Não importa se estava de costas: lance polêmico de Flamengo x Bragantino foi pênalti, sim!

Renata Ruel

O empate por 1 a 1 entre Flamengo e Red Bull Bragantino, quinta-feira (15), pelo Campeonato Brasileiro, ficou marcado por um possível pênalti para o time rubro-negro, lance muito polêmico não marcado em campo e nem sugerido para revisão pelo VAR. Foi, portanto, mantida a decisão de campo.

A bola foi alçada na área, passou por Weverson e sobrou para Lincoln, atacante do Flamengo, que a chutou. Ela bateu no braço do jogador do Bragantino, que estava de costas para o lance.

Pênalti? Veja o lance polêmico de 'mão da bola' em Flamengo x RB Bragantino

O jogador do Bragantino assumiu o risco: olhou para trás, viu o adversário e fez, no meu entendimento, um movimento adicional, uma ação de bloqueio, ampliando o espaço corporal. Por isso, o pênalti deveria ter sido marcado.

O fato do jogador estar de costas não significa absolutamente nada na regra, pois é possível ampliar o espaço corporal e fazer uma ação de bloqueio dessa forma. Estudos mostram que os jogadores conseguem fazer a chamada “antecipação mental” da próxima jogada, prevendo onde a bola pode ir e antecipando assim a sua ação.

Um exemplo aconteceu na Copa do Mundo da Rússia, em 2018, na partida entre Espanha e Rússia. Um pênalti claro foi marcado após ação do zagueiro Gerard Piqué em sua área. A bola foi cruzada, Piqué subiu para cabecear com um adversário e, mesmo de costas, manteve os braços erguidos em uma ação de bloqueio (veja na imagem abaixo). Era uma distância curta, uma bola rápida, jogador de costas, mas mesmo assim a infração é clara.

Piqué em lance na Copa do Mundo de 2018
Piqué em lance na Copa do Mundo de 2018 Getty Images

Ou seja, diversas análises são feitas ao se considerar uma ação deliberada de mão para marcar uma falta, porém o fato do jogador estar de costas não é determinante.

Analisar os lances de braços/mãos não é simples – os árbitros que o digam. Essa chamada “antecipação mental” é cobrada dos árbitros, que necessitam da habilidade de antever o jogo, a próxima jogada, se antecipar à uma situação, um lance.

Outra questão é a dificuldade nos critérios uniformes em lances “iguais” que deveriam sofrer as mesmas sanções, por exemplo na aplicação de um cartão por um árbitro e não pelo outro em diferentes partidas.

Como sempre digo, não basta só conhecer as regras do jogo, é preciso conhecer de arbitragem, que tampouco basta, pois é fundamental conhecer o futebol e tudo que o envolve.

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Disputa de Avelar com João Paulo e o gol do Corinthians: foto, imagem e até câmera lenta podem distorcer a realidade

Renata Ruel
Renata Ruel

O clássico paulista entre Corinthians e Santos, pela 14ª rodada do Brasileirão, terminou empatado em 1 a 1, entretanto há alguns questionamentos sobre o gol corintiano.

Gil sobe para cabecear na área santista, o árbitro Marcelo de Lima Henrique leva o apito à boca, contudo deixa o lance seguir, na sequência Avelar leva a melhor na disputa da bola com o goleiro santista e marca o gol de empate.

O VAR verifica o lance e ratifica a decisão de campo, o gol. Porém, há fotos do lance circulando nas mídias sociais, trazendo a falsa sensação de falta no goleiro santista, onde o braço de Avelar ao subir para cabecear encosta no braço do goleiro que tenta defender a bola. Já pelo vídeo em velocidade normal é possível observar o contato, porém uma ‘briga’ por espaço, sem intensidade na disputa ou movimento adicional para caracterizar falta.

E não é a primeira vez que foto, imagem congelada ou até mesmo câmera lenta distorce a realidade do lance.

Danilo Avelar, do Corinthians, disputa bola aérea com João Paulo, do Santos
Danilo Avelar, do Corinthians, disputa bola aérea com João Paulo, do Santos Gazeta Press

O lance no qual o árbitro marcou pênalti e depois de olhar o VAR definiu falta fora da área para o Athletico contra o Flamengo, por exemplo, para alguns traz um possível toque na bola em câmera lenta que não deveria ser falta. A jogada em velocidade normal traz outra visão do lance e é importante considerar que há diferença quando o jogador toca somente a bola e depois tem contato com o adversário sem ser faltoso, de quando o jogador atinge bola e o adversário juntos de forma faltosa, ou ainda, após tocar a bola o contato com o jogador da equipe adversária não é de disputa normal e caracteriza falta.

Há vários exemplos de como uma imagem se não for bem analisada dentro de todo o cenário pode alterar o que realmente aconteceu, inclusive lances de expulsões onde ao analisar uma foto e câmera lenta da jogada alguns dizem que o atingido buscou o contato e não ao contrário.

Segundo o protocolo do VAR, a câmera lenta deve ser usada para analisar o ‘ponto de contato’ em relação as infrações físicas e mão na bola, para verificar a ‘intensidade’ é necessário usar a velocidade normal.

Claro que a interpretação faz parte do futebol e muitos lances dividem opiniões, porém é preciso ter muito cuidado e critérios bem definidos ao analisar lances fora do enquadramento geral - através de fotos, câmera lenta - e trazê-los para todo o contexto, desta forma as chances de assertividade aumentarão. Por isso que não basta entender somente de regras ou arbitragem, mas a necessidade de se conhecer também o futebol é cada vez maior.

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'Braços amarrados' para jogar futebol? A polêmica bola na mão e a opinião de quem vive o futebol

Renata Ruel

Se tem uma regra que causa controvérsia é da mão/braço na bola. Quantos pênaltis marcados onde os árbitros estão apenas cumprindo as orientações que recebem, mas que parece uma posição natural do braço, do movimento do atleta e se torna difícil concordar que a regra entenda tal lance como infração. Regra que muitos acreditam que era mais simples antes, quando o árbitro analisava somente se o jogador teve a intenção ou não de colocar a mão/braço na bola, definida em praticamente uma linha, bem distinta da atual.

O assunto é relevante e polêmico não somente no Brasil, mas no mundo - há quem diga que os jogadores vão passar a jogar com os "braços amarrados". As regras são feitas pela International Board, e os árbitros recebem orientações de suas federações e confederações para aplica-las, porém a dificuldade em se padronizar as marcações pode partir justamente do fato de haver margem para diversas e distintas interpretações, principalmente ao analisar o movimento e a ação do jogador.

Para aprofundar neste assunto tão apitoresco, conversei de forma exclusiva para este blog com Osman, atacante da Ponte Preta; Paulo Calçade, comentarista dos canais Disney;  Rafael Kiyasu, treinador de goleiros do Santos e instrutor da CBF Academy; e com o professor Felipe Arruda, especialista em Biomecânica.

Paulo Calçade vê a necessidade de mudança: "De repente nos tornamos especialistas em biomecânica, capazes de afirmar o que é ou não a posição normal dos braços em relação ao corpo em ações e gestos que jamais experimentamos. Especialmente nos pênaltis, a regra do momento é a normalização do absurdo em prol de comportamentos que geram preocupação e medo nos jogadores. Como disputar uma bola no alto sem usar os braços como apoio para a impulsão e o equilíbrio? Por conta de um tecnicismo equivocado, vários placares são forjados por conta de uma verdade que simplesmente não existe. É hora de consultar os verdadeiros especialistas e mudar!".

Indo de encontro com o pensamento do Calçade, é possível ver a preocupação dos jogadores em relação aos braços nas jogados em campo através da fala do atacante Osman.

Rafael Kiyasu, instrutor da CBF Academy, questiona alguns pontos da regra e exemplifica com movimentos de atletas de outras modalidades: "Pode parecer uma ironia que o texto da regra inicie com a seguinte frase: 'Com o objetivo de determinar com clareza as infrações de mão/braço na direção da bola...'. E as controvérsias do texto não param por aí, principalmente quando a regra fala em braços e mãos em posição antinatural: me pergunto o que seria algo antinatural? Quando falamos e estudamos corpo humano, devemos entender alguns princípios básicos de movimento como, por exemplo, acelerações e desacelerações, tão comuns nos lances decisivos no futebol - nos tornamos instáveis por determinado momento e neste instante os braços tornam-se partes essências do corpo em busca de estabilidade, basta ver como qualquer equilibrista abre os brações para se manter. Até mesmo em movimentos lineares como uma prova de 100 metros rasos - sem curva, sem adversário influenciando seu movimento, sem bola para acertar -, observe o comportamento dos braços com movimentos mais amplos para iniciar o impulso da corrida e braços mais abertos para frear rapidamente o corpo, chamariam isso de movimento antinatural, ou o movimento mais natural possível para impedir que o corpo desequilibre e vá de encontro ao chão?”

Atletas partem para a final dos 100 metros rasos na Olimpíada de Londres em 2012
Atletas partem para a final dos 100 metros rasos na Olimpíada de Londres em 2012 Getty

Chegada da final dos 100 metros com barreiras nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008
Chegada da final dos 100 metros com barreiras nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008 Getty

Rafael também discorre sobre a questão da infração por estar com os braços acima da linha do ombro: "Outro movimento é o salto, e outro ponto controverso da regra se dá quando ela fala em braços acima da linha do ombro. O movimento mais 'natural' nesse caso seria que o atleta saltasse com grande auxílio dos braços, principalmente em movimentos de cabeceio. Observe atletas de futevôlei com a tarefa de saltar e cabecear, porém sem adversário influenciando, sem disputa física pelo espaço, ainda sim qualquer jogador terá um forte auxílio, tanto para impulso como para seu equilíbrio e ataque à bola. Como não elevar os braços acima da linha dos ombros em lances como esse?".

Movimento dos braços no futevôlei
Movimento dos braços no futevôlei Arquivo pessoal

"E um último aspecto que acredito ser bem relevante é: somos seres complexos, com milhares de graus de liberdade articular, isso fará com que não se tenha um padrão único e idêntico de movimento de braços entre duas pessoas e nem mesmo a mesma pessoa fará o mesmo movimento em um lance semelhante. Limitar movimentos de braços em ações rápidas limitará não somente performance de qualquer jogador nesses lances decisivos, como também corremos o risco de lesões a partir do ponto que os atletas terão esses movimento de força e potência restringidos", concluiu Kiyasu.

O professor Felipe Arruda Moura, que possui mestrado em Ciências da Motricidade e doutorado em Educação Física, é um dos responsáveis pelo Laboratório de Biomecânica Aplicada da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e também contribuiu com o seu conhecimento sobre o assunto.

Renata Ruel: O que é a biomecânica e como se aplica no futebol? Essa ciência considera movimento natural e antinatural do braço de um jogador?

Felipe Arruda Moura: A Biomecânica é a Ciência que estuda o movimento sob a perspectiva das leis da Mecânica, da Física. Na Biomecânica estudamos as forças que agem no corpo, e seus efeitos. Nas Ciências dos Esportes, incluindo o futebol, a Biomecânica é essencial. É por meio da Biomecânica que, por exemplo, jogadores e árbitros são rastreados para a obtenção de informações sobre distâncias percorridas, faixas de velocidade, acelerações, posição em campo, entre outras. No entanto, uma das linhas de investigação da Biomecânica consiste em estudar os padrões de movimento das pessoas. Conhecendo quais são as características do movimento e sua faixa de variação, é possível identificar quais movimentos fogem do “normal”. É assim, por exemplo, quando desejamos estudar lesões. Sabemos qual é o movimento esperado, e identificamos qualquer variação além dessa faixa. Nesse caso, respondendo à pergunta, é possível identificar esses padrões para cada habilidade motora nos esportes. O problema é que, quanto maior for o nível de habilidade de um indivíduo, como atletas de alto nível, maior é a capacidade dele de variar seus movimentos e ter um padrão individual. Desse modo, para atletas do esporte de elite, a capacidade de variação de movimentos é grande, o que dificulta a definição do que é um movimento natural ou não.

Qual seria a melhor ou mais justa definição nas regras e orientações para os atletas não jogarem com os "braços amarrados ao corpo" sem correrem riscos de uma infração ser assinalada contra a sua equipe, se o movimento que está fazendo é o natural da biomecânica?

Esse é um ponto que requer muita discussão. Criar uma regra que obrigue um atleta a não realizar movimentos que são determinantes em sua função pode ser injusto. Os braços exercem ação fundamental na mecânica de movimento dos atletas, desde a função de gerar momento linear (o que pode ser didaticamente entendido como impulso) como também para ajudar o atleta a estabelecer e reestabelecer o equilíbrio. Assim, entendo que a regra deve buscar punir aqueles que deliberadamente desejam se beneficiar da infração, colocando a mão na bola ou aumentando sua área de ação. O problema é, de acordo com as orientações da regra, entende-se que se o jogador estiver com os braços muito afastados ou acima do ombro ele está deliberadamente aumentando sua área de ação, o que não é sempre verdade. Para correr, saltar, dar um carrinho, fazer um grande afastamento das pernas para um desarme, o jogador muitas vezes precisa colocar os braços nessas posições, ou terá um desempenho muito menor, o que pode ser injusto. O exemplo mais claro disso é que, quando caminhamos, os cotovelos estão estendidos, mas para correr, nossos cotovelos ficam flexionados. Trata-se de uma demanda da corrida e nos indica que cada movimento pode exigir uma posição específica dos membros superiores. Portanto, é essencial que os profissionais que atuam no futebol, incluindo árbitros e os próprios jogadores, conheçam os padrões de movimento das ações motoras para compreender como os atletas executam o movimento.

O pênalti marcado do Thiago Silva, na final da Copa América de 2019, contradiz a regra na questão do braço de apoio. O carrinho é permitido pela regra, desde que não seja de forma imprudente, temerária ou com uso de força excessiva, e observamos uma imagem do material da Fifa considerando o braço de apoio como não infração, mas se a bola bater no braço que está erguido uma infração deverá ser assinalada, em função do jogador ampliar o espaço corporal e assumir o risco de bloquear a passagem da bola. As posições de ambos os braços fazem parte da biomecânica do jogador em uma ação, carrinho, que é permitida pela regra ou realmente ou não?

Thiago Silva intercepta bola com a mão apoiada no chão na final da Copa América 2019
Thiago Silva intercepta bola com a mão apoiada no chão na final da Copa América 2019 Getty Images

Situação similar à de Thiago Silva
Situação similar à de Thiago Silva Reprodução Fifa

Acredito que as duas imagens nos dão uma clara ideia do que é o padrão de movimento do atleta. Dois jogadores de alto nível, de diferentes nacionalidades, executam a ação motora com características muito semelhantes. Um dos membros superiores fica afastado do corpo, mas serve para apoio no gramado, o que de acordo com a FIFA não é uma infração. Porém, se observarmos o outro, vemos que ambos os jogadores apresentam o mesmo padrão, o que se identificado em vários outros carrinhos, pode representar claramente um padrão, um movimento natural. Desse modo, penalizar o atleta pode ser injusto uma vez que o mesmo precisa dos membros nessa posição para conseguir minimamente executar o movimento. Cabe à FIFA decidir se é isso que ela deseja. Se for, a escolha do atleta em executar o carrinho dentro da área, por mais necessário que seja, será sempre um risco.

Em um movimento do jogador ao saltar (braço acima da linha do ombro segundo a regra é infração), girar, mudar de direção, ao ir disputar a bola com o adversário, ao se posicionar em uma ação de bloqueio ou até mesmo na corrida, quais os fatores que a Regra do Jogo e as orientações aos árbitros devem levar em considerações para se marcar ou não uma infração? O que é o braço para o equilíbrio do corpo do atleta ao se movimentar?

Os árbitros devem considerar que os braços exercem função fundamental para que os atletas consigam executar o movimento com excelência. Vamos usar a corrida para exemplificar essa importância. Para dar um passo durante a corrida, colocamos um dos nossos membros inferiores para frente. Esse movimento geraria uma grande rotação do corpo inteiro, o que não é o objetivo porque queremos nos deslocar para frente. Para compensar e gerar um equilíbrio, no lado oposto também movimentamos os membros superiores para frente. Assim, um movimento anula o outro e o atleta não gira, mas sim se desloca para frente com um gasto energético muito menor. A mesma interpretação serve para todos os outros movimentos. Não há como saltar com a máxima potência do atleta se ele não utilizar o movimento dos braços. Não há como executar um carrinho com excelência e segurança sem utilizar os braços para apoio ou gerar equilíbrio. Nesse ponto, reforço a importância de capacitação em Biomecânica para que os personagens envolvidos nessa avaliação no futebol saibam quais são as características do movimento. O grande problema é que, ter uma ideia do padrão de movimento para ações mais recorrentes, como correr, chutar, saltar, é até possível. No entanto, para movimento atípicos, como muitas vezes ocorre em lances polêmicos, definir o que é natural ou não é muito questionável. Nesse aspecto, caberá ao árbitro a interpretação do lance, e caberá aos jogadores, comissão técnica, torcedores e jornalistas respeitá-lo, concordando ou não com sua posição.

Vamos com exemplos de lances polêmicos e o que a Biomecânica nos mostra sobre esses lances no Brasileirão: Santos x Atlético-MG, Junior Alonso; Bragantino x Palmeiras; e Fluminense x Corinthians, Bruno Méndez.

Lances polêmicos de bola na mão/mão na bola no Brasileirão
Lances polêmicos de bola na mão/mão na bola no Brasileirão Reprodução

A partir das imagens, chegar a uma conclusão se esse movimento representa o padrão normal ou se o atleta fez a ação deliberada para aumentar o espaço de ação, é um grande desafio e questiono se nesse momento haveria uma solução tecnológica que contemple todas as situações. O que nesse caso, de um movimento atípico, representaria um movimento natural? Não temos uma resposta definitiva. Além do que foi explicitado acima, sobre a mecânica padrão de movimento, é preciso verificarmos a velocidade com que todo evento ocorre. Se o atleta já estava com aquela posição dos braços por um grande período, pode ser que ele o estivesse fazendo deliberadamente para ganhar vantagem. No entanto, em eventos extremamente rápidos, provavelmente não há ação deliberada. O tempo de reação de uma pessoa é da ordem de 200 milissegundos, logo, qualquer ação abaixo desse tempo não representa uma reação do atleta ao movimento de seu adversário. Nesse caso, câmeras com boas resoluções espaciais e temporais dariam bons indicativos, mas não acredito que chegariam a uma conclusão definitiva. Nesses casos, particularmente, acredito na interpretação do árbitro que certamente possui uma vasta experiência para a tomada de decisão.

Texto livro de Regras do site da CBF

Regras da CBF sobre bola na mão/mão na bola
Regras da CBF sobre bola na mão/mão na bola Reprodução

Entre as orientações recebidas pelos árbitros para nortear as Regras e facilitar as análises, algumas considerações são fundamentais para discernir o que marcar ou não: posição natural ou antinatural; distância curta ou longa, havia tempo para uma ação;  bola vem do adversário ou de um companheiro; bola vem de forma inesperada, fator surpresa, mudança de direção; mão voluntária ou acidental; o jogador estava em ação de disputa ou bloqueio no momento do toque? Se sim, ampliando o espaço corporal?

As regras e as orientações, assim como os árbitros e todos que trabalham com o futebol, necessitam entender, conhecer e considerar tudo que envolve a prática da modalidade, inclusive os movimentos dos atletas para o esporte se tornar simples e justo.

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Brighton x United: Sim, é inusitado dar pênalti após o jogo encerrado! Mas a regra foi cumprida à risca

Renata Ruel

Em fato inusitado, mas permitido por regra e protocolo, o árbitro de vídeo (VAR) entrou em ação mesmo com o duelo Brighton x Manchester United já encerrado neste sábado (26). 

É que nos acréscimos, a bola estava dentro da área do time da casa após cobrança de escanteio, Maguire cabeceou em direção ao gol, e Maupay ampliou o espaço corporal com o braço esquerdo aberto, tocando a bola e impedindo um ataque promissor. 

Assista ao lance polêmico no vídeo abaixo


Em campo, o árbitro Chris Kavanagh não viu, apesar de ser um lance claro, e encerrou a partida logo na sequência do lance.

Contudo, há o VAR, e o protocolo permite que a jogada seja revisada mesmo após o apito final, seja da primeira ou da segunda etapa, se não houve tempo hábil de fazê-la ainda com a bola em jogo. 

Sendo o fato ocorrido de forma pitoresca nesta partida, o VAR checou, entendeu como infração e sugeriu a revisão ao árbitro, que, após checagem no monitor, assinalou a penalidade. 

A regra ainda prevê que: “Se um tiro penal tiver de ser executado ou repetido, a duração de cada período deve ser prolongada até o pênalti ser concluído.” 

Ou seja, a regra e o protocolo foram cumpridos à risca pela equipe de arbitragem.

Árbitro Chris Kavanagh checa o VAR antes de assinalar pênalti para o United após ter encerrado o jogo
Árbitro Chris Kavanagh checa o VAR antes de assinalar pênalti para o United após ter encerrado o jogo John Sibley/Getty Images


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Fato histórico: Libertadores com mulheres em campo

Renata Ruel
Renata Ruel
Mariana de Almeida durante Estudiantes x Lujan pela Copa da Argentina
Mariana de Almeida durante Estudiantes x Lujan pela Copa da Argentina Getty Images

As mulheres da arbitragem estão, finalmente, ganhando espaço no futebol masculino e agora terão sua vez na Libertadores.

Após alguns árbitros testarem positivo para COVID-19, inclusive a equipe brasileira que seria comandada por Anderson Daronco, a Conmebol realizou as alterações em dois jogos e com uma grande novidade: duas mulheres para serem assistentes.

Com essa troca de arbitragem foram escaladas Mariana de Almeida, na partida entre Racing (ARG) e Nacional (URU), e Daiana Milone, no jogo Defensa y Justicia (ARG) x Delfín (ECU). Ambas são argentinas e atuarão como assistentes.

É importante registrar que o regulamento da Conmebol permite que árbitros atuem em jogos de seus países.

A escala é histórica, entretanto, não será a primeira vez que uma mulher irá bandeirar a Copa Libertadores. A paulista Ana Paula Oliveira atuou em dois jogos por esta competição, em 2006, e pelas oitavas de final nas partidas de ida e volta entre Palmeiras e São Paulo.

As mulheres também têm trabalhado como assessoras pela Conmebol. Nomes como Silvia Regina, Ana Paula e Regildenia Moura estão nas escalas para avaliarem os árbitros.

O cenário geral é bem otimista para a categoria feminina. Edina Alves, em 2019, esteve na Copa do Mundo masculina sub-17. Nas grandes ligas masculinas da Europa observa-se mais oportunidades e, aqui no Brasil mesmo, nos jogos da CBF, nas séries de A à D, nunca se viu antes tantas mulheres escaladas no apito e na assistência.

Que seja o início de uma nova era, pois lugar de mulher é onde ela quiser e temos muitas profissionais competentes para trabalharem em todas as áreas do futebol, não só na arbitragem.

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Nove pênaltis e oito expulsões: que rodada foi essa do Brasileirão!

Renata Ruel
Renata Ruel
Tiago Volpi observa pênalti batido por Artur durante São Paulo x Red Bull Bragantino
Tiago Volpi observa pênalti batido por Artur durante São Paulo x Red Bull Bragantino Getty

A 9° rodada do Brasileirão contou com nove penalidades marcadas e oito expulsões de jogadores. E, acredite, a maioria marcada em campo, não pelo VAR.

A arbitragem decidindo em campo, o árbitro fazendo revisão em poucos lances. Foi isso o que ocorreu nessa rodada do Brasileirão e que os amantes do futebol tanto pedem.

Veja como foi:

- Athletico 1 x 1 Botafogo: 2 pênaltis assinalados, um para cada time e no campo de jogo. O VAR sugeriu revisão ao árbitro no pênalti marcado a favor da equipe do Athletico no final do jogo, entretanto, a decisão de campo foi mantida e ,na minha opinião, dois pênaltis bem marcados;

- Fortaleza 1 x 0 Sport: vitória com gol de pênalti, marcado em campo e de forma assertiva;

- Goiás 3 x 3 Coritiba: além da quantidade de gols, o jogo contou com 2 penalidades e 2 expulsões com decisões do árbitro em campo, sem auxílio do VAR, lances capitais sendo decididos no gramado;

- São Paulo 1 x 1 Bragantino: 2 pênaltis, o primeiro foi no VAR, mas com certo grau de dificuldade para a arbitragem ver em campo; o segundo o árbitro marcou em campo, ambos a favor da equipe de Bragança e bem marcados;

- Santos 3 x 1 Atlético-MG: uma expulsão logo nos primeiros minutos de jogo, com o VAR checando e mantendo a decisão; mais duas expulsões de membros das comissões técnicas, um de cada time; um pênalti marcado com auxílio do árbitro de vídeo;

- Corinthians 0 x  2 Palmeiras:  um pênalti e duas expulsões muito bem aplicadas pelo árbitro em campo;

- Bahia 0 x 2 Grêmio: uma expulsão para cada lado;

- Vasco 1 x 2 Atlético-GO: após verificar o VAR, o árbitro expulsou de forma correta o jogador vascaíno. 

Foi perfeita a rodada para a arbitragem? Não, e nunca será, pois são humanos sujeitos a erros. Há quem reclame, principalmente de dois pênaltis não marcados na partida entre Santos e Atlético Mineiro, um para cada equipe. Porém, no geral, foi uma rodada muito positiva para a arbitragem, na qual as decisões, em grande parte, foram tomadas em campo de jogo e de forma assertiva.

No dia do árbitro, 11 de setembro, os árbitros, que sempre são muito criticados, precisam ser parabenizados.

E deixo registrada a minha eterna gratidão à arbitragem, por tudo o que me proporcionou e ainda proporciona. Parabéns a todos os árbitros, árbitras e quem os respeita.

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Margem de erro do VAR pode ser de 10 cm a meio metro, explica especialista em tecnologia de rastreamento

Renata Ruel

Em uma reportagem de agosto de 2019 sobre a Premier League, o jornal Daily Mail mostrou que a tecnologia do árbitro de vídeo (VAR) pode ter situações de erro que podem chegar a até 38 centímetros na linha de impedimento.

Em entrevista exclusiva ao blog, o professor Felipe Arruda Moura - um dos responsáveis pelo Laboratório de Biomecânica Aplicada da Universidade Estadual de Londrina (UEL) - fala sobre o VAR (árbitro de vídeo) e as limitações que a ferramenta tecnológica possui.

Renata Ruel: Como é o estudo desenvolvido por vocês no Laboratório de Biomecânica Aplicada?

Felipe Arruda Moura: Somos um grupo de pesquisa do Departamento de Ciências do Esporte da Universidade Estadual de Londrina cujo foco é a análise do movimento humano por meio das leis da Mecânica da Física. Trabalhamos com análises de movimento em ambientes laboratoriais e em campo, particularmente de esportes de alto nível durante competições. Em conjunto com pesquisadores da Unicamp, Usp, Noruega, Alemanha, Japão e outros, desenvolvemos modelos matemáticos e computacionais para análise de desempenho físico, técnico e tático de atletas.

O VAR (árbitro de vídeo) é uma ferramenta de rastreamento, como se fosse um GPS. Como esses sistemas funcionam?

Os principais sistemas de rastreamento do mundo podem ser divididos em duas classes: aqueles que necessitam que jogador porte algum dispositivo, como o GPS que constantemente vemos nos jogos, com jogadores utilizando top esportivo para o equipamento, ou a partir de vídeos, utilizando ferramentas de visão computacional, das quais, algumas delas, o VAR utiliza.

O GPS determina a posição do jogador em campo por meio da comunicação com satélites. Para isso, é preciso que o dispositivo se comunique com pelo menos 3 satélites para que seja possível realizar um procedimento chamado de triangulação. A qualidade da medida depende, além da frequência com que o sistema opera (número de registros por segundo), da quantidade de satélites conectados. Esse é um grande problema, uma vez que a maior parte dos estádios possuem as arquibancadas perto do campo (arenas, por exemplo) e prédios que prejudicam muito a coleta de informações. Algumas empresas criaram sistemas de posicionamento local por radiofrequência. Antenas são instaladas no estádio, simulando os satélites, e a comunicação com o dispositivo do jogador é garantida, com muito maior qualidade.

Árbitro checa o VAR durante jogo entre Santos e Vasco, pelo Brasileiro
Árbitro checa o VAR durante jogo entre Santos e Vasco, pelo Brasileiro Getty

Já os sistemas de rastreamento baseados em vídeo reportados nas pesquisas científicas utilizam visão computacional para a detecção da posição do jogador na tela. Uma das formas é a partir da segmentação da imagem, processo que identifica na tela quem é o jogador, determina os pixels (pequenos elementos da imagem) que o representam na imagem, calcula o seu centro e estima a posição do atleta projetando esse centro no pixel mais baixo, conforme a imagem abaixo.

Em seguida, são feitos os procedimentos chamados de calibração e reconstrução bidimensional, que exigem a determinação de medidas no campo (apenas as medidas oficiais do campo não são suficientes, pois há variações). Esses procedimentos transformarão as coordenadas de tela do jogador em coordenadas reais, em metros. A partir daí, temos quantitativamente a informação que precisamos, ou seja, a posição do atleta em campo.

Tese de doutorado de Milton Shoiti Misuta – Universidade Estadual de Campinas
Tese de doutorado de Milton Shoiti Misuta – Universidade Estadual de Campinas Arquivo pessoal

Esses sistemas são 100% confiáveis, altamente precisos ou contêm uma margem de erro?

Não existe nenhum sistema que não possua erro de medida, o que que não é um problema. Na Ciência, lidamos com erro de medida constantemente. Para publicar nossos estudos em grandes periódicos internacionais, por exemplo, os revisores nos questionam sobre os erros de medida. Se os nossos erros de medida possuem uma margem que seja aceitável para o fenômeno que pretendemos analisar, o artigo é aceito na literatura.

Na literatura, os sistemas que apresentam os maiores problemas de medida de posição são os GPS esportivos, com erros que chegam a mais de 50 cm (sim, meio metro!), o que inviabiliza sua utilização para uma série de análises que realizamos em nosso grupo. Já os sistemas de posicionamento local, com antenas instaladas nos estádios, são os que apresentam as melhores medidas, com erros ao redor de 10 cm.

Como sistema intermediário, está o sistema de vídeo que, se seguido rigorosamente procedimentos específicos de posicionamento de câmeras, resolução da imagem, detecção correta do jogador na imagem, calibração e reconstrução bidimensional de altíssima qualidade, entre outros, podem apresentar erros ao redor de 30 cm. Em esportes como o futsal e tênis, por ocorrerem em espaços menores, chegamos a erros de aproximadamente 10 cm.       

Essa margem de erro pode ser ainda maior pelo fato da ferramenta ser manipulada seres humanos? Por exemplo, a linha do impedimento será traçada no ponto do corpo do jogador o qual o árbitro acreditar estar mais próximo da linha de fundo.

Todos os sistemas existentes atualmente possuem, em algum procedimento, operação humana, conforme dito anteriormente: posicionamento das câmeras, medidas no campo, qualidade da reconstrução bidimensional, entre outros. No final, a medida apresentada sempre será uma combinação entre erros aleatórios (em linhas gerais, flutuações da própria medida) e sistemáticos (tendência do instrumento em superestimar ou subestimar a medida).

Projetos FAPESP de pesquisa (16/50250-1, 2017/20945-0, 2018/19007-9, 2019/16253-1, 2019/17729-0, #2019/22262-3), de Paulo Santiago (USP), Sergio Cunha
Projetos FAPESP de pesquisa (16/50250-1, 2017/20945-0, 2018/19007-9, 2019/16253-1, 2019/17729-0, #2019/22262-3), de Paulo Santiago (USP), Sergio Cunha Arquivo pessoal

O fato de se utilizar a linha traçada a partir de um ponto do jogador é certamente o fator mais preocupante, por termos como referência apenas um plano da imagem. Com apenas uma imagem, somente uma análise bidimensional é possível, o que nesse caso certamente incidirá em erro de perspectiva. Por melhor que seja a posição da câmera, qualquer flutuação no nivelamento da câmera, rotação do eixo da câmera, e o fato dos jogadores estarem um pouco à frente ou para trás do centro ótico da câmera já podem consideravelmente aumentar o erro de medida. Se essa imagem estiver ainda mais distante, mais preocupante se torna em função da dificuldade de se medir na imagem qual é a parte do corpo mais próximo da linha de fundo.

Em Biomecânica, para determinar a posição tridimensional de uma parte do corpo do jogador são necessárias pelo menos duas câmeras filmando exatamente o mesmo evento, no mesmo instante de tempo. Além disso, é preciso realizar uma calibração tridimensional, que implicaria em registrar e extrair medidas de pontos elevados no campo de futebol.

Atualmente, pode-se utilizar informações tridimensionais coletadas a partir de segmentos identificados por Inteligência Artificial, conforme imagem abaixo, de pesquisas de universidades brasileiras e instituições internacionais parceiras. A expectativa é que o erro caia para margem de poucos centímetros.  Sabe-se que a FIFA tem buscado uma tecnologia semelhante, mas, até onde sabemos, o VAR no Brasil não se utiliza desse sistema.

Com base no seu conhecimento, qual solução seria mais viável para o VAR dentro da margem de erro, principalmente em lances ajustados como os impedimentos no gol do São Paulo contra o Atlético Mineiro e nos gols anulados do Santos contra o Flamengo, pelo Brasileirão 2020?

Após Atlético-MG x São Paulo, Renata Ruel explica em detalhes como VAR traça linhas e diz: 'No impedimento, não é uma ferramenta 100%'

Inicialmente, é preciso identificarmos a margem de erro do VAR. A partir de alguns exemplos de coletas validadas por um sistema tridimensional, seria possível identificar, em média, quantos centímetros o VAR pode errar.

Identificada a margem de erro do VAR, se durante a partida houver uma situação em que a medida identificada pelo VAR esteja dentro da margem de erro, trata-se de um caso no qual não podemos afirmar que um jogador está de fato em impedimento ou não. Nesse caso, conhecendo os valores do VAR, os responsáveis pelas equipes e a CBF poderão entrar previamente em consenso: ou prevalece a decisão do árbitro ou prevalece a decisão do VAR, mesmo cientes de que a situação analisada está dentro da margem de erro, mas com a certeza de que o erro não terá intenção de privilegiar ninguém.    

Quais suas considerações finais sobre o VAR?

Como cientista, serei sempre um defensor da tecnologia que busca tornar a competição mais justa e ética. No entanto, lidar com o esporte de alto nível, ao vivo, exigirá sempre uma combinação entre o que é ideal e o que é possível. Ter medidas com margem milimétrica, mas que demorariam 10 minutos para serem extraídas, é inviável, por exemplo. Da mesma forma, medidas rápidas, mas que possuem grandes erros, são contraproducentes.

Acredito que o VAR é uma importante contribuição para a melhoria da arbitragem no futebol, mas os jogadores, equipes, imprensa e torcedores precisam entender que sempre haverá uma margem de erro, por menor que ela seja, e aceitar as decisões tomadas segundo critérios pré-definidos entre clubes e CBF. Para que o esporte seja cada vez mais justo, é preciso que a ferramenta continue sendo aperfeiçoada em conjunto com cientistas, e que os operadores do sistema tenham a formação necessária em Biomecânica e Ciências da Computação. Certamente, as universidades brasileiras estão à disposição para colaborar.

O Prof. Felipe Arruda Moura possui mestrado em Ciências da Motricidade pela UNESP e doutorado em Educação Física pela UNICAMP. Atualmente é professor-adjunto do Departamento de Ciências do Esporte da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e atua como orientador (mestrado e doutorado) e vice-coordenador do Programa de Pós-graduação Associado em Educação Física. Tem experiência na área de Educação Física e Ciências da Saúde, com ênfase em pesquisas voltadas para a biomecânica aplicada ao esporte e exercício, desenvolvimento de tecnologias para a Saúde e Esporte, modelos matemáticos e computação aplicados ao esporte e processamento de sinais biológicos.

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Margem de erro do VAR pode ser de 10 cm a meio metro, explica especialista em tecnologia de rastreamento

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Impedimento: o jogador deve ser punido por estar com 'um cabelo' à frente ou deixar seguir o lance seria o ideal?

Renata Ruel
Renata Ruel

Após Atlético-MG x São Paulo, Renata Ruel explica em detalhes como VAR traça linhas e diz: 'No impedimento, não é uma ferramenta 100%'


Aquele tal impedimento que se o atacante calçar 43 e o zagueiro 41 a infração ocorrerá, se a ponta do nariz do zagueiro estiver mais próximo da linha de fundo vai dar condições para o atacante.

Esse é o típico lance que se o árbitro assistente acertar no campo tem que ser exaltado e agradecer o cara lá de cima, que não é o da cabine do VAR. Por experiência própria digo que há lances dificílimos no campo para os bandeirinhas.

Entretanto, estamos na era do VAR, a ferramenta que traça as linhas para não haver dúvidas em relação a posição dos jogadores, correto?

O VAR é manipulado por seres humanos, que são passíveis de cometerem erros, até mesmo em lances de impedimentos, que são, na grande maioria, factuais, não precisando de interpretação.

Não estou dizendo que o VAR errou ou acertou no gol anulado do São Paulo contra o Atlético-MG, porém que erros podem ocorrer, sim, como já vimos, por exemplo, no gol anulado do Ceará contra o Palmeiras, pelo Brasileiro de 2019. Ali, foi possível ver que o frame escolhido para o primeiro toque na bola pelo jogador do Vozão foi equivocado, o que alterava a posição do atacante.

No gol anulado da equipe do Morumbi, a foto disponibilizada mostra a linha vermelha, que representa o atacante, sobreposta à azul, que pertence ao defensor, pelo protocolo isso significa que o atacante está em posição de impedimento, porém provavelmente por milímetros.

Ainda sobre imagem que veio à público, não é possível ver todo o corpo do jogador são-paulino, contudo é importante informar que o VAR possui mais câmeras, inclusive de ângulo invertido, a qual possibilita uma imagem do corpo todo.

O VAR vai analisar três pontos chaves para o impedimento da equipe do Morumbi: a batida na bola do atacante no momento do passe, a parte do corpo defensor que está mais próxima à linha de fundo e fazer exatamente o mesmo com o corpo do atacante.

E é aí que pode ou não ocorrer uma falha humana, principalmente em lances ajustados: se o frame na bola não for o correto; se o ponto traçado em um dos jogadores ou em ambos não for exatamente o local do corpo que estava mais próximo à linha de fundo. Isso pode alterar sim uma posição legal para uma infração ou vice-versa.

Árbitro checa o VAR durante jogo entre Santos e Vasco, pelo Brasileirão
Árbitro checa o VAR durante jogo entre Santos e Vasco, pelo Brasileirão Miguel Schincariol/Getty Images

Está em estudo uma tecnologia semiautomática para ser utilizada pelo VAR no tracejo dessas linhas, porém não é tão simples assim, justamente pelo fato, por exemplo, de nem todos os jogadores calçarem o mesmo número. Enquanto isso o impedimento do VAR seguirá sendo feito pelos árbitros e técnicos da ferramenta e estará sim sujeito a erros mesmo em lances factuais, não gerando 100% de exatidão.

Se um árbitro pedir para o técnico traçar a linha no mesmo jogador na ponta do nariz e outro na ponta do joelho ou, até mesmo, ambos os árbitros enxergarem cada que a ponta do nariz é um local diferente tudo pode ser alterado em um mesmo lance.

Assim como não se pode crucificar um erro por poucos centímetros do assistente em campo, também não se pode fazê-lo com o VAR. Todavia, nos dois casos o equívoco pode ocorrer, tendo a ferramenta tecnológica uma margem menor de erro.

A regra do impedimento é, sim, factual em relação à posição, se uma parte do corpo do atacante, exceto os braços ou mãos, estiver à frente do penúltimo ou os dois últimos defensores ou da linha da bola (quando essa for a referência), mas nem sempre é fácil trazê-la para a realidade do jogo.

Mas qual decisão deve prevalecer em lances assim, do campo ou do VAR? O jogador deve realmente ser punido por estar com "cabelo" à frente ou deixar seguir o lance seria o ideal? A Internacional Board está estudando mudanças para essa regra, quem sabe teremos novidades.

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Pênalti para o Cruzeiro? Pênalti para o Barcelona? Onde estava o VAR?

Renata Ruel

Copa do Brasil,, semifinal da Champions League Feminina, a ausência do VAR em jogos e competições gera questionamentos sobre a ferramenta que tem alto custo, mas se torna cada dia mais essencial para o futebol.

A Copa do Brasil é uma competição em que todos os jogos se tornam decisivos em função de ser o famoso “mata-mata” e o VAR só entra em cena nas últimas fases, diferente do Brasileirão em que se faz presente em todos os jogos.

A Copa do Brasil voltou a ser disputada, após a paralisação em função da pandemia, o Cruzeiro está fora da competição ao empatar em 1 a 1 com a equipe do CRB, o time alagoano havia vencido a primeira partida por 2 x 0. O Cruzeiro reclama de uma possível penalidade não marcada a seu favor, onde há uma disputa entre o atacante Maurício, do Cruzeiro, e o goleiro mais o zagueiro, do CRB. O árbitro em campo tem uma única imagem, sem direito a replay, no caso estava bem posicionado e com clara visão do lance. Vejo o goleiro sair de forma imprudente do gol, mas atingindo primeiro o seu zagueiro, já o atacante depois de tocar a bola pisa no pé do goleiro, se desequilibrando e caindo inclusive para trás. Ou seja, na minha visão, a penalidade não ocorre em função do Maurício se desequilibrar ao pisar do goleiro, onde poderia ter sido até marcada uma falta do atacante. E acredito que essa deve ter sido a visão do árbitro em campo.

Por ser um lance que cabe interpretações, não há erro claro e óbvio, mas sem dúvida que o VAR poderia ajudar através da tecnologia avançada e com ângulos distintos não somente neste jogo como em tantos outros.

Em relação à Champions League Feminina, a questão não é somente não ter o VAR nos jogos da semifinais que aconteceram nessa semana, onde um polêmico lance de pênalti para o Barcelona no jogo contra o Wolfsburg aconteceu, mas principalmente pela diferença da importância dada a Champions Masculina, na qual o VAR esteve presente, em comparação com a Feminina.

Na jogada polêmica, depois da cobrança de escanteio e um desvio no meio do caminho, a bola tocou do braço da zagueira da equipe alemã, que se encontrava aberto, ampliando o espaço corporal. Esse toque, além de rápido, ocorreu no braço que estava virado para a linha de fundo, ou seja, dificultando a visualização do lance pela árbitra e a penalidade não foi assinalada. Com o VAR, provavelmente a jogada seria revista e a equipe catalã um pênalti a seu favor.

Um dos princípios do futebol é a igualdade, algo que o VAR até o momento não trouxe em função do seu alto custo. Mas como escolher ou optar por qual competição usar a ferramenta ou não, já que o grau de importância e a igualdade deveriam ser os mesmos? Sabemos que nem o VAR será capaz se acabar com as polêmicas, porém que ajuda à corrigir erros, não se pode negar.

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Pênaltis marcados ou não em campo e o silêncio do VAR

Renata Ruel

O Brasileirão está em sua quarta rodada e as decisões polêmicas dos árbitros seguem sendo assunto, porém com uma atuação mais discreta do VAR em alguns lances.
No jogo Athletico-PR x Palmeiras, a equipe paranaense reclama de um pênalti não marcado, pelo árbitro Caio Vieira, de Patrick de Paula no Cittadini. Na minha opinião penalidade, pois o jogador palmeirense faz uma carga nas costas do atacante de forma ilegal, ou seja, faltosa. Seria a chamada “faltinha”, mas faltinha também é falta e deve ser marcada seja fora ou dentro da área.

No jogo de Corinthians x Coritiba, um pênalti assinalado pelo árbitro Bráulio Machado à favor da equipe paulista foi muito contestado. Não vejo contato faltoso no lance, não há “cama de gato”, empurrão,  carga ou um segurar. Ocorre um contato de jogo, que não caracteriza infração na minha visão.

A semelhança nos dois lances é o fato do VAR manter a decisão de campo em ambos. O protocolo exige a checagem pela equipe da cabine em lances de área, ou seja, possíveis penalidades, porém, diferentemente do ano passado, observa-se uma interferência menor das equipes de árbitros de vídeos. Isto significa  que o VAR está mantendo a decisão do campo em lances “interpretativos”, onde não há, na maioria das vezes, erros claros e óbvios.

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O pênalti de Rhodolfo, do Coritiba sobre Arrascaeta, do Flamengo, pela terceira rodada, onde o jogador flamenguista é seguro e há impacto no seu movimento, é o típico lance a ser visto e marcado no campo, algo que não ocorreu. Este lance ainda traz a questão se o erro foi claro e óbvio, qual o motivo de o VAR não chamar? O árbitro em campo deve narrar ao árbitro de vídeo o que viu do lance. 

Exemplificando: “Vi uma carga não faltosa, na sequência um segurar que não foi o suficiente para dificultar o movimento do jogador. Então, para mim, lance normal.”. A cabine analisa a imagem, vê as mesmas coisas, porém entende que há infração. O que vai adiantar sugerir a revisão do árbitro se a imagem de vídeo vai mostrar o que ele viu em campo, mas interpretou que não houve infração? Absolutamente nada, isto é, mantém a decisão de campo e se houve divergências nas opiniões significa que o erro pode não ser tão claro e óbvio assim.

VAR em silêncio, agindo somente em erros claros é o que diz o protocolo e tanto foi pedido o ano passado. A ferramenta não veio para zerar os erros ou legitimar resultados injustos, mas diminuí-los.

Contudo, a qualidade e os acertos da arbitragem em campo terão que ser superior ao que vemos. Os assistentes ainda poderão se escorar no VAR, se errar em campo o vídeo irá corrigir por ser factual, já os árbitros precisarão realmente tomar decisões assertivas em campo, esquecendo o “VAR dependência”.

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No 'novo normal', a arbitragem segue com os 'erros normais'

Renata Ruel
Renata Ruel
Kaio Jorge em ação durante o jogo Internacional x Santos
Kaio Jorge em ação durante o jogo Internacional x Santos Santos

O futebol voltou no nosso “novo normal” em função da pandemia, mas a arbitragem continua cometendo alguns “erros normais”, ou melhor, antigos.

Internacional e Santos se enfrentaram pela segunda rodada do Brasileirão e a equipe santista teve o gol de Kaio Jorge anulado pelo VAR por ocorrer um toque de mão acidental do atacante. Realmente, a regra não permite um gol oriundo ao toque de mão/braço. A questão é que Marcelo Lomba, goleiro do Inter, ao disputar a bola com Kaio Jorge, o acerta com a perna na região do abdômen e a bola com os braços, cometendo uma infração dentro da área na minha visão, ou seja, pênalti. Em campo, o gol foi dado, porém a revisão do VAR anulou pelo toque no braço factual. O ponto a ser discutido é: por quê o VAR não sugeriu a revisão ao árbitro para analisar a ação da perna do goleiro no atacante? 

Quando cito “erros normais" estou me referindo ao gol anulado do Palmeiras contra o mesmo Internacional, porém em 2019, onde a bola bate no braço do Willian e na sequência Bruno Henrique faz o gol. Willian havia sofrido falta no lance e, após revisão do VAR, o gol foi corretamente anulado. Entretanto, o jogo foi reiniciado com bola ao chão, ao invés de falta para o Palmeiras.

O gol do Santos foi corretamente anulado, mas faltou a revisão para analisar a possível penalidade, que na minha visão ocorreu. Ou seja, nos dois lances citados, o foco ficou somente no braço/mão factual, e a arbitragem não teve a sensibilidade de analisar o lance como um todo e reiniciar da forma correta: um pênalti para o Santos e uma falta para o Palmeiras.

É compreensível ser começo de campeonato e a arbitragem sentir falta de ritmo, assim como os jogadores. Porém, as equipes de arbitragem, atualmente, são compostas por quatro árbitros em campo e mais três no VAR, totalizando sete pessoas e monitores de vídeos para rever as jogadas. Alguém precisa estar atento para não deixar nada passar.

Que no “novo normal", os erros passados sejam aprendidos.

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Apesar de 'veto' do Palmeiras, árbitros de polêmica final de 2018 são escalados contra o Corinthians

Renata Ruel

A final do Paulistão 2018 ficou marcada na história, mas não simplesmente pelo título corintiano, e sim pela grande polêmica que envolveu a equipe de arbitragem.

Árbitro Marcelo Aparecido conversa com jogadores de Corinthians e Palmeiras na final do Paulista de 2018
Árbitro Marcelo Aparecido conversa com jogadores de Corinthians e Palmeiras na final do Paulista de 2018 Gazeta Press

Naquele jogo não havia VAR, e após a marcação de pênalti em Dudu, o juiz Marcelo Aparecido voltou atrás na sua decisão alegando que o quarto árbitro (Adriano Miranda) o avisou do erro - e muitos acreditam que possa ter ocorrido uma interferência externa, algo proibido pela regra.

Os árbitros assistentes daquele jogo eram Anderson Moraes Coelho e Daniel Paulo Ziolli (veja abaixo a escala completa). O Palmeiras, após o ocorrido, solicitou que essa equipe de arbitragem fosse vetada em seus jogos.

Escala de arbitragem da segunda partida final do Paulistão de 2018
Escala de arbitragem da segunda partida final do Paulistão de 2018 Reprodução FPF

Para o primeiro confronto da final do Paulistão 2020 entre Corinthians e Palmeiras, além da escalação do árbitro Raphael Claus após suas recentes polêmicas, os dois assistentes da final de 2018 também foram escalados.

Ou seja: o primeiro jogo da final contará com Claus no apito, Daniel Ziolli como assistente 2 e Anderson Moraes como quinto árbitro (ambos estavam na final de 2018), juntamente com Vinicius Gonçalves de quarto árbitro (apitou a semifinal Corinthians 1x0 Mirassol) e Thiago Peixoto como responsável pelo VAR (mesma função que exerceu no jogo RB Bragantino 0x1 Corinthians).

Escala da arbitragem para o primeiro jogo da final do Paulistão de 2020
Escala da arbitragem para o primeiro jogo da final do Paulistão de 2020 Reprodução FPF

Não se questiona a competência desses árbitros. Entretanto, após tantas polêmicas, a Federação Paulista (FPF) não poderia ter escalado outros árbitros? Não há mais sorteio, a escala é direcionada - cumprindo o Estatuto do Torcedor por audiência pública, onde a comissão vai a público dizer quais são os árbitros que decidiu escalar para cada partida. A Comissão de Árbitros precisa se atentar a todos os detalhes: gestão e escala não passa simplesmente por colocar algumas preferências nos papéis, há necessidade de conhecer a história do futebol e da arbitragem.

Os mesmos árbitros dos últimos jogos do Corinthians foram escalados para a final, mudando em alguns casos as funções, e Ziolli e Moraes estavam na polêmica de 2018. A partida envolve grande rivalidade, e ao escalar sempre os mesmos dá uma sensação de que no quadro de 600 árbitros da FPF somente esses são capazes de fazer os grandes jogos, até desgastando suas imagens.

Corinthians x Palmeiras: Renata Ruel analisa 'escalação polêmica' do árbitro Raphael Claus para a ida da final

Se a Federação queria escalar os seus árbitros FIFA para as finais, ainda conta com Luiz Flávio de Oliveira, provável nome para o segundo jogo, e Flávio Souza - que vem de boas atuações e poderia ser o nome do primeiro jogo. E, de repente, por que não colocar a Edina Alves, que foi muito bem no Brasileirão 2019?

Opções têm, e um desgaste poderia ter sido evitado com essa escala, onde certamente o Palmeiras vai questionar os dois assistentes envolvidos na final de 2018, e a arbitragem poderia ser preservada.

Agora é esperar pelo jogo. Que as equipes joguem bola e a arbitragem cumpra as regras, tanto no campo como no VAR.

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A ausência do VAR influenciou na classificação dos times para as quartas de final do Paulistão?

Renata Ruel
Renata Ruel
Uso do VAR durante o Campeonato Brasileiro
Uso do VAR durante o Campeonato Brasileiro Getty

A última rodada da primeira fase do Campeonato Paulista foi recheada de polêmicas, sendo que alguns lances tiveram influência direta no resultado final da partida.

O VAR (árbitro de vídeo) não é 100% eficaz, mas sem dúvida ajuda a retificar muitos erros que ocorrem no campo durante uma partida.

No jogo com maior quantidade de polêmicas, Palmeiras 2 x 1 Água Santa, no final do primeiro tempo a equipe alviverde pediu um pênalti que não foi marcado. Willian arremata no gol, o zagueiro salta na trajetória da bola em ação de bloqueio, ampliando o espaço corporal e a bola toca no seu braço, por mais que ele tente tirar o braço após o toque, o jogador assumiu o risco com a sua ação e com o braço ampliando o espaço corporal, ou seja, na minha visão foi pênalti. Este lance ainda conta com um agravante de o chute ter a direção do gol e não haver nenhum outro jogador para uma possível defesa (nem mesmo o goleiro), isso significa que esse braço impediu um gol e o zagueiro deveria ser expulso.

Outro lance deste jogo ocorre quando o árbitro assinalou falta a favor do Palmeiras, mas fora da área e pelas imagens a sensação é que ocorreu dentro área, seria mais um pênalti não dado. E por fim, agora sim o pênalti marcado pelo árbitro à favor do Palmeiras, onde o zagueiro está em movimento de cabeceio, sem estar em uma ação de disputa ou bloqueio, com o braço em movimento natural cabeceia a bola contra o próprio braço, o que a regra entende por braço acidental que não deva ser marcada a infração. Três lances onde o VAR poderia ter agido caso estivesse sendo utilizado.

As outras duas partidas onde o VAR poderia fazer a diferença foram: São Paulo x Guarani, onde a equipe de Campinas teve o que seria o gol de empate anulado por impedimento que não ocorreu, a posição do jogador era legal, o assistente não estava posicionado na linha, isso pode ter gerado paralaxe e entendimento errado do lance; e para fechar a derrota do Santos por 2 x 3 contra o Novo Horizontino, onde o árbitro assinalou pênalti contra a equipe santista, porém a bola bate na barriga do zagueiro e não no braço como entendeu a equipe de arbitragem.

Lance do gol anulado do Guarani contra o São Paulo
Lance do gol anulado do Guarani contra o São Paulo Reprodução

Alguns são à favor do VAR, enquanto outros acreditam que ele estraga o futebol. Uns dizem o VAR tira a emoção do jogo, mas não tem como negar que a ferramenta, mesmo não sendo perfeita, ajuda a corrigir erros do campo, a legitimar resultados e de repente mudar o rumo de um campeonato.

A partir das quartas de final do Paulistão o VAR estará presente, com um formato diferente do que estamos acostumados no Brasil, isto é,  será centralizado na sede da Federação Paulista e além do VAR (árbitro de vídeo principal), só haverá o AVAR1 (um assistente/bandeirinha de vídeo), aqui no Brasil normalmente este assistente é o AVAR2, enquanto o AVAR1 é o um árbitro que será do assistente do VAR, isso significa que haverá um a menos na cabine do VAR para tomar decisões.

As quartas de final serão jogos únicos, uma decisão errada seja por parte da arbitragem ou de um jogador ou até mesmo na escalação ou substituição do treinador pode definir o resultado da partida e a classificação de uma equipe. Tudo isso ajuda a tornar o futebol tão emocionante como ele é.

A seguir a escala das quartas de final, que poderia ter sido diferente com o VAR, e do Troféu do Interior:

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Preparação dos árbitros e VAR centralizado: entrevista com Ana Paula de Oliveira, presidente da comissão de arbitragem da FPF

Renata Ruel
Renata Ruel

Em entrevista, Ana Paula de Oliveira, presidente da Comissão de Árbitros da Federação Paulista de Futebol, conta como foi o trabalho desenvolvido com os árbitros durante o período de isolamento em função da pandemia, o que está sendo feito desde o dia 15 de julho, em Águas de Lindoia, onde estão concentrados e permanecerão até o final do Campeonato Paulista, o protocolo para os jogos e ainda o VAR centralizado para as fases finais do estadual.

Renata Ruel: Ana, como foi o trabalho realizado com a arbitragem durante o período de isolamento social em função da pandemia?

Ana Paula: Nós começamos este momento no dia 16 de março, ali a primeira atitude nossa foi reunir os instrutores, os membros da comissão pois, o nosso desafio era manter esse grupo unido, bem informado e ativo. Então, a partir daí, a gente começou de uma maneira muito simples que foi análises de vídeos por questionários: os árbitros analisavam os vídeos como se fosse um vídeo teste, mas no quesito mesmo de análise, além disso era necessária a justificativa, porque era para estimulá-los a se manterem estudando e, os vídeos eram os deles no campeonato paulista.

Passado um período, nós entendemos que só isso não era o suficiente e precisava de contato direto. Foi então que surgiu a ideia da live “De cara com a Ana”, onde a comissão entendeu que deveria abrir para que os árbitros fizessem perguntas. No primeiro momento a conversa aconteceu com os quadros da A1, A2 e A3. Depois nós abrimos para o quadro básico e fizemos também com os analistas.

Daí surgiram as lives técnicas, físicas e psicológicas. Por exemplo, na parte física fizemos ciclos monitorados, a cada semana iam informações do que eles deveriam fazer, tanto num espaço pequeno como num espaço maior. Trabalhos na parte cognitiva também, foram feitos exercícios para manter concentração, foco, atenção dividida. A nossa comissão teve também uma iniciativa de ligar para todos os árbitros, foram mais de 600 ligações para saber como estava cada um neste momento novo, nós nos preocupamos com o humano, além do trabalho como árbitro.

Nas lives técnicas emplacamos um questionário, onde o departamento de Ciência e Estatística, que hoje trabalha com a gente, detectou que o ideal era propor uma atividade por semana para cada grupo, junto com um bate-papo. Foi um momento de nos reinventarmos como professores, utilizando o ensino à distância. Com a série A1 eu consegui trabalhar em cima de uma possível breve retomada, na A2 e A3 problemas específicos das categorias e na base até um trabalho voltado na escola, esmiuçando a regra para essa categoria que era mais carente.

Nos reinventamos como gestão, como produto de ensino, nos reinventamos como olhar para esse árbitro então foi um crescimento mútuo.

Raphael Claus será o árbitro do clássico Corinthians x Palmeiras, na volta do Paulistão
Raphael Claus será o árbitro do clássico Corinthians x Palmeiras, na volta do Paulistão Gazeta Press

Renata Ruel: Com a notícia da retomada do Paulistão, o que passou a ser feito?

Ana Paula: Com a notícia da retomada do Paulistão, nós já tínhamos um trabalho bem alicerçado tanto na parte física como na técnica, estávamos semiprontos, mas precisávamos de uma concentração. Porque concentração é você tirar esse profissional que estava 100 dias isolado, trazer para o ambiente deles. Agora estamos com três campos aqui na concentração em atividade full time. Criamos uma divisão de seis grupos: foram selecionados 36 profissionais (árbitros e árbitros assistentes). As atividades são feitas em dois turnos. Fica um grupo por campo, ou seja, não tem aglomeração. Um campo só para tratar de questões técnicas, então estou trabalhando o físico com o técnico e dois campos só para trabalhar a parte física, um voltado mais para força, velocidade e intensidade, o outro mais voltado para o CORE respeitando a particularidade de cada árbitro. Estamos tendo o cuidado de controle de carga.  Nas primeiras noites as aulas foram on-line, seguindo à risca o protocolo, com os árbitros isolados nos seus quartos. Na segunda semana entramos na segunda fase do protocolo, que é trabalhar com o pessoal mais próximo, porém respeitando o distanciamento de 2 a 3 metros, sem ser cada um no seu quarto.

Renata Ruel: Qual é o protocolo que está sendo utilizado para essa retomada?

Ana Paula: Primeiro quero agradecer ao presidente Reinaldo por toda essa estrutura, onde foram feitos dois testes da Covid-19 com os árbitros, o primeiro de PCR – tipo de exame de diagnóstico da doença - dez dias antes da concentração, o outro dois dias antes (13 de julho), porque poderia ocorrer de alguém ficar contaminado nesse intervalo, o que ocorreu. Nós tivemos no primeiro teste um caso positivo, de 44 árbitros. Fomos para o reteste, por medida de segurança e, um profissional que no primeiro não tinha acusado, testou positivo e este profissional já estava conosco para a seleção pois, a gente selecionou 36 dos 44 pautados em excelência técnica, comprometimento com as atividades durante o período de isolamento, conhecimento e curso VAR, porque teremos o VAR na segunda fase do Paulistão. Não tinha como ter os 44 árbitros até por questão de segurança, mas o Daniel Luis Marques que estava entre os 36 acabou testando positivo, uma perda para nós! Mas o grupo está muito unido. O sentimento aqui é de que nós estamos trabalhando pelos 44 e pelos 600 árbitros paulistas. Então, o mínimo que podemos fazer pelo Daniel é um bom trabalho, não só por ele, mas por todos os profissionais que não puderam estar aqui.

A gente fez um trabalho de segurança, prévio, forte. Fizemos um monitoramento a cada 3 dias com preenchimento do questionário epidemiológico, que foi proposto pelo comitê de médicos da Federação Paulista para verificar se teve coriza, tosse, febre ou não. Estamos com uma médica do esporte aqui 24h, não só para questões físicas, como para controle da COVID-19 e os árbitros foram testados duas vezes antes de chegarem aqui.

Teremos uma zona azul de acesso nos estádios, onde só entrarão atletas e árbitros. Então, neste primeiro momento, não haverá um teste atrás do outro. Vamos monitorar. Os árbitros receberam kits com máscara e álcool gel, os copos são individuais, tem álcool gel em todo lugar, o cuidado preventivo está sendo feito. Fizemos a locação de oito veículos, cada equipe vai usar um carro para ir aos jogos e quando esse carro retornar passará pelo processo de higienização.

Se alguém apresentar algum sintoma, vamos encaminhar imediatamente para fazer o teste, até porque não podemos pensar só no profissional, mas também em toda equipe que está aqui concentrada.

Outro ponto positivo é que estamos trabalhando com um formato torneio, então a gente começa dia 22 (retomada das partidas), onde esses profissionais vão para os jogos e no dia 27 teremos um primeiro corte de árbitros, de 36 ficarão 26. Vamos para as quartas de final, terminado essa fase dos 26 árbitros passarão a ser 16 e estes ficarão conosco até o dia 08 de agosto (término do Paulistão).

Os assessores de arbitragem serão online, tendo todo um trabalho de jogo prévio e uma devolutiva individual online. Na concentração faremos uma devolução geral com todo o grupo, com os pontos positivos e a melhorar para a próxima rodada.

Os árbitros vão sair da concentração com todos os cuidados, de agasalho, com máscaras. O aquecimento e o jogo sem máscaras, mas em todos os outros momentos os árbitros as usarão.

Renata Ruel: O VAR (árbitro de vídeo) será centralizado a partir das quartas de final?

Ana Paula: Tudo indica que o VAR será centralizado (na sede da Federação Paulista), a sala do VAR já está pronta, montada. Nós estamos discutindo agora as questões voltadas para a tecnologia. Vamos testar o VAR centralizado já no dia 22 e 23 de julho, na 11° rodada, para verificar quais são os pontos que ainda podem ser aprimorados para as quartas de final no dia 29. Estamos trabalhando duro para o VAR centralizado ocorrer no dia 29. Estamos treinando os árbitros, testando tecnologia e vamos fazer tudo com muita segurança para melhor atender aos clubes, ao telespectador, ao público. Então, estamos trabalhando para um Paulistão com o VAR centralizado sim.

Renata Ruel: Tem mais alguma coisa que gostaria de compartilhar?

Ana Paula: Tivemos a notícia da retomada da A2, então já estou pensando nessa retomada, esperando que seja um cenário mais flexível. Que seja um processo mais tranquilo para todos, jogadores, comissão técnica, arbitragem, mas sempre com muita segurança. A palavra de ordem da Federação Paulista é segurança.

Estou muito confiante que faremos uma boa competição e, principalmente, com segurança.

Escala dos árbitros para a rodada de volta do Campeonato Paulista
Escala dos árbitros para a rodada de volta do Campeonato Paulista Reprodução

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Preparação dos árbitros e VAR centralizado: entrevista com Ana Paula de Oliveira, presidente da comissão de arbitragem da FPF

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Gabigol foi expulso por reclamação e não por 'cera' na substituição

Renata Ruel

O primeiro jogo da final do Campeonato Carioca foi difícil para a arbitragem, principalmente no final do jogo, quando os ânimos estavam bem acirrados.

Flamengo ganhando o jogo por 2 a 1 e aos 47 minutos do segundo tempo sobe a placa de substituição da equipe rubro-negra. A arbitragem não levantou a placa errada: o jogador a ser substituído era mesmo o número 9, ou seja, Gabigol; algumas federações e a CBF têm, inclusive, um papel onde a própria equipe preenche com os dados de substituto e substituído para que não haja um possível erro dos oficiais.

Jorge Jesus, à beira do campo, conversa com Rodrigo Caio passando orientações táticas em função da alteração, algo visível nas imagens, e era somente isso que fazia ali.

Porém, as imagens não mostram o árbitro Wagner do Nascimento Magalhães e Gabriel Barbosa durante esse momento da substituição, e quando eles aparecem fica difícil saber o que ocorreu naquele período. E o atacante do Flamengo acaba sendo expulso.

Conforme apurei, Gabigol foi expulso, após receber o segundo amarelo, por reclamação, e não por fazer "cera" na substituição (retardar o reinício de jogo).

Expulsão justa? Veja no detalhe como subiu a placa e quanto tempo Gabigol demorou para deixar o gramado (Assista abaixo)


         

É possível ver na imagem jogadores do Fluminense reclamando com e do atacante rubro-negro. Outro ponto é que Jorge Jesus, depois do jogo durante a entrevista, não faz nenhuma reclamação acintosa sobre a expulsão.

E por que não recordar a expulsão de Gabigol na final da Libertadores 2019 e ainda a quantidade de cartões no Brasileirão 2019? Isso, de repente, pode ajudar a analisar mais essa expulsão por reclamação.

Gabigol e Jorge Jesus reclama com o árbitro Wagner do Nascimento Magalhães após o Fla-Flu
Gabigol e Jorge Jesus reclama com o árbitro Wagner do Nascimento Magalhães após o Fla-Flu Gazeta Press

Muitas vezes, no campo e durante o jogo, a partida apresenta situações ou momentos dificílimos, que quem está assistindo de fora não consegue ter noção das proporções das reclamações e do grau de dificuldade daquele jogo para a arbitragem.

Em alguns jogos, o desgaste mental da arbitragem é maior do que o físico justamente pelo grau de dificuldade do jogo, mas quem está assistindo da arquibancada ou TV não se dá conta disso. E falo isso por já ter vivenciado muitas vezes essas situações.

Como diz a frase: “Nem tudo o que parece, é.” 

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Gabigol foi expulso por reclamação e não por 'cera' na substituição

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As questões do polêmico pênalti marcado contra a Juventus no clássico de Turim

Renata Ruel

No último sábado, dia 04 de julho, a Juventus enfrentou o Torino e venceu por 4 a 1. O gol dos perdedores foi marcado após um pênalti polêmico marcado pelo árbitro.

Pelas fotos colocadas abaixo, observa-se que o atacante do Torino chuta a bola em direção ao gol, ela toca na perna do zagueiro e sobe para o braço do mesmo. Ele, em ação de bloqueio, se encontrava com o braço em posição antinatural, isto é, ampliando o seu espaço corporal.

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A regra do jogo, que é bem subjetiva e facilmente gera interpretações distintas, traz em seu texto sobre mão/braço alguns pontos relevantes:

“Normalmente haverá infração se o jogador:

• a mão/braço estiver em posição antinatural e com isso ampliando o espaço do corpo;

As infrações acima também se caracterizam quando a bola tocar na mão/braço de um jogador, vinda diretamente da cabeça, do corpo (inclusive do pé) de outro jogador que esteja próximo dele. 

Exceto nas situações acima, normalmente não se considerará infração se a bola tocar na mão/braço:

• diretamente da cabeça ou corpo (inclusive o pé) do próprio jogador;
• se a mão/braço estiver junto ao corpo sem ampliar o espaço em razão de uma posição antinatural.”

Existe a dúvida se quando a bola bater em alguma parte do corpo e em seguida tocar a mão ou braço do jogador, o árbitro deve ou não marcar a infração.

Quando o jogador estiver em ação de bloqueio, como nesse caso do zagueiro da Juventus após um arremate a gol, com o braço em posição antinatural e ampliando o espaço corporal, mesmo que a bola rebata em outra parte do corpo antes de tocar o braço, a infração deverá ser marcada.

Esse lance do Campeonato Italiano se encaixa na descrição acima, então a penalidade foi bem marcada. 

Simples? Não, em lances de mão/braço vários pontos devem ser analisados. Por exemplo: se foi ação de bloqueio ou ação de disputa, se foi acidental ou voluntário, se houve fator surpresa, qual a distância da origem, de quem vem a bola...

Ao fazer a enquete sobre esse lance no meu Instagram, a maioria não marcaria o pênalti.


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A regra da mão/braço ainda gera dúvida, polêmica e por isso é importante que as diretrizes sejam claras, uniformes e de grande acesso. E é como sempre digo “se concordamos ou não com as regras é discutível, mas elas precisam ser cumpridas, principalmente pelos árbitros”.

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Fifa apresenta tecnologia semi-automatizada para impedimento

Renata Ruel

Os países dispõem de tecnologias distintas para o uso do VAR, e a melhor pode ter um custo alto para alguns lugares. E essa tecnologia ainda não é 100% exata para fins de impedimento conforme a Regra do Jogo do futebol, pois o frame onde seria o primeiro contato do jogador com a bola nem sempre está no ponto certo.

Além disso, é o árbitro quem define qual parte do corpo do jogador está mais próxima da linha de fundo para ser traçada a linha, e ocorrem divergências algumas vezes em relação a esse ponto exato dentro da cabine.

A Fifa tem buscado a mais precisa tecnologia para o uso do VAR. Depois do primeiro teste da tecnologia de impedimento semi-automatizado no Mundial de Clubes em dezembro de 2019 no Catar, ela organizou outra demonstração de uma avançada tecnologia de impedimento. Devido às atuais restrições de viagens em função da pandemia, a Fifa convidou os membros do Grupo de Trabalho para a Excelência em Inovação para uma videoconferência online, que foi o terceiro evento de apresentação no roteiro de 2022/23.

Não valeu! Muller aciona Pavard, que encontra Lewandowski livre na pequena área, mas juiz assinala impedimento

Após a bem-sucedida implementação do sistema de árbitros assistentes de vídeo (VAR) e sua incorporação às Regras do Jogo em março de 2018, a Fifa quer melhorar ainda mais a tecnologia em todos os níveis. Em particular, o desenvolvimento de uma tecnologia de impedimento semi-automatizada deve fornecer ao VAR informações adicionais e mais precisas para auxiliar o processo de tomada de decisão do árbitro e tornar o processo de revisão o mais eficiente possível.

Em 22 de junho, a Fifa organizou uma demonstração remota da avançada tecnologia de impedimento, hospedada por um dos fornecedores, para o Grupo de Trabalho para a Excelência em Inovação. Um dos vários provedores de tecnologia concorrentes apresentou um sistema de tecnologia de impedimento semi-automatizado para 50 participantes de todo o mundo.

O grupo teve a oportunidade de aprender sobre o status atual de desenvolvimento da tecnologia e fazer perguntas detalhadas. O provedor de tecnologia, que já utiliza um sistema virtual de impedimento (VOL) certificado pela Fifa, demonstrou vários aspectos do processo de desenvolvimento e das tecnologias envolvidas, com o objetivo de entregar uma decisão de impedimento semi-automática dentro do menor atraso possível, para que os árbitros em campo possam ser rapidamente auxiliados em situações relevantes.

Tecnologia apresentada sobre situação de impedimento com 'esqueleto' do jogador
Tecnologia apresentada sobre situação de impedimento com 'esqueleto' do jogador Renata Ruel

Um dos principais desafios no desenvolvimento de uma avançada tecnologia de impedimento é a detecção precisa e automatizada do ponto de partida. O fornecedor de tecnologia informou ao grupo sobre possíveis soluções, como rastrear dados da tecnologia de sensores ou dados de vídeo de sistemas de câmeras. 

Além disso, um sistema precisa identificar corretamente qual parte do corpo coloca um atleta em jogo ou fora de jogo. Testes de precisão mostraram que operadores humanos tendem a escolher diferentes partes do corpo para as linhas de impedimento. Também foram feitos progressos nessa área, com o sistema automatizado apresentado aprendendo a modelar corretamente o esqueleto de um jogador. No futuro, os algoritmos desenvolvidos do sistema devem ser capazes de identificar automaticamente qual parte do corpo colocou o jogador em impedimento e a que distância.

"O objetivo é desenvolver uma ferramenta de suporte semelhante à tecnologia da linha de gol: não projetada para tomar a decisão, mas para fornecer evidências instantaneamente aos árbitros", era a mensagem clara da reunião. A Fifa e a International Board (IFAB) sempre sustentaram que a decisão final permanecerá com o árbitro, com a introdução de tecnologia para fornecer aos oficiais o melhor suporte disponível. Outra consideração importante para a Fifa e as partes interessadas é como melhor apresentar essas situações aos torcedores dentro do estádio e em frente à televisão.

Tecnologia apresentada sobre situação de impedimento com 'esqueleto' do jogador
Tecnologia apresentada sobre situação de impedimento com 'esqueleto' do jogador Renata Ruel

"Esses eventos são uma oportunidade muito boa para o Grupo de Trabalho da Fifa entender melhor a complexidade e o status de desenvolvimento de novas tecnologias e fornecer uma plataforma para discutir novas inovações no futebol diretamente com a indústria", disse Johannes Holzmüller, diretor de tecnologia e inovação do futebol da federação.

A próxima reunião do Grupo de Trabalho da Fifa está prevista para o início de julho, e mais testes e demonstrações estão agendados para o segundo semestre deste ano.

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Fifa apresenta tecnologia semi-automatizada para impedimento

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Os pênaltis não marcados na Premier League

Renata Ruel
Renata Ruel

As polêmicas em dois jogos da Premier League fazem refletir se somente o protocolo do VAR é diferente do resto do mundo ou se também as Regras do Jogo foram alteradas por lá sem que o mundo soubesse.

No jogo entre Liverpool e Crystal Palace, a polêmica ocorreu aos 35 minutos, quando Cahill, após chute de Firmino, coloca o braço na bola dentro da sua área penal. Esse braço do zagueiro é aquele que antigamente até chamávamos de “braço intencional”, é uma mão voluntária pela regra de hoje, ação deliberada e ainda cria um bloqueio para a passagem da bola. O árbitro não marcou em campo e o VAR acatou a decisão. Lembrando que no protocolo do VAR na Inglaterra, o árbitro não precisa ir olhar o vídeo e aceita a decisão do árbitro de vídeo mesmo que essa seja contrária à sua no campo.

Não é pênalti? Em Liverpool x Crystal Palace, Firmino tenta balãozinho, Cahill corta com o braço e árbitro manda seguir

No outro jogo da Premier League, entre Leicester e Brighton, houve outra polêmica em lance de braço dentro da área. Nos acréscimos do segundo tempo, Dunk desviou a bola na área com o braço e os jogadores do Leicester pediram o pênalti. O árbitro mandou seguir e não houve intervenção do VAR. Para mim, outro pênalti não marcado. Houve uma ação de bloqueio, na qual o jogador amplia o espaço corporal em um movimento nada natural.

VAR para quê? Jogador do Brighton se atira com a mão na bola, mas juiz 'ignora' recurso de vídeo

Como o protocolo da International Board (que vale para todos os torneios de filiadas da FIFA) diz, e essa parte não foi modificada no Inglês, o VAR deve atuar somente em erros claros e óbvios, não agindo em lances que cabem interpretações. Porém, o VAR não atuou em nenhum dos dois lances polêmicos, nos quais para mim foram erros claros e óbvios, sim, na tomada de decisão dos árbitros em campo. Ou seja, o VAR deveria ter interferido prontamente, a não ser que a regra na Inglaterra de mão/ braço na bola também tenha sido modificada. Sim, estou sendo sarcástica em relação aos ingleses mudarem a regra, pois em qualquer outro lugar do mundo, pênaltis seriam marcados nesses lances, mas lá não foram.

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Em um jogo ocorrem 1.200 situações passíveis de intervenção do árbitro. Quais fatores influenciam a tomada de decisão?

Renata Ruel
Renata Ruel
Pedro Henriques Duarte Araújo, ex-árbitro e hoje instrutor
Pedro Henriques Duarte Araújo, ex-árbitro e hoje instrutor ESPN

Tomada de decisão é umas das coisas mais recorrentes e importantes no campo de jogo, seja por parte dos jogadores ou da equipe de arbitragem. Uma tomada de decisão equivocada pode comprometer um lance, um jogo ou até mesmo o resultado final da partida. Estudos mostram que existem em um jogo mais de 1.200 acontecimentos passíveis de intervenção do árbitro.

Para conhecer mais sobre o assunto, conversei com Pedro Henriques Duarte Araújo, português de 54 anos. Ele foi oficial do exército e árbitro de futebol profissional durante 20 anos. Atualmente é comentarista e colunista esportivo, instrutor de arbitragem, docente em universidade de Portugal e autor dos livros “O Treino da Tomada de Decisão do Árbitro de Futebol”, “Árbitro de Bancada” e com participação no livro “A Ciência da Arbitragem em Portugal”.

Renata Ruel: Quais as diferenças das tomadas de decisões dos árbitros para os jogadores durante o jogo?

Pedro Henriques: São áreas distintas a nível da tomada de decisão. O jogador tem que fazer uma interpretação do adversário, técnica e individual de passe, recepção, arremate, cruzamento, etc. Tem que fazer também uma interpretação tática na ligação com seus colegas, com as instruções recebidas pelos seus treinadores e depois precisa processar isso fisicamente. Os árbitros são circunstâncias distintas, mas acabam por desenvolver as mesmas bases, porque os jogadores partem da base cognitiva e física e os árbitros também. Mas o árbitro tem que fazer a interpretação, conhecer as leis do jogo e o regulamento, tem que conhecer o jogo, porque não basta conhecer as 17 regras, se faz necessário a sensibilidade e o bom senso. Como alguns dizem que seria a 18º regra, que não existe, mas no fundo existe na perspectiva de conhecimento do jogo, dos próprios jogadores, das suas manhas, de como está o jogo e junto com isto tudo fazer uma interpretação cognitiva das regras, ver se há ou não faltas, se há impedimento ou não, etc. E depois a questão física em se movimentar e estar em qualquer parte do campo de jogo para melhor poder decidir e depois ainda tomar a decisão. Portanto, de uma maneira geral, é distinta a tomada de decisão de um jogador e de um árbitro, mas tem os aspectos em comuns, que são os cognitivos e a exigência física.

Renata Ruel: Qual a influência da emoção na tomada de decisão?

PH: As emoções obviamente que são extremamente importantes. Nós temos um conjunto de características ou habilidades ou componentes psicológicos que são fundamentais. Fatores como concentração, autoconfiança, comunicação, autocontrole são fundamentais para a decisão. Quando falamos de emoções, falamos muitas vezes dos componentes que envolvem o jogo, ou seja, aquilo que é interação do público com o resultado que está acontecendo, a forma como os jogadores estão a reagir. E nós sabemos que a postura, a atitude dos jogadores vai mudando ao longo do jogo e isso tem reflexo na maneira como aceitam ou contestam as decisões da equipe de arbitragem. Por isso é fundamental que um árbitro, independentemente de tudo que envolva, todo o ambiente, o resultado, a importância do jogo, o que está acontecendo, se houve advertências, expulsões, se houve agressões, o árbitro precisa ter a capacidade de não ter a sua tomada de decisão influenciada por esses fatores, ou seja, porque uma equipe está jogando com menos jogadores ou uma equipe reclama mais ou um público assobia mais, o árbitro precisa se isolar desses fatores, o que é algo difícil, mas continue a manter a sua tomada de decisão igual no primeiro e no último minuto, independente de todo o ambiente que o envolve. Isso não é simples, por isso a parte da psicologia e do coaching são muito importantes, as questões da concentração, motivação e ativação são fundamentais e há ferramentas na psicologia que permitem que se treine isso. Se o árbitro permitir se deixar influenciar pelo jogador ou torcedor, provavelmente, ou quase certeza, sua tomada de decisão será afetada. E falar em afetar a decisão significa falar em erros. Então, é normal que, se um árbitro se deixar envolver pelas emoções, vai errar muito mais.

Renata Ruel: Os jogos de futebol estão voltando, porém sem torcidas nos estádios. A tomada de decisão do árbitro é diferente quando há silêncio e quando há barulho de torcida?

PH: São três as características fundamentais para a tomada de decisão: uma tem a ver com a própria pessoa, com o indivíduo, ou seja, a sua competência, aspectos cognitivos, conhecimento das regras do jogo, sua condição física, etc.; outra tem a ver com a tarefa, o que o árbitro precisa executar conforme as regras do jogo; e por último, o fator ambiente, que pode ser uma questão física em função do calor, chuva, a altitude, mas também pode ser o fator público. Os árbitros normalmente estão em ambientes onde há muitos assobios, contestações de suas decisões em função dos torcedores, há sempre pessoas a gritar, a aplaudir, assobiar, incentivar os jogadores. Quando se tira pelo menos um dos fatores que está presente em todos os jogos, nesse caso o torcedor, fica estranho e, portanto, isso vai afetar a sua concentração.  Podemos dizer que “o barulho do silêncio”, a falta do barulho, acaba por influenciar, sim, a tomada de decisão. Porque ao desaparecer o barulho que está habituado a ouvir ou a ter neste caso o silêncio, onde se ouve os ecos, aparece um fator novo e estranho. O costume é em tomar decisões com o barulho, de repente, com o silêncio, isso afeta a todos e pode acontecer de o árbitro ficar mais desconcentrado em função do fator ambiente ter mudado. Mas isso é algo treinável atualmente. Eu estava acostumado a fazer jogos com 30.000 pessoas. Ao fazer jogos com 300 pessoas, a minha concentração e meu aspecto cognitivo eram afetados, de repente eu estava desconcentrado e não estava focado no jogo e isso leva, obviamente, ao erro. Os árbitros devem estar preparados para este ambiente, buscando se motivar e concentrar, abstraindo-se deste fator.

Renata Ruel: A fadiga física influencia na tomada de decisão?

PH: A condição física entra no aspecto indivíduo nas três características fundamentais para a tomada de decisão. O cansaço é basicamente a falta de oxigênio nos músculos e no sistema nervoso central. Um indivíduo que está menos preparado fisicamente cansa mais rápido e terá falta de oxigênio no músculo e no sistema nervoso central, ou seja, no cérebro. Isso quer dizer que a tomada de decisão deste indivíduo vai ser completamente afetada, pois não terá a mesma percepção nem a mesma velocidade de reação. Hoje, com o VAR, os erros claros e óbvios podem ser corrigidos, os rádios comunicadores com os árbitros assistentes também podem ajudar na tomada de decisão. Mas é importante que o árbitro esteja na sua melhor condição física e cognitiva para estar na parte do campo de jogo que entende ser adequada para analisar melhor a jogada que estiver ocorrendo e tenha a capacidade mental, cognitiva e intelectual para fazer a leitura do lance, a interpretação e tomar a decisão. Isto é, a condição física é extremamente importante para o jogo. Se o árbitro estiver cansado, terá mais dificuldades em decidir e maiores chances de se equivocar. É importante citar que um estudo em Portugal mostrou que o árbitro percorre em média 12 km por jogo, uma distância considerável.

Renata Ruel: As características para atuar como VAR podem ser diferentes dos árbitros que atuam em campo?

PH: É claro que ter sido um árbitro de futebol pode ser um fator relevante para se tornar um árbitro de vídeo (VAR), pois quando estiver na frente do vídeo ter a capacidade de entender as regras do jogo, para saber se o árbitro em campo tomou a decisão correta, isso gera uma grande experiência para ser árbitro de vídeo. Porém, as características são muito distintas, um bom árbitro de campo pode não se dar bem como árbitro de vídeo ou vice-versa. Passa-se de uma situação tridimensional quando está em campo para uma bidimensional no VAR, e são totalmente distintas. Há duas características muito importantes no árbitro de vídeo, uma é perceber o jogo e as regras, a outra é a capacidade mais técnica, que é quando se está analisando um lance e precisa dar uma resposta rápida para dentro do campo se a decisão tomada pelo árbitro foi correta ou não. O árbitro de vídeo tem diversos ângulos, quando estamos em casa analisando um lance, o fato de termos diversos ângulos e a melhor imagem faz com que se analise se a decisão do árbitro em campo foi correta ou não. Então, uma característica muito importante para o árbitro de vídeo é ter a capacidade de pedir ao técnico rapidamente a câmera certa ou as câmeras certas para buscar a melhor repetição, pois o estádio e o árbitro estão esperando uma resposta. Por exemplo, alguns jogos do Benfica ou Sporting chegam a ter 19 câmeras e o árbitro de vídeo não vai poder checar as 19, ver 19 ângulos diferentes, pois não terá tempo para isso, a rapidez é primordial. Então vai verificar 2 ou 3 câmeras que tenha certeza que vão dar os melhores ângulos para a sua tomada de decisão. Por isso, um árbitro de vídeo tem que conhecer muito bem todas as câmeras e os ângulos que elas oferecem. Tivemos erros em Portugal porque o árbitro de vídeo não teve a capacidade de pedir ao técnico de imagem as melhores câmeras com os melhores ângulos e por isso são características diferentes as dos árbitros em campo com os de vídeo. Por estes motivos, os árbitros de vídeo pode ser integrados por ex-jogadores ou ex-treinadores, por exemplo, a equipe do VAR ter um árbitro ou ex-árbitro e um VAR ser uma outra pessoa ligada ao futebol que possa trazer uma outra perspectiva, outra análise daquilo que muitas vezes são características do jogador ou do jogo. Ou seja, ser árbitro de vídeo exige outras características que ter sido árbitro ajuda, mas não é primordial.

Renata Ruel: Como treinar a tomada de decisão?

PH: Uma forma de treinar a tomada de decisão, isso faz parte até do meu livro, é recriar as situações que ocorrem no campo, isto é, recriamos situações de penalidades, escanteios, impedimentos. Isso é feito muitas vezes utilizando jogadores da categoria sub-15 que criam situações de jogo. Depois, equipamos os árbitros com tudo que é utilizado por ele nos jogos. Eles precisam tomar as decisões nos treinos, tudo é filmado e mostrado a eles com um feedback. Em Portugal, normalmente treinamos durante a semana as situações que ocorreram nos jogos do final de semana anterior, ou seja, recriamos para o treino de tomada de decisão além do treino físico. A filmagem ajuda para uma analise mais qualitativa do treino, podendo analisar com calma depois cada árbitro e dar um feedback mais completo. No meu livro ''O Treino da Tomada de Decisão do Árbitro de Futebol', eu falo do treino da tomada de decisão do árbitro, como treinar e com exercícios demonstrativos para alcançar esse objetivo.

Renata Ruel: Um árbitro iniciante tem mais dificuldades na tomada de decisão do que um árbitro de elite? Por que?

PH: É comum dizer que são precisos 10 anos de experiências para que uma determinada tese ou teoria se torne base da ciência. No futebol e na arbitragem é basicamente a mesma coisa. A experiência significa que eu vivi determinadas situações, as quais resolvi de determinadas maneiras, posso ter resolvido bem ou mal. A medida que vou tendo mais experiências eu vou repetindo circunstâncias que ocorreram no jogo. Por exemplo, tem uma situação de um pênalti que eu errei e percebi que meu erro foi em função do meu posicionamento em campo e em outro jogo ocorre uma jogada igual. Eu já vou me posicionar de uma forma proativa em um local que provavelmente vai ajudar a uma melhor tomada de decisão, diferentemente de quando tomei a minha decisão equivocada. Outro exemplo é no conflito entre dois jogadores, o árbitro já havia percebido que se “estranhavam” em campo, mas sequer aplicou advertência verbal e isso culminou em expulsões. Em uma próxima partida que isso acontecer com este árbitro, a experiência deve torná-lo mais proativo para tentar evitar que o conflito aconteça. Ou seja, quando o árbitro vai vivenciando situações com características já presenciadas anteriormente, ele vai criando a capacidade de perceber o que vai acontecer em determinado lance e tem a capacidade por já ter vivido essa experiência de não cometer o mesmo erro e antecipar o cenário. Uma grande capacidade de um árbitro que está na elite é de ser proativo, por já ter tomado decisões e poder pensar se vai repetir a ação ou modificar para não cometer o erro do passado. Além do árbitro experiente ter a capacidade de ter vivenciado ambientes distintos com público, torcida com câmeras e ter a capacidade de se isolar de forma que isso não o afete. O árbitro de elite também consegue lidar melhor com o erro pós jogo, com uma crítica mais dura. O árbitro iniciante ou não tão experiente se deixa influenciar mais por estes fatores, não consegue comer, dormir, treinar. Vai para o próximo jogo ansioso e isso aumentará os erros. O árbitro experiente supera isso de forma mais fácil, não deixando que isso o afete para o próximo jogo. Por isso, a experiência é extremamente importante para um árbitro de futebol.

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Os árbitros da Fifa são profissionais em Portugal

Renata Ruel
Renata Ruel
Árbitro em Portugal
Árbitro em Portugal Getty Images

Cada país tem a sua estrutura para arbitragem de futebol. Assim como no Brasil, as federações não seguem um padrão, e cada comissão trabalha com o seu quadro de árbitros conforme a sua gestão.

As diferenças nas estruturas organizacionais podem, por exemplo, fazer com que em certos lugares alguns árbitros possam chegar mais rápido ao quadro da FIFA, e em outros lugares, a caminhada pode ser mais longa.

Para conhecer um pouco de como funciona a arbitragem de futebol em Portugal, conversei com o árbitro português José Alberto Fernandes, 39 anos, motorista-administrativo, árbitro de futebol do quadro nacional, futsal e futebol de praia.

Renata Ruel: Como funciona a carreira do árbitro em Portugal desde a escola/curso para chegar à elite?

José Alberto: Cursos de Futebol e Futsal são administrados pelas Associações de Futebol de cada distrito com o acompanhamento da Federação Portuguesa de Futebol. Existem 22 Associações de Futebol no total. Depois da fase distrital, os árbitros selecionados por cada distrito ascendem à Federação Portuguesa de Futebol, precisando prestar provas na Academia de Rio Maior para ficarem aprovados. O grau de exigência aumenta cada vez mais, tendo de realizar provas semanais de análises de vídeos, interação nos núcleos de arbitragem, treinos físicos presenciais na Academia de arbitragem. Após um conjunto de observações e provas ao longo da temporada, alguns sobem ao nível c2 elite, preparação à Primeira Liga e toda a sua envolvência. Ao atingirem a liga apenas são indicados à  Fifa os melhores e os que cumprem requisito limite de idade e seguem um programa específico de desenvolvimento junto à federação.

RR: A profissionalização dos árbitros é uma realidade em Portugal? Se sim, todos os árbitros são profissionais?

José Alberto: Apenas árbitros com escudo Fifa podem aderir à  profissionalização por terem rendimentos mais altos. A Federação Portuguesa de futebol limita o número de profissionais no contexto da arbitragem por implicar em altos encargos financeiros.

RR: Quais os valores das taxas de arbitragem?

José Alberto: Árbitro profissional aufere subsídio de treino no valor de 500,00 Euros. Geralmente a taxa de jogo ronda 1.476,00 Euros na Primeira Liga, enquanto que na 2 liga ronda os 1.032,00 Euros, quarto arbitro aufere 320,00 Euros, árbitro de vídeo 335,00 Euros. Em contrapartida, um árbitro do distrital aufere num jogo senior 60,00 Euros, juvenis perto de 35,00 Euros, iniciados 30,00 Euros, infantis 20,00 Euros. Árbitros assistentes da liga auferem perto de 600,00 Euros.

RR: Como é feito o treinamento físico e técnico do árbitro em Portugal?

José Alberto: Árbitros da Liga treinam usualmente no centro de treinos indicado pela Liga, com exceções de alguns árbitros que treinam na Academia Militar de Lisboa, com os Árbitros do Polo Distrital.

RR: Há acompanhamento de psicólogo, nutricionista, fisioterapeuta entre outros para todos os árbitros?

José Alberto: Árbitros da Liga e da FPF usufruem de psicólogo, nutricionista, fisioterapeuta  enquanto árbitro do distrital apenas dispõe de fisioterapeuta indicado pela Associação de Futebol Distrital.

RR: Há muitas mulheres na arbitragem? Alguma atuando na elite?

José Alberto: Número de mulheres na Arbitragem tem vindo a crescer tanto na vertente do Futebol como no Futsal.  A própria FPF segue as tendências europeias no aumento do número equipes femininas participantes e a inclusão de árbitras femininas em jogos do masculino. Porém, até o momento, nos jogos masculinos, não há nenhuma atuando no nível elite, somente distrital. 

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Quantas coisas você abdica por amor ao futebol

Renata Ruel
Renata Ruel

Lembro-me de quando comecei a refletir sobre com o que trabalhar na vida.

Ainda adolescente adorava matemática, e a intenção era cursar administração ou economia, mas o grande amor era o futebol, e um dos pensamentos que sempre tinha era “se for para trabalhar aos finais de semana, somente o farei se for para trabalhar com o futebol".

Sim, eu abdiquei e ainda abdico os meus finais de semana por essa paixão, e isso não é nenhum sacrifício. Perdi alguns amigos, deixei algumas pessoas chateadas por não estar presente em datas importantes como aniversário, casamentos, batizados, festas, encontros, pois para a maioria o jogo de futebol é o momento de lazer, enquanto que para mim é a hora do trabalho, ou melhor, de atuar com aquilo que tanto sou apaixonada.

Renata Ruel: 'Mas quem disse que há explicação para o amor?'
Renata Ruel: 'Mas quem disse que há explicação para o amor?' Arquivo pessoal

Na verdade, quando comecei - e durante bons anos -, eram jogos de segunda a segunda, aos finais de semana praticamente o dia todo em um campo ou mais de um, além dos treinos, estudos, cursos, palestras e outros trabalhos, sempre foi gratificante e com muito amor.

Mas tenho certeza que não sou somente eu quem renuncia muitas coisas em função do futebol, seja como árbitra ou como comentarista: você que adora esse esporte também. Domingo pela manhã tem a “pelada” com os amigos(as), depois o almoço de domingo com a família nem sempre acontece, pois seu time jogará à tarde - e se tiver polêmica no jogo a discussão rola até segunda-feira.

Ah, e não dá para negar que às vezes vou embora de uma festa mais cedo porque vai começar o jogo na TV, ou que estou em um barzinho e paro de conversar para assistir ao jogo no telão (até mesmo em casa deixo os convidados com os outros familiares e vou me sentar na sala para ver o futebol, isso já aconteceu muito em comemorações do meu aniversário).

Porém, aqueles que nos amam apoiam a nossa paixão e até acompanham, se possível. Às vezes tento encontrar uma explicação para esse sentimento, algo que justifique tanta abdicação em função do futebol. Mas quem disse que há explicação para o amor? Algumas coisas apenas sentimos e não tem como explicar, não é?

A velha frase atribuída a Confúcio diz bem: "Trabalhe com o que você ama e nunca mais precisará trabalhar na vida".

Não há sacrifícios quando há amor. E esse sentimento  pelo futebol não diminui o amor pelos nossos familiares, amigos, viagens, eventos, lazer, apenas completa.

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Quantas coisas você abdica por amor ao futebol

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