Assédio nos tatames (parte final): Como e para quem reportar?

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Clique nos links para ler os capítulos anteriores do especial:

Parte 1 – Introdução
Parte 2 – A culpa não é da mulher
Parte 3 – Dentro ou fora?
Parte 4 – Também pode ser moral

É realmente difícil reportar. Na pesquisa muitas meninas revelaram terem medo de levar para frente e não serem levadas a sério. Se acontece? Sim.

"(…) Na época, eu era faixa branca, o treino estava normal e tinha um novato que já era graduado vindo de outra equipe. (…) no último rola da noite me colocaram pra rolar com esse menino e no meio do rola, ele colocou a mão nos meus seios. Eu na hora o empurrei, porque ele tinha puxado o meu top. Me ajeitei e voltei a rolar. Naquele instante pensei ter sido coisa do momento (…) mas ele me mandou mensagens pelo Facebook que me fizeram chorar. Conversei com meu professor sobre o ocorrido, mostrei as conversas a ele. E ele falou que eu estava sendo fresca e não me levou a sério. Disse ao professor que caso ele me colocasse para rolar com o rapaz novamente, eu iria parar de treinar naquele local. No outro dia, fui treinar, meu professor não foi. Meu amigo que estava puxando treino foi me colocar para rolar com ele e eu disse que não iria. Mostrei a ele tudo o que o rapaz tinha me dito. Meu amigo rolou com ele, e nunca mais aquele garoto voltou."

Como os homens não passam por esse tipo de constrangimento (não estamos dizendo que mulheres não “assediam homens”, e sim que a forma de constrangimento é diferente) é muito difícil reportar com credibilidade, uma vez que muitos não sabem diferenciar elogio de assédio.Por isso, é muito importante falarmos sobre isso, pois nosso papel aqui é conscientizar e mostrar que o problema não é a roupa curta ou a simpatia, mas sim o discernimento.

Sendo assim, estando em um ambiente de treino correto, você deve se sentir mais do que à vontade, mas na obrigação de reportar ao seu professor. Se ele não te levar a sério, significa que você está no lugar errado.

Mas e quando o assédio vem do próprio professor? Bem, nesse caso, realmente, fica muito difícil saber a quem reportar. Uma vez que o professor é nosso espelho dentro (e fora) do tatame e, tendo ele uma atitude errada, chegamos até a repensar sobre o que estamos fazendo lá.

Em qualquer um dos casos é importante procurarmos a justiça. Há muitos procedimentos jurídicos para qualquer tipo de assédio em que o agressor pode ser punido severamente. Por isso conversei com a advogada especialista em ações de reparação civil por danos – Doutora Denize Tonelotto, que nos mostrou um caminho a seguir e nos livrarmos desse tipo de gente. Ela começou contando sobre o resultado de uma pesquisa realizada no ano de 1995 em que, naquela época, 52% das mulheres entrevistadas já haviam passado por uma situação de assédio. Imagine hoje.

Dra. Denize conta que as mulheres têm receio de denunciar o assédio sexual, porque muitas vezes levam a culpa e o assediador sempre busca uma maneira de justificar sua atitude, culpando principalmente a vítima. “A Síndrome de Burnout é uma doença psicológica desenvolvida após longo esgotamento emocional e normalmente acomete as pessoas vítimas de assédio”, completa.

Para quem tem dúvida se há uma proteção na lei contra o assédio moral e sexual ela conta que sim:

"A repressão ao assédio sexual no Brasil está garantida na Constituição Federal – Lei maior do nosso país. 'Art. 5.º – […] Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (…) X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação'.”

Dra. Denize explica que o assédio sexual pode ocorrer por patrocinadores ou professores que se aproveitam de sua influência para cometer o crime. “Através de seu cargo ou influência, ele pode exercer o assédio obrigando a atleta a um relacionamento como ‘troca de favores’, oferecendo um lugar no time ou uma contratação”, conta a advogada. Além de nos mostrar que a punição encontra-se no Código Penal:

“Assédio sexual. Art. 216-A. Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função. Pena – detenção, de 1 a 2 anos.”

Ela nos deu um exemplo de caso marcante, da atleta Joanna Maranhão, que já esteve presente na ESPN contando abertamente sobre o que aconteceu com ela nos bastidores da natação, mas que vale sempre lembrar, principalmente por Joanna ser um exemplo de que não devemos nos manter caladas por medo ou receio do que pode vir a acontecer. Denize afirma:

"A nadadora Joanna Maranhão travou um processo na justiça com seu ex-treinador. Em relatos, a nadadora contou que, desde os 9 anos de idade, seu treinador passou a abusar dela e isso perdurou por muito tempo. Teve sua infância roubada. Sua adolescência comprometida. Tentou suicídio por duas vezes e com muita luta conseguiu superar tudo isso. A coragem da nadadora em revelar, mesmo depois de adulta os abusos que sofreu, motivou a criação de uma lei que ganhou seu nome e protege todos os menores de idade, permitindo que façam suas denúncias quando se tornem adultos e evitando que o crime seja considerado prescrito."

Além do mais, Dra. Denize também orienta como a vítima deve se comportar em um caso de assédio, principalmente para conseguir reunir o máximo de provas: “Tenha sempre em mente que reunir provas é fundamental para que a vítima vença o processo na Justiça e obtenha uma indenizaçãodiz a advogadaA indenização em um caso como esse é o mínimo que o assediador deve à vítima, e ela de forma alguma significa perdão ou gratificação, trata-se de um valor simbólico pelo assédio à dignidade de alguém.

"É muito importante que a vítima de assédio tenha uma estratégia: 1) resista à agressão e às ofensas o tanto quanto possível; 2) proteja-se e ganhe tempo enquanto reúne provas (por exemplo: gravações de conversas, bilhetes, mensagens, e-mails e tudo que possa provar sua denúncia); 3) procure um bom advogado e ele vai orientar a fazer uma denúncia junto a uma delegacia da mulher e também ao comitê responsável pelo seu esporte.  Sempre que a vítima consegue provar a agressão, a justiça tem sido implacável nas condenações aos agressores."

E em relação à indenização, Dra. Denize defende que é sempre importante ingressar com a ação para que sirva como uma forma de desestimular o agressor a cometer novos assédios. Ela conta que o valor pode ser variável de acordo com cada caso e diz que a pena deve ser pesada a ponto de o agressor nunca mais querer cometer o crime.

"Os valores ficam a critério do juiz que analisará cada caso, sua repercussão na vida da atleta e as prováveis sequelas que a agressão poderá trazer para sua vida. Algumas agressões nunca serão superadas. Portanto, compete ao juiz valer-se das provas e do livre convencimento para aplicar a pena ao ofensor. Existe uma teoria no direito que diz a que a pena não deve ser tão leve que seja motivação para a prática de um novo delito nem dura demais que signifique enriquecimento do ofendido. O juiz colocará cada caso na balança e decidirá. Existem condenações que variam entre dez mil e até dois milhões de reais. Cada caso é um caso. Cada vida uma vida. Cada ser humano um ser único, com uma história única de vida".

Portanto meninas, tendo em mãos provas que mostrem o que você sofreu nada será em vão, por isso é muito importante termos ao nosso lado um bom advogado, porque só um profissional te dirá o caminho certo a seguir.

Sabemos que é muito difícil reagir e pensar no que fazer. Temos vergonha, medo, receio… E isso pode nos causar traumas psicológicos imensos. Mas é muito importante levarmos para frente e mostrar que assediadores não passarão. Muitas meninas afirmaram se arrepender de não terem reagido e deixado passar, mas reajam! Só tendo voz seremos ouvidas e só assim esse tipo de gente vai mudar.

Quero deixar claro uma coisa aqui: em momento algum estamos dizendo que o problema é o tatame ou que o jiu-jitsu ensina isso. Muito pelo contrário, sabemos muito bem que esse é o tipo de coisa jamais ensinada dentro de um tatame e que vai contra todos os princípios de nosso esporte (e de qualquer outro, com certeza), mas isso vem de fora e quero deixar claro que: não aceitamos assediadores, estupradores ou seja lá o que for, no jiu-jitsu. Em academias sérias a punição é dura e o agressor não continua lá dentro. Só não podemos fechar os olhos e fingir que isso não acontece em nosso meio, porque é tido como algo cultural e até “normal” aqui no Brasil.

Isso não se limita ao esporte. Na semana passada saiu uma notícia em que o ator José Mayer assediou uma figurinista da novela e em seguida, o ator se justificou dizendo que quem cometeu o assédio foi seu personagem não ele. Ah, claro, por um momento a notícia foi tirada do ar. Mas devido ao barulho feito por muitas pessoas que se indignaram com o caso, o ator foi afastado da próxima novela da emissora. Esse é um exemplo de que se nos calarmos é dar força a essas pessoas.

Outro caso um pouco mais antigo foi da jornalista assediada pelo cantor Mc Biel, que teve coragem de denunciar e infelizmente perdeu o emprego.

Temos também o recente caso da esposa do cantor Victor, da dupla Victor e Léo que acusou o marido de agressão. O cantor fez milhões de desabafos e ainda está impune na história. É importante não nos esquecermos!

O que temos de comum em todos os casos? O famoso “abafa o caso”. A figurinista foi duramente julgada em redes sociais por pessoas que não a conhecem, mas “conhecem” o grande ator que é José Mayer e, claro, continua protagonizando. A jornalista assediada por Mc Biel foi afastada da empresa na semana seguinte do assédio por “contenção de gastos” – enquanto Biel continua na mídia. A esposa do Victor retirou a queixa, eles continuam casados e claro, Victor continua com seus shows.

Vai assédio, vem assédio e a mulher sempre é esquecida, enquanto o homem é venerado. Não desistam, meninas! Nunca se calem!

ELOGIEM MINHA GUARDA E NÃO O MEU CORPO. Treinamos duramente, suamos, vamos atrás de patrocínios e queremos ser reconhecidas pelo nosso esforço e não pela nossa beleza ou simpatia.

Obrigada a todxs que apoiaram desde o início. Tenhamos paciência para fazer nossos amigos que ainda não entendem, entenderem o quanto o caso é importante. A questão não deve ser polêmica, mas tratada de forma séria e é nossa função conscientizar cada um.

Oss!

Agradecimentos:

Pamella Costa Almeida, revisora textual.
E-mail para contato: pamellacalmeida@gmail.com

Denize Tonelotto da Tonelotto & Advogados Associados
Rua Luiz Pinto Flaquer, 441- CJ. 51- Centro – Santo André.
Tel.: (11) 4438-8998 / (11) 4438-8165
E-mail: tonelottoadvocacia@gmail.com

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Conheça o BJJ Mums, o projeto para mães que não querem parar com os treinos de jiu-jitsu

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Mães: elas têm uma grande dificuldade ao planejar uma gravidez, se comparando ao homem. Enquanto ela carrega um ser humano dentro de si, talvez ela precise parar de treinar, ou talvez não, como falei na semana passada. Mas demanda muitas coisas além do que podemos esperar.

Essa semana, coincidentemente, num grupo do qual eu faço parte no Facebook, havia uma publicação da Ana Yagües que me chamou muito a atenção: ela criou uma página e um blog chamados BJJ Mums, para dar suporte às mulheres que treinam jiu-jitsu e tem filhos. Mas mais do que isso, ela criou um camp (um camp, no jiu-jitsu é realmente uma espécie de acampamento, em que as pessoas se juntam e tem diversas aulas durante alguns dias e respiram o jiu-jitsu durante aquele tempo) para atender as mães que querem levar seus filhos na academia. É muito além do que eu esperava. Fui conversar com ela para entender melhor como funciona.

Por eu nunca ter passado pela experiência de ter um filho, eu não imaginava como era difícil manter tudo em pé. Mas afinal, quem ia cuidar do meu filho para que eu fosse à academia? Hoje vejo pais levando seus filhos onde treino, por exemplo, e eles ficam realmente soltos. Não existe uma área para crianças, elas ficam muitas vezes no tatame ou brincando fora dele. É realmente preocupante. Já visitei muitas academais e somente em uma delas encontrei um espaço para crianças ficarem à vontade.

A Ana é da Espanha, mas atualmente vive na Alemanha. Ela tem duas filhas e, hoje em dia, é faixa preta e vive de jiu-jitsu. “Recentemente, minha vida mudou drasticamente. Os detalhes não são importantes, mas, como resultado, eu parei meu trabalho, fundei uma academia de jiu-jitsu (que sempre foi minha paixão) e dedico minha vida a esse sonho”, disse Ana.

Ana e sua filha.
Ana e sua filha. SportMMA


Ana conta com seu próprio espaço e aqui, ela fala um pouco de como o projeto começou.

Eu comecei a compartilhar minha experiência quando fiquei grávida pela primeira vez, há sete anos. Até então, eu não conhecia nenhuma outra mulher que treinava jiu-jitsu em nível de competição que tinha conseguido balancear a maternidade com os treinos, então eu tive que aprender através de minha própria vivência. Vi que eu não estava sozinha na luta e decidi compartilhar minhas experiências com esperança de alcançar e dar suporte a outras mulheres na mesma situação. Eu comecei um blog no qual falava sobre meus esforços e métodos de treinamento durante a gravidez, a recuperação depois do parto, a retomada dos treinamentos e alimentação do bebê… Eu recebi muitos feedbacks positivos e me senti muito bem por ser um exemplo para outras mulheres e por ter as inspirado de alguma forma.Mas quando eu fiquei grávida pela segunda vez eu percebi que ter duas crianças, treinar, competir e trabalhar numa universidade era muito cansativo, o que me fez parar de escrever. (…) Uma vez que minha academia de jiu-jitsu começou a funcionar, minha ideia de dar suporte a mulheres na modalidae voltou muito forte. Mas eu não queria esse blog apenas para dar conselhos, eu queria fazer algo bom para elas. E então, o BJJ Mums nasceu.

O blog pessoal da Ana conta muitas coisas bacanas para inspirar outras mulheres. E o BJJ Mums também é um espaço muito bom para compartilhar problemas e soluções da maternidade.

No BJJ Mums, Ana conta com a ajuda de uma também faixa preta Yasmin Sewgobing, que foi mãe em 2016 e se viu com as mesmas dificuldades que ela. Ana conta também que Yasmin é uma das pioneiras da organização de campeonatos femininos pela Europa e que ajuda muito no desenvolvimento do esporte no meio das mulheres.

Em relação ao camp para as mães, que vai acontecer dos dias 25 a 27 de agosto na Academia Nexus Fighter, em Hamburgo (Alemanha), Ana contou que gosta muito de frequentá-los e que está presente todos os anos, seja dando aulas ou participando como aluna. Ela gosta muito pelo fato de que lá você pode encontrar pessoas com interesses comuns, mas tendo que cuidar de crianças, fica complicado. “É um desafio fazer novos amigos quando seu filho está precisando de atenção”, conta.

Sendo assim, a faixa preta conta que alguns permitiam crianças, mas que elas ficavam “soltas”, enquanto outros, não autorizavam, sob o argumento de que elas poderiam atrapalhar o treinamento ou simplesmente por segurança. Então, ela montou um modelo de camp que permite com que as mães levem seus filhos, treinem e relaxem, sem preocupações.

O “BJJ Mums Camp” é focado em mães com suas crianças e suas necessidades. Nós temos aulas para as mães enquanto as crianças são cuidadas. As mais crescidas também terão aulas de jiu-jitsu em outra sala; para os menores, haverá uma babá e elas vão ficar em uma sala exclusiva para crianças. Nós teremos também aulas para as mães com suas crianças, para incentivar a participação de mães e filhos no esporte. E também teremos atividades sociais, como uma noite dedicada a mulheres em um spa, para que elas curtam sem seus filhos. E enquanto isso terá uma babá tomando conta deles também.

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Além disso, a super mãe conta que não tem ainda nenhum patrocínio tanto para o projeto, quanto para o BJJ Mums Camp. Ela iniciou tudo com seu próprio dinheiro e hoje, com o retorno que tem recebido, trabalha pesado para levar o BJJ Mums além da Alemanha.

Aproveitando a oportunidade, também pedi experiências pessoais da Ana em relação à maternidade e ao jiu-jitsu. A princípio, ela disse que a maior dificuldade foi ter que parar de treinar durante a gravidez. “Eu tive uma gravidez boa e saudável, sem nenhum tipo de problemas e treinei até o sétimo mês. Depois disso, tive que parar e isso é muito difícil para um atleta que é focado em outras coisas além de treinar”, acrescenta.

Porém, ela ressalta que o período da gravidez dura apenas nove meses e que o pior é o pós-parto, quando é preciso lidar com a “bomba” de conciliar maternidade e treinamentos. Mas nada a fez desistir.

A maior dificuldade para mim foi perder o primeiro aniversário da minha filha mais nova para competir no World Masters em 2014. Eu chorei muito quando tomei a decisão de viajar para competir e não sabia se estava sendo uma boa mãe por isso. Mas eu tinha o sonho de ganhar um campeonato mundial e eu me senti bem em ter essa chance. Eu fui, competi e me sagrei campeã no absoluto faixa marrom. Meu sonho tinha virado realidade e eu era uma pessoa viva e feliz!

Eu acho que quando você se torna mãe é muito importante não esquecer que você continua sendo uma mulher e precisa realizar seus sonhos, seja no esporte ou em qualquer outro lugar. Você não tem que sacrificar tudo pela sua criança, não é necessário! Você sacrifica muitas coisas, mas não tudo. Suas crianças vão crescer felizes se você for feliz também. Muitas mulheres se sentem mães más se elas não fizerem tudo pelos seus filhos e ai elas se tornam (não sempre) pessoas incompletas.

E Ana segue o jogo, inspirando outras mãe e mulheres que pretendem ter filhos também. Ela dá alguns conselhos para as mulheres que tem receio de ficarem grávidas e eu vou colocar aqui, na íntegra, para não perder nada:

Anna e suas filhas: Gisele e Anais
Anna e suas filhas: Gisele e Anais Arquivo pessoal

“Às mães que querem treinar enquanto estão grávidas, eu sempre digo o mesmo: entenda seu corpo. Muitos ginecologistas vão te proibir de treinar jiu-jitsu porque eles realmente não sabem o que é ou para você se manter segura. Minha ginecologista não me proibiu e eu não sou diferente de vocês. Você precisa achar alguém especializado em atletas ou que goste de esportes para te entender. Se você tem uma vida saudável é bem diferente, claro. Eu nunca brinquei com a vida das minhas filhas. Eu treinei enquanto meu corpo se sentia bem. Claro que não da mesma forma de quanto eu não estava grávida. Quando meu corpo ‘disse’ para não me exercitar mais, então eu parei e fiz algo diferente. Tem muitas formas de treinar jiu-jitsu e outras coisas, dependendo do seu estado.

Às mães que querem continuar treinando e tem dificuldades com crianças: se te permitem levar crianças para a academia, levem. Mesmo que cheire um pouco mal, é um ambiente saudável para ficar durante muitas horas: tem esporte, pessoas felizes, ambiente agradável.

Se você não pode levá-los, peça ajuda. Para a avó, ao pai (se ele também treina, vocês podem revezar), para amigos ou também para outras mães. Tem muitas formas.

 Se sua família mora longe, como no meu caso, contrate uma babá. É a melhor coisa que eu recomendo. Seu dinheiro será menor no final do mês, mas é um ótimo investimento. Tenho uma há um ano e é de grande ajuda!”

Ana também aproveitou para deixar um recado para as academias. Ela diz que sabe que não é fácil treinar com crianças, seja por segurança ou por elas interromperem os treinos. “Eu sei! Acreditem: eu sei”, diz. Mas ela aconselha que caso tenha um espaço sobrando, coloque um carpete com brinquedos para que as crianças se distraiam e esqueçam que seus pais estão treinando.

Muitas academias de musculação têm (o espaço kids), mas no jiu-jitsu não é muito comum. Ajudem as famílias com crianças como puderem. Você vai trazer mais gente, seus alunos ficarão mais felizes, vocês não vão perder alunos que tenham filhos no futuro e será bom inclusive para sua academia.

Nada mais inspirador do que mulheres que querem fazer o bem para si e para a comunidade do jiu-jitsu, ainda mais na semana das mães, né? Em agosto, prometo vir contar aqui todos os detalhes do BJJ Mums Camp!

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Assédio nos tatames (parte 4): Também pode ser moral

Mayara Munhos
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Parte 1 – Introdução
Parte 2 – A culpa não é da mulher
Parte 3 – Dentro ou fora?

Na verdade a minha intenção era falar apenas sobre assédio sexual, mas muitas mulheres alertaram sobre um ponto, que falo um pouco em meu primeiro texto sobre machismo:  o assédio moral. Portanto, quando eu montei as perguntas da pesquisa, como não havia pensado no moral, acabei não acrescentando. Mas venho aqui mostrar o resultado de “como foi o assédio?”.

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O assédio moral parte da dúvida quanto à capacidade de uma pessoa, no jiu-jitsu isso acontece quando alguém fala algo como “vou rolar com ela porque ela é menina e quero descansar”.

"Alguns rapazes nos inferiorizam por sermos mais fracas e mais delicadas. Tem um faixa roxa na minha equipe que nunca treinou comigo e ele fala que não treina com mulheres porque não vão acrescentar nada ao jogo dele, fora esse sempre tem um comentário sobre descansar rolando com uma garota, posturas grosseiras de homens vazios, que têm medo do quanto uma mulher pode evoluir e se tornar o que quiser, mesmo no jiu-jitsu."

Esse tipo de julgamento de capacidade pode até virar uma forma de bullying.

"Tive decepções com meu antigo professor, depois de faixa preta ele virou outra pessoa e troquei de academia por conta disso. Ele passou a ter posturas erradas como chegar atrasado, falar mal dos alunos e inventar histórias. Foram dois anos e meio, treinando todos os dias e me abdicando de tantas coisas… Sempre fui uma aluna empenhada e ver seu professor dizer que me graduou ‘por dó’, dói.  Hoje estou treinando em outro time, mas dentro da mesma equipe. Mas sonhava tanto em receber minha faixa sendo amarrada pelo meu mestre como sonhava em ser a primeira faixa preta dele. Tinha respeito e admiração. E tudo isso foi pelo ralo. Me sinto meio ridícula e às vezes penso em parar."

Falando em relação ao “vou descansar com ela porque ela é mulher”, o que costuma acontecer bastante no meio do jiu-jitsu são os homens não aceitarem perder para mulheres (na verdade rola na vida, e o jiu-jitsu é só mais um meio). Isso, infelizmente, causa um constrangimento muito maior do que apenas mental, mas também pode causar sérias consequências físicas, já que não temos como negar: o homem é geneticamente mais forte do que uma mulher, já que ele produz algo chamado testosterona que compõe timidamente o corpo feminino, em números quase insignificantes quando comparada à quantidade presente no corpo masculino. Sendo assim, os caras acabam vindo para cima na intenção de se saírem melhor e abusando de sua força, em uma verdadeira guerra dos sexos sem sentido, pois se esquecem que o jiu-jitsu foi criado para o mais fraco ganhar do mais forte.

Isso me fez lembrar um vídeo engraçado que ilustra um pouco essa coisa de técnica superior. A Mackenzie Dern, na época faixa marrom, esteve num programa de televisão japonês sendo desafiada a confrontar um faixa preta de judô. Algumas pessoas do judô costumam treinar jiu-jitsu e vice versa, mas para quem não é dos dois lados, o fato é que o judoca tem desvantagem no chão e o jiu-jiteiro, em pé. Nesse vídeo, Mackenzie deu um trabalhão para o judoca e, nitidamente, ele fica um pouco incomodado em alguns momentos da luta e quer se aproveitar de sua força.

Mas muitas vezes o cara não sabe o que faz e acaba mesmo machucando a menina usando demasiada força. Eu falo um pouco disso também no texto sobre machismo que citei no início.

Há um colega de treino que várias meninas tiveram problema com ele. Além de discursos machistas (…), comigo aconteceu um episódio que me traumatizou: (…) Durante um treino, tive que fazer um rola com ele. Ele me finalizou com um estrangulamento na montada. Após isso, ele começou a explicar com certa brutalidade o porquê eu fui finalizada. “Se você fica olhando para cima, pega o seu pescoço” e nisso ele me estrangulava a ponto de tossir; “Agora se você virar o rosto (e empurrava o meu rosto contra o tatame com força), aí não pega!”. Ele repetiu isso umas três vezes, me estrangulando com uma força desnecessária, já que ele estava fazendo uma demonstração e não lutando. Depois desse episódio, eu fujo dele no tatame. Nunca mais quis rolar com ele.

E mais: quem nunca passou por uma situação do cara pedir para parar a luta bem durante aquele golpe primordial que você estava aplicando que atire a primeira pedra! Você está lá, no ápice de seu rola, chega naquele tão esperado arm lock e o cara para: “viu, deixa eu te mostrar como você encaixa melhor”.

Também é comum uma mulher finalizar um homem e no final ele falar “nossa, eu estava cansado”. Aham, querido. Mérito do seu cansaço, mesmo. Mas percebam que toda academia tem o cara que não rola com mulher. A desculpa: se sentir desconfortável. Desconforto por quê? No jiu-jitsu somos todos iguais. Será que é isso mesmo?

O que também acontece é que há simplesmente os caras que não acreditam nas meninas, sejam eles professores ou alunos. Estando lá, temos um objetivo em comum. Somos minoria, mas não precisam nos assustar por estarmos ali. Queremos a mesma coisa e vamos chegar tão longe quanto (ou até mais) que vocês.

Ah, e uma vez falei também aqui sobre a Monique Elias ser toda vaidosa e treinar, porque eu acho engraçado que a galera pensa que as meninas do jiu-jitsu não têm o direito de se arrumar. Isso parte justamente da ideia de que, para ser dura e forte é preciso chegar o mais próximo possível do que são os homens, daí eles esperam que nós possamos negar tudo que é do universo feminino. Uma coisa não exclui a outra!

Brincadeiras de mau gosto e piadas machistas são coisas muito comuns que muitas vezes acabam virando normal (…) Já ouvi de um mestre bem próximo que só dá aulas para mulher porque não pode dizer não. Uma vez em um rola, o meu oponente usou muita força. Quando reclamei, ele me mandou ir para o salão de beleza porque ali era lugar de homem. (…)

Nós vamos ao salão de beleza, sim, mas isso não significa que não podemos treinar por conta disso. Podemos ser o que quisermos, e então se quisermos treinar depois de fazer uma escova, nós podemos. Ou se quisermos sair do tatame, tomar um banho e colocar um vestido maravilhoso e salto alto, também podemos. Não somos piores no jiu-jitsu por sermos vaidosas ou arrumadas e comentários desse tipo nos incomodam. Bem como aqueles comentários, do tipo “Quer moleza, vai fazer ballet”, sabe? – Amigo, vai lá fazer uma aula de ballet e depois você conta pra gente.

"(…) Mostrei nos treinos que não estava ali por modinha ou para ficar olhando físico dos caras, eu treinava pesado como eles e era caladona na minha, então numa noite rolando tinha dois rapazes quando comentaram pra todo mundo ouvir que eu era sapatão. Fiquei muito mal com isso. (…) Eu estava muito bem nos treinos sempre fui muito competitiva e dava o meu melhor, tinha me apaixonado pelo Jiu-Jitsu e já tinha perdido 10kg  em pouco tempo, mas com tudo isso decide parar e não procurar outra academia por conta do que já passei (…)."

Pois é, muitas vezes temos que engolir o choro, porque quando parte de nós ele é interpretado como uma demonstração de fraqueza. Quantas vezes ainda teremos que ouvir “tô rolando igual menininha hoje”? Algumas pessoas não falam por mal, elas realmente não têm nada contra nós, mas, por viverem em uma cultura em que falar isso é normal, acabam repetindo frases desse tipo sem se darem conta do significado (e, aos desavisados: o significado é de que mulher é frágil e fraca). Faz parte da nossa desconstrução lembrar-lhes que não somos uma massa única com ações e reações iguais, por isso “como uma garota” não deveria ser algo ruim.

Segue também esse por caminho o fato de termos que fazer algo sempre de forma primorosa para que sejamos reconhecidas. No jiu-jitsu, não podemos perder, não podemos ser finalizadas e não podemos desistir sob pena de sermos tachadas de fracas e ouvirmos que “mulher é assim mesmo”. Enquanto os homens, nessas mesmas situações, podem facilmente ter qualquer atitude. Temos que nos provar merecedoras inúmeras vezes mais, para que possamos, então, pertencer àquele lugar.

Mas, claro, temos as exceções e mais pra frente vou publicar um vídeo aqui com o direito de defesa masculino, hahaha porque por sorte temos homens sim que reconhecem o girl power!

Quem aqui é sexo frágil, minha gente? Caso tenham dúvidas, é só cair pra dentro, hahaha.

Bora para os treinos e semana que vem temos o último texto sobre esse assunto chato, porém necessário. Vamos falar sobre como denunciar. Até lá!

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Assédio nos tatames (parte 4): Também pode ser moral

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Assédio nos tatames (parte 3): Dentro ou fora?

Mayara Munhos
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Parte 1 – Introdução
Parte 2 – A culpa não é da mulher

Sim, os assédios ocorrem dentro e fora do tatame. Creio que por ser um esporte tipicamente masculino, os homens não têm muito discernimento do que é ou não assédio, porém nosso papel é conscientizar e, mais que isso, fazer com que os homens já conscientizados mudem a cabeça dos “não conscientizados” também. Sabemos bem que um homem escuta de forma mais receptiva quando outro homem fala, por isso o papel deles é fundamental aqui.

"(…) Sinto muita falta da presença feminina nos treinos, quando vou competir percebo a diferença nas posições e no jeito de rolar, porém ocorrendo situações como estas, dificilmente a presença delas se consolidará. E nosso esporte possui muito contato físico, encostamos em órgãos sexuais sim, assim como todo o restante do corpo, com apenas o intuito de pontuar e finalizar. Durante o rola, nosso pensamento fica em busca das transições que o jiu-jitsu proporciona e nada mais! Caso o parceiro(a) não esteja com o mesmo pensamento, significa que ele(a) não está lugar certo, para isso sugiro que procure um bordel e não um tatame."

Dito isso, temos mais um choque: segundo a pesquisa, 48,4% das mulheres relatam ter sofrido assédio no tatame e apenas 18,6%, fora dele.

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“O mestre me chamou no WhatsApp porque iria graduar meu esposo e queria que eu comprasse a faixa roxa. Aí eu disse que ok. Ele me disse em seguida que minha faixa azul eu pegaria com ele quando fosse treinar sozinha."

"Uma amiga havia começado a praticar jiu-jitsu e como ela trabalhava em outra cidade, procurou um local para treinar. Ela conheceu um cara que ensinava jiu-jitsu na cidade onde ela trabalhava e começou a conversar com ele pelo chat do Facebook para saber mais sobre o trabalho que ele desenvolvia. Em uma das conversas, ele começou a dizer que o objetivo dela em treinar jiu-jitsu era de se agarrar com ele e tal. Ela ficou muito decepcionada e também assustada, ele trabalhava com crianças e ficou imaginando como ele deveria tratar suas alunas e qual o perigo que elas correm. Os laços foram cortados e ela deu uma bronca nele sobre sua postura de professor e sobre o assédio. No final, ela teve que parar de treinar por falta de tempo e de local adequado.”

O que tenho a dizer de quem assedia dentro do tatame: caro, você não entendeu o que é jiu-jitsu. O que é uma pena, porque o esporte é deturpado por conta de meia dúzia de pessoas que não sabem o que estão fazendo lá.

Já aconteceu de namoradas dos meus amigos de tatame contarem que não se sentem confortáveis em ver seus parceiros rolando com mulheres. Como já falamos, é muito difícil entender o jiu-jitsu para quem está de fora, porque algumas posições podem parecer estranhas diante dos olhos de uma pessoa leiga, devido ao contato intenso. Mas precisamos respeitar e sermos respeitadas para que não haja nenhum tipo de desconforto.

Outra coisa que também já ocorreu foram relatos de homens, do meio do jiu-jitsu mesmo, se sentirem desconfortáveis em aceitar que sua parceira treinasse fora da academia ou sem a presença dele, já que “não confia nos caras”. Então, pessoas, vamos pensar melhor na hora de assediar uma mulher para que nosso esporte possa crescer e se desenvolver cada vez mais. Se você está no jiu-jitsu unicamente para abusar de uma mulher, você não é digno de habitar aquele lugar (e nem nenhum outro, na verdade).

E para quem assedia fora do tatame, o papo vai um pouco além. Dentro do jiu-jitsu, aprendemos regras e disciplinas que podemos levar para a vida. Tudo agrega muito. Mas não podemos culpar o jiu-jitsu pelo péssimo hábito de pessoas que, com o perdão do clichê, “não tiveram educação em casa”. Sim, educação vem de berço, é um conjunto de costumes… Mas, sim, nós podemos ajudar na desconstrução também.

É uma pena ter que falar ainda sobre esse tipo de coisa, mas se você está a fim de alguém que treina com você, tudo bem, isso não é nada demais e pode acontecer. Espere acabar o treino, converse com a pessoa como alguém civilizado e não chegue com aquele tipo de “elogio” babaca. E lembre-se: não, é sempre não.

Aos mestres que insistem em abusar de seu poder para dar em cima das suas alunas: parem. Você ter uma faixa preta amarrada na cintura diz que você persistiu, mas não que você pode tudo. Você não é livre para assediar pessoas hierarquicamente subordinadas por sua posição de professor e mestre, e suas alunas não são sua propriedade. Também não é um crime um professor sair com uma aluna. Afinal, fora do tatame somos seres comuns, com necessidades, desejos e, sim, é completamente normal paquerar e, mais ainda, se envolver com pessoas do jiu-jitsu por ser o nosso mundo. Mas tudo de uma forma completamente natural e com consentimento. Senão, nada feito.

Embora não seja um assédio direto, mas algo que pode incomodar é o fato de toda vez que uma menina nova chega para treinar rolarem diversos comentários. Sim, somos poucas e quando chegamos para treinar, é normal que a atenção esteja voltada para nós. Esse tipo de ação não atrapalha se feita de forma respeitosa, mas do contrário, podem acabar sendo desconfortáveis para quem ouvir. Não é legal falar que “nossa, imagine que legal tomar um triângulo dela” (o triângulo é um golpe que a cabeça fica literalmente entre as pernas de quem está aplicando) porque isso também é falta de respeito com todas as pessoas que praticam a arte, um comentário desse tipo dá a entender que em um triângulo é possível se aproveitar de alguém, isso deixa todas as pessoas suscetíveis a um assédio, por isso cuidado com o que você fala. Homens, não tolerem esse tipo de comentário! Não é feio tentar corrigir seu amigo. Faz bem para a arte!

Semana que vem vamos falar de assédio moral, que era algo que eu não tinha pensado de imediato, mas que recebi muitos relatos sobre. Então, até lá. E lembrem-se: elogie nossa guarda e não o nosso corpo!

Fonte: Mayara Munhos

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Assédio nos tatames (parte 3): Dentro ou fora?

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Assédio nos tatames (parte 2): A culpa não é da mulher

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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"Relembrar esse fato me deixa angustiada, mas vi nessa reportagem a oportunidade de lidar ou digerir melhor essa história. Há mais ou menos 2 anos, em um dia de treino, estavam eu e meus dois instrutores faixa roxa fazendo uma aula. Quando um deles me imobilizou durante o rola e chamou o segundo, que se aproximou e aproveitando que meu kimono estava todo fora do lugar – pois eu estava rolando – levantou minha blusa e passou a mão pela minha barriga várias vezes e começaram a dar risada. Aí eu comecei a gritar (…) Eles pararam quando viram o meu desespero. Na hora e nos dias seguintes, eu só conseguia me sentir suja e culpada (chorei muito). Na minha cabeça, eu pensava “a culpa deve ser minha, porque eu devo ter dado espaço pra eles fazerem isso”, mas também pensava ter sido só uma brincadeira (…) Hoje, eles mudaram de equipe e não nos vemos mais. Espero que nenhuma outra mulher passe por isso nos tatames, ou se passar não deixe barato, fale com seu mestre, denuncie. Na época eu não falei nada, pois tinha medo do julgamento das pessoas ou do meu mestre achar que eu estava reclamando de uma brincadeira (…)."

É com esse depoimento deprimente que dou início ao texto desta semana. As mulheres se sentem realmente culpadas. Não se esqueça que estamos juntas! E não é porque você é sorridente e simpática que você está dando mole. Sendo assim, por favor, não se culpem. A culpa é do agressor. Nossa postura não deve mudar por termos sido assediadas, ele é quem deve ser colocado em seu devido lugar. E isso, independentemente do jiu-jitsu, serve para a vida.

"Algumas vezes treinava com esse indivíduo, normalmente quando ele me chamava. Por ser mais graduado, ele aproveitava para passar a mão em mim, nas partes mais íntimas. Sem graça, eu não sabia o que fazer já que ele era faixa preta. Um dia enquanto lutávamos, ele colocou, de novo, a mão na minha intimidade, mas nesse dia eu decidi fazer algo e coloquei o joelho na sua virilha, pressionando. Na hora ele se assustou e pediu pra eu tirar, falei que só tiraria se ele tirasse a mão, desde de então ele não fez mais nada comigo e não sofri isso com mais ninguém. O que mais me chocou foi quando uma amiga me chamou falando que sofreu a mesma coisa, com a mesma pessoa. (…)"

Sabemos que é muito difícil reagir. Muitas meninas disseram ter parado de treinar por trauma e, se já temos poucas delas dominando os tatames, imagine se elas começarem a desistir dessa maneira?

Também há algumas mulheres que afirmaram não terem sofrido assédio por namorarem ou serem casadas. Isso é algo complicado, mas gostaria de aproveitar o espaço para dizer: não existe essa de não ser solteira. E o fato de você ser ou não solteira não quer dizer nada. Então significa que se formos solteiras, tudo bem sermos assediadas? Fica a reflexão!

Frases como “mulher de amigo meu, pra mim, é homem” tão comuns e tratadas como normais só reforçam a ideia de que um homem só respeita outro homem. Embora isso signifique que as mulheres compromissadas do tatame sejam mais respeitadas que as outras, devemos lembrar a esse tipo de assediador que mesmo as solteiras não são território livre. O respeito ao nosso relacionamento deve, sim, existir, mas acima de tudo, somos primeiro nós mesmas e devemos ser respeitadas com ou sem uma figura masculina que nos represente.

"Ele me chamou para rolar. Era mais graduado e a academia estava recebendo um atleta profissional para quem as atenções estavam voltadas. Durante o rola ele começou a fazer uns movimentos estranhos, ficava em cima de mim e me encoxava, mas eu demorei pra perceber o assédio, só percebi quando ele ficou esfregando a mão em um dos meus seios como se tivesse tentando me excitar. Eu fiquei paralisada durante um momento, depois tirei a mão dele e me afastei. Me encolhi em um canto e ele falou “foi mal”. Eu fiquei atordoada até chegar em casa, e quando cheguei entrei em crise e liguei pra uma amiga, comecei a chorar e relatar o ocorrido. Depois disso desenvolvi uma fobia e nunca mais aguentei ficar por baixo na posição dos cem quilos. Não saí da academia, porque comecei a namorar e não queria que ele descobrisse. Também notei que com o meu namoro comecei a ser mais respeitada por todos os meninos. Não sei se sofreria algum outro assédio se tivesse continuado solteira, mas tive a impressão de que o tatame se tornou seguro de novo porque respeitavam o meu namorado, não a mim."

Garotas: coloquem de uma vez por todas na cabeça de vocês que a culpa não é, nunca foi e nem será nossa. A frase mais recorrente nesse assunto é: “Ah, mas ela estava pedindo”. Você estava pedindo para ser assediada quando saiu na rua com um shorts um pouco mais curto ou saiu unicamente porque foi sua escolha? Você estava pedindo quando cumprimentou um amigo com beijo no rosto e um abraço? Então… Estava pedindo o quê? Por favor, não se culpe, lembre-se de que você precisa ser respeitada independente da sua roupa ou das suas atitudes, isso vale dentro e fora do tatame.

Depois de ter soltado o primeiro postmuitas pessoas falaram que as meninas vão treinar com roupas “chamativas”. No jiu-jitsu, usamos kimono; por baixo da calça um shorts/calça legging e em cima, um top e uma camiseta/rash guard (ou lycra). Os homens treinam muitas vezes sem camiseta (na verdade, sem shorts também) e algumas meninas usam só o top.  Isso é outra coisa que causa certa “polêmica”, já que o top não é considerado seguro. Algumas academias, inclusive, proíbem o uso só de top, bem como o não uso de camiseta pelos homens.

Mas, conforme eu já falei aqui sobre a rivalidade feminina dentro dos tatames, precisamos parar e pensar algumas coisas. A primeira dela é: a menina já treinou alguma vez? Caso não, ou caso esteja só no início, ela não sabe muito bem como funcionam as movimentações e, sendo assim, cabe ao mestre e aos colegas de treino a orientarem. Já aconteceu caso de menina me perguntar se tudo bem treinar de sutiã por baixo, mas que culpa ela tinha se nunca havia pisado num tatame? Não custa orientar. Além do mais, muitas meninas realmente sentem-se confortáveis em treinar só de top. No verão é difícil, né gente? Não é só porque uma menina está de top que ela está se mostrando.

Se existem casos isolados? Claro, como em todo lugar. Mas, como já dito lá em cima, é algo que vai além dos tatames. Mas aqui vai uma diferença: já perceberam que quando uma mulher chega para treinar para “caçar macho” como dizem por aí, ela é tão julgada que acaba parando de treinar? Isso acontece porque o jiu-jitsu simplesmente não dá espaço para esse tipo de coisa acontecer, dependendo do lado, já que quando o homem se aproveita das poucas mulheres que aparecem para treinar, ou é ignorado, ou conta vantagem para os amigos. Mas muitas equipes de respeito tomam duras decisões em relação a isso. É importante reforçar: conheça sempre seu local de treino. A figura do mestre conta muito na hora do apuro.

E para lembrar eternamente: a culpa sempre será do agressor e, se trouxermos a culpa para nós, os agressores nunca deixarão de existir.

Semana que vem tem mais.

Agradecimento: Pamella Costa Almeida

Fonte: Mayara Munhos

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Assédio nos tatames (parte 2): A culpa não é da mulher

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Assédio nos tatames (parte 1) – Introdução

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Hoje vou precisar de espaço, porque o assunto aqui é complicado: o assédio nos tatames. Mas, não rotulem nosso esporte por conta disso! Infelizmente, o assédio sexual é algo cultural em nosso país, embora muita gente não acredite, para essas pessoas, um dado importante e que é sempre ressaltado: a cada onze minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. Talvez nós já tenhamos nos acostumado com isso e pensamos que devemos mudar nossos meios de convívio e nossas atitudes para amenizar, mas, por favor, meninas, não se culpem. O assédio é culpa do agressor e não da vítima.

"Foi durante o rola que o professor e um parceiro de treino se aproveitaram do momento de contato. Tentei conversar antes de sair, mas fiquei constrangida com medo do que poderia acontecer depois, pois sempre dizem 'é culpa da mulher' ou 'você correspondeu à investida'. Acho que deveria ter punições sérias nas federações de jiu-jitsu."

Eu decidi escrever esse texto porque converso diariamente com mulheres deste meio e percebi que muitas delas relatam ter sofrido algum tipo de assédio no tatame ou fora dele, seja por colegas de equipe ou então pelo próprio professor. Montei uma pesquisa para descobrir se era algo específico das pessoas que conversam comigo ou se é geral. Infelizmente sim, é geral. 159 mulheres declararam na pesquisa terem sofrido assédio (61,6%). Outras 48,4% declararam conhecer pessoas próximas que também sofreram.

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Primeiro precisamos caracterizar: o que é assédio? Um ato se torna assédio quando realizado sem consentimento da vítima que, muitas vezes, não sabe muito bem determinar se aquilo pode ser classificado como tal ou não.

O assédio verbal pode facilmente ser confundido com um elogio e é realmente difícil de entender. Muitas vezes, o agressor usa frases de duplo sentido para mascarar. E a gente fica como? Sem saber o que responder ou sem ter como gritar, uma vez que o cara pode dizer que “confundimos as coisas”. Também pode ser caracterizado como uma sucessão de “elogios” que você já fez de tudo para cortar o cara e mesmo assim ele continua.

"Um professor faixa preta e ajudante da minha antiga equipe, casado, insistiu e insiste até hoje em me assediar pelas redes sociais falando sobre minha aparência fisica e me convidando para sair, algo que já esclareci há anos que não tenho interesse".

"(…) Todos estavam rolando com o mestre, porém quando chegou na minha vez, ele me incentivava de uma forma diferente como: 'vamos gatinha!' 'vamos minha linda!' (…)"

Já o físico, principalmente neste meio das artes marciais, é ainda mais difícil. O jiu-jitsu é um esporte de muito contato e quem está no meio entende: é inevitável que algumas “mãos bobas” escapem ou que algumas “posições constrangedoras” sejam executadas durante a luta. E isso é completamente normal. É muito diferente procurar esse tipo de posição e escorregar a mão insistentemente.

Durante um treino, enquanto o professor passava uma posição a partir da montada, um antigo colega de treino insinuou que seria maravilhoso se nós dois estivéssemos na mesma posição ‘de verdade’.

'O assédio ocorreu antes da aula com cantadas e propostas. E durante a aula com algumas pegadas desnecessárias, suspiros no ouvido, fora do que é habitual durante a luta'.

'Durante uma movimentação ele colou no meu ouvido e me chamou de gostosa. Em momento oportuno o coloquei no seu devido lugar para que me respeitasse'.

'Enquanto eu estava no meio rolando chamei o próximo da fila. (…) Quando todos estavam ocupados rolando, o meu parceiro de treino tocou em minhas partes íntimas. Até então pensei que tinha sido por acidente porque isso ocorre às vezes, mas minutos depois ele me beijou. Então eu parei, sai e fingi que ele tinha me finalizado. Desde então fica meio complicado ir para os treinos'.

Então, como se calar diante de tantos depoimentos constrangedores? É difícil, porque muitas vezes o assédio vem do próprio professor, o que faz com que nem saibamos para quem reportar o caso. 70 pessoas relataram ter sofrido assédio do professor. 130, de amigos de treino.

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"Fora ser assediada pelo próprio professor, casado, fora do tatame, fui em uma das vezes assediada por um companheiro de treino dentro do tatame (…) ele começou a forçar me beijar, e quando eu tentava desviar ele me machucava, e mesmo me finalizando e eu 'batendo' pra parar ele dizia que só pararia quando eu desse um beijo nele (…). Por fim, depois desse dia pedi ao mestre que não me pusesse para treinar com esse aluno novamente, e quando me questionou me senti acuada e preferi não falar… sentia medo de ele fazer algo comigo dentro ou fora do tatame, porém me arrependo de no mesmo momento não ter gritado."

“(…) Na época eu era faixa branca, o treino estava normal e tinha um novato que já era graduado vindo de outra equipe. (…) no último rola da noite me colocaram com esse menino e no meio do exercício, ele colocou a mão nos meus seios. Eu na hora empurrei ele, porque ele tinha puxado o meu top. Me ajeitei e voltei a rolar. Na hora pensei ter sido coisa do momento (…) mas ele me mandou mensagens pelo facebook que me fizeram chorar. Conversei com meu professor sobre o ocorrido, mostrei as conversas a ele. E nisso ele falou que eu estava sendo fresca e não me levou a sério. Disse a ele que caso ele me colocasse pra rolar com o rapaz novamente, eu iria parar de treinar naquele local. No outro dia fui treinar, meu professor não foi. Meu amigo estava puxando treino e foi me colocar pra rolar com o tal novato, mas eu disse que não iria e mostrei tudo o que o rapaz tinha me dito. Meu amigo rolou com ele, e nunca mais ele voltou.”

Aqui acho importante ressaltar algo aos homens: nunca desmereça um assédio. É muita ‘homice’ achar que é frescura. A partir do momento em que você viu um assédio e se calou, você está apoiando.

Para não me estender muito, vou voltar na semana que vem, porque infelizmente tem muita história pra contar.

ELOGIE NOSSA GUARDA, NÃO NOSSO CORPO!

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Assédio nos tatames (parte 1) – Introdução

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As mulheres que me inspiram no jiu-jitsu também vão te inspirar

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Minha primeira inspiração no jiu-jitsu foi Kyra Gracie
Minha primeira inspiração no jiu-jitsu foi Kyra Gracie Instagram @kyragracie

Quando comecei a treinar eu simplesmente não tinha “uma ídola” no jiu-jitsu. O acesso à internet em casa era só discado (bons tempos que eu só usava aos finais de semana depois das 14h). Jiu-jitsu na televisão? Nem faço ideia! Mulheres na academia eram pouquíssimas. Então eu entrei aos treze anos no tatame pela primeira vez unicamente porque queria lutar. Mas aos poucos é impossível não se envolver e então, eu procurei um pouco sobre personalidades do jiu-jitsu.

Milhões de homens e quem? Kyra Gracie. Não há como falar de jiu-jitsu feminino sem falar dela. Kyra foi a primeira mulher que vi faixa preta no jiu-jitsu e eu achava que ela era a única. Eu realmente não pesquisava hahaha. E então, quando alguém me perguntava “quem você quer ser quando crescer?”, eu só sabia responder “Kyra”. Não só porque ela era a única na minha cabeça até então, mas ela é realmente incrível. A primeira faixa preta mulher da família Gracie, inúmeras vezes campeã Mundial, bem como do ADCC e de outros campeonatos como Pan Americano, Brasileiro… A Kyra para mim foi uma grande inspiração, foi nome de passarinho e por aí vai. Eu achava incrível como uma mulher podia ser tão forte, linda, tantas vezes campeã e usar kimono rosa! Rs.

Dentro da minha equipe da época, eu olhava para a Grace Kelly, que hoje mora e treina em Portugal. Quando entrei ela ainda era faixa branca, mas a vi graduar faixa azul e só conseguia pensar “preciso ser igual a ela, ser forte como ela e chegar um dia onde ela está”. Tanto que para mim, a faixa azul mais tarde foi a maior conquista que poderia ter tido no jiu-jitsu. Já passei pela branca, amarela, laranja… Mas a azul veio com um gosto muito especial, porque tive uma referência nela.

Me ausentei do jiu-jitsu e, seis anos depois, quando voltei, tive um enorme baque em relação a mulheres. Elas eram MUITAS se comparadas com aquela época! E eu ficava completamente aliviada em ver como esse mundo tinha crescido. Só conseguia pensar ‘meu Deus, onde é que eu estive esse tempo todo? Me atualiza!’.

Parecia mentira, mas eu podia me inspirar em mulheres que treinavam ao meu lado, porque elas tinham graduações avançadas e eu jamais tinha sequer lutado com alguém que fosse além da faixa azul. Meu primeiro contato com uma mulher mega graduada foi com Monica Istamati, hoje faixa preta. Na época ela era faixa marrom e estávamos num treino especial de inverno (o Kangueiko) em 2014. Ela olhou pra mim e disse “vamos?”. Parei, né. Meu mundo parou! Uma faixa marrom menina me chamando pra rolar. Tentei até ousar e dar uma omoplata nela, mas não deu certo.

O treino acabou, nos cumprimentamos.
Eu: nossa, eu quase nunca consigo dar uma omoplata.
Ela: bom, perdeu a oportunidade.

Desse dia em diante eu vi que sim, era possível. Cheguei em casa pensando em como tinha sido legal rolar com alguém muito mais graduada do que eu. Porque não era só a Kyra, tão longe de mim, que tinha alcançado a faixa preta. Eu via a Ângela treinando às vezes do meu lado já black belt (foi quem fiz amarrar minha faixa azul na cintura pela primeira vez, para tentar pegar algum superpoder). E na metade de 2015 eu via a Monica receber a sua faixa preta, depois de um discurso do sensei que dizia algo como “é tão difícil vermos mulheres chegarem até aqui!”. E eu em prantos, junto com ela e com um tantão de gente vendo aquilo. Vi a Nath alcançar sua faixa marrom já sendo black belt de judô. E também vi a Bia, que treina lá em Natal (mas é próxima de nossa equipe) ser faixa roxa de Aikidô, preta de judô, de repente, de jiu-jitsu também.

Ainda com tantos exemplos perto de mim, também pude criar minhas “ídolas” intocáveis, que na verdade são mais palpáveis do que imaginamos. Não digo no sentido literal da palavra, mas sempre observo como é fácil o acesso aos nossos ídolos no jiu-jitsu. É um mundo tão gigante e ao mesmo tempo, tão pequeno em que todos se conhecem e são altamente sociáveis.

Tive oportunidades de conversar muito com a Monique Elias, que é uma mulher incrível de uma história bem bacana, que inclusive já contei aqui.

Monique Elias
Monique Elias Instagram @moniqueelias


Falei também com a Bianca Basílio, que acabei de publicar uma série de episódios falando sobre ela. Uma garota a qual me inspiro muito, por ser tão jovem, tão dedicada, já ter chegado tão longe e ainda assim, querer sempre mais. É daquelas que vejo vídeo o dia todo, não me canso e só consigo me perguntar “como é que ela faz isso?”.

Lembram da Baby? Pois também a tenho como grande inspiração, uma vez que a “irmã do Rodolfo Vieira” sempre será a irmã do Rodolfo Vieira, mas a Ana Carolina Vieira agora é a Ana Carolina Vieira faixa preta e é conhecida paralelamente ao irmão. Muito orgulho!

Ana Carolina Vieira
Ana Carolina Vieira Instagram @anacvieirajj

Como não citar Dominyka Obelenyte? Dominyka Obelenyte, além de uma faixa preta espetacular, de uma guarda praticamente intransponível, criou um grupo chamado “Support Women’s BJJ”, além de uma campanha muito sensacional chamada “Equal Pay For BJJ”que defende o fato de que as mulheres devem ter a mesma quantia em premiação que os homens nos campeonatos, já que a diferença é absurda e a dedicação é a mesma. Em colaboração ao BJJ Forum, já fiz um texto sobre premiações que pode ser lido aqui!

Outra inspiração que acho que vale muito a pena citar é Hannette Staack, que é faixa preta terceiro grau e uma das pioneiras do jiu-jitsu feminino. Quando Hannette começou a treinar e competir, ainda nem havia diferenciação entre faixas e nas competições, competia todo mundo junto, desde branca até a preta.

Gente, são realmente MUITOS NOMES femininos no meio – e de verdade, mais do que imaginamos – seja da nova ou velha guarda do jiu-jitsu (queria citar todos: Angélica GalvãoMackenzie Dern, Michele Nicolini, Luiza Monteiro, Beatriz Mesquita, Andresa Correa, Leka Vieira…). E queria ressaltar além de tudo que, essas guerreiras são muito mais do que um rostinho bonito, mas são mulheres que contribuem diariamente para o nosso esporte ser cada vez mais igualitário!

Um maravilhoso dia das mulheres a todas e um super obrigada por levarem para si, a responsabilidade de nos fazer crescer diariamente – como mulheres e atletas <3




Fonte: Mayara Munhos

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As mulheres que me inspiram no jiu-jitsu também vão te inspirar

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Equal Pay For BJJ – Entrevista com Dominyka Obelenyte

Mayara Munhos
Mayara Munhos
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Não pretendo me estender muito quanto as premiações iguais entre homens e mulheres, pois já escrevi sobre isso e você pode ler o post aqui. Mas, para nos localizarmos, vou dar uma introduzida no assunto:

As mulheres definitivamente recebem premiações inferiores aos homens no esporte, o que é um “fato milenar”, diga-se de passagem. Podemos levar em consideração que antes tínhamos pouquíssimas mulheres no esporte e muitos campeonatos não contavam com presença feminina. Mais tarde, elas começaram a aparecer, porém apenas lutavam entre si em uma única categoria, só muito tempo depois isso foi mudando e hoje temos as categorias subdivididas por idade, peso e faixa. Dessa forma, podemos ver que sim, tivemos uma evolução. Porém, ainda temos muito a brigar.

Pensando nisso, a faixa preta Dominyka Obelenyte criou um movimento chamado “Equal Pay for BJJ“, pois, como ela mesma disse, não adianta só reclamar e não lutar para fazer acontecer.

Dominyka é uma faixa preta de 21 anos, nascida na Lituânia e  a primeira black belt de Marcelo Garcia. Com apenas 14 anos, ela conquistou seu primeiro título mundial lutando pela categoria adulto e foi aí que sua carreira começou a decolar.

Aproveitando sua visibilidade no esporte como faixa preta e Campeã Mundial, ela decidiu então criar o movimento “Equal Pay For BJJ” e é sobre ele que vamos falar hoje.

Dominyka contou que começou a planejar o movimento em abril de 2015, após um encontro no New York Pro da IBJJF, no qual falaram sobre a diferença da premiação no torneio. “As pessoas me disseram para parar de reclamar e passar a lutar por essa discrepância”, diz a atleta. A partir daí, ela passou a divulgar em suas mídias sociais essa diferença com a intenção de mostrar para outras mulheres que deveríamos lutar por isso e que, juntas, poderíamos definir alguns passos e caminhos a serem seguidos.

Pedi ajuda para lutadoras locais e lendas do jiu-jitsu e alguém me sugeriu uma causa chamada “Equal Pay For BJJ” e o movimento surgiu depois disso. Eu criei o grupo do Facebook “Support Women’s BJJ” quando comecei a expressar minha opinião publicamente sobre essa diferença do jiu-jitsu competitivo. Usei isso para tomar consciência da causa e ter ideias com um grupo de mulheres que foram favoráveis a isso.

André e Angélica Galvão com sua aluna Crystal também apoiam
André e Angélica Galvão com sua aluna Crystal também apoiam Reprodução/Instagram @equalpayforbjj


Assim, o movimento começou a tomar forma e Dominyka colocou uma petição no ar  e hoje o grupo conta com mais de 1.600 membros, entre homens e mulheres e já ganhou apoio em diversos lugares do mundo.

Perguntei se ela conta com algum patrocínio:

O movimento tem muita moral e suporte, com certeza. Algumas organizações têm me procurado constantemente para ajudar a anunciar torneios feitos por eles, quando tem intenção de oferecer pagamentos iguais entre os gêneros. Eu não tenho nenhum patrocinador concreto que tenha assumido a causa para si, mas meu patrocinador Digitsu me ajudou na criação das camisetas do Equal Pay e continua ao meu lado na causa.

E, para quem acha que o movimento calou-se, está muito enganado. Dominyka afirmou que o movimento nunca morreu e que ela continua tendo discussões com mulheres do mundo inteiro para arranjar soluções sobre o que fazer. Infelizmente ela não tem tempo para se dedicar mais, porque estuda em tempo integral, mas a mensagem continua a ser passada.

Tenho amigos que estão tentando passar a mensagem para seus contatos através de podcasts, sites ou de qualquer outra forma. Eu estudo em tempo integral na faculdade, então não tenho muito tempo para organizar eventos a favor da causa, como um torneio somente feminino, que já sugeri.

E não, ela não esperava que o projeto tomasse uma dimensão tão grande. Segundo a atleta, ela conseguiu mais pessoas do que imaginava e, com isso, inúmeras discussões foram surgindo aos poucos.

Tem muitos posts disponíveis no Reddit (uma rede social) que debatem essa questão e, apesar de eu não concordar com muitos pontos, eu fico extremamente feliz por ter uma conversa que esteja surtindo efeito sobre o pagamento igualitário.

Fora isso, Dominyka também conta que muitas mulheres vão até ela em torneios e seminários agradecendo-a pelo trabalho. “Eu coloquei uma voz consciente nesses problemas”, reflete. E ainda completa: “é uma sensação incrível ser abordada por uma pessoa completamente estranha que, de alguma forma, se beneficiou da minha causa”.

E com certeza tem muita gente se beneficiando por aí.

Outra coisa importante é que a mensagem chegue até os organizadores, já que, na maioria das vezes, a justificativa do pagamento inferior é por conta das inscrições de mulheres serem menores do que as dos homens, algo que a Dominyka acha um argumento completamente falho. Ela concorda que temos menos mulheres envolvidas no jiu-jitsu se compararmos com os homens, assim como todos os outros esportes de combate, mas de tempos pra cá, o número tem crescido significativamente.

Dito isso, elas estão se tornando mais adeptas ao esporte não só em suas academias, mas as inscrições nos campeonatos cresceram exponencialmente nos últimos dez anos e isso mostra que o jiu-jitsu feminino está indo pra frente e não está estagnado. Infelizmente, muitos torneios não fornecem o dinheiro baseado em quantas inscrições eles fazem. Isso e o fato que Nova York Pro oferece um pagamento dez vezes maior para os homens comparando com as mulheres, eu gostaria de dizer que esse argumento de inscrições é falho. Se a quantidade de competidores que entrarem estiver baseado na questão do pagamento, eu julgo então uma ação falsa, porque o valor do pagamento ser igualado encorajaria as mulheres a se inscreverem. O problema de oferecer uma bolsa pequena às mulheres é basicamente determinado pelas suas habilidades e importância na esfera competitiva e isso desencoraja qualquer um a se inscrever. Na realidade, quem vai querer bancar um voo, hotel e uma inscrição sendo que a chance de ganhar dinheiro é baixa?

Passando por grupos de jiu-jitsu feminino, muitas mulheres dizem que as outras podem se sentir intimidadas por ser pago um prêmio alto, no sentido de terem mulheres de alto nível envolvidas, mas se nunca tentarmos, nunca sairemos do lugar. Então temos mais é que nos arriscar e fazer valer toda luta de Dominyka e das outras mulheres que levam o esporte a sério.

Orgulhosamente, a faixa preta conta que depois que criou o Equal Pay For BJJ, as pessoas passaram a discutir muito mais sobre o assunto, e completa: “sem reconhecermos os motivos e diferenças, não seria bom e a maioria continua o jiu-jitsu como se nada estivesse errado. A conversa tinha que começar de algum lugar e estou feliz com minha decisão de fazer isso”.

Se já mudou alguma coisa? Podemos dizer que sim. Em janeiro do ano passado, a IBJJF aumentou o valor da premiação para os três primeiros colocados no ranking anual, tanto para homens quanto para as mulheres. O valor passou a ser US$15 mil para o primeiro colocado e US$4 mil e US$1 mil para o segundo e terceiro, respectivamente. E, pela primeira vez, o valor foi igualado entre os gêneros.

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Não podemos nos calar e também não podemos deixar de fazer nossa parte. O Equal Pay For BJJé um movimento épico e que, com certeza, foi o responsável por fazer muita gente botar a mão na consciência em relação a pagamentos.

Ótimos treinos para todas nós e que tenhamos cada vez mais nosso esforço reconhecido.

Fonte: Mayara Munhos

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Equal Pay For BJJ – Entrevista com Dominyka Obelenyte

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Jiu-Jitsu não é esporte individual!

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Às vezes a gente se desentende, porque a convivência causa isso. Às vezes somos mal educados uns com os outros, fazemos umas brincadeiras idiotas… Mas não tem coisa melhor do que ouvir um incentivo de alguém que treina com você. Não tem coisa melhor do que ver aquela galera gritando seu nome na arquibancada quando você vai entrar para lutar (eu não ouço, mas vejo nos vídeos depois :p). Não tem nada melhor do que seu mestre estar ao seu lado – principalmente na hora de puxar sua orelha e dar bronca, já que eu acredito que a cobrança só chega até quem é capaz. Não tem coisa melhor do que alguém te chamar de lado e dizer “posso te dar um toque? Acho que você está bem, mas falta isso” ou até falar “que pressão ridícula é essa, Mayara?”.

Eu nunca me dei bem em outro esporte coletivo por sempre me sentir responsável por algo errado (sou um desastre, no handebol então, nem se fale, acho que eu realmente era responsável por todas as coisas ruins hahaha), mas eu me dou bem no jiu jitsu e considero coletivo. O peso que carrego sobre perder e ganhar é um peso individual, porque me cobro numa proporção absurda que eu mesma criei. Sempre que perco, eu peço desculpas ao time – e tomo broncas por isso – mas é muito feliz ter pessoas do seu lado te botando para cima, que te respeitam, que te ajudam e que estarão sempre com você – até nos treinos que tiverem números ímpares!

Obrigada, time. <3

Durante as olimpíadas, eu via os jogos coletivos como handebol, vôlei, futebol e pensava “nossa, acho que eu não conseguiria fazer um esporte coletivo, jiu jitsu é individual e bem melhor”. Porque assim, parece que quando ganhamos num esporte coletivo, é ótimo poder partilhar a alegria, mas quando perdemos, eu jamais gostaria de ser a responsável por isso (não que haja um responsável, mas eu me sentiria), como por exemplo, o pênalti que a Marta perdeu no futebol (méritos da goleira e não erro dela na minha opinião), mas imagine a pressão em cima daquela mulher, que é o destaque da seleção brasileira, ter perdido um pênalti. Sério, não sei lidar. Já no jiu, se eu perdi a culpa foi minha, se ganhei também. Mas será que é isso mesmo?

Na verdade não. Jiu jitsu é tão coletivo como qualquer esporte. A gente rola no chão com gente que a gente nunca viu, temos um time, uma equipe e devemos muito a cada um – respeito, disciplina e cumplicidade.

Como praticar jiu jitsu sem um material humano? Sempre falamos nos treinos que se uma pessoa faltar, prejudica o treino de todos os outros.  Um exemplo bobo, mas que faz sentido: treinar com número ímpar de pessoas. Sempre alguém vai ficar de fora. E a menos que seja para descansar desesperadamente, ninguém gosta de ficar de fora. Sem contar que é impagável ver o tatame lotado (principalmente de número par hahaha).

Como “se agarrar” (como dizem por aí) com pessoas que você mal conhece? Acontece, mas quando acostuma você se sente a íntima (hahaha), porque a cada dia você está lá, treinando com pessoas diferentes e em campeonato então, nem se fale, gente que você nunca viu na vida. Mas se não houvesse respeito e cumplicidade, não daria certo. Respeito de gêneros, de limites, de tempo de treino… Não que você precise aliviar, mas conforme o tempo passa, você aprende que não dá para treinar igual com todo mundo.

E agora, como chegar a um campeonato e subir ao pódio sem seu time ao seu lado? Costumamos dizer que somos nós quem fazemos o treino e, de fato, somos. Tem gente que treina muito e tem gente que treina pouco. Os resultados são reflexo da sua qualidade de treino e muitas vezes isso depende de você e não do seu time, porque não adianta querer culpar seus colegas de treino por uma derrota, sendo que você treina meia hora por semana e acha que está tudo bem. Mas acredite: eles são os maiores responsáveis pela sua vitória. Você pode fazer os seus corres, ir atrás de patrocínio, conseguir uns sim, uns não, pagar suas inscrições, pegar o busão lotado para ir lutar. Mas sem seus colegas de treino, entrar no tatame seria impossível.

Fonte: Mayara Munhos

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Jiu-Jitsu não é esporte individual!

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Por que o Jiu-Jitsu não é olímpico?

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Jiu-jitsu olímpico: ser ou não ser?
Jiu-jitsu olímpico: ser ou não ser? Marco Aurélio Ferreira/Arena Jiu-Jitsu

Encontrar uma resposta para a pergunta “por que o Jiu-Jitsu não é olímpico?” requer muita pesquisa e convicção para não falar qualquer coisa. Muita gente, quando falo que treino jiu, me fala de cara “você vai pras Olimpíadas, né?”, mas não se lembram que ele não é um esporte olímpico (e que jiu-jitsu e judô são modalidades diferentes). Então, tentemos esclarecer algumas coisas.

Existe um órgão que é encarregado de decidir se o esporte entra no programa olímpico ou não, que é o COI (Comitê Olímpico Internacional). Além dessa decisão, é importante ressaltar que para um esporte entrar, outro deve sair e para algum esporte sair, há uma grande análise feita também pelo COI. Outra regra é que para um esporte ser de caráter olímpico, deve ser praticado por homens em, no mínimo, 75 países e 4 continentes e por mulheres em 40 países e três continentes. Além disso, ainda que um esporte não esteja incluso no programa olímpico, ele pode sim ter um reconhecimento do Movimento Olímpico e esse é o primeiro passo para que um novo esporte seja trazido para o programa. Mas, para isso, a Federação Internacional do esporte deve existir há pelo menos dois anos – além de ter que provar para o Movimento que ele tem caráter olímpico e um estatuto.

Um parágrafo e milhões de problemas.

O jiu-jitsu tem muitas confederações espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Entre elas, as mais conhecidas: CBJJ (Confederação Brasileira de Jiu Jitsu – a mais importante daqui), CBJJE (Confederação Brasileira de Jiu Jitsu Esportivo), CBJJO (Confederação Brasileira de Jiu Jitsu Olímpico) e CBJJD (Confederação Brasileira de Jiu Jitsu Desportivo). Fora as confederações internacionais, como a UAEJJF (Federação de Jiu Jitsu dos Emirados Árabes Unidos) ou a IBJJF (Federação Internacional de Jiu Jitsu Brasileiro). E sem falar das federações estaduais, como a FPJJ (Federação Paulista de Jiu-Jitsu) ou a FJJRio (Federação de Jiu-Jitsu do Rio de Janeiro).

 Como levar às olímpiadas um esporte que tem tantas confederações?

Um grande exemplo é que não temos um melhor do mundo em seu peso e em sua faixa, já que temos um campeonato mundial diferente por federação. Aqui também já surge outro problema: o número de praticantes pelo mundo. Tendo em vista tantas federações espalhadas, infelizmente ficaria inviável ter certeza se a quantidade de atletas exigidos mundo à fora atende aos requisitos do COI, afinal, quem analisaria todos os atletas, cadastrados em todas as federações?

Trabalhando na ESPN, eu já pensei em diversas de como convencer que o jiu-jitsu poderia entrar na grade de programação e só depois entendi os motivos, que consiste em basicamente custo x benefício. Levando em consideração que os esportes estão numa grade televisiva gerando lucro e audiência, como colocar na TV um esporte em que é muito difícil entender as regras, de um público tão nichado? O jiu-jitsu não é simplesmente uma finalização, mas uma luta que se dá através de pontuações. Quando uma luta empata, por exemplo, muitas vitórias são difíceis de entender como são dadas, gerando muitas polêmicas em campeonatos.

Outro ponto é que muitas das lutas, por terem a possibilidade de serem vencidas por pontuação, acabam sendo “amarradas” (quando um atleta que está ganhando segura o máximo a luta para não perder). Há regras no jiu-jitsu relacionadas a punição e o árbitro da CBJJ Ricardo Dembowski Silva me ajudou explicando, em resumo, como funciona:

“Se parei numa posição durante vinte segundos, o árbitro tem que me punir, ou punir os dois dependendo da posição. É que às vezes tem um bom senso também. Se a gente vai arbitrar uma luta de dois oponentes muito pesados de faixa branca, por exemplo, que ficam a luta toda em pé, durante cinco minutos. Usando a regra a risca, teria que desclassificar os dois, já que a quarta punição causa desclassificação, e às vezes simplesmente não sai nada, só trocação de força mesmo e aí que entra o bom senso, mas na regra mesmo diz que são vinte segundos. Além de ter posições que não são passíveis de amarração. Por exemplo, você passou minha guarda, ficou lá nos 100kg me estabilizando sem fazer nada e nem eu, só tem punição para você, porque mesmo eu não fazendo nada, quem está em cima está em vantagem e tem que desamarrar a luta, quem está embaixo está só se defendendo. Outra coisa é caso você monte em mim ou esteja nas minhas costas: se você está montado ou nas costas com a posição certinha, pode ficar a luta toda lá que não haverá punição.“

Dentre tantos outros detalhes, Ricardo também nos enviou a regra, que encontra-se no livro de regras da IBJJF, artigo 6.5, página 28 e pode ser lido aqui. 

 O fato de punir não significa que a luta seria mais movimentada ou mais fácil de entender, mas midiaticamente falando, o espectador quer ação e movimentação, o que nem sempre pode ser atendido pelo jiu-jitsu.

O vídeo abaixo ilustra uma luta claramente amarrada por dois atletas renomados, Paulo Miyao vs Keenan Cornelius, numa final de absoluto no Abu Dhabi World Pro de 2013. Os dois atletas foram desclassificados.


Esses são alguns pontos que estudamos para dar motivos pelos quais jiu-jitsu não é um esporte olímpico, mas com certeza vai muito além disso.

Como tudo na vida, ser ou não ser tem prós e contras. Um esporte olímpico é bem visto, gera mais patrocínios e visibilidade aos atletas. Porém, por outro lado, um esporte para ser profissional não necessariamente precisa ser olímpico. Nossa arte perde por um lado e ganha pelo outro, já que hoje vemos eventos muito bem organizados de nível profissional, como Metamoris e Copa Pódio. As premiações estão melhorando e estamos perdendo um pouco aquela visão de “pitboy”  que era como as pessoas nos enxergavam antigamente. Agências estão investindo no esporte e organizando campeonatos muito bem feitos, marcas de kimonos estão crescendo, bem como a procura, inclusive (ou até principalmente) feminina, pela arte marcial. Algumas competições oferecem pagamento em dinheiro, mas em relação a IBJJF, por exemplo, ainda há muito a melhorar, porque é difícil viver do esporte. Creio que estamos ganhando nosso espaço, mesmo sem ser um esporte olímpico. Somos jiu-jitsu, Brazilian Jiu-Jitsu! Agora só paremos para pensar: quantas medalhas nosso país não ganharia se fôssemos olímpicos, hein? 

Bons treinos e até a próxima.

Fonte: Mayara Munhos

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Por que o Jiu-Jitsu não é olímpico?

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Mundial de Jiu-jitsu da IBJJF: veja os resultados no feminino

Mayara Munhos
Mayara Munhos
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Gente, o Mundial de Jiu Jitsu da IBJJF (International Brazilian Jiu Jitsu Federation) simplesmente bombou! Infelizmente as lutas foram bem difíceis de acompanhar, muito mais do que o Abu Dhabi World Pro. Ele teve uma transmissão via streaming que não era lá das mais baratas e a galera foi a loucura procurando onde assistir (ESPN: eu já dei a dica ano passado e continuo com ela :P). Consegui assistir um pouco em cada lugar no domingo, que foram as finais das faixas pretas.

Mas vamos começar falando de algumas faixas marrons que, mais uma vez, arrebentaram!

Nathiely e Tayane recebendo suas faixas no pódio. Agora a responsa aumentou!
Nathiely e Tayane recebendo suas faixas no pódio. Agora a responsa aumentou! Instagram @nathibjj

No peso leve, quem levou a melhor e se consagrou nada mais nada menos do que penta campeã mundial foi Bianca Basílio, da Ryan Gracie – Almeida JJ. No peso médioAna Carolina Vieira, a famosa “Baby” da GFTeam, continuou o legado da família Vieira e levou o ouro. No meio pesado, a Nathiely Melo (da Cícero Costha), que já tinha se destacado no Abu Dhabi World Pro deste ano, não foi diferente: faturou o peso e o absoluto numa luta duríssima com a atual campeã do super pesado, Tayane Porfírioda Alliance. A luta das duas terminou empatada e foi decidida pelos árbitros, dando a vitória para a Nathiely.

O que chamou atenção é que três das quatro faixas marrons citadas, agora são faixas pretas! A Baby, a Nathiely e a Tayane receberam de seus mestres suas black belts no pódio. É muito orgulho!

Bom, depois desse campeonato a disputa pelo ouro na faixa preta aumentou, mulherada que se segure que as marrons chegaram. Mas enquanto o próximo não vem, vamos falar das faixas pretas desse ano.

Aposentadoria da Michelle e comemoração da Mackenzie.
Aposentadoria da Michelle e comemoração da Mackenzie. Instagram @graciemagazine

Começando pelo peso galoRikako Yuasa finalizou Outi Järvilehto com um estrangulamento. No plumaGezary Matuda venceu Kristina Barlaan. No peso pena, Mackenzie Dern (Gracie Humaitá) finalizou Michelle Nicolini (Checkmat). Essa tem que ser por partes! Porque até eu chorei, haha. A luta foi sensacional, começou bem disputada num show de raspagens e parecia que ia ficar assim para sempre. Porém, a Mackenzie surpreendeu dando um estrangulamento na Nicolini. Dern comemorou muito sua vitória e Nicolini caiu nas lágrimas: ela já havia anunciado sua aposentadoria dos tatames para entrar no octógono. Sendo assim, ao final da luta, ela desamarrou sua faixa e botou no tatame. 

Continuando… Beatriz Mesquita, peso leve da Gracie Humaitá, venceu sua luta por 7×0 e garantiu o seu quinto ouro na categoria. No médio, numa luta que começou cheia de raspagens e terminou muito eletrizante, Monique Elias da Alliance venceu Luiza Monteiro da NS Brotherhood por decisão dos árbitros, após uma luta empatada nos 10×10. No final dessa luta, houve um gesto de muito carinho. Luiza caiu nas lágrimas e Monique a abraçou (muito de amiga). Sério, isso é uma das coisas que me mantém no jiu jitsu: o respeito com o adversário.

Monique Elias vence Luiza Monteiro na decisão dos árbitros.
Monique Elias vence Luiza Monteiro na decisão dos árbitros. IBJJF

Já no meio pesado, a atleta da Alliance Andressa Corrêa venceu Sijara Eubanks por 10×0, com uma luta que nos primeiros segundos parecia ser dominada pela sua adversária. Em seguida, Fernanda Mazzelli entrou no tatame para defender seu título no peso pesado contra Alison Tremblay. A luta terminou empatada em 2×2 e os juízes deram a vitória a Mazzelli. No super pesado, a lituana Dominyka Obelenyte surpreendeu Venla Luukkonen e venceu de nada mais nada menos do que 33×0, num show de ida para as costas e tentativas de estrangulamento. Eu nem imagino como deve ser se defender de Dominyka que tem aquelas pernas enormes, mas sei que a finlandesa Venla conseguiu segurar bem para não ser finalizada.

final do absoluto contou com uma disputa de campeã do peso leve versus a campeã do super pesado. Quem levou a melhor foi a Dominyka, que levou seu segundo ouro consecutivo no mundial. A luta foi dura. Dominyka começou colocando muita pressão na Bia que se manteve firme e fechada. A luta terminou em 2×2, porém a lituana tinha uma vantagem e acabou se dando melhor no duelo. O pódio ficou com Dominyka em primeiro, Bia Mesquita em segundo e Mackenzie dividiu o terceiro lugar com Andressa Corrêa.

Pódio do absoluto
Pódio do absoluto IBJJF

E mais uma vez eu termino dizendo: como é bom ver o jiu-jitsu feminino crescendo! Não só nas faixas que falei, mas também tiveram muitas lutas de azul e roxa incríveis, como por exemplo, a final do absoluto faixa roxa entre Andressa Cintra e Gabi McCombi, que são duas atletas que tem dado o que falar nos tatames. Mas isso é um assunto para o próximo post! E um dia eu chego lá \o/ hahaha boa semana a todos.

Fonte: Mayara Munhos

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Veja os resultados do Mundial de Jiu-Jitsu da IBJJF

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Eu realmente não sei como começar, mas vamos do começo! Hahaha

Gente, o Mundial de Jiu Jitsu da IBJJF (International Brazilian Jiu Jitsu Federation) simplesmente bombou! Infelizmente, as lutas foram bem difíceis de acompanhar, muito mais do que o Abu Dhabi World Pro. Ele teve uma transmissão via streaming que não era lá das mais baratas e a galera foi à loucura procurando onde assistir (ESPN: eu já dei a dica ano passado e continuo com ela :P). Consegui assistir um pouco em cada lugar no domingo, que foram as finais das faixas pretas.

Mas vamos começar falando de algumas faixas marrons que, mais uma vez, arrebentaram!

No peso leve, quem levou a melhor e se consagrou nada mais nada menos do que pentacampeã mundial foi Bianca Basílio, da Ryan Gracie – Almeida JJ. No peso médioAna Carolina Vieira, a famosa “Baby” da GFTeam, continuou o legado da família Vieira e levou o ouro. No meio pesado, a Nathiely Melo (da Cícero Costha), que já tinha se destacado no Abu Dhabi World Pro deste ano, não foi diferente: faturou o peso e o absoluto numa luta duríssima com a atual campeã do super pesado, Tayane Porfírioda Alliance. A luta das duas terminou empatada e foi decidida pelos árbitros, dando a vitória para a Nathiely.

O que chamou atenção é que três das quatro faixas marrons citadas agora são faixas pretas! A Baby, a Nathiely e a Tayane receberam de seus mestres suas black belts no pódio. É muito orgulho!

Bom, depois desse campeonato a disputa pelo ouro na faixa preta aumentou, mulherada que se segure que as marrons chegaram. Mas enquanto o próximo não vem, vamos falar das faixas pretas deste ano.

Começando pelo peso galoRikako Yuasa finalizou Outi Järvilehto com um estrangulamento. No plumaGezary Matuda venceu Kristina Barlaan. No peso pena, Mackenzie Dern (Gracie Humaitá) finalizou Michelle Nicolini (Checkmat). Essa tem que ser por partes! Porque até eu chorei, haha. A luta foi sensacional, começou bem disputada num show de raspagens e parecia que ia ficar assim para sempre. Porém, a Mackenzie surpreendeu dando um estrangulamento na Nicolini. 

Dern comemorou muito sua vitória e Nicolini caiu nas lágrimas: ela já havia anunciado sua aposentadoria dos tatames para entrar no octógono. Sendo assim, ao final da luta, ela desamarrou sua faixa e colocou no tatame. Como eu já disse, eu super apoio as meninas que passam a focar no MMA, mas é uma perda muito grande para os shows no jiu jitsu.

Continuando… 

Beatriz Mesquita, peso leve da Gracie Humaitá, venceu sua luta por 7×0 e garantiu seu quinto ouro na categoria. No médio, numa luta que começou cheia de raspagens e terminou muito eletrizante, Monique Elias da Alliance venceu Luiza Monteiro da NS Brotherhood por decisão dos árbitros, após uma luta empatada nos 10×10. 

No final dessa luta, houve um gesto de muito carinho. Luiza caiu nas lágrimas e Monique a abraçou (muito de amiga). Sério, isso é uma das coisas que me mantém no jiu jitsu: o respeito com o adversário.

Monique Elias vence Luiza Monteiro na decisão dos árbitros
Monique Elias vence Luiza Monteiro na decisão dos árbitros IBJJF

Já no meio pesado, a atleta da Alliance Andressa Corrêa venceu Sijara Eubanks por 10×0, com uma luta que nos primeiros segundos parecia ser dominada pela sua adversária. Em seguida, Fernanda Mazzelli entrou no tatame para defender seu título no peso pesado contra Alison Tremblay. A luta terminou empatada em 2×2 e os juízes deram a vitória a Mazzelli. 

No super pesado, a lituana Dominyka Obelenyte surpreendeu Venla Luukkonen e venceu de nada mais nada menos do que 33×0, num show de ida para as costas e tentativas de estrangulamento. Eu nem imagino como deve ser se defender de Dominyka que tem aquelas pernas enormes, mas sei que a finlandesa Venla conseguiu segurar bem para não ser finalizada.

final do absoluto contou com uma disputa de campeã do peso leve versus a campeã do super pesado. Quem levou a melhor foi a Dominyka, que levou seu segundo ouro consecutivo no mundial. A luta foi dura. Dominyka começou colocando muita pressão na Bia que se manteve firme e fechada. A luta terminou em 2×2, porém a lituana tinha uma vantagem e acabou se dando melhor no duelo. O pódio ficou com Dominyka em primeiro, Bia Mesquita em segundo e Mackenzie dividiu o terceiro lugar com Andressa Corrêa.

Pódio do absoluto.
Pódio do absoluto. IBJJF

E mais uma vez eu termino dizendo: como é bom ver o jiu jitsu feminino crescendo! Não só nas faixas que falei, mas também tiveram muitas lutas de azul e roxa incríveis, como por exemplo a final do absoluto faixa roxa entre Andressa Cintra e Gabi McCombi, que são duas atletas que tem dado o que falar nos tatames. Mas isso é um assunto para o próximo post! E um dia eu chego lá \o/ hahaha boa semana a todos.

Bônus do dia:

As meninas do BJJ Girls Mag publicaram também resultados das outras faixas e links para assistir aos vídeos das lutas. Quem quiser ver, é só chegar.

Ah, para quem quiser ver muitas fotos (eu queria colocar todas, mas não posso!), entra aqui no álbum da IBJJF que tem um montão.

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Minha luta, sua luta

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Dessa vez, não vamos falar sobre o livro da Ronda, vamos falar da nossa luta. A luta das mulheres.

Eu já comecei aqui no blog falando sobre machismo no jiu jitsu, para quem não leu e quiser entender melhor o que penso sobre isso, dê uma pausa, leia ele aqui e depois continue esse.

Cara, a gente sofre. Mulher tem problema no mundo corporativo, porque ela, na cabeça das pessoas, precisa fazer “teste do sofá” para ser bem sucedida. Mas mesmo com o teste do sofá, ainda assim, nosso salário é inferior se comparado ao dos homens. Mulher sempre vai precisar ter feito algo “além” que não seja meritório profissionalmente para ter chegado a alguma grande cadeira. Mas gente, por quê?

No esporte, não é diferente (independentemente de ser profissional ou amador). Nós sempre estamos na academia atrás de macho. Estamos no jiu jitsu só para agarrar macho. Estamos no balé porque queremos ficar com um corpo bonito para os machos. Fazemos musculação para nosso bumbum chamar atenção dos machos na rua. Jogamos futebol porque somos machos. Até quando?

Esse caso da menina do Rio de Janeiro mexeu bastante comigo e com meus pensamentos. O que mais me irrita nisso tudo é o “mas”. Ah, mas ela era drogada. Ah, mas ela curtia traficante. Ah, mas ela tinha foto com arma. Mas… Mas… Mas… Tanto mas e o que justifica um estupro? Eu vou ser bem sincera. Tentei acompanhar o caso desde o início e de fato acompanhei, mas eu parei. Parei porque não tive estômago. 

Não é questão de sexismo, mas ver homem apoiar atitude de homem você talvez entenda – eles não passam por fiu fiu na rua, ninguém fica secando a bunda deles quando passam, ninguém da encochada no metrô. É realmente difícil se colocar no lugar do outro quando você, de fato, não vive aquilo diariamente (embora seja uma questão de compaixão e, quando se tem compaixão, tudo fica mais fácil. Eu ensino: é só pensar “no lugar dela, eu gostaria?”. Se a resposta for não… Já sabe!). 

Agora, ver mulher apoiando o fato, julgando a menina. Isso estava me consumindo, não dá para lidar. Realmente não dá. Então, eu parei. Se vejo algo no meu Facebook, eu desvio o olhar; se alguém vem falar do assunto eu tento não falar… Eu realmente não sei o que faria se fosse comigo, de verdade.

Bom, no Bola da Vez, vimos o caso da Joanna Maranhão, uma mulher muito forte que vive/viveu pelo esporte. E eu amo jiu jitsu e me identifico com muitas coisas, mesmo que fora d’água. Mas alguém desse mundo que seja mulher no meio esportivo que nunca tenha sofrido um abuso pode deixar nos comentários que eu vou te dar um abraço e dizer que você é uma mulher de sorte.

Sabe, discernimento é algo que adquirimos ao longo dos anos. Então, talvez no momento tenha sido um problema que foi silenciado. Hoje me culpo. Me culpo porque eu fui só mais uma que apoiou alguém que cometeu algo escroto comigo. 

Sem muitas delongas, mas imagine como é você ter acordado um dia feliz e decidida a fazer um treino sensacional de jiu jitsu. Você vai, pega seu kimono, corre para a academia e treina normalmente com os meninos, como todos os dias. Só que um deles, visualmente mais forte que você, durante uma luta te segura numa posição em que chamamos de 100kg (basicamente uma posição em que a pessoa fica em cima de você te estabilizando com as suas costas colada no chão e é bem difícil de sair) e te lasca um beijo na bochecha. 

“Ah que drama, foi na bochecha”. Quer me dar um beijo na bochecha,  me dá na hora de falar tchau. Poxa, quer coisa mais normal do que cumprimentar com beijo na bochecha?! Mas durante uma luta… Eu estou lá unicamente com a minha cabeça no meu treino, eu não quero isso. Eu não pedi isso. Eu não te dei permissão para fazer isso. 

E então, na hora, eu só continuei até o final, sai do tatame e comentei discretamente com um amigo. Olha a ingenuidade da pessoa, né? O meu amigo só podia no momento descontar toda sua raiva no menino durante a luta (eu pedi para ele não contar para ninguém). Eu não achei certo falar para o mestre porque pensei em duas coisas: a primeira era que o menino (coitado) poderia ser expulso da equipe e a segunda é que eu poderia estar fazendo drama e estar sendo babaca. Me calei.

Eu acho de uma covardia tão grande um cara esperar você estar suada, fedida, com um kimono de dois quilos e se aproveitar da sua falta de força perante a dele para fazer uma coisa dessa! Como eu abomino. Como eu tive raiva de um dia um amigo ter me chamado de lado depois de sair de uma luta com um outro cara (que não é o mesmo do beijo) para me avisar que não seria legal eu fazer mais treinos com ele porque, nitidamente, ele só queria se aproveitar de mim (embora tenha rolado um machismo da parte dele, no sentido de “toma cuidado” no lugar de chegar para o cara e dizer “para com essa coisa ridícula”. Mas, de novo, se eu tivesse discernimento na época, talvez teria dado esse conselho a ele). 

Você vai se aproveitar de uma mulher dentro do tatame! Sabe? Já basta os problemas da vida… Todo mundo tem problemas no trabalho, com a família, com o namorado, todo mundo tem. E no único lugar que você vai por hobby, para esfriar a cabeça e esquecer tudo você é obrigada a se preocupar com mais problemas que podem acontecer?

Então é uma pena, mas muitas vezes namorados (que treinam ou não) proíbem suas namoradas de treinar, batem o pé e simplesmente não querem. Eu preciso entender o desespero desses homens. Porque, no caso dos que treinam, embora eles treinem, saibam de sua conduta própria e do que o esporte ensina, você não tem como controlar a cabeça do outro. 

O jiu jitsu ensina muito, não só no tatame, mas na vida. Mas infelizmente tem algumas coisas, como essas cabeças desses caras que eu nem sei como denominar, que a gente não pode ensinar. Quer dizer, talvez a gente possa, mas a gente não tem estrutura para isso, porque não é só o mestre ou seu colega de treino que vai ensinar. Mas a vida, o sistema, sabe? Um sistema eu digo assim, não aquele tipo de sistema que defende a castração química, se é que me entendem.

É muito triste ver essa nojeira espalhada e sendo tratada como “cultura”. Cultura! E lá é cultura você se aproveitar de alguém sem consentimento? Você forçar um sim quando é não? É cultura você ter prazer (eu sei lá se é prazer mesmo que esse tipo de gente tem) com alguém gritando desesperada só pedindo liberdade? Isso não é cultura e a gente vai derrubar isso. A gente = mulheres. Vocês = homens. Nós = todos. Porque a luta é nossa, mas jamais ganharemos a batalha sozinhas

A batalha também é de vocês. Eu tenho que dizer que sou totalmente contra quando dizem que homem é um estuprador em potencial, podem me julgar, mas sou contra. Eu acredito que os homens tenham sim machismo enrustido, todos. Mas não que todos sejam capazes de certas barbaridades. São coisas que andam lado a lado, porém, são diferentes. E é para isso que serve a desconstrução. Se for preciso pegar na mão de cada um para explicar que não é mimimi, tá tudo bem. Se isso for melhorar o mundo, tá ótimo.

Tudo isso precisa ser discutido SIM! Muito bem discutido. Precisa ser entendido, passado para frente e, acima de tudo, levado a sério. Porque é sério! E está muito além dos limites que eu achei que chegaria. Eu sei, é difícil falar. Imagine eu contar para o meu pai, na época, que um cara me lascou um beijo no treino? E o medo dele me julgar? Me proibir de treinar? A gente nunca sabe a reação. Mas moças, a gente não pode se calar, definitivamente. Nunca escondam seus casos, nunca apoiem o cara em um caso desse e nunca pensem “coitadinho vai sofrer consequência”. Porque nossa vida, nossa alegria, nosso psicológico… Vale muito mais do que isso. 

Se não se sentir a vontade em publicar para o mundo todo ver, se não quer contar para a sua família porque são de uma geração diferente e acha que será difícil entender, tudo bem. Conte para alguém próximo e de confiança e faça esse alguém passar para frente, de qualquer forma, desde que não se cale. Denuncie, denuncie de qualquer jeito. Rede social, cara, ela é uma arma! Eu amo isso tudo, porque aqui a gente pode externar tanta coisa que antes eu nem sei como seria (tudo bem que tem opinião que é difícil de ler). 

Imagine se isso aqui não existisse, eu nunca saberia do caso de ninguém e acharia sempre que eu fui a culpada. Eu não teria possibilidade de ler tanto, ter informações tão rapidamente… Então, aproveitem disso aqui e externem! Aproveite dos meios que ainda temos de denúncia (embora não sejam tão eficaz) e denuncie. Exija mulheres do seu lado, exija advogada, exija delegada, exija policial, exija amiga, exija conhecida, exija alguém que já passou por esse tipo de problema, colega… Exija tudo do seu lado, tudo que te entenda, tudo que se solidarize.

Mulheres, chega de rivalidade. Mulher tem que estar junto. Aqui não é Dérbi, aqui é vida real! Se a gente se juntar, a luta facilita. Então bora! Minha luta, sua luta… NOSSA LUTA! A luta é toda nossa e de quem estiver disposto a lutar. Ela começou faz tempo, ela caiu, mas ela voltou… E nunca mais vai cair de novo. É só a gente não deixar!

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Minha luta, sua luta

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BJJ Stars Female

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Mariana Guimarães - faixa marrom da AOA.
Mariana Guimarães - faixa marrom da AOA. Mayara Munhos

Evento só para mulheres no jiu jitsu parece algo fora da realidade, né? Pois bem, nessa quinta feira (26) aconteceu em São Paulo, no Teatro da Uni Ítalo, mais uma edição do evento BJJ Stars – dessa vez o BJJ Stars Female, com um card 100% feminino.

O evento é idealizado pelo Mestre Fernando Lopes, o Fepa, responsável pela equipe Pedra 90.

Praticante de jiu jitsu há 27 anos, o Fepa reconhece que as mulheres sofrem preconceito ao se tratar de esportes de luta e por isso, decidiu que essa edição do BJJ Stars seria exclusivamente para não criar diferenciação de gêneros nesse meio. Ele ainda defende que o jiu jitsu é o esporte mais eficiente para defesa pessoal, principalmente para as mulheres (eu também acho :P).

Vejam o vídeo:

Gostaria de aproveitar e parabenizar toda equipe organizadora do BJJ Stars Female. Cronograma seguido à risca, organização sensacional e a estrutura do evento impecável. E fora tudo isso, eu nunca tinha visto um evento com uma torcida tão “fanática”, hahahaha. 

Eu voto por mais eventos desse porte no Brasil, que valorizem o atleta, respeitem e nos deem a estrutura que merecemos. Só quem compete sabe o quanto é difícil pagar inscrição, se deslocar e ainda chegar até o local e ficar esperando horas e horas sua luta acontecer.

Mas isso é assunto para um próximo post!

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BJJ Stars Female

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Em um relacionamento sério com o jiu-jitsu

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Em um relacionamento sério com o Jiu Jitsu

Querido Jiu Jitsu,

Eu sei, nos damos muito bem hoje em dia. Você lembra de mim quando eu tinha 13 anos? Eu cheguei na academia, comprei um kimono vermelho e esquisito no primeiro dia (era o único do meu tamanho e eu não segurei a ansiedade). Você já me fascinou de cara. Já estava competindo com um mês de treino, vivia treinando até quando era horário de tatame livre.

Você lembra que dois anos depois de te conhecer, eu te “larguei” porque me lesionei? E depois não consegui voltar durante seis anos porque estudava e trabalhava em período integral. Porque me mudei. Porque comecei a faculdade. Era difícil mesmo a gente se encontrar né? Seus horários definitivamente não batiam com os meus.

Eu e meu kimono vermelho feio, por volta de 2007. (Foto: Equipe Franco Penteado - Itatiba)
Eu e meu kimono vermelho feio, por volta de 2007. (Foto: Equipe Franco Penteado – Itatiba)

Durante os seis anos em que passamos longe, eu sei, você deve ter achado que eu te troquei. Pelo handebol na faculdade, pela musculação, pelo Muay Thai, pela natação… Acontece que hoje eu queria te falar que nada disso brilhava meus olhos tanto como eles brilham quando falo de você! Aliás, quando eu te pratico.

Era muito difícil quando tentamos reatar. Eu conseguia te encontrar só duas vezes por mês. Eu sei que você ficava bravo comigo quando chegava sábado e eu não aparecia porque tinha que trabalhar. Mas eu fiquei muito feliz por poder te ver aos poucos novamente.

Campeonato Sul Americano de 2007. (Foto: Arquivo Pessoal)

Campeonato Sul Americano de 2007. [Foto: Arquivo Pessoal]

Hoje isso já não faz sentido para mim, acredite. Eu não consigo viver longe de você. No momento eu não percebia, mas faltava algo na minha vida e eu não sabia o que. Era você!

Eu confesso que às vezes eu tenho preguiça. Eu trabalho o dia todo, eu chego em casa cansada, você sabe como é. Eu pego pelo menos três horas de trânsito por dia só para ir e voltar do trabalho. Eu adoraria poder passar essas três horas com você. Mas eu tento compensar no final do dia, fala sério, vai!

No frio então… A vontade é deitar na minha cama e esquecer que você existe. Ela parece confortável, mas ai me da um estalo e eu lembro que você está me esperando e vai me esquentar tanto quanto meu edredom – ou até mais.

Bom, é verdade. Você me machuca, rala minha cara, esfola minha orelha, bagunça meu cabelo… E as pessoas não entendem! A galera fica me julgando por sua causa, acredita? Ninguém entende quando deixo minha família de lado para competir, ou quando não vou fazer algum programa a noite porque tenho treino. E quando me chamam para sair de sexta a noite e eu falo que vou te ver então? Sexta a noite não é dia de balada, é seu dia. Os roxos são sempre porque alguém me bateu na rua, que bobagem. E eu já ouvi tantas vezes “por que você não vai praticar um esporte de menina?”. Cara, você é meu esporte de menina. 

A verdade é que eu passo por muitas dificuldades para poder te encontrar diariamente e quando eu não te encontro, fica um baita de um vazio no meu peito. Mas a minha vida com você faz muito sentido. Você realmente me faz feliz, uma pessoa melhor. Você me disciplina, você me trouxe pessoas incríveis, trouxe meu namorado – que por sinal, nem tem ciúmes de você e gosta de você tanto quanto eu. Aliás, eu nem saberia namorar alguém que não entendesse nosso relacionamento.

Minha vida gira toda em torno de você. Ah, parece exagero, mas quem te conhece sabe e para quem não te conhece, fica difícil explicar. Creio que saiba também que você causa duas reações: amor ou ódio. Ou as pessoas te amam muito ou elas não querem nunca mais te ver. E eu te amo de verdade!

Meu amor transborda. Eu não esqueço nunca uma frase do Sensei Diego naqueles treinos lotados de sexta feira em que ele disse “quando a gente bota o coração no que fazemos, o negócio é diferente e hoje eu quero graduar alguém que faz isso”. Era eu! Eu nem consigo esconder! Tanto que fiquei sem reação, não consegui sair do lugar. Você me deixa meio esquisita assim mesmo.

Eu realmente faço por amor e com amor. Dinheiro nenhum compraria minha felicidade ao entrar no tatame, ou o nervosismo antes de cada competição, ou a realização de uma medalha, a tristeza da derrota, nem a alegria de ter tantas pessoas boas do meu lado, graças a você.

Não sei se você sabe, mas nesses anos de distância eu te procurei por muitas partes e eu nunca te achava. Na verdade te encontrei em muitos lugares, mas, como eu te disse, nossos horários eram muito distintos. Me desculpe, eu tive que priorizar outras coisas na vida. Eu tinha medo também de você me machucar de novo e eu nunca mais conseguir te encontrar. Mas eu consegui. Hoje eu não abro mão.

Eu nunca mais vou deixar você ir embora. Você faz parte de mim. É meu hobby, uma parte do meu trabalho e aproveito para treinar de outras formas quando não estamos de fato, juntos.

Eu sei que vai demorar uns anos. Às vezes olho para trás e penso que se hoje não tivesse te largado, já seria faixa preta. Mas tudo bem, nada é por acaso. Enquanto isso, eu vou me contentando com a minha azulzinha e me esforçando para evoluir a cada dia até um dia, chegar a tão sonhada black belt. E eu não quero ser só mais uma black belt, eu quero ser a melhor black belt.

Hoje em dia eu prometo que nada mais vai nos separar. Nenhuma dor, nenhum desencontro de horários e nenhum machucado esporádico. Eu aprendi que da para ficar com você de qualquer forma, a dor é psicológica e nos desenvolve em lados que nem imaginamos que podemos desenvolver.

Longe de você eu também amadureci e talvez se não estivéssemos ficado sem nos encontrar, hoje em dia seria tudo diferente e menos intenso. Portanto, obrigada por ter ficado longe, mas um obrigada especial por ter voltado ainda mais forte.

Seguirei minha vida em seu caminho sempre, até meu último suspiro.

Com amor,

Mayara Munhos.

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Treino Feminino da Kihon

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Eu sempre senti falta de treinar com mulheres. Os meninos sempre diziam “ah, mas fica tranquila, se você treina bem com a gente, vai chegar no campeonato e se dar muito bem”. Certo? Errado! Porque na maioria dos lugares, as meninas treinam muito mais com homens. Eles são a maioria. Sendo assim, a gente tem que usar e abusar da nossa técnica com eles, mas chega uma hora que fica muito difícil saber como realmente está o nosso nível.

Os homens, talvez, peguem um pouco mais leve com a gente, mas as mulheres jamais pegarão. Sendo assim, eu acho que a melhor forma de medirmos nossa técnica é, de fato, treinando entre mulheres.

Na Kihon (equipe que treino), tem algumas mulheres e vi que o número estava só aumentando. Encontrei algumas pessoas que tinham a mesma vontade que eu: um treino feminino. Sensei Marcão e Sensei Monica. Sendo assim, tentamos marcar algumas vezes e na maioria delas, sem sucesso – mesmo. Não ia quase ninguém. Nunca dava (hahaha). Então, fizemos alguns treinos bem vazios.

Mas, de repente, o Sensei Diego abraçou a causa e fixou um horário de treino às segundas e quartas-feiras, 21h30 só para mulheres. E vem dando certo. Veja só:


Agradecimentos do dia!

Senseis Diego, Marcão e Monica (minha BFF BJJ), pela disponibilidade da entrevista e por ter aberto as portas. Marcelo Istamati pela fotografia que ficou sensacional! E a todas as meninas que fazem o jiu jitsu feminino acontecer… Faço tudo com amor, por mim, por vocês e por nós <3

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Treino Feminino da Kihon

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Quando o suor não vira medalha

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Eu sempre fiquei um pouco revoltada com quem quer desmerecer meus resultados em campeonato. Só a gente sabe o quanto suamos para chegarmos a qualquer lugar do pódio – e às vezes, nem chegamos.

Não sou atleta profissional. Tenho que dividir minha vida de atleta entre família, namoro, amigos, trabalho, estudos e treino.  Parece que isso torna tudo ainda mais difícil, que preciso arrumar qualquer tempinho livre que tenho no dia para treinar. E se não for treinar então, parece que o mundo desaba sobre minha cabeça.

Acontece que nem sempre trazemos uma medalha para casa depois da competição. Eu já tive muito mais derrotas do que vitórias, isso é fato. Mas como meu mestre sempre diz: ganhar todo mundo sabe, quero ver saber perder. 

Nós treinamos, fazemos dietas, nos sacrificamos, colocamos como prioridade na vida, vamos até o ginásio cheias de vontade, pisamos no tatame querendo dar o nosso melhor… E nem sempre o melhor acaba sendo o suficiente. Até hoje ainda é difícil para mim quando o arbitro levanta uma mão e não é a minha. Mas já foi bem pior!

Antes eu ia para campeonatos suando, tremendo, com dor de barriga (tá, essa eu ainda tenho hahaha) e sempre achando que minha adversária é melhor que eu. Hoje eu vou um pouco mais tranquila, com foco em ser campeã, mas confio mais em mim, nos meus treinos e na minha força de vontade. E aliás, não somos só nós que treinamos, só nós que temos força de vontade…  nossas adversárias estão lá pelo mesmo motivo. Sendo assim, não adianta sair chutando tudo depois de uma derrota. É treinar mais e bola para frente.

Circuito ABC sem kimono.
Circuito ABC sem kimono. Sinistro Photo Film

Mas, de tudo isso, o que eu acho pior mesmo é ouvir das pessoas que eu perdi.

“Ah, Mayara, sua mentirosa, você acabou de falar que sabe perder”.

Eu sei! Mas a última coisa que queremos ouvir das pessoas depois de sair de uma luta cansada e ainda “derrotada” (entre aspas, porque uma derrota nunca é de fato uma derrota), é zoação.

Eu sei também que devemos saber perder e levar as coisas na brincadeira. Mas uma coisa é alguém falar do meu time de futebol, outra coisa é alguém desmerecer o meu esforço. Sim, porque jiu jitsu é muito mais do que um esporte que escolhi praticar. 

O jiu jitsu é a minha vida paralela da vida de vocês. De vocês aí que não entendem, que não treinam, que não tem o mesmo foco que eu. É a minha vida paralela que me separa muitas vezes da minha família para poder competir, que me faz recusar algumas comidas gostosa de vó porque estou próxima de competição e preciso controlar o peso, é a vida paralela que me faz ter uma disciplina diferente da de vocês… Mas que não me faz nem melhor nem pior do que ninguém. É apenas o que eu escolhi.

Sério, dar risada da cara de uma pessoa porque ela perdeu é a pior humilhação que podemos carregar. Como se não bastasse já se sentir para baixo (porque saber perder não significa gostar de perder e ficar feliz), ainda tem a galera que curte tirar uma com a nossa cara.

Antes, eu limitava isso a apenas a galera que treina e ignorava as pessoas que não treinam que queriam falar sobre meus resultados. Eu fechava a cara quando algum amigo de treino vinha falar sobre minha derrota, perguntar “nossa, mas é para isso que você treina?”. Eu já tive que ouvir um “vai lá para perder de novo”. Ou até uma nova expressão “Mayarei” por ter ficado em terceiro lugar. 

Parece engraçado, mas na verdade não é. Então eu achava um absurdo as pessoas que treinam, que tem o mesmo esforço que eu ou até maior, terem coragem de desmerecer um campeonato que fui só por não ter trazido medalha. Na verdade, estar no topo não necessariamente mostra o que somos. Campeonato é outro esquema… É muito mais coração.

O dia em que perdi para uma faixa branca, rs, mas botei meu coração e segui em frente!
O dia em que perdi para uma faixa branca, rs, mas botei meu coração e segui em frente! Copa SP

Mas meu conceito mudou. Mudou porque eu via que as pessoas falavam para me atingir, para me deixar nervosa… É legal ver as pessoas nervosas, né? Mas não é legal quando você não sabe o que ela passa todos os dias para estar lá, a grana que ela tira do bolso para nem sequer voltar com uma medalha no peito e o coração que ela bota naquilo que está fazendo.

Nem todo mundo tem cabeça para competir. O psicológico, aliás, é algo que deve ser bastante trabalhado para competições. Não posso falar que o meu é impecável, mas a gente demora um tempo até entender a essência de um campeonato e só quando a gente entende, fica realmente legal e viciante. Imagine você demorar um tempão para trabalhar milhares de coisas, inclusive sua cabeça, para alguém, que entende ou não do assunto, acabar com tudo em uma frase só?

Ao ouvir um “perdeu de novo”, é como se você fosse a pior lutadora do mundo. Como se você não assimilasse o que aprende no treino, como se não treinasse como parece treinar, como se não estivesse merecendo aquela faixa que está amarrada na sua cintura. É tipo “nadar e morrer na praia”. Mas aqui a gente bate, bate, mas não morre no tatame.

Eu não desmereço ninguém. Pode ser o meu melhor amigo ou o meu maior rival, eu jamais vou rir de uma derrota, jamais torcerei contra, porque isso é para os fracos e sem foco. O meu foco é ser campeã e para mim não importa que seja devagar. Tudo tem sua hora, tudo no seu tempo. Se ainda não aconteceu, se eu ainda não tenho nenhum título de expressão, não significa que eu nunca terei ou que vou desistir. 

Desistir não faz parte do meu vocabulário. Sou feliz naqueles campeonatos em que volto com ouro, sorrio nos que volto com prata, analiso meus erros quando volto com bronze e treino o triplo quando volto sem nada. Mas em nenhuma dessas situações eu vou voltar para casa sem ter aprendido alguma coisa. E nem o ouro vai me deixar satisfeita

Bons treinos 

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Jiu-Jitsu de mãe para filha

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Talita Nogueira, mais conhecida como Talita “Treta”, treina jiu-jitsu há dez anos.

Luiza Nogueira, sua filha, treina judô desde os três anos de idade e jiu-jitsu desde os quatro.

A Talita é campeã mundial, pan-americana, brasileira, paulista e atleta invicta de MMA, além de ser árbitra da Federação Paulista de Jiu-Jitsu.

A Luiza, com apenas 13 anos, já coleciona diversos títulos, ajuda nas organizações dos campeonatos sempre que pode e ainda quer conquistar muito mais.

Ao contrário do que pensam, a iniciativa de ingressar no mundo dos tatames foi da própria Luiza que, vendo o seu tio treinar judô, se interessou. E é claro: a Talita nem reclama.

As duas tem uma relação muito legal dentro e fora do tatame. Elas treinam juntas sempre que podem, se dão muito bem e parecem mais irmãs do que mãe e filha.

Não vou dar mais spoiler porque ainda tem o vídeo, mas é lindo demais ver o quanto a Luiza se espelha na mãe e como é nítido o companheirismo entre as duas (editora mole é assim: quase chorei).

Veja aí:

Aproveitando a deixa de dia das mães, o lema de Talita é “faça tudo com amor”. E isso as duas têm de sobra!

Conversamos também sobre o fato de muitas mães terem medo de ingressar seus filhos na arte marcial. 

Antes de levá-los para treinar em qualquer academia porque pareceu mais legal ou mais perto de casa, é muito importante que se conheça o seu local de treino, seu professor, se ele é realmente graduado, se pertence a alguma federação, bem como entender os seus princípios sociais e profissionais. 

Não deixe de colocar seu filho para fazer algo que ele sinta vontade por receio, simplesmente por não conhecer a arte. Busque, vasculhe, entenda e conheça profundamente. Mas jamais proíba. Só quem está no meio sabe o quanto o jiu jitsu disciplina e o quanto faz feliz.

Feliz dia das mães à Talita, a todas às mamães do jiu jitsu, às mamães esportistas e é claro, a minha mãe! A quem devo muito nesse caminho da arte suave que escolhi, que me deixa mostrar na cama dela os golpes novos que aprendi, que briga comigo porque diz que eu exagero… Mas que sempre que pode está lá me assistindo e torcendo por mim. Ah e vale lembrar que ela é muito esportista também (faz funcional, pilates, caminhada e ainda anda de bike). Te amo linda! Feliz seu dia.

Agradecimentos do dia:

Talita, Luiza e toda a Equipe Ryan Gracie Ipiranga pela recepção.

Victor Varella pela captação pré-Brasileiro, deixou de treinar direito só para me ajudar a gravar! Obrigada, amigo Marcelo Feitosa, pela thumb da correria, obrigada sócio! Você é o mestre das artes.

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Jiu-Jitsu de mãe para filha

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A ascensão feminina no Jiu Jitsu

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Quando eu decidi treinar Jiu Jitsu (há dez anos), eu logo meti as caras na competição com um mês de treino. Cheguei lá, na época Infanto Juvenil A, e só tinha eu na minha categoria. Ganhei por WO. 

Depois decidi lutar o Sul Americano uma categoria acima da minha, já que a minha não existia (fui no Juvenil e era Infanto Juvenil B). Só tinha uma menina. Meu último campeonato antes de parar de treinar foi um bem pequeno em Jarinu. Eu era faixa laranja e só tinha três meninas o campeonato todo. Decidimos juntar todas numa categoria só. Eu Infanto B e as outras, adulto.

Hoje, que estou no meio novamente, eu vi que o jiu feminino cresceu muito! Mas muito MESMO! Aliás, hoje meu pai nem reclama mais do fato de eu viver no meio dos meninos hahaha.

A galera pensa que é mais fácil sair com medalha porque tem menos lutas, que eu vou chegar no campeonato e ganhar de todas porque eu treino só com homem… Mas assim, as poucas lutas que tem, são todas duras, todas as meninas que competem, realmente treinam sério e a galera não pensa, mas a maioria delas também treina com homens.

O Campeonato Brasileiro da CBJJ (Confederação Brasileira de Jiu Jitsu) encerrou suas inscrições neste ano antes da data prevista porque excedeu a capacidade máxima. Entre as categorias, as das meninas em sua maioria estavam lotadas.

No sábado, fui até Barueri, no Ginásio José Corrêa, e conversei com a galera que entende do assunto para convencer o mundo de que o jiu jitsu feminino também vale a pena: de assistir, de praticar, de apoiar e principalmente, de respeitar 

Olha aí:

E você, está esperando o que para começar?! 

 Obrigada aos mestres Cícero Costha, Barbosa e Fabio Gurgel e às mestras/ídolas Mackenzie Dern, Gabi Garcia e Talita Nogueira. 

Obrigada também ao Matheus, meu namorado, por ter me dado uma força na matéria e ter feito toda correria junto comigo.

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A ascensão feminina no Jiu Jitsu

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Abu Dhabi World Pro

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Confesso que eu fico um pouco chateada quando vejo que as chaves femininas serão faixa marrom e preta junto. Temos faixas marrons se destacando muito agora, e as faixas pretas estamos sempre acostumadas a ver os mesmos confrontos, mas que sempre deixam uma pitada de “quem será que vai levar?”, porque é tudo muito incerto.

Pois bem, a categoria feminina do Abu Dhabi World Pro foi tudo misturado mesmo – só no feminino. Tanto no peso como no absoluto (absoluto é quando lutam todas, sem divisão de peso). Eu acho uma pena. Isso acontece por falta de competidores. Significa que tendo faixa marrom x preta separadas no masculino e juntas no feminino, é nítida diferença entre os dois. Porém, acho que teriam meninas o suficiente para subdividir as categorias por cor de faixa sim. Enfim…

Seja lá como tenha sido dividido, esse campeonato nos deixou um novo nome para se destacar entre as duas faixas. Não é Mackenzie Dern de novo, não é Luiza Monteiro, nem Nicolini e nem Dominyka Obelenyte. Não é nem faixa preta. É a faixa marrom da Aliance, Tayane Porfírio.

Tayane

Comemoração da Tayane Porfírio. (Foto: Gracie Mag)

A próxima Gabi Garcia, como gostam de chamá-la, mandou ver no campeonato e levou o título tanto no peso como no absoluto. Eu prefiro não compará-la com a Gabi Garcia. Elas têm um jiu jitsu bem diferente tecnicamente, mas é muito legal ver uma nova promessa apavorando geral. O que me deixou bem chateada foi a repercussão da Tayane nas redes sociais. Sua divisão de peso é +70kg e o fato de ela ser “acima do peso” deu o que falar. A galera curte falar, né? “Porque ela é uma gorda, porque só ganhou por causa disso”…  Eu luto muitas vezes com gente mais pesada que eu (em treino, já que é bem raro eu lutar absoluto nos campeonatos) e sim, eu sinto um pouco de desvantagem para mim, porém, não acho que isso seja desculpa. De que adianta uma pessoa mais pesada e sem técnica? Assistindo às lutas da Tayane, é nítido que ela é muito bem treinada. Ela é ágil, se dá bem tanto jogando por cima quanto por baixo, ela tem iniciativa, está sempre atacando, tem uma pegada muito forte. Sendo assim, sua técnica é muito bem apurada e nada tem a ver com peso. Méritos dela os dois títulos! A bicha é brutaaa!

Bia Basílio. Tinha tanta foto melhor, mas é que eu quase chorei junto nessa hora rs. (Foto: Gracie Mag)

Bia Basílio. Tinha tanta foto melhor, mas é que eu quase chorei junto nessa hora rs. (Foto: Gracie Mag)

Outra grande promessa na faixa marrom é a Bianca Basílio. A atleta da Ryan Gracie – Projeto Almeida JJ tem apenas 20 anos, já é faixa marrom e coleciona diversos títulos – ela é quatro vezes campeã Mundial pela IBJJF (International Brazilian Jiu Jitsu Federation), três vezes campeã Pan-Americana e Brasileira, Campeã Européia e também campeã do World Pro Abu Dhabi – infelizmente não dessa vez. Porém, a atuação dela foi indiscutivelmente sensacional. No absoluto, ela foi parada na semi-final pela faixa preta Beatriz Mesquita – a luta terminou empatada e o juiz deu a vitória para a black belt. Em sua categoria, ela foi até a final e novamente lutou com a Bia Mesquita. Sagrou-se vice campeã, por conta de um leg lock encaixado pela faixa preta, a 4 segundos do fim da luta. Torço mesmo por ela, acompanho sempre lutando e fiquei feliz em vê-la se destacando dentre tantas faixas pretas.

Leg Lock da Bia Mesquita encaixado. (Foto: Gracie Mag)

Leg Lock da Bia Mesquita encaixado. (Foto: Gracie Mag)

Além delas, Nathiely Jesus, faixa marrom da Cicero Costha, finalizou a faixa preta Priscila Cerqueira na final da divisão até 70kg. As marrons surpreenderam \o/

Mackenzie

Mackenzie Dern [Foto: Instagram @mackenziedern]

Por outro lado, sim, eu esperava que a Mackenzie reinasse novamente no peso e no absoluto (ídola). Dessa vez foi só no peso. No absoluto, ela foi eliminada nos pontos pela Tayane Porfírio. Foi uma luta muito bacana de se ver! Técnica, brigada e suada até o final. Na categoria até 55kg, ela venceu a Marina Ribeiro nas vantagens e sagrou-se campeã.

No geral, o nível técnico das meninas estava altíssimo (me da até medo rs). Assisti à final do absoluto faixa roxa vendo a Gabrielle Mc Comb ser campeã (também venceu sua categoria até 55kg) e vi o final do absoluto faixa azul, que foi um pouco parada e terminou empatada, vencendo a atleta da Gracie Barra Angola, Katharina AraujoSe segura, eu tô chegando (mentira).

Porém, achei incrível a atuação das faixas marrons, disputando com as pretas de igual para igual. Isso prova o quanto o jiu jitsu feminino está crescendo e evoluindo tecnicamente, o que é ótimo para nossa divisão. \o/

Por outro lado, não vou entrar nos méritos de premiação: absoluto masculino ganha 30 mil dólares e o feminino, 10 mil. Mas isso fica para outro post mais tenso, porque baixa a revoltada em mim para falar nesse assunto hahaha!

Vídeo bônus: https://www.youtube.com/watch?v=M7z7ZrvpmNg

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Abu Dhabi World Pro

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As minas do MMA

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Se antes o Dana White dava zero importância e credibilidade a elas, hoje, com certeza, essa história mudou.

Do judô olímpico para o UFC, não é novidade para ninguém que Ronda Rousey mudou a história do MMA feminino com sua agilidade, invencibilidade e, claro, arm lock certeiro. E aproveito aqui para dizer que eu não a considero ex-campeã do peso-galo coisa nenhuma! Hahaha… Ela será sempre campeã! Pelas lutas, pela dedicação, preparo físico e, principalmente, porque devemos muito a ela em relação à visibilidade feminina nesse tipo de evento. Hoje o MMA conta inclusive com o Invicta Fight Championship – dedicado apenas para mulheres.

O arm lock de Ronda [Foto: GettyImages]

O arm lock de Ronda [Foto: GettyImages]

Eu não sou uma acompanhante assídua de MMA, confesso, mas procuro estar sempre ligada quando alguém do jiu jitsu mescla as duas artes. Por isso, tive que falar com alguém em atividade para escrever com credibilidade! Conversei com a Isabela Pedroso. Ela tem 25 anos e treina na Abu Brothers Gold Team. A Bela treina desde pequena e gosta muito de acompanhar a galera do Jiu Jitsu e MMA. Hoje ela é faixa marrom de jiu e começou “ao contrário”: treinou primeiro MMA e depois o jiu. Antes, ela treinava só submisson (jiu jitsu sem kimono) e começou o jiu porque seu mestre (e hoje, marido <3), que era quem puxava os seus treinos de MMA, fez um convite para ela treinar de kimono. Ela se apaixonou.

As duas faces da Bela: no jiu e no MMA. (Foto: Arquivo Pessoal da Bela)

As duas faces dela: no jiu e no MMA. (Foto: Arquivo Pessoal da Bela)

A Bela não compete MMA, só jiu jitsu. Para ela, as meninas fazem essa transição em busca de voos maiores, porque depois de já terem alcançado todos os seus objetivos no jiu jitsu e conquistado todos os títulos, sentem que precisam mudar o estímulo.

Já no quesito financeiro, infelizmente ainda temos distinções (em ambos os esportes) se comparando aos homens, mas muita gente também vai ao MMA porque o cachê é maior, já que é um esporte mais globalizado. Mas, segundo a Bela, o cachê varia muito de evento para evento e também, se a atleta vende bastante marketing ou não.

Tenho acompanhado os treinos da Mackenzie Dern, que é multi-campeã de jiu jitsu e tem planos próximos para o MMA, como acompanhei a Gabi Garcia, atleta da Aliance, se mudando para os EUA e dedicando-se definitivamente à nova modalidade. Mas sendo muito sincera, eu dou a maior força para todas as meninas que querem migrar para o MMA, porém o meu maior medo é que elas aposentem os kimonos hahaha.

Nesse final de semana (17/04), a Gabi Garcia entrou no octógono pela segunda vez para defender seu título no Rizin Fighting Federation MMA, no Japão.

A Gabi já fez duas lutas no MMA. Em sua primeira, contra Lei’d Tapa, Gabi a nocauteou logo no primeiro round. Uma surpresa vista de dois lados: o primeiro porque eu acho um desperdício a galera do jiu nocautear. Eu quero ver jiu jitsu, pô! Hahahaha. E o segundo, porque, como sempre, os “haters” criticaram absurdamente a trocação da Gabi. Mas vamos combinar que nem tudo é tão simples assim, né? A Gabi está treinando MMA há pouquíssimo tempo se comparado ao jiu jitsu e, obviamente, ainda contava com algumas deficiências.  Porém, independente no nocaute, vale lembrar que é muito importante que um atleta de MMA treine jiu jitsu. Imagine só você lutar contra um faixa preta e levar a luta para o chão? Segundo a Bela, as chances de se lutar contra alguém que treine jiu jitsu são enormes e claro, nesse caso, ele sempre levará vantagem. Por isso, muitos atletas correm atrás do prejuízo depois de tomar um sufoco “jiu jitero”. “Jiu Jitsu salva”, né Bela? Hahahaha SEMPRE!

Como salvou! Domingo, em sua segunda luta, a Gabi mostrou que está treinando meeeesmo. Além de ter melhorado muito na trocação, ela deu o maior sufoco na Anna Malyukova desde o início. Já caiu na montada logo de imediato e soltou o braço na russa. No segundo round, a Gabi finalizou a adversária num arm lock.

Arm Lock da Gabi. (Foto: frame do YouTube).

Arm Lock da Gabi. (Foto: frame do YouTube).

Convenhamos que ela lutou muito e merece. Ela parecia muito mais calma do que quando contra lutou contra a Lei’d Tapa e bem mais concentrada. Sem contar que ela entrou toda linda de kimono, com certeza as raízes deram sorte \o/

Enfim, quem conhece a história dela, sabe: ela era acima do peso e hoje em dia, com certeza seu índice de massa muscular é acima da média rs ela esbanja um corpo todo musculoso e em forma. Totalmente meritório, já que ela ralou pra caramba para estar onde está hoje. #ChupaHaters

Vamos aguardar as próximas! E viva as meninas do MMA por profissão, como a Gabi, ou por amor como a Bela <3

A luta completa da Gabi está disponível aqui: https://www.youtube.com/watch?v=G-lFcKWwnDQ&app=desktop

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As minas do MMA

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