Assédio nos tatames (parte 2): A culpa não é da mulher

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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"Relembrar esse fato me deixa angustiada, mas vi nessa reportagem a oportunidade de lidar ou digerir melhor essa história. Há mais ou menos 2 anos, em um dia de treino, estavam eu e meus dois instrutores faixa roxa fazendo uma aula. Quando um deles me imobilizou durante o rola e chamou o segundo, que se aproximou e aproveitando que meu kimono estava todo fora do lugar – pois eu estava rolando – levantou minha blusa e passou a mão pela minha barriga várias vezes e começaram a dar risada. Aí eu comecei a gritar (…) Eles pararam quando viram o meu desespero. Na hora e nos dias seguintes, eu só conseguia me sentir suja e culpada (chorei muito). Na minha cabeça, eu pensava “a culpa deve ser minha, porque eu devo ter dado espaço pra eles fazerem isso”, mas também pensava ter sido só uma brincadeira (…) Hoje, eles mudaram de equipe e não nos vemos mais. Espero que nenhuma outra mulher passe por isso nos tatames, ou se passar não deixe barato, fale com seu mestre, denuncie. Na época eu não falei nada, pois tinha medo do julgamento das pessoas ou do meu mestre achar que eu estava reclamando de uma brincadeira (…)."

É com esse depoimento deprimente que dou início ao texto desta semana. As mulheres se sentem realmente culpadas. Não se esqueça que estamos juntas! E não é porque você é sorridente e simpática que você está dando mole. Sendo assim, por favor, não se culpem. A culpa é do agressor. Nossa postura não deve mudar por termos sido assediadas, ele é quem deve ser colocado em seu devido lugar. E isso, independentemente do jiu-jitsu, serve para a vida.

"Algumas vezes treinava com esse indivíduo, normalmente quando ele me chamava. Por ser mais graduado, ele aproveitava para passar a mão em mim, nas partes mais íntimas. Sem graça, eu não sabia o que fazer já que ele era faixa preta. Um dia enquanto lutávamos, ele colocou, de novo, a mão na minha intimidade, mas nesse dia eu decidi fazer algo e coloquei o joelho na sua virilha, pressionando. Na hora ele se assustou e pediu pra eu tirar, falei que só tiraria se ele tirasse a mão, desde de então ele não fez mais nada comigo e não sofri isso com mais ninguém. O que mais me chocou foi quando uma amiga me chamou falando que sofreu a mesma coisa, com a mesma pessoa. (…)"

Sabemos que é muito difícil reagir. Muitas meninas disseram ter parado de treinar por trauma e, se já temos poucas delas dominando os tatames, imagine se elas começarem a desistir dessa maneira?

Também há algumas mulheres que afirmaram não terem sofrido assédio por namorarem ou serem casadas. Isso é algo complicado, mas gostaria de aproveitar o espaço para dizer: não existe essa de não ser solteira. E o fato de você ser ou não solteira não quer dizer nada. Então significa que se formos solteiras, tudo bem sermos assediadas? Fica a reflexão!

Frases como “mulher de amigo meu, pra mim, é homem” tão comuns e tratadas como normais só reforçam a ideia de que um homem só respeita outro homem. Embora isso signifique que as mulheres compromissadas do tatame sejam mais respeitadas que as outras, devemos lembrar a esse tipo de assediador que mesmo as solteiras não são território livre. O respeito ao nosso relacionamento deve, sim, existir, mas acima de tudo, somos primeiro nós mesmas e devemos ser respeitadas com ou sem uma figura masculina que nos represente.

"Ele me chamou para rolar. Era mais graduado e a academia estava recebendo um atleta profissional para quem as atenções estavam voltadas. Durante o rola ele começou a fazer uns movimentos estranhos, ficava em cima de mim e me encoxava, mas eu demorei pra perceber o assédio, só percebi quando ele ficou esfregando a mão em um dos meus seios como se tivesse tentando me excitar. Eu fiquei paralisada durante um momento, depois tirei a mão dele e me afastei. Me encolhi em um canto e ele falou “foi mal”. Eu fiquei atordoada até chegar em casa, e quando cheguei entrei em crise e liguei pra uma amiga, comecei a chorar e relatar o ocorrido. Depois disso desenvolvi uma fobia e nunca mais aguentei ficar por baixo na posição dos cem quilos. Não saí da academia, porque comecei a namorar e não queria que ele descobrisse. Também notei que com o meu namoro comecei a ser mais respeitada por todos os meninos. Não sei se sofreria algum outro assédio se tivesse continuado solteira, mas tive a impressão de que o tatame se tornou seguro de novo porque respeitavam o meu namorado, não a mim."

Garotas: coloquem de uma vez por todas na cabeça de vocês que a culpa não é, nunca foi e nem será nossa. A frase mais recorrente nesse assunto é: “Ah, mas ela estava pedindo”. Você estava pedindo para ser assediada quando saiu na rua com um shorts um pouco mais curto ou saiu unicamente porque foi sua escolha? Você estava pedindo quando cumprimentou um amigo com beijo no rosto e um abraço? Então… Estava pedindo o quê? Por favor, não se culpe, lembre-se de que você precisa ser respeitada independente da sua roupa ou das suas atitudes, isso vale dentro e fora do tatame.

Depois de ter soltado o primeiro postmuitas pessoas falaram que as meninas vão treinar com roupas “chamativas”. No jiu-jitsu, usamos kimono; por baixo da calça um shorts/calça legging e em cima, um top e uma camiseta/rash guard (ou lycra). Os homens treinam muitas vezes sem camiseta (na verdade, sem shorts também) e algumas meninas usam só o top.  Isso é outra coisa que causa certa “polêmica”, já que o top não é considerado seguro. Algumas academias, inclusive, proíbem o uso só de top, bem como o não uso de camiseta pelos homens.

Mas, conforme eu já falei aqui sobre a rivalidade feminina dentro dos tatames, precisamos parar e pensar algumas coisas. A primeira dela é: a menina já treinou alguma vez? Caso não, ou caso esteja só no início, ela não sabe muito bem como funcionam as movimentações e, sendo assim, cabe ao mestre e aos colegas de treino a orientarem. Já aconteceu caso de menina me perguntar se tudo bem treinar de sutiã por baixo, mas que culpa ela tinha se nunca havia pisado num tatame? Não custa orientar. Além do mais, muitas meninas realmente sentem-se confortáveis em treinar só de top. No verão é difícil, né gente? Não é só porque uma menina está de top que ela está se mostrando.

Se existem casos isolados? Claro, como em todo lugar. Mas, como já dito lá em cima, é algo que vai além dos tatames. Mas aqui vai uma diferença: já perceberam que quando uma mulher chega para treinar para “caçar macho” como dizem por aí, ela é tão julgada que acaba parando de treinar? Isso acontece porque o jiu-jitsu simplesmente não dá espaço para esse tipo de coisa acontecer, dependendo do lado, já que quando o homem se aproveita das poucas mulheres que aparecem para treinar, ou é ignorado, ou conta vantagem para os amigos. Mas muitas equipes de respeito tomam duras decisões em relação a isso. É importante reforçar: conheça sempre seu local de treino. A figura do mestre conta muito na hora do apuro.

E para lembrar eternamente: a culpa sempre será do agressor e, se trouxermos a culpa para nós, os agressores nunca deixarão de existir.

Semana que vem tem mais.

Agradecimento: Pamella Costa Almeida

Fonte: Mayara Munhos

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Prepare-se para o primeiro campeonato feminino de jiu-jitsu de São Paulo

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Muito se fala sobre eventos só para mulheres e, de fato, ultimamente, a procura vem aumentado muito. 

Por conta disso, temos muitos treinões e seminários, por exemplo, que são destinados apenas para mulher. Muita gente acredita ser segregação, mas na verdade é uma forma de atrair a mulherada para treinar e aderir ao esporte, uma vez que muitas delas têm receio de treinar por se assustarem ao ver aquele monte de marmanjo no tatame. Sendo assim, a iniciativa de um campeonato feminino é super válida e promete ser um sucesso.

Foi pensando nisso que a LMK Eventos teve a iniciativa de criar um campeonato só para nós, mulheres.

Então, anota aí que ainda dá tempo.

Quando? Dia 22 de outubro de 2017 (domingo)
Onde?  Na Unítalo, em Santo Amaro. O endereço é Avenida João Dias, 2046.
E as inscrições? Vão até dia 17 de outubro e pode ser feita pelo site Sou Competidor.

As categorias vão de mirim a master e terá peso e absoluto, sendo que o absoluto será dividido entre leve e pesado. E o melhor: com premiação em dinheiro! Para a premiação ser 100% validada, é preciso que o absoluto conte com mais de oito atletas e, caso o número seja inferior, será pago 50% do prêmio.

As premiações serão kimono para o absoluto juvenil, tanto faixa azul quanto branca. Para o adulto faixa branca, R$300. Adulto faixa azul, R$400. Adulto faixa roxa, R$500. E para faixa marrom e preta, que lutam juntas, a premiação é de R$700.

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Além disso, o evento contará com a presença da atleta faixa preta Bianca Basílio,  que você pode conhecer melhor clicando aqui, relembrando nossa série sobre ela.

A entrada para o público custa R$5.

É uma ótima oportunidade de mostrar o que é o jiu-jitsu feminino.

Preparadas? Então corre lá para se inscrever!

O campeonato tem apoio total do BJJ Girls Mag

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Veja o que rolou no primeiro camp do BJJ Mums, evento de jiu-jitsu que reúne mães e filhos

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Lembram que eu falei aqui sobre o BJJ Mums? Prometi que voltaria a falar quando acontecesse o camp. E então, com um pequeno delay devido a cirurgia que tive que me submeter (BJJ problems detected: tive que operar o dedo da mão, mas vou falar um dia com calma sobre isso), venho aqui contar como foi.

Dos dias 25 a 27 de agosto, foi disputado na Alemanha o Primeiro Camp BJJ Mums, em que se reuniram as mamães do jiu-jitsu e suas crianças, organizado por Ana Yagües. Voltei a conversar com ela, que me contou que o camp era limitado entre 10 e 12 mães e suas crianças. 

O número foi baixo porque era a primeira vez e serviria como um teste, para manter o controle. Infelizmente nem todas foram, mas deu tudo certo. Algumas mães tiveram contratempos familiares ou crianças doentes, mas no fim elas foram em seis alunas e duas professoras. "Foi acolhedor. Grandes projetos começam pequenos e precisamos começar de algum lugar. Tivemos um ótimo tempo juntas!", contou Ana.

As crianças brincando enquanto suas mães treinavam.
As crianças brincando enquanto suas mães treinavam. BJJ Mums

Acompanhando as redes sociais do BJJ Mums, eu percebi que umas semanas antes, o camp também foi aberto aos pais. Como isso é algo que pode causar certa polêmica, já que o próprio nome contradiz a aceitação dos pais, perguntei a Ana o motivo e ela me contou que foi surpreendida com alguns pais demonstrando interesse e ela negou. "A partir do momento que eu já tinha feito inscrições de algumas mães, eu precisava ser fiel ao que vendi."

"Porém, quando mais pais perguntaram, eu pensei que se as mães topassem, eu também toparia. Então, enviei um e-mail para todas as participantes, perguntando as opiniões. Todas elas concordaram. Então, eu abri para os pais também. Mas ficou muito tarde para que eles se planejassem, comprassem passagens e tudo mais. Então, ninguém veio. Mas eles estão interessados nos próximos. Eu vou permitir que os pais participem desde o início. Eu acho que não tem uma razão ao qual devemos discriminá-los por quererem passar um longo final de semana com seus filhos e com outros lutadores"

Em relação ao planejamento, a mãe disse que ocorreu tudo como planejado e que, com sua experiência em organizar esse tipo de treino, ela fez de tudo para que as mães ficassem tranquilas em relação aos seus filhos.

Ana disse que aprendeu muitas coisas boas com esse camp e que usou o método de treinamento com mães e filhos juntos, para estreitarem os laços, colocando o jiu-jitsu como jogo, e não como esporte.

"Essa dinâmica funciona muito bem para crianças acima dos quatro anos, se elas estiverem acostumadas ao tatame, como minha filha. No entanto, percebemos que crianças abaixo dos quatro anos, se não estiverem acostumadas ao tatame, não têm concentração e terminam brincando ou correndo e as mães correndo atrás delas depois. Bom, isso também é um tipo de esporte, mas não era o que pretendíamos. Então, nós precisaremos mudar da próxima vez e formar dois grupos com diferentes tipos de exercício" 

Mãe e filha <3
Mãe e filha <3 BJJ Mums

Ana também disse que o próximo camp será na primavera, mas que ainda não tem data definida. Porém, já tem algumas boas estratégias para trazer mais mães. Este evento foi próximo a dois outros importantes: O World Masters, em Las Vegas, e as férias de verão. E isso fez com que algumas mães precisassem escolher. Por conta disso, ela pretende fazer o próximo em algum feriado mais curto e longe de competições.

A idealizadora terminou dizendo estar muito satisfeita com o evento como um todo. "Nós aprendemos muitas coisas e vamos fazer melhor da próxima vez, mas, de imediato, tudo correu muito bem." Também disse que os treinos foram ótimos e que as mães aprenderam muito sobre o jiu-jitsu e outras coisas e que o objetivo para que elas ficassem tranquilas no treino enquanto suas crianças brincavam fora do tatame foi atingido.

"Elas estavam focadas no seu treino enquanto as crianças estavam sendo cuidadas. Muitas dessas mulheres não contam com ajuda em casa e para elas, poder treinar durante uma hora e meia, com professoras faixas pretas, sem suas crianças em volta é um luxo que elas gostaram muito. E, também, as crianças tiveram muita diversão. Elas fizeram novas amizades e essas amizades são especiais porque elas estavam com outras crianças que também estão acostumadas a estar na academia com seus pais durante o treino sem outras crianças junto. Elas tiveram um laço especial. Todas as crianças levam o mesmo estilo de vida. Minhas filhas ficaram muito felizes. E então, eu acho que todas as outras crianças que participaram também ficaram"

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A sociedade se esquece que nós, mulheres, temos muitas responsabilidades "a mais" e que, por conta disso, temos que abrir mão da maternidade para nos dedicarmos a outros objetivos. Infelizmente, somos subjugadas por isso ou então quando simplesmente expressamos o desejo de não termos filhos. As pessoas nos olham como se não tivéssemos coração porque a sociedade impõe que, obrigatoriamente, a mulher tem que ter o desejo de ser mãe, mas se esquecem de tudo o que vem por trás de uma maternidade. 

Falando além do esporte, quantas mulheres já deixaram de ser promovidas a um cargo maior dentro de sua empresa por terem sido mães?! Ou quantas simplesmente não foram contratadas porque, como são mulheres, podem ser mães e, ao serem mães, elas precisam de uma licença maternidade e aí, o que o empregador vai fazer?

Dentro do esporte é a mesma coisa. Muitas atletas profissionais (ou não) acabam postergando o desejo de ser mãe por terem outros objetivos na frente. E isso não é pecado nenhum, são apenas objetivos doas quais pais não precisam abrir mão para terem seus filhos.

Que o BJJ Mums sirva de exemplo para que outros eventos assim sejam criados no mundo todo. É muito importante que as mães levem consigo um tempo só seu, ainda que com sua criança junto, de alguma maneira diferente. E também é muito importante que os lugarem deem suporte para quem precisa estar com sua criança o tempo todo.

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Veja como foi a participação das mulheres no ADCC, maior campeonato de luta agarrada do mundo

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Neste final de semana, aconteceu em Helsinque, na Finlândia o maior campeonato de luta agarrada do mundo: ADCC. O Abu Dhabi Combat Club acontece a cada dois anos e reúne os melhores grapplers do mundo. Dentre eles, podemos ter a honra de ver grandes lutadores de jiu-jitsu em ação.

Neste ano, tivemos algumas surpresas. Começando pela categoria até 60kg, Mackenzie Dern, atual campeã, foi derrotada pela explosiva Elvira Karppinen por 4x2 logo na primeira luta. Elvira resistiu ao experiente estrangulamento de Kenzie e avançou.

Enquanto isso, rolava um duelo entre Bianca Basílio e Talita Alencar. O confronto não deixou dúvidas da boa fase que ambas as atletas estão vivendo, com nenhuma delas deixando de atacar em nenhum momento. A luta terminou empatada e Basílio levou por decisão.

Também se enfrentaram a veterana Michelle Nicolini e Rikako Yuasa. Com muitas tentativas de ataque de Michelle, o confronto terminou empatado e a vitória foi dada a Nicolini, depois do tempo extra.

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Uma das favoritas, Bia Mesquita enfrentou Ffion Davis e mostrou que realmente sua preparação tem valido a pena, finalizando Davis num arm lock, faltando 5 minutos para o final.

Nas quartas de final, Elvira enfrentou Bia Basílio em uma luta de tirar o fôlego. As duas estavam on fire. Elvira tentou encaixar uma chave de pé quase certeira em Bia, que não se rendeu e conseguiu se livrar. 

A finlandesa não se intimidou e voltou com tudo, atacando o tempo todo, e a luta acabou contando com o tempo extra de cinco minutos, quando Bia começou mais ofensiva e entrou com uma queda de cara, já buscando as costas, mas Karppinen conseguiu se desvecilhar, entrou na guarda de Bia e foi para o pé novamente. 

Dessa vez parecia que Bia ia desistir e ela ameaçou bater, mas continuou. O combate terminou com Bia tentando encaixar uma kimura dentro de um triângulo e a vitória foi dela por decisão.

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Nicolini enfrentou Mesquita pela outra vaga na final em uma luta muito bem estudada. Faltando pouco menos de 5 minutos para o fim, Mesquita mais uma vez conseguiu a finalização, em uma chave de pé, e garantiu sua vaga na final.

Nicolini enfrentou Elvira na disputa de terceiro lugar e ficou com o bronze após derrotar e finlandesa por 3 a 0.


Novamente, Bia Basílio e Bia Mesquita se enfrentaram. Depois do Campeonato Brasileiro e Abu Dhabi World Pro, era a chance de Basílio sair finalmente com a vitória, mas era o dia de Mesquita, novamente. 

Em uma luta que demorou muito para ir ao chão, a atleta da Gracie Humaita conseguiu um queda e fechou um triângulo nas costas de Basílio, que lhe garantiu três pontos. Faltando pouco mais de um minuto para o fim, Mesquita finalizou Basílio num mata leão e garantiu o ouro da categoria.

Já na categoria  acima de 60kg, tivemos a presença de Gabi Garcia, que tem uma história incrivel de ADCC e você pode relembrar aqui. Sua primeira luta foi contra Amanda Santana, em que já começou dando muita pressão e finalizando a oponente em menos de um minuto com uma americana de pé.

Também se enfrentaram Jéssica Flowers e Marysia Malyjasiak. Num erro de Marysia, Jéssica conseguiu encaixar um arm lock com dois minutos e meio de luta.

Talita Treta também estava presente e venceu Venla Luukkonen por 2 a 0 em uma luta de muita pressão dos dois lados. O embate foi decidida no overtime.

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Tara White foi derrotada por Samantha Cook, também após levarem a luta para o tempo extra. O placar terminou em 3 a 0 para Samantha.

As semifinais foram entre Gabi Garcia e Jéssica Flowers, em que Gabi venceu por 2 a 0. Do outro lado, Talita Treta enfrentou Samantha Cook e garantiu sua vaga na final após vencer Samantha no overtime, por decisão dos juízes.

A disputa de terceiro lugar entre Jéssica e Samantha ficou com Jéssica, que garantiu seus dois pontos para a vitória.

A final entre as veteranas Talita Treta e Gabi Garcia foi rápida. Gabi venceu Talita em apenas 1min20, com uma kimura, e garantiu seu terceiro título. Talita foi até o final, mesmo estando focada no MMA e com algumas lesões.        

Agora basta esperar mais dois anos para vermos essas feras brilharem novamente. Mas calma, ainda tem um monte de seletiva vindo por aí. Já sabem suas apostas?

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Sabia que o crossfit pode ajudar quem pratica Jiu-jitsu?

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Uma dupla que muitas pessoas criticam, mas que dá certo!

Você sabia que o Crossfit, atrelado ao Jiu-jitsu, pode trazer grandes benefícios? 

Muitas vezes, é difícil explicar como alguns movimentos do cross são, de fato, usados durante uma luta de jiu-jitsu. Pensando nisso, fui até a Crossfit Voraz para conversar com o Head Coach Thiago Almeida, que selecionou alguns movimentos que, claramente, usamos nas duas modalidades. Ele contou também um pouquinho sobre como um esporte pode completar o outro.

Crossfit Voraz: Rua Dr. Baeta Neves, 20. São Bernardo do Campo
Academia Ono
: Rua Maranhão 366, São Caetano do Sul
Predator MMA
Imagens: Renato Corrêa

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Ela era 'guitar hero', ficou famosa em reality show, teve duas filhas e conquistou faixa preta no jiu-jitsu

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Manu com os pais cascas grossas.
Manu com os pais cascas grossas. Arquivo pessoal

Sabem a Syang? Guitarrista, participante da Casa dos Artistas em 2002... Pois bem, ela é faixa preta de jiu-jitsu. E eu conversei com ela para conhecer sua história e entender como é conciliar a música com o tatame.

Syang começou sua vida na música bem cedo. Já aos oito anos tocava piano, mas um tempo depois ganhou um violão. Seu sonho era tocar guitarra. "Essa história é velha", relembra, rindo - "meu pai não me deixava tocar guitarra porque dizia que era coisa de sapatão. Meu avô e minha mãe me levavam escondidos às aulas de violão". 

E então, perceberam que ela estava curtindo e a presentearam com uma guitarra. Foi quando ela começou a tocar, aos 12 anos. Com 17, gravou seu primeiro disco com a banda 'Detrito Federal', pela gravadora Poligram. Ficou bastante tempo tocando com o grupo e, em seguida, criou uma banda feminina, chamada 'Autópsia'. Mas foi com a 'P.U.S.' que fez mais sucesso e na qual passou mais tempo.

"Entrei para o P.U.S. e toquei 12 anos. Era uma banda de metal pesada. Gravamos seis ou sete discos, nos lançamos até no Japão. E aí foi minha maior trajetória na música. Eu passei a fazer bastante coisa na MTV, chamavam a gente sempre pra tocar. Eu tocava ao vivo com  Skank, Chico Science, Jota Quest... Eu sempre estava no meio como guitarrista mulher, que era diferenciado, né."

Syang em sua época de banda.
Syang em sua época de banda. []

Depois do P.U.S., Syang lançou sua carreira solo e seu disco pela Warner. Então, passou a fazer muitos shows, tocou no Rock in Rio e entrou para a Casa dos Artistas, que a tornou conhecida além da música. "Eu já era famosa no mundo underground", conta. "Todo mundo se conhece, é igual no jiu-jitsu (risos)". 

Mas paralelamente, a guitarrista sempre teve sua história com o esporte. Seu pai era jogador profissional de futebol em um dos maiores times de Brasília e sua mãe era atleta de saltos ornamentais. Por conta disso, sempre carregou o DNA esportivo dentro de si e sempre competiu em diferentes modalidades, desde criança. 

"Um dos meus sonhos, mesmo novinha, era fazer Kung Fu. Achava o máximo, sempre quis um kimono. E com o tempo, comecei a treinar boxe, logo que sai da Casa dos Artistas. Fiz quatro anos de boxe na Companhia Atlética, treinei com o Cebola e foi nessa época que eu conheci o Portuga (Eduardo Santoro). Ele treinava jiu-jitsu do lado, no mesmo horário que eu treinava boxe. E a gente sempre se cruzava, começamos a nos paquerar, nos olhar..."

Syang e seu marido, Eduardo Santoro
Syang e seu marido, Eduardo Santoro Arquivo pessoal

E aí começou sua história: com o jiu-jitsu e com o seu marido, o faixa preta Eduardo Santoro, ou Portuga, para quem conhece a fera. Um dia, depois de tantos olhares entre tatames e ringues, Syang e Portuga trocaram telefone na musculação, combinaram de sair e, desde então, não se largaram mais. E isso faz 13 anos.

"Quando a gente começou a namorar, eu lembro que o Du saiu do lugar que ele dava aula há muito tempo e a gente foi procurar uma academia nova pra ele dar aula, em Moema. Aí, quando achamos, tinha poucos alunos e ele falou 'pô, vem treinar comigo'. E eu já era louca pra treinar jiu-jitsu. Mas era sempre só homem e eu não sabia como chegar. Inclusive namorando com ele, lembro do meu primeiro treino: eu não tinha kimono ainda e eu falava 'que roupa eu vou?'. Aí ele falava: 'ah, bota uma calça de treino, blusa... Como se fosse fazer capoeira'. Me troquei e fiquei muito sem graça de entrar no tatame primeira vez. Mas me apaixonei pelo jiu-jitsu e nunca mais parei. Comprei kimono e, agora, sou aluna dele desde a faixa branca, há 12 anos."

Syang parou por dois anos, para ter as filhas Manu e, dois anos depois, Nina. 

Em outubro de 2016, recebeu sua faixa preta. Hoje, ela e sua família moram em Redondo Beach, na Califórnia, onde foram para abrir uma academia, que funciona há oito meses e está indo super bem. "Estamos com sessenta alunos e muitas crianças. Estou com uma turma feminina bem bacana e, aos poucos, fui trocando a música pelo jiu-jitsu."

Antes de ir para os Estados Unidos, Syang fazia muitos shows. Durante três anos, tocou com uma banda de sertanejo/rock, em que fazia participações especiais no meio do show, tocando rocks famosos. "Era muito legal", disse. "Fiquei uns três anos fazendo show todo final de semana e viajei bastante, mas era algo que me deixava muito cansada". Chegava em casa sempre de madrugada e suas pequenas acordavam cedo. Acabava ficando muito cansada e, por já estar muito inserida no meio do esporte, deixou a vida musical de lado.

Time feminino da Syang - ESJJ.
Time feminino da Syang - ESJJ. []

"Nós já tínhamos nossa academia aqui no Brasil há quatro anos. Nossa equipe é a Excellence School of Jiu-Jitsu (ESJJ), fica na Chácara Santo Antonio. Eu já dava aula pra mulheres, crianças... Ficava muito na academia, treinando, e ainda tinha os shows no final de semana. Eu já estava me desligando dos shows. E então decidimos vir para cá (EUA) e entrei de cabeça no jiu-jitsu. Hoje, a gente administra a academia juntos. Estou totalmente dentro do jiu-jitsu, só não voltei a competir. Fui campeã do SP Open na branca e, na azul, fui campeã Internacional. Na roxa, disputei o Mundial na categoria adulto e perdi... Depois  na marrom, em Portugal, no Europeu, fui campeã. Agora falta a preta. Competi um em cada faixa. Agora que estou bem focada no jiu-jitsu, quero entrar em algumas competições. Era para eu ter ido para o Mundial de Masters e muita gente fala que é desculpa. Pode até ser desculpa (risos), mas eu estava aqui com as crianças, de férias... Sou bem competitiva. Então, para entrar numa competição, gosto de estar bem preparada". 

Syang nunca entrou no jiu-jitsu pensando em competir, mas por estar treinando bem, seu mestre a colocou num campeonato ainda de branca. Competiu na azul, e logo em seguida, engravidou. Teve a Manu, depois voltou a treinar, pegou faixa roxa grávida da Nina, parou novamente e, depois, treinou bastante para lutar o Mundial. "Toda vez que entro numa competição, penso que vou entrar em todas, porque é legal demais, a adrenalina e tal. Eu tenho vontade de voltar. Nos próximos campeonatos, vou tentar. Se eu conseguir treinar direito será neste ano. Mas tudo o que treino acabo competindo porque gosto de treinar forte."

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E a música?! Syang também pretende voltar a tocar daqui um tempo. Uma banda a chamou para tocar lá nos Estados Unidos e ela não chegou a ir ao ensaio, porque o tempo ainda está curto e está focada na academia. Portanto, acha que ainda não é hora. "Sinto saudades de tocar e estar no palco, mas estou focada na academia e na minha família, mas em breve pretendo voltar".

Em relação aos treinos femininos, Syang destaca uma importância muito grande para quem quer começar, principalmente tendo em vista que muitas meninas se sentem intimidadas por verem muitos homens. Ela conta que está percebendo uma ascensão muito grande no público feminino e destaca que uma das suas maiores vontades quando quis montar uma turma de mulheres é porque muitas não gostam de treinar com homens. 

"Elas não se sentem bem, tem vergonha de começar... Tenho duas alunas que não gostam, que dizem que os homens a deixam roxas, mesmo que façam de leve. A gente tem que respeitar, tem gente que não gosta e não se sente bem mesmo. Tem outras que o marido não gosta, que não se sente bem por ser um esporte de contato. Então, esse treino feminino veio para agregar e trazer essas meninas para treinar também". 

Para Syang, os maridos têm receio de as esposas treinarem e ainda que eles sejam faixas pretas, não se sentem seguros. Uma pena, porque jiu-jitsu é um esporte como qualquer outro. "O crescimento é absurdo. A Manu já está treinando, vai começar a competir e pegar faixa cinza agora em outubro. A mulherada está dominando e treinando forte".

O casal com as lindas: Nina e Manu.
O casal com as lindas: Nina e Manu. Arquivo pessoal

Esse é o outro lado da vida de Syang, que talvez muitas pessoas não conheçam. Incrível ver que a mulherada domina onde quer que esteja! E ela, no auge de seus 48 anos (sim, eu também demorei para acreditar, nem sei se acreditei ainda) está aí: tocando nas horas vagas, treinando sempre e dando muito valor para sua família.

"Estamos super felizes na Califórnia, vivendo um sonho. Aqui é muito legal de morar. O Brasil não estava fácil, muito perigoso para criar filho, e a gente está feliz aqui. A academia vai bem. E hoje, faço o que amo."

Muita sorte nessa nova jornada!

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Quando o jiu-jitsu muda a vida: você sabe o que é alopecia areata?

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Lilian tem alopecia areata e é praticante de jiu-jitsu
Lilian tem alopecia areata e é praticante de jiu-jitsu Arquivo Pessoal

Setembro, por coincidência, é o mês de conscientização da alopecia areata. Mas vamos começar do começo: eu não fazia ideia do que isso significava, até que chegou uma amiga da faculdade, a Thami, e me disse que tinha uma história digna de pauta e me mandou o contato da Lilian Correia. Na verdade me mencionou em uma publicação do facebook dela que acho importante compartilhar com vocês. Então, antes de começar, leiam aqui!

Ok. Foi um choque de realidade e eu terminei de ler tudo isso muito arrepiada. São coisas que mexem com a gente. E na verdade fica até difícil de eu escrever sobre, mas eu vou tentar, porque sei que vale a pena.

Resumindo, a alopecia areata é um problema comum em cerca de apenas 1 a 2% da população. Ela é responsável por causar perda de cabelos ou pelos em áreas arredondadas do couro cabeludo, ou outras partes do corpo e, dependendo do caso, pode causar perda inclusive dos cílios.

É uma patologia que desenvolve depois do nascimento. Até existem casos raros de bebês com alopecia, mas ocorre mesmo na maioria dos casos antes dos 20. Comigo, começou aos 08.

Lilian

A Lilian desenvolveu alopecia com oito anos e começou um tratamento. Ela tinha vergonha de assumir sua carequinha, tinha medo do que as pessoas podiam pensar e, principalmente, dos julgamentos. Imagine para uma mulher simplesmente não ter cabelo? Ela diz que nunca escondeu de ninguém o fato de possuir alopecia, mas também não saia gritando ao mundo. Porém, ela sempre teve uma prótese capilar, que conta ser como uma peruca, com a diferença de que prótese é feita sob medida, do jeitinho que ela quer. Ou seja, ela tem cabelo sim!

Lilian com sua protese
Lilian com sua protese Arquivo Pessoal

Em relação a prótese, ela contou que já teve problemas.

Eu tentava e ate conseguia viver uma vida normal, e numa dessas eu fui colocar a cabeça embaixo d’agua numa piscina, só que fiz isso um pouco mais rápido do que podia, então ela saiu, e eu fiquei muito constrangida. Tentei agir como se não tivesse me afetado, para não estragar o resto do final de semana, mas passei cinco dias chorando, tendo pesadelos e espasmos cada vez que eu lembrava do que tinha acontecido, não queria sair na rua, eu estava com vergonha de mim.

Lilian

Ela tratava sua alopecia, até que há dez anos decidiu desistir do tratamento. Parece absurdo, mas ela não via muito resultado. Sua mãe não a apoiava e queria muito que ela continuasse tomar remédios e se tratar. Porém, o tratamento que incluí corticoide, por exemplo, uma substância que deixa as pessoas bem inchadas, além de precisar aplicar insulina na cabeça onde houvesse falha, a cada um centímetro de distância. “Às vezes eu levava 150 picadas na cabeça por consulta” – conta Lilian.

Os tratamentos para alopecia são pouco eficazes. Até nascia um pouco, mas depois caia de novo e todo o tratamento era em vão. Quando eu percebi isso, que não ia parar, resolvi aceitar.

Lilian


E assim foi. Há quatro meses ela decidiu entrar no jiu jitsu por sempre querer praticar uma arte marcial. Via fotos e vídeos no instagram, passou a acessar conteúdo de jiu jitsu, foi atrás de uma academia para treinar e já soube que tinha amado a arte antes mesmo de terminar o aquecimento.

Ela conta que o jiu jitsu mudou tudo na vida dela e que essa frase faz total sentido.

Eu era fumante, sedentária, dormia mal, além de beber todo final de semana. Mas de tudo isso que consegui mudar, o que mais me impressionou foi a motivação de ser quem eu sou, só para não ter que deixar de treinar. Diferente de todas as coisas que deixava de fazer por ter uma limitação, essa foi uma que eu teria que quebrar paradigmas, pois me apaixonei pela arte suave e não queria desistir. Foi um grande feito que  mudou muitas coisas pra mim, dentro e fora do tatame, mas digo com propriedade que se eu não tivesse conhecido o JJ, não teria feito nada disso, ainda estaria sofrendo a questão da alopecia e da exposição.

Lilian


Óbvio que fiquei me perguntando milhões de vezes como ela fazia para treinar, já que, embora a arte seja suave, os movimentos são bruscos, rs. Ela conta que durante os dois primeiros meses ela não tirava nunca sua prótese fora de casa, inclusive sua família colocou um portão todo fechado na garagem para que ela pudesse circular com liberdade. Nas lutas, ela acabava tomando muito sufoco, já que não dava tudo de si por medo da prótese sair, porque em alguns momentos, sua única preocupação era proteger sua cabeça. Até que ela viu que dessa forma, não conseguiria se aplicar no jiu e ela deu início ao maior trabalho interno de sua vida.

Eu precisava tirar, mas existam 20 anos de tabus e todo um padrão social por trás da minha vontade. Depois de um pouco mais de dois meses, eu tirei. Tive o maior apoio que pude dos meus amigos e o treino agora é outro. Estou mais solta e sem preocupação.

Lilian


E tem uma pessoa que foi fundamental em todo esse apoio: o Marcello. O namorado, que ela conheceu no tatame e já é faixa marrom, sempre soube da limitação que ter uma prótese causaria nos treinos e a fez enxergar as coisas de outra forma.

Ele queria que eu me sentisse livre, muito mais do que eu mesma queria. Para ele era normal, era a mesma coisa com ou sem cabelo e eu tinha dificuldade de entender como ele pensava assim.

Lilian


Além disso, a Lilian conta que, embora o pouco tempo de prática, tudo na vida dela aconteceu pós jiu jitsu e também, que nenhuma outra pessoa a incentivou tanto quanto o Marcello para que ela se aceitasse, já que a questão que ele impunha a ela era sempre a de que não são os outros que devem aceita-la e sim, ela própria.

Ai gente! Chorei com essa história porque sou mole. Eu fico absurdamente feliz em ver provas de como o jiu jitsu pode ajudar na vida das pessoas, em todos os sentidos. Não é simplesmente ficar magra ou ficar com um corpão bonito. O jiu jitsu vai muito além disso. Ele melhora o corpo, a mente, a auto estima e de fato, muda vidas. Depois de vinte anos lutando contra um padrão imposto pela sociedade, a Lilian decidiu aceitar-se e isso é parte fundamental da vida de alguém.

A sociedade impõe padrões e nós (nós mesmos, todos nós), optamos por seguir. Pode ser difícil, pode ser caro… Mas queremos seguir para não precisar ouvir julgamentos, porque julgamento dói.

Parcelamos roupas de marcas legais porque está na moda, compramos um carro bacana para aparecer na porta da balada, encomendamos aquele tênis que só tem nos Estados Unidos porque é estiloso, mas esquecemos que a vida vai muito além disso. Vai muito além de seguir padrões por conveniência da sociedade. Vai muito além de parecer bonitinha só para nos olharem com um ar de “uau”. De juntarmos meses de dinheiro para comprar um iPhone só porque todo mundo tem. De novo, a vida vai muito além disso.

A Lilian é uma pessoa maravilhosa – por dentro e por fora (e olha que eu nem a conheço e já declarei paixão hahaha). De nada vale ser aceito em seu meio se você não se aceita internamente. E aliás, ela é uma prova viva de que quem é de verdade, te aceitará independente das circunstâncias. Ela tem sua família, seus amigos, seu namorado e agora, esse mundo maravilhoso do jiu jitsu para mostrar sua força, que talvez nem ela soubesse que era tão grande.

Mulher, você é incrível. Te desejo muita sorte nessa caminhada da vida e dos tatames. Fiquei absurdamente feliz em poder partilhar com tanta gente sua história, portanto, obrigada por ter aceitado a exposição e parabéns pela sua força e garra. Espero que seja só mais uma forma de te dar um retorno e provar o quanto você é linda e merece levar uma vida normal, com ou sem cabelo!

 

Fonte: Mayara Munhos

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Quando o jiu-jitsu muda a vida: você sabe o que é alopecia areata?

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Dani Bolina e Demi Lovato merecem respeito; e quem questiona graduação é o mestre, não as redes sociais

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Dani Bolina, faixa azul no jiu-jitsu
Dani Bolina, faixa azul no jiu-jitsu Reprodução/Instagram

Hoje, decidi fazer esse texto (curto para um blog, gigante para textão de Facebook, rs) porque percebi que sempre que alguma pessoa influente na mídia recebe uma graduação no jiu-jitsu, principalmente quando ela é mulher, é duramente criticada e questionada nas redes sociais.

Vou logo explicando porque eu disse “principalmente quando ela é mulher” usando um exemplo bem fácil aqui: Malvino Salvador. Para quem não sabe,  o ator é faixa roxa de jiu-jitsu. Além disso, ele é casado com uma pioneira do jiu-jitsu feminino, a faixa preta Kyra Gracie. Mas eu nunca vi na internet ninguém questionando a graduação dele por ele ser casado com uma faixa preta.

Malvino Salvador e a família Gracie
Malvino Salvador e a família Gracie Reprodução/Instagram

Porém, vamos ao ponto que quero chegar. Recentemente, duas mulheres influentes na mídia receberam a faixa azul de seus mestres: Dani Bolina e Demi Lovato

O mundo reclama que premiação de campeonato na categoria feminina é menor, tem poucas mulheres no tatame, não tem kimono com molde feminino em todas as marcas, o jiu-jitsu feminino não é divulgado.... Mas daí, quando mulheres grandes nesse mundo de celebridades estão no meio do jiu-jitsu e dando certo, isso também passa a ser um problema para as pessoas.

Muita gente questiona graduação dizendo que “faixa branca tem que ter, no mínimo, dois anos de permanência”. De fato, da azul para cima, a International Brazilian Jiu-Jitsu Federation (IBJJF) exige um tempo mínimo, mas segundo o artigo 3 do Sistema de Graduação da IBJJF, nos itens 3.1.2 e 3.1.3 está explícito: faixa branca não tem tempo mínimo.

Em julho deste ano, Dani Bolina recebeu sua faixa azul. Todos sabem que ela é uma ex-panicat, tem milhões de seguidores nas suas redes sociais e por aí vai. Ela começou a treinar e, depois de um tempo, apareceu namorando com um faixa preta campeão mundial. 

Bastou isso para começarem os burburinhos de que “logo a Dani gradua, namorando com um campeão mundial fica fácil”. Em seguida, Bolina foi disputar o mundial na Califórnia, que é o campeonato de jiu-jitsu mais importante do mundo. Ela ganhou duas lutas (ainda na faixa branca) e perdeu na terceira. Ainda assim, as pessoas tiveram tempo de falar que ela estava tecnicamente muito fraca, como se todos tivessem suas técnicas impecáveis.

E então, ao receber sua faixa azul, começaram os questionamentos: quanto tempo ela treina? Quem a graduou? Sendo bonita e rica fica fácil! Por que ela recebeu a faixa azul, tendo apenas dois graus na branca (isso levando em consideração que tem equipes que nem trabalham com graus)?

Ela precisou explicar publicamente coisas como: eu treino há dois anos, eu nem namoro mais “o tal faixa preta” e nem foi ele que me graduou, fui competir porque eu já estava na Califórnia. O que ela publica em suas redes sociais eu tenho certeza de que não é nem metade do que ela faz dentro do jiu-jitsu.

Ontem, bombou nas redes sociais a graduação de Demi Lovato. E, novamente, uma enxurrada de comentários negativos perguntando como ela conseguiu ou de gente falando “nossa, eu estou aqui treinando há tanto tempo e não saio da branca”.

Demi Lovato agora é faixa azul!
Demi Lovato agora é faixa azul! Reprodução/Instagram

E fora o quesito graduação, ainda temos o caso da Paolla Oliveira. Ela está vivendo uma policial praticante de MMA na novela 'A Força do Querer', da Globo, e muita gente a tem criticado. 

Além do fato da graduação (ela tem dois graus na faixa branca, concedido pela faixa preta renomada Érica Paes), o alvo tem sido motivos fúteis como “nossa, ela está treinando de kimono e bandagem?”, como já contei nesse texto aqui

A moça tinha a chance de escolher um dublê, mas escolheu estar 100% no personagem e, ainda assim, parece que o fato de ela ser famosa tira o direito dela de treinar ou de ser apaixonada pelo jiu-jitsu.

Então, acho que é uma boa hora para cada um colocar a mão na consciência e parar de relacionar que as mulheres são graduadas sempre por um motivo além do treino.

O fato é que as redes sociais dão poder às pessoas e elas se sentem no direito de criticar as outras porque do outro lado da tela, todo mundo é valentão. Porém, sabe aquele lema de que “o jiu-jitsu é para todos”? Acho que deveria ser melhor aplicado em nosso dia-a-dia.

Alguém chega para pessoas que são “gente como a gente”, criticando a graduação recebida? O tempo que você treinou para recebê-la? Dizendo que você tem um relacionamento extra tatame com um faixa preta e por isso tem “mamata”? Pelo contrário... muitas pessoas chegam às celebridades, questionando um milhão de coisas, esquecendo que o único responsável por definir o tempo de graduação é seu mestre.  

Paolla Oliveira vive a Jeiza em “A Força do Querer”
Paolla Oliveira vive a Jeiza em “A Força do Querer” Reprodução/Instagram

E ninguém tem nada a ver com isso. Claro, as pessoas públicas estão sujeitas a isso. E claro, também, que infelizmente hoje vemos algumas graduações sendo realmente deturpadas, vendidas ou conquistadas de forma duvidosa, vindas de academias que não são sérias. Mas ao invés de reclamar que falta mídia para jiu-jitsu feminino, que tal fazer sua parte nos tatames e ver se a mídia te enxerga, já que está enxergando tantas mulheres atualmente treinando jiu-jitsu?

E as pessoas que têm reclamado nos comentários que estão há tanto tempo na faixa branca e dão a entender que só porque não são famosas não são graduadas deviam aproveitar e analisar se o motivo da graduação não chegar logo é porque falta treino. Imagina que louco um mundo em que cada um levantasse seu bumbum da cadeira para correr atrás dos sonhos ao invés de tentar diminuir as conquistas alheias?

O que está acontecendo mostra o quanto o jiu-jitsu, no geral, está crescendo e temos que tirar proveito disso. 

É nossa chance de deixarmos de ser coadjuvantes!

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'Olhar espnW' com Cris Cyborg – e eu de coadjuvante

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Gravação do Olhar espnW
Gravação do Olhar espnW ESPN

Na semana passada, fui convidada pela Regiane Wohnrath (produtora incrível aqui da ESPN que trabalha duro para manter tudo o que é relacionado ao espnW em pé - saibam disso) para participar do Olhar espnW com ninguém menos do que ela: a Cris Cyborg, detentora do cinturão peso pena do UFC. Tipo assim, ela me perguntou “se eu toparia” participar. Acho que ela já devia chegar afirmando, porque não haveria como negar.

Eu, ansiosa que sou, só pensei “eu queria dormir e acordar só no dia”. Pensa: era semana de campeonato. Então isso potencializou o meu desespero e ansiedade. Pareceu que a semana demorou bastante para passar. Mas passou, e rolou.

Meu momento de 'Posso tocar?' - e ela 'CLARO'! Hahaha.
Meu momento de 'Posso tocar?' - e ela 'CLARO'! Hahaha. ESPN

Confesso que fiquei um pouco preocupada. Eu não sou nada ‘manjadora’ de UFC. Não sou capaz de acompanhar tanto soco na cara, chutes, com tanta precisão e velocidade. Confesso, de novo, que quando começa aquela sequência de socos e sangue, eu fecho os olhos. Eu já tentei fazer muay thai e eu amava a parte física. Mas o sparing, gente... às vezes, eu queria faltar à aula para não precisar fazer (mais uma confissão). Meus socos iam em slow motion porque eu tinha desespero de machucar alguém e eu era ninja nas esquivas e na guarda alta, afinal, eu não queria tomar soco, não.

Estudei bastante, mas como a Cris tem jiu-jitsu no sangue também, inevitavelmente tive que falar um pouco desse lado. Ela é faixa marrom da Atos, mesma equipe que treino. Mas hoje em dia, contou que treina no Cobrinha (Alliance) porque é mais perto de onde ela está morando. Identificação instantânea (eu, né, gente. Ela nem sabe que se identificou comigo, talvez. Hahaha).

Fiquei um pouco confusa pensando "que pauta eu faço?", mas aí a Regiane me mandou um "hello, você é convidada e não entrevistadora, vamos te entrevistar! Mas fique a vontade, pode perguntar o que quiser". Não sei se mentalizei um "ufa" ou um "ferrou", mas vambora!

Chegou o dia e eu fui chamada para a maquiagem. A maravilhosa da Lucilia Reis deu um jeitinho na minha face, que fez todo mundo me olhar impressionado: eu não uso um pingo de maquiagem no dia-a-dia. Então, só de fazer uma make simples, já muda tudo (e ela arrasou). Eu adorei, acho que quero trabalhar na televisão, definitivamente, hahaha.

A Cris chegou enquanto eu maquiava e eu nem sabia como reagir. Mas essa coisa de trabalhar na televisão nos acostuma a lidar com gente famosa sem a necessidade de tietar (exceto a foto abaixo rs).

Momento tiete...
Momento tiete... Reprodução/ESPN

Gente, ela é realmente um mulherão. Alta, com corpão e cabelo colorido! A cara dela no octógono é realmente outra coisa: brava e focada. Mas pessoalmente, embora a gente tenha a impressão de que ela realmente seja brava pelo que vemos nas lutas, ela é um amor. Pessoa incrível, deu atenção para todo mundo, me deixou tocar no cinturão (eu estava com vergonha de pedir, mas né? Oportunidade única) e é um ser humano daquele jeitinho: "gente como a gente".

Eu que adoro falar, não me importei nem um pouco de ser "só" coadjuvante no programa ("só" porque isso já é muita coisa para minha pessoa, rs). Mas a Marcela Rafael me inseriu o tempo todo e, com isso, tive a oportunidade de contar um pouco como comecei no jiu-jitsu, também de responder algumas coisas sobre o esporte não fazer parte da Olimpíada, tema que já abordei aqui no espnW.

Meu maior medo? Falar m#rd@! Porque é minha cara, rs! Mas ainda bem que eu tinha Flávia Delaroli para compartilhar desse momento comigo, que me disse "fique tranquila, eu estou do seu lado, sempre virá uma m#rd@ pior". Que alívio, né? Hahaha.

No geral, posso dizer que o programa foi incrível! Só vai ao ar em outubro. Por enquanto, vocês podem assistir nossa live no Facebook clicando aqui! Se eu fosse vocês eu assistiria para não perder cenas como essa:

Aquele momento que todo mundo acha que parou de gravar, tira o sapato e come pele da unha
Aquele momento que todo mundo acha que parou de gravar, tira o sapato e come pele da unha Reprodução/ESPN

Mas o principal não é tirar o sapato e comer pele da unha, mas sim que pudemos conhecer muitas faces da Cyborg.

Ela falou sobre lutar ou não com Amanda Nunes e unificar o cinturão. Falou sobre sua rivalidade com Holly Holm e a treta louca com Angela Magana. Sobre seus treinos diários e sua alimentação absurdamente regrada. Sobre como ela começou no esporte (eu pensava que ela já tinha nascido lutando MMA, mas não). E além das lutas, contou sobre suas visitas ao Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba, onde seu pai está internado e que ela passou a apoiar um projeto incrível para crianças chamado "Erastinho", com a intenção de ter verba para criar um hospital do câncer também para as crianças.

De tudo isso, ao invés de contar sobre a minha experiência (era o que eu ia fazer, hahaha) acabei focando em como foi incrível poder fazer parte desse bate papo com a Cyborg. Ela é realmente uma mulher inspiradora, que foi atrás de seus sonhos e não é à toa que é, hoje, a melhor lutadora de MMA do mundo. E tenho certeza de que se desejar competir Wrestling, Muay Thai ou Jiu-Jitsu (suas especialidades), ela vai se dar tão bem quanto no MMA.

Queria demais ressaltar como é importante corrermos atrás daquilo que desejamos, sem nos importar com críticas, negações, acusações ou falta de apoio. Cris mesmo contou o quanto as pessoas a criticam nas redes sociais, principalmente no que diz respeito ao seu físico, mas são coisas da vida. Hoje em dia, as pessoas usam a internet como uma arma e não sabem simplesmente viver em seu quadrado sem criticar quem está se dando bem na vida. Coisas negativas sempre vão existir, mas se você realmente quer, é muito importante que vá atrás. Somos todas mulherões e todas capazes. YES, WE CAN!

O mundo do MMA cresceu muito com o UFC e, com isso, as artes marciais têm ganhado muitas praticantes. Então, ainda que não da forma que merecemos, estamos conquistando nosso espaço e temos que lutar por isso cada vez mais. Não desista e nem resista!

Em outubro o programa vai ao ar! Continuem nos acompanhando aqui e nas redes sociais que mais pra frente tem chamada ;) 

Até lá!

Ah, para acabar: quero deixar um frame com minha primeira participação como entrevistadora num programa de grande alcance na televisão, beijos! Hahahaha

Quando você não sabe para onde olhar...
Quando você não sabe para onde olhar... Reprodução/ESPN

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Karen Antunes: a história da mamãe mais guerreira do jiu-jitsu

Mayara Munhos
Mayara Munhos

A evolução de Alice ?
A evolução de Alice ? Arquivo pessoal

Depois de ter falado sobre como é treinar durante a gravidez e sobre como é ter um filho e não parar de treinar, ainda que precise cuidar da criança, conversei com a Karen Antunes, que é faixa preta da equipe CheckMat e teve a Alice há um mês. Karen é faixa preta desde 2014 e 4x campeã mundial, além de ser, também, campeã mundial máster (+30 anos). Seu mestre é Mayko Araújo, que é também pai da Alice. Karen se mudou para os Estados Unidos em 2015 para treinar e competir. Atualmente, vive com o marido e a filha no estado de Idaho, onde, em breve, abrirão sua própria academia.

Quando chmei a Karen para conversar, não imaginava a história gigante e de superação que ela tinha para contar. Eu queria escrever sobre sua trajetória no jiu-jitsu, como foi a decisão da maternidade, seus objetivos daqui para frente como atleta de alto rendimento… Mas a faixa preta me surpreendeu e decidiu abrir sua vida, contando que não foi tudo tão fácil e lindo como Alice demonstra ser.

De imediato, ela assumiu nunca ter falado sobre isso, mas hoje se sente confortável e acha que sua história pode servir de incentivo para outras mulheres que talvez passem pelos mesmos problemas.

Ela começou contando que, em 2014, estava fazendo um camp muito pesado para o Mundial, morando com Michelle Nicolini, e elas treinavam duríssimo, todos os dias. “Era um ano muito importante, somos da mesma categoria e nosso sonho era fechar o peso pena”, disse. Porém, três semanas antes do início do campeonato, ecomeçou a sentir dores muito fortes, parecidas com uma cólica, e foi ao médico.

Alice filha karen antunes
Alice filha karen antunes Arquivo pessoal

Nesse momento, Karen conta que parou imediatamente de treinar. Contou o ocorrido só para a Michelle e o Leozinho, seus professores. Em seguida, quando ela já tinha se habituado à ideia da gravidez, teve um sangramento e, com isso, seu primeiro aborto espontâneo. “Me senti a pior das pessoas, me culpei, sofri como se tivesse perdido alguém que já conhecia, fiquei uma semana trancada no quarto.” Depois da semana de luto, ela teve que tomar a decisão de lutar ou não.

Ninguém me pressionou, mas eu sentia que devia sim lutar, mesmo me sentindo tão mal. Lutei e lutei bem. Não ganhei, mas me deu uma satisfação e uma felicidade enorme saber que tinha dado o meu melhor.            

Depois desse mundial, Karen buscou um médico e fez diversos exames. Nenhum resultado negativo, ela não tinha nada e o médico dizia que era normal sofrer um aborto quando se engravida pela primeira vez, mas Karen ainda se preocupava. “Eu insistia na pergunta: ‘o que eu tinha feito para causar isso?’; mas nunca tive resposta”.

Após o momento complicado, Karen diz que passou a sentir uma vontade imensa de ser mãe. Seu marido a convenceu a esperar um pouco mais para que ela competisse e depois desse esse passo.

Mesmo a contragosto, eu concordei, mas não era o que eu realmente queria. “O jiu-jitsu sempre preencheu minha vida por completo, costumo dizer que minha vida se define como antes e depois do jiu. Eu me mudei para outro país pelo jiu, abandonei minha família e amigos por esse esporte e não me arrependo nem por segundo das escolhas que fiz, mas a partir daí, o jiu já não era tudo o que eu queria. Sentia um vazio enorme.”

Ela continuou, então, se dedicando e competindo até que, em novembro de 2015, teve uma segunda gravidez que a deixou muito feliz, tendo sempre em mente a velha história de que “o raio não cai duas vezes no mesmo lugar”. Porém, duas semanas depois da descoberta, ela teve outro sangramento. Foi direto ao hospital e lá ouviu que não podiam fazer nada para impedir seu segundo aborto.

“Esperei e a pior notícia veio mais uma vez”, disse Karen. “Toda aquela dor veio dobrada! Os médicos continuaram dizendo que eu não tinha nenhum problema físico, que até três abortos é normal, que só investigariam a fundo se fossem três abortos. Que absurdo alguém ter que passar por isso três vezes até começarem a investigar”. Embora a atleta tenha superado, ela também contou que o medo de tentar novamente era inevitável.

Mas em julho de 2016, ela engravidou novamente. Foi ao médico explicando tudo o que tinha acontecido e, de novo, não teve nenhuma explicação. “Na minha cabeça, ele podia me dar algum remédio que ajudasse a não acontecer novamente, mas ele dizia que não podia porque não encontrava nenhum problema”, contou Karen. E novamente aconteceu: duas semanas grávida e mais um aborto.

“Eu nunca fui uma pessoa triste ou desmotivada, mas esse período da minha vida foi bem difícil. Essa terceira vez foi um mês antes do Mundial Master em Vegas (meu primeiro ano de Master). Convencida pelo meu maior incentivador, fui lutar e ganhei categoria e absoluto. Senti uma pressão tão grande nesse campeonato e ainda não sei explicar o porquê. Talvez porque não estivesse 100% ali mentalmente (ou fisicamente).”           

E foi depois desse mundial que Karen tomou uma grande decisão: comunicar ao marido que não ia mais competir até resolver o problema de não conseguir ter um filho e obter todas as respostas às quais procurava. “Se eu tivesse algum problema e não pudesse ser mãe, tudo bem, mas eu precisava saber o que estava errado.”

Depois dos três abortos, a faixa preta procurou um especialista em infertilidade. Fez todos os exames possíveis e a cada resultado, uma frustração: não havia nada de errado e ela continuava sem respostas. Ela contou que este último médico a aconselhou a engravidar novamente e se propôs a acompanhá-la desde o primeiro dia. O método de tratamento, dessa vez, seria diferente, segundo Karen.

“Ele me dizia que faria a terapia do amor comigo, que me daria atenção e que talvez fosse isso que eu precisava. Eu até explicava pra ele que amor e atenção na minha vida não eram problema, que eu queria era algum remédio ou intervenção médica pra que isso não acontecesse mais.”                       

E em outubro de 2016, Karen engravidou novamente, pela quarta vez, com muito medo, insegurança, mas também com muita esperança. Ela ia ao médico duas vezes por semana, fazia exames de sangue e conversava muito, mas as semanas se passavam e o medo dela só aumentava. “Eu achava que estava chegando a hora de acontecer outra vez.”

Os dias foram passando, os resultados dos exames não apontavam nenhuma alteração e ela estava quase no terceiro mês de gravidez, sem qualquer tipo de tratamento ou intervenção cirúrgica.

“Tudo aconteceu nos Estados Unidos. Não contei pra ninguém, nem para minha mãe. Fui para o Brasil em dezembro e só com três meses de gravidez eu contei para a minha família. E desde então, foram muitas alegrias.”      

Karen conta que, quando engravidou de Alice, o médico disse para que ela continuasse treinando normalmente, que ela não perderia o bebê em hipótese alguma e isso a tranquilizou. Sendo assim, seguiu com os treinos todos os dias, mas diminuindo a intensidade. Porém, quando veio ao Brasil, decidiu consultar um médico por garantia e para talvez descobrir o sexo do bebê. E a surpresa foi que esse médico aconselhou que ela não treinasse mais.

“Eu me sentia ótima, mas preferi escutar e obedecer as ordens médicas. Parei com o jiu. Eu até poderia fazer posições e alguns drills, mas não era o que eu queria. Então, preferi me dar esse tempo de férias e fiz apenas musculação e treino funcional.”

Imagine uma pessoa que treina há oito anos ter passado por frustrações e, de repente, ter que parar de treinar? Eis mais um desafio, em que Karen conta que, sem treinar, ficou muito estressada.

“Eu sonhei que estava treinando durante toda minha gravidez. Acompanhar meu marido nos treinos, viagens, camps e não poder treinar me deixava mal, mas em momento algum ele cogitou parar ou diminuir os treinos. Nós vivemos de jiu, seria estressante para ele também não poder treinar. Assim ele focou mais nele, já que muitas vezes deixou de treinar para me treinar. Foi muito legal vê-lo se dedicando e pensando apenas em si. No geral, meu maior desejo estava sendo realizado. Então, eu segurava a onda e focava minhas energias no que eu podia fazer, e não no que eu não podia.” 

Karen se exercitou até um dia antes de ir para a maternidade. A atleta se cuidou bastante e não se arrependeu de nada e disse ter sido a melhor coisa. Seu parto foi normal e aconteceu há praticamente um mês. “Já perdi onze dos quatorze quilos que ganhei e estou contando os minutos para ser liberada pelo médico para voltar a treinar”, completa, muito feliz com Alice dormindo ao seu lado.

Hoje, Karen sente-se bem e Alice nasceu muito saudável. Mas apesar da felicidade, ela também assume estar muito cansada com a nova rotina e ao mesmo tempo ansiosa para voltar a treinar, além de segurar a ansiedade para a inauguração de sua nova academia, em Idaho, que está prevista para o dia 26 de agosto.

E assim sua vida mudou. Ela também contou que, embora quisesse muito ser mãe, deixar sua carreira de lado foi mais difícil do que imaginava, já que sentiu muita falta dos treinos e competições, mas que tudo valeu a pena.

Em relação à volta aos treinos, ela não vê a hora. Mas como tudo tem seu tempo, o médico disse que ela precisa esperar seis semanas após o parto para voltar aos tatames.

“Se eu pudesse, voltaria 100% hoje (risos). Algumas semanas atrás, até me inscrevi no Mundial Master porque achei que daria tempo de treinar, mas aí o médico disse que só me liberaria pra treinar jiu-jitsu seis semanas depois do parto. Esse é o tempo que o útero leva pra voltar ao tamanho normal. Outro fator que está dificultando bastante é o fato de que, aqui nos EUA, eles só começam a vacinar o bebê quando eles completam dois meses. Até lá, nada de sair de casa pra lugares públicos porque eles não têm imunidade alguma. Eu não sabia disso até Alice nascer.”

Ela pretende competir ainda neste ano, embora não tenha certeza de quando, já que isso demanda uma rotina, treinos duros e por aí vai. Mas seu plano é competir o Mundial sem kimono em dezembro e confia que estará preparada até antes.

É sempre uma decisão difícil deixar a carreira de lado para ser mãe e, claro, com Karen não foi diferente. Mas depois de tanta luta, dentro e fora dos tatames, ela agora tem Alice e creio que voltará mais forte do que nunca. Que sua história sirva de exemplo para outras mulheres e que nenhuma desista de seus sonhos. Não há nada no mundo mais justo do que seguir nosso coração, não importa o que digam. E com certeza, Karen, você seguiu o seu e o que é para ser seu ainda te aguarda! Bom retorno aos treinos e que Alice seja uma criança muito saudável. Com certeza, Alice vai dar o que falar nos tatames! E por agora, nós estamos ansiosos para te ver brilhar nos pódios novamente.

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Karen Antunes: a história da mamãe mais guerreira do jiu-jitsu

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Mundial de Jiu-Jitsu IBJJF 2017: confira a mulherada que brilhou!

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Na última quinta-feira (01/06) deu-se início ao campeonato de jiu-jitsu mais aguardado e de mais alto nível do mundo: o Mundial da Califórnia. É quando a tão conhecida pirâmide de Long Beach treme e traz confrontos emocionantes durante quatro dias.

Em relação às performances, já começamos nos surpreendendo com o nível de faixas azuis e roxas. Muita técnica e agilidade.

Destaque para Maggie Grindatti na faixa azul. A meio pesado da Fight Sports leva ouro duplo para casa: peso e absoluto. Além dos dois ouros, a atleta volta para casa de faixa nova, tendo sua faixa roxa amarrada na cintura no pódio, pelas mãos dos mestres Roberto Cyborg e Robert Drysdale.

Maggie Grindatti: campeã peso e absoluto faixa azul.
Maggie Grindatti: campeã peso e absoluto faixa azul. @maggiegrindatti

Já na faixa roxa, Julia Boscher também brilhou no peso médio. A atleta da Soul Fighters tem vindo de uma ótima fase, sendo que só esse ano já mordeu o ouro no BH International Open, Pan Americano, Mundial de Abu Dhabi e San Diego Open. Agora, além de mais um ouro para a coleção, as faixas marrons ganharam mais uma preocupação, já que Julia recebeu sua nova faixa de seu mestre Tatu Escobar.

Destaque na faixa roxa também para Izadora Silva da NS Brotherhood que bateu a atleta da Atos, Amelia Lui na final do peso pesado e para Jessica Guedry da Soul Fighters, que levou ouro duplo para casa, no meio pesado e no absoluto.

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Na faixa marrom a coisa começa a ficar ainda mais séria. No peso leve, destaque para a Catherine Perret, da CheckMat no peso leve, fechando a final com sua parceira de treino Nathalie Wan Soares Veras Ribeiro. No peso médio, destaque para Renata Marinho, da Alliance que mais uma vez venceu a atleta da Zenith, Raquel Paaluhi. Já no pesado, o título ficou com Yacinta Nguyen-Huu (Jiu-Jitsu For Life Team) que também tem mostrado resultados excelentes nas competições.

Mas não tem como não dar o destaque maior para a faixa marrom da CheckMat Andressa Cintra que tem dado o que falar nesses últimos tempos, tendo colecionado esse ano títulos como Brasileiro, quatro ouros no Paranaense (peso e absoluto com e sem kimono) e medalha de prata no Pan Americano. A mais nova árbitra levou para casa o ouro no meio pesado e também no absoluto. Numa chave de doze pessoas no peso aberto, Andressa fez lutas duríssimas, começando por Tara White, a campeã do super pesado e fazendo a final de ambas as categorias com a também atleta da CheckMat, Samantha Lea Cook.

Campeã faixa marrom: peso e absoluto.
Campeã faixa marrom: peso e absoluto. @andressacintrajj

E o mais aguardado: as faixas pretas. Parece que a cada ano o número de favoritas aumenta, se tornando cada vez mais difícil dar palpites. Pois nesse ano não foi diferente. Bianca Basílio, Beatriz Mesquita, Mackenzie Dern, Andresa Corrêa, Tayane Porfírio, Ana Carolina Baby, Claudia Do Val e até a Monique Elias, que estávamos com saudades de ver lutar, dentre tantas outras, estavam presentes.

No peso galo: a final rolou entre Rikako Yuasa (Paraestra Shinagawa) e Anne Amanda Carmo dos Santos (Attack JJ Team – Belém) e o título ficou para Rikako após um estrangulamento que colocou Anne Amanda para dormir. O bronze foi para Serena Gabrielli (Flow) Outi Jarvilehto (Brasa CTA).

No peso pluma: a final foi entre a campeã de 2016 Gezary Matuda (American Top Team)Talita Alencar (Alliance). Em um confronto muito movimentado entre as duas levinhas, Gezary tentou atacar as costas e Talita saiu muito bem. Em seguida, a briga continuou de forma muito acirrada. A atleta da American Top Team mostrou ter uma guarda ofensiva e afiadíssima o tempo todo, enquanto a da Alliance atacou muito por cima também, mas quando precisavam voltar em pé, Talita se mostrava ainda mais confortável por baixo, chamando Matuda duas vezes para a guarda. Faltando pouco menos de dois minutos para o fim da luta, Gezary, por cima, tentou pular e atacar um triângulo sem sucesso, e em seguida, Gezary deu uma pancada acidental no rosto de Talita que fez com que a luta ficasse parada para atendimento médico e o seu rosto, muito roxo na hora. Faltando pouco menos de 30 segundos para o final da luta, Talita, com muita vontade, conseguiu uma raspagem em Gezary e garantiu dois pontos para levar o ouro para casa pela primeira vez. O bronze ficou com Thamires Aquino (GFTeam) e Kristina Barlaan (Brasa CTA).

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No peso pena: sim, aqui fomos surpreendidas! Além de uma das favoritas cair na primeira luta, há uma suspeita de erro de arbitragem em duas lutas. A Bia Basílioda Almeida JJ (Atos) foi derrubada de por Ana Carolina Schmitt (Gracie Humaita) e Bia publicou o seguinte desabafo em seu Instagram:

Em seguida, a mesma atleta enfrentou Jacqueline Amorim (CheckMat) e venceu por um erro de arbitragem. Nenhum árbitro voltou atrás e deram pontos de forma irregular para Ana Schmitt. De qualquer forma, a atleta da Gracie Humaita avançou para a final. Para entender melhor o ocorrido, veja o vídeo que Jacque publicou no seu Instagram:

Do outro lado, a outra favorita Mackenzie Dern (Gracie Humaita) não lutou. Ana Schmitt fechou a final contra Emilie Maxine (Gracie South Bay) e o título ficou com Emilie. O segundo lugar ficou para Ana Schmitt e o bronze, Jacqueline Amorim.

No peso leve: na chave, duas favoritas e ambas finalistas. Luiza Monteiro (NS Brotherhood) avançou para a final após resistir a uma chave de pé absurda da Tammi Musumeci (Brasa CTA). A campeã de 2016 Bia Mesquita (Gracie Humaita) garantiu sua vaga na final com bronze no absoluto e uma vitória de 22×0 em cima da Jessica Cristina (Elite Brazilian Jiu Jitsu Redmond). Em mais uma final que já começou para valer entre Luiza Monteiro e Bia Mesquita, a atleta da Gracie Humaitá começou garantindo dois pontos de uma raspagem e a luta foi feita o tempo todo de forma muito pensada por ambas, o que veio resultando em punições por ter ficado muito tempo parada. Até por volta dos seis minutos e meio, já tinham três punições para cada lado. Bia ficou por muito tempo tentando atacar uma botinha em Luiza, que defendeu bem e tentou atacar de volta. Faltando pouco mais de dois minutos para o final da luta, Bia cometeu um erro fatal: ainda tentando atacar a botinha, ela girou para dentro (a regra de botinha, é que você tem que manter seu corpo “para fora” de sua adversária, caso contrário, o risco de machucar é grande) e a vitória ficou para a atleta da Brotherhood, que se emocionou muito ao final da luta. O bronze foi para Jessica Cristina e Tammi Musumeci.

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No peso médio: a atleta da GFTeam, Ana Carolina Vieira (Baby), em seu primeiro Mundial de faixa preta enfrentou a já veterana da AllianceMonique Elias, campeã do peso médio no ano passado. A luta foi muito dura e ficou por um bom tempo com Baby tentando passar e Monique tentando defender a guarda, que é o que cada uma faz de melhor. Ana ficou um bom tempo com uma vantagem e atacou bastante, enquanto Monique defendeu muito bem, mostrando muita flexibilidade. Com pouco menos de quatro minutos de luta, Baby deu um bote e quase foi para as costas de Monique, que se virou de quatro apoios e Ana garantiu mais uma vantagem. Ana pressionou demais Monique e foi garantindo vantagens e faltando um minuto e meio, Baby garantiu seus três pontos, passando a guarda da atleta da Alliance. Em seguida, ela conseguiu se desvencilhar, entrando na guarda fechada de Baby, que rapidamente garantiu uma raspagem e, novamente, conseguiu passar sua guarda e montar faltando apenas dez segundos para o fim, somando 12 pontos e vencendo sua categoria. Neste meio tempo entre passagem e montada, Baby tentou aplicar um katagatame que deixou os árbitros preocupados com Monique, achando que ela tinha apagado. Ana Carolina deixou toda torcida da GFTeam muito emocionada, comemorou dizendo ser apenas seu primeiro mundial na faixa preta e deu aquele abraço maravilhoso em seu coach e irmão, o lendário Rodolfo Vieira. O bronze ficou para Amanda Loewen e Nivia de Souza Moura.

No meio pesado: a até então atual campeã do meio pesado Andresa Corrêa, atleta de 37 anos da Alliance que está em perfeita forma física, enfrentou na final outra atleta em ótima fase, Nathiely Karoline (Cícero Costha). Nathi deu início a luta usando e abusando de sua guarda praticamente instransponível, que dificultou muito a vida de Andresa. Aos 4 minutos e meio, Andresa deu um pequeno vacilo que fez com que ela tomasse dois pontos e as duas voltaram em pé. Nathi novamente puxou na guarda e manteve-a fechada, quebrando a postura da atleta da Alliance e ganhando tempo. Com pouco mais de dois minutos para o fim, Andresa levantou e Nathi deu um bote, garantindo dois pontos de queda e em seguida, finalizando a veterana num estrangulamento. No final, Andresa Corrêa deixou sua faixa preta no chão do tatame. Muita gente está comentando ser uma aposentadoria. Será? Esperemos os próximos capítulos porque não sabemos de nada hahaha. Então o resultado ficou assim: ouro para Nathiely, prata para Andresa Corrêa e bronze para Leah Taylor e Jessica Flowers.

No pesado: essa categoria veio com nomes fortes. Claudia DoVal (De La Riva) que tem vindo fortíssima na faixa preta venceu sua primeira luta e partiu para a semi-final com a veterana e até então, atual campeã do peso Fernanda Mazzelli (Stricker JJ), vencendo-a e sendo a finalista. Do outro lado, Talita Treta (NS Brotherhood) enfrentou a duríssima Samela Leite (Ribeiro JJ), para vencer e enfrentar Claudinha na final. Entre Talita e Claudia, a atleta da De La Riva tentou chamar na guarda mas Talita já garantiu dois pontos. Claudia foi tentando atacar sua famosa omoplata e variações, encaixando um triângulo justíssimo em Treta, que demorou muito para se render enquanto Do Val arriscava todos os tipos de chaves de braço possíveis. Faltando quatro minutos para o fim, Claudia abriu o triângulo e tentou ir para as costas de Talita, sem sucesso, mas garantindo dois pontos de uma raspagem. Daí para frente, Talita segurou Claudinha na guarda e rolou uma briga muito grande para ver quem levava vantagem. No fim, Claudinha venceu Talita, que caiu no choro, nas vantagens. O terceiro lugar ficou para Fernanda Mazzelli.

Claudinha, novata na faixa preta e já campeã mundial em sua categoria.
Claudinha, novata na faixa preta e já campeã mundial em sua categoria. @graciemagazine

No super pesado: Tayane Porfírio (Alliance) como sempre imbatível, venceu sua luta contra Venla Orvokki (Hilti BJJ Jyvaskyla) aplicando um leg lock com apenas 58 segundos de luta e garantiu seu tão sonhado ouro num mundial com a faixa preta.

Tayane, sempre campeã.
Tayane, sempre campeã. @graciemagazine

E o absoluto, claro, chegou chegando! De um lado, as favoritas Bia Mesquita, Bia Basílio, Claudia Doval, Tayane Porfírio e Talita Treta. Do outro, Mackenzie Dern, Jessica Flowers (Gracie Barra), Nathiely Karoline e Monique Elias.

Depois de uma luta muito complicada e até um tanto polêmica no Curitiba Open desse ano em que Bia Basílio venceu Claudia Doval, a atleta do mestre De La Riva veio com tudo e finalizou Bianca logo na primeira luta, com um estrangulamento muito bonito.

Talita Treta foi batida também em sua primeira luta pela atleta da Brazilian Top Team, Alison Victoria Tremblay, que venceu por 1 vantagem de diferença da atleta da NS Brotherhood. A luta se resumiu com a atleta da BTT fazendo guarda e Treta tentando passar, mas infelizmente não ocorreu porque Alison realmente estava técnicamente muito forte. A semi final desse lado foi entre Bia Mesquita e Tayane Porfírio, que já se enfrentaram diversas vezes entre o ano passado e esse. Tayane finalizou suas duas lutas anteriores e levou a vitória também em cima da Bia, por apenas três vantagens de diferença.

Mackenzie também surpreendeu no absoluto e foi derrotada de cara pela super pesado Venla Orvokki, por cinco a zero. Em seguida, Venla enfrentou Jessica Flowers e a atleta da Gracie Barra avançou para a semi. Nathiely entrou para vencer Amanda Loewen (SBG International) de 20 a zero, enquanto Monique Elias vencia Laurah Elizabeth (GFTeam). Nas quartas de final, deu Nathiely x Monique e quem avançou para a semi foi a guardeira da Cícero Costha, por oito a seis. Para ir a final, Nathi venceu Jéssica Flowers por 2 x 0.

bronze ficou com Bia Mesquita e Jessica Flowers.

A final foi entre Tayane Porfírio e Nathiely Karoline e quem ficou com o título mais cobiçado foi a grande atleta da Alliance! Nathiely começou chamando na guarda ofensivamente e Tayane foi para cima tentando a passagem com bastante dificuldade, uma vez que a guardeira da Cícero é absurdamente flexível.

Nathi tentou laçar os braços de Porfírio e mantê-la distante, colocando uma guarda aranha em seguida. Com uma variação intensa entre guarda aberta e fechada de Nathiely, Tayane ainda tinha muita dificuldade de passar e até impor seu jogo, mas a batalha estava bem dura entre as duas. Faltando cinco minutos e meio para o fim, Tayane passou a ser ainda mais ofensiva na passagem e pouco mais de um minuto depois, pressionou Nathiely e conseguiu a montada, seguida de uma americana justíssima e finalizando a atleta da Cícero no braço, para garantir seu double gold.

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Além das lutas, as dez melhores atletas do ranking receberam suas respectivas homenagens e premiações, sendo o primeiro lugar para Mackenzie Dern pela ótima atuação na temporada 2016/2017. O prêmio é de 15 mil dólares para a primeira colocada, 4 mil para a segunda e mil para a terceira. A parte boa de tudo isso, além do bolso das atletas cheio, é que é o valor é o mesmo para os atletas masculinos.

As três melhores do ranking recebem premiação em dinheiro. 3º Lugar: Tayane Porfírio; 2º Lugar: Bia Mesquita; 1º Lugar: Mackenzie Dern.
As três melhores do ranking recebem premiação em dinheiro. 3º Lugar: Tayane Porfírio; 2º Lugar: Bia Mesquita; 1º Lugar: Mackenzie Dern. IBJJF

O resultado por equipes, segue com Atos Jiu-Jitsu na primeira colocação (105 pontos), Allianceem seguida (88 pontos) e em terceiro lugar, com 53 pontos, a equipe GFTeam domina.

Melhores equipes do Mundial IBJjF 2017.
Melhores equipes do Mundial IBJjF 2017. Imagem: Jiu-Jitsu Magazine

Tantas lutas e de tudo isso, podemos destacar que as meninas estão cada vez mais fortes. De todas as faixas e pesos.

Neste ano, só na categoria adulto, tivemos muitas inscrições. Sendo elas 111 na faixa branca, 241 na faixa azul, 142 na faixa roxa, 74 na faixa marrom e 51 na faixa preta. O total de mulheres inscritas (só no adulto!) foi de 619 e esse número só tende a crescer nos próximos anos.

Já estamos ansiosas por 2018!

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Mundial de Jiu-Jitsu IBJJF 2017: confira a mulherada que brilhou!

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Conheça o BJJ Mums, o projeto para mães que não querem parar com os treinos de jiu-jitsu

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Mães: elas têm uma grande dificuldade ao planejar uma gravidez, se comparando ao homem. Enquanto ela carrega um ser humano dentro de si, talvez ela precise parar de treinar, ou talvez não, como falei na semana passada. Mas demanda muitas coisas além do que podemos esperar.

Essa semana, coincidentemente, num grupo do qual eu faço parte no Facebook, havia uma publicação da Ana Yagües que me chamou muito a atenção: ela criou uma página e um blog chamados BJJ Mums, para dar suporte às mulheres que treinam jiu-jitsu e tem filhos. Mas mais do que isso, ela criou um camp (um camp, no jiu-jitsu é realmente uma espécie de acampamento, em que as pessoas se juntam e tem diversas aulas durante alguns dias e respiram o jiu-jitsu durante aquele tempo) para atender as mães que querem levar seus filhos na academia. É muito além do que eu esperava. Fui conversar com ela para entender melhor como funciona.

Por eu nunca ter passado pela experiência de ter um filho, eu não imaginava como era difícil manter tudo em pé. Mas afinal, quem ia cuidar do meu filho para que eu fosse à academia? Hoje vejo pais levando seus filhos onde treino, por exemplo, e eles ficam realmente soltos. Não existe uma área para crianças, elas ficam muitas vezes no tatame ou brincando fora dele. É realmente preocupante. Já visitei muitas academais e somente em uma delas encontrei um espaço para crianças ficarem à vontade.

A Ana é da Espanha, mas atualmente vive na Alemanha. Ela tem duas filhas e, hoje em dia, é faixa preta e vive de jiu-jitsu. “Recentemente, minha vida mudou drasticamente. Os detalhes não são importantes, mas, como resultado, eu parei meu trabalho, fundei uma academia de jiu-jitsu (que sempre foi minha paixão) e dedico minha vida a esse sonho”, disse Ana.

Ana e sua filha.
Ana e sua filha. SportMMA


Ana conta com seu próprio espaço e aqui, ela fala um pouco de como o projeto começou.

Eu comecei a compartilhar minha experiência quando fiquei grávida pela primeira vez, há sete anos. Até então, eu não conhecia nenhuma outra mulher que treinava jiu-jitsu em nível de competição que tinha conseguido balancear a maternidade com os treinos, então eu tive que aprender através de minha própria vivência. Vi que eu não estava sozinha na luta e decidi compartilhar minhas experiências com esperança de alcançar e dar suporte a outras mulheres na mesma situação. Eu comecei um blog no qual falava sobre meus esforços e métodos de treinamento durante a gravidez, a recuperação depois do parto, a retomada dos treinamentos e alimentação do bebê… Eu recebi muitos feedbacks positivos e me senti muito bem por ser um exemplo para outras mulheres e por ter as inspirado de alguma forma.Mas quando eu fiquei grávida pela segunda vez eu percebi que ter duas crianças, treinar, competir e trabalhar numa universidade era muito cansativo, o que me fez parar de escrever. (…) Uma vez que minha academia de jiu-jitsu começou a funcionar, minha ideia de dar suporte a mulheres na modalidae voltou muito forte. Mas eu não queria esse blog apenas para dar conselhos, eu queria fazer algo bom para elas. E então, o BJJ Mums nasceu.

O blog pessoal da Ana conta muitas coisas bacanas para inspirar outras mulheres. E o BJJ Mums também é um espaço muito bom para compartilhar problemas e soluções da maternidade.

No BJJ Mums, Ana conta com a ajuda de uma também faixa preta Yasmin Sewgobing, que foi mãe em 2016 e se viu com as mesmas dificuldades que ela. Ana conta também que Yasmin é uma das pioneiras da organização de campeonatos femininos pela Europa e que ajuda muito no desenvolvimento do esporte no meio das mulheres.

Em relação ao camp para as mães, que vai acontecer dos dias 25 a 27 de agosto na Academia Nexus Fighter, em Hamburgo (Alemanha), Ana contou que gosta muito de frequentá-los e que está presente todos os anos, seja dando aulas ou participando como aluna. Ela gosta muito pelo fato de que lá você pode encontrar pessoas com interesses comuns, mas tendo que cuidar de crianças, fica complicado. “É um desafio fazer novos amigos quando seu filho está precisando de atenção”, conta.

Sendo assim, a faixa preta conta que alguns permitiam crianças, mas que elas ficavam “soltas”, enquanto outros, não autorizavam, sob o argumento de que elas poderiam atrapalhar o treinamento ou simplesmente por segurança. Então, ela montou um modelo de camp que permite com que as mães levem seus filhos, treinem e relaxem, sem preocupações.

O “BJJ Mums Camp” é focado em mães com suas crianças e suas necessidades. Nós temos aulas para as mães enquanto as crianças são cuidadas. As mais crescidas também terão aulas de jiu-jitsu em outra sala; para os menores, haverá uma babá e elas vão ficar em uma sala exclusiva para crianças. Nós teremos também aulas para as mães com suas crianças, para incentivar a participação de mães e filhos no esporte. E também teremos atividades sociais, como uma noite dedicada a mulheres em um spa, para que elas curtam sem seus filhos. E enquanto isso terá uma babá tomando conta deles também.

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Além disso, a super mãe conta que não tem ainda nenhum patrocínio tanto para o projeto, quanto para o BJJ Mums Camp. Ela iniciou tudo com seu próprio dinheiro e hoje, com o retorno que tem recebido, trabalha pesado para levar o BJJ Mums além da Alemanha.

Aproveitando a oportunidade, também pedi experiências pessoais da Ana em relação à maternidade e ao jiu-jitsu. A princípio, ela disse que a maior dificuldade foi ter que parar de treinar durante a gravidez. “Eu tive uma gravidez boa e saudável, sem nenhum tipo de problemas e treinei até o sétimo mês. Depois disso, tive que parar e isso é muito difícil para um atleta que é focado em outras coisas além de treinar”, acrescenta.

Porém, ela ressalta que o período da gravidez dura apenas nove meses e que o pior é o pós-parto, quando é preciso lidar com a “bomba” de conciliar maternidade e treinamentos. Mas nada a fez desistir.

A maior dificuldade para mim foi perder o primeiro aniversário da minha filha mais nova para competir no World Masters em 2014. Eu chorei muito quando tomei a decisão de viajar para competir e não sabia se estava sendo uma boa mãe por isso. Mas eu tinha o sonho de ganhar um campeonato mundial e eu me senti bem em ter essa chance. Eu fui, competi e me sagrei campeã no absoluto faixa marrom. Meu sonho tinha virado realidade e eu era uma pessoa viva e feliz!

Eu acho que quando você se torna mãe é muito importante não esquecer que você continua sendo uma mulher e precisa realizar seus sonhos, seja no esporte ou em qualquer outro lugar. Você não tem que sacrificar tudo pela sua criança, não é necessário! Você sacrifica muitas coisas, mas não tudo. Suas crianças vão crescer felizes se você for feliz também. Muitas mulheres se sentem mães más se elas não fizerem tudo pelos seus filhos e ai elas se tornam (não sempre) pessoas incompletas.

E Ana segue o jogo, inspirando outras mãe e mulheres que pretendem ter filhos também. Ela dá alguns conselhos para as mulheres que tem receio de ficarem grávidas e eu vou colocar aqui, na íntegra, para não perder nada:

Anna e suas filhas: Gisele e Anais
Anna e suas filhas: Gisele e Anais Arquivo pessoal

“Às mães que querem treinar enquanto estão grávidas, eu sempre digo o mesmo: entenda seu corpo. Muitos ginecologistas vão te proibir de treinar jiu-jitsu porque eles realmente não sabem o que é ou para você se manter segura. Minha ginecologista não me proibiu e eu não sou diferente de vocês. Você precisa achar alguém especializado em atletas ou que goste de esportes para te entender. Se você tem uma vida saudável é bem diferente, claro. Eu nunca brinquei com a vida das minhas filhas. Eu treinei enquanto meu corpo se sentia bem. Claro que não da mesma forma de quanto eu não estava grávida. Quando meu corpo ‘disse’ para não me exercitar mais, então eu parei e fiz algo diferente. Tem muitas formas de treinar jiu-jitsu e outras coisas, dependendo do seu estado.

Às mães que querem continuar treinando e tem dificuldades com crianças: se te permitem levar crianças para a academia, levem. Mesmo que cheire um pouco mal, é um ambiente saudável para ficar durante muitas horas: tem esporte, pessoas felizes, ambiente agradável.

Se você não pode levá-los, peça ajuda. Para a avó, ao pai (se ele também treina, vocês podem revezar), para amigos ou também para outras mães. Tem muitas formas.

 Se sua família mora longe, como no meu caso, contrate uma babá. É a melhor coisa que eu recomendo. Seu dinheiro será menor no final do mês, mas é um ótimo investimento. Tenho uma há um ano e é de grande ajuda!”

Ana também aproveitou para deixar um recado para as academias. Ela diz que sabe que não é fácil treinar com crianças, seja por segurança ou por elas interromperem os treinos. “Eu sei! Acreditem: eu sei”, diz. Mas ela aconselha que caso tenha um espaço sobrando, coloque um carpete com brinquedos para que as crianças se distraiam e esqueçam que seus pais estão treinando.

Muitas academias de musculação têm (o espaço kids), mas no jiu-jitsu não é muito comum. Ajudem as famílias com crianças como puderem. Você vai trazer mais gente, seus alunos ficarão mais felizes, vocês não vão perder alunos que tenham filhos no futuro e será bom inclusive para sua academia.

Nada mais inspirador do que mulheres que querem fazer o bem para si e para a comunidade do jiu-jitsu, ainda mais na semana das mães, né? Em agosto, prometo vir contar aqui todos os detalhes do BJJ Mums Camp!

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Assédio nos tatames (parte final): Como e para quem reportar?

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Clique nos links para ler os capítulos anteriores do especial:

Parte 1 – Introdução
Parte 2 – A culpa não é da mulher
Parte 3 – Dentro ou fora?
Parte 4 – Também pode ser moral

É realmente difícil reportar. Na pesquisa muitas meninas revelaram terem medo de levar para frente e não serem levadas a sério. Se acontece? Sim.

"(…) Na época, eu era faixa branca, o treino estava normal e tinha um novato que já era graduado vindo de outra equipe. (…) no último rola da noite me colocaram pra rolar com esse menino e no meio do rola, ele colocou a mão nos meus seios. Eu na hora o empurrei, porque ele tinha puxado o meu top. Me ajeitei e voltei a rolar. Naquele instante pensei ter sido coisa do momento (…) mas ele me mandou mensagens pelo Facebook que me fizeram chorar. Conversei com meu professor sobre o ocorrido, mostrei as conversas a ele. E ele falou que eu estava sendo fresca e não me levou a sério. Disse ao professor que caso ele me colocasse para rolar com o rapaz novamente, eu iria parar de treinar naquele local. No outro dia, fui treinar, meu professor não foi. Meu amigo que estava puxando treino foi me colocar para rolar com ele e eu disse que não iria. Mostrei a ele tudo o que o rapaz tinha me dito. Meu amigo rolou com ele, e nunca mais aquele garoto voltou."

Como os homens não passam por esse tipo de constrangimento (não estamos dizendo que mulheres não “assediam homens”, e sim que a forma de constrangimento é diferente) é muito difícil reportar com credibilidade, uma vez que muitos não sabem diferenciar elogio de assédio.Por isso, é muito importante falarmos sobre isso, pois nosso papel aqui é conscientizar e mostrar que o problema não é a roupa curta ou a simpatia, mas sim o discernimento.

Sendo assim, estando em um ambiente de treino correto, você deve se sentir mais do que à vontade, mas na obrigação de reportar ao seu professor. Se ele não te levar a sério, significa que você está no lugar errado.

Mas e quando o assédio vem do próprio professor? Bem, nesse caso, realmente, fica muito difícil saber a quem reportar. Uma vez que o professor é nosso espelho dentro (e fora) do tatame e, tendo ele uma atitude errada, chegamos até a repensar sobre o que estamos fazendo lá.

Em qualquer um dos casos é importante procurarmos a justiça. Há muitos procedimentos jurídicos para qualquer tipo de assédio em que o agressor pode ser punido severamente. Por isso conversei com a advogada especialista em ações de reparação civil por danos – Doutora Denize Tonelotto, que nos mostrou um caminho a seguir e nos livrarmos desse tipo de gente. Ela começou contando sobre o resultado de uma pesquisa realizada no ano de 1995 em que, naquela época, 52% das mulheres entrevistadas já haviam passado por uma situação de assédio. Imagine hoje.

Dra. Denize conta que as mulheres têm receio de denunciar o assédio sexual, porque muitas vezes levam a culpa e o assediador sempre busca uma maneira de justificar sua atitude, culpando principalmente a vítima. “A Síndrome de Burnout é uma doença psicológica desenvolvida após longo esgotamento emocional e normalmente acomete as pessoas vítimas de assédio”, completa.

Para quem tem dúvida se há uma proteção na lei contra o assédio moral e sexual ela conta que sim:

"A repressão ao assédio sexual no Brasil está garantida na Constituição Federal – Lei maior do nosso país. 'Art. 5.º – […] Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (…) X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação'.”

Dra. Denize explica que o assédio sexual pode ocorrer por patrocinadores ou professores que se aproveitam de sua influência para cometer o crime. “Através de seu cargo ou influência, ele pode exercer o assédio obrigando a atleta a um relacionamento como ‘troca de favores’, oferecendo um lugar no time ou uma contratação”, conta a advogada. Além de nos mostrar que a punição encontra-se no Código Penal:

“Assédio sexual. Art. 216-A. Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função. Pena – detenção, de 1 a 2 anos.”

Ela nos deu um exemplo de caso marcante, da atleta Joanna Maranhão, que já esteve presente na ESPN contando abertamente sobre o que aconteceu com ela nos bastidores da natação, mas que vale sempre lembrar, principalmente por Joanna ser um exemplo de que não devemos nos manter caladas por medo ou receio do que pode vir a acontecer. Denize afirma:

"A nadadora Joanna Maranhão travou um processo na justiça com seu ex-treinador. Em relatos, a nadadora contou que, desde os 9 anos de idade, seu treinador passou a abusar dela e isso perdurou por muito tempo. Teve sua infância roubada. Sua adolescência comprometida. Tentou suicídio por duas vezes e com muita luta conseguiu superar tudo isso. A coragem da nadadora em revelar, mesmo depois de adulta os abusos que sofreu, motivou a criação de uma lei que ganhou seu nome e protege todos os menores de idade, permitindo que façam suas denúncias quando se tornem adultos e evitando que o crime seja considerado prescrito."

Além do mais, Dra. Denize também orienta como a vítima deve se comportar em um caso de assédio, principalmente para conseguir reunir o máximo de provas: “Tenha sempre em mente que reunir provas é fundamental para que a vítima vença o processo na Justiça e obtenha uma indenizaçãodiz a advogadaA indenização em um caso como esse é o mínimo que o assediador deve à vítima, e ela de forma alguma significa perdão ou gratificação, trata-se de um valor simbólico pelo assédio à dignidade de alguém.

"É muito importante que a vítima de assédio tenha uma estratégia: 1) resista à agressão e às ofensas o tanto quanto possível; 2) proteja-se e ganhe tempo enquanto reúne provas (por exemplo: gravações de conversas, bilhetes, mensagens, e-mails e tudo que possa provar sua denúncia); 3) procure um bom advogado e ele vai orientar a fazer uma denúncia junto a uma delegacia da mulher e também ao comitê responsável pelo seu esporte.  Sempre que a vítima consegue provar a agressão, a justiça tem sido implacável nas condenações aos agressores."

E em relação à indenização, Dra. Denize defende que é sempre importante ingressar com a ação para que sirva como uma forma de desestimular o agressor a cometer novos assédios. Ela conta que o valor pode ser variável de acordo com cada caso e diz que a pena deve ser pesada a ponto de o agressor nunca mais querer cometer o crime.

"Os valores ficam a critério do juiz que analisará cada caso, sua repercussão na vida da atleta e as prováveis sequelas que a agressão poderá trazer para sua vida. Algumas agressões nunca serão superadas. Portanto, compete ao juiz valer-se das provas e do livre convencimento para aplicar a pena ao ofensor. Existe uma teoria no direito que diz a que a pena não deve ser tão leve que seja motivação para a prática de um novo delito nem dura demais que signifique enriquecimento do ofendido. O juiz colocará cada caso na balança e decidirá. Existem condenações que variam entre dez mil e até dois milhões de reais. Cada caso é um caso. Cada vida uma vida. Cada ser humano um ser único, com uma história única de vida".

Portanto meninas, tendo em mãos provas que mostrem o que você sofreu nada será em vão, por isso é muito importante termos ao nosso lado um bom advogado, porque só um profissional te dirá o caminho certo a seguir.

Sabemos que é muito difícil reagir e pensar no que fazer. Temos vergonha, medo, receio… E isso pode nos causar traumas psicológicos imensos. Mas é muito importante levarmos para frente e mostrar que assediadores não passarão. Muitas meninas afirmaram se arrepender de não terem reagido e deixado passar, mas reajam! Só tendo voz seremos ouvidas e só assim esse tipo de gente vai mudar.

Quero deixar claro uma coisa aqui: em momento algum estamos dizendo que o problema é o tatame ou que o jiu-jitsu ensina isso. Muito pelo contrário, sabemos muito bem que esse é o tipo de coisa jamais ensinada dentro de um tatame e que vai contra todos os princípios de nosso esporte (e de qualquer outro, com certeza), mas isso vem de fora e quero deixar claro que: não aceitamos assediadores, estupradores ou seja lá o que for, no jiu-jitsu. Em academias sérias a punição é dura e o agressor não continua lá dentro. Só não podemos fechar os olhos e fingir que isso não acontece em nosso meio, porque é tido como algo cultural e até “normal” aqui no Brasil.

Isso não se limita ao esporte. Na semana passada saiu uma notícia em que o ator José Mayer assediou uma figurinista da novela e em seguida, o ator se justificou dizendo que quem cometeu o assédio foi seu personagem não ele. Ah, claro, por um momento a notícia foi tirada do ar. Mas devido ao barulho feito por muitas pessoas que se indignaram com o caso, o ator foi afastado da próxima novela da emissora. Esse é um exemplo de que se nos calarmos é dar força a essas pessoas.

Outro caso um pouco mais antigo foi da jornalista assediada pelo cantor Mc Biel, que teve coragem de denunciar e infelizmente perdeu o emprego.

Temos também o recente caso da esposa do cantor Victor, da dupla Victor e Léo que acusou o marido de agressão. O cantor fez milhões de desabafos e ainda está impune na história. É importante não nos esquecermos!

O que temos de comum em todos os casos? O famoso “abafa o caso”. A figurinista foi duramente julgada em redes sociais por pessoas que não a conhecem, mas “conhecem” o grande ator que é José Mayer e, claro, continua protagonizando. A jornalista assediada por Mc Biel foi afastada da empresa na semana seguinte do assédio por “contenção de gastos” – enquanto Biel continua na mídia. A esposa do Victor retirou a queixa, eles continuam casados e claro, Victor continua com seus shows.

Vai assédio, vem assédio e a mulher sempre é esquecida, enquanto o homem é venerado. Não desistam, meninas! Nunca se calem!

ELOGIEM MINHA GUARDA E NÃO O MEU CORPO. Treinamos duramente, suamos, vamos atrás de patrocínios e queremos ser reconhecidas pelo nosso esforço e não pela nossa beleza ou simpatia.

Obrigada a todxs que apoiaram desde o início. Tenhamos paciência para fazer nossos amigos que ainda não entendem, entenderem o quanto o caso é importante. A questão não deve ser polêmica, mas tratada de forma séria e é nossa função conscientizar cada um.

Oss!

Agradecimentos:

Pamella Costa Almeida, revisora textual.
E-mail para contato: pamellacalmeida@gmail.com

Denize Tonelotto da Tonelotto & Advogados Associados
Rua Luiz Pinto Flaquer, 441- CJ. 51- Centro – Santo André.
Tel.: (11) 4438-8998 / (11) 4438-8165
E-mail: tonelottoadvocacia@gmail.com

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Assédio nos tatames (parte final): Como e para quem reportar?

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Assédio nos tatames (parte 4): Também pode ser moral

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Clique nos links para ler os capítulos anteriores do especial:

Parte 1 – Introdução
Parte 2 – A culpa não é da mulher
Parte 3 – Dentro ou fora?

Na verdade a minha intenção era falar apenas sobre assédio sexual, mas muitas mulheres alertaram sobre um ponto, que falo um pouco em meu primeiro texto sobre machismo:  o assédio moral. Portanto, quando eu montei as perguntas da pesquisa, como não havia pensado no moral, acabei não acrescentando. Mas venho aqui mostrar o resultado de “como foi o assédio?”.

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O assédio moral parte da dúvida quanto à capacidade de uma pessoa, no jiu-jitsu isso acontece quando alguém fala algo como “vou rolar com ela porque ela é menina e quero descansar”.

"Alguns rapazes nos inferiorizam por sermos mais fracas e mais delicadas. Tem um faixa roxa na minha equipe que nunca treinou comigo e ele fala que não treina com mulheres porque não vão acrescentar nada ao jogo dele, fora esse sempre tem um comentário sobre descansar rolando com uma garota, posturas grosseiras de homens vazios, que têm medo do quanto uma mulher pode evoluir e se tornar o que quiser, mesmo no jiu-jitsu."

Esse tipo de julgamento de capacidade pode até virar uma forma de bullying.

"Tive decepções com meu antigo professor, depois de faixa preta ele virou outra pessoa e troquei de academia por conta disso. Ele passou a ter posturas erradas como chegar atrasado, falar mal dos alunos e inventar histórias. Foram dois anos e meio, treinando todos os dias e me abdicando de tantas coisas… Sempre fui uma aluna empenhada e ver seu professor dizer que me graduou ‘por dó’, dói.  Hoje estou treinando em outro time, mas dentro da mesma equipe. Mas sonhava tanto em receber minha faixa sendo amarrada pelo meu mestre como sonhava em ser a primeira faixa preta dele. Tinha respeito e admiração. E tudo isso foi pelo ralo. Me sinto meio ridícula e às vezes penso em parar."

Falando em relação ao “vou descansar com ela porque ela é mulher”, o que costuma acontecer bastante no meio do jiu-jitsu são os homens não aceitarem perder para mulheres (na verdade rola na vida, e o jiu-jitsu é só mais um meio). Isso, infelizmente, causa um constrangimento muito maior do que apenas mental, mas também pode causar sérias consequências físicas, já que não temos como negar: o homem é geneticamente mais forte do que uma mulher, já que ele produz algo chamado testosterona que compõe timidamente o corpo feminino, em números quase insignificantes quando comparada à quantidade presente no corpo masculino. Sendo assim, os caras acabam vindo para cima na intenção de se saírem melhor e abusando de sua força, em uma verdadeira guerra dos sexos sem sentido, pois se esquecem que o jiu-jitsu foi criado para o mais fraco ganhar do mais forte.

Isso me fez lembrar um vídeo engraçado que ilustra um pouco essa coisa de técnica superior. A Mackenzie Dern, na época faixa marrom, esteve num programa de televisão japonês sendo desafiada a confrontar um faixa preta de judô. Algumas pessoas do judô costumam treinar jiu-jitsu e vice versa, mas para quem não é dos dois lados, o fato é que o judoca tem desvantagem no chão e o jiu-jiteiro, em pé. Nesse vídeo, Mackenzie deu um trabalhão para o judoca e, nitidamente, ele fica um pouco incomodado em alguns momentos da luta e quer se aproveitar de sua força.

Mas muitas vezes o cara não sabe o que faz e acaba mesmo machucando a menina usando demasiada força. Eu falo um pouco disso também no texto sobre machismo que citei no início.

Há um colega de treino que várias meninas tiveram problema com ele. Além de discursos machistas (…), comigo aconteceu um episódio que me traumatizou: (…) Durante um treino, tive que fazer um rola com ele. Ele me finalizou com um estrangulamento na montada. Após isso, ele começou a explicar com certa brutalidade o porquê eu fui finalizada. “Se você fica olhando para cima, pega o seu pescoço” e nisso ele me estrangulava a ponto de tossir; “Agora se você virar o rosto (e empurrava o meu rosto contra o tatame com força), aí não pega!”. Ele repetiu isso umas três vezes, me estrangulando com uma força desnecessária, já que ele estava fazendo uma demonstração e não lutando. Depois desse episódio, eu fujo dele no tatame. Nunca mais quis rolar com ele.

E mais: quem nunca passou por uma situação do cara pedir para parar a luta bem durante aquele golpe primordial que você estava aplicando que atire a primeira pedra! Você está lá, no ápice de seu rola, chega naquele tão esperado arm lock e o cara para: “viu, deixa eu te mostrar como você encaixa melhor”.

Também é comum uma mulher finalizar um homem e no final ele falar “nossa, eu estava cansado”. Aham, querido. Mérito do seu cansaço, mesmo. Mas percebam que toda academia tem o cara que não rola com mulher. A desculpa: se sentir desconfortável. Desconforto por quê? No jiu-jitsu somos todos iguais. Será que é isso mesmo?

O que também acontece é que há simplesmente os caras que não acreditam nas meninas, sejam eles professores ou alunos. Estando lá, temos um objetivo em comum. Somos minoria, mas não precisam nos assustar por estarmos ali. Queremos a mesma coisa e vamos chegar tão longe quanto (ou até mais) que vocês.

Ah, e uma vez falei também aqui sobre a Monique Elias ser toda vaidosa e treinar, porque eu acho engraçado que a galera pensa que as meninas do jiu-jitsu não têm o direito de se arrumar. Isso parte justamente da ideia de que, para ser dura e forte é preciso chegar o mais próximo possível do que são os homens, daí eles esperam que nós possamos negar tudo que é do universo feminino. Uma coisa não exclui a outra!

Brincadeiras de mau gosto e piadas machistas são coisas muito comuns que muitas vezes acabam virando normal (…) Já ouvi de um mestre bem próximo que só dá aulas para mulher porque não pode dizer não. Uma vez em um rola, o meu oponente usou muita força. Quando reclamei, ele me mandou ir para o salão de beleza porque ali era lugar de homem. (…)

Nós vamos ao salão de beleza, sim, mas isso não significa que não podemos treinar por conta disso. Podemos ser o que quisermos, e então se quisermos treinar depois de fazer uma escova, nós podemos. Ou se quisermos sair do tatame, tomar um banho e colocar um vestido maravilhoso e salto alto, também podemos. Não somos piores no jiu-jitsu por sermos vaidosas ou arrumadas e comentários desse tipo nos incomodam. Bem como aqueles comentários, do tipo “Quer moleza, vai fazer ballet”, sabe? – Amigo, vai lá fazer uma aula de ballet e depois você conta pra gente.

"(…) Mostrei nos treinos que não estava ali por modinha ou para ficar olhando físico dos caras, eu treinava pesado como eles e era caladona na minha, então numa noite rolando tinha dois rapazes quando comentaram pra todo mundo ouvir que eu era sapatão. Fiquei muito mal com isso. (…) Eu estava muito bem nos treinos sempre fui muito competitiva e dava o meu melhor, tinha me apaixonado pelo Jiu-Jitsu e já tinha perdido 10kg  em pouco tempo, mas com tudo isso decide parar e não procurar outra academia por conta do que já passei (…)."

Pois é, muitas vezes temos que engolir o choro, porque quando parte de nós ele é interpretado como uma demonstração de fraqueza. Quantas vezes ainda teremos que ouvir “tô rolando igual menininha hoje”? Algumas pessoas não falam por mal, elas realmente não têm nada contra nós, mas, por viverem em uma cultura em que falar isso é normal, acabam repetindo frases desse tipo sem se darem conta do significado (e, aos desavisados: o significado é de que mulher é frágil e fraca). Faz parte da nossa desconstrução lembrar-lhes que não somos uma massa única com ações e reações iguais, por isso “como uma garota” não deveria ser algo ruim.

Segue também esse por caminho o fato de termos que fazer algo sempre de forma primorosa para que sejamos reconhecidas. No jiu-jitsu, não podemos perder, não podemos ser finalizadas e não podemos desistir sob pena de sermos tachadas de fracas e ouvirmos que “mulher é assim mesmo”. Enquanto os homens, nessas mesmas situações, podem facilmente ter qualquer atitude. Temos que nos provar merecedoras inúmeras vezes mais, para que possamos, então, pertencer àquele lugar.

Mas, claro, temos as exceções e mais pra frente vou publicar um vídeo aqui com o direito de defesa masculino, hahaha porque por sorte temos homens sim que reconhecem o girl power!

Quem aqui é sexo frágil, minha gente? Caso tenham dúvidas, é só cair pra dentro, hahaha.

Bora para os treinos e semana que vem temos o último texto sobre esse assunto chato, porém necessário. Vamos falar sobre como denunciar. Até lá!

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Assédio nos tatames (parte 4): Também pode ser moral

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Assédio nos tatames (parte 3): Dentro ou fora?

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Clique nos links para ler os capítulos anteriores do especial:

Parte 1 – Introdução
Parte 2 – A culpa não é da mulher

Sim, os assédios ocorrem dentro e fora do tatame. Creio que por ser um esporte tipicamente masculino, os homens não têm muito discernimento do que é ou não assédio, porém nosso papel é conscientizar e, mais que isso, fazer com que os homens já conscientizados mudem a cabeça dos “não conscientizados” também. Sabemos bem que um homem escuta de forma mais receptiva quando outro homem fala, por isso o papel deles é fundamental aqui.

"(…) Sinto muita falta da presença feminina nos treinos, quando vou competir percebo a diferença nas posições e no jeito de rolar, porém ocorrendo situações como estas, dificilmente a presença delas se consolidará. E nosso esporte possui muito contato físico, encostamos em órgãos sexuais sim, assim como todo o restante do corpo, com apenas o intuito de pontuar e finalizar. Durante o rola, nosso pensamento fica em busca das transições que o jiu-jitsu proporciona e nada mais! Caso o parceiro(a) não esteja com o mesmo pensamento, significa que ele(a) não está lugar certo, para isso sugiro que procure um bordel e não um tatame."

Dito isso, temos mais um choque: segundo a pesquisa, 48,4% das mulheres relatam ter sofrido assédio no tatame e apenas 18,6%, fora dele.

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“O mestre me chamou no WhatsApp porque iria graduar meu esposo e queria que eu comprasse a faixa roxa. Aí eu disse que ok. Ele me disse em seguida que minha faixa azul eu pegaria com ele quando fosse treinar sozinha."

"Uma amiga havia começado a praticar jiu-jitsu e como ela trabalhava em outra cidade, procurou um local para treinar. Ela conheceu um cara que ensinava jiu-jitsu na cidade onde ela trabalhava e começou a conversar com ele pelo chat do Facebook para saber mais sobre o trabalho que ele desenvolvia. Em uma das conversas, ele começou a dizer que o objetivo dela em treinar jiu-jitsu era de se agarrar com ele e tal. Ela ficou muito decepcionada e também assustada, ele trabalhava com crianças e ficou imaginando como ele deveria tratar suas alunas e qual o perigo que elas correm. Os laços foram cortados e ela deu uma bronca nele sobre sua postura de professor e sobre o assédio. No final, ela teve que parar de treinar por falta de tempo e de local adequado.”

O que tenho a dizer de quem assedia dentro do tatame: caro, você não entendeu o que é jiu-jitsu. O que é uma pena, porque o esporte é deturpado por conta de meia dúzia de pessoas que não sabem o que estão fazendo lá.

Já aconteceu de namoradas dos meus amigos de tatame contarem que não se sentem confortáveis em ver seus parceiros rolando com mulheres. Como já falamos, é muito difícil entender o jiu-jitsu para quem está de fora, porque algumas posições podem parecer estranhas diante dos olhos de uma pessoa leiga, devido ao contato intenso. Mas precisamos respeitar e sermos respeitadas para que não haja nenhum tipo de desconforto.

Outra coisa que também já ocorreu foram relatos de homens, do meio do jiu-jitsu mesmo, se sentirem desconfortáveis em aceitar que sua parceira treinasse fora da academia ou sem a presença dele, já que “não confia nos caras”. Então, pessoas, vamos pensar melhor na hora de assediar uma mulher para que nosso esporte possa crescer e se desenvolver cada vez mais. Se você está no jiu-jitsu unicamente para abusar de uma mulher, você não é digno de habitar aquele lugar (e nem nenhum outro, na verdade).

E para quem assedia fora do tatame, o papo vai um pouco além. Dentro do jiu-jitsu, aprendemos regras e disciplinas que podemos levar para a vida. Tudo agrega muito. Mas não podemos culpar o jiu-jitsu pelo péssimo hábito de pessoas que, com o perdão do clichê, “não tiveram educação em casa”. Sim, educação vem de berço, é um conjunto de costumes… Mas, sim, nós podemos ajudar na desconstrução também.

É uma pena ter que falar ainda sobre esse tipo de coisa, mas se você está a fim de alguém que treina com você, tudo bem, isso não é nada demais e pode acontecer. Espere acabar o treino, converse com a pessoa como alguém civilizado e não chegue com aquele tipo de “elogio” babaca. E lembre-se: não, é sempre não.

Aos mestres que insistem em abusar de seu poder para dar em cima das suas alunas: parem. Você ter uma faixa preta amarrada na cintura diz que você persistiu, mas não que você pode tudo. Você não é livre para assediar pessoas hierarquicamente subordinadas por sua posição de professor e mestre, e suas alunas não são sua propriedade. Também não é um crime um professor sair com uma aluna. Afinal, fora do tatame somos seres comuns, com necessidades, desejos e, sim, é completamente normal paquerar e, mais ainda, se envolver com pessoas do jiu-jitsu por ser o nosso mundo. Mas tudo de uma forma completamente natural e com consentimento. Senão, nada feito.

Embora não seja um assédio direto, mas algo que pode incomodar é o fato de toda vez que uma menina nova chega para treinar rolarem diversos comentários. Sim, somos poucas e quando chegamos para treinar, é normal que a atenção esteja voltada para nós. Esse tipo de ação não atrapalha se feita de forma respeitosa, mas do contrário, podem acabar sendo desconfortáveis para quem ouvir. Não é legal falar que “nossa, imagine que legal tomar um triângulo dela” (o triângulo é um golpe que a cabeça fica literalmente entre as pernas de quem está aplicando) porque isso também é falta de respeito com todas as pessoas que praticam a arte, um comentário desse tipo dá a entender que em um triângulo é possível se aproveitar de alguém, isso deixa todas as pessoas suscetíveis a um assédio, por isso cuidado com o que você fala. Homens, não tolerem esse tipo de comentário! Não é feio tentar corrigir seu amigo. Faz bem para a arte!

Semana que vem vamos falar de assédio moral, que era algo que eu não tinha pensado de imediato, mas que recebi muitos relatos sobre. Então, até lá. E lembrem-se: elogie nossa guarda e não o nosso corpo!

Fonte: Mayara Munhos

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Assédio nos tatames (parte 3): Dentro ou fora?

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Assédio nos tatames (parte 1) – Introdução

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Hoje vou precisar de espaço, porque o assunto aqui é complicado: o assédio nos tatames. Mas, não rotulem nosso esporte por conta disso! Infelizmente, o assédio sexual é algo cultural em nosso país, embora muita gente não acredite, para essas pessoas, um dado importante e que é sempre ressaltado: a cada onze minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. Talvez nós já tenhamos nos acostumado com isso e pensamos que devemos mudar nossos meios de convívio e nossas atitudes para amenizar, mas, por favor, meninas, não se culpem. O assédio é culpa do agressor e não da vítima.

"Foi durante o rola que o professor e um parceiro de treino se aproveitaram do momento de contato. Tentei conversar antes de sair, mas fiquei constrangida com medo do que poderia acontecer depois, pois sempre dizem 'é culpa da mulher' ou 'você correspondeu à investida'. Acho que deveria ter punições sérias nas federações de jiu-jitsu."

Eu decidi escrever esse texto porque converso diariamente com mulheres deste meio e percebi que muitas delas relatam ter sofrido algum tipo de assédio no tatame ou fora dele, seja por colegas de equipe ou então pelo próprio professor. Montei uma pesquisa para descobrir se era algo específico das pessoas que conversam comigo ou se é geral. Infelizmente sim, é geral. 159 mulheres declararam na pesquisa terem sofrido assédio (61,6%). Outras 48,4% declararam conhecer pessoas próximas que também sofreram.

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Primeiro precisamos caracterizar: o que é assédio? Um ato se torna assédio quando realizado sem consentimento da vítima que, muitas vezes, não sabe muito bem determinar se aquilo pode ser classificado como tal ou não.

O assédio verbal pode facilmente ser confundido com um elogio e é realmente difícil de entender. Muitas vezes, o agressor usa frases de duplo sentido para mascarar. E a gente fica como? Sem saber o que responder ou sem ter como gritar, uma vez que o cara pode dizer que “confundimos as coisas”. Também pode ser caracterizado como uma sucessão de “elogios” que você já fez de tudo para cortar o cara e mesmo assim ele continua.

"Um professor faixa preta e ajudante da minha antiga equipe, casado, insistiu e insiste até hoje em me assediar pelas redes sociais falando sobre minha aparência fisica e me convidando para sair, algo que já esclareci há anos que não tenho interesse".

"(…) Todos estavam rolando com o mestre, porém quando chegou na minha vez, ele me incentivava de uma forma diferente como: 'vamos gatinha!' 'vamos minha linda!' (…)"

Já o físico, principalmente neste meio das artes marciais, é ainda mais difícil. O jiu-jitsu é um esporte de muito contato e quem está no meio entende: é inevitável que algumas “mãos bobas” escapem ou que algumas “posições constrangedoras” sejam executadas durante a luta. E isso é completamente normal. É muito diferente procurar esse tipo de posição e escorregar a mão insistentemente.

Durante um treino, enquanto o professor passava uma posição a partir da montada, um antigo colega de treino insinuou que seria maravilhoso se nós dois estivéssemos na mesma posição ‘de verdade’.

'O assédio ocorreu antes da aula com cantadas e propostas. E durante a aula com algumas pegadas desnecessárias, suspiros no ouvido, fora do que é habitual durante a luta'.

'Durante uma movimentação ele colou no meu ouvido e me chamou de gostosa. Em momento oportuno o coloquei no seu devido lugar para que me respeitasse'.

'Enquanto eu estava no meio rolando chamei o próximo da fila. (…) Quando todos estavam ocupados rolando, o meu parceiro de treino tocou em minhas partes íntimas. Até então pensei que tinha sido por acidente porque isso ocorre às vezes, mas minutos depois ele me beijou. Então eu parei, sai e fingi que ele tinha me finalizado. Desde então fica meio complicado ir para os treinos'.

Então, como se calar diante de tantos depoimentos constrangedores? É difícil, porque muitas vezes o assédio vem do próprio professor, o que faz com que nem saibamos para quem reportar o caso. 70 pessoas relataram ter sofrido assédio do professor. 130, de amigos de treino.

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"Fora ser assediada pelo próprio professor, casado, fora do tatame, fui em uma das vezes assediada por um companheiro de treino dentro do tatame (…) ele começou a forçar me beijar, e quando eu tentava desviar ele me machucava, e mesmo me finalizando e eu 'batendo' pra parar ele dizia que só pararia quando eu desse um beijo nele (…). Por fim, depois desse dia pedi ao mestre que não me pusesse para treinar com esse aluno novamente, e quando me questionou me senti acuada e preferi não falar… sentia medo de ele fazer algo comigo dentro ou fora do tatame, porém me arrependo de no mesmo momento não ter gritado."

“(…) Na época eu era faixa branca, o treino estava normal e tinha um novato que já era graduado vindo de outra equipe. (…) no último rola da noite me colocaram com esse menino e no meio do exercício, ele colocou a mão nos meus seios. Eu na hora empurrei ele, porque ele tinha puxado o meu top. Me ajeitei e voltei a rolar. Na hora pensei ter sido coisa do momento (…) mas ele me mandou mensagens pelo facebook que me fizeram chorar. Conversei com meu professor sobre o ocorrido, mostrei as conversas a ele. E nisso ele falou que eu estava sendo fresca e não me levou a sério. Disse a ele que caso ele me colocasse pra rolar com o rapaz novamente, eu iria parar de treinar naquele local. No outro dia fui treinar, meu professor não foi. Meu amigo estava puxando treino e foi me colocar pra rolar com o tal novato, mas eu disse que não iria e mostrei tudo o que o rapaz tinha me dito. Meu amigo rolou com ele, e nunca mais ele voltou.”

Aqui acho importante ressaltar algo aos homens: nunca desmereça um assédio. É muita ‘homice’ achar que é frescura. A partir do momento em que você viu um assédio e se calou, você está apoiando.

Para não me estender muito, vou voltar na semana que vem, porque infelizmente tem muita história pra contar.

ELOGIE NOSSA GUARDA, NÃO NOSSO CORPO!

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Assédio nos tatames (parte 1) – Introdução

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As mulheres que me inspiram no jiu-jitsu também vão te inspirar

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Minha primeira inspiração no jiu-jitsu foi Kyra Gracie
Minha primeira inspiração no jiu-jitsu foi Kyra Gracie Instagram @kyragracie

Quando comecei a treinar eu simplesmente não tinha “uma ídola” no jiu-jitsu. O acesso à internet em casa era só discado (bons tempos que eu só usava aos finais de semana depois das 14h). Jiu-jitsu na televisão? Nem faço ideia! Mulheres na academia eram pouquíssimas. Então eu entrei aos treze anos no tatame pela primeira vez unicamente porque queria lutar. Mas aos poucos é impossível não se envolver e então, eu procurei um pouco sobre personalidades do jiu-jitsu.

Milhões de homens e quem? Kyra Gracie. Não há como falar de jiu-jitsu feminino sem falar dela. Kyra foi a primeira mulher que vi faixa preta no jiu-jitsu e eu achava que ela era a única. Eu realmente não pesquisava hahaha. E então, quando alguém me perguntava “quem você quer ser quando crescer?”, eu só sabia responder “Kyra”. Não só porque ela era a única na minha cabeça até então, mas ela é realmente incrível. A primeira faixa preta mulher da família Gracie, inúmeras vezes campeã Mundial, bem como do ADCC e de outros campeonatos como Pan Americano, Brasileiro… A Kyra para mim foi uma grande inspiração, foi nome de passarinho e por aí vai. Eu achava incrível como uma mulher podia ser tão forte, linda, tantas vezes campeã e usar kimono rosa! Rs.

Dentro da minha equipe da época, eu olhava para a Grace Kelly, que hoje mora e treina em Portugal. Quando entrei ela ainda era faixa branca, mas a vi graduar faixa azul e só conseguia pensar “preciso ser igual a ela, ser forte como ela e chegar um dia onde ela está”. Tanto que para mim, a faixa azul mais tarde foi a maior conquista que poderia ter tido no jiu-jitsu. Já passei pela branca, amarela, laranja… Mas a azul veio com um gosto muito especial, porque tive uma referência nela.

Me ausentei do jiu-jitsu e, seis anos depois, quando voltei, tive um enorme baque em relação a mulheres. Elas eram MUITAS se comparadas com aquela época! E eu ficava completamente aliviada em ver como esse mundo tinha crescido. Só conseguia pensar ‘meu Deus, onde é que eu estive esse tempo todo? Me atualiza!’.

Parecia mentira, mas eu podia me inspirar em mulheres que treinavam ao meu lado, porque elas tinham graduações avançadas e eu jamais tinha sequer lutado com alguém que fosse além da faixa azul. Meu primeiro contato com uma mulher mega graduada foi com Monica Istamati, hoje faixa preta. Na época ela era faixa marrom e estávamos num treino especial de inverno (o Kangueiko) em 2014. Ela olhou pra mim e disse “vamos?”. Parei, né. Meu mundo parou! Uma faixa marrom menina me chamando pra rolar. Tentei até ousar e dar uma omoplata nela, mas não deu certo.

O treino acabou, nos cumprimentamos.
Eu: nossa, eu quase nunca consigo dar uma omoplata.
Ela: bom, perdeu a oportunidade.

Desse dia em diante eu vi que sim, era possível. Cheguei em casa pensando em como tinha sido legal rolar com alguém muito mais graduada do que eu. Porque não era só a Kyra, tão longe de mim, que tinha alcançado a faixa preta. Eu via a Ângela treinando às vezes do meu lado já black belt (foi quem fiz amarrar minha faixa azul na cintura pela primeira vez, para tentar pegar algum superpoder). E na metade de 2015 eu via a Monica receber a sua faixa preta, depois de um discurso do sensei que dizia algo como “é tão difícil vermos mulheres chegarem até aqui!”. E eu em prantos, junto com ela e com um tantão de gente vendo aquilo. Vi a Nath alcançar sua faixa marrom já sendo black belt de judô. E também vi a Bia, que treina lá em Natal (mas é próxima de nossa equipe) ser faixa roxa de Aikidô, preta de judô, de repente, de jiu-jitsu também.

Ainda com tantos exemplos perto de mim, também pude criar minhas “ídolas” intocáveis, que na verdade são mais palpáveis do que imaginamos. Não digo no sentido literal da palavra, mas sempre observo como é fácil o acesso aos nossos ídolos no jiu-jitsu. É um mundo tão gigante e ao mesmo tempo, tão pequeno em que todos se conhecem e são altamente sociáveis.

Tive oportunidades de conversar muito com a Monique Elias, que é uma mulher incrível de uma história bem bacana, que inclusive já contei aqui.

Monique Elias
Monique Elias Instagram @moniqueelias


Falei também com a Bianca Basílio, que acabei de publicar uma série de episódios falando sobre ela. Uma garota a qual me inspiro muito, por ser tão jovem, tão dedicada, já ter chegado tão longe e ainda assim, querer sempre mais. É daquelas que vejo vídeo o dia todo, não me canso e só consigo me perguntar “como é que ela faz isso?”.

Lembram da Baby? Pois também a tenho como grande inspiração, uma vez que a “irmã do Rodolfo Vieira” sempre será a irmã do Rodolfo Vieira, mas a Ana Carolina Vieira agora é a Ana Carolina Vieira faixa preta e é conhecida paralelamente ao irmão. Muito orgulho!

Ana Carolina Vieira
Ana Carolina Vieira Instagram @anacvieirajj

Como não citar Dominyka Obelenyte? Dominyka Obelenyte, além de uma faixa preta espetacular, de uma guarda praticamente intransponível, criou um grupo chamado “Support Women’s BJJ”, além de uma campanha muito sensacional chamada “Equal Pay For BJJ”que defende o fato de que as mulheres devem ter a mesma quantia em premiação que os homens nos campeonatos, já que a diferença é absurda e a dedicação é a mesma. Em colaboração ao BJJ Forum, já fiz um texto sobre premiações que pode ser lido aqui!

Outra inspiração que acho que vale muito a pena citar é Hannette Staack, que é faixa preta terceiro grau e uma das pioneiras do jiu-jitsu feminino. Quando Hannette começou a treinar e competir, ainda nem havia diferenciação entre faixas e nas competições, competia todo mundo junto, desde branca até a preta.

Gente, são realmente MUITOS NOMES femininos no meio – e de verdade, mais do que imaginamos – seja da nova ou velha guarda do jiu-jitsu (queria citar todos: Angélica GalvãoMackenzie Dern, Michele Nicolini, Luiza Monteiro, Beatriz Mesquita, Andresa Correa, Leka Vieira…). E queria ressaltar além de tudo que, essas guerreiras são muito mais do que um rostinho bonito, mas são mulheres que contribuem diariamente para o nosso esporte ser cada vez mais igualitário!

Um maravilhoso dia das mulheres a todas e um super obrigada por levarem para si, a responsabilidade de nos fazer crescer diariamente – como mulheres e atletas <3




Fonte: Mayara Munhos

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As mulheres que me inspiram no jiu-jitsu também vão te inspirar

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Equal Pay For BJJ – Entrevista com Dominyka Obelenyte

Mayara Munhos
Mayara Munhos
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Não pretendo me estender muito quanto as premiações iguais entre homens e mulheres, pois já escrevi sobre isso e você pode ler o post aqui. Mas, para nos localizarmos, vou dar uma introduzida no assunto:

As mulheres definitivamente recebem premiações inferiores aos homens no esporte, o que é um “fato milenar”, diga-se de passagem. Podemos levar em consideração que antes tínhamos pouquíssimas mulheres no esporte e muitos campeonatos não contavam com presença feminina. Mais tarde, elas começaram a aparecer, porém apenas lutavam entre si em uma única categoria, só muito tempo depois isso foi mudando e hoje temos as categorias subdivididas por idade, peso e faixa. Dessa forma, podemos ver que sim, tivemos uma evolução. Porém, ainda temos muito a brigar.

Pensando nisso, a faixa preta Dominyka Obelenyte criou um movimento chamado “Equal Pay for BJJ“, pois, como ela mesma disse, não adianta só reclamar e não lutar para fazer acontecer.

Dominyka é uma faixa preta de 21 anos, nascida na Lituânia e  a primeira black belt de Marcelo Garcia. Com apenas 14 anos, ela conquistou seu primeiro título mundial lutando pela categoria adulto e foi aí que sua carreira começou a decolar.

Aproveitando sua visibilidade no esporte como faixa preta e Campeã Mundial, ela decidiu então criar o movimento “Equal Pay For BJJ” e é sobre ele que vamos falar hoje.

Dominyka contou que começou a planejar o movimento em abril de 2015, após um encontro no New York Pro da IBJJF, no qual falaram sobre a diferença da premiação no torneio. “As pessoas me disseram para parar de reclamar e passar a lutar por essa discrepância”, diz a atleta. A partir daí, ela passou a divulgar em suas mídias sociais essa diferença com a intenção de mostrar para outras mulheres que deveríamos lutar por isso e que, juntas, poderíamos definir alguns passos e caminhos a serem seguidos.

Pedi ajuda para lutadoras locais e lendas do jiu-jitsu e alguém me sugeriu uma causa chamada “Equal Pay For BJJ” e o movimento surgiu depois disso. Eu criei o grupo do Facebook “Support Women’s BJJ” quando comecei a expressar minha opinião publicamente sobre essa diferença do jiu-jitsu competitivo. Usei isso para tomar consciência da causa e ter ideias com um grupo de mulheres que foram favoráveis a isso.

André e Angélica Galvão com sua aluna Crystal também apoiam
André e Angélica Galvão com sua aluna Crystal também apoiam Reprodução/Instagram @equalpayforbjj


Assim, o movimento começou a tomar forma e Dominyka colocou uma petição no ar  e hoje o grupo conta com mais de 1.600 membros, entre homens e mulheres e já ganhou apoio em diversos lugares do mundo.

Perguntei se ela conta com algum patrocínio:

O movimento tem muita moral e suporte, com certeza. Algumas organizações têm me procurado constantemente para ajudar a anunciar torneios feitos por eles, quando tem intenção de oferecer pagamentos iguais entre os gêneros. Eu não tenho nenhum patrocinador concreto que tenha assumido a causa para si, mas meu patrocinador Digitsu me ajudou na criação das camisetas do Equal Pay e continua ao meu lado na causa.

E, para quem acha que o movimento calou-se, está muito enganado. Dominyka afirmou que o movimento nunca morreu e que ela continua tendo discussões com mulheres do mundo inteiro para arranjar soluções sobre o que fazer. Infelizmente ela não tem tempo para se dedicar mais, porque estuda em tempo integral, mas a mensagem continua a ser passada.

Tenho amigos que estão tentando passar a mensagem para seus contatos através de podcasts, sites ou de qualquer outra forma. Eu estudo em tempo integral na faculdade, então não tenho muito tempo para organizar eventos a favor da causa, como um torneio somente feminino, que já sugeri.

E não, ela não esperava que o projeto tomasse uma dimensão tão grande. Segundo a atleta, ela conseguiu mais pessoas do que imaginava e, com isso, inúmeras discussões foram surgindo aos poucos.

Tem muitos posts disponíveis no Reddit (uma rede social) que debatem essa questão e, apesar de eu não concordar com muitos pontos, eu fico extremamente feliz por ter uma conversa que esteja surtindo efeito sobre o pagamento igualitário.

Fora isso, Dominyka também conta que muitas mulheres vão até ela em torneios e seminários agradecendo-a pelo trabalho. “Eu coloquei uma voz consciente nesses problemas”, reflete. E ainda completa: “é uma sensação incrível ser abordada por uma pessoa completamente estranha que, de alguma forma, se beneficiou da minha causa”.

E com certeza tem muita gente se beneficiando por aí.

Outra coisa importante é que a mensagem chegue até os organizadores, já que, na maioria das vezes, a justificativa do pagamento inferior é por conta das inscrições de mulheres serem menores do que as dos homens, algo que a Dominyka acha um argumento completamente falho. Ela concorda que temos menos mulheres envolvidas no jiu-jitsu se compararmos com os homens, assim como todos os outros esportes de combate, mas de tempos pra cá, o número tem crescido significativamente.

Dito isso, elas estão se tornando mais adeptas ao esporte não só em suas academias, mas as inscrições nos campeonatos cresceram exponencialmente nos últimos dez anos e isso mostra que o jiu-jitsu feminino está indo pra frente e não está estagnado. Infelizmente, muitos torneios não fornecem o dinheiro baseado em quantas inscrições eles fazem. Isso e o fato que Nova York Pro oferece um pagamento dez vezes maior para os homens comparando com as mulheres, eu gostaria de dizer que esse argumento de inscrições é falho. Se a quantidade de competidores que entrarem estiver baseado na questão do pagamento, eu julgo então uma ação falsa, porque o valor do pagamento ser igualado encorajaria as mulheres a se inscreverem. O problema de oferecer uma bolsa pequena às mulheres é basicamente determinado pelas suas habilidades e importância na esfera competitiva e isso desencoraja qualquer um a se inscrever. Na realidade, quem vai querer bancar um voo, hotel e uma inscrição sendo que a chance de ganhar dinheiro é baixa?

Passando por grupos de jiu-jitsu feminino, muitas mulheres dizem que as outras podem se sentir intimidadas por ser pago um prêmio alto, no sentido de terem mulheres de alto nível envolvidas, mas se nunca tentarmos, nunca sairemos do lugar. Então temos mais é que nos arriscar e fazer valer toda luta de Dominyka e das outras mulheres que levam o esporte a sério.

Orgulhosamente, a faixa preta conta que depois que criou o Equal Pay For BJJ, as pessoas passaram a discutir muito mais sobre o assunto, e completa: “sem reconhecermos os motivos e diferenças, não seria bom e a maioria continua o jiu-jitsu como se nada estivesse errado. A conversa tinha que começar de algum lugar e estou feliz com minha decisão de fazer isso”.

Se já mudou alguma coisa? Podemos dizer que sim. Em janeiro do ano passado, a IBJJF aumentou o valor da premiação para os três primeiros colocados no ranking anual, tanto para homens quanto para as mulheres. O valor passou a ser US$15 mil para o primeiro colocado e US$4 mil e US$1 mil para o segundo e terceiro, respectivamente. E, pela primeira vez, o valor foi igualado entre os gêneros.

Se quiser participar do grupo do Facebook, clique aqui.  Vira e mexe rolam discussões bem bacanas por lá, bem como algumas curiosidades.

Para conhecer o Instagram, clique aqui.

Não podemos nos calar e também não podemos deixar de fazer nossa parte. O Equal Pay For BJJé um movimento épico e que, com certeza, foi o responsável por fazer muita gente botar a mão na consciência em relação a pagamentos.

Ótimos treinos para todas nós e que tenhamos cada vez mais nosso esforço reconhecido.

Fonte: Mayara Munhos

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Equal Pay For BJJ – Entrevista com Dominyka Obelenyte

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Jiu-Jitsu não é esporte individual!

Mayara Munhos
Mayara Munhos

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Às vezes a gente se desentende, porque a convivência causa isso. Às vezes somos mal educados uns com os outros, fazemos umas brincadeiras idiotas… Mas não tem coisa melhor do que ouvir um incentivo de alguém que treina com você. Não tem coisa melhor do que ver aquela galera gritando seu nome na arquibancada quando você vai entrar para lutar (eu não ouço, mas vejo nos vídeos depois :p). Não tem nada melhor do que seu mestre estar ao seu lado – principalmente na hora de puxar sua orelha e dar bronca, já que eu acredito que a cobrança só chega até quem é capaz. Não tem coisa melhor do que alguém te chamar de lado e dizer “posso te dar um toque? Acho que você está bem, mas falta isso” ou até falar “que pressão ridícula é essa, Mayara?”.

Eu nunca me dei bem em outro esporte coletivo por sempre me sentir responsável por algo errado (sou um desastre, no handebol então, nem se fale, acho que eu realmente era responsável por todas as coisas ruins hahaha), mas eu me dou bem no jiu jitsu e considero coletivo. O peso que carrego sobre perder e ganhar é um peso individual, porque me cobro numa proporção absurda que eu mesma criei. Sempre que perco, eu peço desculpas ao time – e tomo broncas por isso – mas é muito feliz ter pessoas do seu lado te botando para cima, que te respeitam, que te ajudam e que estarão sempre com você – até nos treinos que tiverem números ímpares!

Obrigada, time. <3

Durante as olimpíadas, eu via os jogos coletivos como handebol, vôlei, futebol e pensava “nossa, acho que eu não conseguiria fazer um esporte coletivo, jiu jitsu é individual e bem melhor”. Porque assim, parece que quando ganhamos num esporte coletivo, é ótimo poder partilhar a alegria, mas quando perdemos, eu jamais gostaria de ser a responsável por isso (não que haja um responsável, mas eu me sentiria), como por exemplo, o pênalti que a Marta perdeu no futebol (méritos da goleira e não erro dela na minha opinião), mas imagine a pressão em cima daquela mulher, que é o destaque da seleção brasileira, ter perdido um pênalti. Sério, não sei lidar. Já no jiu, se eu perdi a culpa foi minha, se ganhei também. Mas será que é isso mesmo?

Na verdade não. Jiu jitsu é tão coletivo como qualquer esporte. A gente rola no chão com gente que a gente nunca viu, temos um time, uma equipe e devemos muito a cada um – respeito, disciplina e cumplicidade.

Como praticar jiu jitsu sem um material humano? Sempre falamos nos treinos que se uma pessoa faltar, prejudica o treino de todos os outros.  Um exemplo bobo, mas que faz sentido: treinar com número ímpar de pessoas. Sempre alguém vai ficar de fora. E a menos que seja para descansar desesperadamente, ninguém gosta de ficar de fora. Sem contar que é impagável ver o tatame lotado (principalmente de número par hahaha).

Como “se agarrar” (como dizem por aí) com pessoas que você mal conhece? Acontece, mas quando acostuma você se sente a íntima (hahaha), porque a cada dia você está lá, treinando com pessoas diferentes e em campeonato então, nem se fale, gente que você nunca viu na vida. Mas se não houvesse respeito e cumplicidade, não daria certo. Respeito de gêneros, de limites, de tempo de treino… Não que você precise aliviar, mas conforme o tempo passa, você aprende que não dá para treinar igual com todo mundo.

E agora, como chegar a um campeonato e subir ao pódio sem seu time ao seu lado? Costumamos dizer que somos nós quem fazemos o treino e, de fato, somos. Tem gente que treina muito e tem gente que treina pouco. Os resultados são reflexo da sua qualidade de treino e muitas vezes isso depende de você e não do seu time, porque não adianta querer culpar seus colegas de treino por uma derrota, sendo que você treina meia hora por semana e acha que está tudo bem. Mas acredite: eles são os maiores responsáveis pela sua vitória. Você pode fazer os seus corres, ir atrás de patrocínio, conseguir uns sim, uns não, pagar suas inscrições, pegar o busão lotado para ir lutar. Mas sem seus colegas de treino, entrar no tatame seria impossível.

Fonte: Mayara Munhos

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Jiu-Jitsu não é esporte individual!

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Por que o Jiu-Jitsu não é olímpico?

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Jiu-jitsu olímpico: ser ou não ser?
Jiu-jitsu olímpico: ser ou não ser? Marco Aurélio Ferreira/Arena Jiu-Jitsu

Encontrar uma resposta para a pergunta “por que o Jiu-Jitsu não é olímpico?” requer muita pesquisa e convicção para não falar qualquer coisa. Muita gente, quando falo que treino jiu, me fala de cara “você vai pras Olimpíadas, né?”, mas não se lembram que ele não é um esporte olímpico (e que jiu-jitsu e judô são modalidades diferentes). Então, tentemos esclarecer algumas coisas.

Existe um órgão que é encarregado de decidir se o esporte entra no programa olímpico ou não, que é o COI (Comitê Olímpico Internacional). Além dessa decisão, é importante ressaltar que para um esporte entrar, outro deve sair e para algum esporte sair, há uma grande análise feita também pelo COI. Outra regra é que para um esporte ser de caráter olímpico, deve ser praticado por homens em, no mínimo, 75 países e 4 continentes e por mulheres em 40 países e três continentes. Além disso, ainda que um esporte não esteja incluso no programa olímpico, ele pode sim ter um reconhecimento do Movimento Olímpico e esse é o primeiro passo para que um novo esporte seja trazido para o programa. Mas, para isso, a Federação Internacional do esporte deve existir há pelo menos dois anos – além de ter que provar para o Movimento que ele tem caráter olímpico e um estatuto.

Um parágrafo e milhões de problemas.

O jiu-jitsu tem muitas confederações espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Entre elas, as mais conhecidas: CBJJ (Confederação Brasileira de Jiu Jitsu – a mais importante daqui), CBJJE (Confederação Brasileira de Jiu Jitsu Esportivo), CBJJO (Confederação Brasileira de Jiu Jitsu Olímpico) e CBJJD (Confederação Brasileira de Jiu Jitsu Desportivo). Fora as confederações internacionais, como a UAEJJF (Federação de Jiu Jitsu dos Emirados Árabes Unidos) ou a IBJJF (Federação Internacional de Jiu Jitsu Brasileiro). E sem falar das federações estaduais, como a FPJJ (Federação Paulista de Jiu-Jitsu) ou a FJJRio (Federação de Jiu-Jitsu do Rio de Janeiro).

 Como levar às olímpiadas um esporte que tem tantas confederações?

Um grande exemplo é que não temos um melhor do mundo em seu peso e em sua faixa, já que temos um campeonato mundial diferente por federação. Aqui também já surge outro problema: o número de praticantes pelo mundo. Tendo em vista tantas federações espalhadas, infelizmente ficaria inviável ter certeza se a quantidade de atletas exigidos mundo à fora atende aos requisitos do COI, afinal, quem analisaria todos os atletas, cadastrados em todas as federações?

Trabalhando na ESPN, eu já pensei em diversas de como convencer que o jiu-jitsu poderia entrar na grade de programação e só depois entendi os motivos, que consiste em basicamente custo x benefício. Levando em consideração que os esportes estão numa grade televisiva gerando lucro e audiência, como colocar na TV um esporte em que é muito difícil entender as regras, de um público tão nichado? O jiu-jitsu não é simplesmente uma finalização, mas uma luta que se dá através de pontuações. Quando uma luta empata, por exemplo, muitas vitórias são difíceis de entender como são dadas, gerando muitas polêmicas em campeonatos.

Outro ponto é que muitas das lutas, por terem a possibilidade de serem vencidas por pontuação, acabam sendo “amarradas” (quando um atleta que está ganhando segura o máximo a luta para não perder). Há regras no jiu-jitsu relacionadas a punição e o árbitro da CBJJ Ricardo Dembowski Silva me ajudou explicando, em resumo, como funciona:

“Se parei numa posição durante vinte segundos, o árbitro tem que me punir, ou punir os dois dependendo da posição. É que às vezes tem um bom senso também. Se a gente vai arbitrar uma luta de dois oponentes muito pesados de faixa branca, por exemplo, que ficam a luta toda em pé, durante cinco minutos. Usando a regra a risca, teria que desclassificar os dois, já que a quarta punição causa desclassificação, e às vezes simplesmente não sai nada, só trocação de força mesmo e aí que entra o bom senso, mas na regra mesmo diz que são vinte segundos. Além de ter posições que não são passíveis de amarração. Por exemplo, você passou minha guarda, ficou lá nos 100kg me estabilizando sem fazer nada e nem eu, só tem punição para você, porque mesmo eu não fazendo nada, quem está em cima está em vantagem e tem que desamarrar a luta, quem está embaixo está só se defendendo. Outra coisa é caso você monte em mim ou esteja nas minhas costas: se você está montado ou nas costas com a posição certinha, pode ficar a luta toda lá que não haverá punição.“

Dentre tantos outros detalhes, Ricardo também nos enviou a regra, que encontra-se no livro de regras da IBJJF, artigo 6.5, página 28 e pode ser lido aqui. 

 O fato de punir não significa que a luta seria mais movimentada ou mais fácil de entender, mas midiaticamente falando, o espectador quer ação e movimentação, o que nem sempre pode ser atendido pelo jiu-jitsu.

O vídeo abaixo ilustra uma luta claramente amarrada por dois atletas renomados, Paulo Miyao vs Keenan Cornelius, numa final de absoluto no Abu Dhabi World Pro de 2013. Os dois atletas foram desclassificados.


Esses são alguns pontos que estudamos para dar motivos pelos quais jiu-jitsu não é um esporte olímpico, mas com certeza vai muito além disso.

Como tudo na vida, ser ou não ser tem prós e contras. Um esporte olímpico é bem visto, gera mais patrocínios e visibilidade aos atletas. Porém, por outro lado, um esporte para ser profissional não necessariamente precisa ser olímpico. Nossa arte perde por um lado e ganha pelo outro, já que hoje vemos eventos muito bem organizados de nível profissional, como Metamoris e Copa Pódio. As premiações estão melhorando e estamos perdendo um pouco aquela visão de “pitboy”  que era como as pessoas nos enxergavam antigamente. Agências estão investindo no esporte e organizando campeonatos muito bem feitos, marcas de kimonos estão crescendo, bem como a procura, inclusive (ou até principalmente) feminina, pela arte marcial. Algumas competições oferecem pagamento em dinheiro, mas em relação a IBJJF, por exemplo, ainda há muito a melhorar, porque é difícil viver do esporte. Creio que estamos ganhando nosso espaço, mesmo sem ser um esporte olímpico. Somos jiu-jitsu, Brazilian Jiu-Jitsu! Agora só paremos para pensar: quantas medalhas nosso país não ganharia se fôssemos olímpicos, hein? 

Bons treinos e até a próxima.

Fonte: Mayara Munhos

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Mundial de Jiu-jitsu da IBJJF: veja os resultados no feminino

Mayara Munhos
Mayara Munhos
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Gente, o Mundial de Jiu Jitsu da IBJJF (International Brazilian Jiu Jitsu Federation) simplesmente bombou! Infelizmente as lutas foram bem difíceis de acompanhar, muito mais do que o Abu Dhabi World Pro. Ele teve uma transmissão via streaming que não era lá das mais baratas e a galera foi a loucura procurando onde assistir (ESPN: eu já dei a dica ano passado e continuo com ela :P). Consegui assistir um pouco em cada lugar no domingo, que foram as finais das faixas pretas.

Mas vamos começar falando de algumas faixas marrons que, mais uma vez, arrebentaram!

Nathiely e Tayane recebendo suas faixas no pódio. Agora a responsa aumentou!
Nathiely e Tayane recebendo suas faixas no pódio. Agora a responsa aumentou! Instagram @nathibjj

No peso leve, quem levou a melhor e se consagrou nada mais nada menos do que penta campeã mundial foi Bianca Basílio, da Ryan Gracie – Almeida JJ. No peso médioAna Carolina Vieira, a famosa “Baby” da GFTeam, continuou o legado da família Vieira e levou o ouro. No meio pesado, a Nathiely Melo (da Cícero Costha), que já tinha se destacado no Abu Dhabi World Pro deste ano, não foi diferente: faturou o peso e o absoluto numa luta duríssima com a atual campeã do super pesado, Tayane Porfírioda Alliance. A luta das duas terminou empatada e foi decidida pelos árbitros, dando a vitória para a Nathiely.

O que chamou atenção é que três das quatro faixas marrons citadas, agora são faixas pretas! A Baby, a Nathiely e a Tayane receberam de seus mestres suas black belts no pódio. É muito orgulho!

Bom, depois desse campeonato a disputa pelo ouro na faixa preta aumentou, mulherada que se segure que as marrons chegaram. Mas enquanto o próximo não vem, vamos falar das faixas pretas desse ano.

Aposentadoria da Michelle e comemoração da Mackenzie.
Aposentadoria da Michelle e comemoração da Mackenzie. Instagram @graciemagazine

Começando pelo peso galoRikako Yuasa finalizou Outi Järvilehto com um estrangulamento. No plumaGezary Matuda venceu Kristina Barlaan. No peso pena, Mackenzie Dern (Gracie Humaitá) finalizou Michelle Nicolini (Checkmat). Essa tem que ser por partes! Porque até eu chorei, haha. A luta foi sensacional, começou bem disputada num show de raspagens e parecia que ia ficar assim para sempre. Porém, a Mackenzie surpreendeu dando um estrangulamento na Nicolini. Dern comemorou muito sua vitória e Nicolini caiu nas lágrimas: ela já havia anunciado sua aposentadoria dos tatames para entrar no octógono. Sendo assim, ao final da luta, ela desamarrou sua faixa e botou no tatame. 

Continuando… Beatriz Mesquita, peso leve da Gracie Humaitá, venceu sua luta por 7×0 e garantiu o seu quinto ouro na categoria. No médio, numa luta que começou cheia de raspagens e terminou muito eletrizante, Monique Elias da Alliance venceu Luiza Monteiro da NS Brotherhood por decisão dos árbitros, após uma luta empatada nos 10×10. No final dessa luta, houve um gesto de muito carinho. Luiza caiu nas lágrimas e Monique a abraçou (muito de amiga). Sério, isso é uma das coisas que me mantém no jiu jitsu: o respeito com o adversário.

Monique Elias vence Luiza Monteiro na decisão dos árbitros.
Monique Elias vence Luiza Monteiro na decisão dos árbitros. IBJJF

Já no meio pesado, a atleta da Alliance Andressa Corrêa venceu Sijara Eubanks por 10×0, com uma luta que nos primeiros segundos parecia ser dominada pela sua adversária. Em seguida, Fernanda Mazzelli entrou no tatame para defender seu título no peso pesado contra Alison Tremblay. A luta terminou empatada em 2×2 e os juízes deram a vitória a Mazzelli. No super pesado, a lituana Dominyka Obelenyte surpreendeu Venla Luukkonen e venceu de nada mais nada menos do que 33×0, num show de ida para as costas e tentativas de estrangulamento. Eu nem imagino como deve ser se defender de Dominyka que tem aquelas pernas enormes, mas sei que a finlandesa Venla conseguiu segurar bem para não ser finalizada.

final do absoluto contou com uma disputa de campeã do peso leve versus a campeã do super pesado. Quem levou a melhor foi a Dominyka, que levou seu segundo ouro consecutivo no mundial. A luta foi dura. Dominyka começou colocando muita pressão na Bia que se manteve firme e fechada. A luta terminou em 2×2, porém a lituana tinha uma vantagem e acabou se dando melhor no duelo. O pódio ficou com Dominyka em primeiro, Bia Mesquita em segundo e Mackenzie dividiu o terceiro lugar com Andressa Corrêa.

Pódio do absoluto
Pódio do absoluto IBJJF

E mais uma vez eu termino dizendo: como é bom ver o jiu-jitsu feminino crescendo! Não só nas faixas que falei, mas também tiveram muitas lutas de azul e roxa incríveis, como por exemplo, a final do absoluto faixa roxa entre Andressa Cintra e Gabi McCombi, que são duas atletas que tem dado o que falar nos tatames. Mas isso é um assunto para o próximo post! E um dia eu chego lá \o/ hahaha boa semana a todos.

Fonte: Mayara Munhos

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Mundial de Jiu-jitsu da IBJJF: veja os resultados no feminino

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