Diniz e as cuecas do adversário

Mauricio Barros
Maurício Barros
Fernando Diniz, técnico do Atlético-PR
Fernando Diniz, técnico do Atlético-PR Gazeta

Ao final da quarta derrota consecutiva do Atlético Paranaense, 1 x 2 para o Cruzeiro na Arena da Baixada, jogo de ida das oitavas da Copa do Brasil, Thiago Carletto saiu em defesa do treinador Fernando Diniz. “O professor Diniz vive dentro do CT, vive intensamente, mostra tudo. A gente entra sabendo até a cor da cueca do adversário. Nós, jogadores, temos que tomar vergonha na cara, fazer o que o professor Diniz está pedindo. A imprensa vai criticar, a torcida vai criticar, mas nós estamos com ele”, disse o lateral-esquerdo.

Desde que assumiu o Furacão, Diniz vive o pior momento. Já são sete jogos sem vitória. Ficou difícil avançar na Copa do Brasil. No Brasileirão, a equipe ocupa um incômodo 15º lugar.

Diniz começou o ano bem. Com os reservas, ganhou o título estadual. Quando o time principal entrou em campo no Brasileiro, surpreendeu pelo bom futebol, goleando a Chape na estreia e obtendo um elogiado empate com o Grêmio em Porto Alegre, na segunda rodada. Antes de pegar o Cruzeiro, eliminou o São Paulo dentro do Morumbi após estar perdendo por 2 x 0, sempre apresentando um jogo bonito de se ver.

Uma proposta tão ousada gera riscos enormes. O Furacão é o primeiro clube grande a topar o “risco Diniz”. Se no início ganhou elogios, agora enfrenta seu maior desafio: sustentar a proposta de trabalho apesar dos resultados ruins. Boa parte da torcida já cai de pau. Uns até elogiam a ideia, mas dizem que o time não tem jogadores bons o suficiente para bancar tal proposta.

Discordo. Acho que o Furacão tem bons valores e pode, com ajustes pontuais, encontrar a estabilidade que é tão importante para um torneio como o Brasileiro. Diniz não é nenhum gênio da prancheta, mas seguramente é um dos mais promissores treinadores da nova geração. Creio que seja também o mais visionário. Isso tem um preço. É a hora de a diretoria bancar o treinador, que já adiantou: não vai mudar seus conceitos. “A gente teve momentos bons nesses quatro jogos, poderíamos ter vencido os quatro e acabamos perdendo. Sou muito mais convicto quando perco. Não vou mudar por conta do resultado”, disse, após o jogo.

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Medo: a Bruxa da Copa chegou. Quem será o próximo?

Mauricio Barros
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Daniel Alves, do Paris-Saint-Germain, no chão após sentir o joelho durante a final da Copa da França, no dia 9 de maio
Daniel Alves, do Paris-Saint-Germain, no chão após sentir o joelho durante a final da Copa da França, no dia 9 de maio Getty Images

Ela sempre aparece. A bruxa da Copa do Mundo resolveu abrir os trabalhos botando o Brasil no seu caldeirão fervente. Daniel Alves, um dos líderes da seleção de Tite, experiente e multicampeão, está fora por conta de uma lesão no joelho. Lance bobo, como são muitos dos que resultam em estaleiro prolongado.

Jogadores, treinadores, preparadores físicos e torcedores no mundo todo estão com medo. Se no Brasil, que tem um número maior de bons jogadores, o lamento vem de uma preocupação pela queda de nível técnico e experiência do time com a saída de Dani, imagine o pânico em países onde craques são escassos.

Pense em Luis Suárez se contorcendo de dor numa dividida com um becão do Levante ou da Real Sociedad. O Uruguai tem um troço! E o que dizer da Polônia assistindo Lewandowski sentir a fisgada contra o Stuttgart na última rodada do Alemão?

A bruxa assusta todos os jogadores que vivem os momentos finais dos campeonatos com seus clubes. Cueva tratou de tomar um vermelho e jogar o profissionalismo às favas contra o Rosario Central. Deve ter sido seu último ato pelo São Paulo. Diminuiu seu risco de ficar fora da Copa.

Mas a Bruxa é traiçoeira. Mesmo se alguém resolver ficar em casa corre lá seus riscos ­– vide Cañizares, o goleiro espanhol que foi cortado do Mundial de 2002 depois que um vidro de perfume caiu e retalhou um tendão de seu pé...

Dia 26 tem a final da Liga dos Campeões. Craques de várias seleções da Copa em campo, disputando o torneio de clubes mais importante do mundo. Se tem um jogo em que devem dar a vida por seus times, é esse. Até porque seus torcedores facilmente escolheriam a Champions se alguém lhes perguntasse qual título escolheria, o europeu com o clube ou o mundial com a seleção de seu país. Clube é casamento, seleção é namorico.

Temo pelo Egito. A gente se vira sem Firmino ou Marcelo. A Espanha idem sem Isco, a França sem Varane, a Alemanha sem Kroos. Mas o Egito... Mo Salah já é mais importante que Tutancâmon, que o Rio Nilo, que todos os camelos! Ele vai entrar em campo pelo Liverpool contra o Real lá em Kiev. Os Reds estão sedentos. Se Salah lhes der o título, vira faraó e Sir na Inglaterra. Já os egípcios vão torcer para que ele apenas termine inteiro. Sai zica.

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Juninho Pernambucano e os Setoristas

Mauricio Barros
Maurício Barros

Acho absolutamente saudável a presença de ex-jogadores, ex-treinadores e ex-árbitros no quadro de comentaristas de todos os meios de comunicação. Eles trazem uma visão complementar àquelas que transmitimos nós, jornalistas. Quem ganha com essa pluralidade é o leitor, o telespectador, o ouvinte, o internauta (ainda se fala assim?). E principalmente ele: o debatedor de padaria.

Poucos jogadores, entretanto, conseguem transformar a experiência em discurso. Os que logram êxito estão bem colocados. Júnior, Alex, Caio, Sálvio Spínola, Zico, Amoroso, Edmundo, Zé Elias, Djalminha. É ótimo ouvir, concordar, discordar, debater com eles.

Um dos melhores é Juninho Pernambucano, um cara com repertório e oratória acima da média desde sempre. Há alguns dias, porém, ao criticar a imprensa no SporTV, Juninho deu umas caneladas, fruto talvez de um desconhecimento dos princípios do Jornalismo.

Juninho Pernambucano, em entrevista coletiva
Juninho Pernambucano, em entrevista coletiva Getty Images

Juninho citou os “setoristas” como donos de uma função menor no jornalismo esportivo. Muitos deles, segundo o ex-craque, veiculariam notícias para beneficiar interesses de dirigentes com quem mantêm relações espúrias. Toda generalização é perigosa. Não digo que essa locupletação não exista, mas envolve os maus profissionais que, creio, sejam minoria.

Mas eu quero aqui dirigir o foco ao aparente desconhecimento de Juninho em relação à matriz do jornalismo. Ele diz que, se fosse um setorista, ia batalhar para crescer e chegar, por exemplo, à posição de narrador. São funções diferentes, embora uma mesma pessoa possa exercê-las. Não estão em uma mesma “linha evolutiva” da carreira.

A função básica do jornalismo é a de repórter. O repórter é a pedra fundamental da profissão. É ele quem vai até a notícia, atesta sua relevância, apura suas várias facetas, ouve os envolvidos, pesquisa, redige e transmite ao público. Há repórteres valorizadíssimos, que ganham mais que seus próprios chefes. Um excelente repórter pode ser medíocre se deslocado para a função de editor, e assim por diante. O setorista, por definição, é um repórter que cobre determinado setor. Ou seja, um especialista. No futebol, eles são importantíssimos.

Um repórter de economia que seja destacado pela primeira vez para a cobertura diária de um clube de futebol começará com seu universo reduzido. Ele ficará restrito às vozes oficiais, o que é péssimo para o jornalismo.

Uma das definições de notícia de que mais gosto diz que ela “é um fato ou informação de interesse público que alguém não deseja ver publicado” (em geral, quem está no poder). Para ter acesso a essas informações valiosas, portanto, o repórter precisa ir além das fontes oficiais. Precisa cultivar relações, desenvolver os sentidos, encontrar a notícia escondida em detalhes que, para alguns, passam imperceptíveis. Cabe a ele usar essa cesta de “habilidades” para benefício público, e não pessoal.

Esse patrimônio você só acumula com o tempo. Aqui na ESPN, temos ótimos setoristas, repórteres experientes e valorizados, como o querido Eduardo Afonso, que cobre o cotidiano do São Paulo. Edu tem muitas fontes e conquistou o respeito pela sua bela trajetória no jornalismo. Ele usa sua experiência, conhecimento do ambiente, contatos e relações para esmiuçar a notícia e transmiti-la ao fã de esportes. As fontes sabem que ele está a serviço do bom jornalismo, que seus valores são o interesse público e a busca pela verdade. Não será usado por ninguém.

Temos muito a aprender uns com os outros. Pelo que conheço da persona pública de Juninho, duvido que ele repetiria as generalizações se tivesse tido acesso a esta reflexão que proponho aqui. 

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E Paulo André não apenas joga: se diverte

Mauricio Barros
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Eram apenas 4 minutos de jogo quando Lucho Gonzales errou um passe na saída de bola e entregou a Éverton, que acionou Luan, sozinho diante do goleiro Santos. O craque gremista ajeitou e bateu de esquerda. A bola tocou alta na trave. No rebote, Ramiro isolou. Por um triz, o Atlético Paranaense não saiu perdendo o duelo que se tornaria o melhor jogo deste início de Campeonato Brasileiro. Se o Grêmio, dentro de casa, tivesse marcado logo no começo, a coisa poderia ter desandado para os lados do Furacão. A partida acabou 0 x 0, mas com status de 2 x 2.

Mas tivesse a bola entrado, críticos rasos abririam goelas em suas análises sobre o Atlético. O jogo planejado por Fernando Diniz seria rotulado de suicida, utópico, inviável. Os atletas do Furacão seriam diminuídos em sua técnica, incapazes de fazer valer o risco de uma proposta tão ousada. E um projeto bonito poderia sofrer sua primeira grande instabilidade.

Mas Luan chutou na trave. E o jogo seguiu em ótimo nível para o que estamos acostumados aqui no Brasil. Duas propostas diferentes, ambas com mais qualidades que defeitos, se confrontando no gramado da Arena do Grêmio.

Leio depoimentos de Paulo André na imprensa, vejo trechos de sua participação no Bem, Amigos. Um jogador que pensa, algo raro. É ótimo vê-lo falar. E Paulo André disse que nunca se divertiu tanto jogando futebol como agora, no Furacão. Confessa estar reaprendendo o esporte que virou sua profissão. “Fernando Diniz cria o caos”, diz o zagueiro, como se emprestasse o delicioso bordão do querido Rômulo Mendonça. Mas um caos aparente, que tem uma ordem, um planejamento treinado à exaustão. A saída de bola é feita nos treinos muitas vezes contra 12 caras no time adversário. “E a gente consegue sair tocando com 12. Quando chega no jogo, fica mais fácil, porque tem um a menos”, explica. Paulo André vai além. “Às vezes, dá vontade de rir”.

Que coisa bacana. Um zagueiro experimentando, aos 34 anos, sabores que jamais havia sentido em todos os seus anos de carreira no Brasil, França e China. E se divertindo, reconhecendo no treinador a “loucura sadia” dos inovadores. Paulo André é figura chave dentro e fora do campo, fechando o grupo em torno de sua liderança e da proposta de Diniz, a quem chama de “mentor”. Sobre a bola na trave de Luan, ele diz: “Erros vão acontecer. Mas para cada um, há muitas oportunidades de gol que criamos por conta dessa ideia”. É essa a conta que uma calculadora rasa não consegue fazer.

Diniz está ainda no início de sua carreira de treinador e busca espaço. Vamos, então, com calma. O Atlético é sua maior oportunidade até agora. Sua ideia de jogo de “futebol total”, fazendo do passe e da movimentação seus grandes pilares ofensivos, permanece. O que muda são os jogadores, a cultura do clube, as ambições, o tamanho da torcida.  Pequenas adaptações de um conceito ousado, libertário, idealista de se jogar e entender o futebol. Levar adiante uma proposta assim é trabalho hercúleo. Por isso, creio que seja impossível, para quem ama o futebol, não torcer por ele. A não ser que você seja Coxa ou Paraná, claro, porque aí já é pedir demais...

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Ibra em 2018 é Romário em 2002. Você levaria?

Mauricio Barros
Maurício Barros

Os americanos estão descobrindo Zlatan Ibrahimovic. E adorando, claro! Califórnia, Los Angeles, Hollywood... Na terra do espetáculo, Ibra está conseguindo a proeza de atrair a atenção do americano típico (se é que ainda é possível falar assim) para o “soccer” de uma maneira que outros astros internacionais como Beckham e Kaká não conseguiram fazer. O sueco é um showman dentro e fora do gramado. Na estreia pelo LA Galaxy, fez aquele golaço do meio de campo e depois mais um na vitória por 4 x 3 sobre os LA FC. Nas entrevistas, provoca gargalhadas a cada resposta que dá. É um ator canastrão de primeira linha.

Na última terça, foi ao concorridíssimo talk show de Jimmy Kimmel, aquele mesmo que apresenta o Oscar. Jimmy confessou que Ibra estava fazendo as pessoas em Los Angeles olharem para o “soccer” de um jeito como nunca olharam. Ibra destilou suas pérolas: “Sou um presente para Los Angeles”; “Eu coloquei a Suécia no mapa”; “Desculpe aos fãs de outros esportes que não me têm jogando”; “Eu vou para a Copa do Mundo”; “Uma Copa sem Ibra não é uma Copa de verdade”. Carismático, nem ele aguenta suas fanfarronices, tanto que cai na gargalhada com o público e o entrevistador a cada resposta que dá. Enfim, um personagem maravilhoso.

Entretanto, é nas afirmações sobre a Copa que o bicho pega. Após a eliminação na fase de grupos da Euro-2016, Ibra disse que não jogaria mais pela seleção de seu país. O time teve que aprender a viver sem sua estrela. E foi assim que conseguiu a vaga para o Mundial da Rússia.

Aos 36 anos, recuperado de lesão e se destacando nos Estados Unidos, Zlatan divide hoje a opinião pública e a imprensa na Suécia sobre sua presença na Copa. O treinador Jan Andersson não gosta quando tem que responder sobre Ibra. É compreensível. O craque é personalista e deixou a seleção por vontade própria. O time se virou bem sem ele. Agora, na hora do filé, faz pressão para ser chamado?

Ibrahimovic Suecia Irlanda Euro-2016 13/06/2016
Ibrahimovic Suecia Irlanda Euro-2016 13/06/2016 EFE/EPA/GEORGI LICOVSKI

Se tecnicamente não pairam muitas dúvidas de que Ibra em forma tem lugar entre os convocados, do ponto de vista da gestão de grupo a coisa é mais complicada. Para chamar o astro, considerado por muitos o melhor jogador da história do futebol sueco, Andersson terá que deixar alguém de fora. Mais: terá que fazer o elenco entender que os benefícios compensarão o “pacote Ibra” – a personalidade, a pressão para sua escalação como titular, a cobertura extensa da mídia focada em um só jogador, etc.

Curiosamente, Felipão tangenciou o tema dias atrás em um congresso na Espanha. Perguntado sobre o corte de Romário em 2002, ele disse que o interesse coletivo deve prevalecer. “Às vezes, um jogador melhor tecnicamente não é o melhor para a equipe. A decisão mais difícil que eu tive para a Copa de 2002 foi convocar o Ronaldo e deixar fora o Romário, um grande ídolo brasileiro", disse. A confiança em Ronaldo, recém-recuperado, é fácil de compreender. Todos queriam vê-lo no Mundial. Mais difícil foi bancar Luisão para deixar Romário no Rio. Felipão fincou pé e foi campeão. Tivesse perdido a Copa, seria avacalhado por não ter levado o Baixinho.

Eu quero ver Ibra na Copa, adoro o jeito como ele não se leva a sério. E o cara joga muito. Não sei o que faria na pele do treinador. Mas, certamente, compartilharia a reflexão com o elenco antes de tomar a decisão. E você, levaria Ibra?

 

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O que falta a Rodrigo Caio?

Mauricio Barros
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Rodrigo Caio em treino do São Paulo
Rodrigo Caio em treino do São Paulo MARCELLO ZAMBRANA/Agif/Gazeta Press

Não havia motivo para Rodrigo Caio reassumir a posição de titular na zaga do São Paulo. Mesmo assim, quando voltou da Seleção Brasileira, onde não jogou contra Rússia e Alemanha, Diego Aguirre deu-lhe voto de confiança e o direito de compor a zaga ao lado de Arboleda no confronto diante do Atlético-PR, pela Copa do Brasil. Para tanto, o treinador sacou Bruno Alves, que vinha bem.

Caio teve lá sua responsabilidade no primeiro gol do Furacão, falhando na disputa pelo alto com Pablo, que se antecipou e saiu cara a cara com Sidão.  O time perdeu por 2 x 1 e vai precisar vencer em casa para seguir adiante no torneio.

Na estreia da Copa Sul-Americana contra o Rosario Central, na Argentina, Aguirre enfim entrou desde o início com a formação de três zagueiros, que foi o pilar da equipe que ganhou tudo na década de 2000 (Paulista, Brasileiros, Libertadores e Mundial de Clubes). Arboleda e Militão foram os companheiros de Rodrigo, com Bruno Alves novamente preterido.

A participação de Rodrigo Caio foi, mais uma vez, ruim. Aos 35 minutos do primeiro tempo, em uma disputa pelo alto com o manhoso atacante Marco Rúben, o zagueiro deixou o braço no rosto de Rúben, que caiu se contorcendo. O sangue jorrando perto do olho e a pressão dos argentinos impressionaram o péssimo árbitro peruano Victor Carillo, que expulsou o brasileiro. O São Paulo já havia perdido, aos 18 minutos, o lateral Reinaldo por lesão. Com um a menos, o time foi cascudo e saiu com um empate, um 0 x 0 com viés de vitória, dadas as circunstâncias.

Rodrigo Caio já atuou, desde que subiu aos profissionais, como lateral-direito e volante, mas fixou-se na zaga, posição original. Destacou-se, chegou à seleção e foi campeão olímpico. Mas, hoje, só se justifica ser titular do São Paulo no esquema com três zagueiros. Na sobra, pode defender sua presença. Mas com dois na zaga, se ele estiver em campo, o time fica muito vulnerável quando enfrenta atacantes que gostam do corpo-a-corpo.

Isso porque Rodrigo, a meu ver, não possui duas características que julgo essenciais para zagueiros hoje em dia: força física e malícia. Me lembro, no ano passado, que ele perdeu uma disputa corporal para o baixinho Rodrigo Scarpa em um jogo contra o Fluminense, pelo Brasileiro, quando lhe faltaram as duas coisas: força e esperteza. O lance resultou em gol do Flu. Apesar de superatleta, Caio parece um pouco frágil. Foram várias as vezes em que terminou um jogo totalmente estropiado.

Em que pese o exagero do árbitro em dar o vermelho ontem, Caio se arriscou deixando o braço. Talvez ele mesmo saiba que precisa ser mais efetivo nas divididas, quer por baixo ou pelo alto. E esteja se empenhando mais nisso. O problema é que parece não saber usar a força no limite da regra. Ao deixar o braço, fez a falta. Seus companheiros evitaram que ele fosse culpado por um fracasso que, mais uma vez, eliminasse o time em um mata-mata.

Ao final do jogo, Nenê disse que eles jogaram também pelo Rodrigo, que foi expulso injustamente. Isso mostra o quanto Caio é querido e admirado pelo grupo. Sua postura dentro e fora de campo o tornou um símbolo do São Paulo. Mas que há uma dúvida sobre sua condição de titular do time, isso há. 

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Pra que chamar quatro laterais? Tite, economize uma vaga!

Mauricio Barros
Maurício Barros

Vaga em Copa do Mundo é algo precioso. Não pode ser desperdiçada. Considerando que não se deve abrir mão de três goleiros, são 20 lugares para jogadores de linha. Pode ser muito para nações futebolisticamente periféricas como Costa Rica, Egito e Coreia do Sul, mas é pouco para países como Alemanha, Espanha, França, Argentina e, é claro, Brasil.

Tite já tinha 16 nomes definidos. Depois dos amistosos diante de Rússia e Alemanha, comenta-se que outros dois jogadores carimbaram seus passaportes: Fred e Douglas Costa. Com esses dois no elenco para uma emergência, não há por que convocar quatro laterais no próximo dia 14 de maio. Três já são suficientes. E Tite economiza uma vaga para o meio e o ataque. Explico.

Daniel Alves e Marcelo ainda são, possivelmente, os dois melhores laterais do mundo. Titulares absolutos. Mas você precisa levar reservas para a posição. Lesões e suspensões acontecem. Pois o Brasil, nos últimos anos, viu crescer três caras que podem jogar nas duas em altíssimo nível. Todos destros, claro, porque um canhoto jamais pode atuar na lateral-direita (me lembro de um jogo em que Renato Gaúcho, treinando o Fluminense, improvisou o canhotíssimo Júnior César na direita. Foi tragicômico vê-lo jogando sempre de costas, todo torto...). Já o destro consegue se adaptar pelo lado esquerdo, vide Júnior, Lahm e tantos outros.

Brasil de Tite caiu no grupo com Suíça, Costa Rica e Sérvia
Brasil de Tite caiu no grupo com Suíça, Costa Rica e Sérvia Getty

Mas um desses três caras está fora de cogitação porque simplesmente não joga há mais de seis meses: Zeca. Preso no imbróglio jurídico com o Santos, o jogador perdeu qualquer chance de repetir na Copa do Mundo o sucesso que fez na Olimpíada.

Outro é Danilo, lateral-direito que Guardiola mudou de lado no Manchester City. Embora tenha perdido um pouco de espaço no clube inglês, Danilo hoje é um jogador muito mais versátil do que foi no Santos, no Porto e no Real Madrid (aliás, que carreira!).

O terceiro nome é Rafinha. Como Danilo, o jogador no Bayern já tem experiência suficiente pelo lado esquerdo para ser um reserva da posição. São dois nomes de peso, com experiência internacional, que podem ser a opção de Tite tanto para a lateral-esquerda quanto para a direita. Tranquilamente. E, num caso de um azar maior, suspensão ou lesão dos dois titulares simultaneamente, você tem Fred e Douglas Costa para quebrar o galho pela esquerda e Fernandinho para cobrir a ala direita.

Não há, com essas opções, nenhuma necessidade de Tite desperdiçar quatro vagas com laterais. Tendo opções tão boas e versáteis, ele economizaria uma vaga para chamar mais um meia criativo ou mesmo um centroavante com maior presença física. Ou, quem sabe, até mesmo para uma surpresa de última hora, um garoto doido que arrebente no início do Brasileirão e possa meter fogo em algum jogo travado, tipo Vinícius Júnior, Rodrygo ou algum outro que pinte por aí.

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Sampaoli e o desafio de chamar Icardi

Mauricio Barros
Maurício Barros

Mauro Icardi, centroavante da Inter de Milão
Mauro Icardi, centroavante da Inter de Milão Getty

Imagino como anda a cabeça de Jorge Sampaoli. Uma parrilha fervilhante. Depois de fazer muito sucesso na Universidad de Chile, na Seleção Chilena e no Sevilla, enfrenta o desafio mais complexo de sua carreira: treinar a Seleção Argentina na Copa da Rússia. Já não foi fácil classificar, definindo-se a vaga direta apenas na última rodada das Eliminatórias. E agora vem essa goleada por  6 x 1 diante da Espanha. Que pancada! Um cronista do Clarín definiu assim o passeio espanhol: “Isco parecia estar na Disney. Os zagueiros argentinos, em Sarajevo”. Foi mesmo um pesadelo. E um perplexo Sampaoli admitia na entrevista coletiva que teria que rever algumas questões na convocação que antes considerava resolvidas.

Contra a Espanha, não estiveram Messi, Agüero e Di María, desfalques gigantescos. Mas o trio só não estará na Copa se houver uma lesão na reta final dos respectivos campeonatos nacionais. A questão recai agora sobre outras duas figuras que estão voando no Campeonato Italiano: Dybala, da Juventus, e Icardi, da Inter, respectivamente terceiro e segundo na tábua de artilheiros. Na Itália, ninguém entende como ambos ficaram de fora da última convocação.

Sampaoli disse que eles não estão ausentes dos planos para a Copa, mas como não haviam ido bem da última vez em que foram chamados, era hora de observar outros jogadores. O treinador precisa de tempo para botar as ideias no lugar. Ninguém passa impune a um 6 x 1 como último jogo antes do Mundial.

O caso Icardi parece mesmo o mais complicado. O atacante interista sofreu uma condenação moral na Argentina porque casou com Wanda Nara, ex-esposa de seu então grande amigo Maxi López. Os dois jogavam juntos na Sampdoria, e aconteceu de Wanda e Icardi se apaixonarem. Hoje, são casados. Mascherano e Messi teriam tomado as dores do amigo Maxi quanto ao novo desafeto. Até Maradona meteu sua delicada colher: “Esse argentino é um traidor, porque você não pode se casar com a mulher do seu amigo após ter ido jantar com eles. Ele irá pagar para o resto de sua vida aquilo que fez a Maxi López”, disse Diego. Como se a decisão não tivesse sido consensual entre Icardi e Wanda, como se não houvesse muito mais coisa nessa história. Quanta hipocrisia.

Bem, Sampaoli chegou e, ao contrário do que fizeram seus antecessores Martino e Bauza, decidiu peitar a questão e chamou Icardi para amistosos no final do ano passado. Mas o atacante não repetiu as atuações que vinha tendo pela Inter. O resultado foi Icardi de fora para os últimos amistosos contra Itália e Espanha.

Não sabemos se, depois dos encontros no ano passado, a relação de Icardi com Messi, Mascherano e outros intocáveis melhorou. Mas, depois do desastre contra a Espanha, cresce a pressão para que o interista entre na lista de convocados.

Sampaoli é um estudioso obsessivo, discípulo de Marcelo Bielsa e admirador de Pep Guardiola. Sabe que, além das qualidades como treinador, precisa ser craque nas questões de liderança. Me lembro da Magic Paula, que certa vez me contou que a Seleção Brasileira Feminina de Basquete só começou a ter bons resultados quando ela e Hortência, lado a lado em um longo voo, sem ninguém por perto, puderam conversar e botar as cartas na mesa. Elas decidiram que, a partir dali, deixariam diferenças de lado e trabalhariam para que a seleção não fosse formada por duas “panelinhas” distintas, mas por um grupo único e coeso. Paula diz que a mudança de postura foi decisiva para que o Brasil fosse campeão mundial e ganhasse a prata em Sydney-2000.

Em uma equipe, ninguém precisa necessariamente ser amigo. Basta que o interesse coletivo esteja em primeiro plano, trazendo tolerância e compromisso. A Argentina precisa de Icardi e, também, de Dybala. E de Messi, Agüero, Di María, Mascherano, Rojo... Sampaoli tem um desafio gigante para esses próximos dois meses e meio: juntar os cacos e remonta-los com uma cola superpotente.

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Os clubes precisam de um Departamento de Resgate

Mauricio Barros
Maurício Barros

Jair Ventura quer trazer Leandro Donizete de volta ao mundo dos vivos. O volante de 35 anos passou os últimos meses como um zumbi praiano, treinando às sombras, esquecido à beira-mar. Sequer foi inscrito na primeira lista do Santos para o Paulistão. Mas nesta reta final, segundo Jair, recuperou sua melhor forma e é o reserva imediato de Alisson.

Jair promete voltar sua atenção agora para Copete, de 30 anos. Enroscado em uma teia de problemas físicos e técnicos, o colombiano não vem sendo sequer relacionado para as partidas.

O contrato de ambos vai até 2020. O clube já investiu uma boa grana neles. Jair prestará um grande serviço ao Santos, técnica e financeiramente, se conseguir reaproveitá-los. E o time precisa melhorar.

O futebol tem pressa. É irritante a velocidade como se infla e também se descarta jogadores. No dicionário da bola, paciência é um verbete que não existe. Eu lá não sou muito fã do futebol de Donizete, tampouco do seu temperamento em campo. Mas ele pode, sim, com sua experiência, ser muito útil em situações que o Santos certamente enfrentará este ano. Já de Copete gosto mais, é incisivo e sabe fazer gols. No cenário crônico de falta de dinheiro dos clubes, é essencial que você tenha uma comissão técnica atenta a resgatar o futebol perdido por jogadores outrora importantes. Vale tanto quanto uma nova contratação, com a vantagem de não vir com custo extra.

Leandro Donizete Treino Santos 26/09/2017
Leandro Donizete Treino Santos 26/09/2017 Ivan Storti/Santos FC

Todo clube grande tem lá seus zumbis à espera de ressurreição. No Flamengo, Geovânio e Rômulo; no Inter, Camilo – e por aí vai. O São Paulo, contra o São Caetano, teve uma joia da base brilhando na partida: Lucas Fernandes, que entrou no segundo tempo após Diego Aguirre seguir orientação do auxiliar André Jardine. Lucas mudou o jogo e mostrou o futebol que todos no Morumbi sabem que ele tem, mas que não vinha aparecendo. Dorival Júnior o havia esquecido, assim como a outra promessa, Shaylon. Garanto que a porta de saída para outro time anda rondando as cabeças de ambos. Aí o cara vai embora e pronto: faz sucesso em outro lugar, porque tem qualidade.  

Os clubes precisam prestar mais atenção a jogadores que caem de rendimento. E montar uma operação-resgate que inclua um profundo diagnóstico físico e comportamental do sujeito, com um planejamento de ações efetivas. Isso é gerenciar recursos humanos. Às vezes as pessoas se esquecem, mas atleta é gente jovem demais. Altos e baixos são coisa normal. Mas há que se investigar o motivo de uma oscilação de rendimento mais duradoura. Algum problema físico? Algum enrosco na família? Questões de relacionamento com o treinador ou com os colegas? Um time multidisciplinar deve entrar em campo para recuperar aquele investimento do clube. No futebol, a gente desiste muito fácil desses caras. 

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A treta diplomática entre Inglaterra e Rússia é grave e já afeta a Copa

Mauricio Barros
Maurício Barros

Discutiu-se bastante nas últimas semanas se o esporte deve ou não ser cenário para manifestações de outras ordens – políticas, religiosas, comportamentais. Eu acho simplesmente que não há discussão: o esporte é parte importante da vida das pessoas no mundo todo, e é impossível que não reflita o espírito de seu tempo. E isso inclui ser ambiente de debates, atos simbólicos, reivindicações as mais diversas. Ou não estamos discutindo gênero a partir da presença da trans Tifanny na Superliga Feminina?

Há neste instante uma crise diplomática envolvendo “apenas” Inglaterra e Rússia. Fervura máxima. A primeira ministra britânica Theresa May acusou formalmente o governo russo de tentar matar por envenenamento o ex-agente Sergei Skripal, 66 anos, e sua filha Yulia, 33, que viviam na Inglaterra. Skripal era colaborador da inteligência britânica e havia “traído” o serviço russo. Preso em 2004, seis anos depois foi trocado com o Reino Unido por espiões russos. Vivia sob refúgio na Inglaterra. Sergei e Yulia estão internados em um hospital em estado “crítico”, bem como o policial que os atendeu de imediato.

May anunciou na última segunda-feira, dia 14, que estava enxotando da Grã-Bretanha 23 representantes russos. É a maior expulsão de diplomatas estrangeiros desde a Guerra Fria. Os contatos bilaterais foram suspensos. Ela ainda revogou o convite para Sergey Lavrov, chanceler russo, visitar o Reino Unido.

Onde o rolo toca o esporte? Bem, May anunciou que a Inglaterra, única seleção britânica classificada para o Mundial, não mandará ministros e tampouco membros da família real à Copa do Mundo da Rússia. Além disso, alertou oficialmente torcedores britânicos que assistirão à Copa in loco para que tomem cuidado com hostilidades nas cidades russas.

Os russos responderam também em tom agudo. Além de negarem a autoria da tentativa de assassinato, classificaram a atitude de May como hostil, míope e injustificada. “Toda a responsabilidade pela deterioração do relacionamento Rússia-Reino Unido reside na atual liderança política da Grã-Bretanha”, disse em comunicado a Embaixada da Rússia em Londres. Sergey Lavrov, imediatamente, conectou com o esporte. O ministro russo foi a público dizer que a atitude de May tem “clara intenção de prejudicar a realização da Copa do Mundo”.

O caso já está na maior instância da ONU, o Conselho de Segurança. O tom da treta é muito sério e, a depender de seu agravamento, fico pensando se é exagero considerar uma hipótese de boicote da seleção da Inglaterra ao Mundial. O esporte, particularmente o futebol, o mais popular do planeta, é terreno privilegiado para ações simbólicas.

E tem gente que imagina que o esporte possa mesmo ser uma bolha de entretenimento asséptica?

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A treta diplomática entre Inglaterra e Rússia é grave e já afeta a Copa

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Kane, CR7 e a questão Talento x Esforço

Mauricio Barros
Maurício Barros
Cristiano Ronaldo com 5ª Bola de Ouro no Santiago Bernabeu
Cristiano Ronaldo com 5ª Bola de Ouro no Santiago Bernabeu Getty Image

Muito legal ver as declarações de Sandro, ex-volante do Internacional e que hoje joga no Benevento, da Itália, sobre Harry Kane. O camisa 10 do Tottenham é um dos melhores atacantes do mundo na atualidade, titular absoluto da seleção da Inglaterra. Sandro jogou nos Spurs de 2010 a 2014 e se lembra de Kane chegando ao time profissional.

O brasileiro conta que foi difícil para Kane ter oportunidades em um clube que privilegiava atacantes badalados como Adebayor, Soldado, Defoe, Pavlyuchenko. “Chegava centroavante atrás de centroavante e os caras não davam oportunidade para ele”, lembra. O que chamava atenção era a obstinação de Kane por treinar, aprimorar seus fundamentos. Dribles, chutes, cabeceios. "Lembro que, depois de todas as atividades, ele ficava horas chutando bolas no gol, cobrando faltas. Esses gols que ele faz hoje, batendo de fora da área, eu via o moleque fazendo no treino quase todo dia. Recebia e soltava a bomba rápido, sempre preciso. Os goleiros ficavam até com raiva, porque doloridos de tanto que ele chutava (risos)", brinca.

Sandro diz que ouvia até zombarias em relação ao garoto. "Às vezes, os outros jogadores ficavam olhando e davam uma cornetada: 'Olha lá o Harry Kane... Coitado, acha que vai jogar'. Era como se quisessem dizem: 'Eu que vou jogar e ele fica lá só treinando'", revela.

Eu já gostava de Kane, gosto ainda mais depois dessa história. Senti uma pena quando sua cabeçada, mesmo em impedimento, bateu na trave e não entrou. A Juventus, merecidamente, avançou na Champions, mas o Tottenham também merecia passar. Coisas da bola.  

Kane me fez pensar um pouco nas doses de talento e esforço que fazem um craque no futebol. Há coisas inatas que definem uma aptidão para os esportes: tempo de bola, coordenação motora, visão periférica, etc. Se o sujeito não traz isso no DNA, melhor esquecer o esporte competitivo. Mas há níveis de domínio dessas habilidades. Sidcley e Sané são ambos canhotos, mas há um oceano de diferença entre a qualidade técnica de um e outro. Kane nasceu com talento e aprimorou esse dom com esforço e disciplina. Por isso é o que é aos 24 anos.

O mesmo se aplica a Cristiano Ronaldo. Talento talhado com enorme dose de esforço. O drible que mais exprime o controle do corpo, aproximando o futebol da dança, ao meu ver, é a pedalada. Pernas avançando em hélice sem tocar a bola, apenas enganando o beque, deixando o adversário tonto e penso para um lado enquanto se vai para o outro. Exige muita coordenação, articulação flexível. O pedaleiro brinca com o corpo. É ginga, malícia, coreografia. Brasileiros são mestres na pedalada. Pois CR7 tem uma pedalada dura, robótica. Não há molejo ali. Dá pra ver que foi fabricada nos treinos. E ele conseguiu um drible muito eficiente, embora sem ginga nem tanta beleza. Puro esforço.

Cristiano Ronaldo é também muito talento, claro. Mas sabe-se que é um doido por treinar. Um superatleta, fisicamente perfeito, com todos os fundamentos de um craque: velocidade, drible, cabeceio, chute com ambas as pernas. Com o esforço, ele foi capaz de levar seu talento a serviço máximo da performance. Por isso, estende seu auge profissional para além dos 30 anos.

Como não pensar nos talentos desperdiçados pela ausência de esforço? Nem vou falar de Garrincha, mas de nomes mais atuais como Adriano e Ronaldinho Gaúcho. Entram, claro, questões psicológicas e sociais que explicam por que craques como eles não tiveram um auge duradouro. Seja lá qual for a causa, fundamentalmente, faltou esforço para maximizar o talento, que é sempre mais difícil de se obter.

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E Diego Souza, rapidamente, virou um problema

Mauricio Barros
Maurício Barros

Diego Souza chegou como solução para o São Paulo. Houve um componente forte de desespero em sua contratação, ocorrida em meio a uma enxurrada de críticas à diretoria, que perdia de uma só vez Hernanes e Lucas Pratto e ainda tinha a permanência de Cueva como incógnita. Só isso pode explicar por que o clube gastou 10 milhões de reais em um jogador de 32 anos.

Pois Diego começa a se tornar um abacaxi para Dorival Júnior descascar no elenco. O treinador gosta de times leves e velozes. Diego Souza é pesado e lento. Com a bola nos pés, é bom jogador. Tem categoria, usa o corpo com inteligência, é bom de passe e conclusão, domina os tais “atalhos da experiência”. Mas é a negação do futebol veloz com que sonha o treinador tricolor. Aliás, como alguém pode considerar Diego Souza como candidato a ir à Copa do Mundo?

Seu caso é mais grave que o de Nenê. Mesmo sendo quatro anos mais velho, o ex-vascaíno tem muito mais mobilidade e é capaz de imprimir velocidade com seus passes e lançamentos. Diego Souza, com essa história de ter virado centroavante na cabeça de Tite, acabou confundindo todo mundo, inclusive ele próprio. Ele  funciona bem atrás do camisa 9. É mais meia que atacante. No Sport, era melhor quando tinha André à sua frente. No São Paulo, pode render mais se jogar na faixa atrás de Brenner ou Trellez. Mas é justamente por onde circula Cueva, o melhor do time, o jogador que desequilibra... Não há muito espaço para Diego Souza no time titular de Dorival, e isso ficou claro na vitória sobre o CRB.

Em que pese a fragilidade do time alagoano, o São Paulo mostrou vitalidade, mobilidade, movimento, a partir da escalação de Brenner, Valdívia e Marcos Guilherme. Com o ótimo Militão e Reinaldo passando nas laterais, Cueva pôde exercitar toda sua visão de jogo, escolhendo, dentre as opções, o melhor alvo para seus passes precisos. Diego Souza, por ser forte e matuto, busca o contato com o zagueiro. Cueva gosta de tocar em profundidade, fazendo o time avançar a partir de seus passes. Precisa justamente do oposto: atacantes que escapem dos beques.

Outro problema que se avizinha é Jucilei. O volante é ótimo jogador, prende bem a bola e tem boa leitura de jogo. Mas, como Diego Souza, é pesado e lento. Hudson e Petros são jogadores mais velozes e agudos. Petros penetra na área com frequência. Hudson também, foi ele quem sofreu o pênalti perdido pelo peruano. Aliás, o ex-cruzeirense parece outro jogador depois da temporada nas mãos de Mano Menezes. Aliou inteligência e técnica àquela vontade bruta que apresentou em sua primeira passagem pelo Morumbi.

Dorival ganha uns dias de respiro e, suas crenças, força no clube. Resta saber como lidará com a provável insatisfação dos dois reforços badalados, Diego Souza e Nenê, que, por justiça, deverão frequentar mais o banco de reservas nas próximas partidas. 

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Nassar, o médico abusador das ginastas, tem seus “seguidores” no futebol. Vamos denunciá-los!

Mauricio Barros
Maurício Barros
Larry Nassar foi preso pelo abuso sexual de mulheres
Larry Nassar foi preso pelo abuso sexual de mulheres []

Larry Nassar tem 54 anos e deve apodrecer em uma cadeia dos Estados Unidos. E lá dentro vai sofrer o diabo. Eu não a celebro, mas a ética particular dos presídios não costuma perdoar certos crimes. Ele foi condenado por pornografia infantil a 60 anos de prisão. O FBI encontrou em seu poder centenas de imagens de menores em atos sexuais, algumas feitas em sua casa.

Nassar foi também médico da Confederação de Ginástica dos Estados Unidos de 1998 a 2015. E aguarda julgamento por outra denúncia: abuso sexual de ao menos 140 mulheres, muitas atletas menores de idade. O estopim foi uma investigação do jornal Indianapolis Star, que trazia indícios dos crimes de Nassar. Na série de reportagens, uma vítima relatava ter sofrido abuso por parte do médico em seu consultório quando tinha 15 anos.

Tem sido assim, demorado, porque não é fácil ser o primeiro a denunciar. Mas quando alguém toma coragem, outros quebram o silêncio. E uma onda de denúncias contra o médico começou a aparecer de dois anos para cá. Quando os rumores atingiram decibéis minimamente audíveis, não tardou para as primeiras atletas se sentirem encorajadas a contar os crimes e constrangimentos de que foram vítimas. Entre elas, estrelas como McKayla Maroney, Aly Raisman, Gabby Douglas e, mais recentemente, Simone Biles, o maior nome da ginástica feminina na Rio-2016, quando ganhou quatro medalhas de ouro e uma de bronze. “Não tenho mais medo de contar minha história”, escreveu Simone.

O comentarista Lucas Mendes, apresentador do programa Manhattan Connection, do GNT, está sendo avacalhado nas redes sociais porque reproduziu, em seu programa, o discurso ignorante que sugere oportunismo de quem costuma fazer esse tipo de denúncia. “Por que demoraram tanto? Não contaram para seus pais na época? Olha que tem muita grana envolvida nesse tipo de ação!” e coisas do tipo. Felizmente, seu companheiro de bancada Caio Blinder o colocou em seu devido lugar. Oxalá Mendes daqui para frente se informe sobre a questão e elabore melhor seus comentários quando esse tema voltar à mesa.

Há muitos fatores que inibem a denúncia. Medo, culpa, receio de perder a oportunidade na carreira (em geral, o abusador está em posição hierárquica superior), dificuldade em provar (é sempre a palavra de alguém mais velho contra uma criança/adolescente) e mesmo a complexidade em reconhecer o assédio como tal, tamanha sua banalização. Mas, felizmente, as coisas estão mudando. Casos como o de Nassar, que resultam em prisão do abusador, são decisivos para inibir tais crimes.

Nas empresas, os departamentos de Compliance, quando sérios (muitos não são), levam adiante investigações a partir de denúncias anônimas. E já há muitos casos de demissões por assédio sexual e moral no mundo corporativo. Bancos, construtoras, empresas de comunicação. Eu conheço alguns casos. Chega. Basta. Assediadores não passarão.

Nesse cenário, é louvável a iniciativa do Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo (tão justamente criticado pela histórica inanição) de lançar uma campanha contra o abuso e o assédio sexual nas categorias de base do futebol. Um vídeo com o alerta “Eu sou contra o assédio sexual no futebol”, dito por atletas do peso de Rodrigo Caio e Moisés, entre outros, mais a hashtag #chegadeabuso é o primeiro passo da campanha, que promete se desdobrar em ações preventivas.

Em 2012, quando eu dirigia a revista Placar, o repórter Breiller Pires, hoje meu colega na ESPN e também editor de esportes do El País, propôs fazermos um mapa do abuso sexual na base dos times brasileiros. Dei a ele o estímulo e o tempo que precisasse para produzir a investigação. Em março de 2013, publicamos não um mapa, mas um dossiê dissecando o problema nas páginas da revista. Breiller segue sempre atento à evolução dessa temática.  

Ainda é um assunto tabu, mas basta falar com qualquer atleta minimamente rodado no futebol para ouvir histórias sobre assédio a meninos por parte de treinadores, auxiliares, etc. Mas ainda falta um caso Nassar da bola. Ele existe. E não é um só. Só não veio ainda à tona. É preciso encontra-lo.

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Muito craque junto pode ser um pesadelo

Mauricio Barros
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Muito craque atrapalha, não tem jeito. Porque não cabem todos no time. Uma boa equipe se forma quando há equilíbrio entre tarefas “de base” e missões mais criativas. Osso e filé. E mesmo os jogadores mais criativos, que são os que mais aparecem e, consequentemente, os mais badalados e ricos, devem saber que é preciso estar disposto a dar uma bicadinha no osso.

Pensando nas megaestrelas do futebol, entra no rolo uma mistura explosiva de vaidade, personalidades mimadas e altamente influenciáveis, reclamações de empresários, parentes dizendo que eles são o máximo e perguntando quem é o treinador para botá-lo no banco, clubes tentando aproveitar o descontentamento para arrancá-los dali... E, claro, tem o desejo do cara de jogar sempre.

As redes sociais pioraram tudo. Muitos atletas não estão preparados para lidar com elas e desabafam ou mandam recados em posts e tuitadas. Parentes próximos fazem o mesmo. Tudo vira pauta para debates na imprensa e na padaria. Um treinador não consegue administrar tais questões apenas internamente. Viram assunto público.

Depois da derrota por 3 x 1 do PSG para o Real Madrid, as esposas entraram em campo. Isabelle, mulher de Thiago Silva, que foi preterido em prol de Kimpembe, mandou uma indireta mais que direta ao técnico Unai Emery. “Tática, tática? O que é tática? Aff...”, escreveu a moça. Jorgelina, esposa de Di María, que também não entrou no jogo, foi mais dura. “Seu esforço + seu trabalho extra + seus gols + suas assistências + seu melhor momento = banco. Mas quem não entende de futebol são as mulheres”, escreveu. Em segundos, suas declarações repercutiram no mundo todo.

 Unai Emery mexeu mal e foi um dos grandes responsáveis pela derrota do PSG, mais uma prova de que não está à altura dos investimentos e objetivos do clube francês, hoje controlado pelos milionários do Qatar. Liderar um elenco com tantas estrelas como Neymar, Cavani, Daniel Alves, Thiago Silva, Di Maria, Pastore, Mbappé, Verratti, Draxler é tarefa das mais difíceis. Você precisa ter muita história e capacidade de comando, muita qualidade técnica e carisma pessoal para fazer esse grupo funcionar coletivamente. Isso significa fazer os craques cumprirem funções e também aceitarem quando são preteridos.

Creio que há um número mágico de estrelas que se pode ter em um time de futebol. O equilíbrio com outros jogadores menos expostos às armadilhas da vaidade, cumpridores de funções, mais “operários”, é a chave para o sucesso. Há na história do futebol vários exemplos de constelações que naufragaram, tipo o Flamengo de Romário, Sávio e Edmundo e a Seleção Brasileira de Ronaldo, Ronaldinho, Adriano, Roberto Carlos e Kaká na Copa de 2006.

O PSG pode, claro, vencer o Real no jogo de volta e avançar na luta pelo título europeu, a grande obsessão dos seus donos. Mas parece certo que Emery está com os dias contados. Seja quem vier para o seu lugar (fala-se até em Tite), o melhor a fazer é escolher as estrelas com quem quer trabalhar, um número reduzido e administrável, e dispensar as demais. Pegar o dinheiro e ir atrás de figuras menos midiáticas e mais “tarefeiras”. Busquets é um exemplo de jogador gigante e que dificilmente vai criar problemas por conta de vaidade. Há vários outros.

Nisso cruzo o Atlântico e aterrisso no CT do Palmeiras. Guardadas as devidas proporções, Roger Machado tem um problema de ordem semelhante: muita gente boa, cara, badalada e com bastante mercado. Para o gol, Jaílson deixa Prass e Weverton no banco. No meio, Lucas Lima não dá espaço para Guerra e Scarpa. Há disputas de “cachorro-grande” também nas laterais e no ataque. Uma situação privilegiada que seria o sonho de qualquer técnico, mas que, se o cara não tiver cuidado, pode se virar contra ele. Roger parece muito capaz do ponto de vista técnico e também comportamental. Gosta de conhecer o jogador nos aspectos boleiros e psicológicos. Mas não pode descuidar um minuto, senão o caldo entorna. 

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O VAR é um túnel escuro. Mas não há saída senão ver aonde vai dar

Mauricio Barros
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A CBF pode tapear que está sem grana, os clubes podem dizer o mesmo de seus cofres, neguinho pode discordar, jogar a culpa um para o outro, o escambau. Mas o VAR, o árbitro de vídeo, é uma realidade sem volta. Seja neste ano, no ano que vem, no outro... Em curto ou no máximo médio prazo, todas as partidas dos principais torneios de futebol profissional no Brasil terão os elementos da tecnologia auxiliando a arbitragem. Vai ficar cada vez mais barato, como tudo no mundo, exceto as cervejas IPA. Trata-se da maior transformação no esporte mais querido da humanidade desde que os inventores ingleses padronizaram as regras básicas, no final do século XIX. E vai doer pra caramba.

Até que se chegue a uma utilização razoável, baseada no mínimo de bom senso, e que todos os atores ­– jogadores, técnicos, árbitros, imprensa, torcida, eu e você ­– aceitem que a mudança vem para conferir um pouco mais justiça aos resultados, muito vai se errar, atrapalhar, confundir.

Entendo perfeitamente quem malha a adoção do árbitro de vídeo. O futebol só chegou onde está, imbatível em popularidade, porque extrapola o campo. Sua natureza fluída, a posse transitória, a bola conduzida sem as mãos, e por isso sempre à mercê de ser tomada, o campo grande, o número excessivo de jogadores, abre um leque inigualável de eventos possíveis naquele retângulo verde. A conexão com o sobrenatural, a predestinação, a trapaça esperta, os heróis e vilões, a cultura enfim, faz a humanidade estar ali exposta como em nenhum outro jogo.

No último domingo, depois do clássico entre Liverpool e Tottenham pela Premier League, Mauricio Pochettino, técnico dos Spurs, confessou ser um dos que torcem o nariz para o uso da tecnologia na arbitragem. Embora o Campeonato Inglês não tenha ainda adotado o VAR, ele aproveitou um cartão amarelo dado para seu meia Dele Alli por simulação para externar sua preocupação.  "Foi claro. O árbitro estava certo. O problema é que agora estamos muito sensíveis sobre essa situação. É até demais, algumas vezes. Penso que seja um problema pequeno", disse. "Estou preocupado que vamos mudar o jogo que conhecemos, como conhecemos o futebol. É um esporte criativo, no qual você necessita de talento e perspicácia", continuou o treinador.

Perspicácia, aí, podemos tranquilamente entender como esperteza, prima da malandragem, amante da trapaça. Pochettino, um dos expoentes da nova geração de treinadores mundiais, é argentino. Para nós, sul-americanos em particular, a malandragem tem componentes charmosos irresistíveis. A caminhada de Nilton Santos para fora da área após ter feito o pênalti em 1962 e a mão de Maradona em 1986 são a quintessência da trapaça heroica, genial, “do bem”, justificada. Os europeus também têm as suas, claro, mas lidam de modo diferente com a simulação, são mais críticos e menos românticos. "Estou preocupado que o esporte que tanto amamos terá uma estrutura muito rígida com o VAR. Para o jogo, punir a pessoa... Há 30 anos, nós todos parabenizávamos os jogadores quando eles enganavam os árbitros assim! Não só na Argentina, mas na Inglaterra também", comentou. “Isto é o futebol, este é o esporte pelo qual me apaixonei quando era criança", completou Pochettino.

Eu há alguns anos até escrevi que algumas sujeiras dentro do campo eram, na verdade, alecrim, tomilho, coentro, temperos que davam ao futebol seu sabor único. Não penso mais assim. Creio que o futebol tenha elementos suficientes para seguir apaixonante se auxiliarmos sua mediação por parte dos árbitros. A exposição do jogo em multicâmeras tornou desleal a avaliação do trabalho desses pobres diabos. Aquela bola do gol do Santos contra o Palmeiras, saiu ou não? Ninguém pode ter certeza. Era impossível para o bandeirinha apontar. Mesmo com alguém colado à linha, pela velocidade da bola, pela regra dizer que a circunferência tem que sair toda, seria possível a este cravar. Fez bem o juiz de seguir o jogo. Enfim, só para citar um exemplo recente...

O VAR vem aí, e repleto de incertezas. É um buraco escuro, mas a gente precisa mergulhar nele. E eu espero, sinceramente, que o futebol que esteja do outro lado seja ainda melhor.        

 

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O fim da comissão técnica 'generalista'

Mauricio Barros
Maurício Barros

Os sexagenários Buião e Zé são barbeiros no meu bairro, na zona oeste paulistana, já tem mais de 30 anos. Há quatro, esses irmãos tentam em vão deixar meu cabelo apresentável, aparando tufos aqui e ali, chumaços cada vez menos arruivados e mais brancos. Migrantes nordestinos, adotaram o São Paulo como time do coração. São doentes por bola e pelo tricolor paulista. Sabem todas as notícias, veem programas esportivos de TV aberta e fechada. São impagáveis seus comentários. Coisas como “esse Cueva é gordinho porque quando vai pro Peru come muita batata. Lá tem muita batata”. Futebol, geografia e gastronomia em uma frase só.

Não falo de tática com eles, nem de estatísticas e ferramentas tecnológicas, porque futebol, para Buião e Zé, tem a ver com drible, pegada, malandragem. Engraçado demais. Um jeito de ver o esporte que, creio, ainda seja majoritário no Brasil. Mas, claro, é algo datado.

Lembrei deles porque, vira e mexe nos pegamos no Bate-Bola na Veia discutindo esforço x talento, ciência x dom. Meu querido amigo João Canalha sempre nos cutuca: será que a preocupação com a disciplina tática está tolhendo o talento e deixando o futebol mais feio e chato? Entendo e compartilho de sua preocupação. Essa discussão é, para nós, brasileiros, particularmente sensível, pois somos o país do futebol bonito – digo isso historicamente, porque já há um bom tempo que grandes craques surgem nos quatro cantos do planeta, do Egito à Bélgica, do Chile à Croácia.

O que pontuo sempre é que essa oposição é, por princípio, equivocada. O futebol feio e chato se deve às dificuldades que temos para manter nossos melhores jogadores e à baixa qualidade dos treinadores, desde a base. O esforço e a ciência, quando aplicados com inteligência, só tendem a iluminar o dom e o talento. Quanto mais conhecimento houver, maior a possibilidade de se aproveitar as qualidades individuais e tornar o jogo mais eficiente e bonito. A evolução do esporte nos aspectos estratégicos e físicos tornou-o muito mais disputado, complexo e difícil. Confiar apenas no talento é abrir um atalho para a derrota.

Outro dia analisávamos com o Data ESPN uma imagem de linha de impedimento mal ensaiada. Bastou um zagueiro não sair na hora certa e lá estava o atacante em condição legal para receber a bola. Fico pensando se o próximo passo nas comissões técnicas é a especialização radical dos assistentes por funções, terços do campo, fases distintas. No futebol americano, por exemplo, há treinadores de defesa e estrategistas de ataque. Não vi isso tão compartimentado ainda por aqui.

São esportes bem diferentes, claro, no soccer a posse se alterna a todo instante, modo ataque e modo defesa se sucedem a intervalos curtíssimos de tempo. Mas creio que o futebol chegou a um nível competitivo tamanho que já pede uma especialização ainda maior nas comissões técnicas.

Se há tempos existem os treinadores de goleiros, onde estão os treinadores de defesa, de meio-campo, de ataque?  Alguém que foque em um setor ou função. Na defesa, por exemplo, um treinador bem formado que esmiúce as tarefas, disseque os fundamentos, os números, estude os melhores “ferrolhos” da história, crie novos treinamentos para quando a bola estiver perto de sua área, ajude a selecionar os garotos nas peneiras. E que, claro, seja capaz de conectar os movimentos dos zagueiros (e volantes) com os outros setores do time, armação e ataque. Porque, mais do que defesa, hoje precisamos falar de sistema defensivo, e isso inclui até mesmo o centroavante.

Mas coisas como linha de impedimento, posicionamento em escanteios e faltas, bote e sobra, por exemplo, são questões que afetam mais diretamente a primeira linha. Cabe reservar um tempo na agenda de treinamentos para separar a turma e treinar especificamente tais quesitos. O mesmo serve para meio-campo e ataque. Mas não comente isso com o Buião nem com o Zé que é capaz de eles darem um talho na sua orelha.            

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E Raí tendo que lidar com sujeitos como Cueva?

Mauricio Barros
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Conversei longamente com Raí em meados do ano passado. Trocamos ideias sobre reputação, credibilidade, ética, essas coisas que andam tão na moda hoje quanto a pochete, a kaiser bock e a lambada. Falamos bastante sobre seus interesses diversos, da Fundação Gol de Letra ao cinema em Pinheiros, dos estudos em Londres ao perfil das empresas que o procuram para campanhas publicitárias. Estava junto seu sócio de longa data, Paulo Velasco. Àquela altura, Raí já fazia parte da equipe do presidente Leco no São Paulo, como membro do Conselho de Administração. Mas, em nosso papo, ele não dava pinta de que entraria ainda mais a fundo na gestão do clube, como viria a fazer em dezembro no cargo de diretor de futebol.

Fico imaginando como deve ser difícil para Raí lidar com indivíduos como o peruano Cueva, que, já não bastasse o atraso de uma semana em sua reapresentação para a temporada 2018, pediu agora para não viajar com o clube para Mirassol, onde o São Paulo busca sua primeira vitória no Campeonato Paulista. Ele tem propostas para sair, entre elas a do Al-Ahli, dos Emirados Árabes Unidos, mas o São Paulo tem dito que não quer negociá-lo neste momento.

Via site oficial do clube, Raí fez um comunicado com teor inadmissível para alguém que, como ele, pautou sua carreira pelo profissionalismo inquestionável. Dá pra sentir o sangue fervendo em cada palavra. “O Cueva nos pediu para não participar do jogo e nós avaliamos que ele não está plenamente comprometido com a agenda do clube neste momento. Assim, decidimos não levá-lo com a delegação para Mirassol. Nós lamentamos essa situação e estamos trabalhando para tê-lo apto física e mentalmente e à disposição para voltar a contribuir com o São Paulo o mais rápido possível. O São Paulo não abre mão do jogador neste momento”.

Para um profissional de qualquer área, ver-se exposto dessa maneira pelo chefe deveria ser uma enorme humilhação. Ser acusado de não estar comprometido com a agenda do clube faria qualquer um repensar seus modos. Mas não sei se Cueva se tocará disso. Duvido. Como declarou Orlando Lavalle, treinador do peruano na base do Universidad San Martín, em recente reportagem do Uol, ele sempre, desde garoto, foi muito mimado. E pela postura de Leco, para quem não adianta querer manter jogador insatisfeito e o melhor é negociar (vide Lucas Pratto), suspeito que o peruano, principal homem de criação do São Paulo após a saída de Hernanes, não vestirá mais a camisa tricolor.

Gerir jogadores de futebol é um inferno. Em geral, salvo exceções, são mal formados culturalmente, têm repertório estreito, sofrem uma influência enorme de familiares e empresários. E, no caso dos melhores, e Cueva está entre eles, são muito ricos, o que complica ainda mais, pois não toleram ser contrariados e ameaçam sair. Raí foi o oposto disso tudo. Imagine o que não lhe dói no fígado, mesmo ganhando bem para tanto, ter que lidar com um sujeito de postura tão abjeta como Christian Cueva.

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Carta de amor aos canhotos

Mauricio Barros
Maurício Barros, blogueiro do ESPN.com.br

Quando o Palmeiras reúne dois dos melhores canhotos do futebol brasileiro, Lucas Lima e Gustavo Scarpa, me lembrei deste texto que publiquei em minha coluna na revista VIP, em junho do ano passado. Lá vai:

Assimetria hemisférica é o nome científico para as diferenças entre os lados do nosso corpo. Tenho uma das pernas milímetros mais curta que a outra e acredito que esteja aí a causa da minha lombalgia, hoje controlada pelo legado de Joseph Hubertus Pilates. Ao menos esse bug me rende um gingado de mestre-sala esloveno. Assimetria hemisférica também contempla o fato de sermos destros ou canhotos. E faz pouco mais de três meses que pesquisadores da Ruhr-Universität Bochum, na Alemanha de Pilates, jogaram água no chope de quem creditava ao cérebro a responsabilidade por nascermos Pelés ou Maradonas nos pés, Borgs ou McEnroes nas mãos.

Dizem os germânicos que a causa está determinada desde muito cedo. O estudo defende que na 13a semana de gestação os fetos já fazem movimentos preferencialmente com um dos lados do corpo. E o uso prioritário de uma das mãos já se nota na oitava semana. Nesse período, ainda não foi completada a ligação do córtex motor com a medula espinhal. Portanto, segundo o estudo, é na medula que acontece a preferência por direita ou esquerda – e aqui, por favor, não falo de política, embora nessa seara há muito eu me encontre em posição fetal.

Daí caímos como um tijolo em Messi e Cristiano Ronaldo. O FutLAB, grupo que fundei com amigos feras em estatísticas para analisar o futebol sob o prisma exclusivo dos números, publicou recentemente no site da ESPN uma comparação entre os dois mais Neymar. O brasileiro ficou bem atrás. Messi venceu CR7 pelas características relacionadas à maior participação no jogo. Os números se restringiram às quatro temporadas em que os três atuaram juntos na Espanha.

Confesso que minha preferência por Messi já existia muito antes de ver os números. E mesmo que o argentino perdesse, eu mandaria às favas minhas próprias convicções estatísticas. Tudo porque o pequeno Lionel, na barriga da mamãe Celia Cuccittini, já usava a canhota. E eu amo os canhotos. Sua biomecânica é diferente, improvável, estilosa. Minha medula me fez destro, mas desde pequeno não me conformei. Treinei a esquerda à exaustão, a ponto de poder bater tranquilamente um escanteio com esta perna que não é a minha boa. Mas meu movimento sempre será forçado, robótico, porque na barriga da minha mãe eu mexia a destra. Frustrante.

O Capiroto, o Indivíduo, o Sujo, o Cramulhão, o Das Trevas… Guimarães Rosa nos deixou dezenas de nomes para o Demônio. Até nisso eu renego o legado da minha assimetria hemisférica. Prefiro, de longe, “o Canhoto”.

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Carta de amor aos canhotos

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Quem vai ficar com Robinho?

Mauricio Barros
Maurício Barros

E Robinho surge nas redes sociais curtindo o verão de jet ski e soltando grunhidos ininteligíveis sobre as águas. Seu staff diz que, após a rescisão contratual com o Galo, o jogador não tem pressa em fechar com um clube para o ano que se inicia.

Depois de uma boa temporada em 2016, o atacante viveu um 2017 de altos e baixos ­– mais baixos que altos, diga-se, embora tenha tido um brilhareco na reta final. No dia 23 de novembro, a má fase em campo ganhou contornos sombrios: a Justiça da Itália anunciou a condenação de Robinho a nove anos de prisão porque teria participado, ao lado de outros cinco homens, de um estupro coletivo de uma jovem de origem albanesa em uma boate de Milão. O episódio aconteceu, segundo a Justiça, em 22 de janeiro de 2013, quando Robinho jogava no Milan.

A condenação acontece em primeira instância e cabe recurso. Robinho, por meio de seus advogados, nega enfaticamente a participação no episódio e disse que vai recorrer. Vale lembrar que, em 2009, uma jovem também o acusou de violência sexual em uma boate de Leeds, Inglaterra, quando Robinho jogava no Manchester City. Após investigação da polícia, ficou comprovado que a mulher estava mentindo, e foi aberto contra ela um processo por falsa acusação.

Fato é que, enquanto cabem recursos, Robinho está livre para tocar sua vida. É fato também que o peso moral dessa condenação em primeira instância é enorme e, quem o contratar, deverá ter consciência disso. Ainda no Atlético, um grupo que se identificou como “Feministas do Galo” pendurou uma faixa na frente da sede do clube em Belo Horizonte contra a presença do atleta: “Um condenado por estupro jogando no Galo é uma violência contra todas as mulheres”.

Robinho tem uma carreira brilhante dentro de campo, principalmente no Santos e na Seleção Brasileira. Na Europa, onde atuou no Real Madrid, no Manchester City e no Milan, não conseguiu confirmar tudo o que se esperava de seu potencial, tendo sido um ator secundário. A meu ver, faltou seriedade ao craque no período europeu. Robinho sempre me pareceu criança demais, fanfarrão demais. E ainda parece, quando o vejo publicar vídeos curtindo a vida adoidado quando uma condenação tão séria quanto essa assombra seu futuro.

Robinho logo completará 34 anos e a vida continuará depois que pendurar as chuteiras. Já está milionário e dinheiro não será problema. Se está tão certo de sua inocência, como tem declarado desde que o episódio veio à tona, deveria focar em sua defesa, concentrar esforços em provar que não tem culpa. É hora de recolhimento, de calcular melhor suas aparições públicas. Isso não implica renunciar à vida nem ao trabalho enquanto os recursos rolam nos tribunais da Itália, mas ter consciência do tamanho da encrenca em que está metido.

Dentro de campo, propostas não faltarão para Robinho jogar nesta temporada. Mas, antes de escrever o contrato para o jogador assinar, o clube interessado deve responder a uma pergunta crucial: vale a pena investir tanto em um jogador decadente dentro de campo e que, fora dele, tem uma situação tão grave e delicada por resolver?                

 

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O Chile é uma carga muito mais leve para Rueda

Mauricio Barros
Maurício Barros

Flamenguista, é questão de tempo que você peça a demissão de Reinaldo Rueda do comando do time. Talvez já esteja pedindo. Não porque seja o Rueda, mas porque no futebol é assim, as coisas duram pouco. Mesmo que ele fique e vá bem, uma hora o caldo entorna. Questão de meses. A carne mais perecível do mercado é a de treinador. E a do colombiano encerrou o ano na frigideira, após a melancólica derrota no Maracanã para o Independiente na final da Copa Sul-Americana.

É uma pena que seja assim. Acredito que uma avaliação justa do trabalho de um técnico só possa ser feita após uma temporada completa, que tenha se iniciado com a participação dele na escolha de reforços e dispensas, antes mesmo da pré-temporada. É o que está acontecendo, por exemplo, com Roger Machado no Palmeiras – que talvez não dure até o meio do ano, a depender dos desígnios de Resultado, o deus pagão do futebol.

Qualquer veredicto em um prazo menor que uma temporada completa contamina a justiça da análise. Rueda chegou com o ano loucamente maduro, o Flamengo envolto em mata-matas da Copa do Brasil e da Sula, tudo isso em meio ao Campeonato Brasileiro. Foram quatro meses não só de trabalho, mas de vida do treinador colombiano no Brasil. Se colocarmos no pacote toda a complexidade de mudar de país, com outra língua e cultura, e as particularidades que o gigantismo do Flamengo traz, fica ainda mais clara a percepção de que não há elementos para dizer se Rueda é um sucesso ou uma decepção. O que deu para sacar é que é um cara trabalhador, elegante e honesto no que diz e faz.

Mas Rueda está sendo muito assediado pela Federação Chilena para dirigir sua seleção. As notícias da imprensa do Chile mostram um cenário de acerto avançado, ao contrário do ceticismo com que o assunto tem sido tratado por aqui.

O Flamengo não tem muito a fazer, não vai dar aumento pra Rueda ficar. Há uma multa, e se ela for paga sob autorização do treinador, nada resta aos cartolas rubro-negros. Mas o clube tampouco pode ficar exposto a essa incerteza para além dos próximos dias. Há um planejamento para o ano a ser desenvolvido, decisões sobre contratações e dispensas, o Estadual começa logo ali, em 17 de Janeiro.

Na balança das propostas, a única coisa que pesa para que Rueda opte por ficar no Flamengo é a ambição esportiva. No âmbito sul-americano de clubes, o Fla é muito maior do que a Seleção Chilena é entre as seleções do continente. Ter sucesso dirigindo um gigante brasileiro elevaria a carreira e o patamar do colombiano. De resto, o convite chileno parece ser mais conveniente.

Quanto a salário, os chilenos certamente oferecem mais. A ideia é que o prazo de contrato seja longo, de quatro anos, visando a classificação e a disputa da Copa de 2022. No Fla, a demissão pode vir a qualquer momento... Há uma necessidade dos chilenos por alguém que comande a transição entre a geração brilhante de Alexis Sanches e Arturo Vidal e os novos nomes que estão surgindo no país. Santiago é uma cidade linda e muito mais segura que o Rio de Janeiro. E o trabalho em uma seleção é sazonal. Rueda não precisa dar expediente, ir todos os dias. Pode morar na Colômbia e viajar para passar períodos de Data Fifa no Chile. De resto, a rotina de treinador de seleção é fazer reuniões esporádicas, assistir a jogos, às vezes uma viagem pontual para observar jogadores. Um trabalho de responsabilidade e pressão razoáveis, mas nada perto do frenético cotidiano que é dirigir um clube como o Flamengo.

Essas questões de rotina são particularmente importantes para Rueda, que tem sua mãe gravemente doente na Colômbia.

Adoraria que Rueda ficasse, mas, por tudo isso, não será nenhuma surpresa se o treinador rescindir seu contrato com o Flamengo para virar treinador do Chile. Será mais um técnico estrangeiro a fracassar no Brasil nos últimos anos. Uma pena. Se fosse você, como decidiria?

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