Assédio nos tatames (parte 3): Dentro ou fora?

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Clique nos links para ler os capítulos anteriores do especial:

Parte 1 – Introdução
Parte 2 – A culpa não é da mulher

Sim, os assédios ocorrem dentro e fora do tatame. Creio que por ser um esporte tipicamente masculino, os homens não têm muito discernimento do que é ou não assédio, porém nosso papel é conscientizar e, mais que isso, fazer com que os homens já conscientizados mudem a cabeça dos “não conscientizados” também. Sabemos bem que um homem escuta de forma mais receptiva quando outro homem fala, por isso o papel deles é fundamental aqui.

"(…) Sinto muita falta da presença feminina nos treinos, quando vou competir percebo a diferença nas posições e no jeito de rolar, porém ocorrendo situações como estas, dificilmente a presença delas se consolidará. E nosso esporte possui muito contato físico, encostamos em órgãos sexuais sim, assim como todo o restante do corpo, com apenas o intuito de pontuar e finalizar. Durante o rola, nosso pensamento fica em busca das transições que o jiu-jitsu proporciona e nada mais! Caso o parceiro(a) não esteja com o mesmo pensamento, significa que ele(a) não está lugar certo, para isso sugiro que procure um bordel e não um tatame."

Dito isso, temos mais um choque: segundo a pesquisa, 48,4% das mulheres relatam ter sofrido assédio no tatame e apenas 18,6%, fora dele.

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“O mestre me chamou no WhatsApp porque iria graduar meu esposo e queria que eu comprasse a faixa roxa. Aí eu disse que ok. Ele me disse em seguida que minha faixa azul eu pegaria com ele quando fosse treinar sozinha."

"Uma amiga havia começado a praticar jiu-jitsu e como ela trabalhava em outra cidade, procurou um local para treinar. Ela conheceu um cara que ensinava jiu-jitsu na cidade onde ela trabalhava e começou a conversar com ele pelo chat do Facebook para saber mais sobre o trabalho que ele desenvolvia. Em uma das conversas, ele começou a dizer que o objetivo dela em treinar jiu-jitsu era de se agarrar com ele e tal. Ela ficou muito decepcionada e também assustada, ele trabalhava com crianças e ficou imaginando como ele deveria tratar suas alunas e qual o perigo que elas correm. Os laços foram cortados e ela deu uma bronca nele sobre sua postura de professor e sobre o assédio. No final, ela teve que parar de treinar por falta de tempo e de local adequado.”

O que tenho a dizer de quem assedia dentro do tatame: caro, você não entendeu o que é jiu-jitsu. O que é uma pena, porque o esporte é deturpado por conta de meia dúzia de pessoas que não sabem o que estão fazendo lá.

Já aconteceu de namoradas dos meus amigos de tatame contarem que não se sentem confortáveis em ver seus parceiros rolando com mulheres. Como já falamos, é muito difícil entender o jiu-jitsu para quem está de fora, porque algumas posições podem parecer estranhas diante dos olhos de uma pessoa leiga, devido ao contato intenso. Mas precisamos respeitar e sermos respeitadas para que não haja nenhum tipo de desconforto.

Outra coisa que também já ocorreu foram relatos de homens, do meio do jiu-jitsu mesmo, se sentirem desconfortáveis em aceitar que sua parceira treinasse fora da academia ou sem a presença dele, já que “não confia nos caras”. Então, pessoas, vamos pensar melhor na hora de assediar uma mulher para que nosso esporte possa crescer e se desenvolver cada vez mais. Se você está no jiu-jitsu unicamente para abusar de uma mulher, você não é digno de habitar aquele lugar (e nem nenhum outro, na verdade).

E para quem assedia fora do tatame, o papo vai um pouco além. Dentro do jiu-jitsu, aprendemos regras e disciplinas que podemos levar para a vida. Tudo agrega muito. Mas não podemos culpar o jiu-jitsu pelo péssimo hábito de pessoas que, com o perdão do clichê, “não tiveram educação em casa”. Sim, educação vem de berço, é um conjunto de costumes… Mas, sim, nós podemos ajudar na desconstrução também.

É uma pena ter que falar ainda sobre esse tipo de coisa, mas se você está a fim de alguém que treina com você, tudo bem, isso não é nada demais e pode acontecer. Espere acabar o treino, converse com a pessoa como alguém civilizado e não chegue com aquele tipo de “elogio” babaca. E lembre-se: não, é sempre não.

Aos mestres que insistem em abusar de seu poder para dar em cima das suas alunas: parem. Você ter uma faixa preta amarrada na cintura diz que você persistiu, mas não que você pode tudo. Você não é livre para assediar pessoas hierarquicamente subordinadas por sua posição de professor e mestre, e suas alunas não são sua propriedade. Também não é um crime um professor sair com uma aluna. Afinal, fora do tatame somos seres comuns, com necessidades, desejos e, sim, é completamente normal paquerar e, mais ainda, se envolver com pessoas do jiu-jitsu por ser o nosso mundo. Mas tudo de uma forma completamente natural e com consentimento. Senão, nada feito.

Embora não seja um assédio direto, mas algo que pode incomodar é o fato de toda vez que uma menina nova chega para treinar rolarem diversos comentários. Sim, somos poucas e quando chegamos para treinar, é normal que a atenção esteja voltada para nós. Esse tipo de ação não atrapalha se feita de forma respeitosa, mas do contrário, podem acabar sendo desconfortáveis para quem ouvir. Não é legal falar que “nossa, imagine que legal tomar um triângulo dela” (o triângulo é um golpe que a cabeça fica literalmente entre as pernas de quem está aplicando) porque isso também é falta de respeito com todas as pessoas que praticam a arte, um comentário desse tipo dá a entender que em um triângulo é possível se aproveitar de alguém, isso deixa todas as pessoas suscetíveis a um assédio, por isso cuidado com o que você fala. Homens, não tolerem esse tipo de comentário! Não é feio tentar corrigir seu amigo. Faz bem para a arte!

Semana que vem vamos falar de assédio moral, que era algo que eu não tinha pensado de imediato, mas que recebi muitos relatos sobre. Então, até lá. E lembrem-se: elogie nossa guarda e não o nosso corpo!

Fonte: Mayara Munhos

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Assédio nos tatames (parte 3): Dentro ou fora?

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A experiência de ter trabalhado no ADCC e minhas considerações sobre o evento

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Gabi Garcia, 4x campeã do ADCC
Gabi Garcia, 4x campeã do ADCC Jiu-Jitsu in Frames

Não sei nem por onde começar, mas o resumo de tudo é: eu fui para o ADCC 2019.  Em 2017, edição anterior do evento, confesso que eu não dava tanto valor a ele por não entender muito bem, mas algumas coisas me aproximaram. O fato do André Galvão lutar, o meu interesse em acompanhar as lutas femininas e também, o fato de que meu professor me incentivou a isso (‘você não vai escrever sobre no seu blog? É o maior evento de luta agarrada do mundo’. Leia aqui!).

 A partir de então, eu passei a ter uma outra visão sobre o ADCC. Logo depois da edição anterior, eu fui para San Diego pela primeira vez, fui até a Atos e tive a chance de entrevistar o professor André– que tinha acabado de vencer sua terceira superluta consecutiva, contra o Calasans.

Neste ano, o ADCC (que acontece a cada dois) foi em Anaheim, na Califórnia. E eu fui! Sim, in loco. Eu estava lá (queria usar uns emojis ou stickers). Era algo inimaginável para mim, ainda mais sendo em outro país. Mas foi uma oportunidade incrível poder trabalhar no evento ao lado da Lisa Albon, que possibilitou tudo isso e é uma das fotógrafas mais incríveis que conheço (a foto abaixo é dela <3).

Assistir o ADCC praticamente no tatame: done!
Assistir o ADCC praticamente no tatame: done! Lisa Albon

Para quem não sabe, além de trabalhar full time na ESPN, eu tenho um canal no YouTube chamado Jiu-Jitsu in Frames. Na verdade, ele está (ou estava) um pouco parado (dá muito trabalho fazer tudo e ainda treinar, trabalhar e tentar ter vida pessoal hahaha) e eu tinha pensado inicialmente em fazer um conteúdo para dar uma movimentada nele, mas não rolou. A Flograppling tem 100% dos direitos de imagem, então tínhamos várias restrições e eu me restringi a tirar fotos, algo que não tenho muita experiência e muito menos uma lente fodástica para isso – mas foi sensacional.

Eu consegui alimentar bastante o Instagram do JJIF, conheci várias pessoas legais e estava me sentindo no meu mundo, porque eu amo muito estar no meio do jiu-jitsu. Eu pude unir os meus dois mundos, que é minha profissão e meu hobby <3.

Megaton e a neta, Moa
Megaton e a neta, Moa Jiu-Jitsu in Frames

Além disso, depois do evento consegui fazer mais uma entrevista com o André Galvão e outra com o Michael Liera, que é um faixa preta lá da Atos que está de mudança para o Colorado e vai abrir sua própria academia. A do André está no ar. Do Liera estou com problemas técnicos (torçam por mim).

Tá, mas depois de escrever tanto, eu vim dizer algumas coisas observei depois do evento. Vamos lá!

Obs: opiniões pessoais.

ADCC não é jiu-jitsu

Sim, eu sou do jiu-jitsu e tendo a achar que o ADCC é jiu-jitsu, mas me dei a chance de mudar. Depois de algumas lutas, vi pessoas comentando coisas que eu chamaria de ‘sem conhecimento de causa’. Uma delas foi o fato de o Nick Rodriguez ter vencido do Mahamed Aly logo na primeira luta (+99kg). “Caramba, como pode um faixa azul de jiu-jitsu vencer um faixa preta?”.

É polêmico, apesar de incomum, mas pode! Principalmente porque o ADCC não é jiu-jitsu (e ainda se fosse jiu-jitsu, poderia, mas é um outro papo). Como o público do jiu-jitsu é infinitamente maior e inclusive a maioria dos atletas são faixas pretas de jiu-jitsu, as pessoas às vezes esquecem que no gi é muito diferente. E esquecem ainda de um detalhe: wrestling.

E mais que isso: Nick Rod é norte-americano. Nos Estados Unidos, o wrestling é algo comum. Ele tem hoje 23 anos, é wrestler desde a high school e treinou também na faculdade. Hoje, ele treina jiu-jitsu também (e recebeu a faixa roxa no pódio). E mais do que treinar, ele é da Renzo Gracie, de Nova York, e está ao lado de atletas como Garry Tonon e Gordon Ryan – considerado o melhor grappler da atualidade.

Durante sua preparação, além dos treinos no Renzo, ele também manteve-se treinando wrestling no New Jersey Regional Training Center. Então, embora os resultados de algumas lutas tenham sido muito contestados... a história vai muito além de ‘perdeu para um faixa azul’, né.

Nick Rodriguez
Nick Rodriguez Jiu-Jitsu in Frames


Tye Ruotolo: só se surpreendeu quem não conhecia

Vamos falar do 'prodígio' Tye Ruotolo. Vi muita gente antes do evento um pouco inconformada por Tye ter sido convidado a participar. 16 anos, faixa azul e juvenil, num shark tank. E aqui talvez o que tenha pesado mais para as polêmicas nem tenha sido a faixa, mas a idade - apesar de falarem muito de faixa também. 

Minha opinião é: só ficou surpreso com a atuação de Tye quem nunca tinha o visto em ação. Ele e o irmão, Kade, treinam desde a barriga da mãe. Se pensarmos na nova geração de atletas, eles têm cerca de 10 anos de jiu-jitsu, o tempo médio que se leva para pegar uma faixa preta. Ou seja, não é um bicho de sete cabeças.

Tye esteve lá porque fez por merecer, ponto. E se ele não tivesse condições, certamente o professor, André Galvão vetaria. E um adendo aqui sobre coach: esse foi o ADCC que mais se viu atletas da Atos lutando. Então tinha muito faixa preta para ser coach dele lá. E quem estava gritando para ele? O irmão. Achei sensacional. Na entrevista com o Galvão, ele falou sobre isso, algo como precisar deixar os alunos darem coach para os outros porque só assim eles crescerão, como atletas e como coaches. E Kade esteve o tempo todo nos treinos de Tye, estava ciente daquilo.

O ponto fraco foi ele ter precisado fazer as duas primeiras lutas com atletas da mesma equipe, algo que não aconteceria na IBJJF. Ele venceu a primeira de Bruno Frazzato e em seguida, de Pablo Mantovani. Fez uma semifinal de tirar o fôlego com o Kennedy, onde não dava para achar que em algum momento ele não ia encaixar um triângulo de mão, mas acabou sendo derrotado.

Na disputa de terceiro lugar, ele enfrentou um dos atletas mais frios e calculistas do jiu-jitsu, Paulo Myiao. Só contra a elite, o faixa azul juvenil deu trabalho. Daqui dois anos, com 18, acho que ele estará ainda mais preparado (fisicamente falando) para voltar e fazer as pessoas entenderem melhor o que ele estava fazendo por lá agora. 

Tye Ruotolo vs Pablo Mantovani
Tye Ruotolo vs Pablo Mantovani Jiu-Jitsu in Frames

Livia Giles no corner do 'heel hooker'

Vou ser honesta: eu não sabia que Lachlan Giles era 'casal' de Livia Giles - porque para mim, ela era a 'Gluchowska' e não 'Giles', hahaha eu nunca ia relacionar. Mais do que isso, eu não sabia muito sobre eles, e na verdade nem sei (fica aí o invite para uma entrevista, vou formalizar prometo). Mas uma breve explicação é que eles são casados, atletas da Absolute MMA na Austrália e os dois lutaram o ADCC.

Lachlan foi derrotado no peso (77kg) por Lucas Lepri por 3 a 0 ainda nas oitavas de final. Livia foi finalizada por Bia Basílio (campeã na categoria até 60kg) nas quartas.

Ok, passou. Mas o que me chamou a atenção (que foi quando eu descobri que eles eram um casal) foi ter percebido a falta de corners mulheres. Geralmente, mulheres ficam no corner de mulheres. Então por exemplo, a Letícia Ribeiro estava no corner da Bia Mesquita e a Luana Alzugir, da Baby. Mas a Livia estava no corner do Lachlan e eu nunca tinha visto uma mulher oficialmente no corner de um homem. Achei isso muito significativo!

Mais que isso, com seus 77kg, Lachlan surpreendeu no absoluto. Com três heel hooks, ele venceu Kaynan Duarte (campeão da categoria +99kg), Patrick Gaudio (+99kg), perdeu para Gordon Ryan (campeão absoluto) e venceu Mahamed Aly (+99kg) na disputa de terceiro lugar. Sim, isso foi surpreendente.

Mas o que quero mesmo falar é o quanto achei incrível o incentivo da Livia durante todas as lutas. Ela gritava demais quando ele ganhava, sério. E na disputa de terceiro, eles correram para o abraço <3.

Categorias femininas

Pois bem, não podia deixar de falar sobre isso. Apesar do ADCC existir desde 1998, a primeira participação das mulheres foi só em 2005. As categorias eram como as de hoje (até 60kg e acima de 60kg), com o plus do absoluto - que não existe mais. 

Em 2007, as categorias cresceram: 55kg, 60kg, 67kg, acima de 67kg e absoluto. Nos últimos dez anos, as categorias novamente foram reduzidas para as 60kg e +60kg e segue sem o absoluto. 

Mo Jassim, organizador do ADCC disse em entrevista ao podcast 'The Matburn' que está trabalhando para um crescimento. "Sinto que neste ponto do jiu-jitsu, as mulheres estão crescendo. Tem muitas mulheres talentosas. Eu sei disso, porque eu podia convidar mais cinco ou seis garotas agora, fácil".

Ele ainda disse ter feito uma enquete no Instagram perguntando se seria melhor criar outra divisão para mulheres ou aumentar de 8 para 16 competidoras nas duas já existentes. A maioria escolheu adicionar uma nova categoria e manter o número de competidoras em cada uma delas. O que, de fato, é louvável. A diferença de peso da categoria até 60kg pode ser dura, mas acima de +60kg é ainda mais dura, porque a atleta pode ter 60kg ou 160kg... Então é de se pensar.

“Como eu disse, precisamos ter paciência com as coisas. As coisas para o ADCC precisam de tempo para acontecer e já mudamos algumas coisas neste evento”, completou Mo Jassim, que foi confirmado como head para a edição de 2021.

Durante o podcast, ele também ressaltou diversas vezes que o objetivo principal é fazer ‘um bom show’ e o melhor para todos. Isso pode dar mais esperanças de vermos novas categorias femininas no ADCC 2021.

Bia Basílio, campeã da categoria até 60kg
Bia Basílio, campeã da categoria até 60kg Jiu-Jitsu in Frames

Por fim, o que tenho a dizer é que foi um PUTA evento! Eu nunca tinha acompanhado e me surpreendi. Foi a maior satisfação ter estado lá e ter recebido tantos prints durante as lutas falando 'ei, tô te vendo aqui', hahaha. Sim, quase tomei várias quedas, fui amassada e tudo mais. Mas valeu a pena.

2021: já dá pra pensar? Não sei. Se nem o André Galvão sabe ainda se a superluta vai acontecer, quem sou eu para saber se estarei lá? Na verdade só falei isso para divulgar a última parte da nossa entrevista aqui! Hahaha até a próxima.


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Ter feito uma série sobre assédio nos tatames mudou a minha vida

Mayara Munhos
Mayara Munhos
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. ESPN

Em março de 2017 fiz algo que não esperava que mudaria minha vida para sempre: uma série sobre assédio nos tatames. Algo delicado de ser dito, que eu sabia que podia me acarretar coisas positivas, mas negativas também e que eu nunca tinha visto ser abordado.

Foi o que aconteceu. Há pouco mais de dois anos, quando decidi ‘pagar o preço’ independentemente do que pudesse vir a acontecer, eu lancei a série dividida em cinco partes. Para que ela saísse do papel, eu fiz uma pesquisa com mulheres do meio, totalmente anônima, e obtive mais de 250 respostas. O resultado foi triste. E por conta disso, eu demorei ainda mais para conseguir publicar.

Comecei a pesquisar no final de 2016 e botei no ar só uns 3 meses depois. Eu quase desisti. Eu recebi depoimentos chocantes. Uns de mulheres abusadas quando crianças, outros que eu consegui identificar de onde vinham, alguns que eu nunca esperava ouvir. Eu tive que digerir tudo aquilo e pensar em como levar para frente. E aqui está!

Assédio nos tatames (parte 1) – Introdução
Assédio nos tatames (parte 2): A culpa não é da mulher
Assédio nos tatames (parte 3): Dentro ou fora?
Assédio nos tatames (parte 4): Também pode ser moral
Assédio nos tatames (parte final): Como e para quem reportar?

Eu não precisei falar sobre absolutamente nada pessoal ali, porque não era um depoimento meu. Era uma pesquisa, com dados, números – o que mostrava que aquele comportamento dentro do tatame, cometido por pessoas se aproveitando de seu poder ou submissão que o jiu-jitsu pode proporcionar, era completamente normal. Isso foi primordial para que a minha série tivesse credibilidade. Eu não estava opinando ou querendo ‘dar o troco’ por já ter passado pela situação, mas estava mostrando com dados o quanto isso era normalizado e que precisávamos levar para frente e mudar essa situação.

Decidi falar sobre isso novamente porque UOL lançou uma série sobre o mesmo assunto e isso mexeu bastante comigo. Mas o que quero destacar é que me deixou muito feliz (apesar da situação) ver que as pessoas estão olhando mais para esse lado e, mais do que isso, que as mulheres estão se encorajando a falar sobre sem medo das consequências ruins que podem sofrer.

A ideia da série (“Vozes no tatame”) é que as mulheres ‘deem a cara a tapa’ e usem a hashtag #QueroLutarEmPaz para expor situações de assédio que sofreram no meio das artes marciais.

Eu digo com toda certeza que a série que escrevi em 2017 mudou minha vida porque, de fato, ela mudou. Ela mudou minha maneira de ver o mundo, ela me fez lutar mais pelas causas que acredito. Ela me fez ser uma pessoa mais tolerante, tanto com homens quanto com mulheres. Me fez ter paciência de sentar e conversar com meus amigos de treino ou professores sobre o que me incomoda ou então, de levar para frente alguma situação de alguém que convive comigo.

E me fez estender a mão para as mulheres cada vez mais para que elas saibam que podem contar comigo e com muitas outras para superar esse tipo de situação. Hoje, comandando uma turma feminina de jiu-jitsu, por exemplo, vejo o quanto é importante ter diálogo com elas para que se sintam à vontade em me reportar qualquer coisa do tipo, bem como se sintam tranquilas de estarem ali, entre mulheres que se entendem e se respeitam - e homens também, no treino misto, o que é uma premissa dentro da minha equipe: respeito e caráter.

A série me alertou para coisas que eu mesma já sofri. Me acarretou uma mudança de equipe que, sem dúvida alguma, foi uma das melhores decisões que tomei na minha vida. Me trouxe apoio mesmo que eu nunca tenha falado nada sobre minha pessoa ali e me fez acreditar ainda mais que devemos lutar até o fim – dentro e fora dos tatames.

Algumas pessoas me procuraram para parabenizar, outras para me agradecer, outras para palestrar, algumas outras ainda para me contar que viram minha pesquisa citada em algum lugar. Mulheres que passaram pela situação se fortaleceram a deixarem suas equipes e contarem suas histórias. Apesar da pesquisa ter sido anônima, algumas me deixaram contato e me pediram uma conversa e eu fiz questão de chamar cada uma delas. Vai que seja minha missão na terra :)

Também tive problemas, conversas tensas com pessoas que discordaram, perdi algumas amizades próximas que gostava muito... Nem tudo são flores – bem como o motivo que me fez escrever a série.

Eu sempre estive muito envolvida com mulheres do jiu-jitsu e, por conta disso, eu ouvia muitos relatos. Esse foi o primeiro motivo pelo qual eu optei por escrever a minha série. Eu precisava dar uma voz para aquelas mulheres que se sentiam coagidas. Eu espero tê-las ajudado.

Depois que publiquei, também recebi alguns questionamentos: mas e você, Mayara?

Eu não gosto de explanar minhas situações pessoais para o mundo. Afinal, apesar de ser o meu blog, o meu trabalho foi jornalístico. Mas 'e eu' posso dizer que quando tinha 13 anos, um ex-colega de treino dominou uma posição durante a luta e me lascou um beijo na bochecha – me pediu desculpas e disse que ‘não aguentou’ – ele já era maior de idade.

'E eu' posso dizer que um ex-colega de equipe, quando eu tinha 14 anos, me chamou depois de ter me visto lutando com um cara, para ‘me aconselhar’ que eu não treinasse com ele por ter percebido que estava com más intenções comigo.

'E eu' posso dizer que, não mais criança, precisei driblar comentários maldosos de um ex-professor com muito jogo de cintura para não ser taxada de louca dentro da academia. Pessoas já viram, pessoas sabiam, pessoas falavam comigo sobre o assunto, pessoas relatavam situações que já tinham passado... Mas ninguém se propôs a me ajudar nessa. Sozinha é mais difícil, né?

Portanto, a repercussão do assunto é extremamente importante. Só repercutindo as mulheres terão coragem de falar, anonimamente ou não. Só juntas vamos conseguir, cada vez mais, diminuir os casos. E só falando os homens também vão poder entender a gravidade do problema e entrar nessa com a gente.

Obrigada por terem levado a ideia para frente. Obrigada por se posicionarem também. E força, a cada uma que já passou por cada tipo de situação e parabéns, pela coragem de não terem medo de dar a cara a tapa.

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Ter dupla (ou tripla) jornada entre treinos e trabalho não faz de você uma exceção

Mayara Munhos
Mayara Munhos
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. Sinistro Photo Film

Já que faz um tempão que não escrevo por aqui (muito menos algo pessoal), vou aproveitar o gancho do campeonato que disputei no último final de semana para falar um pouco sobre minha percepção de treinar, competir e ter uma vida pessoal [quase] normal.

Embora seja muito difícil botar tudo o que vou falar em prática no dia-a-dia, na minha cabeça esse tipo de coisa é muito certo. Isto se chama foco, dedicação, prazer em fazer aquilo que escolhi e driblar algumas adversidades.

De fato, eu levo uma vida dupla. É o que dizem meus amigos próximos e minha família. Eu saio de casa 6h da manhã para treinar, saio do treino para o trabalho, do trabalho para o treino e volto para casa por volta das 23h. É uma rotina cansativa e exaustiva, porque isso me tira muito tempo de descanso ou lazer. Além da longa rotina de horário e de minha casa/trabalho/treino não serem nada perto um do outro, no meio do dia muitas coisas acontecem: pressão no trabalho, pressão nos treinos, trânsito, imprevistos...

No domingo eu disputei a III Etapa do Circuito Paulista e comecei a reparar como quando sempre que eu perco uma luta, as pessoas usam os mesmos argumentos para me consolar: “Mas Mayara, você tem uma vida dupla, você trabalha e ainda treina”. Ok, pessoas, obrigada por isso, eu amo vocês de verdade e sei que falam isso de peito aberto – não estou pedindo para que não falem. Eu realmente acho um esforço tremendo. Por um momento, até achei que era uma baita glória ou que eu devia mesmo ser uma pessoa diferenciada, mas eu vivo no meio disso e me esforçar não faz de mim uma exceção. Todos se esforçam da sua maneira. 

Eu não sou diferenciada, eu sou só mais uma. 

Eu não convivo em meio à atletas profissionais, o que faz de mim só mais uma pessoa entre tantas outras que, simplesmente, precisam se dividir entre trabalhar, treinar, algumas estudar e ainda ter filhos, competir e ter uma vida pessoal. Eu seria uma exceção se me esforçasse o mínimo e alcançasse o resultado máximo, seria um ponto fora da curva. Mas em meu meio, eu sou só mais uma.  

É claro que eu reconheço todos os meus esforços diários para manter essa rotina em pé. E eu não estou dizendo que é fácil – porque não é, mesmo! Diariamente a gente precisa fazer pequenas escolhas e isso se chama foco. Por exemplo: eu sei que posso dormir 2h a mais para trabalhar, mas eu escolho acordar 2h antes de ir treinar. Ou então que eu posso sair do trabalho e ir encontrar uma galera para fazer um 'happy hour', mas eu escolho ir treinar. Eu podia treinar só de manhã ou só a tarde? Claro. Mas o que isso me agregaria mais ou menos? Óbvio que eu 'saio do trilho' uma vez ou outra, mas não num panorama geral, porque a partir do momento em que me prontifiquei a fazer uma coisa, creio que eu deva fazê-la com excelência até o final. E é por isso que cobro tanto de mim mesma o resultado de uma competição. E creio que a maioria das pessoas que tem essa dupla ou tripla jornada também.

O que também não é tão bom caso passe do ponto [reconheço que às vezes eu passo mesmo]. E talvez esse ‘passar do ponto’ seja um empecilho para conquistar os resultados esperados. Quando eu me lesiono, por exemplo, eu acho praticamente inaceitável que eu precise ficar sem treinar. Eu penso que talvez eu possa estar deixando de treinar durante uma hora enquanto a pessoa que eu vou enfrentar no campeonato treinou sei lá, três horas a mais do que eu – isso é doido.

Estive conversando com algumas pessoas que convivem bastante comigo, principalmente meus professores, e a opinião é unanime – o que torna um fato. Eu sempre me lesiono ou fico doente às vésperas de uma competição. E desta vez não foi diferente.

Mas o prazer de competir e de abrir mão de algumas coisas, mesmo que doam um pouquinho o coração [tipo “amigas, não vou no aniversário de vocês porque estou 100% com a cabeça na luta da semana que vem e não posso desviar o foco”], para estar lá e não deixar que toda essa rotina insana seja em vão, é muito sensacional. 

Sentir a adrenalina de um campeonato é muito incrível. E desde que eu decidi que ia voltar às competições [por volta de 2014], reconheço que cresci muito. E na verdade, a cada derrota, eu tenho crescido ainda mais. Eu acumulei bronze para caramba este ano, perdi de vista... E como explicar? Ano passado eu obtive resultados bem melhores treinando menos. Mas a cada medalha que olho, eu tento me lembrar o que fiz de errado e como posso tentar melhorar. Essa é uma percepção que eu não tinha lá pelos meados de 2014.

Depois da derrota de domingo, eu percebi que embora eu tenha conseguido colocar em prática quase tudo o que tenho treinado, faltaram alguns detalhes. Se fosse antes, eu nem teria ideia do que fiz durante a luta. Pelo menos eu consigo lembrar agora, hahaha.

Apesar de parecer clichê e talvez uma 'desculpa de perdedores', perder nos ensina muito. Ganhar é sensacional, é uma sensação realmente indescritível, por isso as pessoas se perdem nas comemorações e às vezes fazem umas loucuras na hora daquela adrenalina louca. Ganhar demais também deve ser sensacional, porque te bota numa zona de segurança tremenda. E perder é horrível, eu odeio perder.

Mas como sempre aprendi a ver o lado bom das coisas [mesmo que eu deixe prevalecer os ruins às vezes], eu tenho tentado enxergar o que melhorei e me focar no que ainda preciso ajustar. Sou cercada de pessoas que me elevam sempre e me fazem acreditar ainda mais que dá para chegar lá. E acredito que quando chegar, vai ser igualmente incrível. É uma caminhada longa, complexa e que precisa de persistência. 

E depois de tudo, na segunda-feira a rotina continua insana. Perder não vai te fazer acabar com a vida e ganhar não vai te fazer tirar uma semana de folga para comemorar 'metendo o louco'. 

Na verdade eu gravei um vídeo falando sobre isso de rotina vs treinos vs competições durante o Campeonato Brasileiro do ano passado que eu nunca publiquei [e nem vou, hahaha]. Mas de certa forma, acho que talvez eu devesse compartilhar com quem também precisa passar por tudo isso e mesmo assim não se derruba por nada, porque o prazer de realizar tudo isso é maior do que qualquer cansaço físico, mental, derrota... E às vezes, até mais valioso do que umas vitórias [mas eu quero ganhar, ok?]! <3

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Ter dupla (ou tripla) jornada entre treinos e trabalho não faz de você uma exceção

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Melhor time feminino do mundo; a que se deve o sucesso da Atos e das alunas de Angélica Galvão?

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Angélica Galvão levantou o troféu do título por equipes da categoria feminina pela primeira vez na história
Angélica Galvão levantou o troféu do título por equipes da categoria feminina pela primeira vez na história Kenny Jewel/GrappleTV


Além dos títulos individuais por atleta, que são muito cobiçados no Campeonato Mundial da IBJJF, o final do torneio é marcado pela premiação dos títulos por equipe. No ano passado, a Atos conseguiu vencer o bicampeonato derrubando a hegemonia da Alliance pelo segundo ano consecutivo. Este ano, a equipe liderada por Fábio Gurgel voltou a vencer e somou o 12° título, deixando o time de André Galvão em segundo. Mas isso tudo no adulto masculino.


Porém, algo inédito aconteceu: a Atos venceu por equipes no adulto feminino. É a primeira vez que o time das mulheres, liderado por Angélica Galvão, fica no topo do Mundial. Em 2018, a equipe terminou em 6°, com 22 pontos. A Alliance e a Gracie Humaita, que brigaram pelo primeiro lugar algumas vezes, acabaram ficando para trás para o Angelica's Army (Exército da Angélica, como 'apelidaram' suas alunas) levar o título para San Diego.

André e Angélica Galvão com o troféu de campeão
André e Angélica Galvão com o troféu de campeão Anailly Amorim

Nos primeiros dias de competição, a equipe disparou na liderança. Na faixa azul, destaque para Iasmin Casser, aluna de Guilherme e Rafael Mendes, da AOJ, que venceu ouro na categoria e no absoluto e ainda foi 'presenteada' com sua faixa roxa.  No peso pluma, Adriana Gamarra também somou pontos e faturou o bronze. 

Na faixa roxa, destaque para a campeã Jessa Khan, também aluna dos irmãos Mendes e que tem sido, sem dúvidas, um dos maiores nomes do jiu-jitsu feminino da atualidade. Ela também beliscou o bronze no absoluto. Destaque também para Heather Morgan e Crystal Gaxiola que, além do título na faixa roxa, receberam a faixa marrom no pódio. 

Na faixa marrom, alguns pontos a mais: Rafaela Guedes faturou o ouro na faixa marrom pesado e o bronze no absoluto. Quem também colaborou com pontos foi Emily Alves, que levou bronze na faixa marrom meio pesado e dividiu o terceiro lugar do absoluto com a Rafa.

Na faixa preta, Nina Moura, Nikki Cuddle e Luiza Monteiro estavam na briga. Nina e Nikki acabaram fora do pódio. Luiza, que era uma das favoritas ao título, ficou nas quartas de final do absoluto, sendo derrotada por Ana Carolina Vieira (GFTeam) e chegou na final da categoria meio pesado, mas ficou com a prata após ser finalizada por Andressa Cintra (Gracie Barra).

Bianca Basílio também era uma esperança de título. A atleta da Almeida, que luta os campeonatos da IBJJF pela Atos, fez a final do peso pena contra Ana Schmitt (Nova União) e terminou a luta empatada. Na decisão, Ana levou a melhor.

A GF Team até chegou a encostar, mas acabou em segundo lugar com 66 pontos. A Atos terminou com 71 e em terceiro, a CheckMat com 36.

Mas a que se deve o sucesso do time feminino da Atos? "A excelência está em oferecer o que minha cliente veio buscar. Isso faz toda diferença", me contou Angélica, que também falou um pouco mais sobre a turma feminina :)

AULA PARA MULHERES

Há 5 anos, Angélica tem dado aula só para mulheres. "As aulas femininas na Atos começaram quando eu fui graduada a faixa preta. Como a maioria das coisas na minha vida, o André sempre me desafiou a ir além. Eu confesso que não tinha muito interesse em dar aula, nunca tinha dado aula até então. O programa começou pequeno, o número de alunas ficava numa média de 8-10 meninas", disse a professora. Duas vezes na semana, um dos tatames da Atos é disponibilizado para elas. É uma aula que mistura o básico com o avançado, algo que possibilita que entrem novas alunas e que as mais antigas, também aprendam e contribuam com a classe.

Para a professora, treinar com mulheres traz uma realidade diferente e ela defende: "Peso, tamanho e força tem influência sim, se não tivesse, não existiriam divisões feminino e masculino, divisões de peso e nível de faixa. É um grande benefício ter um grupo bom de meninas para treinar". Mas apesar de defender o treino feminino, ela também acha importante encorajar as mulheres a treinarem nas aulas mistas.

"A mulher sem background no esporte pode se sentir intimidada dependendo do ambiente. Meu foco é apresentar o jiu-jitsu de uma forma saudável, interessante, eficiente, e com um toque desafiador. Com o tempo eu encorajo todas elas a participarem das aulas normais na academia", completou. 

Para Angélica, o fato de ser faixa preta e dividir a liderança da academia com André, também ajuda muito a ter novas alunas. "O fato de eu ser dona da academia, ser mulher faixa preta acaba ajudando bastante, pois eu sei a necessidade de uma mulher dentro da academia. Então acabo aplicando isso no time", disse.

Ela também acredita que o respeito que há entre ela e o André, é algo que acaba refletindo dentro do grupo, tornando o ambiente familiar, agrádavel e seguro. "Sempre me coloco como cliente e crítica. Analiso e me pergunto se eu gostaria daquele lugar se entrasse ali pela primeira vez, se eu me sentiria à vontade para deixar minha filha de 12 anos fazendo uma aula ali e sair para tomar um café. Esse é meu foco", disse. 


O DIA EM QUE ELAS CONQUISTARAM O TATAME PRINCIPAL

O que começou pequeno, tomou uma proporção gigante. Algumas semanas antes do Mundial, Angélica publicou uma foto e comemorou um recorde: 43 alunas.



A academia tem dois tatames a disposição, sendo um maior e principal e o outro, um pouco menor, que é onde acontece a aula das mulheres. Durante a aula das mulheres, acontece simultaneamente no tatame principal, o treino sem kimono, liderado pelo professor André. Neste dia, elas tomaram conta do tatame maior. 

"Ele [André] dá bastante suporte e atenção para o feminino. Então a gente sempre brincava que eu ia tomar o tatame grande. Aí esses dias, éramos em 43 meninas. Ele olhou e falou: 'pode usar meu tatame'. Foi uma honra", relembrou a professora.

Angélica também contou que para ela, o que mudou de cinco anos para cá foi o número de alunas e o fato de hoje em dia, poder contar com uma assistente para ajudá-la nas aulas. E, para quem acha que é difícil iniciar uma turma: acertou!

"Eu sempre dei meu melhor, mesmo quando ainda éramos em menos meninas. Já teve aula com 3 meninas apenas, mas eu sempre fiz com excelência, como se tivéssemos 100 meninas no tatame. Ainda contamos com 2 aulas semanais. Hoje tenho uma assistente em todas as aulas, pois são muitas meninas, e temos do nível inicial ao avançado. São meninas com metas e objetivos diferentes. Umas buscam competição, outras perda de peso, defesa pessoal, melhora da saúde, auto estima. Embora o jiu-jítsu seja o mesmo, isso precisa ser apresentados de maneira diferente", disse.

Angélica e André têm uma filha de 12 anos, Sarah, que é faixa cinza e preta e medalhista de prata no Pan-Americano. 

O SENTIMENTO DO TÍTULO

Pela primeira vez, a Atos levou o título da divisão feminina. Professora Angélica disse não levar o título como algo dela, e também disse que há muitas alunas, atletas e não atletas de outras filiais competindo pela Atos também.

"O título é da equipe. Sem bons líderes, que valorizam e incluem o jiu-jitsu feminino, não teríamos alcançado", disse.

Angélica reconhece seu empenho para fazer a equipe crescer, mas não deixa de citar: "Eu represento de uma certa forma o jiu-jitsu feminino na Atos. Sei que abri portas e de certa forma, tenho minha contribução para o esporte, mas sem todo grupo, nada disso seria possível". 

A professora e líder da equipe, já contou anteriormente que optou por abrir mão da carreira de atleta para se focar na academia e, embora tenha conquistado títulos mundiais na faixa roxa e marrom, não conquistou na preta, mas atrela isto a algo maior, e finaliza:

"Me sinto honrada e realizada. O título mundial de kimono na preta é algo que não pude conquistar, mas faço da vitória de cada uma delas, a minha vitória e o meu título mundial".

Que todas tenham fôlego para continuar levando a Atos para frente e que este, seja só o começo!

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Melhor time feminino do mundo; a que se deve o sucesso da Atos e das alunas de Angélica Galvão?

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Como a imigração dos EUA humilhou Sabatha Laís e a tirou do Mundial de jiu-jitsu

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Entrar nos Estados Unidos tem sido cada vez mais complicado para os brasileiros
Entrar nos Estados Unidos tem sido cada vez mais complicado para os brasileiros Jaap Arriens/NurPhoto

Todo ano, acontece na Califórnia, Estados Unidos, o Campeonato Mundial de Jiu-Jitsu da IBJJF. A primeira edição do mundial foi em 1996, no Rio de Janeiro. Em 2007, porém, ele foi sediado nos Estados Unidos e hoje em dia, pode-se dizer que a Walter Pyramid é o 'cantinho oficial' do jiu-jitsu nessa época do ano, que começa nesta quinta-feira (30).

Mas há um problema tem assombrado os atletas brasileiros que querem chegar até lá: o visto. Embora em muitos outros anos tenhamos ouvido histórias de vistos negados, esse ano falou-se muito mais sobre a situação - talvez por conta da situação política do país. Não existe um acordo bilateral em que o brasileiro pode entrar livremente nos Estados Unidos, ao contrário de norte-americanos no Brasil (e dos Japoneses, Canadenses e Australianos).

Sabatha Laís, faixa preta da Ryan Gracie, teve um problema muito mais constrangedor do que a negação. Com passaporte regulamentado e visto em dia, ela viajou até lá, chegou em Los Angeles e foi barrada na imigração.

 

A faixa preta estava indo pelo quarto ano consecutivo e nunca tinha tido problemas. Ela fez uma participação extraordinária no Campeonato Brasileiro, que aconteceu em maio, chegando na final do peso e do absoluto e chegaria na 'Pirâmide' como um grande nome a ser batido. Mas não aconteceu.

Na imigração, ela passou pela primeira triagem, o policial fez as perguntas normalmente e ela respondeu, mas o 'entrevistador' pediu um minuto  e chamou uma outra pessoa para falar com ela. De lá, ela foi levada para uma outra sala, onde ficou esperando durante cerca de 40 minutos. "Me fizeram as mesmas perguntas, o cara me perguntou o que eu ia fazer e eu respondi de novo. Ai ele falou que era mentira", contou Sabatha. "Eu falei que era verdade, expliquei que sou faixa preta e ele perguntou se tinha provas de que estava inscrita no campeonato. Fui no meu e-mail, mostrei o comprovante da IBJJF com o meu nome, categoria e enfim... Entreguei meu celular para ele ver, ele pegou um papel e me deu, dizendo que meu celular estaria preso para averiguação".

Sem entender, Sabatha admitiu que sabia dos riscos de ser barrada, já que é algo comum entre os brasileiros, mas que imaginou que nunca aconteceria com ela. Depois de ter o celular levado durante cerca de meia hora, ela novamente foi chamada e encaminhada para outra sala que ela tentou reproduzir, explicando:

"Nessa sala, já tinham pessoas dormindo, com aquelas camas, tipo 'Medico sem Fronteiras', sabe? Tinha um monte de mulher, a mesma sala era separada por uma parede, homens de um lado e mulheres do outro. Ali eu comecei a ficar em desespero, porque se elas estavam dormindo numa situação dessa, é porque não estavam lá há pouco tempo". 

Nessa sala, ela ficou durante cerca de 20 horas e nesse período de tempo, foi sendo chamada para responder as mesmas perguntas, feitas de forma diferente. "Humilhante. Isso é uma humilhação. O tempo todo ficavam tirando foto minha igual marginal mesmo. Eu estava sendo revistada como marginal e eu falando que estava indo ali para lutar, com a inscrição feita, local certo de ficar, data certa de vir embora. Não era a primeira vez que eu estava indo, era o quarto ano consecutivo", disse.

Sabatha também desabafou sobre a hora em que se sentiu mais humilhada. Em um dado momento, o oficial a chamou novamente. "Ele me chamou e falou em espanhol: 'Parabéns, você luta muito bem'; e eu falei que não tinha entendido, achei que ele estava me zoando. Ele respondeu: 'Eu olhei no YouTube, até mesmo no seu celular suas lutas, parabéns, você luta muito bem'; ai eu comecei a chorar e falei: 'pelo amor de Deus, você viu que não é mentira minha, me deixa entrar, me deixa lutar'; e ele falou: 'não, você não é bem-vinda no meu país'. Voltei para a sala, fiquei durante cinco ou seis horas esperando eles me colocarem em um voo para voltar para cá".

Sabatha durante o Campeonato Brasileiro de 2019.
Sabatha durante o Campeonato Brasileiro de 2019. BJJ Girls Mag

Ao sair de lá, ela foi escoltada até o avião, com três oficiais. O voo era para Santiago e, depois de sentar no avião, ela achou que o pesadelo tinha acabado, mas mal sabia que estavam esperando por ela no Chile. "Tinha Polícia Federal para me escoltar até a sala de embarque para pegar o voo até São Paulo. Isso tudo sem celular, sem comunicação, sem documento e sem nada. Me colocaram dentro do avião de novo e eu achei que tinha acabado, que eu voltaria para o meu país tranquila, mas chegando aqui, tinham mais duas oficiais para me levar até a Polícia Federal para explicar o motivo de eu ter voltado e só tinha uma delegada no aeroporto de Guarulhos. Fiquei com os oficiais lá embaixo até explicarem a situação, algo que demorou mais cerca de uma hora, ou sei lá quanto tempo", relembrou, e completou: "Precisei esperar para liberar meu passaporte e celular, que estavam presos dentro de um envelope. Uma humilhação atrás da outra. Sai de lá agradecendo a Deus por voltar para casa, porque chegou um momento em que eu estava desesperada para ser sincera, achando que nem voltaria mais".

 "Eu não desejo isso nem para a pessoa que me deseja mais mal no mundo, é desumano", falou Sabatha e ainda detalhou: "Fiquei todo esse tempo na sala sem comer. Só tinha água. O banheiro era um lixo. Lá, as pessoas perguntavam quanto tempo ficariam ali e tentavam entender o motivo. Em um momento, entrou um oficial xingando todo mundo, com palavras de baixo calão". 

Agora, Sabatha está no Brasil e ainda pensa em meios legais para tentar ao menos amenizar o que aconteceu nos Estados Unidos. "É difícil explicar como estou me sentindo. É terrível estar preparada, realmente achando que é o seu momento e tirarem isso de você", desabafou, e continuou: "É frustrante saber o tanto que você se preparou... Toda energia que você gastou, todo o empenho... E digo até financeiramente".

A faixa preta também agradeceu por falar um pouco de inglês e ter conseguido se comunicar, mas relembrou que tinha uma francesa na sala quando ela chegou que não falava absolutamente nada do idioma, e que quando Sabatha saiu, ela continuava lá, sem entender o que estava acontecendo. No final, Sabatha nem sabe o motivo por não terem a deixado entrar nos EUA.

Segundo Lucas Migon, advogado desportivo e mestre (USF) especializado em imigração, o visto só é válido quando devidamente carimbado pela imigração do país. "O visto só é aperfeiçoado juridicamente no momento da inspeção de imigração em solo americano. Traduzindo: você só recebeu um visto quando carimbam seu passaporte e é aquilo que vale. Por isso, pode-se 'tirar visto' sem data específica para viagem" esclareceu Lucas, que já esteve por trás de alguns casos de atletas, como Tayane Porfírio, que está sendo punida pela USADA.

OUTROS ATLETAS QUE NEM TIVERAM A CHANCE DE SAIR DO BRASIL

Gabriel Costa, faixa roxa da Guigo Jiu-Jitsu e atual campeão Brasileiro, tentou o visto pelo terceiro ano consecutivo e foi negado. Segundo reportagem da UOL, a carta de recomendação dada pelo professor Lloyd Irvin, de Maryland, a carta escrita pela marca que patrocina o atleta e o registro na CLT que Gabriel possui há dois anos, não foram suficientes para que ele embarcasse.

O Dream Art Project, projeto da equipe Alliance e liderado por Isaque Bahiense, relatou em rede social que de 14 atletas que se aplicaram para o visto, 8 foram negados.

Uma delas foi da campeã brasileira na faixa roxa, Letícia Yuka. Ela teve 4 vistos negados entre 2018 e 2019. A justificativa?

"Eles não falam muita coisa. Só falam que não e te dão um papel escrito a 'justificativa'. E esse papel diz que eu não tenho vínculo com meu país de origem", disse Letícia.

E de fato, o papel é um padrão para quem tem o visto negado. "A justificativa do visto é padronizada porque, legalmente falando, compete ao requerente superar uma presunção de intenção imigratória", disse Lucas Mignon.

Justificativa que Letícia Yuka e outros atletas da Dream Art receberam
Justificativa que Letícia Yuka e outros atletas da Dream Art receberam Arquivo Pessoal

A publicação feita pelo Dream Art causou alguns questionamentos, como: será que o principal torneio de jiu-jitsu do mundo devia mesmo ser realizada em um mesmo país-sede todos os anos?



Todo ano, a Federação Paulista de Jiu-Jitsu (FPJJ) oferece uma seletiva para os atletas melhor ranqueados durante o ano onde a premiação é uma passagem para disputar o Pan-americano, que também é nos Estados Unidos.

Em 2017, porém, a FPJJ divulgou que os atletas vencedores da seletiva seriam contemplados com uma passagem para o Campeonato Europeu, que acontece em Portugal, por conta da dificuldade de obtenção do visto americano.

No ano passado, a premiação foi novamente para o Pan, e a federação se prontificou a ajudar da forma que pode e publicou a seguinte mensagem no site:

"VISTO AMERICANO

A obtenção do visto obrigatório para viagem é de responsabilidade do atleta. A Federação poderá emitir carta de solicitação e de apresentação para o consulado americano mas não se responsabiliza pela obtenção ou não deste visto. Caso o atleta tenha o visto negado, não haverá compensação do prêmio, nem mesmo, a possibilidade de indicar outro atleta para recebê-lo."

Portanto, levando em consideração que o visto é difícil burocraticamente e financeiramente, não é tão fácil quanto algumas pessoas afirmam ser, porque não depende simplesmente de um querer. Então talvez seja algo a ser pensado mudar a sede do torneio a cada ano, para abrir a possibilidade que atletas impedidos de entrar nos Estados Unidos participem.

"A sensação é de impotência, de ter sido roubada. De terem me tirado o que era meu, de uma forma nojenta, ridícula, sem ter ao menos uma explicação", foi como afirmou ter se sentido Sabatha, que ainda está pensando em como correr atrás do prejuízo, já que ainda não teve nem tempo e nem cabeça para pensar em como pode recorrer a situação. E sem ter a certeza se vai poder disputar um Mundial novamente, já que ela não recebeu nenhuma recomendação sobre poder ou não voltar ao país.

"O visto eu ainda não sei. Não sei se barraram minha entrada dessa vez ou se barraram por um tempo. Eu realmente não tive cabeça para ver isso", finalizou Sabatha. 

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Como a imigração dos EUA humilhou Sabatha Laís e a tirou do Mundial de jiu-jitsu

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A maior diferença que senti entre treinar jiu-jitsu nos Estados Unidos e no Brasil

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Foi aí que passei uma semana levando porrada! Hahaha
Foi aí que passei uma semana levando porrada! Hahaha Arquivo Pessoal

Quem acompanha meu blog sabe que, em outubro 2017, eu embarquei para a Califórnia com o objetivo de treinar. Uma cirurgia, porém, me impediu, porque 15 dias antes da viagem, eu quebrei o dedo justamente durante um treino e precisei operar. Então precisei mudar um pouco meu roteiro e passei na Atos HQ só para conhecer e gravar algumas entrevistas. Fiz uns treinos de 'teimosa', mas claro, só para matar a vontade, sem relação nenhuma com a realidade, digamos assim.

Esse ano eu fui para lá de novo e, dessa vez, consegui treinar. Passei uma semana na Atos, visitei novamente a Barum Jiu-Jitsu durante um open mat e também fiz um treino na AOJ. O melhor é que eu tinha um objetivo maior: me preparar para o Brasileiro, que eu lutei no dia 01 de maio (talvez eu conte minha experiência em breve, mas posso dizer que foi ótimo, apesar de não ter subido no pódio). Então foi tudo muito intenso e eu tive que me dividir entre turismo e treinos.

Eu fui para lá com uma cabeça e voltei com outra. Mas eu tenho uma coisa muito importante a destacar: a maior diferença que senti entre treinar lá e aqui, foi o fato de poder treinar com mulheres.

Elas foram algumas das responsáveis pelos dias em que sai triste de tanto apanhar. Faltou a Luiza Monteiro, Rafaela, Emily e Nina Moura.
Elas foram algumas das responsáveis pelos dias em que sai triste de tanto apanhar. Faltou a Luiza Monteiro, Rafaela, Emily e Nina Moura. Arquivo Pessoal

Apesar de eu ter algumas meninas treinando comigo e, inclusive, dar aula para mulheres, é um estímulo muito diferente. Algumas equipes aqui no Brasil, de fato, têm um time feminino forte, mas nós da Ono ainda não chegamos a esse patamar e estamos desenvolvendo isso aos poucos. Lá eu me foquei sempre em treinar com elas, já que seria uma ótima oportunidade de simular uma luta real que eu provavelmente encontraria no Campeonato Brasileiro.

Me foquei em treinar com faixas roxas e marrons, que é o mais próximo da minha realidade atual. Todas eram do meu peso ou inferior, poucas mais pesadas. E ao contrário do que pensam - e que eu, pelo menos, já ouvi muito - de que eu vou ser melhor e mais forte treinando apenas com homens, eu senti exatamente o oposto: treinar com mulheres do mesmo nível técnico que o meu, é muito mais difícil. 

Professor André e Professora Angélica
Professor André e Professora Angélica Arquivo Pessoal

Foi onde eu consegui perceber que, de fato, os meninos 'tiram o pé' quando treinam  com a gente. O que não é um problema para mim. Existem homens e homens. Alguns que se fazem de besta por você ser mulher e 'deixam' você fazer tudo como se você não estivesse percebendo e outros, que discretamente não usam 100% da força para que o seu treino renda. Treinar com o segundo tipo de homem realmente é muito vantajoso, porque temos a oportunidade de fazer força, tentar aplicar algumas técnicas e se desenvolver. Mas ainda assim, não chega nem aos pés de treinar com uma mulher.

Elas nunca aliviam. Elas nunca 'te deixam' fazer alguma coisa. Elas nunca fingem que seu braço não sobrou na cara delas ou ignoram o fato de você não ter protegido o seu pescoço. Elas atacam, e atacam o tempo todo. Elas são fortes - tanto quanto ou muito mais que eu. Elas usam e abusam da força física e também da técnica. E é algo que equipara totalmente o nosso jogo. 

Ou seja, eu não tive 'boi' nenhum com elas. Enquanto com os meninos, sim, eu tenho. E talvez todas nós. Claro que eles não nos deixam soltas ou livres para fazer o que quiser, mas, na minha opinião, não chega nem perto de uma situação real de luta. Entrevistei a Jéssica Andrade depois que ela conquistou o cinturão peso palha no UFC 237 e, para ela, o diferencial é justamente ter uma equipe onde a possibilita treinar só com garotas [clique aqui se quiser ler].

Então para mim, essa foi a maior diferença. A possibilidade de treinar com mulheres me fez ficar muito mais esperta. Também tive a oportunidade de treinar com alguns meninos lá, mas eu aproveitei mesmo a oportunidade de estar em um lugar onde tinha mulher para escolher e me foquei nisso. Tenho certeza que isso fez muita diferença para o meu jogo.

Também tive a oportunidade de ter uma aula com o Guilherme Mendes - dispensa comentários, né?
Também tive a oportunidade de ter uma aula com o Guilherme Mendes - dispensa comentários, né? Arquivo Pessoal

Outra coisa que achei bem diferente foi o fato de se apegarem a detalhes. Percebo que nós, no geral, nos preocupamos muito com rolar. Às vezes dá preguiça de repetir a mesma posição cem vezes e a gente só quer sair na mão. Mas lá eles são muito apegados a entender o motivo pelo qual estamos pegando na lapela direita e não na esquerda, por exemplo. Essas coisas, que muitas vezes deixamos passar, faz muita diferença (e eu só percebi isso, aliás, depois que comecei a dar aula). 

Também senti uma pegada insana no treino de competição. É um treino que não consigo fazer aqui no Brasil porque é às 11h da manhã e estou trabalhando. Então, por conta disso, eu não estava acostumada a fazer um treino pegado no sentido de: "Hoje vamos fazer 20 rounds de 5 minutos". Quando o professor André falou isso, eu só queria pensar o quanto preferia estar 'fazendo a turista' nessa hora. Mas foi bem proveitoso. 

Eu senti uma superação em cada treino - principalmente de competição. O André exigiu que, faixas azuis e roxas, fizessem ao menos, 10 rounds. Mas eu queria mais, porque já estava lá mesmo... Hahaha. Consegui chegar a 14. 

Essas foram as diferenças maiores. Como somos uma filial da Atos aqui em São Caetano do Sul (SP), a metodologia é a mesma. O que difere são detalhes. 

Fora isso, também senti diferença física, que foi algo que em uma semana não consegui igualar, a maioria do pessoal que treinei lá, vive disso. Acho que eu precisaria de mais uns dias para me sentir 100% preparada.

Também senti, é claro, a diferença de tempo. A Califórnia é muito seca. Meu nariz descascava, precisava beber água muito mais do que estou acostumada quando treino aqui. E lógico, eu quis treinar na intensidade deles e minha imunidade deu aquela caída. Por alguns dias senti um indício de gripe, dor de garganta e um cansaço físico grande que, como já falei, precisaria de alguns dias para me sentir melhor. 

Sobre valores: sim, é mais caro. Fiz umas contas por cima aqui (sou ruim nisso) e o valor da mensalidade, considerando o câmbio de hoje (que o dólar de turismo está R$4,26 - socorro), pode custar cerca de 7 vezes mais do que uma mensalidade aqui (isso considerando um plano mensal. Assim como aqui, também existe plano trimestral, semestral e anual). Talvez seja alto até para os padrões americanos. Já as academias de musculação, são bem baratas - mas não posso dizer com tanta convicção porque não treinei, só ouvi falar, então pula.

Por outro lado, a suplementação lá é mais barata e a qualidade é superior a nossa. Então tomar um 'wheyzinho' de leve com uma boa qualidade lá, é mais fácil. Já no Brasil, precisamos prestar bastante atenção antes de comprar uma marca só por ser barata. Isso fora a alimentação: as comidas orgânicas, por exemplo, são mais acessíveis. Sabemos que esse 'combo' faz uma baita diferença para um atleta, seja ele de alta performance ou não.

De tudo isso, o que posso dizer é que foi uma experiência muito proveitosa e que gostaria que todos tivessem a oportunidade de fazer esse 'intercâmbio'. O Mundial está chegando, a galera tinha começado o camp na semana que cheguei e estava todo mundo na pegada. A cabeça dessa galera que vive para isso é bem diferente das que treinam por hobby. É incrível ouvir a história de cada um, os corres e ver o quanto eles se doam a cada treino.

Mas eu também adoro poder ter a oportunidade de treinar aqui todos os dias e crescer muito com meus professores e colegas de treino, ainda que seja bem diferente de lá. Os recursos que temos aqui, são completamente diferentes, a começar pela estrutura da academia. Enquanto lá eles têm dois tatames, aqui temos um, por exemplo. Então a grade de aulas é bem inferior. Enquanto aqui muitos de nós treinamos por hobby, lá também - embora a gente ache que a maioria da galera lá é de competição, mas não é exatamente assim. Mas o número de competidores de lá e daqui, deve ser no mínimo três vezes maior, eu realmente não sei comparar.

O melhor de tudo foi ter saído um pouco 'da caixa', conhecer novas pessoas, novas formas de treinar, novas histórias e poder compartilhar isso com o pessoal que treina comigo. Jiu-jitsu é muito doido! :) Foi muito bom ter tirado esse mês de férias e viver intensamente essa parada que eu gosto tanto.

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O dia que enfrentei Jéssica Andrade, a nova campeã peso-palha do UFC

Mayara Munhos
Mayara Munhos
A nova campeã peso-palha do UFC
A nova campeã peso-palha do UFC Buda Mendes/Zuffa LLC

Em 2015, eu estava me preparando para lutar o Campeonato Mundial da Confederação Brasileira de Jiu-jitsu Esportivo (CBJJE). Um pequeno mundial organizado no Brasil, mas que atrai muitos atletas pelo "glamour" do nome. 

Faixa azul na época, eu estava confiante, treinei muito, peguei férias no trabalho para focar ainda mais. Minha primeira luta seria com uma tal de Jéssica C. Andrade, da equipe PRVT (que eu nunca tinha ouvido falar, até então). Era a Paraná Vale Tudo.

Chegou o dia e lá estávamos nós. Vi a Jéssica na concentração. Kimono branco, tipo um metro e meio (ela tem 1,57m) e um rosto normal. Isso significa que, de aparência, ela era só mais uma competidora, como eu. Não era daquelas que você olha e sente medo. Era apenas mais uma. E eu continuava confiante.


E então chegou a hora. E foi especial, porque minha família estava lá para me assistir - uma pressão a mais. Nos cumprimentamos e começamos a luta. Chamei ela na guarda um pouco desajeitada, e ficamos por muito tempo brigando: eu na meia guarda e ela só tentando passar. Eu fazendo uma retenção e ao mesmo tempo tentando raspar, e ela com o quadril alto, sem abraçar a minha cabeça e nem nada, mas ela estava claramente mais calma. Em um momento da luta, vi a oportunidade de levantar num single leg e tentar botar ela no chão. Foi o que fiz, ou tentei, porque não sou nada boa nesse negócio de single leg. Subi, ela foi para trás e em questão de segundos, ela pulou na guarda já puxando meu pescoço. Quem está lendo até aqui e conhece minha adversária, já sabe: era uma guilhotina. No chão e com a guarda fechada em mim, ela apertava, e eu não sabia defender muito bem porque não é tão comum guilhotina com kimono. Eu estava pensando que era inaceitável e conseguia ouvir meu antigo professor gritando 'cabeça no chão, cabeça no chão', para aliviar a pressão. Mas até eu conseguir chegar com a cabeça no chão, não dei conta e bati. Eu estava desistindo. 

A luta tinha um total de 5 minutos e eu aguentei até cerca de 4. Eu não estava satisfeita. Minha mão não saiu levantada. E na beira do tatame, eu desabei de chorar. A Jéssica saiu um pouco depois de mim e se abaixou do meu lado.


Ela me deu um abraço. "Cara, você é muito forte", ela me disse. "Obrigada, eu treinei muito", respondi. "Foi uma boa luta, não fica triste, você é realmente forte e foi um prazer", ela falou e me deu um apertinho, não como de quem está debochando de mim, mas de alguém que sabe o que estou sentindo porque estava ali pelo mesmo motivo que eu.

Naquele dia, ela venceu mais 3 lutas, todas por finalização e em tempo menor - a final foi em 18 segundos, como ela publicou no Instagram. Ela recebeu de seu professor, Gillard Paraná, a faixa roxa no pódio mesmo (a quem dedicou a vitória do UFC 237). Depois, alguém me disse que aquela garota que eu tinha lutado, era do UFC. Eu continuei insatisfeita pelo resultado, mas confesso que serviu um pouco de consolo. Fui pesquisar um pouco sobre ela que, apesar de não estar em evidência, já tinha 7 lutas e 4 vitorias, só no UFC. A finalização predileta dela era guilhotina - a calma dela na luta comigo era claramente porque ela já sabia que era isso que ia fazer. Mais que Jéssica Andrade, ela era a Jéssica 'Bate-Estaca', um golpe que é ilegal no jiu-jitsu, mas foi assim que ela chegou ao cinturão do UFC neste final de semana - já que no MMA, pode. Ela venceu Rose Namajunas no UFC 237, no segundo round, mostrando o por quê de 'Bate-Estaca'.

É a dor e a delícia do jiu-jitsu. Você não escolhe suas adversárias. Diferente do UFC, você não diz 'sim' ou 'não'. Você paga um campeonato, se inscreve e lá, você vai lutando contra quem tiver feito o mesmo, seja alguém da academia pequena da esquina, até a nova detentora do cinturão peso-palha do UFC. 

Seria maravilhoso dizer que eu venci aquela luta. Mas também não é amargo dizer que perdi. Hoje, a Jéssica é faixa marrom de jiu-jitsu. Naquela época, ela competia muito. Ela rodava o Brasil, lutava campeonatos de várias federações e em 2015, tinha se dado super bem por onde competiu. Paralelo a isso, ela treinava MMA e estava no UFC. 

Jéssica, que tem hoje 15 lutas no UFC, é mais uma brasileira responsável por colocar nosso país no "top" do MMA feminino. Após a vitória, o Brasil domina as categorias femininas do UFC. Das quatro, o cinturão de três delas pertence às brasileiras. Amanda Nunes é dona do peso galo e pena. Isso sem esquecer que Cyborg foi a rainha do peso pena durante muito tempo. 

É uma honra dizer que o MMA brasileiro é um destaque nas categorias femininas. E uma honra ainda maior ver o quanto a Jéssica de 2015 cresceu e está conquistando o mundo. VOA, JÉSSICA!

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‘Não posso, tenho treino’; seus amigos ainda te chamam para sair?

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Focus!
Focus! Focados no Tatame


Ontem fiz uma entrevista com uma lutadora do UFC (publico no espnW.com.br em breve) e ela me disse uma coisa que, como jornalista, eu não podia (eticamente) responder “sei como é”, mas talvez eu tenha dito disfarçadamente. Ela disse algo do tipo: "eu tive que mudar a minha rotina, não posso ficar saindo e tal"; e eu disse "seus amigos nem te chamam mais, né?". E ela concordou. [I know what you feel, bro].

É exatamente isso que acontece quando você opta por ter uma vida de atleta. Você precisa estar disposto a se abdicar de algumas coisas para que outras venham. E não é fácil, mas claro, deve ser prazeroso. Esse papo com a lutadora me fez pensar em algumas coisas que eu abri mão de fazer para estar treinando, tendo como gancho também a 'famosa' frase de uma grande amiga (que me chama para sair às vezes): "Má, você sabe que tem uma vida dupla, né?" (obrigada, Giovanna Sayuri, por sempre me lembrar que eu não vivo para isso nos meus momentos de desespero). Então vamos lá!

Quem me conhece sabe que eu não sou atleta profissional. Eu faço jiu-jitsu única e exclusivamente porque eu gosto. Vejo nele uma motivação, aprendo muito, não apenas dentro, mas fora do tatame. O jiu-jitsu me ensina muito! São coisas que eu nem percebo, mas que, quando vejo, já estou aplicando na minha vida 'out'. 

Eu sempre digo que o meu maior objetivo não é ser uma campeã mundial, eu teria que abrir mão de algumas coisas que não estaria disposta, embora eu saiba que já abro mão de várias. Mas algo que eu não largaria, por exemplo, é o meu trabalho. E na minha cabeça, eu faço um treino de manhã e outro a noite e isso é cansativo, mas o mais cansativo mesmo é estar dentro de uma empresa durante, pelo menos, 8 horas do meu dia. Essas 8 horas, caso eu decidisse lutar um mundial, teriam que ser convertidas em treinos, porque eu sei que enquanto eu estou trabalhando (e foi uma escolha minha e eu adoro), minhas adversárias estão treinando, descansando e se focando naquele objetivo. Mas ok, isso foi só uma introdução. 

"Não posso, tenho treino". Quantas vezes você já repetiu essa frase? Quantas vezes deixou de ir em algum aniversário de família porque precisava treinar? Quantos sábados deixou de sair com seus amigos porque tinha campeonato no domingo de manhã? Quantas vezes não pôde sair porque tinha um treino específico que não poderia perder?

Isso para mim é algo muito natural. Sério, é absurdamente natural dizer que tenho treino porque eu, de fato, tenho. É meu compromisso. Eu preciso estar na academia de segunda a sexta, em X horário para fazer o que me prontifiquei a fazer. E se eu escolhi, preciso fazer bem feito. Ninguém nunca me chamou de canto para falar: "Então, Mayara, você não pode sair hoje porque precisa treinar", mas é algo que você percebe com o tempo que precisa conciliar e, deixar algumas coisas de lado, é necessário. Por isso, deixo de lado as coisas que estão ao meu alcance.

No início desse ano, uma das minhas resoluções foi que eu podia abrir mão de um dia por mês de treino caso quisesse fazer alguma coisa pessoal. E, ainda assim, tem sido difícil para mim, porque quando vejo, o mês já passou. Treinar para mim é prazeroso, embora seja algo mecânico. Parece que todo meu subconsciente está programado para fazer isso, que meu carro já vai fazer o caminho da academia sozinho, que meu kimono vai entrar na minha bolsa por força do pensamento... É quase isso, porque eu faço e nem percebo.

Mas sim, seus amigos começam a te deixar de lado. E você começa a perceber que poucos sobraram. Aqueles amigos que antes te chamavam para "o rolê", hoje parecem ter preguiça de te chamar porque já sabem que você vai ter uma "desculpa" e dizer "não". Eu já tenho até vergonha de falar que vou treinar - sério, hahaha. Mas eles sabem. E não tem problema, desde que te respeitem (e os meus me respeitam, muito).

Se eu já fui em happy hour do trabalho? Em seis anos e meio de empresa, eu digo que nunca (mentira, eu fui em uma confraternização em dezembro de 2017, a Gigi lá de cima que me lembrou). Eles antecedem meu treino. E por mais que as pessoas falem sobre isso, me parece que elas já estão acostumadas em simplesmente não me chamar. Às vezes eu realmente sinto vontade de ir, mas eu fico pensando como vai ser em um mês, quando eu estiver em uma competição e as opções são matar ou morrer.

E sim, minha família me cobra e ela é minha prioridade, mas se no começo era muito estranho entender que eu precisava estar treinando em todo meu tempo livre, hoje para eles é mais estranho se eu não estiver treinando. Quando eu não treino, meus avós me perguntam se estou doente, de verdade hahaha.

Muitas vezes você deixa de fazer as coisas não por querer, mas por estar cansado. Quem treina, sabe: o corpo sente, muito. É cansativo e exaustivo. E muitas vezes, você só quer deitar e descansar. E mais do que uma escolha, descansar é uma necessidade extrema que geralmente, não fazemos como deve ser feito: já parou para pensar quantas horas por noite você dorme?

Mas o que tenho a dizer desse 'blá blá blá' todo é que você precisa se permitir. Não tem problema se algum dia sua cabeça não estiver boa e você precisar faltar. Não tem problema se uma dor te impedir de treinar naquele dia. E também não tem problema se você optar por não ir para tomar alguma coisa com os amigos (mas não abuse). Mas você precisa ter e manter o foco. E precisa ter a cabeça boa o suficiente para entender que não pode relacionar qualquer derrota ao fato de ter 'falhado' uma vez.

Curta sua jornada. :) E obrigada, amigos, por me chamarem para sair às vezes, mas por entenderem meus 'nãos' <3

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‘Não posso, tenho treino’; seus amigos ainda te chamam para sair?

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Mahamed Aly responde - O que é #KiCliminha? [Parte 1]

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Mahamed Aly responde no Jiu-Jitsu in Frames
Mahamed Aly responde no Jiu-Jitsu in Frames Reprodução

Fazia um tempo que eu não postava no meu canal do YouTube, mas... Finalmente arranjei um tempo (e criei uma certa vergonha na cara) para editar.

Em janeiro do ano passado (sim, em 2018), rolou o ACBJJ, aqui em São Paulo e eu aproveitei a estadia do Mahamed Aly aqui para gravarmos um vídeo. Ele também tem um canal (veja lá) e então lida bem até demais na frente das câmeras. 

Depois disso, muita coisa mudou. Ele foi, inclusive, campeão mundial e foi algo que tínhamos falado sobre na entrevista - significa que a edição vai dar ainda mais trabalho, hahaha.

Mas, fora a entrevista, eu peguei algumas perguntas no canal dele e ele respondeu. Esse é o primeiro. Em breve (em menos de um ano, prometo), tem mais.


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Mahamed Aly responde - O que é #KiCliminha? [Parte 1]

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Campeonatos Brasileiro e Mundial anunciam premiação igual para homens e mulheres da faixa preta

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Mulheres no pódio do Mundial de 2018
Mulheres no pódio do Mundial de 2018 Lisa Albon

Sim, gente! Está acontecendo!

Nessa semana, a Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu (CBJJ) anunciou que vai pagar premiação nas categorias de peso e absoluto faixa preta adulto, igualmente entre masculino e feminino, no Campeonato Brasileiro. Mais tarde, a International Brazilian Jiu-Jitsu Federation (IBJJF) anunciou o mesmo, para o Campeonato Mundial.

Sim, ambas as federações são duramente criticadas por serem responsáveis pelos maiores campeonatos do mundo e por nunca pagarem premiação, apesar da alta taxa de inscrição. Vou tentar me dividir em tópicos para clarear minhas ideias. 

As taxas de incrição

Campeonato Brasileiro tem a duração de nove dias, sendo que os dias 27 e 28 de abril são para as categorias de 04 a 17 anos e 29 e 30 de Abril, 1, 2, 3, 4 e 5 de maio, as categorias de 18 para cima. Os valores de inscrição de pré-mirim, mirim, infantil e infanto-juvenil custam de R$80  a R$105 (variando a data de inscrição). A categoria juvenil e adulto varia de R$155 a R$180. 

Campeonato Mundial dura 5 dias e, neste ano, vai de 29 de  maio a 2 de junho. Os preços variam de U$S115 a U$S149 (na cotação de hoje, varia cerca de R$439 a R$569). Além disso, é cobrado também uma entrada do público: nos três primeiros dias (de quarta à sexta) 15 dólares e no final de semana, 20 dólares. 

Sim, é caro. Mas até o ano passado, o único "pagamento" vindo das federações era uma camiseta do evento - algo que sim, gostamos, mas que convenhamos: não paga nossas contas.

Eu não faço a mínima ideia do valor para organizar um campeonato, desde pagamento das placas de tatame até os funcionários que trabalham incansávelmente todos os dias para fazer a competição acontecer, mas na minha cabeça, o lucro era muito grande para dar aos atletas apenas uma camiseta e uma medalha (acho que isso pode ser uma próxima pauta).

Luiza Monteiro, faixa preta bicampeã mundial da equipe Atos Jiu-Jitsu, comemorou a iniciativa, mas ressalta que o parabéns deve ser para os atletas: "Passei uma vida inteira pagando inscrição para ganhar medalha e ainda sair toda feliz dos campeonatos, mas sem um real no bolso". Ela também ressaltou o investimento que precisa ser feito por brasileiros, que moram no Brasil, para lutar nos Estados Unidos, que é base de campeonatos como Pan-Americano e Mundial. 


Os pagamentos da IBJJF

Sim, a IBJJF tem uma forma de bonificação. Desde 2015, a federação paga aos líderes do ranking um bônus. O pagamento acontece sempre no mundial do ano seguinte. No ano passado, Tayane Porfírio e Erberth Santos, líderes do faixa preta adulto, receberam 15 mil dólares. Os segundos colocados (Claudia Doval e Leandro Lo), receberam 4 mil dólares e os terceiros colocados (Hulk e Bia Mesquita), mil dólares.

É uma ótima iniciativa, é claro. Mas são poucos que recebem. Você precisa participar do máximo possível de campeonatos e, se você depende desse dinheiro, vai demorar bastante tempo para receber, já que é só uma vez por ano. Por isso, é um bônus, e não um "salário". Porém, não desmereço. É um grande reconhecimento, porém não o necessário.

Luiza também falou algo muito importante sobre ser atleta: "Ser atleta é dar tiro no escuro, é ter que ter uma fé inabalável na vitória, porque existe muita coisa que botamos em risco o ano inteiro por um único dia, que pode dar certo ou errado".

Outras federações que pagam

Não vou me estender aqui, mas para não deixar passar, a UAEJJF, federação dos Emirados Árabes, também paga premiação. Aliás, eles valorizam muito o jiu-jitsu por lá. Mas ela ainda não é igual entre homens e mulheres. Em 2016, lembro dessa foto no Mundial da UAEJJF, que estão os campeões absolutos faixa por faixa e os faixas pretas adultos em destaque (Felipe Preguiça e Tayane Porfírio) com um cheque de 20 mil dólares de diferença. Algumas pessoas questionaram muito.

Felipe Preguiça e Tayane Porfírio com seus cheques em 2016
Felipe Preguiça e Tayane Porfírio com seus cheques em 2016 BJJ Style


Em 2017, também escrevi um texto falando das mulheres que dividiram a premiação em um Campeonato Mundial organizado pela Sport Jiu-Jitsu International Federation (SJJIF). Eles ofereceram a mesma premiação, tanto no masculino quanto no feminino, mas infelizmente as mulheres não alcançaram o mínimo de atletas exigido para receber a premiação e, por um acordo, dividiram entre si e à federação. 

Então aí entra uma decisão importante tanto da CBJJ quanto da IBJJF: deixar claro no anúncio a quantidade de atletas que precisam estar inscritos para que haja a premiação. Vai haver de qualquer jeito, mas "x" atletas precisam compor a chave para que a premiação seja justa.

Em setembro do ano passado, depois do BJJ Pro, campeonato organizado pela CBJJ, alguns atletas como Alexandre Vieira, Mahamed Aly e Rudson Matheus, se manifestaram contra a diferença de pagamento entre as categorias masculinas e femininas. Se quiser relembrar, veja esse texto aqui: "No jiu-jitsu, atletas publicam mensagens de apoio à igualdade de premiação entre gêneros". 

As regras para o pagamento

Isso é primordial. Geralmente, alguns campeonatos que não são organizados por federações, pagam os vencedores. Mas, nas regras, eles deixam claro que precisa de um número mínimo de atletas para que a premiação aconteça. E isso é justo. Em setembro de 2016, eu escrevi um texto para o BJJ Fórum chamado "Premiação feminina em campeonatos: A Atleta x O Organizador". É uma discussão que vai muito além, mas pelo lado do organizador, de certa forma é compreensível que se pague de acordo com a quantidade de atletas inscritos, mas as mulheres também precisam ser incentivadas a participar. Então aqui digamos que é uma via de mão dupla: quanto mais atletas se inscreverem, mais as organizações vão pagar.

Nisso, tanto a IBJJF quanto a CBJJ foram inteligentes: na divulgação do pagamento, elas deixaram claro quanto cada categoria recebe e quantos inscritos precisam ter para que isso aconteça. Então sim, as premiações são iguais. Mas elas só serão pagas se atingir o número mínimo.

NO CAMPEONATO BRASILEIRO

Das categorias peso Galo à Pesadíssimo, faixa preta adulto masculino e feminino:
De 2 a 8 atletas - R$5 mil (campeão) e R$1 mil (vice-campeão);
De 9 a 16 atletas - R$6 mil (campeão) e R$1200 (vice-campeão);
De 17 a 32 atletas - R$7 mil (campeão) e R$1400 (vice-campeão);
De 33 para cima - R$8 mil (campeão) e R$1600 (vice-campeão).

No absoluto:
De 2 a 8 atletas - R$7 mil (campeão) e R$2 mil (vice-campeão);
De 9 a 16 atletas - R$8 mil (campeão) e R$2200 (vice-campeão);
De 17 a 32 atletas - R$9 mil (campeão) e R$2400 (vice-campeão);
De 33 para cima - R$10 mil (campeão) e R$2600 (vice-campeão).

NO CAMPEONATO MUNDIAL

Duas diferenças para o Brasileiro. Enquanto no Brasil pagarão 1º e 2º lugar, na Califórnia pagará apenas para o campeão. E o absoluto, que no Brasileiro varia de acordo com a quantidade de atletas, é um valor só independente da quantidade.

Das categorias peso Galo à Pesadíssimo (para homens) e Super-pesado (para mulheres - aqui é a máxima feminina), faixa preta adulto masculino e feminino: 

De 2 a 8 atletas - $4 mil dólares;
De 9 a 16 atletas - R$5 mil dólares;
De 17 a 32 atletas - R$6 mil dólares;
De 33 para cima - R$7 mil dólares.

No absoluto: 10 mil dólares - independente da quantidade de atletas (segundo a tabela divulgada no Instagram da IBJJF).


Ainda há muito o que melhorar, mas comemore!

É lógico que sempre vai ter muito para melhorar. Só faixa preta adulto recebe, e aí vem o questionamento: "e o máster?". Das outras faixas: "e a minha faixa?". Calma! São conquistas gradativas. Vamos esquecer o lado ruim e lembrar que ter dois dos maiores campeonatos do mundo pagando premiações, é um grande começo, uma grande conquista para o jiu-jitsu e também para as mulheres, pela equidade. No mês passado, a Tayane publicou em seu Instagram um desabafo sobre a desigualdade.

E agora estamos vendo mobilizações para que tudo melhore. Muitos atletas comemoraram. O Alexandre Vieira, atleta da Brazilian Top Team, por exemplo, recebeu uma pergunta no Instagram se ele ia lutar o Brasileiro desse ano, e ele respondeu: "Já ia, agora que anunciaram premiação, estou mais certo que o tatame". Isso incentiva, inspira.

Luiza Monteiro me falou sobre a felicidade de estarem pagando premiação, parabenizou a IBJJF e, para ela 'antes tarde do que nunca', mas relembra que  nesse ano, vai fazer 9 anos de faixa preta e que batalhou uma vida toda para que esse tipo de melhoria acontecesse. "Se luto até hoje, é porque amo demais, nunca foi pelo dinheiro, mas precisamos profissionalizar o esporte. Já tinha passado da hora. Nós precisamos da IBJJF, mas ela também precisa de nós e foi graças a nós que ela cresceu", disse. 

A faixa preta também aproveitou para parabenizar todos os atletas, campeões mundiais, faixas pretas e todos que batalharam todos os dias buscando por um momento como esse, e finalizou, dizendo: "Ainda não é o ideal, mas fico feliz por fazer parte dessa geração que contribuiu demais para a mudança no jiu-jitsu, fico feliz em saber que as próximas gerações serão tratadas como deveríamos ter sido. Ainda vou aproveitar um pouco disso se Deus quiser e permitir, mas o melhor ainda está por vir".

Certamente, é um "pequeno grande passo", uma grande mudança na história e algo para se comemorar, mas que isto não sirva para nos calar e sim, nos fortalecer cada vez mais no meio do esporte.

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Aos 15 anos, uma super-heroína usou o jiu-jitsu para se livrar de assassinos no massacre de Suzano

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Faixa branca de jiu-jitsu, Rhyllary lutou contra Luiz, um dos assassinos no massacre da escola de Suzano
Faixa branca de jiu-jitsu, Rhyllary lutou contra Luiz, um dos assassinos no massacre da escola de Suzano Arquivo Pessoal

13 de março de 2019. Depois de uma semana já conturbada, após uma grande enchente que acabou com casas e vidas na Capital de São Paulo e do ABC Paulista, tudo estava parecendo clarear. Mas nessa manhã, porém, noticiários começaram a falar sobre um tiroteio dentro de uma escola em Suzano. É um fato: esse ano não está para brincadeira.

Dois atiradores, identificados como Guilherme Taucci Monteiro de 17 anos e Luiz Henrique de Castro, de 26, entraram na Escola Estadual Raul Brasil e atiraram a esmo. Um deles, o mais jovem, ficou conhecido por ter entrado com um machadinho. Foi contra ele que uma garota de 15 anos lutou.

Rhyllary Barbosa é estudante do 1º ano do ensino médio. Faixa branca de jiu-jitsu, ela se defendeu do “assassino da machadinha” e conseguiu se livrar da morte.


09h30 da manhã, Rhyllary saiu para o intervalo com uma amiga e comprou um lanche. “Eu estava terminando de comer e escutei um tiro. Quando olhei para trás, o Guilherme estava com a arma em punho apontando para quem ainda estava ali dentro”, me contou pelo telefone. Ela disse que, quando perceberam, todos ficaram desesperados e começaram a correr.

“Eu ajudei umas amigas a pular o murinho, que é da altura da minha cintura e dá para o refeitório. Em seguida, pulei também e me abaixei, encostada na parede, no canto da mesa. Foi na hora que vi eles [assassinos] descendo”. Ao tentar fugir, ela não imaginava que Luiz estaria na porta da diretoria. No momento, ela começou a tentar encorajar pessoas: “Eu levantei e comecei a falar ‘coragem, gente, vamos sair, levanta, vamos embora’; e estava todo mundo em choque, com medo e continuaram abaixados”.

Em seguida, ela se levantou, sozinha. Foi quando correu até a diretoria. Quem assistiu ao vídeo que circulou na mídia, vai entender melhor e, quem não assistiu, não assista! Rhyllary descreve: “Foi na hora que trombei com o Luiz. Eu não identifiquei o machado que estava do lado dele, mas nos trombamos e ele me puxou”. Luiz tentou dar uma queda nela que, fazendo uma base e firmando os pés no chão, conseguiu se manter em pé.

“Tentei chacoalhar ele para me soltar. Nesse momento, os outros alunos vieram atrás e assim quem ele viu, me soltou e foi procurar o machado dele para impedir que os alunos saíssem. Foi o momento que aproveitei para abrir a porta”. Foi quando ela conseguiu fugir junto com algumas outras pessoas.

Depois disso, ela correu com um amigo, que tentou acalmá-la, para uma rua um pouco mais afastada.  “Eu estava desesperada, chorando muito e falando para ele [o amigo] que a gente precisava voltar para resgatar outros alunos, mas ele falou que era melhor ficarmos por lá”.

Rhyllary contou que chegou a ver José Vitor Ramos Lemos, de 18 anos, ferido com o machado no ombro, mas se tranquilizou depois que a namorada dele falou que ele já tinha sido atendido no hospital.

Rhyllary tem 15 anos e é aluna do 1º ano da Escola Estadual Raul Brasil
Rhyllary tem 15 anos e é aluna do 1º ano da Escola Estadual Raul Brasil Arquivo Pessoal

A jovem heroína treina jiu-jitsu há 3 anos, no Projeto Social Bonsai - Construindo o Futuro, com o professor Ângelo de Oliveira. O projeto teve início em Suzano, em 2014. Um dos alunos do projeto também perdeu a vida, aos 15 anos. Clayton Antônio Ribeiro era conhecido como “Samurai”. Apesar de todo o momento ter afirmado que sentiu medo e ter contado que, ao ouvir os tiros, sentiu sua espinha gelar, ela ainda teve coragem de lutar contra um dos assassinos com parcimônia.

Eu acredito que o jiu-jitsu ajudou muito. Se tivesse outra pessoa despreparada no momento em que o Luiz puxou o cabelo, ela podia estar muito vulnerável, perder a estabilidade do corpo e cair com a rasteira que ele deu. Se eu caísse naquele momento, ele ia me matar. Era o plano dele.  Talvez eu poderia não ter saído. Então dei graças a Deus que fui eu nessa hora, porque por ter conhecimento do jiu-jitsu, me ajudou muito”.

Apesar de ter dado uma pausa de 2 meses do treino por conta dos estudos, Rhyllary começou a treinar no projeto por incentivo da prima. Ela fez uma aula experimental e se apaixonou, mas o que a motivou foi uma outra história violenta, durante um culto. “Era comemoração de Dia das Mães e a igreja estava enfeitada. Um homem chegou com uma faca falando que ia matar todo mundo porque igreja não era lugar de estar decorado. Ele ameaçou o pastor”. No momento, ela ainda não treinava e não teve outra reação a não ser se esconder. Ninguém saiu ferido.

Isso serviu como um sinal de alerta para Rhyllary: “Foi quando percebi que precisava de alguma forma me proteger do mundo. Esse foi um dos motivos que comecei a treinar jiu-jitsu, pela defesa pessoal. Foi como um alerta de que, a todo momento, não importa o lugar ou a hora, temos que estar preparados para o pior. Não só o corpo, mas a mente também”.

Mais uma história que prova o quanto a defesa pessoal é importante e necessária. Dessa vez, não foi um estupro, não foi um abuso, mas um grande massacre. E Rhyllary, conscientemente, teve o estalo de se defender. Se foi a melhor escolha? Não temos como saber. Mas foi o que salvou a vida de uma jovem, de 15 anos, que ainda tem muitos sonhos a serem realizados.

Rhyllary contou ter perdido alguns amigos próximos e acredita que será muito difícil voltar ao local do crime. “Será muito difícil para todo mundo superar. Acho que esquecer ninguém vai, mas superar vai ser um grande progresso”, finalizou a jovem.

Aos jovens, pais e familiares que de alguma forma presenciaram ou tiveram vidas próximas perdidas: meus sentimentos. O mundo está mesmo muito louco e muitas coisas acontecem sem propósitos ou explicações. Que tenhamos forças de superar todas as coisas ruins que passaram e que, a cada dia, coisas melhores estejam por vir.

Certamente, alguns danos psicológicos serão difíceis de superar. As dores, aos poucos serão minimizadas. Mas Rhyllary conquistou algo muito maior do que uma medalha de ouro no campeonato. Mais uma vez, o jiu-jitsu se mostrou eficiente. E ela, a mais nova heroína teve a coragem e a mente sã de se salvar e salvar também a vida de outras pessoas.

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Que a gente só abaixe a cabeça para amarrar a faixa

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Abaixar a cabeça só para amarrar a faixa, migos!
Abaixar a cabeça só para amarrar a faixa, migos! FEES Fotografia

Eu sei que é difícil. E vai continuar sendo. O processo de desconstrução é demorado, mas a gente não pode desistir. Abaixar a cabeça só mesmo para amarrar a faixa.

Derrotas virão. Dentro e fora dos tatames. Nossa luta é árdua e dura. Vai além de campeonato, além de bater o peso, além da preparação física.

Nossa luta começa dentro de casa quando, muitas vezes, somos questionadas pelos familiares se não devemos escolher um esporte de menina. Quem foi que categorizou o jiu-jitsu? 

Nossa luta fora de casa é para conseguirmos treinar sem que sejamos usadas como 'descanso'. Para que não usem, na nossa cara, a expressão 'treinar como mulherzinha' no sentido pejorativo.

Lá dentro, lutamos contra ciúmes, lutamos contra assédio, lutamos contra machismo e também (finalmente), contra os nossos oponentes. Lutamos para que nossos amigos de treino entendam que o que não os incomoda, pode nos incomodar e aos poucos, fazemos nossa parte para que sejamos também respeitadas e compreendidas.

Lutamos pela premiação igualitária e pelo aumento de inscrições femininas no campeonato para que o valor seja justificado. E nessa luta, mulheres, estamos juntas e vamos nos fortalecer.

A luta vai contra nossos dias de menstruação, que devemos ser fortes ainda que com hormônios a flor da pele e desconforto para estarmos lá, treinando e quiçá competindo - aqui o peso ainda é um grande inimigo.

Nossa luta também é pelo psicológico, é contra o "você não vai conseguir" e é pelo precisar sempre se provar duas (ou mais) vezes.

Mas somos mulheres e somos lutadoras, não só nos tatames, ringues ou octógonos. Somos lutadoras da vida, de direitos, de igualdade - aliás, o feminismo é sobre igualdade. 

Que hoje seja um dia de reflexão e, embora a gente ouça tanta história triste, não nos esqueçamos que ao longo dos anos, viemos acumulando vitórias. E foi graças a nós, a nossa força e luta. E nada disso seria possível se não estivéssemos juntas.

Que cada vez mais a gente entenda (e repasse) a importância de "estarmos juntas" para que pouco a pouco, possamos compartilhar experiências para nos ajudarmos. Que ao invés de julgar "a roupa curta demais e desconfortável para treinae jiu-jitsu", a gente chegue e fale, justamente, que pode ser desconfortável. Que a gente acolha as novas garotas que estão por vir para que elas não desistam de serem nossas companheiras de tatame, de treino e quem sabe, da vida.

Que dia 08 seja todos os dias. Contra todas as coisas ruins que nos permeiam e a favor de todas as coisas boas que conquistamos e ainda estão por vir. 

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Que a gente só abaixe a cabeça para amarrar a faixa

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A lutadora do UFC que imobilizou um bandido, Polyana Viana fala sobre importância da defesa pessoal

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Polyana Viana, a 'Dama de Ferro', comemorando vitória contra Maia Stevenson
Polyana Viana, a 'Dama de Ferro', comemorando vitória contra Maia Stevenson Buda Mendes/ZUFFA

Em janeiro desse ano, bombou nas redes sociais uma imagem de um bandido com a cara, digamos assim, meio que totalmente desconfigurada. Em seguida, o assunto mais falado era "lutadora do UFC imobilizou bandido nas ruas do Rio de Janeiro". Era Polyana Viana. Ela tem duas lutas no UFC, sendo uma vitória por finalização e uma derrota por decisão dos árbitros. No próximo sábado, ela entra no octógono para enfrentar a norte-americana Hannah Cifers. 


Essa semana, entrevistei Polyana para o espnW.com.br (em breve, vocês verão a entrevista completa, ela tem uma história sensacional, aliás - mas eu não posso dar spoiler) e aproveitei para falar sobre a importância da defesa pessoal para mulheres.


Recentemente, eu publiquei aqui também um papo que tive com a Kyra Gracie. Kyra investe bastante em defesa pessoal na Gracie Kore, diferente de outras academias de jiu-jitsu, que estão perdendo um pouco dessa "raiz". 

Essa base da defesa pessoal é super importante e aqui, nós temos aulas de defesa pessoal, onde o aluno aprende realmente a base do jiu-jitsu e evolui com uma qualidade muito boa para ir pro jiu-jitsu esportivo se quiser ou mesmo pela prática como estilo de vida.

Kyra Gracie

Também já conversei com Pricila Engelberg, faixa preta de jiu-jitsu que se "graduou" a faixa rosa no programa Women Empowered (Mulheres Capacitadas), oferecido pela Gracie Jiu-Jitsu Academy. O curso ensina defesa pessoal só para mulheres e, no final, entrega uma faixa rosa simbólica para mostrar algo do tipo: essa garota está pronta para se defender.


Como uma pessoa que instintivamente também já reagiu a assaltos (sim, essa sou eu), Polyana reagiu em janeiro. Ela me garantiu que não se arrepende e que tudo foi feito de caso pensado:  "Se ele tivesse com uma faca, uma arma, ele teria chegado apontando ou me xingando, assim como todos os outros, que são agressivos. Eu não me arrependi de ter reagido. Claro que eu pensei muito no momento, não foi totalmente um impulso. Quando ele chegou ao meu lado, pensei muito: 'aqui tem um ladrão, o que eu vou fazer? Se estiver armado, o que eu vou fazer? Se não estiver armado, o que eu vou fazer?'; enquanto ele me perguntava a hora, falava comigo, eu estava pensando, não foi impulso. Eu não me arrependo de forma alguma. Eu fiquei pensando que quando um bandido vai assaltar um homem, muitas vezes ele quer só os pertences. Para assaltar uma mulher, o bandido sempre quer algo a mais"

E muito consciente, Polyana também afirma que não aconselha ninguém a fazer o mesmo e completa: "ainda mais sem um preparo, sem uma calma. Você tem que ter muita calma para fazer isso, não só preparo". 

Relembrando o caso que aconteceu com Elaine Caparróz, a mãe de Rayron Gracie que foi espancada durante quatro horas pelo advogado (e infelizmente, praticante de jiu-jitsu) Vinícius Batista Serra, ela disse que, se fosse ela na situação, perderia o controle, mas ressalta a importância da defesa pessoal em um caso como esse: "Se fosse eu, teria matado aquele cara. Se ela soubesse se defender um pouco, ele não teria feito aquilo tudo com ela. Por mais que ele tenha força. Quando a mulher sabe se defender, ela dá um, dois ou três golpes e corre. Ela não precisa ficar ali". 

Tendo em vista a quantidade de crimes de feminicído cometidos no Brasil, a peso-palha considera crucial saber defender e acredita que caso todas as mulheres tivessem uma miníma noção, os índices de violência doméstica seriam bem menores.

"Fico com muita raiva quando vejo que alguém apanhou do marido. Eu fico com muita raiva disso, muita raiva! Se eu vir um cara batendo em uma mulher na rua, eu vou me intrometer. Acho injustiça o cara abusar da força para bater numa mulher. E ele tem mais força que a mulher para agredir, ele vai machucar se bater realmente. E ele bate sem noção, sem pensar. Então a mulher tem que saber se defender, sim. Para dar um soco, um chute, uma dedada no olho, seja lá o que for, e correr, para não acontecer sempre esse tipo de coisa e para o cara não acostumar a bater na mulher. Se ele bate em uma, ele bate em todas", finalizou Poly.


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A lutadora do UFC que imobilizou um bandido, Polyana Viana fala sobre importância da defesa pessoal

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Erberth Santos não representa o jiu-jitsu!

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Luta principal de BJJ Stars.
Luta principal de BJJ Stars. Reprodução/BJJ Stars

Começando do começo: todos já sabem, mas ontem (23), no BJJ Stars, evento enorme de jiu-jitsu que aconteceu no Clube Hebraica em São Paulo, reunia grandes nomes da arte marcial e terminaria com a luta principal entre Felipe Preguiça e Erberth Santos. Sim, os dois já estavam anteriormente se provocando nas redes sociais e já sabíamos que seria uma luta dura. Porém, ainda nos minutos iniciais, Preguiça foi raspar Erberth que alegou uma dor no joelho, solicitou atendimento médico e ficou no chão. O ginásio começou a vaiar, como sempre acontece quando ele está no tatame e, do lado de fora, "alguém" falou algo que o "atleta" não gostou e, na mesma hora, seu joelho "parou de doer" e ele saiu correndo do tatame para cima do cara. Perante a isso, começou uma briga generalizada. 

O evento tinha tudo para ser um espetáculo - e foi, até antes disso. A estrutura era impecável. Os atletas receberam ($) para lutar. Os ingressos foram vendidos e esgotados por um público que nem me arrisco chutar a quantidade, porque era mesmo muita gente. Teve transmissão online e venda de pay per view que, segundo a organização, foi recorde. O card? Nem se fale. Foi exatamente o que fez o valor do ingresso valer a pena que, apesar de caro, nos oferecia algo muito importante em troca: um show de jiu-jitsu. 

Além do GP que aconteceu no início, o main event tinha lutas de todos os tipos: dos leves, dos old school, de mulheres, de pioneiros e, infelizmente, de alguém que vai além do trash talking e acaba com a imagem do esporte.

O que quero deixar claro é que não sou a favor de incitação de violência de nenhum tipo. Mas ter um trash talking... isso faz parte. Vide UFC. Nem todo mundo é a favor, mas isso vende. E o evento também tinha o propósito de vender ingressos e ppv. Vimos, sim, um trash talking ser promovido antes, mas vem cá: isso não justifica.

Onde quero chegar é que foi lamentável e repugnante a atitude do Erberth Santos e queria aproveitar para pedir para que os promotores de evento, mídia esportiva e inclusive federações, olhem com mais cuidado para isso. 

Primeiro: não vou compartilhar vídeos porque todos já viram e não quero propagar mais ainda. 

Todo mundo sabe que o cara tem uma má fama. E não é um pré julgamento, é um fato. Todo mundo que acompanha o jiu-jitsu já ouviu ou viu situações onde o Erberth perdeu a cabeça. Onde ele brigou, onde ele esteve envolvido, onde ele falou... e as pessoas ainda insistem em dar mídia para ele. 

Considero que ontem, estávamos dando um passo a frente e terminamos com cinco para trás. É difícil desmistificar para o mundo a imagem ruim que o jiu-jitsu deixou no passado. Tínhamos Ryan, Macaco... que eram, sim, atletas inquestionáveis, mas com atitudes deploráveis. Raramente vemos um evento do calibre do BJJ Stars no Brasil. E ver isso sendo passado para o mundo todo (tendo em vista que o ppv custava 40 reais e eu vi muita gente de fora comprando para assistir), é como uma prova de que o Brasil não pode receber eventos desse tipo. É essa a imagem que fica do nosso país e do nosso esporte para o mundo inteiro.


O apresentador talvez tenha se expressado mal quando, ao finalizar o evento, disse 'isso é Brasil' (depois procuro a fala dele na íntegra e escrevo aqui). Creio que ele não estivesse menosprezando o nosso país, mas querendo dar um alerta de que é essa a imagem que estamos deixando. E não só para fora: essa é a imagem que fica para nossa família e para os nossos amigos que não são do meio do jiu-jitsu e estavam acompanhando.

Na plateia estavam mulheres - inclusive a que ele derrubou no chão e estão dizendo ser a namorada dele (mas eu realmente não confirmo a informação), estavam crianças - vimos Gabriel Rolo pegar a filha dele para levar no tatame e pegar o troféu. Ela estava exatamente onde a briga começou.  Ou então Patrick Gaudio levando sua filha lá para cima, dizendo que era a primeira luta do pai que ela estava vendo. No futuro, vai ser uma pena para ele lembrar como terminou o primeiro evento em que a filha foi assisti-lo lutar. E aliás, Patrick: eu espero que sua luta contra o Erberth não aconteça, como você pediu durante a entrevista. Porque esse cara, NÃO representa o jiu-jitsu e você é um dos novos nomes que tem nos representado muito bem. Ele não merece mais um evento sendo promovido através do nome dele. E temos muitos atletas mais qualificados para entrarem num main event e mostrar o que é jiu-jitsu de verdade.

*Imagens de Patrick Gaudio entrando no tatame.

Comparo o meu sentimento com o com a briga no Paulista (de futebol) de 1999, onde o Edilson (do Corinthians) começou a fazer embaixadinhas e o Paulo Nunes (do Palmeiras) perdeu a cabeça e no final, tomou um chute. Eu tinha 7 anos de idade e estava acompanhando o meu time (verde) muito feliz. Aquela briga me fez sentir vergonha e ficar muito triste por ver algo que eu defendo e gosto ter sido tão deturpado. A sensação que sinto hoje, quase vinte anos depois, é exatamente a mesma. Eu senti vergonha. Eu só consigo pensar nisso. E eu não quero defender meu esporte sem conseguir sustentar minhas justificativas. 

Nós demoramos anos para tirar a imagem de que jiu-jitsu é esporte de marginal. E Erberth veio e colocou mais uma - dentre tantas - manchas na nossa história. Você não merece ser um faixa preta. Você não merece estar liderando uma equipe. Não merece ser ídolo e muito menos exemplo - inclusive de crianças que se espelham em você. Que as providências sejam tomadas para que não vejamos mais esse cara no esporte.


O que deveríamos ressaltar é que a luta principal foi vencida por Felipe Preguiça. Porém, ele sequer lutou. Imagine que louco falarmos sobre o lutão entre os dois, se encontrando de novo? Mas a vitória foi só um detalhe. O que ficou foi a sujeira. Do mais, parabéns pelo evento, BJJ Stars. Que isso não seja um fim.



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Entrevistei a minha maior inspiração no jiu-jitsu. Com vocês, Kyra Gracie!

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Kyra Gracie para o espnW!
Kyra Gracie para o espnW! Reprodução

Sim, eu entrevistei a Kyra Gracie para o espnW. Claro que eu não podia perder a oportunidade de escrever sobre isso aqui. Em algum momento, eu já escrevi sobre ela ser uma de minhas grandes inspirações. Mas acho importante ressaltar que ela foi a minha primeira inspiração.

Quando comecei a treinar, eu não conhecia nenhuma mulher faixa preta próxima. E então, eu encontrei Kyra Gracie (na internet, claro). Para mim, era óbvio que ela era faixa preta, afinal, era da família mais tradicional de jiu-jitsu do mundo. E achava que nunca ia conseguir alcançar. Isso foi em 2006, ela tinha acabado de ser graduada. Hoje, sabendo melhor sobre sua história e vendo quantas mulheres já se tornaram faixas pretas, eu me inspiro ainda mais e tenho certeza que posso chegar lá.

Consegui depois de tanto tentar, marcar uma entrevista com ela, ainda que via Skype, já que eu moro em São Paulo e ela no Rio de Janeiro. Eu tinha muitas perguntas para fazer para Kyra, não sabia nem por onde começar. E então, eu comecei já dizendo: “Olha, Kyra, muito obrigada por topar falar comigo, eu queria aproveitar para dizer, antes de mais nada, que você foi a primeira mulher que vi faixa preta e achei que era tão óbvio, sabe? Não queria ter pensado isso de você antes de saber toda sua história... Hoje vejo o quanto você foi importante, o quanto sua luta inclusive dentro da família foi importante. Agradeço muito por tudo o que fez pelo jiu-jitsu”.

Ela abriu um sorriso, agradeceu e perguntou minha faixa. E assim começamos a entrevista. Kyra já disse: “não existe essa coisa de você é Gracie, faixa preta é campeã. Ninguém te dá isso. São coisas que você conquista, não tem como te dar uma faixa preta e nem um campeonato de jiu-jitsu. Tudo o que fiz na minha vida foi fruto de muito trabalho, dedicação, fui a primeira faixa preta da família Gracie, hoje vejo o quão importante isso foi, porque outras mulheres da família chegaram a faixa preta, mas não só da família como outras meninas e que não tinham uma referência, começaram a ter e começaram no jiu-jitsu. Isso é muito gratificante, você ter essa missão, porque eu como uma menina, única da academia na época... volta e meia tinha uma ou outra, na maior parte eu era única”.

Sim, ela também é humana, ela também treinou, ela também teve suas dúvidas e se questionou se devia parar. “Muitas vezes já me questionei: ‘será que jiu-jitsu é para mulher mesmo?’. Tive minhas dúvidas ao longo da minha carreira... e muitas vezes fico pensando porque eu não era incentivada. Quantas vezes eu como mulher me senti deslocada nos papos, era só papos de homem e enfim... e você começa a se questionar porque as pessoas falavam que jiu-jitsu não era mulher, que eu ia morrer de fome se fosse lutar e viver disso. Um homem nunca vai aprender com uma mulher. É uma ideia muito machista, que infelizmente tinha, hoje tem ainda também, mas estamos trabalhando para quebrar essa barreira. Existe preconceito e machismo muito grande”.

Que o machismo e o preconceito são um mal da sociedade, sabemos. Mas, conversando com ela, me pareceu que o fato de ter passado por tantas situações difíceis fez com que ela tivesse forças de seguir em frente e hoje quebrar aquele tabu de que ‘homens não querem aprender com mulheres’.

Além de pentacampeã mundial de jiu-jitsu e bicampeã do ADCC, Kyra já foi comentarista do Canal Combate (o qual deixou recentemente para se dedicar ao seu novo business), organiza campeonatos (ela organizou a Copa Kyra Gracie, só para mulheres e é a idealizadora do Gracie Pro, sabe? Aquele que teve a luta lendária entre Roger Gracie e Buchecha) e, além de mãe de Ayra e Kyara, esposa do Malvino Salvador, filha, professora... Ela é dona de uma das academias de maior infraestrutura do Brasil, a Gracie Kore, que inaugurou no ano passado e fica no Espaço Vogue, Rio de Janeiro.

Falamos muito sobre a Gracie Kore, mas de tudo, o que mais me chamou a atenção, foi a pegada social que muita gente nem deve imaginar que existe. Kyra dava aula em um projeto social chamado Kapacidade. Ela trouxe alguns alunos que hoje têm entre 15/16 anos (e na época do projeto tinham 5/6) para trabalhar com ela na academia. Além de instrutores, eles aprendem a cuidar da academia como um todo, desde aulas, recepção, lojinha... Para que, no futuro, possam seguir no jiu-jitsu da maneira que quiserem (e puderem).


Além disso, ela contou sobre a ‘mensalidade social’; “temos a mensalidade social, a qual uma parte da renda é destinada a projetos sociais que a gente apoia, ligados a luta, não só do jiu-jitsu mas pode ser MMA, boxe, enfim”... Como não admirar?

Para ela, a academia, além de social, é sustentável: “eu quis trazer um todo. Tem a parte social, a parte sustentável... que a gente não usa copo de plástico, tudo nosso é reutilizável. A gente estimula nossos alunos a trazerem a própria garrafa, o que a gente quer é mudar o mundo um pouco de cada vez”.

Muito inspirada em seus antepassados, ela foi tirando uma coisa de cada academia para formar a própria. Com dois tatames, aulas simultâneas, aula para pais e filhos e algo importante: um espaço kids.

E embora pareça que Kyra já está completamente realizada na vida, ela tem muitas outras missões. “É importante que todas as pessoas que trabalhem com o jiu-jitsu entendam a responsabilidade de ser um professor e que você tem que saber dar aula para qualquer pessoa. E o mais legal é transformar a vida das pessoas. Não é só formar um campeão mundial. Sim, pode ser um plano, mas e todas as outras pessoas que não podem ser campeãs mundiais? Quanto elas podem se beneficiar do jiu? Minha missão é essa, com o jiu-jitsu, metodologia, elevar o nível de ensino e levar isso para todas as pessoas.”

Por isso, ela investe, além do jiu-jitsu competitivo, em algo que foi perdido durante o tempo na arte marcial, que é a defesa pessoal. “A maneira com que se ensina a defesa pessoal não é dinâmica, nem para o dia-a-dia, onde a pessoa sinta necessidade de aprender. Por isso comecei a estudar a história do jiu na minha família e entender como meus bisavós e avós deram aula. (...) Você tinha que saber se defender nas situações mais comuns do dia-a-dia, de agressões e hoje a gente vê muitos faixas pretas que não sabem se defender. Essa base da defesa pessoal é super importante e aqui, nós temos aulas de defesa pessoal, onde o aluno aprende realmente a base do jiu-jitsu e evolui com uma qualidade muito boa para ir pro jiu-jitsu esportivo se quiser ou mesmo pela prática como estilo de vida”.

Não posso contar tudo porque, em breve, vou publicar na íntegra o vídeo da entrevista no WatchESPN. Mas, queria destacar que a questionei o fato de ter treinado para o Mundial de 2011 na Atos, que é minha equipe (sou dessas). Parece estranho alguém que tenha familiares espalhados pelo mundo, não escolha uma ‘Gracie’ para se preparar.

Sempre tive uma ótima relação com o André, competimos juntos por muitos anos. Me aproximei mais do André por causa dos Mendes. Porque treinamos juntos em SP e por conta deles serem mais magrinhos e estarem competindo em alto nível, eu ia pra lá, passava uma semana lá e outra aqui, fiz isso durante um tempo para poder me preparar para o Abu Dhabi. E aí, seis meses depois estava indo pro Mundial e percebi que lá seria um ambiente muito bacana para treinar com pessoas do meu peso e que estavam focadas em lutar o mundial”, disse. “O que aconteceu foi que o Roger estava em Londres, o outro tava não sei onde e quando vi, cada um da minha família estava num lugar e eu achei que lá era o melhor treino pra mim e fui. Foi muito bom, eu tive um camp maravilhoso, treinamos muito, aprendi bastante, e a gente segue com uma amizade muito legal e acho que a gente não pode se privar, porque fulano é de uma equipe, e isso e aquilo. A gente tem que ter a cabeça aberta, tenho a cabeça aberta de preciso evoluir todos os dias. Hoje estou na faixa preta três graus e eu estudo jiu-jitsu, vejo muitas pessoas estão fazendo, o que posso adaptar para o meu jogo. E foi uma experiência muito bacana, eu só tenho a agradecer e levar isso como uma bagagem positiva, para passar pros meus alunos toda essa parte do treino, da dedicação... Então foi muito bom”.

Não-consigo-parar-de-falar. Falamos no Skype durante 40 minutos e foi um papo muito enriquecedor. É uma grande honra poder conversar e perguntar tudo o que sempre quis para alguém que foi quem me inspirou. Sinto orgulho, ainda mais agora, por ter tido essa oportunidade. Kyra foi muito receptiva, paciente e me falou tudo o que eu queria (e muito mais). Foi muito enriquecedor para mim como atleta e jornalista.

Em breve, vai ter mais! E eu publico aqui :)

Fonte: Mayara Munhos

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Conversei sobre jiu-jitsu com a Amanda Nunes antes do UFC 232

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Amanda Nunes depois da luta contra Raquel Pennington, no UFC 224.
Amanda Nunes depois da luta contra Raquel Pennington, no UFC 224. Buda Mendes/Zuffa LLC

Sim! \o/ Eu me “aproveito” da situação de entrevistar as atletas de MMA e sempre puxo o papo de jiu-jitsu. Para o UFC 232, tive a oportunidade de entrevistar a Amanda Nunes e, depois de tudo... Não tinha como não aproveitar a brecha.

Quando participei do ‘Olhar espnW’ com a Cris Cyborg, uma das primeiras coisas que falamos nos bastidores foi sobre jiu-jitsu. “Sério que você treina na Atos? Eu treinava com o Galvão, mas o Cobrinha é mais perto para mim, então estou lá com ele hoje”, me disse ela, que é faixa marrom. No mesmo final de semana, eu disputaria um campeonato. “Boa sorte no seu campeonato”, ela me desejou, fora todas as outras dicas psicológicas que ela me deu: “É você ou ela, pensa sempre assim”.

Assim foi com Poliana Botelho, que também entrevistei esse ano. Não era antes de nenhuma luta, foi apenas uma entrevista pontual, mas falar sobre jiu-jitsu e amizades em comum, fez com que a entrevista parecesse muito mais legal. “Sim, eu treino com a Michele, treinamos agora há pouco, que menina forte”, ela me disse sobre a Michele Oliveira, da Nova União. 

Também tive a oportunidade de entrevistar a Claudinha Gadelha. Papo vai, papo vem... Ficamos meia hora no telefone (o combinado era 10 minutos) e conseguimos também falar sobre jiu-jitsu. Que ela treinava jiu-jitsu eu sabia, mas não que ela tinha começado aos 14 anos.

Decidi puxar o papo para falar sobre a tal ‘creontagem’ que todo mundo ainda insiste falar. Quando ela decidiu parar de treinar com o Dedé Pederneiras, saiu nas mídias algumas declarações dela do tipo “eu sai do Brasil, porque se fosse para outra academia dentro do país, seria chamada de creonte”.

Como toda atleta profissional, Claudinha foi em busca do crescimento, evolução e claro, dinheiro. Hoje ela treina no Instituto de Alta Performance do UFC, em Las Vegas. Destaquei muito a comparação entre Brasil e Estados Unidos, no quesito artes marciais. Ela me disse que lá, como eles estão acostumados a treinar desde sempre, há um respeito que aqui no país não temos: “No Brasil, ou você ama ou você odeia. Nos EUA, ou você ama, ou você respeita”. E isso acontece, realmente.

 “Acho que é uma coisa do jiu-jitsu mesmo, as pessoas te julgam porque você precisa honrar seu mestre por ter te ensinado o básico. Lembrando que você também botou a cara lá e treinou para caramba para conseguir aprender, você também fez muito para estar ali, e chega uma hora que você continua fazendo as mesmas coisas a vida toda, não tem como você ver resultados diferentes e chega um momento, na alta performance, que você precisa conhecer coisas diferentes”, me disse Gadelha.

Ela também relembrou que saiu da Nova União não apenas por buscar coisas novas, mas por não concordar com tudo o que era imposto na equipe e confessou que foi bem desafiador. “Foi muito difícil lidar. Eu vivi a vida toda com um time que considerava uma família, estava lá desde criança. Me tornei uma grande lutadora e pessoa ali dentro. Doeu muito por um tempo. Sair, ver a galera torcendo contra mim, me chamando de creonte e dizendo que abandonei o time. Mas eu só estava buscando a evolução, procurando melhoras”, confessou e concluiu – “As pessoas que estão dentro do time, que viram o que fiz, conseguem me entender e as que não entenderam a evolução do esporte, não conseguem me entender, infelizmente. Quem não sabe o que a gente passa, o que temos que fazer para chegar longe, acham que a gente é creonte.


Lembrando que, recentemente, Dedé Pederneiras fez uma grande mudança dentro do time e abriu a Upper Arena, no Rio de Janeiro, onde os atletas da Nova União treinam e se preparam melhor para o MMA, em um espaço maior e tudo mais. Além disso, ele também tem a intenção de abrigar projetos sociais. Uma lembrança: Claudinha foi a faixa preta mais jovem da Nova União, aos 21 anos. Hoje, ela tem dois graus.

Vendo muitas atletas migrarem do jiu-jitsu para o MMA, decidi puxar esse papo com a Amanda Nunes também. Há dois anos, escrevi quando a Gabi Garcia estava indo para o MMA, sendo que ela estava de certa forma, dominante no jiu-jitsu. Também tem a Mackenzie! Poxa... A nossa “queridinha” decidiu largar as competições do jiu-jitsu para ir ao MMA e lutou no UFC. Isso causa uma certa divisão entre sentimental e racional. Mas é preciso analisar a situação e o atleta vive disso.



É assim. O MMA hoje é de onde você tira o seu sustento. Então você acaba tendo que cortar o jiu-jitsu se você ama mesmo. Tem que deixar de lado para conseguir um dinheirinho a mais. Acho que é por isso que às vezes as meninas migram, porque você sabe, né. O financeiro é muito importante na vida de um atleta. Se o MMA está pagando mais, por que não? Fazemos o jiu-jitsu por amor e o MMA para ganhar dinheiro, me falou Amanda Nunes, caridosamente durante a entrevista que deveria ser apenas sobre o UFC 232.

 Hoje em dia, Leoa, que é faixa preta de jiu-jitsu, não tem intenção de competir nenhum esporte, mas relembra que já competiu judô e tem alguns títulos no jiu-jitsu: “Disputei jiu-jitsu a vida toda. Tenho vários títulos de campeã baiana, pan-americana, mundial... Estou muito bem realizada na minha vida como atleta” – comentou a dona do cinturão do peso-galo, e finalizou falando sobre a migração para os Estados Unidos, assim como Gadelha: “Acreditaram em mim desde quando eu era faixa branca, não era ninguém na academia... Eles olharam para mim e enxergaram algo. A oportunidade veio, agarrei e estou aqui”.

 Algo também muito criticado no Brasil, além da famosa creontagem no jiu-jitsu, é o fato de dois atletas do mesmo país se enfrentarem no MMA. Why not? A luta da Cris Cyborg e da Amanda Nunes foi muito criticada por ser entre duas compatriotas. Seria um drible do Dana White para tirar um cinturão do Brasil ou só faz mesmo parte da profissionalização do esporte?

 “O esporte é singular. Como você falou, toda hora você vê americano lutando entre si. As pessoas têm que entender que é um esporte e que vença a melhor. Se você é fã de Amanda Nunes, você é fã de Amanda Nunes. Se você é fã de Cris Cyborg, você é fã de Cris Cyborg e acabou! Qual é a história? Não tem que existir isso, ‘você vai lutar com ela não é mais brasileira’. Eu nasci onde? Para com essa conversa, pô. Não tem nada a ver, nada com nada. Estamos aqui com o mesmo objetivo. Tentando quebrar recordes, fazer história e botar nosso nome lá” – foi o que Amanda me falou quando perguntei o que ela achava sobre as pessoas criticarem o fato de duas pessoas do mesmo país se enfrentaram – “Em todo lugar é assim, as pessoas se enfrentam o tempo todo”.

 

Entre duas brasileiras: Claudia Gadelha e Jéssica Bate Estaca já se enfrentaram no UFC.
Entre duas brasileiras: Claudia Gadelha e Jéssica Bate Estaca já se enfrentaram no UFC. Jeff Bottari/Zuffa LLC

Já tive a oportunidade de lutar com Jéssica Bate Estaca em um campeonato de jiu-jitsu, na faixa azul. Hoje ela está de faixa marrom e, na época, ela estava indo muito bem nos campeonatos de jiu-jitsu, mas se dividindo entre tatame e octógono. Atualmente, Jéssica despontou no UFC e está seguindo o seu caminho.

Críticas de creontagem, críticas de brasileiros morando no exterior... Hoje o que mais tem é isso. Se nosso país não oferece o suporte que cada atleta merece, a saída é essa. Nas entrevistas que fiz no Jiu-Jitsu In Frames, com o André e Angélica Galvão, Guilherme Mendes e o Kaynan e o Hulk, quis muito falar sobre a diferença entre treinar no Brasil e no exterior, patrocínios, como é ter uma academia lá. Senti um tom de desabafo de muitos deles, inclusive do Guilherme, que em um momento, falou: “Os fãs brasileiros criticam que publicamos as coisas na social media em inglês, mas esse é nosso público hoje. Aqui foi uma oportunidade”.


O brasileiro precisa entender que há oportunidades que precisam ser agarradas. Cada um com sua profissão, cada um com sua adaptação. A luta entre Amanda Nunes e Cris Cyborg será, de fato, a maior luta feminina da história do MMA. São duas campeãs de suas categorias, duas lutadoras fortes, duas brasileiras. É inédito. Amanda pode ser a primeira a ter o cinturão de duas categorias. Sendo um drible do Dana White ou não, a questão é que o Brasil está de fato, prestes a dominar.

Ah, e para finalizar: "Eu bem que queria que você voltasse a competir jiu-jitsu, Amanda, não nos enfrentaríamos mesmo, por enquanto" - eu disse a ela; que riu por um tempo e respondeu: "Quem sabe um dia, jiu-jitsu hoje é só por amor". 

Fonte: Mayara Munhos

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Vem cá, jiu-jitsu, vamos conversar porque o ano está quase acabando

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Meu treininho para as meninas
Meu treininho para as meninas Paulo Satoshi Ono

Caramba, jiu-jitsu! Acabou o ano e passou voando. Janeiro começou insano. O Campeonato Europeu é sempre o nosso 'feliz ano novo' oficial. Ali já pudemos ver que o ano não seria fácil. Só luta dura, difícil. Da faixa azul a faixa preta, tudo muito técnico, pensado, estudado.

Enquanto isso, do lado de cá, alguns objetivos começavam a ser concretizados. Já pensou uma aula de jiu-jitsu só para mulheres liderada por você? Pois é. Creio que empoderar mulheres foi uma das missões que recebi quando vim ao mundo. Muitas coisas mudaram de uns tempos pra cá. Quando voltei a treinar jiu-jitsu, depois de seis anos parada, eu senti que as coisas tinham mudado bastante e que as mulheres precisavam estar cada vez mais confiantes para ocuparem aquela área predominantemente masculina. Muitas têm vontade, mas poucas têm coragem e, principalmente, persistência. Quando uma mulher ajuda a outra, parece que tudo fica mais fácil e leve. Dar aula para mulheres é uma missão difícil. Montar uma turma é difícil. Muitas chegam, poucas ficam... Mas nada começa no topo. Ter dado aula para meninas tem sido algo incrível e enriquecedor.


Bom, na verdade a publicação de hoje é realmente pessoal. Esse ano foi duríssimo, em todos os sentidos. Treino duro, trabalho duro, vida pessoal dura. Muitas mudanças, novas responsabilidades... Algumas vitórias, muitas derrotas. Mas de tudo, um grande aprendizado.

Esse ano veio para mostrar como o jiu-jitsu pode ser importante e ensinar em todos os âmbitos da vida. Eu admiro muito quem consegue esquecer tudo dentro do tatame; eu não consigo. Sabe quando dizem que quando estão no tatame, treinando, todos os problemas ficam do lado de fora? Eu não sei o que é isso. Costumo levar tudo dentro de mim e nem faço questão de dizer o contrário só para mostrar o quanto sou forte e durona. Vira e mexe tenho dificuldade em executar alguma posição porque estava com a cabeça em lugar nenhum. Não é dislexia ou algo do tipo (eu acho hahaha), eu só não consigo fazer algo sem ter tudo minuciosamente resolvido.

Os campeonatos foram voltando aos poucos. Eu acho que não me lembro exatamente de quantos participei, mas eu lembro dos que perdi. De todos, dois eu não medalhei. Acho que não é um número grande. Voltei a competir alguns meses depois de ter feito uma cirurgia, a primeira da minha vida. A volta é sempre difícil, mas no meu primeiro campeonato depois da cirurgia, eu finalizei minha adversária e a ouvi dizendo para a torcida: "não consegui, a pegada dela era muito forte". Justamente a pegada daquela mão operada... Então sim, eu podia. E embora não tenha sido campeã nesse dia, eu estava no caminho.

Lembro perfeitamente de quando venci. Era a II Etapa do Campeonato Paulista. Eu tenho lutado as etapas do paulista desde 2015. Eu nunca tinha levado um ouro para casa. Sabe como é bater na trave? Caramba, eu sou profissional nisso! Tantos anos e tantas etapas no "quase". Era bronze, era prata, mas não era ouro. E o ouro chegou! Era uma chave de três. Minha primeira luta eu perdi nos pontos, senti que não fiz nada. Mas tinha uma repescagem. Foi contra uma menina que eu tinha lutado no ano anterior, no meu primeiro campeonato de faixa roxa. Eu já estava cansada e desmotivada. Eu lembro de ter mandado mensagem para um dos meninos que treinava comigo e estava lá dizendo algo do tipo "sempre que chego no ginásio eu me pergunto o que estou fazendo aqui, eu realmente não sei". Lutei e finalizei, em menos de dois minutos. Naquele momento parecia que eu sabia, sim, o que estava fazendo ali. Fui para a final enfrentar a mesma menina da primeira luta. Finalizei a minha segunda luta do dia e fui campeã, depois de muito tempo tentando. 

Foi uma emoção muito grande. Eu realmente não imaginava. Na verdade eu acho que nunca acreditei. Parecia uma coisa tão longe, tão distante... E de repente eu tinha sido campeã. Achei que depois disso, tudo seria um pouco mais fácil, afinal, depois de ter sentido o gostinho do ouro e ter visto o quanto era gostoso, eu não perderia nunca mais. Magina! Parece que tudo ficou mais difícil.

Toda luta que eu entrava, os coaches das minhas adversárias já sabiam exatamente o que eu ia fazer - e eu também. Algumas vezes davam certo, mas nunca era na final. Eu perdi a etapa seguinte do paulista de uma forma que jamais deveria perder. Era meu dia e meu golpe, mas não foi. 

Nesse ano também lutei meu primeiro campeonato da CBJJ; o Brasileiro. Foi uma preparação intensa. Eu nunca tive tanto foco em alimentação e preparação física como tive para esse campeonato. Quando vi minha chave, de cara tinha uma garota duríssima. Era o peso do campeonato, o peso de dividir um dia de trabalho com um dia de campeonato e o peso de pegar uma das 'cabeças de chave'. Minha luta foi boa. Eu consegui ir melhor do que achei que iria. Perdi na primeira, mas lá foi mais um dia que me mostrou que, ainda sem ser uma atleta profissional, eu consigo me dar bem com quem é. 

Aliás, por falta de um campeonato da CBJJ, eu lutei três. O Sul-Americano foi bem parecido com o Brasileiro - desde rotina até a luta. Mas lutei também o SP Open, onde fiz a final com a campeã brasileira do leve. É daquelas que você olha na chave de pensa "ferrou", hahaha. Mas nem ferrou tanto, foi uma ótima luta e consegui subir no pódio mais uma vez. 

E tiveram outras etapas do Paulista onde consegui estar no pódio também, alguns campeonatos de fora da federação... Foi um ano daqueles em que você chega em dezembro exausta. Mas foi um ano de muitos aprendizados. Creio que esse ano foi o que mais me envolvi com o jiu-jitsu e com esportes no geral. Apesar de trabalhar numa emissora esportiva há seis anos, agora eu sou oficialmente editora do espnW.com.br e isso faz com que eu precise estar cada vez mais dentro do esporte. Antes, era só jiu-jitsu. Hoje, preciso dividir minha rotina de escrever e estudar outros esportes também.

Mas na prática... O jiu-jitsu tem se tornado cada vez mais importante na minha vida. Ele me ensina muito, não só dentro do tatame. Tudo o que aprendo lá, tenho como fazer uma analogia na minha vida aqui fora. E de tudo, uma das coisas mais especiais tem sido ensinar. Hoje na Academia Ono temos oficialmente uma turma feminina que sou instrutora. Para elas, tentei ensinar durante 2018, mas aprendi muito mais. Percebi que ensinar é uma das coisas mais difíceis e uma responsabilidade muito grande a se assumir, mas consegui tirar de mim mesma muitas coisas que eu achei não saber. Eu tenho zero dom de ensinar, mas sei que dou meu melhor para, mais do que ensinar, trazer mais meninas para o tatame. É uma tarefa difícil, de fato. A turma é pequena. Mas um dia chegamos lá!

Falta pouco menos de um mês para o ano acabar. O ano que vem será tudo igual, porém com o objetivo de melhorar. O topo do pódio nunca foi prioridade, mas continuará sendo um grande desejo. Agora é hora de tirar aquele descanso merecido, botar os objetivos num papel e correr atrás para fazer acontecer. E você, como foi seu 2018 no jiu-jitsu?

Fonte: Mayara Munhos

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No jiu-jitsu, atletas publicam mensagens de apoio a igualdade de premiação entre gêneros

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Na Califórnia, a SJJIF mais uma vez equiparou a premiação entre homens e mulheres.
Na Califórnia, a SJJIF mais uma vez equiparou a premiação entre homens e mulheres. Reprodução/Instagram @nathibjj

Muito se fala em igualdade de premiação entre homens e mulheres. Sabemos que no esporte, há muita divergência. Claro que temos que levar em consideração a quantidade de atletas que se inscrevem em competições em cada categoria, de alto nível ou não, como já escrevi neste texto para o BJJForum. Mas algo me chamou a atenção nas redes sociais. 

No último final de semana, essa foto, publicada pelo perfil da Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu (CBJJ) gerou muitos comentários questionando a diferença de premiação entre o absoluto faixa preta adulto feminino (R$1.500) e todos os pesos (separados) da faixa preta adulto masculino (R$4.000). Além disso, foi questionado o fato do o vice-campeão do masculino também receber premiação (R$1.000), diferente do feminino onde a segunda colocada não recebia premiação nenhuma e nem as categorias de peso, apenas o absoluto. 


Paralelo a isso, a Sport Jiu-Jitsu International Federation (SJJIF), federação que está entrando em cena aos poucos na Califórnia, mais uma vez ofereceu a premiação igual entre gêneros, assim como já havia acontecido anteriormente onde, a polêmica da vez, foi o fato de não ter atingido mulheres o suficiente para pagar a premiação total.


O fato é que dessa vez, além dos comentários da foto da CBJJ, dois atletas de elite se manifestaram: Rudson Matheus, faixa preta de Caio Terra Association e Mahamed Aly, atual campeão mundial faixa preta da IBJJF. Em seus stories, eles publicaram discorrendo sobre a indignação de mulheres não receberem a mesma premiação do masculino, ressaltando que elas se esforçam da mesma forma, ou até mais, segundo Aly. E Rudson também se preocupou em salientar que é muito importante que mulheres compareçam em campeonatos, porque é uma forma mais fácil e justa de cobrar. Por outro lado, ele também disse achar injusto o fato de que, usando o argumento que 'mulheres sempre estão em menor quantidade', a categoria dele tinha a mesma quantidade da categoria das mulheres e ainda assim a premiação foi maior.

Seguido a isso, Nathiely de Jesus, pentacampeã mundial e que está sempre nas cabeças de competições com ou sem premiação, ressaltou em sua conta do Instagram sobre a importância da igualdade no esporte. 



Lembrando que anteriormente, Dominyka Obelenyte já havia criado um movimento chamado "Equal Pay For BJJ" lutando pela mesma coisa. É a maior prova de que não é de hoje que estamos na luta pela igualdade.

Independente de diferença de procura, lucros ou patrocínios, o fato é que o jiu-jitsu feminino está cada vez maior e mais profissionalizado, assim como o masculino. Muitas coisas dependem de nós e outras, não. Na verdade essa publicação é para agradecer aos homens que tiveram a iniciativa de, de certa forma, entrarem na luta conosco e a intenção é que não seja uma luta exclusivamente feminina. Ela é uma luta pelo esporte e pela sua profissionalização, de todos. Quanto mais aderirem, mais seremos ouvidas. Atitudes como a de Rudson fazem valer a palavra ainda mais, por ser um atleta homem e se importar também com o desenvolvimento feminino e do esporte no geral. (Quando é só mulher falando, infelizmente recebemos comentários de que é só 'mimimi').

Não podemos deixar a luta acabar. Sabemos que o caminho é longo, mas contar com o apoio e ser ouvida é fundamental. 

Fonte: Mayara Munhos

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No jiu-jitsu, atletas publicam mensagens de apoio a igualdade de premiação entre gêneros

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Mulheres que lutam na divisão máster compartilham experiências de lutar contra adultos por falta de categoria no jiu-jitsu

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Másters em ação!
Másters em ação! Lisa Albon

Em março desse ano, escrevi sobre o Pan-Americano de Jiu-Jitsu. Karen Peters e seu professor, Carlos Melo, criaram uma petição para que as divisões de máster feminino fossem iguais às do masculino, indo de 1 a 7. O abaixo-assinado tem dado certo, tendo em vista que competições seguintes começaram a incluir o “pós máster 1” feminino nas inscrições.  


Pensando nisso, conversei com algumas mulheres que vivem isso na pele para saber a experiência de ter que sair do conforto de sua categoria para lutarem em outras por falta de opção, ou até mesmo de oponentes. No grupo do Facebook de Karen, “BJJ Master Woman”, algumas me responderam.

Madelein Larson Wollnik, faixa azul de 46 anos da Suécia contou ter participado de cinco competições apenas na categoria adulto: “Eu nunca competi no máster porque não tem ninguém da minha idade”. Quase a mesma situação de Nikki May, faixa azul de 44 anos, que treina na Rivers BJJ do Kansas: “Não sei como é competir no máster porque não temos mulheres geralmente. Eu me inscrevo, mas nunca tiveram pessoas o suficiente”.

Samanta Fonseca, faixa azul, fundadora do BJJ Girls Mag e atleta da Brotherhood, está em seu primeiro ano de máster e nunca teve problemas de falta de luta. Para ela, a maior diferença entre as categorias é a força. Por outro lado, ela reconhece que em alguns campeonatos menores, as mulheres mais velhas têm outras prioridades: “Acho que em muitos torneios, tem aquelas mulheres que tem filhos, treinam duas, três vezes na semana, não tem tempo de fazer preparação física... Mas para os campeonatos maiores, percebi que elas são mais fortes, mas tem menos mobilidade. Lutar nos dois é difícil” – disse Samanta, que completou – “O que tem que saber é que no adulto talvez você se movimente mais e no máster, talvez faça mais força”.

Gwen Blanken é uma faixa branca da Stockholm BJJ Club Center da Suécia. Ela contou que compete tanto no máster como no adulto. “No adulto, por não ter escolha ou não ter mulheres o suficiente para o máster” – conta Gwen. Master 3, Blanken diz que sente muita dificuldade principalmente quando a diferença de idade entre ela e as adultas é muito grande: “Elas são muito rápidas, mais bem preparadas, flexíveis, mais fortes e muito mais agressivas” – disse, e completou dizendo também que se sente muito melhor lutando em sua divisão.

 Por falta de opção, Agnheszka Sy, faixa azul de 35 anos da Jungle BJJ (República Tcheca), competiu durante cinco anos como adulto e sempre teve que descer de categoria por conta de falta de oponentes. Nas últimas competições, ela lutou como máster 1, que é sua categoria, sempre indo nos torneios e lutando com e sem kimono. “Eu cheguei a lutar seis vezes em um campeonato” – disse Agnheszka. A opção de parar de lutar como adulto deu-se por perceber que não conseguia mais acompanhar o ritmo das oponentes: “A experiência me ajudava no início da luta, mas nos últimos dois minutos, parecia que eu não estava mais lá” – disse. Ela também contou que se sentiu muito derrotada pela idade e teve muita dificuldade em aceitar a mudança. “O período de recuperação depois dos 30 anos começou a ficar mais longo e isso não ajudava em nada meu humor. Não consegui mais treinar todos os dias. Lidei com isso fazendo algo que nunca pensei que precisaria: escolher com quem ia treinar” – desabafou a atleta. Hoje ela disse que apesar de ter demorado meses para aceitar tudo, ela se sente bem e treina menos focada em competir.

Atleta da Saber BJJ da Austrália, Libby Chick, faixa branca de 47 anos, conta que quando vai a competições locais, ela luta contra oponentes mais jovens que os próprios filhos. “Às vezes eu reluto para não participar de competições onde sei que vou ter 25 anos a mais que minhas adversárias” – disse Libby, que nunca competiu na categoria máster e confessa que é difícil pagar competições que exigem que ela se desloque muito de sua cidade natal. Mas o desejo de competir na divisão certa está dentro de si: “Seria incrível poder me testar contra mulheres mais próximas da minha idade”.

Dolonna Brush é faixa azul e máster 4. Aos 51 anos, ela treina na Gracie Humaita de Temecula, Califórnia. Ela começou a competir no ano passado, logo quando completou 50 anos e dos sete torneios em que participou, cinco ela competiu no máster 1. “Pela minha experiência, há uma enorme diferença em força e velocidade, e é por essa razão que os homens têm categorias separadas” – contou Brush. Ela destaca que faz isso por amor ao esporte e acredita que a competição é uma ótima forma de se testar e é isso o que a dá forças, interna e externamente, para continuar competindo, mas relembra: “Se minha filha competisse, estaríamos na mesma categoria”.

E apesar de tantas queixas, a faixa azul de 56 anos Ann Mullen, que treina na academia Yamasaki em Maryland, confessou sentir mais medo de pessoas grandes do que jovens por conta de seu peso e tamanho. Ela, que compete no adulto ou máster 1, destacou que as meninas a respeitam, não a tratando como uma “velha senhora” e contou que “eu não luto com e sem kimono no mesmo dia porque não me recupero tão rápido, e a diferença que mais noto é realmente em recuperação e força”. Por outro lado, ela destacou também que se sente mais experiente por ter competido a vida toda: “Em alguns casos, sinto que estou mais calma que minhas adversárias mais jovens”. Outro destaque de Mullen é que a forma que os mais velhos levam a competição é diferente, e ela completa: “Não me entendam mal; nós, másters, levamos a sério a competição, mas a perspectiva é diferente”.

Seja por falta de atletas ou por falta de subdivisão de categorias, o que mais importa é que muitas das mulheres continuam – literalmente – na luta e que a IBJJF viu que há sim como dividir melhor as categorias femininas, ainda que com menos mulheres, apenas para que elas possam competir pelo prazer de lutarem de igual para igual. E certamente, o trabalho de Karen tem sido um grande responsável pelas conquistas.

Termino o texto com essa imagem. Antes, entrávamos no site da IBJJF e víamos tabelas separadas para homens e mulheres. A dos homens, ia de fato até o máster 7. A das mulheres, até o máster 1. Hoje, a maioria dos campeonatos no site tem uma “tabela unificada”, exatamente como na foto, “Male and Female”. O jiu-jitsu é gigante. O jiu-jitsu é para todos!


No Campeonato Mundial sem kimono da IBJJF, as categorias para homens e mulheres estão iguais
No Campeonato Mundial sem kimono da IBJJF, as categorias para homens e mulheres estão iguais IBJJF


Fonte: Mayara Munhos

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Mulheres que lutam na divisão máster compartilham experiências de lutar contra adultos por falta de categoria no jiu-jitsu

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'Apanhou do namorado?' não devia ser uma pergunta normal

Mayara Munhos
Mayara Munhos
A taxa de feminicídio no Brasil é a quinta maior do mundo
A taxa de feminicídio no Brasil é a quinta maior do mundo Getty Images


Esses dias, fui dar uma palestra sobre "Mulheres no esporte" e fiquei pensando em coisas legais (e nem tão legais assim) que eu podia contar em relação ao jiu-jitsu. Fiquei até criando na minha mente algumas perguntas e como podia responde-las (sim, sou dessas). Cheguei a algo que me fez refletir um pouco e achei que daria um texto. 

Nós do jiu-jitsu aparecemos diariamente com roxos pelo corpo. Alguns visíveis, outros não. E quando são visíveis, as pessoas fazem algumas perguntas "normais". Mas há uma pergunta que é sempre a primeira e é feita com frequência, de forma natural, como se fosse algo recorrente - e talvez realmente seja, a gente só não sabe.

"Que roxo é esse? Apanhou do namorado?". Isso sempre me incomodou, mas nunca a ponto de parar para refletir no poder dessa frase. Parece que a coisa é tão normal, que é perguntada assim, como se, caso a resposta venha de forma positiva, e vida que segue. E se eu digo que "sim, apanhei"? Será mesmo que devia ser a primeira coisa a passar na cabeça das pessoas quando veem alguma mulher do jiu-jitsu com hematomas? 


Em números, a violência contra mulher é assustadora: em média, doze mulheres são assassinadas diariamente no Brasil. Significa que uma mulher é assassinada no nosso país a cada duas horas. Segundo o Ministério de Direitos Humanos (MDH), administrador da Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, o Ligue 180, no primeiro semestre de 2018, foram registrados 72.839 denúncias de violência contra a mulher. Comparando com o número total de 2017 (156.839 denúncias), o governo destaca que houve aumento de denúncias em alguns casos, como homicídio e violência sexual. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o quinto país com maior taxa de feminicídio do mundo: são registrados oito casos por dia no país.

Segundo o MDH, foram registrados: 2.611 casos de homicídio, 102 de tráfico de pessoas, 3.381 de violência moral, 1.447 de violência patrimonial, 24.378 de violência psicológica, 2.611 de cárcere privado, 5.978 de violência sexual, 40 de violência obstétrica, 3 casos de assédio no esporte e 34 mil casos de violência física.


Ou seja, há um bom motivo que leve as pessoas a perguntar se os roxos pelo corpo de alguém que treine jiu-jitsu é por ter apanhado do namorado. Mas de fato, não devia ser algo normal. A Lei Maria da Penha foi criada há 12 anos e visa proteger a mulher de todo e qualquer tipo de violência. A criação da lei se deu após a cearense Maria da Penha Maia Fernandes ter sofrido agressões do ex-marido durante 23 anos e, após uma tentativa de assassinato, ter ficado paraplégica.

No caso de Maria da Penha, ela não tinha meios para protegê-la. Mas hoje nós temos. E quando mais for falado, mais mulheres serão encorajadas a falar. Muito se fala que a violência contra a mulher e o feminicídio cresceu de uns tempos pra cá. A verdade é que talvez ele não tenha crescido, só tenha ficado mais "normal" falar sobre isso, já que hoje temos uma lei que deve nos proteger e também, porque temos outras mulheres falando sobre o assunto.

A representatividade aqui é algo muito importante, porque a partir do momento em que você afirma ter sofrido violência, independente do caráter, você estará encorajando outras mulheres a falarem também. Claro que é algo difícil de ser dito, mexe com o psicológico, dá medo, preocupa... Mas deve ser falado.

"Apanhou do namorado" definitivamente não devia ser uma pergunta normal. Um roxo pelo corpo não devia remeter a violência física sofrida por um companheiro. E isso não é uma brincadeira.

Em caso de violência, não exite em denunciar. O número é 180. Você não está sozinha! 


Fonte: Mayara Munhos

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