DataESPN
Getty Images
Na Europa se respeita pelo menos um mês de pré-temporada. No Brasil ainda sofre com isso
Na Europa se respeita pelo menos um mês de pré-temporada. No Brasil ainda sofre com isso

Virada de ano, fim das férias e chegada a hora tão esperada de religar os motores no futebol brasileiro. Eis que a pré-temporada, com seus fãs e críticos, passa a ser a bola da vez na cobertura jornalística, na conversa entre os jogadores e  também dentro das comissões técnicas. Mas, enfim,  qual a real importância deste período sem jogos em que só se treina país afora? Cabe a nós então tentar entender (e inclusive valorizar!) o papel destas semanas dentro da construção de uma equipe vencedora. 

Infelizmente a pré-temporada ainda é tratada, de uma forma geral, com bastante superficialidade em solo brasileiro. Muitos por aqui a tem apenas como um "período para se recondicionar fisicamente", "voltar ao peso ideal" ou simplesmente encontrar retiros de concentração "para entrosar o grupo"...  Mas a sua influência vai muito além disso. Aspectos importantes e decisivos, que deveriam entrar mais nos debates sobre futebol por aqui, simplesmente por estar aliado a toda performance durante o ano.

Obviamente que os fatos citados acima são de extrema importância e estão incorporados na demanda exigida dentro das primeiras semanas pós descanso. Afinal, voltar a ter seus atletas em plenitude física é um dos primeiros passos para formar uma equipe vencedora e competitiva. Mas esse é só o ponto de partida (ou deveria ser em alguns casos).

Antes de mais nada não podemos iniciar qualquer discussão que envolva pré-temporada sem antes ressaltar que no Brasil, assim como a grande maioria dos processos que envolvem o futebol, não se respeita tempo. Com ano de Copa do Mundo isso se agrava mais ainda. Em menos de um mês teremos equipes estreando em estaduais. Outras terão em jogo o seu futuro na Libertadores disputando mata-matas na fase eliminatória, com uma exigência física enorme. O fato de poder se preparar bem, afeta diretamente na qualidade do nosso jogo. E isso é notório.

Inclusive chega até a ser leviano cobrar alto rendimento de equipes após 20 dias de treinamento. Em outros países (nem precisa ser da Europa), se dá tempo ao tempo e essa preparação é muito melhor executada. 

Em muitos casos, essa falta de tempo complica ainda mais, já que muitas vezes este processo é iniciado com treinadores e metodologias novas. Ou seja, um novo técnico, uma nova ideia de jogo... É como começar a construir um prédio algo do zero. Não se tem os alicerces. Ou seja, raramente se tem uma ideia antecessora ou um norte preliminar. As coisas não funcionam, a pressão começa e... Troca de novo. E quem vem nem teve a vantagem de ter tido a pré-temporada para impor sua forma de trabalhar.

Enquanto isso muitos encaram o treinamento no Brasil como uma espécie de "castigo" para equipes ou jogadores que não vivem grande fase. Perdeu? Treina dois períodos, oras! Folga? Recuperação? Coloca esses caras para correr! Mas esta não pode ser uma visão de uma comissão técnica bem preparada (veja o depoimento de Dorival Junior, ainda no Santos, para o DataESPN Visita).  Para tais profissionais trata-se de um período raro e de extrema importância dentro da consolidação do trabalho. É o plantio de uma semente que, se bem plantada e cuidada durante o ano, tem tudo para florescer e render bons frutos.

Após reciclagem no Bayern, Dorival lembra quando Guardiola cancelou treino e venceu por 8 a 0

E é aí que mora a questão: não é o tanto que se treina, mas sim como se treina. O que devemos levar em conta é qualidade dos exercícios, os porquês de cada um deles e, principalmente, como se está sendo construído os pilares básicos do modelo de jogo. É a fundação de um edifício que, sem essa estrutura inicial, tem tudo para desmoronar quando for colocada em jogo. É o preparo não só físico, mas também do jogo que você escolheu jogar.

Em um cenário ideal, a pré-temporada se inicia bem antes da reapresentação do plantel. Quando existe a troca do treinador para o próximo ano (o que seria o encerramento de um ciclo, muito mais fácil para fazer julgamentos), já se começa a planejar imediatamente após o acerto. O primeiro passo destes profissionais junto ao comandante é entender o clube, os jogadores e a estrutura que você terá no dia a dia. Que tipo de futebol este time tem como DNA histórico? Quais comportamentos são valorizados por esta torcida, região ou cultura (afinal, os torcedores e a história são os maiores patrimônios de uma instituição). Ao não refletir estes quesitos, a chance de se começar errando já é grande.

Até que surgem mais duas importantes perguntas dentro do processo de construção de uma equipe: quais as características do meu elenco e qual é tipo de futebol que eu quero praticar? 

Então vamos praticar um breve exercício: tenho muitos jogadores verticais do meio para frente. Eles rendem mais quando podem acelerar o jogo e fazer transições ofensivas rápidas com a bola. Com a posse eles não me trazem grandes atributos técnicos. Não são atletas com grande qualidade no jogo apoiado, preferem um jogo mais direto. Também tenho uma linha defensiva com mais força e imposição física. Por outro lado, zagueiros e laterais mais lentos, sem agilidade na troca de direção. Do meio para trás meus atletas preferem um jogo mais posicional e de controle dos espaços. Em um todo tenho um elenco pouco criativo, mas com boa disciplina tática. Meu investimento financeiro para ir ao mercado também é bastante baixo. Não posso errar por nada.

Claro que a leitura acima é bem rasa e superficial. É preciso muito mais que isso para tomar as decisões corretas. São horas de estudo, de jogos assistidos, de pesquisas dentro do próprio estafe, de reuniões e discussões entre os profissionais da comissão técnica... Mas que tipo de futebol você escolheria dentro deste cenário? É possível montar uma equipe baseada na posse de bola e que tenta propor o jogo em qualquer situação? Jogar com uma linha defensiva alta, pressionando sempre o adversário no seu campo? Ou seria melhor optar, pelo menos num primeiro momento, por um jogo mais reativo e direto? (Na análise abaixo vemos um pouco da passagem de Aberto Valentim pelo Palmeiras: ideias claras e boas, mas sem tempo para conseguir executar com qualidade).

Boas ideias com falhas de execução: Renato Rodrigues e DataESPN dissecam Palmeiras de Valentim

São escolhas. Simples assim. E elas trarão prós e contras dentro de um trabalho. Mas sem dúvida é um exercício de adaptação por parte dos treinadores. De entender o contexto e tomar decisões em cima deles. Não jogar da forma que gosta, mas sim da forma que pode. No Brasil vivemos muito disso, uma linha tênue e perigosa entre a convicção e a teimosia.  Acredito sim que, com os treinos e estímulos certos, esse elenco desenhado acima pode fazer um jogo de posse. Mas certamente isso demandará tempo e paciência. Vale o preço? Minha direção vai das respaldo? Não é tão simples assim...

Tomada estas importantes decisões pontuadas acima, que darão o norte no longo caminho a se percorrer, chega o momento das ideias saírem do papel e se tornarem prática. E é neste momento que o planejamento do treinamento passa a ser de extrema importância. Os tipos de exercícios, as dimensões de espaço que serão feitos, as regras impostas dentro dos movimentos... E ainda tem controle da carga, imprescindível em qualquer esporte de alto rendimento. Todos estes pontos precisam ser muito bem alinhados. Serão eles que criarão os comportamentos que o modelo de jogo exige. 

Está mais do que na hora de entendermos que o treino reflete o jogo, que também deve refletir no treino. Pensa, cria, estimula, executa, corrige, evolui... Pensa, cria, estimula, executa, corrige, evolui... Sempre com a cabeça aberta, sempre pronto para o novo e atento aos problemas que virão pela frente. A dinâmica da criação de uma equipe passa muito por isso.

Por sua vez estes treinamentos estão cada vez mais evoluídos. Se corre mais, se duela mais pela bola... O número de ações com bola de um atleta no jogo só cresce a cada ao que passa. Geralmente quem não se atualiza dentro do esporte, acaba ficando para trás muito por conta disso. Dentro do futebol de alto rendimento atual, por exemplo, já não se treina com campo inteiro a todo tempo. As corridas em volta do campo também são raras. Geralmente os exercícios têm sempre a presença da bola. Mais intensidade, menos tempo de exercício. Nada de duas horas e meia de atividade. Quanto menos campo e jogadores no mesmo espaço, mas ações com bola. Abriu o campo, menos ações, mas senso coletivo e espacial. Se treina físico, técnico, tático e psicológico em uma mesma sessão. A busca é sempre pela realidade que o jogo vai trazer. 

Por acaso algum jogador dribla um cone dentro de uma partida? Seu goleiro vai sair em uma bola alta sem ninguém disputando espaço com ele? Alguém passa sem ninguém estar pressionando a bola? Por conta disso o treinamento analítico vai perdendo cada vez mais espaço. 

Os dias vão passando e o campo vai dando algumas respostas. Por isso a necessidade de mais tempo. Sem ele, quase nada se mostra com clareza. As definições de posição/função, por exemplo, ficam mais claras quando todos estão com a mão na massa. Os ajustes acontecem e, aos poucos, você vai vendo aquela estrutura ganhando forma. O ideal é sempre fazer isso forma bem gradual, partindo do mais fácil para o mais difícil. Tomando bastante cuidado com o tanto e o nível das informações que estão sendo passadas. Se preocupando com a absorção do conteúdo passado dia pós dia. Afinal, o nível intelectual de um grupo com 30 pessoas é bastante hibrido. Cada um aprende em um tempo e de uma forma diferente.

Será na pré-temporada que uma linha defensiva que jogará de forma zonal, por exemplo, terá seu primeiro contato com exercícios de flutuação, de fechar a zona da bola, de fazer ou não perseguições, de ajustar e aprender a trabalhar com coberturas mais alinhadas. O que faremos após a recuperação da bola? Acelera ou tira ritmo para trabalhar a posse? E quando perdemos? Pressiona ou se recompõem atrás da linha da bola? Por onde vou construir o jogo? Como vou abrir o campo? Para onde vou direcionar o adversário durante sua posse? O jogo e seus diferentes momentos exigem estas respostas à todo o momento (veja a análise abaixo que mostra o tipo de futebol praticado pelos times de Pep Guardiola ao longo de sua carreira. Vemos diferenças, mas os pilares do seu jogo se repetindo)

DataESPN analisa a trajetória de Guardiola; veja as semelhanças de Barça, Bayern e City

Em outra analogia bastante simples podemos dizer que a pré-temporada é o nosso "A E I O U" nos primeiros anos de escola. Sem ele muito bem feito e absorvido, nenhum de nós conseguiria escrever um bom livro. Com o nosso calendário louco, o quarta e domingo tem momentos apenas para relembrar lições e aprendizados. De ajustar erros e fortalecer alguns comportamentos. De incluir ideias mais pontuais que surpreendem ou neutralizam um adversário. Se cria quando essa rotina maluca pega para valer.

O futebol, como tudo na vida, muda. Alguns dizem que evolui. Outros já acham que só piora. Mas é fato que ele está em uma eterna mutação. A famosa pré-temporada, de corridas em volta do campo e rachões cheios de descontração, já pede outra coisa. Cabe a nós sempre responder o que o jogo pede. Quem dá a devida importância e trabalha bem neste período, certamente sai na frente. 

O futebol no Brasil já começou! 

Me siga no Twitter: @rnato_rodrigues

Entrevista do mês: Paulo Autuori critica CBF, fala dos desafios na formação de novos craques e critica qualidade do jogo no Brasil: "Muito ruim"

Renato Rodrigues, do DataESPN
Mauricio Mano/Atlético-PR
Paulo Autuori durante jogo do Atlético-PR contra o Flamengo, ainda como treinador
Paulo Autuori durante jogo do Atlético-PR contra o Flamengo, ainda como treinador

Paulo Autuori está no futebol há mais de 30 anos. Já passou por diversas experiências. Elas vão de países, clubes e até funções já desempenhadas durante a sua longa carreira. Conquistas, bons e maus trabalhos, turbulências, críticas... Você pode gostar ou não. Querer ou não o mesmo no seu clube. Mas se trata de uma figura que sempre merece  ser ouvida. Mais que isso, se trata de um eterno incomodado. Um cara que sempre quer e quis mais, independentemente da época e do que construiu ao logo de sua vida dentro do esporte.

Não dá para negar que Autori é da velha geração. Por outro lado ele não está nem aí para os 61 anos que tem. Para ele juventude é mais que isso. Está na cabeça, na vontade de evoluir ou não. "Existe muito jovem com a cabeça muito velha por aí", diz o ex-coordenador metodológico do Atlético-PR. Aliás também afirma ser "lamentável" o debate sobre "boleiro vs estudioso. Nesta longa entrevista a ideia foi falar apenas de futebol. Inclusive ela foi feita no início do último mês, sem saber da sua saída do Furacão, que foi divulgada no último domingo.

Neste papo exclusivo com o blog, o ex-treinador e agora gestor (ele mesmo fiz que não voltará à antiga função) faz duras críticas à CBF e, principalmente, ao nosso calendário. Fala da falta de identidade nos clubes brasileiros e é bastante critico quanto a qualidade do futebol jogado no país. Também cita as mudanças no futebol, da falta do "futebol de rua" e o quanto isso influencia na formação de novos craques por aqui.

Outro assunto abordado foi Rogério Ceni, com quem ganhou a Libertadores de 2005 com o São Paulo. Vê o agora treinador como um grande potencial na nova carreira e comenta sobre as dificuldades que o mesmo teve ao assumir a equipe que é ídolo durante esta temporada. Sua maior cobrança, inclusive, é o respeito ao processo, coisa rara aqui no Brasil quando o assunto é contração e queda de treinador. 

Veja na íntegra a entrevista:  

Depois de tantos anos como treinador, até com passagens fora do Brasil, o que tem te motivado nessa função de mais coordenação? O que tem encontrado de tão diferente?

Na verdade é uma função que, na maneira que o Atlético-PR me propôs, não existe no futebol brasileiro. Até porque eu não sou um gerente executivo, por exemplo. Eu não trato com negociações, com dinheiro... Eu mesmo deixei claro que não queria me envolver com isso. Minha área é totalmente técnica e no que isso pode refletir em questões estratégicas para o clube. A ideia é que, no futebol, você tenha alguém que se aprofunde em análises não só de contratações de jogador, mas também de profissionais que possam trabalhar aqui. Ter uma palavra que a direção creia, que seja importante e prioritária na qualidade profissional. Aqui se aposta muito em Recursos Humanos. Então apostamos também de forma infraestrutural, organizacional e metodológica. Mas nada adianta disso se não tivermos capacidade profissional. Gente com cabeça aberta para buscar novos conhecimentos, que não tenha preconceito de utilizar novas ideias. Falo isso porque o futebol é preconceituoso com isso. Então meu trabalho mira muito estas questões.   

Muito se fala hoje em não ter apenas um grande treinador, mas um staff de qualidade e que possa ser delegado à funções importantes. Como criar uma identidade de jogo? Como isso passa por escolher corretamente jogadores, um perfil de treinador? 

Isso nasce de uma situação que você precisa ter muito cuidado e respeito com as histórias dos clubes. Entender o que cada entidade busca. Ver o porquê de tantas pessoas acompanhar o clube, o que tanto identifica nelas... Tem que ter a ver com esse torcedor. Claro que existem outras coisas, mas essa é uma bastante importante. Cada clube traz consigo algumas características próprias durante a história e aqui no Brasil mais acentuadas por conta da diversidade cultural. Nosso país tem dimensões continentais. Então isso fica mais forte. Então o primeiro passo é respeitar essas origens. A partir daí sim, dentro de uma ideia de atualização, buscando a tendência do que é jogado agora, contextualizar tudo isso e, de alguma maneira, manter essas tradições. Sempre dentro de uma ideia clara de completividade que a cada dia fica mais exigente. A cobrança só aumenta neste sentido. Dentro dessa situação você precisa entender o por quê. Quando se fala em metodologia nada mais é que você ter uma ideia daquilo do que se quer fazer e como colocar isso em prática, como vai operacionalizar. A partir daí você cria sistemas, precisa ser algo sistemático. Não tem como fugir disso para se ter lógica. É necessário mirar o todo. Não podemos fazer uma análise isolada do futebol jogado em campo com decisões tomadas na gestão, por exemplo. Marketing, financeiro, jurídico... Hoje em dia é importante isso. Até na questão de decisão de comando. Você tem uma ideia central no clube, procura profissionais com perfil parecido e que possam agregar em conceitos táticos e faz entrevistas com eles isoladamente. Só depois define. Um processo seletivo desse cria um comprometimento maior de todas as partes.  o que eu vislumbro em termos de futuro, uma lógica para as coisas. Que não aconteçam coisas apenas circunstanciais. 

             
O que tem achado da formação de jogadores no Brasil? Concorda que precisamos nos atualizar nestas questões também? Quais são as mudanças mais significativas dos últimos anos na formação? 
  
Tem que desenvolver um jogo de futebol que tem a ver com excelência infraestrutural, estrutural e metodológica. E não é fácil fazer isso. Principalmente respeitando as tradições de cada clube. É um processo. Não é simples. Você vive competindo, vive se salvando por resultado. Então tem que entender como fazer, estar atento. E pra tudo isso, temos que estar ligado na formação destes jogadores. Ele precisa entender isso desde cedo e com o nível de complexidade sempre do menos para o mais. Entendo isso como uma progressão pedagógica. Tem que ser assim. Para você fazer as coisas com consciência e entender o por quê, esse processo precisa ser respeitado. Primeiro se aprende a somar, para depois ir para as operações mais complexas e no futebol é assim também. Eu concordo muito com o que você falou. O jogar mudou. As pessoas precisam entender que é futebol, mas que as maneira como se joga passou a ser diferente. Os interesses são maiores, os valores são diferentes também. As exigências e a falta de tolerância também só crescem. Você vê lá na Alemanha. O problema não é o Ancelotti que foi mandado embora. Se você ver isso está crescendo por lá também, teve mais gente saindo nos últimos anos. Até em outros países essa tolerância vem diminuindo. 

E como o "treinar" entra nessa conversa? 

Precisamos entender que quem faz futebol são as pessoas. E é da sociedade que vem os potenciais jogadores. Eles vão carregar consigo os maus hábitos, os vícios, má formação escolar... Isso tudo influencia no jogar de hoje. Eu costumo sempre dizer que dá para olhar como um bolo de chocolate. O jogar é o bolo. Então, quando você corta uma fatia, ela representa uma parte disso. Então é importante você trabalhar para essa fatia estar boa. Pessoal costuma reclamar: "Ah, esse negócio de campo reduzido, perde-se isso ou aquilo". Primeiro tem que se entender o que você pretende trabalhar. Como você vai criar comportamentos é importante que estes atletas tenham um grande número de ações. Ele repetindo muitas vezes, aquilo vai virar algo habitual para ele e vai se desenvolver dentro da partida. E isso não é e nunca será engessar alguém. De maneira alguma. Só pensar na pessoa que rói unha... Você vai pegar e engessar a mão da pessoa? Não. Você vai estimulá-la a parar de fazer aquilo, fazer com que crie um outro tipo de comportamento até que vire uma coisa consciente. Então você vai utilizando o campo menor, diminuindo os espaços, colocando gente dentro dele... Aí tem diversas maneiras de se fazer. Você usa mais horizontal, abrindo mais o campo, ou ao contrário, tentando gerar profundidade. Aí depende do que você quer trabalhar. Nisso você trabalha até questões físicas e fisiológicas. Você quer mais intensidade? Quais os intervalos entre um estímulo e outro? São respostas que você precisa ter e que dependem da sua análise da necessidade ali. Por isso os estafes hoje são maiores. E mais que multidisciplinares eles precisam ser transdisciplinares, ou seja, eles precisam interagir entre eles. Dentro dessa ideia, não se forma apenas jogadores, mas novos profissionais. Auxiliares, preparadores... Que o clube possa olhar primeiramente para dentro e depois pensar em buscar fora, seja jogadores ou qualquer tipo de função. 

gazeta press
Autuori conversa com o treinador Fabiano Soares. Ambos deixam o Furacão no fim desta temporada
Autuori conversa com o treinador Fabiano Soares. Ambos deixam o Furacão no fim desta temporada

Ainda em cima da formação, Paulo. A gente vem de um histórico de formação muito vindo da rua, do futebol praticado de uma forma mais lúdica... E de certa forma isso estimulava muito nossos jogadores a resolverem problemas dentro de uma partida de futebol, de buscar um improviso. Como a gente se adapta a um cenário que cada vez mais os espaços públicos são menores e menos explorado? Existe alguma forma de lidar com isso sem perder essa nossa essência?

Essa é uma pergunta muito importante. Ela sempre aprece no nosso dia a dia. Antes a garotada tinha muito menos opções com relação à diversão e esportes. Alguns esportes foram crescendo muito e deram também uma condição de ascensão social. E isso era praticamente monopolizado pelo futebol. Hoje você tem o vôlei como um exemplo. Antigamente você não tinha aptidão para jogar futebol, mas era praticamente forçado a fazer porque era a oportunidade que você tinha. Você era forçado a crescer dentro da modalidade. A gente passava o dia na rua jogando bola. Fazia isso de forma natural, inata... E tentava sempre repetir os gestos do seu ídolo. Nem os pais ficavam ali dizendo para fazer isso ou aquilo. Os pais estavam em casa chateados porque o filho só queria saber de futebol. Então você buscava jogadores com 17 anos para os clubes. Já ia direto para um infantil, infanto juvenil... A rua proporcionava a estes atletas de forma inata determinadas situações que o jogo pede até hoje. Por exemplo: você jogava com idades diferentes, com biotipos e tamanhos diferentes, não havia árbitro nas peladas e falta era falta, os dois times tinha que concordar se não a porrada comia... Se você estivesse envolvido com gente de mais idade, com mais físico, você não podia afrouxar. E aquilo, de forma natural, desenvolvia a coragem. Tem gente que fala: "poxa, eu arrancava o tampão do dedo e mesmo assim continuava. Jogava o dia inteiro!". Isso desenvolvia sua exposição à dor de forma maior, do quanto aguenta ela. Acho que o jovem desfrutava mais do jogo. De 6 a 12 anos de idade é quando tudo acontece no sistema nervoso central. É nessa faixa que você desenvolve as coisas que são duradouras. E você tinha mais espaços públicos para desenvolver tudo isso. Tinha o futebol de salão, que hoje é o futsal e continua ajudando muito. Então a grande pergunta que a gente deve se fazer é: era só a qualidade técnica que desenvolvia aí? Só habilidade? Não é só isso! Como eu mencionei, tem mais coisas. Mas aí a gente pensa. Você vai trazer o espaço público de volta? Não. Mas você pode minimamente nas suas seções de treino trazer esses conceitos que eram desenvolvidos de forma inata. O grande desafio é como fazer isso. E é neste momento que tem que entrar a capacidade criativa das comissões técnicas. E existem situações assim. O Cruzeiro, por exemplo, foi fazer pelada na rua. Então porque não criar um festival que as categorias vão jogar entre elas, de uma forma que eles mesmo se organizem, formem as equipes trabalhando com idades diferentes. Isso para que eles tenham de novo o controle disso, para que se sintam úteis e participativos. Sintam que a ideia deles também é importante.         

De uns tempos para cá no Brasil tem surgido uma discussão, até que burra, sobre o treinador novo e o antigo, o moderno e o velho... Você, independentemente de resultados que vinham ou não e da sua idade, sempre se mostrou um cara que buscava atualização. Como você tem visto isso no cenário atual? Qual a relevância deste tipo de debate? Não acha que é algo que já devíamos ter ultrapassado?

É lamentável. Às vezes a gente se pega discutindo sobre velha guarda e nova geração de treinadores. Primeiro que você vai contratar um treinador no Brasil e vem o perfil: "Ah, eu quero um disciplinador. Não, eu quero um cara de diálogo". Não existe nada disso. Você tem que trazer um cara que conheça futebol, que exerça bem a função profissional dele. Esse cara precisa sim ser um bom gestor de pessoas, até para poder aplicar o conhecimento que tem. E depois entender a característica da personalidade dessa pessoas. Se é mais duro, se é mais distante do jogador... Isso é de cada um. A gente está longe de um processo seletivo. De colocar em prática aquilo que o clube quer. E a grande questão é que o clube não sabe o tipo de futebol que quer jogar. E assim vai indo. Não tem a coragem de enfrentar as dificuldades de imprensa, de torcida... Esse é um grande problema. Ninguém tem convicção de nada quando contrata. Aí a gente entra nestes tipos de discussões absurdas como a que você citou. Conheço muita gente de idade já, mas que está com a cabeça totalmente antenada e atualizada. E não só no futebol isso. E outras que são novas ainda, mas como diz o Mário Sérgio Cortela, "jogaram a âncora nas águas passadas e agora estão presos". O velho ao meu ver é isso. A idade é inevitável para todos nós. Agora, você vai ficar velho só se você quiser. Tem que sair do lugar. Agora a conjuntura do futebol brasileiro em si, ajuda. Você vai para um futebol inglês ou alemão, por exemplo, a ideia é sempre de te jogar para cima. Aqui o sistema faz você não pensar em evoluir. Um exemplo bem prático e sem fugir muito da pergunta: o nosso calendário é fator gerador de muitos problemas. Vou te dar apenas um: ele simplesmente não permite o desenvolvimento dos treinadores. Você treina, joga, recupera, viaja, joga, recupera... Isso faz com que você ao menos tenha tempo de colocar suas ideias em prática. Então vira um trabalho de papo e vídeo. Você acaba tendo até que diminuir carga de treino, por exemplo. Se não estoura os caras. Aí você trabalha o mais simples e o que menos desgasta: bola parada. Hoje mesmo você vai lá e contrata um jogador porque ele é bom na bola parada. Não se contrata porque ele interpreta bem o jogo. São todas situações que o calendário acaba te induzindo.  

                                       
Até na questão de contratar um jogador X que é bom nisso, nisso e aquilo, mas também tem isso e isso que ainda pode ser melhorado... Você acaba não tendo tempo para fazer dele um jogador melhor.

É por aí. E eu te dei apenas um exemplo com relação ao calendário. Mas tem muitos mais. Por isso eu sou um grande crítico a isso. Enquanto nós não mudarmos o calendário, não adianta. As ideias podem ser muito boas, mas vão sempre chegar de forma isolada. Sem interagir com todas as outras. E para você florescer, crescer, uma ideia precisa estar conectada à outra. Tem que ter uma visão sistêmica, uma visão do todo. É dentro de tudo isso que acho necessário se elevar o nível do debate. Refletir. E isso tem que vir por parte institucional. Não tem que vir de forma individual. E nossa entidade máxima no futebol não está preocupada com isso. Está sempre priorizando a Seleção, os patrocinadores... Sobre o futebol como um todo não tem grande preocupação. Não se debate. Vou te dar um exemplo: pensaram em fazer um campeonato sub-23 agora no final da temporada e em 40 e tantos dias. Refletiram sobre isso? Construíram isso junto com os clubes? É assim que as coisas acontecem. Aí falam que os clubes não quiseram participar, que deram a ideia. É por isso que eu critico tanto essas coisas e vou continuar assim. É muito do que tem na CBF e das pessoas que comandam lá hoje. E olha que tem muita gente de qualidade lá dentro, mas individualmente, com iniciativas próprias e não da entidade em si.

Você citou a questão de dar tempo para os treinadores poderem trabalhar suas ideias. Mas o Atlético-PR andou tendo problemas neste sentido nos últimos meses, com seguidas trocas no comando. Inclusive você deixou o cargo por um tempo exatamente por isso. O que de fato aconteceu? Como você enxerga essa alta rotatividade de treinadores no Brasil?

O que nos falta são ideias. Por isso não temos processo. Você tem sempre que partir de uma ideia inicial. Aí sim você vai ver como você vai operacionar isso e existem pessoas responsáveis  por esta etapa. Neste meio começam a aparecer situações que você não esperava. É preciso parar, refletir e tentar ajustar o entorno. E tem a ver com o que aconteceu aqui comigo. Quando o Eduardo Baptista veio eu falei com o clube muito claramente que, na saída do treinador, que a gente precisava agora terminar esse ciclo, eu sairia também. Que a gente precisaria passar por um processo, por eu estar ali já um ano e meio, enxergava todo esse cenário. Tive que tomar uma posição. Deixei claro isso no dia que o Eduardo veio. E podia ser qualquer outro treinador, eu faria a mesma coisa. Que se quebrassem no meio do caminho eu ia estar fora do projeto. E isso aconteceu mesmo. E no geral eu não tinha motivo para sair, o clube também não queria. O trabalho estava se desenvolvendo. Só que eu cravei. Eu acho que quem tem que pagar a conta não são só os treinadores. No momento que as coisas não vão bem, que alguém tenha os culhões para dizer que sai também. Até porque eu também tive parcela de culpa em tudo, não foi só o treinador. Quando eu entrei nessa função eu me propus a fazer isso. E eu sai mesmo o clube não se conformando. Cheguei a negociar com alguns clubes, teve contatos. Até me querendo como treinador e eu recusei, pois não quero mais isso aqui no futebol brasileiro. O Atlético-PR entrou no meio e garantiu que seria concorrente, que eu estava livre, mas que eles ainda queriam contar comigo. Chegamos à conclusão que era é o momento de esperar o ciclo do profissional. No final de tudo, iriamos analisar. A ideia é sair do lugar comum, não cair mais em contradição.  

Divulgação / Vasco
Paulo Autuori comandando o Vasco
Paulo Autuori comandando o Vasco

 

Você tem uma boa identificação com o São Paulo e acompanhou, mesmo que de longe, a passagem de Rogério Ceni como treinador do clube. Acha que faltou processo e paciência no caso do ex-goleiro? 

Primeiro que eu tenho certeza que o Rogério tem todas condições para ser treinador. E a gente vê isso pelo que ele mostrou durante toda sua carreira como jogador. Isso é claro para todo mundo. Agora terá mais uma oportunidade para isso. É um cara com um nível intelectual acima da média e que tinha ideias claras. Sempre foi um profissional que se posicionou. Isso é uma das coisas que mais admiro nas pessoas. E se posicionar independente de local, pessoas... Mas isso gera alguns receios, ainda mais dentro do ambiente do futebol. Eu mesmo sempre gostei de ter caras assim por perto. Agora, a maneira como aconteceu ninguém mais do que ele e o pessoal do clube sabem. Eu não posso entrar mais fundo nisso porque é algo que não participei. O que eu tenho é uma visão superficial do que aconteceu. Conversei com ele antes, conversei depois... Mas é aquilo que eu digo. Você tem que refletir muito. Tem que ter ideias. Só que existem vários fatores que são determinantes para que essa ideia vá para frente ou não. Aqui no Brasil, pela ideia de fazer as coisas para agradar pessoas, se perde em vários momentos, e isso vai além do futebol, deixa de tomar medidas que são impopulares, mas que são necessárias. Eu sempre cito Margaret Thatcher para falar do papel do líder, porque ela sabia que tomaria decisões impopulares e aguentou o tranco para isso. Lá na frente se colheu os frutos. Por isso eu valorizo as ideias. Hoje estou aqui, amanhã posso estar lá... Mas eu tenho orgulho de estar tentando quebrar alguns paradigmas. A gente tem que ter coragem de tomar algumas decisões. Isso não quer dizer que vai ganhar, longe disso, são coisas diferentes. Mas são posições que você começa a estabelecer quando tem ideias claras e lógicas. Voltando a situação do Rogério, eu acho que teria de ser um processo melhor construído em relação à ele, como ídolo do clube. Era importante entender isso e, junto com a direção, construir algo mais sólido. Eu mesmo sou obsessivo em criar cenários. E no futebol você tenta sempre criar um cenário positivo e esquece de criar o negativo, sem se preparar para o mesmo. Depois as coisas acontecem e você não tem soluções e respostas. Por isso é importante você construir as coisas com lógica, para que tudo tenha consistência. Para passar por períodos de turbulência, porque tudo e todos passam por isso. Mas sempre evitando acabar com o processo. Tem que ser último caso. A ideia tem que ser sempre de realinhar e seguir em frente. Se você teve desde o ponto de partida coerência naquilo que você propôs e naquilo que você trabalhou, as coisas vão melhor.                                  

Em qual estágio você vê o futebol brasileiro atualmente? O que tem achado da qualidade do nosso jogo?

Ruim. Muito ruim. E aí entra a questão do calendário  e entra o assunto "quem está jogando esperando o contra-ataque vem ganhando". Isso é uma estatística fria, que pode mudar ano que vem. E as pessoas vão dizer que foi feito o que para mudar isso? O calendário te força a isso, você opta pelo mais simples, o mais seguro. E as equipes que precisam propor jogo vão se expor mais e para se expor você tem que ter qualidade de jogo, trabalho ofensivo. Nós só temos trabalho defensivo. A minha bronca com a CBF vem disso, ela utiliza a Seleção para dizer que está tudo bem, mas está tudo mal. A realidade do futebol brasileiro é uma e da seleção é outra. Ela só vem bem graças ao profissional inteligente que é o Tite. Porque tem conceitos claros e conceitos importantes para o que é o futebol atual. 

Nós vivemos uma discussão de "boleiro vs acadêmico", do "tatiquês"... Você acha que é um momento de ruptura no modo de tratar o futebol? Até em nível de vocabulário mesmo?

O que mais me irrita é isso. Por exemplo, no jornalismo, deveriam usar termos antigos que não se usam mais. Então ninguém fala disso. Você tem situações que tudo está mudando. Essa é a justificativa que tem para criticar os termos atuais. Esses dias eu ouvi um cara dizer: "no meu tempo era contra-ataque, hoje é transição". Não tem nada a ver uma coisa com a outra! Contra-ataque é o momento que você recupera a bola. Então para melhor entendimento você vai dividir em quatro fases: Fase defensiva, fase ofensiva, transição defensiva e transição ofensiva. E têm várias opções de fase defensiva, fase ofensiva e transições. Tem vários tipos.

Se bate muito na questão da imprensa. Falam que ela não tem importância na qualidade do jogo. Você acha que a imprensa é importante nessa construção de um futebol melhor?

Muito. Eu posso dizer isso porque já passei por muitos países no futebol, uns mais desenvolvidos e outros menos. Eu já vi e ouvi discussões de muito bom nível, em que você faz as pessoas entenderem. Se não há o desdém da imprensa em relação as novas terminologias, se não há crítica, vão usar de forma mais uniforme. Você vai induzir as pessoas a verem futebol dessa maneira. E outra coisa que falam: "o Brasil é o país do futebol." Isso é uma falácia! A paixão é tão ou mais exacerbada em outros lugares. Você vai na Turquia e é uma coisa de louco, só para te dar um exemplo. Aqui nós não sabemos torcer, só queremos ganhar. Torcer é o torcedor que compra carnê anual, o time está lutando para não ser rebaixado e ele está com o estádio cheio. Isso precisa ser falado. Mas falam? Ninguém fala. Todo mundo fala o que as pessoas querem ouvir, isso é populismo. E isso também é competência da imprensa. Precisamos de competência, de argumento. Com argumento, se tem conhecimento. Vocês nesse papel são importantes. Tem que mudar isso. Se não mudar, ficaremos estagnados. A imprensa é fundamental. Temos que parar com essa briga entre seguimentos, todos são importantes. Mas os verdadeiros protagonistas são jogadores e o público.

Como tem visto o momento do futebol peruano? Acompanhou a trajetória deles até a Copa do Mundo?

O jogador peruano é de qualidade. Só que a conjuntura de lá induz ele a ser displicente. Eles sofrem defensivamente, isso é histórico. Eu lembro do tempo que eu passei lá, tínhamos grandes resultados fora de casa porque não precisávamos se expor tanto no ataque. Em casa, como tinha essa obrigação de sair mais para o jogo, você falhava.

E como você vê a subida de nível dos centros mais periféricos da América Latina no cenário atual? E sobre a obrigação dos brasileiros "atropelarem" todos que impomos? 

Vejo gente torcendo o nariz e comparando a Venezuela com o futebol brasileiro. Isso é inadmissível, deveriam comparar eles com eles mesmo. Ver a realidade de lá e daqui. Essa arrogância de olhar só para nós é complicada. Houve evolução, isso é inegável. Quem não consegue ver isso é porque só consegue olhar aqui pra dentro. Seja analista, torcedor... Aí você vai em termos sociais e culturais,  falam dos americanos, que eles só olham para o próprio umbigo. E a gente no futebol só olha para o nosso umbigo, somos arrogantes nisso porque fomos pentacampeões. 

Pra fechar, professor, é uma pergunta que eu sempre faço para todos que entrevisto. Ela é bem reflexiva. Para você, o que é jogar bem?

Hoje há uma dificuldade de entender equipes que jogam como o Corinthians, com solidez defensiva. Não é feio, é eficiente. Isso é jogar bem! Interpretar a tua estratégia e executar. Isso é jogar bem. Vejo jogos por 5-4, todo mundo falando que foi um jogão; pra mim não foi. Tomar quatro gols é jogar mal. Porque não analisamos jogo, analisamos resultado. Enquanto isso prevalecer, estaremos afastados da realidade do futebol atual. Jogar bem é executar o seu plano de maneira eficaz, seja qual seja ele.

Me siga no Twitter: @rnato_rodrigues

E acompanhe as análises no Facebook: Renato Rodrigues

mais postsLoading