O fim da comissão técnica 'generalista'

Mauricio Barros
Maurício Barros

Os sexagenários Buião e Zé são barbeiros no meu bairro, na zona oeste paulistana, já tem mais de 30 anos. Há quatro, esses irmãos tentam em vão deixar meu cabelo apresentável, aparando tufos aqui e ali, chumaços cada vez menos arruivados e mais brancos. Migrantes nordestinos, adotaram o São Paulo como time do coração. São doentes por bola e pelo tricolor paulista. Sabem todas as notícias, veem programas esportivos de TV aberta e fechada. São impagáveis seus comentários. Coisas como “esse Cueva é gordinho porque quando vai pro Peru come muita batata. Lá tem muita batata”. Futebol, geografia e gastronomia em uma frase só.

Não falo de tática com eles, nem de estatísticas e ferramentas tecnológicas, porque futebol, para Buião e Zé, tem a ver com drible, pegada, malandragem. Engraçado demais. Um jeito de ver o esporte que, creio, ainda seja majoritário no Brasil. Mas, claro, é algo datado.

Lembrei deles porque, vira e mexe nos pegamos no Bate-Bola na Veia discutindo esforço x talento, ciência x dom. Meu querido amigo João Canalha sempre nos cutuca: será que a preocupação com a disciplina tática está tolhendo o talento e deixando o futebol mais feio e chato? Entendo e compartilho de sua preocupação. Essa discussão é, para nós, brasileiros, particularmente sensível, pois somos o país do futebol bonito – digo isso historicamente, porque já há um bom tempo que grandes craques surgem nos quatro cantos do planeta, do Egito à Bélgica, do Chile à Croácia.

O que pontuo sempre é que essa oposição é, por princípio, equivocada. O futebol feio e chato se deve às dificuldades que temos para manter nossos melhores jogadores e à baixa qualidade dos treinadores, desde a base. O esforço e a ciência, quando aplicados com inteligência, só tendem a iluminar o dom e o talento. Quanto mais conhecimento houver, maior a possibilidade de se aproveitar as qualidades individuais e tornar o jogo mais eficiente e bonito. A evolução do esporte nos aspectos estratégicos e físicos tornou-o muito mais disputado, complexo e difícil. Confiar apenas no talento é abrir um atalho para a derrota.

Outro dia analisávamos com o Data ESPN uma imagem de linha de impedimento mal ensaiada. Bastou um zagueiro não sair na hora certa e lá estava o atacante em condição legal para receber a bola. Fico pensando se o próximo passo nas comissões técnicas é a especialização radical dos assistentes por funções, terços do campo, fases distintas. No futebol americano, por exemplo, há treinadores de defesa e estrategistas de ataque. Não vi isso tão compartimentado ainda por aqui.

São esportes bem diferentes, claro, no soccer a posse se alterna a todo instante, modo ataque e modo defesa se sucedem a intervalos curtíssimos de tempo. Mas creio que o futebol chegou a um nível competitivo tamanho que já pede uma especialização ainda maior nas comissões técnicas.

Se há tempos existem os treinadores de goleiros, onde estão os treinadores de defesa, de meio-campo, de ataque?  Alguém que foque em um setor ou função. Na defesa, por exemplo, um treinador bem formado que esmiúce as tarefas, disseque os fundamentos, os números, estude os melhores “ferrolhos” da história, crie novos treinamentos para quando a bola estiver perto de sua área, ajude a selecionar os garotos nas peneiras. E que, claro, seja capaz de conectar os movimentos dos zagueiros (e volantes) com os outros setores do time, armação e ataque. Porque, mais do que defesa, hoje precisamos falar de sistema defensivo, e isso inclui até mesmo o centroavante.

Mas coisas como linha de impedimento, posicionamento em escanteios e faltas, bote e sobra, por exemplo, são questões que afetam mais diretamente a primeira linha. Cabe reservar um tempo na agenda de treinamentos para separar a turma e treinar especificamente tais quesitos. O mesmo serve para meio-campo e ataque. Mas não comente isso com o Buião nem com o Zé que é capaz de eles darem um talho na sua orelha.            

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Redução já: A elite do Brasileiro não tem 20 clubes

Mauricio Barros
Maurício Barros
Paraná Clube, que voltou a elite do futebol brasileiro nesta temporada, está na lanterna da Série A, com 9 gols marcados em 18 jogos
Paraná Clube, que voltou a elite do futebol brasileiro nesta temporada, está na lanterna da Série A, com 9 gols marcados em 18 jogos Gazeta Press

Rogério Ceni esteve no último Resenha ESPN, nosso já clássico programa apresentado por André Plihal. Treinador do Fortaleza, Ceni é líder da Série B e faz um trabalho sólido para levar o Tricolor de Aço de volta à primeira divisão do Campeonato Brasileiro.

Porém, mais difícil que chegar à elite é permanecer nela. E a razão é simples: não há 20 clubes no Brasil que mereçam estar na primeira divisão. E aqui não falo de história, de tradição, de força de torcida. Há clubes enormes no Brasil, capazes de despertar paixões gigantes, e o Fortaleza é um deles, assim como o Santa Cruz, o Remo, a Ponte Preta e tantos outros. Falo aqui de estrutura, de categorias de base, de capacidade financeira e de competência administrativa.

É urgente que se diminua para 18 o total de clubes na Série A, com um efeito cascata para a Série B. No entanto, as Séries C e D, creio, são outro papo. Quem vê o futebol apresentado por Paraná, Ceará e Sport, por exemplo, entende que são times de outro nível competitivo.

O Leão pernambucano foi simplesmente constrangedor em sua casa diante do São Paulo, um reflexo do turbilhão administrativo que vitimou mais um treinador, Claudinei Oliveira, como se a troca de técnico fosso resolver alguma coisa. O lanterna Paraná fez nove gols em 18 partidas. O Ceará marcou apenas 11 vezes!

Neste domingo, discutimos rapidamente essa questão no Bate-Bola. Meu colega Mauro Cezar Pereira chamou a atenção para esse problema, que há muito tempo também me incomoda. A elite não é tão grande assim. Talvez seja até menor, 16 clubes... Mas creio que 18 é algo razoável, com duas vagas de acesso e uma outra disputada pelo terceiro da Série B e o antepenúltimo da Série A. Quatro clubes subindo e descendo todo ano é um exagero.

E, do ponto de vista do clube e sua torcida, sinceramente, vale passar uma temporada inteira levando bordoada só pra se dizer “de elite”?

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São Paulo é líder. E agora?

Mauricio Barros
Maurício Barros, blogueiro do ESPN.com.br

Jogador por jogador, nome por nome, era para o São Paulo estar brigando pela quinta posição do Campeonato Brasileiro. Isso mesmo, alimentando o sonho de voltar à Libertadores no ano que vem. Em virtude do que passou em 2017, convivendo por alguns meses com a chance real de um devastador rebaixamento, seria uma boa situação.

É um fato que, se Flamengo, Palmeiras, Cruzeiro e Grêmio jogarem tudo o que podem, vencem o São Paulo, e mesmo se este também jogar tudo o que pode. Por isso, é surpreendente que o são-paulino alcance, na 17ª rodada do torneio, a liderança do torneio, apenas um ponto a mais que o rubro-negro carioca.

O clube alcança o topo com uma subida gradual. O primeiro fato positivo foi o afastamento do presidente Leco das decisões do futebol profissional. Raí e Lugano, cada um na sua, são gente do meio e referências de postura e sãopaulinidade. Ricardo Rocha também está lá, mas confesso ter dificuldades para entender o que, de fato, ele faz. Já deu pra ver que, pelo menos, não atrapalha.

A vinda de Diego Aguirre foi a segunda aposta acertada. Há uma passagem secreta no Morumbi que dá direto em Montevidéu. Uruguaios têm história farta no clube paulista. E Aguirre é discreto, tem liderança e pragmatismo. Arrumou a defesa, demonstra que impôs uma isonomia no elenco, evitando privilégios, e faz o time jogar conhecendo seus limites. Uma linha de quatro atrás que é forte, laterais que não vão “na louca”, dois volantes, um meia criativo, um centroavante de presença e dois caras rápidos nos lados. E dá-lhe contra-ataque. A chegada de reforços pontuais, como Éverton, Rojas e Bruno Peres, qualificou o elenco, que agora vai ter que se virar sem Militão, um de seus melhores.

Éverton durante vitória do São Paulo sobre o Vasco
Éverton durante vitória do São Paulo sobre o Vasco Gazeta Press

Ainda vivo na Copa Sul-americana, embora em situação difícil, o São Paulo se beneficia também da divisão de seus principais rivais entre Copa do Brasil e Libertadores. Se for eliminado pelo Colón, terá atenção exclusiva ao Brasileiro, que vale muito mais que o torneio continental.

Não haver jogo do Brasileiro esta semana dá ao são-paulino um prazer que há três anos não sentia: ver o time no topo da classificação. Ele olha várias vezes para ver se é verdade. Às vezes, não acredita. E volta a olhar.

É apenas um ponto, quase uma ilusão de ótica. Mas Aguirre deveria imprimir duas tabelas e colar na porta do vestiário do CT. Uma pequena, meio sulfite A4, de um ano atrás, quando o time se posicionou na vice-lanterna na 22ª rodada do Brasileirão do ano passado, após perder para o Palmeiras por 4 x 2. A outra tabela, a atual, em papel A3, com o clube em primeiro.

O time e seus torcedores precisam usar a semana de treinos para acreditar nessa liderança. Há elencos melhores, mas as circunstâncias permitiram que, depois da sequência pós-Copa, o São Paulo se colocasse como candidato ao título. Há várias coisas para aprimorar, o time tem problemas quando está com a posse, conta com jogadores que não conseguem manter a pressão na bola adversária o tempo todo, não consegue garantir partidas tranquilas quando sai na frente. Isso tudo é treino de campo. Outro trabalho é fazer o time acreditar que é possível. Isso é treino de cabeça.

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Que Felipão é esse que chega ao Palmeiras?

Mauricio Barros
Maurício Barros


Luiz Felipe Scolari chega para sua terceira passagem como técnico do Palmeiras prestes a fazer 70 anos. Idade não é o problema. Eu conheço jovens com mentalidade jurássica e idosos com um frescor de ideias impressionante. Maurizio Sarri, por exemplo, fará 60 anos e sua chegada ao Chelsea provoca frisson na Premier League depois do trabalho que fez no Napoli.

Acho que muitos como eu têm dúvida e curiosidade sobre qual Felipão desembarcará no Palmeiras. Depois das experiências na China, uma Copa da Rússia intercalada entre o hoje e o 7 x 1, pelo qual foi bastante responsável (mas não o único), Scolari terá mudado? Terá aprimorado conceitos, revisto convicções? Uma pista favorável é a troca de auxiliar técnico: sai o folclórico Murtosa, entra Paulo Turra, que pode conferir frescor e atualidade às concepções do treinador.

O que preocupa é a informação que meu colega de Bate-Bola Jorge Nicola apurou com um alto dirigente do Palmeiras. Basicamente, o seguinte: o clube chamou Felipão porque os jogadores estavam muito acomodados. Nas entrelinhas, podemos entender o seguinte: o lado que pesou na escolha do novo técnico foi o perfil xerife. Roger Machado, nesse sentido, pode ser estudioso, mas não teria tido o pulso firme de comando que um elenco estrelado precisaria para render.

Claro que jogador de futebol é um desafio mesmo para os melhores gênios dos Recursos Humanos. Muitos atletas são mimados, imaturos, milionários, famosos e melindrados. Tem hora que é preciso falar grosso. Mas o Palmeiras com Felipão dá uma guinada conceitual na escolha do treinador, trocando a busca por novos nomes no cenário de treinadores, como recentemente fizeram com sucesso Corinthians, Flamengo e Atlético-MG, por um figurão da velha guarda que fala grosso. Claro, Felipão é mais do que isso. Mas o quanto mais? 

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O Brasileirão castigado

Mauricio Barros
Maurício Barros

A ressaca é inevitável depois de uma Copa do Mundo. A gente passa um mês vendo os melhores jogadores do planeta em campo (ok, há pangarés também…), gramados impecáveis, motivação a mil, câmeras incríveis transmitindo, festa sem violência. Mas uma hora a coisa acaba e seria bom ter um tempinho para um detox. Só que não. O Brasileirão e as Copas locais voltam com tudo, e o clima de ressaca é brabo. 

Muitos times estão bem diferentes depois das primeiras movimentações da janela de transferências. O Corinthians sem Balbuena e Sidcley, o Flamengo sem Vinícius Júnior, o Palmeiras sem Keno, o Galo sem Roger Guedes... E nada garante que não haja mais perdas significativas para os elencos. As janelas de transferências ainda tardam a fechar.

Vinícius Júnior não joga mais no Flamengo
Vinícius Júnior não joga mais no Flamengo Gazeta Press

 
Em linhas gerais, os clubes estão piores. Junte tudo isso à ressaca de Copa e dá-lhe paulada nesse produto já combalido chamado futebol brasileiro.

Ficou ainda mais complicado sustentar o calendário iniciando em janeiro e terminando em dezembro. É um castigo grande demais para clubes, dirigentes, técnicos e torcedores. Começa-se com um grupo de jogadores e, quando se está na metade da temporada, os melhores vão embora. Chega-se ao cúmulo de muita gente torcer para que o time não faça brilhar um jogador em especial, porque certamente ele partirá em julho ou agosto . China e Arábia complicaram ainda mais uma lógica extrativista que já era crítica.

É fundamental que se abra a discussão de adequação do calendário brasileiro ao europeu, que dita as normas do planeta bola. Posto que ainda estamos longe de fortalecer os clubes locais a ponto de fazerem frente a propostas de fora, que pelo menos se garanta uma temporada inteira com um time minimamente planejado. 

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Uma fossa mais suave

Mauricio Barros
Maurício Barros

A derrota sempre tem um gosto amargo, mas sua intensidade varia, como no agridoce da vida. Esta eliminação brasileira precisa ser curtida como uma fossa suave. Vinho, pão com azeite, talvez até um sorriso de Monalisa. Nada comparável com 2006, por exemplo, ou 2014. Naquelas, havia motivos para carrancas. Foram revoltantes o descompromisso das estrelas e o comando frouxo, na primeira, e a falta de preparo e conhecimento da superioridade do adversário na última. Aliás, existe alguém que não temeu uma nova goleada quando saiu o segundo gol da Bélgica? Duvido... A história vai registrar que em 2014 o Brasil foi semifinalista, mas quem viu sabe que aquele quarto lugar é bem pior que este quinto (ou oitavo, depende da sua boa vontade).

O Brasil poderia tranquilamente ter empatado ou vencido essas quartas de final. Jogou para isso, nos primeiros minutos e em todo o segundo tempo. Mas encontrou um ótimo time, que corrigiu seus problemas defensivos e teve seus três craques principais, Lukaku, Hazard e De Bruyne, em uma noite maravilhosa, para não falar de Courtois. O Brasil não contou com seus quatro homens de criação, Neymar, Coutinho, Willian e Gabriel Jesus, em seu melhor. E mesmo assim, poderia ter levado o confronto à prorrogação se Renato Augusto não perdesse um gol claro.

Marcelo e Thiago Silva mostram frustração após a derrota brasileira contra a Bélgica
Marcelo e Thiago Silva mostram frustração após a derrota brasileira contra a Bélgica Getty

A seleção deixa a Copa da Rússia entre as oito melhores, eliminada pela Bélgica, um país que tem tradição em revelar jogadores e conta com a melhor safra de sua história. Eu dizia antes do confronto que uma vitória belga seria um resultado normal, embora o Brasil fosse favorito. E cravei o resultado no bolão da família, contra minha vontade, mas de olho no pragmatismo de quem está atrás na disputa pelos caraminguás. Eu gostaria que a seleção tivesse passado, tinha bola para ir além. Não deu, ganhou o outro, que é excelente e foi, ao longo do jogo, mais eficiente.

 Não endeuso Tite, para mim ele não está acima de críticas. É um técnico competente e tem valores sólidos, mas comete seu erros. Demonstra saber que não basta apenas ganhar, mas que há um compromisso da seleção brasileira em jogar bem. Porém, há que se discutir alguns escorregões que, somados, podem ter contribuído para a derrota. A demora em trocar algumas peças que não rendiam seu melhor, como Gabriel Jesus e Paulinho; a falta de um líder incontestável evidenciada pelo rodízio de capitães; a manutenção de jogadores lesionados; a convocação de um ou outro jogador, a exclusão de um ou outro nome que pudesse substituir Casemiro melhor que Fernandinho; uma leitura melhor do jogo do adversário durante a partida. É preciso aponta-los e não eximir os autores de tal responsabilidade. Mas nem de longe esses equívocos desqualificam o trabalho feito até aqui por Adenor e sua comissão técnica. Na balança, há muito mais acertos que erros, e por isso espero que o trabalho se mantenha.               

Vem uma nova safra muito boa por aí para iniciar o trabalho rumo a 2022. Vinícius Júnior, Paulinho, Paquetá, Rodrygo, David Neres. E mais Neymar, Coutinho, Marquinhos, Gabriel Jesus, Casemiro e outros que ficarão. Vamos aguardar. Agora, é curtir essa fossa suave.

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O Mundial dos dramalhões

Mauricio Barros
Mauricio Barros

Muller chora após eliminação da Alemanha na Copa do Mundo
Muller chora após eliminação da Alemanha na Copa do Mundo Getty Images

Uma Copa do Mundo sem dramas não é nada. E o Mundial da Rússia coleciona vários. Antes mesmo de a bola rolar, a Espanha, quem diria, dona de um dos campeonatos nacionais mais ricos e desenvolvidos do mundo, protagonizou o papelão de mandar seu treinador Julen Lopetegui embora, no enrosco envolvendo sua contratação pelo Real Madrid.

A Alemanha, tampouco afeita a montanhas russas de emoções, logo na estreia decepcionou, perdendo do México por 1 x 0. Depois, recuperou-se em um jogo infartável contra a Suécia, em um gol de falta de Kroos praticamente no último lance de jogo. Isso tudo para, mais tarde, ser eliminada pela também eliminada Coreia do Sul, uma derrota por 2 x 0 que sacramentou o vexame dos antes inquestionáveis campeões mundiais.

A Suécia, aliás, personificou seu drama em Jimmy Durmaz, de ascendência turca, que sofreu ofensas racistas por ter sido o responsável pela falta que originou aquele gol de Kross. Bonito foi ver o elenco sueco apoiando incondicionalmente seu companheiro.

O oposto da Alemanha foi o México, cuja comemoração do gol da vitória na estreia rendeu registro nos sismógrafos da capital. O dia em que um gol causou um terremoto. Lindo isso. Tão lindo como a celebração em frente à embaixada da Coreia na Cidade do México, com direito a levantamento de diplomata.

Dramas pessoais envolvem vários contundidos. Mo Salah chegou arrebentado e sua ausência na estreia pode ter tirado a chance de o Egito avançar. O reserva Douglas Costa levou o Brasil à vitória sobre a Costa Rica nos minutos finais da segunda rodada, mas foi possível vê-lo sentir a coxa. Talvez fosse titular no jogo seguinte, mas amarga um estaleiro até, talvez, uma eventual semifinal, caso o Brasil avance. Marcelo também viveu seu drama, após sair às lágrimas todo travado por um espasmo na região lombar. E o que dizer de Neymar? Suas simulações, desabafos, destemperos, lances geniais. Esse é um personagem rocambolesco e tanto.

Há outros lesionados, mas nenhum toca tanto quanto James Rodriguez. O colombiano está baleado. Astro da Copa de 2014, não consegue jogar por conta das dores musculares. Vê-lo sair contra Senegal foi de cortar o coração. Será que volta?

A Argentina é um dramalhão que possui um país e um time. Técnico maluco e sem comando. Um gênio, Messi, tentando resolver sozinho. Sangue de Mascherano, brigas, suor. E lá vão os hermanos com Maradona tendo ataques cuidadosamente planejados para as câmeras de TV.

Há também imbróglios étnicos, como Xhaka e Shaqiri, da Suíça, demonstraram em suas comemorações de apoio à causa albanesa contra a Sérvia, de quem ganharam de 2 x 1. Foram multados pela “asséptica” Fifa.

Assim entramos no mata-mata, que dobrará a intensidade e o número de personagens desses dramalhões. E agora eles podem durar 120 minutos. Ou mais. Que venham, pois. A gente adora.

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Neymar jogou como se tivesse um melão na cabeça

Mauricio Barros
Mauricio Barros

Neymar é uma celebridade desde adolescente, quando brilhava na base do Santos. Logo que subiu aos profissionais, passou a adotar um visual diferente, chamando a atenção também por seus penteados, ora moicano, ora descolorido, alisado, cacheado. Aos cortes estilosos, juntaram-se brincos e tatuagens. Coisa absolutamente normal. Desde sempre, ele sabe que não nasceu para ser alguém, digamos, comum. Seu futebol cresceu junto, ficou imenso. Adoro vê-lo jogar, é uma alegria. Hoje é o que é: o 10 da seleção brasileira, o jogador mais caro de todos os tempos, legítimo herdeiro da linhagem nobre de Leônidas, Pelé, Garrincha, Zico, Ronaldo.

O mundo das celebridades é também o que é: glamouroso, endinheirado, superexposto, vaidoso, visual, cheio de relações de solidez duvidosa; e também fútil, bobo, jeca e brega. Neymar, pelas referências que forjaram sua personalidade, está mergulhado nesse ambiente até o pescoço. Namora, claro, uma atriz linda e também superexposta, e não há um passo que dê que não valha um post, uma tuitada, uma foto que, por sua vez, não rendam pauta na imprensa e mobilizem seus milhões de seguidores mundo  afora.

Eis que o maior craque brasileiro aparece para a estreia da Copa do Mundo com um enorme topete aloirado, que, presumo, foi combinado antes com seus consultores estéticos. “Para a Copa, tem que ser algo bem diferente”, devem ter pensado, talvez até citando David Beckham, outro ícone ludopédico-visual, que apresentou uma “releitura” do corte moicano na Copa de 2002. E lá foi Neymar deixar o cabelo crescer para que os fios assumissem um comprimento que permitisse a obra no dia da estreia. Pla-ne-ja-men-to. Fico imaginando quanto tempo o rapaz ficou na cadeira horas antes do jogo. Tinta, alisamento, gel, fixador, sei lá mais o que.

Neymar lamenta empate com a Suíça
Neymar lamenta empate com a Suíça Getty

Pois cá eu quero dizer que Neymar tem o direito de fazer o que quiser com seu cabelo, orelha, braços, dinheiro. Corpo dele, vida dele, regras dele. O que importa é que esteja feliz para fazer o que sabe: jogar bola, vencer e encantar com seu enorme repertório de recursos técnicos.

Tem um monte de jogador com cabelo diferente, tatuagem, brinco, adereços mil. Pegar no pé dos caras por causa disso é algo tacanho, retrógrado, e não serei eu a fazê-lo. O que preocupa é o quanto a importância que ele dá a questões de aparência está contaminando seu jogo. Esse é o ponto. O Neymar do jogo contra a Suíça foi o Neymar do PSG: um jogador que se preocupa excessivamente com o show, com o drible, com as firulas, com os momentos em que para na frente do jogador chamando o drible e a falta. E esse Neymar é diferente do Neymar do Barcelona, mais conciso, mais editado, talvez pelas diferenças de cultura entre os clubes (o PSG é o novo rico, deveria estar sediado em Miami, e não Paris) e pela presença de Messi.

O camisa 10 brasileiro foi muito individualista contra a Suíça, e aí está uma das chaves que explicam por que o Brasil empatou, embora tenha merecido ganhar. Neymar prendeu demais a bola, e por isso sofreu um mundo de faltas. Deveria ter tocado mais, procurado seus ilustres companheiros. E isso não quer dizer abdicar de suas jogadas individuais, que são uma arma letal e que fizeram dele o craque que é. É só ajustar a dose, o que será melhor para todos. Ontem, Neymar exagerou. Jogou como se apenas quisesse aparecer, e não vencer. Jogou como se tivesse um melão na cabeça.

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O dia em que um leitor me desejou hemorroidas

Mauricio Barros
Maurício Barros

Desde que comecei a escrever este blog sobre futebol, dar pitacos no Twitter e trabalhar como comentarista na TV, passei a conviver com a necessidade de ter um grande autocontrole. É preciso lidar com algumas pessoas que parecem estar sempre de mal com a vida, prestes a explodir. Tem muita gente bacana, a maioria é assim. Mas aparece com frequência um pessoalzinho encardido que se dispõe a brigar, o que é muito diferente de debater. Acontece principalmente quando eu meto o dedo em alguma ferida clubística. É aí que a coisa, invariavelmente, pega.

Torcedor de futebol, na internet, é um bicho perigoso. Quando se sente contrariado pelo que alguém escreveu ou disse, é capaz de xingar o autor com os piores nomes possíveis. Não basta discordar, argumentar. Há um ódio em cada palavra cuspida pelo teclado.

Me lembro quando Ronaldo foi contratado pelo Corinthians. Eu editava a revista Placar e achei que, naquele momento, quando o time estava se encaixando, a presença de um medalhão poderia desequilibrar um trabalho bem feito. O Gorducho provaria que eu estava errado, mas era o que julgava então correto dizer. Publiquei no site.

Edu Ronaldo Corinthians
Edu Ronaldo Corinthians Getty

Me recordo que foram 400 comentários. Uns dez concordavam comigo, outros 20 me criticavam com respeito e o restante era só espinafrada. Os mais amáveis diziam que eu era um Zé Ninguém (até aí, ok!) e que não podia ficar criticando o Fenômeno. Havia também os que diziam que eu nada entendia de futebol (ok também). Mas a maioria me xingava. Dois comentários me doeram particularmente.

Teve um sujeito que se identificou como “mãe do Maurício” e pedia desculpas por ter dado à luz este pobre coitado. O requinte de crueldade (são imagens fortes) dizia algo como: “Eu pari este cara em pleno banheiro durante uma diarreia”. Juro. Pra que botar minha mãezinha no meio? Nessa situação? Não, mil vezes não!

O outro que me magoou escreveu assim: “Eu desejo que este jornalista tenha hemorroidas”. Fiquei dias chateado. Tudo bem dizer que estou errado, que não manjo nada de futebol, blá blá. Mas desejar hemorroidas? Um troço desagradável, dolorido. Isso não se faz…

Muitos textos, golpes e opiniões se passaram desde aquele do Fenômeno. Digo que criei uma certa casca protetora contra a má educação. Simplesmente não respondo. Esses dias mesmo, um sujeito disse que um comentário meu era canalha. A opção da emissora é, aqui, não moderar comentários. Isso é corajoso, pois tem o preço de expor quem escreve ao apedrejamento. Novos tempos. Na TV, estamos abertos ao diálogo com os fãs do esporte. Acho isso ótimo, um avanço, mas não digo que seja fácil. Nem todos conseguem manter um tom civilizado quando discordam. Ofendem, desqualificam. Muitos, sob pseudônimo e avatares impessoais, o que gera uma relação desleal. Todos precisamos aprender a dialogar, de ambos os lados. A quem não se mostra capaz, é desprezo ou block!

 

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Um Brasil sem clima para a Copa

Mauricio Barros
Maurício Barros

Por onde ando, não vejo bandeiras nos vidros nem fitinhas nas antenas. Tampouco camisas amarelas. Não me lembro de tamanha ausência de Copa nas ruas como nestes dias que antecedem ao Mundial da Rússia. São Paulo é mesmo a mais blasé das cidades, mas a esta altura esperava um pouco mais de verde-amarelo por aqui. Ela segue, entretanto, com o mesmo cinza de sempre, salpicado de um verde aqui, outro acolá.

Esperava mais porque esta Seleção tem jogado bem, erguida sob os pilares históricos que sustentam o que conhecemos como futebol brasileiro: jogadores técnicos, rápidos, que tocam no chão, driblam, buscam o gol. Tite é um cara querido, um líder que atrai simpatia mesmo com a superposição estafante que a publicidade impõe à sua imagem. O time tem jogadores e comissão técnica para fazer muito bonito na Rússia.

O futebol pode muito, mas não tudo. É impossível não relacionar esse distanciamento do torcedor à exaustão de Brasil em que todos nos encontramos. Seja qual for nossa inclinação política, estamos esgotados pelo buraco institucional em que nos metemos. Se pudéssemos, tiraríamos umas férias do país. Mas, para a maioria, isso é impossível. Então, vamos levando.

Para torcermos pela seleção brasileira, exigimos um jogo belo, que é nosso por direito adquirido. Mas o envolvimento pede também uma boa dose de sentimento de nação. E isso anda tão raro nos brasileiros quanto gasolina em posto dias atrás.

Pesa contra também a associação do time com a CBF, uma casa de mazelas, representante do que há de pior em nosso esporte e nossa sociedade. Seus principais dirigentes se sucedem em escândalos. Negociatas com patrocínio, direitos de transmissão e outras milongas desbotaram a camisa que leva o logo da entidade no lado esquerdo do peito. Torcer para essa gente? Dureza...

Alguma coisa creio que vá esquentar. Há os dois amistosos, a chegada à Rússia e a estreia, dia 17, como trunfos para aumentar a temperatura. Há o tom ufanista da imprensa festiva, que força o carro a pegar no tranco. Se o time jogar bem, vamos lembrar que é bacana torcer para o Brasil em Copa. Quem sabe não façamos um churrasco depois do jogo contra a Costa Rica, ou mesmo nas oitavas. Ou combinemos de ver juntos alguns jogos naquele bar com telão gigante. Talvez role. Não sei. Quem sabe? 

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Osmar Loss representa, antes de tudo, uma ideia

Mauricio Barros
Maurício Barros
Osmar Loss, novo técnico do Corinthians
Osmar Loss, novo técnico do Corinthians Gazeta Press

Loss, em inglês, quer dizer perda. Mas danem-se os idiomas, eles não são nada perto do futebol. É importante que loss signifique, daqui para frente, vitória. Porque Osmar Loss é o substituto escolhido pelo Corinthians para o lugar de Fábio Carille. Se o jovem treinador que acaba de assumir der continuidade ao trabalho bem feito de seu ex-chefe, ganhará não só o Timão, mas todo o futebol brasileiro. Porque, pela primeira vez em muitos anos, o sucesso será fruto de uma ideia, não de indivíduos.

Sob o ponto de vista dos treinadores, a história do futebol brasileiro é personalista. As concepções de jogo sempre vagaram de time para time, porque eram levadas pelos treinadores, e não construídas pelos clubes a partir de uma noção sólida de identidade, sendo os “professores” seus executivos.

Um dos melhores e mais recentes exemplos dessa esquizofrenia é o Internacional, que conseguiu a proeza de ter, em curto espaço de tempo, Argel Fucks, Falcão, Celso Roth, Antônio Carlos, Lisca e Guto Ferreira comandando a equipe. Concepções completamente diferentes de futebol. Deu no que deu. E você vai encontrar correspondência desse caos em todos os clubes nos últimos anos. Felizmente, o Colorado tenta agora consertar o equívoco apostando em Odair Hellmann, membro da comissão técnica permanente havia cerca de cinco anos.

Os clubes deveriam gestar treinadores como forjam craques. Categorias de base para técnico, é isso que precisam conceber. Esses treinadores devem seguir um plano de carreira, começando desde o Sub-13, quando são técnicos e, acima de tudo, educadores. Os que sonharem em subir um dia ao profissional, devem fazê-lo gradativamente.

Mas, para formar um treinador, é preciso ter uma sólida “grade curricular” montada a partir da história do clube, dos valores de seus fundadores, das virtudes de seus esquadrões vencedores e de seus craques eternos. Um clube de futebol precisa buscar uma identidade, cuja equipe profissional é sua vitrine mais bem elaborada.

O Botafogo fez isso com Jair Ventura e colheu frutos. O Atlético-MG vai fazendo o mesmo com Thiago Larghi. O Flamengo tentou Zé Ricardo, mas não sustentou. Agora, repete a tentativa com Maurício Barbieri. O Atlético-PR acredita que o seu “cara” estava fora, e mandou buscar Fernando Diniz, que agora luta para manter sua ideia apesar dos maus resultados.

Mas o melhor exemplo veio do Corinthians. Mesmo não tendo sido fruto de um planejamento propriamente dito, mas, sim, de algum acaso (o clube não o manteve na primeira oportunidade, optando por Cristóvão e Oswaldo de Oliveira), Carille subiu, se sustentou e brilhou. Ao mesmo tempo, Osmar Loss completava sua formação como membro importante da equipe profissional. O que Tite e Mano passaram para Carille, este passou para Loss. E assim deve seguir.

Como no futebol tudo é fortuito e repentino, a chance de assumir o time veio bem antes do que Osmar planejava. Mas o trem passou e ele pulou em cima, mesmo com a bagagem não completamente feita. Mas tanto Loss quanto o clube têm, a seu favor, uma ideia de jogo bem construída. E isso, dólar nenhum é capaz de tirar. 

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Osmar Loss representa, antes de tudo, uma ideia

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Diniz e as cuecas do adversário

Mauricio Barros
Maurício Barros
Fernando Diniz, técnico do Atlético-PR
Fernando Diniz, técnico do Atlético-PR Gazeta

Ao final da quarta derrota consecutiva do Atlético Paranaense, 1 x 2 para o Cruzeiro na Arena da Baixada, jogo de ida das oitavas da Copa do Brasil, Thiago Carletto saiu em defesa do treinador Fernando Diniz. “O professor Diniz vive dentro do CT, vive intensamente, mostra tudo. A gente entra sabendo até a cor da cueca do adversário. Nós, jogadores, temos que tomar vergonha na cara, fazer o que o professor Diniz está pedindo. A imprensa vai criticar, a torcida vai criticar, mas nós estamos com ele”, disse o lateral-esquerdo.

Desde que assumiu o Furacão, Diniz vive o pior momento. Já são sete jogos sem vitória. Ficou difícil avançar na Copa do Brasil. No Brasileirão, a equipe ocupa um incômodo 15º lugar.

Diniz começou o ano bem. Com os reservas, ganhou o título estadual. Quando o time principal entrou em campo no Brasileiro, surpreendeu pelo bom futebol, goleando a Chape na estreia e obtendo um elogiado empate com o Grêmio em Porto Alegre, na segunda rodada. Antes de pegar o Cruzeiro, eliminou o São Paulo dentro do Morumbi após estar perdendo por 2 x 0, sempre apresentando um jogo bonito de se ver.

Uma proposta tão ousada gera riscos enormes. O Furacão é o primeiro clube grande a topar o “risco Diniz”. Se no início ganhou elogios, agora enfrenta seu maior desafio: sustentar a proposta de trabalho apesar dos resultados ruins. Boa parte da torcida já cai de pau. Uns até elogiam a ideia, mas dizem que o time não tem jogadores bons o suficiente para bancar tal proposta.

Discordo. Acho que o Furacão tem bons valores e pode, com ajustes pontuais, encontrar a estabilidade que é tão importante para um torneio como o Brasileiro. Diniz não é nenhum gênio da prancheta, mas seguramente é um dos mais promissores treinadores da nova geração. Creio que seja também o mais visionário. Isso tem um preço. É a hora de a diretoria bancar o treinador, que já adiantou: não vai mudar seus conceitos. “A gente teve momentos bons nesses quatro jogos, poderíamos ter vencido os quatro e acabamos perdendo. Sou muito mais convicto quando perco. Não vou mudar por conta do resultado”, disse, após o jogo.

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Medo: a Bruxa da Copa chegou. Quem será o próximo?

Mauricio Barros
Maurício Barros
Daniel Alves, do Paris-Saint-Germain, no chão após sentir o joelho durante a final da Copa da França, no dia 9 de maio
Daniel Alves, do Paris-Saint-Germain, no chão após sentir o joelho durante a final da Copa da França, no dia 9 de maio Getty Images

Ela sempre aparece. A bruxa da Copa do Mundo resolveu abrir os trabalhos botando o Brasil no seu caldeirão fervente. Daniel Alves, um dos líderes da seleção de Tite, experiente e multicampeão, está fora por conta de uma lesão no joelho. Lance bobo, como são muitos dos que resultam em estaleiro prolongado.

Jogadores, treinadores, preparadores físicos e torcedores no mundo todo estão com medo. Se no Brasil, que tem um número maior de bons jogadores, o lamento vem de uma preocupação pela queda de nível técnico e experiência do time com a saída de Dani, imagine o pânico em países onde craques são escassos.

Pense em Luis Suárez se contorcendo de dor numa dividida com um becão do Levante ou da Real Sociedad. O Uruguai tem um troço! E o que dizer da Polônia assistindo Lewandowski sentir a fisgada contra o Stuttgart na última rodada do Alemão?

A bruxa assusta todos os jogadores que vivem os momentos finais dos campeonatos com seus clubes. Cueva tratou de tomar um vermelho e jogar o profissionalismo às favas contra o Rosario Central. Deve ter sido seu último ato pelo São Paulo. Diminuiu seu risco de ficar fora da Copa.

Mas a Bruxa é traiçoeira. Mesmo se alguém resolver ficar em casa corre lá seus riscos ­– vide Cañizares, o goleiro espanhol que foi cortado do Mundial de 2002 depois que um vidro de perfume caiu e retalhou um tendão de seu pé...

Dia 26 tem a final da Liga dos Campeões. Craques de várias seleções da Copa em campo, disputando o torneio de clubes mais importante do mundo. Se tem um jogo em que devem dar a vida por seus times, é esse. Até porque seus torcedores facilmente escolheriam a Champions se alguém lhes perguntasse qual título escolheria, o europeu com o clube ou o mundial com a seleção de seu país. Clube é casamento, seleção é namorico.

Temo pelo Egito. A gente se vira sem Firmino ou Marcelo. A Espanha idem sem Isco, a França sem Varane, a Alemanha sem Kroos. Mas o Egito... Mo Salah já é mais importante que Tutancâmon, que o Rio Nilo, que todos os camelos! Ele vai entrar em campo pelo Liverpool contra o Real lá em Kiev. Os Reds estão sedentos. Se Salah lhes der o título, vira faraó e Sir na Inglaterra. Já os egípcios vão torcer para que ele apenas termine inteiro. Sai zica.

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Juninho Pernambucano e os Setoristas

Mauricio Barros
Maurício Barros

Acho absolutamente saudável a presença de ex-jogadores, ex-treinadores e ex-árbitros no quadro de comentaristas de todos os meios de comunicação. Eles trazem uma visão complementar àquelas que transmitimos nós, jornalistas. Quem ganha com essa pluralidade é o leitor, o telespectador, o ouvinte, o internauta (ainda se fala assim?). E principalmente ele: o debatedor de padaria.

Poucos jogadores, entretanto, conseguem transformar a experiência em discurso. Os que logram êxito estão bem colocados. Júnior, Alex, Caio, Sálvio Spínola, Zico, Amoroso, Edmundo, Zé Elias, Djalminha. É ótimo ouvir, concordar, discordar, debater com eles.

Um dos melhores é Juninho Pernambucano, um cara com repertório e oratória acima da média desde sempre. Há alguns dias, porém, ao criticar a imprensa no SporTV, Juninho deu umas caneladas, fruto talvez de um desconhecimento dos princípios do Jornalismo.

Juninho Pernambucano, em entrevista coletiva
Juninho Pernambucano, em entrevista coletiva Getty Images

Juninho citou os “setoristas” como donos de uma função menor no jornalismo esportivo. Muitos deles, segundo o ex-craque, veiculariam notícias para beneficiar interesses de dirigentes com quem mantêm relações espúrias. Toda generalização é perigosa. Não digo que essa locupletação não exista, mas envolve os maus profissionais que, creio, sejam minoria.

Mas eu quero aqui dirigir o foco ao aparente desconhecimento de Juninho em relação à matriz do jornalismo. Ele diz que, se fosse um setorista, ia batalhar para crescer e chegar, por exemplo, à posição de narrador. São funções diferentes, embora uma mesma pessoa possa exercê-las. Não estão em uma mesma “linha evolutiva” da carreira.

A função básica do jornalismo é a de repórter. O repórter é a pedra fundamental da profissão. É ele quem vai até a notícia, atesta sua relevância, apura suas várias facetas, ouve os envolvidos, pesquisa, redige e transmite ao público. Há repórteres valorizadíssimos, que ganham mais que seus próprios chefes. Um excelente repórter pode ser medíocre se deslocado para a função de editor, e assim por diante. O setorista, por definição, é um repórter que cobre determinado setor. Ou seja, um especialista. No futebol, eles são importantíssimos.

Um repórter de economia que seja destacado pela primeira vez para a cobertura diária de um clube de futebol começará com seu universo reduzido. Ele ficará restrito às vozes oficiais, o que é péssimo para o jornalismo.

Uma das definições de notícia de que mais gosto diz que ela “é um fato ou informação de interesse público que alguém não deseja ver publicado” (em geral, quem está no poder). Para ter acesso a essas informações valiosas, portanto, o repórter precisa ir além das fontes oficiais. Precisa cultivar relações, desenvolver os sentidos, encontrar a notícia escondida em detalhes que, para alguns, passam imperceptíveis. Cabe a ele usar essa cesta de “habilidades” para benefício público, e não pessoal.

Esse patrimônio você só acumula com o tempo. Aqui na ESPN, temos ótimos setoristas, repórteres experientes e valorizados, como o querido Eduardo Afonso, que cobre o cotidiano do São Paulo. Edu tem muitas fontes e conquistou o respeito pela sua bela trajetória no jornalismo. Ele usa sua experiência, conhecimento do ambiente, contatos e relações para esmiuçar a notícia e transmiti-la ao fã de esportes. As fontes sabem que ele está a serviço do bom jornalismo, que seus valores são o interesse público e a busca pela verdade. Não será usado por ninguém.

Temos muito a aprender uns com os outros. Pelo que conheço da persona pública de Juninho, duvido que ele repetiria as generalizações se tivesse tido acesso a esta reflexão que proponho aqui. 

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E Paulo André não apenas joga: se diverte

Mauricio Barros
Maurício Barros

Eram apenas 4 minutos de jogo quando Lucho Gonzales errou um passe na saída de bola e entregou a Éverton, que acionou Luan, sozinho diante do goleiro Santos. O craque gremista ajeitou e bateu de esquerda. A bola tocou alta na trave. No rebote, Ramiro isolou. Por um triz, o Atlético Paranaense não saiu perdendo o duelo que se tornaria o melhor jogo deste início de Campeonato Brasileiro. Se o Grêmio, dentro de casa, tivesse marcado logo no começo, a coisa poderia ter desandado para os lados do Furacão. A partida acabou 0 x 0, mas com status de 2 x 2.

Mas tivesse a bola entrado, críticos rasos abririam goelas em suas análises sobre o Atlético. O jogo planejado por Fernando Diniz seria rotulado de suicida, utópico, inviável. Os atletas do Furacão seriam diminuídos em sua técnica, incapazes de fazer valer o risco de uma proposta tão ousada. E um projeto bonito poderia sofrer sua primeira grande instabilidade.

Mas Luan chutou na trave. E o jogo seguiu em ótimo nível para o que estamos acostumados aqui no Brasil. Duas propostas diferentes, ambas com mais qualidades que defeitos, se confrontando no gramado da Arena do Grêmio.

Leio depoimentos de Paulo André na imprensa, vejo trechos de sua participação no Bem, Amigos. Um jogador que pensa, algo raro. É ótimo vê-lo falar. E Paulo André disse que nunca se divertiu tanto jogando futebol como agora, no Furacão. Confessa estar reaprendendo o esporte que virou sua profissão. “Fernando Diniz cria o caos”, diz o zagueiro, como se emprestasse o delicioso bordão do querido Rômulo Mendonça. Mas um caos aparente, que tem uma ordem, um planejamento treinado à exaustão. A saída de bola é feita nos treinos muitas vezes contra 12 caras no time adversário. “E a gente consegue sair tocando com 12. Quando chega no jogo, fica mais fácil, porque tem um a menos”, explica. Paulo André vai além. “Às vezes, dá vontade de rir”.

Que coisa bacana. Um zagueiro experimentando, aos 34 anos, sabores que jamais havia sentido em todos os seus anos de carreira no Brasil, França e China. E se divertindo, reconhecendo no treinador a “loucura sadia” dos inovadores. Paulo André é figura chave dentro e fora do campo, fechando o grupo em torno de sua liderança e da proposta de Diniz, a quem chama de “mentor”. Sobre a bola na trave de Luan, ele diz: “Erros vão acontecer. Mas para cada um, há muitas oportunidades de gol que criamos por conta dessa ideia”. É essa a conta que uma calculadora rasa não consegue fazer.

Diniz está ainda no início de sua carreira de treinador e busca espaço. Vamos, então, com calma. O Atlético é sua maior oportunidade até agora. Sua ideia de jogo de “futebol total”, fazendo do passe e da movimentação seus grandes pilares ofensivos, permanece. O que muda são os jogadores, a cultura do clube, as ambições, o tamanho da torcida.  Pequenas adaptações de um conceito ousado, libertário, idealista de se jogar e entender o futebol. Levar adiante uma proposta assim é trabalho hercúleo. Por isso, creio que seja impossível, para quem ama o futebol, não torcer por ele. A não ser que você seja Coxa ou Paraná, claro, porque aí já é pedir demais...

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Ibra em 2018 é Romário em 2002. Você levaria?

Mauricio Barros
Maurício Barros

Os americanos estão descobrindo Zlatan Ibrahimovic. E adorando, claro! Califórnia, Los Angeles, Hollywood... Na terra do espetáculo, Ibra está conseguindo a proeza de atrair a atenção do americano típico (se é que ainda é possível falar assim) para o “soccer” de uma maneira que outros astros internacionais como Beckham e Kaká não conseguiram fazer. O sueco é um showman dentro e fora do gramado. Na estreia pelo LA Galaxy, fez aquele golaço do meio de campo e depois mais um na vitória por 4 x 3 sobre os LA FC. Nas entrevistas, provoca gargalhadas a cada resposta que dá. É um ator canastrão de primeira linha.

Na última terça, foi ao concorridíssimo talk show de Jimmy Kimmel, aquele mesmo que apresenta o Oscar. Jimmy confessou que Ibra estava fazendo as pessoas em Los Angeles olharem para o “soccer” de um jeito como nunca olharam. Ibra destilou suas pérolas: “Sou um presente para Los Angeles”; “Eu coloquei a Suécia no mapa”; “Desculpe aos fãs de outros esportes que não me têm jogando”; “Eu vou para a Copa do Mundo”; “Uma Copa sem Ibra não é uma Copa de verdade”. Carismático, nem ele aguenta suas fanfarronices, tanto que cai na gargalhada com o público e o entrevistador a cada resposta que dá. Enfim, um personagem maravilhoso.

Entretanto, é nas afirmações sobre a Copa que o bicho pega. Após a eliminação na fase de grupos da Euro-2016, Ibra disse que não jogaria mais pela seleção de seu país. O time teve que aprender a viver sem sua estrela. E foi assim que conseguiu a vaga para o Mundial da Rússia.

Aos 36 anos, recuperado de lesão e se destacando nos Estados Unidos, Zlatan divide hoje a opinião pública e a imprensa na Suécia sobre sua presença na Copa. O treinador Jan Andersson não gosta quando tem que responder sobre Ibra. É compreensível. O craque é personalista e deixou a seleção por vontade própria. O time se virou bem sem ele. Agora, na hora do filé, faz pressão para ser chamado?

Ibrahimovic Suecia Irlanda Euro-2016 13/06/2016
Ibrahimovic Suecia Irlanda Euro-2016 13/06/2016 EFE/EPA/GEORGI LICOVSKI

Se tecnicamente não pairam muitas dúvidas de que Ibra em forma tem lugar entre os convocados, do ponto de vista da gestão de grupo a coisa é mais complicada. Para chamar o astro, considerado por muitos o melhor jogador da história do futebol sueco, Andersson terá que deixar alguém de fora. Mais: terá que fazer o elenco entender que os benefícios compensarão o “pacote Ibra” – a personalidade, a pressão para sua escalação como titular, a cobertura extensa da mídia focada em um só jogador, etc.

Curiosamente, Felipão tangenciou o tema dias atrás em um congresso na Espanha. Perguntado sobre o corte de Romário em 2002, ele disse que o interesse coletivo deve prevalecer. “Às vezes, um jogador melhor tecnicamente não é o melhor para a equipe. A decisão mais difícil que eu tive para a Copa de 2002 foi convocar o Ronaldo e deixar fora o Romário, um grande ídolo brasileiro", disse. A confiança em Ronaldo, recém-recuperado, é fácil de compreender. Todos queriam vê-lo no Mundial. Mais difícil foi bancar Luisão para deixar Romário no Rio. Felipão fincou pé e foi campeão. Tivesse perdido a Copa, seria avacalhado por não ter levado o Baixinho.

Eu quero ver Ibra na Copa, adoro o jeito como ele não se leva a sério. E o cara joga muito. Não sei o que faria na pele do treinador. Mas, certamente, compartilharia a reflexão com o elenco antes de tomar a decisão. E você, levaria Ibra?

 

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O que falta a Rodrigo Caio?

Mauricio Barros
Maurício Barros
Rodrigo Caio em treino do São Paulo
Rodrigo Caio em treino do São Paulo MARCELLO ZAMBRANA/Agif/Gazeta Press

Não havia motivo para Rodrigo Caio reassumir a posição de titular na zaga do São Paulo. Mesmo assim, quando voltou da Seleção Brasileira, onde não jogou contra Rússia e Alemanha, Diego Aguirre deu-lhe voto de confiança e o direito de compor a zaga ao lado de Arboleda no confronto diante do Atlético-PR, pela Copa do Brasil. Para tanto, o treinador sacou Bruno Alves, que vinha bem.

Caio teve lá sua responsabilidade no primeiro gol do Furacão, falhando na disputa pelo alto com Pablo, que se antecipou e saiu cara a cara com Sidão.  O time perdeu por 2 x 1 e vai precisar vencer em casa para seguir adiante no torneio.

Na estreia da Copa Sul-Americana contra o Rosario Central, na Argentina, Aguirre enfim entrou desde o início com a formação de três zagueiros, que foi o pilar da equipe que ganhou tudo na década de 2000 (Paulista, Brasileiros, Libertadores e Mundial de Clubes). Arboleda e Militão foram os companheiros de Rodrigo, com Bruno Alves novamente preterido.

A participação de Rodrigo Caio foi, mais uma vez, ruim. Aos 35 minutos do primeiro tempo, em uma disputa pelo alto com o manhoso atacante Marco Rúben, o zagueiro deixou o braço no rosto de Rúben, que caiu se contorcendo. O sangue jorrando perto do olho e a pressão dos argentinos impressionaram o péssimo árbitro peruano Victor Carillo, que expulsou o brasileiro. O São Paulo já havia perdido, aos 18 minutos, o lateral Reinaldo por lesão. Com um a menos, o time foi cascudo e saiu com um empate, um 0 x 0 com viés de vitória, dadas as circunstâncias.

Rodrigo Caio já atuou, desde que subiu aos profissionais, como lateral-direito e volante, mas fixou-se na zaga, posição original. Destacou-se, chegou à seleção e foi campeão olímpico. Mas, hoje, só se justifica ser titular do São Paulo no esquema com três zagueiros. Na sobra, pode defender sua presença. Mas com dois na zaga, se ele estiver em campo, o time fica muito vulnerável quando enfrenta atacantes que gostam do corpo-a-corpo.

Isso porque Rodrigo, a meu ver, não possui duas características que julgo essenciais para zagueiros hoje em dia: força física e malícia. Me lembro, no ano passado, que ele perdeu uma disputa corporal para o baixinho Rodrigo Scarpa em um jogo contra o Fluminense, pelo Brasileiro, quando lhe faltaram as duas coisas: força e esperteza. O lance resultou em gol do Flu. Apesar de superatleta, Caio parece um pouco frágil. Foram várias as vezes em que terminou um jogo totalmente estropiado.

Em que pese o exagero do árbitro em dar o vermelho ontem, Caio se arriscou deixando o braço. Talvez ele mesmo saiba que precisa ser mais efetivo nas divididas, quer por baixo ou pelo alto. E esteja se empenhando mais nisso. O problema é que parece não saber usar a força no limite da regra. Ao deixar o braço, fez a falta. Seus companheiros evitaram que ele fosse culpado por um fracasso que, mais uma vez, eliminasse o time em um mata-mata.

Ao final do jogo, Nenê disse que eles jogaram também pelo Rodrigo, que foi expulso injustamente. Isso mostra o quanto Caio é querido e admirado pelo grupo. Sua postura dentro e fora de campo o tornou um símbolo do São Paulo. Mas que há uma dúvida sobre sua condição de titular do time, isso há. 

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Pra que chamar quatro laterais? Tite, economize uma vaga!

Mauricio Barros
Maurício Barros

Vaga em Copa do Mundo é algo precioso. Não pode ser desperdiçada. Considerando que não se deve abrir mão de três goleiros, são 20 lugares para jogadores de linha. Pode ser muito para nações futebolisticamente periféricas como Costa Rica, Egito e Coreia do Sul, mas é pouco para países como Alemanha, Espanha, França, Argentina e, é claro, Brasil.

Tite já tinha 16 nomes definidos. Depois dos amistosos diante de Rússia e Alemanha, comenta-se que outros dois jogadores carimbaram seus passaportes: Fred e Douglas Costa. Com esses dois no elenco para uma emergência, não há por que convocar quatro laterais no próximo dia 14 de maio. Três já são suficientes. E Tite economiza uma vaga para o meio e o ataque. Explico.

Daniel Alves e Marcelo ainda são, possivelmente, os dois melhores laterais do mundo. Titulares absolutos. Mas você precisa levar reservas para a posição. Lesões e suspensões acontecem. Pois o Brasil, nos últimos anos, viu crescer três caras que podem jogar nas duas em altíssimo nível. Todos destros, claro, porque um canhoto jamais pode atuar na lateral-direita (me lembro de um jogo em que Renato Gaúcho, treinando o Fluminense, improvisou o canhotíssimo Júnior César na direita. Foi tragicômico vê-lo jogando sempre de costas, todo torto...). Já o destro consegue se adaptar pelo lado esquerdo, vide Júnior, Lahm e tantos outros.

Brasil de Tite caiu no grupo com Suíça, Costa Rica e Sérvia
Brasil de Tite caiu no grupo com Suíça, Costa Rica e Sérvia Getty

Mas um desses três caras está fora de cogitação porque simplesmente não joga há mais de seis meses: Zeca. Preso no imbróglio jurídico com o Santos, o jogador perdeu qualquer chance de repetir na Copa do Mundo o sucesso que fez na Olimpíada.

Outro é Danilo, lateral-direito que Guardiola mudou de lado no Manchester City. Embora tenha perdido um pouco de espaço no clube inglês, Danilo hoje é um jogador muito mais versátil do que foi no Santos, no Porto e no Real Madrid (aliás, que carreira!).

O terceiro nome é Rafinha. Como Danilo, o jogador no Bayern já tem experiência suficiente pelo lado esquerdo para ser um reserva da posição. São dois nomes de peso, com experiência internacional, que podem ser a opção de Tite tanto para a lateral-esquerda quanto para a direita. Tranquilamente. E, num caso de um azar maior, suspensão ou lesão dos dois titulares simultaneamente, você tem Fred e Douglas Costa para quebrar o galho pela esquerda e Fernandinho para cobrir a ala direita.

Não há, com essas opções, nenhuma necessidade de Tite desperdiçar quatro vagas com laterais. Tendo opções tão boas e versáteis, ele economizaria uma vaga para chamar mais um meia criativo ou mesmo um centroavante com maior presença física. Ou, quem sabe, até mesmo para uma surpresa de última hora, um garoto doido que arrebente no início do Brasileirão e possa meter fogo em algum jogo travado, tipo Vinícius Júnior, Rodrygo ou algum outro que pinte por aí.

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Sampaoli e o desafio de chamar Icardi

Mauricio Barros
Maurício Barros

Mauro Icardi, centroavante da Inter de Milão
Mauro Icardi, centroavante da Inter de Milão Getty

Imagino como anda a cabeça de Jorge Sampaoli. Uma parrilha fervilhante. Depois de fazer muito sucesso na Universidad de Chile, na Seleção Chilena e no Sevilla, enfrenta o desafio mais complexo de sua carreira: treinar a Seleção Argentina na Copa da Rússia. Já não foi fácil classificar, definindo-se a vaga direta apenas na última rodada das Eliminatórias. E agora vem essa goleada por  6 x 1 diante da Espanha. Que pancada! Um cronista do Clarín definiu assim o passeio espanhol: “Isco parecia estar na Disney. Os zagueiros argentinos, em Sarajevo”. Foi mesmo um pesadelo. E um perplexo Sampaoli admitia na entrevista coletiva que teria que rever algumas questões na convocação que antes considerava resolvidas.

Contra a Espanha, não estiveram Messi, Agüero e Di María, desfalques gigantescos. Mas o trio só não estará na Copa se houver uma lesão na reta final dos respectivos campeonatos nacionais. A questão recai agora sobre outras duas figuras que estão voando no Campeonato Italiano: Dybala, da Juventus, e Icardi, da Inter, respectivamente terceiro e segundo na tábua de artilheiros. Na Itália, ninguém entende como ambos ficaram de fora da última convocação.

Sampaoli disse que eles não estão ausentes dos planos para a Copa, mas como não haviam ido bem da última vez em que foram chamados, era hora de observar outros jogadores. O treinador precisa de tempo para botar as ideias no lugar. Ninguém passa impune a um 6 x 1 como último jogo antes do Mundial.

O caso Icardi parece mesmo o mais complicado. O atacante interista sofreu uma condenação moral na Argentina porque casou com Wanda Nara, ex-esposa de seu então grande amigo Maxi López. Os dois jogavam juntos na Sampdoria, e aconteceu de Wanda e Icardi se apaixonarem. Hoje, são casados. Mascherano e Messi teriam tomado as dores do amigo Maxi quanto ao novo desafeto. Até Maradona meteu sua delicada colher: “Esse argentino é um traidor, porque você não pode se casar com a mulher do seu amigo após ter ido jantar com eles. Ele irá pagar para o resto de sua vida aquilo que fez a Maxi López”, disse Diego. Como se a decisão não tivesse sido consensual entre Icardi e Wanda, como se não houvesse muito mais coisa nessa história. Quanta hipocrisia.

Bem, Sampaoli chegou e, ao contrário do que fizeram seus antecessores Martino e Bauza, decidiu peitar a questão e chamou Icardi para amistosos no final do ano passado. Mas o atacante não repetiu as atuações que vinha tendo pela Inter. O resultado foi Icardi de fora para os últimos amistosos contra Itália e Espanha.

Não sabemos se, depois dos encontros no ano passado, a relação de Icardi com Messi, Mascherano e outros intocáveis melhorou. Mas, depois do desastre contra a Espanha, cresce a pressão para que o interista entre na lista de convocados.

Sampaoli é um estudioso obsessivo, discípulo de Marcelo Bielsa e admirador de Pep Guardiola. Sabe que, além das qualidades como treinador, precisa ser craque nas questões de liderança. Me lembro da Magic Paula, que certa vez me contou que a Seleção Brasileira Feminina de Basquete só começou a ter bons resultados quando ela e Hortência, lado a lado em um longo voo, sem ninguém por perto, puderam conversar e botar as cartas na mesa. Elas decidiram que, a partir dali, deixariam diferenças de lado e trabalhariam para que a seleção não fosse formada por duas “panelinhas” distintas, mas por um grupo único e coeso. Paula diz que a mudança de postura foi decisiva para que o Brasil fosse campeão mundial e ganhasse a prata em Sydney-2000.

Em uma equipe, ninguém precisa necessariamente ser amigo. Basta que o interesse coletivo esteja em primeiro plano, trazendo tolerância e compromisso. A Argentina precisa de Icardi e, também, de Dybala. E de Messi, Agüero, Di María, Mascherano, Rojo... Sampaoli tem um desafio gigante para esses próximos dois meses e meio: juntar os cacos e remonta-los com uma cola superpotente.

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Os clubes precisam de um Departamento de Resgate

Mauricio Barros
Maurício Barros

Jair Ventura quer trazer Leandro Donizete de volta ao mundo dos vivos. O volante de 35 anos passou os últimos meses como um zumbi praiano, treinando às sombras, esquecido à beira-mar. Sequer foi inscrito na primeira lista do Santos para o Paulistão. Mas nesta reta final, segundo Jair, recuperou sua melhor forma e é o reserva imediato de Alisson.

Jair promete voltar sua atenção agora para Copete, de 30 anos. Enroscado em uma teia de problemas físicos e técnicos, o colombiano não vem sendo sequer relacionado para as partidas.

O contrato de ambos vai até 2020. O clube já investiu uma boa grana neles. Jair prestará um grande serviço ao Santos, técnica e financeiramente, se conseguir reaproveitá-los. E o time precisa melhorar.

O futebol tem pressa. É irritante a velocidade como se infla e também se descarta jogadores. No dicionário da bola, paciência é um verbete que não existe. Eu lá não sou muito fã do futebol de Donizete, tampouco do seu temperamento em campo. Mas ele pode, sim, com sua experiência, ser muito útil em situações que o Santos certamente enfrentará este ano. Já de Copete gosto mais, é incisivo e sabe fazer gols. No cenário crônico de falta de dinheiro dos clubes, é essencial que você tenha uma comissão técnica atenta a resgatar o futebol perdido por jogadores outrora importantes. Vale tanto quanto uma nova contratação, com a vantagem de não vir com custo extra.

Leandro Donizete Treino Santos 26/09/2017
Leandro Donizete Treino Santos 26/09/2017 Ivan Storti/Santos FC

Todo clube grande tem lá seus zumbis à espera de ressurreição. No Flamengo, Geovânio e Rômulo; no Inter, Camilo – e por aí vai. O São Paulo, contra o São Caetano, teve uma joia da base brilhando na partida: Lucas Fernandes, que entrou no segundo tempo após Diego Aguirre seguir orientação do auxiliar André Jardine. Lucas mudou o jogo e mostrou o futebol que todos no Morumbi sabem que ele tem, mas que não vinha aparecendo. Dorival Júnior o havia esquecido, assim como a outra promessa, Shaylon. Garanto que a porta de saída para outro time anda rondando as cabeças de ambos. Aí o cara vai embora e pronto: faz sucesso em outro lugar, porque tem qualidade.  

Os clubes precisam prestar mais atenção a jogadores que caem de rendimento. E montar uma operação-resgate que inclua um profundo diagnóstico físico e comportamental do sujeito, com um planejamento de ações efetivas. Isso é gerenciar recursos humanos. Às vezes as pessoas se esquecem, mas atleta é gente jovem demais. Altos e baixos são coisa normal. Mas há que se investigar o motivo de uma oscilação de rendimento mais duradoura. Algum problema físico? Algum enrosco na família? Questões de relacionamento com o treinador ou com os colegas? Um time multidisciplinar deve entrar em campo para recuperar aquele investimento do clube. No futebol, a gente desiste muito fácil desses caras. 

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Os clubes precisam de um Departamento de Resgate

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A treta diplomática entre Inglaterra e Rússia é grave e já afeta a Copa

Mauricio Barros
Maurício Barros

Discutiu-se bastante nas últimas semanas se o esporte deve ou não ser cenário para manifestações de outras ordens – políticas, religiosas, comportamentais. Eu acho simplesmente que não há discussão: o esporte é parte importante da vida das pessoas no mundo todo, e é impossível que não reflita o espírito de seu tempo. E isso inclui ser ambiente de debates, atos simbólicos, reivindicações as mais diversas. Ou não estamos discutindo gênero a partir da presença da trans Tifanny na Superliga Feminina?

Há neste instante uma crise diplomática envolvendo “apenas” Inglaterra e Rússia. Fervura máxima. A primeira ministra britânica Theresa May acusou formalmente o governo russo de tentar matar por envenenamento o ex-agente Sergei Skripal, 66 anos, e sua filha Yulia, 33, que viviam na Inglaterra. Skripal era colaborador da inteligência britânica e havia “traído” o serviço russo. Preso em 2004, seis anos depois foi trocado com o Reino Unido por espiões russos. Vivia sob refúgio na Inglaterra. Sergei e Yulia estão internados em um hospital em estado “crítico”, bem como o policial que os atendeu de imediato.

May anunciou na última segunda-feira, dia 14, que estava enxotando da Grã-Bretanha 23 representantes russos. É a maior expulsão de diplomatas estrangeiros desde a Guerra Fria. Os contatos bilaterais foram suspensos. Ela ainda revogou o convite para Sergey Lavrov, chanceler russo, visitar o Reino Unido.

Onde o rolo toca o esporte? Bem, May anunciou que a Inglaterra, única seleção britânica classificada para o Mundial, não mandará ministros e tampouco membros da família real à Copa do Mundo da Rússia. Além disso, alertou oficialmente torcedores britânicos que assistirão à Copa in loco para que tomem cuidado com hostilidades nas cidades russas.

Os russos responderam também em tom agudo. Além de negarem a autoria da tentativa de assassinato, classificaram a atitude de May como hostil, míope e injustificada. “Toda a responsabilidade pela deterioração do relacionamento Rússia-Reino Unido reside na atual liderança política da Grã-Bretanha”, disse em comunicado a Embaixada da Rússia em Londres. Sergey Lavrov, imediatamente, conectou com o esporte. O ministro russo foi a público dizer que a atitude de May tem “clara intenção de prejudicar a realização da Copa do Mundo”.

O caso já está na maior instância da ONU, o Conselho de Segurança. O tom da treta é muito sério e, a depender de seu agravamento, fico pensando se é exagero considerar uma hipótese de boicote da seleção da Inglaterra ao Mundial. O esporte, particularmente o futebol, o mais popular do planeta, é terreno privilegiado para ações simbólicas.

E tem gente que imagina que o esporte possa mesmo ser uma bolha de entretenimento asséptica?

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