Não é o jogador brasileiro que não tem fair play. É você!

Mauricio Barros
Maurício Barros
Pedro Vilela/Light Press/Cruzeiro
Técnico português ficou enfezado no empate contra o América-MG
Técnico português ficou enfezado no empate contra o América-MG

A irritação de Paulo Bento é corretíssima. No Brasil, o fair play virou mais uma ferramenta de trapaça. Quantos jogos já não vimos onde gaiatos caem de propósito para, apoiados nos apupos de uma torcida às vezes ingênua, às vezes malandra, travar o jogo, impedir o avanço do adversário, retroceder, levar vantagem? Aliás, qualquer semelhança com a ordem política nacional não é mera coincidência.

Paulo Bento é português, e sabemos que os patrícios não são os melhores exemplos históricos de jogo limpo. Mas Portugal está na Europa, e a cultura do velho continente é mais sólida quanto a valores como justiça, igualdade, cidadania e, sobretudo, confiança no outro. Não esqueçamos que os europeus têm responsabilidades nesse degrau, tamanha a colonização predatória que empreenderam nestas bandas, física e moralmente. Aqui, estupraram povos e terras. Mas por lá, preservaram pilares importantes de conduta individual e coletiva. Acordos, por exemplo. Mesmo que não escritos em lei, eles devem ser respeitados, sob pena de execração pública.

O fair play não está na regra do futebol. É um acordo implícito, uma lei de conduta surgida de um pacto de esportividade. Um colega de profissão se machuca, é preciso atende-lo imediatamente. Para isso, quem estiver com a bola bota pra fora.

Mas não evoluímos o suficiente como sociedade para cumprir acordos. Ainda mais quando um drible neles pode nos dar alguma vantagem. Nós, cidadãos comuns brasileiros, letrados ou não, pós-graduados ou semianalfabetos, não temos fair play para respeitar filas, para evitar comprar droga de traficantes, para não parar nosso carro na vaga de idoso, para não contratar aquele despachante que tem esquema no Detran, para não passar o apartamento vendido por valor menor que o real.

Pense no jogador de futebol. Ele é criado nessa cultura nefasta do desvio. Tem pouco instrução, não desenvolveu consciência crítica. Em sua maioria, teve negado seu direito à educação. Mas ele é bom de bola e tem a chance de redimir-se, de redimir toda sua família chutando esferas. Um jogo pode significar muito, de uma hora para outra vira-se estrela ou bagre. Pressão de todo lado. Ele vai querer levar vantagem de qualquer jeito, é a vida dele em jogo nos 90 minutos.

Então, amigos, vejamos o futebol como o espelho magnífico que é. Não é só o jogador brasileiro que não demonstra condições de praticar o fair play. Somos todos nós.

 

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Régis: o drama de quem poderia ter sido grande

Mauricio Barros
Mauricio Barros


Vejo com sentimentos distintos a entrevista de Régis ao nosso Eduardo Affonso. Primeiro, a satisfação de ver mais um ótimo trabalho de um repórter, função que é a pedra fundamental do jornalismo. Edu conseguiu quebrar o silêncio do jogador, que falou sobre os motivos de o São Paulo ter rescindido seu contrato. O amargor, como não poderia deixar de ser, vem da situação propriamente dita de Régis. “Vi a grande oportunidade da vida escorrendo pelas minhas mãos”, disse o jogador, na sala da casa de seus pais, em Samambaia, município do Distrito Federal. Ele exibe a camisa do São Paulo com seu nome e o número 33, como se ainda fizesse parte do clube.

Régis reincidiu no uso de “substâncias químicas ilegais”. Você pode usar outro termo para isso, se preferir. O São Paulo foi muito correto desde o primeiro deslize extracampo, antes da Copa do Mundo. Deu-lhe um tempo para se recuperar, ajudou com um psicólogo, jamais falou em dependência química, mas sim em “problemas pessoais”.

Régis reconhece o carinho do clube. Quando Diego Aguirre sentiu que ele estava pronto para retornar, deu-lhe nova oportunidade. Emblemática foi sua jogada para o gol de empate contra o Fluminense, no Morumbi, no início de setembro, quando acreditou em uma bola perdida, ganhou o lance e cruzou para o gol de cabeça de Trellez. Era uma redenção. Agora, vai.

Mas Régis fraquejou, e teve uma recaída. “A gente sabe que é um problema constante, não pode dizer que está 100%, tem que estar sempre focado, e eu me distraí e houve o novo problema”, disse o atleta, que não se considera um dependente, mas um “usuário em abusos”. O São Paulo, ao não ver cumprida a parte de Régis no acordo, encerrou o vínculo contratual. Régis voltou a Samambaia, e em outubro foi notícia ao ser detido por ter “perturbação da tranquilidade e invasão de um domicílio” vizinho. O São Paulo, com fragilidades no elenco, principalmente no setor direito, sentiria bastante a falta dele na queda de rendimento que afastou o clube da briga pelo título brasileiro de 2018. Mais importante que a questão esportiva, entretanto, é o drama humano.

A família agora é o esteio de Régis para tentar de novo retomar a vida profissional. Ele pode superar o problema, recaídas são parte do tratamento. Torço muito para isso. Ainda há tempo para ele ter sucesso e conseguir garantir um bom futuro para si próprio e os familiares. Pelo menos mais cinco anos jogando em alto nível, ganhando bons salários.

O São Paulo foi o clube de maior projeção de Régis. Antes, ele havia tido chances em equipes importantes, como Goiás, no início da carreira, Ponte Preta e Botafogo. Mas sempre foi um peregrino, transitando nas diversas divisões do futebol brasileiro, e não sabemos o quanto questões extracampo podem ter prejudicado sua trajetória.

Eu prestei mais atenção a ele no São Bento e no São Paulo, seus dois últimos clubes. E não tenho dúvidas em dizer que Régis não é um jogador comum, poderia ter sido grande. Possui uma característica rara e valiosíssima: é genuinamente ambidestro, o que lhe dá grandes vantagens no mano a mano, quando está com a bola e tem adversários pela frente. É versátil, podendo atuar como lateral e ponta. Como não tem uma perna “mandatória”, seu balanço é diferente, pode conduzir, sair, cruzar e finalizar com eficiência, com a direita ou com a esquerda. Os marcadores ficam tontos, não conseguem decifrá-lo. E ele tem velocidade e força física. Um jogador como ele, com boa cabeça e senso profissional apurado, poderia ter feito sucesso nos principais mercados da Europa, inclusive.

Mas atletas de futebol são, muitas vezes, despreparados para lidar com o sucesso, que aparece de repente e muda radicalmente a vida do sujeito e de sua família. Fama e dinheiro atraem todo o tipo de parasitas. Se o cara não tem boa cabeça, se perde fácil em seu círculo de relações. Os lugares que frequenta, as pessoas com quem circula, deve-se estar atento a tudo. A oportunidade da vida pode, como disse Régis, escorrer pelas mãos. Quando não escorre a própria vida, como vimos, recentemente, na trágica morte de outro ex-são-paulino, o meia Daniel. 

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Boca x River: uma final para além do planeta

Mauricio Barros
Maurício Barros

Fiquei pensando no que representa Boca e River se enfrentando na decisão da Libertadores. Tive que recorrer aos extraterrestres. Se um ET me mandasse agora um whatsapp dizendo que tem apenas duas horas na Terra e gostaria de voltar para o planeta Marduk com o máximo de experiência da existência humana, eu o levaria à Bombonera, dia 10, ou ao Monumental, dia 24, ou aos dois, dependendo da disponibilidade de ingresso e da agenda do alienígena. Nem Torre Eiffel, nem Nova York, nem Havaí, nem monte Fuji, balé Bolshoi, Ganges ou Sapucaí. Vamos ver futebol, criatura!

O futebol é a atividade global que mais mexe com as pessoas, seja no Gabão, em Medellín ou Istambul. É o assunto fora das necessidades básicas (tipo comer, respirar, etc) que mais penetra a vida cotidiana, oxigenando relações, pautando contatos, definindo humores. O máximo da expressão do futebol na Terra será esse confronto entre Boca e River. Ouso dizer que Real e Barça ficam atrás, porque a Espanha não é a Argentina, o flamenco não é o tango. O samba tampouco. O tango é a expressão mais pura do sentimento rasgado, da pieguice atômica, da emoção que não cabe dentro do próprio corpo, enfim, dessa espécie de homo sapiens chamada ser humano argentino, que eu amo. No Brasil, o que mais se aproxima de Boca x River é o Grenal, um cheirinho e só.

Jogadores do Boca comemoram no Allianz Parque
Jogadores do Boca comemoram no Allianz Parque Gazeta Press

Poderíamos pensar em uma final de Copa entre Brasil e Argentina. Ou de Champions entre Barça e Real. É o que chegaria mais perto. Mas nunca aconteceu. E Boca x River vai acontecer. Tudo bem se você discordar de mim, achar que o derby de Campinas ou de São Paulo, ou Cruzeiro x Atlético, ou Remo x Paysandu, forem maiores que o Superclássico. Aliás, se você não achar isso, vou desconfiar da sua paixão... Mas aqui estamos olhando de um ponto de vista, digamos, mais amplo.

Nem precisaria, mas há ingredientes calóricos nesse vulcão que explodirá em breve. O presidente da Argentina, Maurício Marci, é ex-presidente do Boca. O país vive uma crise danada – e aí, somos solidários e também estamos mergulhados na nossa –, e o confronto entre seus dois mundos, os millonarios e os xeneizes, deve absorver tudo isso. Do contrário, não seria futebol.

Jogadores do River após a eliminação do Grêmio
Jogadores do River após a eliminação do Grêmio Getty Images

A final é tratada como questão de estado. Governo nacional e da capital se mobilizam para organizar a coisa. E decidiram que haverá espaço para a torcida adversária nos dois jogos, coisa que não acontece desde 2014. Quatro mil lugares, segundo divulgado. Macri trata como oportunidade única para mostrar que é possível conciliar futebol e civilidade. Vem construindo um discurso de paz, ao mesmo tempo em que monta um esquema de segurança jamais visto no país para viabilizar dois jogos de futebol. “Não voltemos a percorrer caminhos de violência que não somam para a sociedade argentina”, disse Macri.

A Argentina está parada, não se fala em outra coisa a não ser na final inédita. A ansiedade pelo confronto é proporcional ao medo de tragédia. Ou você tem certeza de que as autoridades vão controlar os barrabravas? Não dá pra saber. Mas que o ET nunca mais será o mesmo, isso eu tenho certeza.

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Os boleiros e seu engajamento

Mauricio Barros
Maurício Barros

Ronaldinho em jogo de lendas do Barcelona e Real Madrid.
Ronaldinho em jogo de lendas do Barcelona e Real Madrid. Getty Images

George Weah, único jogador africano a ser eleito o melhor do mundo da Fifa, em 1995, é hoje presidente da Libéria. Ele tenta, creio, fazer o melhor para o seu povo, que sofre as agruras de viver em um país com um dos piores IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do planeta.

No Brasil, há muito estamos acostumados a ver boleiros enveredando pela política. João Leite, Biro-Biro, Danrlei... Romário, senador, é quem tenta chegar mais longe na carreira pública.

Pela importância que tem o futebol no país, é natural que jogadores ganhem projeção e é legítimo que a usem quando o desejo é concorrer a um cargo político. Assim como é um direito deles, como de todo cidadão, de manifestar suas preferências políticas.

Nesta corrida presidencial, tivemos cinco casos mais notórios de manifestação pública de jogadores e ex-jogadores famosos a favor de um candidato. O mesmo, no caso: Jair Bolsonaro, do PSL. O volante Felipe Melo, do Palmeiras, ofereceu um gol ao candidato. Jadson, do Corinthians, declarou seu voto em entrevista. Lucas Moura, do Tottenham, deu seu apoio via Twitter. Rivaldo também tornou público seu voto. O mais recente foi Ronaldinho Gaúcho, que postou uma foto sua com a camisa da Seleção Brasileira e o número 17 às costas. Juninho Pernambucano talvez tenho sido a voz mais forte contra o político. Casagrande também se manifestou. Mas os apoios fizeram muito mais barulho que as críticas.

Houve uma atuação imediata de alguns clubes aos quais os atletas estão ligados. O Palmeiras logo tratou de dizer que era uma opinião pessoal que nada tinha a ver com posicionamento do clube. O Corinthians seguiu o mesmo caminho. Quem pode ir além, segundo a imprensa espanhola, é o Barcelona. O jornal catalão Sport noticiou que o clube estuda medidas de afastamento em relação a seus dois ídolos porque a plataforma de Bolsonaro iria contra os princípios do clube.

Novamente, creio ser um direito dos jogadores de futebol manifestarem seu apoio a candidatos em um processo democrático. Assim como os clubes têm também seu direito de se dissociarem das opiniões pessoais desses mesmos atletas. Entretanto, dada a projeção que têm, jogadores e ex-jogadores deveriam se aprofundar um pouco mais nesses apoios. Explicar quais as ideias dos candidatos que julgam ser importantes, quais pontos dos planos de governam acham essenciais, enfim, esmiuçar as razões desse apoio. Grandes poderes trazem grandes responsabilidades, já dizia o tio do Homem-Aranha.

O engajamento dos atletas em questões para além do campo é algo desejável e necessário, mas é importante que seja algo sustentado em argumentos. Manifestar voto é pouco pela projeção que têm, é preciso explicar, qualificar o debate. E que bom será, também, passada a eleição, se esse engajamento se der nas questões relativas à administração do futebol como um todo. Nisso, os atletas brasileiros estão devendo bastante. 

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Robinho, Willian Bigode e o brilho discreto dos meio-craques

Mauricio Barros
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Proponho aqui flexibilizar o significado da palavra “craque”. Porque, se formos pensar em Pelé, Maradona, Zidane, Zico, Sócrates, Ronaldo, Messi, Neymar e Cristiano, é melhor tirá-la do dicionário. Com esse sarrafo mais baixo, ao rés-do-chão, no Brasil me permito usá-la então quando falamos de D’Alessandro, Nenê, Éverton Ribeiro, Luan, Éverton Cebolinha, Lucas Lima, Thiago Neves. Não me culpe, fã do esporte, é o que temos.

Dito isso, quero encher a bola de dois meio-craques (sim, metade!) que gosto bastante de ver jogando hoje no Brasil. Dois trintões com fôlego de moleques, cujo brilho não é óbvio para os mais distraídos, mas que deve saltar aos olhos de quem enxerga o futebol com visão de Raio X. E que foram envolvidos na mesma transação no início do ano passado, entre Cruzeiro e Palmeiras, uma troca que fez muito bem a ambos.

O primeiro é Robinho, da Raposa. Formado pelo Inter e revelado pelo Mogi Mirim, foi no Santos que ele ganhou holofotes. Mas o grande salto da carreira aconteceu no Palmeiras. Como não lembrar das encobertas em Rogério Ceni? Robinho tem qualidades muito úteis no futebol contemporâneo. É um meia ofensivo com habilidade, mas só arrisca drible quando não há outro jeito. Prefere o passe curto, tem boa visão de jogo. Solidário, ajuda na marcação e tem velocidade tanto para puxar contra-ataques quanto para ser lançado. Cai pelas pontas e é capaz de cruzar tanto com a direita quanto a esquerda. E ainda sabe fazer gols.

Robinho é jogador ideal para dialogar com meias excessivamente técnicos como Thiago Neves e De Arrascaeta. Sua ida para o Cruzeiro foi certeira, pois hoje teria dificuldades para se encaixar no estrelado elenco do Palmeiras.

Willian comemorando gol pelo Palmeiras
Willian comemorando gol pelo Palmeiras Getty

E é do alviverde que vem o segundo “meio-craque”. Willian Bigode, que atacante bom! Revelado no Guarani, perambulou por Atlético-PR, Toledo e Figueirense, mas foi no Corinthians que mostrou seu potencial de atacante versátil, atuando preferencialmente pelos lados, mas com capacidade de jogar pelo meio quando necessário. Penso que o melhor Willian é aquele que se movimenta com liberdade. Como Robinho, Bigode é bastante inteligente na tomada de decisão, além de ser oportunista e ótimo finalizador. E chuta muito bem de longe. Vive hoje sua melhor fase no Palmeiras.

Tanto Robinho quanto Willian são também jogadores muito dedicados, fisicamente fortes, embora com baixa estatura. Com gás para atuar intensamente o jogo todo, eles vêm fazendo diferença no futebol brasileiro de sarrafo baixo. E, tudo isso, discretamente.

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Ninguém deveria saber sofrer

Mauricio Barros
Maurício Barros

Numa boa, não dá para exaltar como virtude o famigerado “saber sofrer”. Eu já convivo no dia-a-dia com clichês como “imagem recuperada”, “fazer o facão”, “falso 9” e o diabo. Sem contar lá fora, tendo que lidar com “ser disruptivo”, “colocar todos na mesma página”, “validar”, “alinhar”. Melhor mesmo é pensar dentro da caixa, ir em busca de velhos desafios e entra na zona de conforto!

Tudo tem limite. Tem que mudar o nome disso aí. “Ser capaz de suportar pressão”, “saber se defender”, “atrair o adversário para o contra-ataque”, “montar uma retranca” para Mourinho se apaixonar. Tudo legítimo quando a meta é igualar os desiguais.

Mas “saber sofrer” é medíocre, pequeno, encolhido. Se é pobre até mesmo para um adversário que se reconhece como pior entrar em um jogo assim, o que diremos de clubes grandes? E é isso o que estamos vendo em muitos times deste Brasileirão: um jogo tosco, acomodado, acovardado, afogado em chuveirinhos. Mas o clichê, por outro lado, também define de forma cristalina o baixo nível técnico e filosófico do futebol brasileiro.

Lisca é um exemplo de 'doido' no futebol
Lisca é um exemplo de 'doido' no futebol Gazeta Press

Fábio Carille foi a novidade mais recente entre os treinadores, e seu nome poderia ser Senhor Pragmatismo. Nada contra, mas está faltando maluco no nosso futebol. Só o Lisca é muito pouco. O mais doido, creio, é o Fernando Diniz, espécie de Cilinho moderno, mas está duro de alguém apostar nele depois do fracasso no Furacão.

Talentos estão sendo sufocados por ideias medíocres. Se este Brasileirão é o mais disputado na ponta de cima da tabela, é por pura escassez de ideias. Todos jogando paro o gasto, mesmo os melhores elencos, como o Palmeiras e o Flamengo. Só isso justifica o fato de Internacional e São Paulo, de futebol competitivo, sim, mas tecnicamente apenas mediano, estarem lutando até agora cabeça a cabeça pela liderança. Não dá para aplaudir. Para saber sofrer, a gente desaprendeu a curtir.

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Mengão em cacos

Mauricio Barros
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O Flamengo se prepara para pegar o Bahia, em Salvador, escangalhado, dentro e fora de campo. A derrota nas semifinais da Copa do Brasil para o Corinthians, inferior tecnicamente, mas muito superior em espírito, foi uma nova machadada na autoestima rubro-negra. Mesmo com tantos bons e caros jogadores, o time não embala. A gestão que tem Eduardo Bandeira de Mello em seus últimos meses como presidente se mostra bem-sucedida do ponto de vista administrativo, mas em campo, a atividade-fim do clube, é um fracasso. Bandeira pode entender de finanças, mas de futebol, como o presidente Leco, do São Paulo, e tantos outros, pouco sabe.

Depois das eliminações na Libertadores e na Copa do Brasil, resta o Brasileirão, onde apenas três pontos separam o clube da Gávea, na quarta posição, do líder São Paulo – embora, pelo buraco em que se meteu o Flamengo, essa distância pareça maior.

Na manhã desta sexta-feira, veio a notícia que todos esperavam, curta e grossa. Em nota oficial, o clube anunciou que Maurício Barbieri não é mais técnico do Flamengo. Quem comanda os treinos e provavelmente o time no confronto contra o Bahia é Maurício Souza, o auxiliar. Barbieri, que chegou para fazer parte da comissão técnica e foi alçado à condição de treinador sem estar totalmente preparado, deve seguir seu caminho. Como Osmar Loss no Corinthians, não há como voltar atrás na carreira, tampouco ficar no clube.

O que todos se perguntam é: quem virá para ocupar o cargo de técnico do clube de maior torcida do Brasil? Será apenas até o fim do ano? Especula-se que Dorival Júnior seja o nome mais forte. Seria ele a encerrar o ciclo de Bandeira na presidência, justo Dorival, que foi também seu primeiro treinador, em 2013. Levir Culpi e Vanderlei Luxemburgo são outros nomes cogitados. Eu pergunto ao rubro-negro: algum empolga? A mim, não. Desses, Dorival parece mesmo o melhor para o momento, mas é pouco. O Flamengo precisa encontrar alguém com mais identidade com o clube, que mostre paixão em cada palavra, olhar, celebração. Dorival é de outra seara. Mas esse sujeito existe? Não sei. Isso também é uma falha dos clubes brasileiros. Vivo dizendo que falta “categoria de base” para técnicos. Eles precisam ser gestados dentro do clube, a partir de um plano de carreira e com claros critérios de identidade, valores, história.

Falta no Flamengo também alguém que dê suporte ao treinador. Desde a saída de Rodrigo Caetano (que, dado o deserto de ideias em nosso futebol, se destaca na função de Diretor Executivo, assim como Alexandre Mattos, do Palmeiras, e agora Raí e Lugano, no São Paulo), o clube vive um vácuo nessa função. Carlos Noval assumiu o cargo, mas não disse a que veio. Sem esse suporte, o treinador fica muito exposto, e o desgaste é inevitável. Para encerrar, um dado que diz muito sobre a maneira como os clubes brasileiros são administrados: neste século, o Flamengo trocou de treinador 40 vezes, recorde nacional.

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Barbieri e a demissão carne-de-vaca

Mauricio Barros
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Mauricio Barbieri: técnico do Flamengo
Mauricio Barbieri: técnico do Flamengo Gazeta Press

“Se não ganhar do Galo domingo, Barbieri tem que cair”. 

Muito torcedor flamenguista embarcou nessa. Comentaristas também, e com um balaio de motivos. Eu não dropei essa onda, mesmo certo de que o jovem treinador tem lá sua coleção de equívocos. Mas costumo defender que, sem uma temporada completa, incluindo a pré, qualquer análise sobre o trabalho de um treinador que leve a uma decisão sobre sua continuidade é precipitada e injusta.

O treinador é o principal “executivo” de um time de futebol. A decisão sobre sua contratação, portanto, precisa ser tomada a partir de uma cesta de critérios, que inclui trajetória, perfil de liderança, identificação com os valores do clube, capacidade de traduzi-los em estilo de jogo e conquistas. Ele também precisa ter um chefe que entende do assunto (Barbieri não o tem), que lhe dê respaldo e também possa avaliar sua conduta no dia-a-dia, a maneira como treina o time, como se relaciona com atletas, comissão e dirigentes, o modo como encontra soluções para os problemas que aparecem, dentro e fora de campo, e mesmo o jeito como fala com a imprensa.

Da mesma forma que a contratação, a decisão de demitir esse executivo não pode se basear apenas em resultados. É preciso estar certo de que o treinador está falhando em vários desses atributos. Vale lembrar que, se os jogadores não são capazes de botar em prática o que se treina ou oscilam demais em desempenho, nem Einstein dá jeito.

É legítimo se demitir um treinador? Claro que é. Não há sentido manter alguém que não produz o esperado. Mas essa deve ser uma decisão sempre extrema, embasada por uma análise criteriosa de longo prazo. Até porque, quando se troca técnico como se muda de camisa, nenhuma vai servir direito.

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Luis Enrique e o 'treino-refeição'

Mauricio Barros
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Virou cena comum. Uma família, um grupo de amigos ou colegas de trabalho compartilhando uma mesa de almoço e nada mais. Os olhos no celular erguem baias virtuais entre eles. Ninguém se olha, pouco se conversa. O corpo está ali, a cabeça bem longe. Eu já me peguei dando bronca em amigos por conta disso. Eu já me vi levando bronca de amigos justamente por não largar o celular. Tento lutar contra isso. Nem tudo é urgente. Na verdade, pouca coisa é urgente.

Refeições são rituais sagrados, devem sempre transcorrer num tempo diferente, mais lento. É a hora de o corpo absorver a energia dos alimentos, é a hora de a alma se alimentar do convívio com o outro. Mesmo um almoço sozinho, pausado, corte e garfada, pode ser um diálogo consigo mesmo.  

Digo isso e agora tomamos, eu e você, um avião virtual para a Espanha, onde a Roja se prepara para a estreia na Liga das Nações da UEFA contra Croácia e Inglaterra, um torneio novo, repleto de expectativas.

Luis Enrique, em treino da Espanha
Luis Enrique, em treino da Espanha Getty

Recém-empossado, uma das primeiras medidas do treinador Luis Enrique foi proibir o uso de celulares durante o café da manhã, o almoço e o jantar na concentração. A medida é simbólica de que algo se perdeu no grupo que disputou a Copa da Rússia e foi eliminado precocemente: o espírito coletivo.

Normalmente, os motivos de um grupo desagregado aparecem nas grandes derrotas, durante e depois delas. A particularidade dessa Espanha foi que as dissonâncias vieram horas antes da estreia, no que foi um dos maiores papelões da história das Copas do Mundo: a demissão de Julen Lopetegui pelo seu acordo com o Real Madrid sem anuência da Federação Espanhola, e sua substituição por Fernando Hierro, sinal inequívoco que as coisas não andavam bem em um grupo já tradicionalmente “rachável” entre catalães e merengues.

Luis Enrique não é figura de trato fácil. Lembro de seu pavio curto como jogador. Mas lembro também de sua dedicação e seriedade. Como treinador, foi muito bem sucedido no Barcelona, trazendo elementos de verticalidade ao DNA culé de toque de bola. Ponto positivo para ele o fato de ter como primeira medida algo relacionado ao comportamento humano. Grupos de trabalho precisam conviver, olhar no olho, conversar, sacar o jeitão um do outro. Reconhecer afinidades, ver onde o santo não bate. E usar tudo isso de maneira madura, sempre pensando no êxito coletivo, algo particularmente difícil entre jogadores famosos e mimados.

Na porta do refeitório da concentração da Espanha, haverá daqui pra frente uma cesta onde todos devem deixar o celular antes de entrar. A comissão técnica dá o exemplo e já desce dos quartos sem seus aparelhos. Assim, Luis Enrique transforma as refeições em treinos de fundamentos – humanos, no caso.

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E o Bolt virar jogador? É sério ou fanfarronice?

Mauricio Barros
Maurício Barros

A gente vai acordar nesta sexta-feira e, lá do outro lado do planeta, vai acontecer uma coisa sensacional, única. Em Gosford, cidade a 75 km ao norte de Sydney, na Austrália, às 19h30 local, 7h30 daqui, começa o amistoso entre o Central Coast Mariners e um combinado de jogadores da região. A partida faz parte da pré-temporada dos Mariners para o Australianão 2018/2019, que começará em outubro.

Por que uma pelada dessas é sensacional e deve lotar o estádio? Porque, no segundo tempo, pode entrar em campo Usain Bolt. O maior velocista de todos os tempos, aos 32 anos, insiste em realizar um sonho de infância: jogar futebol profissionalmente. Ele estará lá, sentadinho no banco, esperando o professor chamar. E isso deve acontecer faltando uns 20 minutos pro fim do jogo.

Depois que pendurou as sapatilhas, Bolt tem peregrinado pelo mundo fazendo peneiras. Tentou vaga no Borussia Dortmund, da Alemanha, que veste o uniforme de seu patrocinador, a Puma, mas não convenceu ninguém. Arrumou também uns testes na Noruega, mas o Stromsgodset, da primeira divisão, que também veste Puma, agradeceu a tentativa e mandou um, digamos, “você não se encaixa no perfil”.

Bolt, em treino pelo Central Coast Mariners
Bolt, em treino pelo Central Coast Mariners Getty Images

No último dia 18, o jamaicano desembarcou na Austrália e começou o período de treinamentos. E não se pode dizer que foi o patrocinador quem convenceu os Mariners a dar chance a Bolt, pois o clube veste Umbro. Mas a chegada do atleta oito vezes campeão olímpico tem suas razões também no marketing. O clube quer fixar sua imagem de “o mais inovador do futebol australiano”, e Bolt é um canhão de mídia para isso. “Não quero ser tratado como o homem mais rápido do mundo, mas sim como um jogador de futebol, que é o que eu quero ser. As pessoas vão dizer um monte de coisas sobre mim, mas vou provar que elas estão erradas”, diz o gigante de 1,96 metro.

Há alguns vídeos de Bolt batendo bola. Ele é canhoto e se diz atacante, podendo jogar tanto pelos lados como centralizado. O jamaicano tem dito que o mais difícil na adaptação ao futebol é a alternância de ritmo. Acelerar e parar. Avançar, frear e voltar. “Ele está indo ok”, diz Mike Mulvey, técnico dos Mariners, econômico. “Tem algumas habilidades, mas precisamos ver se consegue fazer na velocidade que precisamos”.

Estou muito curioso para ver se Bolt, mesmo na Austrália, consegue jogar em nível profissional e se sua velocidade pode ser um diferencial no futebol. Nós cansamos de ver, nos campos do mundo, foguetes humanos que, mesmo chegando na bola antes de todo mundo, não eram capazes de fazer algo decente com isso. Velocidade sem inteligência e controle não são nada. Bolt não esconde a ansiedade com os testes e a chance de assinar um contrato. “Não é mais uma partida beneficente. É a carreira que eu estou tentando seguir”. Que figura incrível, não dá para não torcer por ele. Mesmo se for um baita grosso. 

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Seleção sem clubismo

Mauricio Barros
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Andreas Pereira, meia do Manchester United, nasceu na Bélgica, mas também tem nacionalidade brasileira
Andreas Pereira, meia do Manchester United, nasceu na Bélgica, mas também tem nacionalidade brasileira Getty Images

Andreas Pereira foi convocado por Tite para os amistosos da seleção brasileira contra Estados Unidos e El Salvador. É bom ver caras novas nesse ciclo que se inicia rumo à Copa de 2022.

Logo também estarão na lista Vinicius Júnior, Rodrygo, Paulinho e Richarlison. Junte-se a eles craques consagrados e jovens como Marquinhos, Neymar, Coutinho e Casemiro, entre outros, e têm-se um ótimo material humano para Tite trabalhar visando o próximo Mundial.

Mas Andreas não é um jogador qualquer. O meio-campo do Manchester United nasceu em Duffel, na Bélgica, fez a base no PSV Eidhoven, da Holanda, e depois no próprio United. Filho de brasileiros, seu pai, Marcos Pereira, é um ex-jogador da Inter de Limeira que fez carreira no futebol belga.

Após frequentar as seleções de base da Bélgica, Andreas, que tem nome de gringo, optou por jogar pelo Brasil no Mundial Sub-20. Tem jeito de brasileiro, se sente brasileiro.

Na história, houve apenas outros três estrangeiros que vestiram a camisa da seleção, todos no início do século passado: o meia italiano Police, o goleiro português Casemiro e o atacante inglês Pullen. Isso tem mais de 100 anos, então Andreas é o “gringo” pioneiro na seleção brasileira na era do futebol profissionalizado.

É um sinal inequívoco dos tempos. O torcedor vai se acostumando a conviver na seleção com jogadores dos quais pouco ouviu falar, e isso, claro, é mais forte entre aqueles que não acompanham os campeonatos europeus, onde jogam os melhores.

Se Andreas tem sido, aos 22 anos, figura constante em campo neste início de Campeonato Inglês em um time recheado de craques e que tem José Mourinho como treinador, evidentemente é um selecionável. Mas nem todo mundo sabe.

E Andreas, por não ter jogado no Brasil, vai enfrentar alguma desconfiança, típica de mentalidades tacanhas. Outros sofreram com isso, como Élber, David Luiz e, mais recentemente, Roberto Firmino. Por serem jogadores que saíram cedo do Brasil sem deixarem aqui uma marca, não foram poucos os que desconfiaram deles, simplesmente por não acompanharem seu brilho lá fora.

Esse movimento inevitável, posto que os valores brasileiros saem cada vez mais cedo para o exterior, vai minando os últimos resquícios de clubismo na seleção brasileira e em sua relação com a torcida. Cansamos de ver, ao longo da história, torcedores pedindo a presença em campo de jogadores de seu time ou mesmo de seu estado quando a seleção jogava em suas cidades.

Havia inclusive vaias para os atletas que, eventualmente, deixavam os “queridinhos” no banco. Mudou tudo. Excetuando amistosos que não valem nada e, por isso mesmo, são chamados atletas de “segundo escalão” que atuam no Brasil, nos torneios que importam cada vez tem menos espaço para jogadores de clubes nacionais.

Serão comuns atletas na seleção que sequer chegaram a jogar um Brasileirão, sem identidade com time nenhum daqui. Em tempo: Andreas fala um português perfeito, sem nenhum sotaque. Mas isso é apenas um detalhe.

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Seleção sem clubismo

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Redução já: A elite do Brasileiro não tem 20 clubes

Mauricio Barros
Maurício Barros
Paraná Clube, que voltou a elite do futebol brasileiro nesta temporada, está na lanterna da Série A, com 9 gols marcados em 18 jogos
Paraná Clube, que voltou a elite do futebol brasileiro nesta temporada, está na lanterna da Série A, com 9 gols marcados em 18 jogos Gazeta Press

Rogério Ceni esteve no último Resenha ESPN, nosso já clássico programa apresentado por André Plihal. Treinador do Fortaleza, Ceni é líder da Série B e faz um trabalho sólido para levar o Tricolor de Aço de volta à primeira divisão do Campeonato Brasileiro.

Porém, mais difícil que chegar à elite é permanecer nela. E a razão é simples: não há 20 clubes no Brasil que mereçam estar na primeira divisão. E aqui não falo de história, de tradição, de força de torcida. Há clubes enormes no Brasil, capazes de despertar paixões gigantes, e o Fortaleza é um deles, assim como o Santa Cruz, o Remo, a Ponte Preta e tantos outros. Falo aqui de estrutura, de categorias de base, de capacidade financeira e de competência administrativa.

É urgente que se diminua para 18 o total de clubes na Série A, com um efeito cascata para a Série B. No entanto, as Séries C e D, creio, são outro papo. Quem vê o futebol apresentado por Paraná, Ceará e Sport, por exemplo, entende que são times de outro nível competitivo.

O Leão pernambucano foi simplesmente constrangedor em sua casa diante do São Paulo, um reflexo do turbilhão administrativo que vitimou mais um treinador, Claudinei Oliveira, como se a troca de técnico fosso resolver alguma coisa. O lanterna Paraná fez nove gols em 18 partidas. O Ceará marcou apenas 11 vezes!

Neste domingo, discutimos rapidamente essa questão no Bate-Bola. Meu colega Mauro Cezar Pereira chamou a atenção para esse problema, que há muito tempo também me incomoda. A elite não é tão grande assim. Talvez seja até menor, 16 clubes... Mas creio que 18 é algo razoável, com duas vagas de acesso e uma outra disputada pelo terceiro da Série B e o antepenúltimo da Série A. Quatro clubes subindo e descendo todo ano é um exagero.

E, do ponto de vista do clube e sua torcida, sinceramente, vale passar uma temporada inteira levando bordoada só pra se dizer “de elite”?

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Redução já: A elite do Brasileiro não tem 20 clubes

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São Paulo é líder. E agora?

Mauricio Barros
Maurício Barros, blogueiro do ESPN.com.br

Jogador por jogador, nome por nome, era para o São Paulo estar brigando pela quinta posição do Campeonato Brasileiro. Isso mesmo, alimentando o sonho de voltar à Libertadores no ano que vem. Em virtude do que passou em 2017, convivendo por alguns meses com a chance real de um devastador rebaixamento, seria uma boa situação.

É um fato que, se Flamengo, Palmeiras, Cruzeiro e Grêmio jogarem tudo o que podem, vencem o São Paulo, e mesmo se este também jogar tudo o que pode. Por isso, é surpreendente que o são-paulino alcance, na 17ª rodada do torneio, a liderança do torneio, apenas um ponto a mais que o rubro-negro carioca.

O clube alcança o topo com uma subida gradual. O primeiro fato positivo foi o afastamento do presidente Leco das decisões do futebol profissional. Raí e Lugano, cada um na sua, são gente do meio e referências de postura e sãopaulinidade. Ricardo Rocha também está lá, mas confesso ter dificuldades para entender o que, de fato, ele faz. Já deu pra ver que, pelo menos, não atrapalha.

A vinda de Diego Aguirre foi a segunda aposta acertada. Há uma passagem secreta no Morumbi que dá direto em Montevidéu. Uruguaios têm história farta no clube paulista. E Aguirre é discreto, tem liderança e pragmatismo. Arrumou a defesa, demonstra que impôs uma isonomia no elenco, evitando privilégios, e faz o time jogar conhecendo seus limites. Uma linha de quatro atrás que é forte, laterais que não vão “na louca”, dois volantes, um meia criativo, um centroavante de presença e dois caras rápidos nos lados. E dá-lhe contra-ataque. A chegada de reforços pontuais, como Éverton, Rojas e Bruno Peres, qualificou o elenco, que agora vai ter que se virar sem Militão, um de seus melhores.

Éverton durante vitória do São Paulo sobre o Vasco
Éverton durante vitória do São Paulo sobre o Vasco Gazeta Press

Ainda vivo na Copa Sul-americana, embora em situação difícil, o São Paulo se beneficia também da divisão de seus principais rivais entre Copa do Brasil e Libertadores. Se for eliminado pelo Colón, terá atenção exclusiva ao Brasileiro, que vale muito mais que o torneio continental.

Não haver jogo do Brasileiro esta semana dá ao são-paulino um prazer que há três anos não sentia: ver o time no topo da classificação. Ele olha várias vezes para ver se é verdade. Às vezes, não acredita. E volta a olhar.

É apenas um ponto, quase uma ilusão de ótica. Mas Aguirre deveria imprimir duas tabelas e colar na porta do vestiário do CT. Uma pequena, meio sulfite A4, de um ano atrás, quando o time se posicionou na vice-lanterna na 22ª rodada do Brasileirão do ano passado, após perder para o Palmeiras por 4 x 2. A outra tabela, a atual, em papel A3, com o clube em primeiro.

O time e seus torcedores precisam usar a semana de treinos para acreditar nessa liderança. Há elencos melhores, mas as circunstâncias permitiram que, depois da sequência pós-Copa, o São Paulo se colocasse como candidato ao título. Há várias coisas para aprimorar, o time tem problemas quando está com a posse, conta com jogadores que não conseguem manter a pressão na bola adversária o tempo todo, não consegue garantir partidas tranquilas quando sai na frente. Isso tudo é treino de campo. Outro trabalho é fazer o time acreditar que é possível. Isso é treino de cabeça.

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Que Felipão é esse que chega ao Palmeiras?

Mauricio Barros
Maurício Barros


Luiz Felipe Scolari chega para sua terceira passagem como técnico do Palmeiras prestes a fazer 70 anos. Idade não é o problema. Eu conheço jovens com mentalidade jurássica e idosos com um frescor de ideias impressionante. Maurizio Sarri, por exemplo, fará 60 anos e sua chegada ao Chelsea provoca frisson na Premier League depois do trabalho que fez no Napoli.

Acho que muitos como eu têm dúvida e curiosidade sobre qual Felipão desembarcará no Palmeiras. Depois das experiências na China, uma Copa da Rússia intercalada entre o hoje e o 7 x 1, pelo qual foi bastante responsável (mas não o único), Scolari terá mudado? Terá aprimorado conceitos, revisto convicções? Uma pista favorável é a troca de auxiliar técnico: sai o folclórico Murtosa, entra Paulo Turra, que pode conferir frescor e atualidade às concepções do treinador.

O que preocupa é a informação que meu colega de Bate-Bola Jorge Nicola apurou com um alto dirigente do Palmeiras. Basicamente, o seguinte: o clube chamou Felipão porque os jogadores estavam muito acomodados. Nas entrelinhas, podemos entender o seguinte: o lado que pesou na escolha do novo técnico foi o perfil xerife. Roger Machado, nesse sentido, pode ser estudioso, mas não teria tido o pulso firme de comando que um elenco estrelado precisaria para render.

Claro que jogador de futebol é um desafio mesmo para os melhores gênios dos Recursos Humanos. Muitos atletas são mimados, imaturos, milionários, famosos e melindrados. Tem hora que é preciso falar grosso. Mas o Palmeiras com Felipão dá uma guinada conceitual na escolha do treinador, trocando a busca por novos nomes no cenário de treinadores, como recentemente fizeram com sucesso Corinthians, Flamengo e Atlético-MG, por um figurão da velha guarda que fala grosso. Claro, Felipão é mais do que isso. Mas o quanto mais? 

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O Brasileirão castigado

Mauricio Barros
Maurício Barros

A ressaca é inevitável depois de uma Copa do Mundo. A gente passa um mês vendo os melhores jogadores do planeta em campo (ok, há pangarés também…), gramados impecáveis, motivação a mil, câmeras incríveis transmitindo, festa sem violência. Mas uma hora a coisa acaba e seria bom ter um tempinho para um detox. Só que não. O Brasileirão e as Copas locais voltam com tudo, e o clima de ressaca é brabo. 

Muitos times estão bem diferentes depois das primeiras movimentações da janela de transferências. O Corinthians sem Balbuena e Sidcley, o Flamengo sem Vinícius Júnior, o Palmeiras sem Keno, o Galo sem Roger Guedes... E nada garante que não haja mais perdas significativas para os elencos. As janelas de transferências ainda tardam a fechar.

Vinícius Júnior não joga mais no Flamengo
Vinícius Júnior não joga mais no Flamengo Gazeta Press

 
Em linhas gerais, os clubes estão piores. Junte tudo isso à ressaca de Copa e dá-lhe paulada nesse produto já combalido chamado futebol brasileiro.

Ficou ainda mais complicado sustentar o calendário iniciando em janeiro e terminando em dezembro. É um castigo grande demais para clubes, dirigentes, técnicos e torcedores. Começa-se com um grupo de jogadores e, quando se está na metade da temporada, os melhores vão embora. Chega-se ao cúmulo de muita gente torcer para que o time não faça brilhar um jogador em especial, porque certamente ele partirá em julho ou agosto . China e Arábia complicaram ainda mais uma lógica extrativista que já era crítica.

É fundamental que se abra a discussão de adequação do calendário brasileiro ao europeu, que dita as normas do planeta bola. Posto que ainda estamos longe de fortalecer os clubes locais a ponto de fazerem frente a propostas de fora, que pelo menos se garanta uma temporada inteira com um time minimamente planejado. 

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Uma fossa mais suave

Mauricio Barros
Maurício Barros

A derrota sempre tem um gosto amargo, mas sua intensidade varia, como no agridoce da vida. Esta eliminação brasileira precisa ser curtida como uma fossa suave. Vinho, pão com azeite, talvez até um sorriso de Monalisa. Nada comparável com 2006, por exemplo, ou 2014. Naquelas, havia motivos para carrancas. Foram revoltantes o descompromisso das estrelas e o comando frouxo, na primeira, e a falta de preparo e conhecimento da superioridade do adversário na última. Aliás, existe alguém que não temeu uma nova goleada quando saiu o segundo gol da Bélgica? Duvido... A história vai registrar que em 2014 o Brasil foi semifinalista, mas quem viu sabe que aquele quarto lugar é bem pior que este quinto (ou oitavo, depende da sua boa vontade).

O Brasil poderia tranquilamente ter empatado ou vencido essas quartas de final. Jogou para isso, nos primeiros minutos e em todo o segundo tempo. Mas encontrou um ótimo time, que corrigiu seus problemas defensivos e teve seus três craques principais, Lukaku, Hazard e De Bruyne, em uma noite maravilhosa, para não falar de Courtois. O Brasil não contou com seus quatro homens de criação, Neymar, Coutinho, Willian e Gabriel Jesus, em seu melhor. E mesmo assim, poderia ter levado o confronto à prorrogação se Renato Augusto não perdesse um gol claro.

Marcelo e Thiago Silva mostram frustração após a derrota brasileira contra a Bélgica
Marcelo e Thiago Silva mostram frustração após a derrota brasileira contra a Bélgica Getty

A seleção deixa a Copa da Rússia entre as oito melhores, eliminada pela Bélgica, um país que tem tradição em revelar jogadores e conta com a melhor safra de sua história. Eu dizia antes do confronto que uma vitória belga seria um resultado normal, embora o Brasil fosse favorito. E cravei o resultado no bolão da família, contra minha vontade, mas de olho no pragmatismo de quem está atrás na disputa pelos caraminguás. Eu gostaria que a seleção tivesse passado, tinha bola para ir além. Não deu, ganhou o outro, que é excelente e foi, ao longo do jogo, mais eficiente.

 Não endeuso Tite, para mim ele não está acima de críticas. É um técnico competente e tem valores sólidos, mas comete seu erros. Demonstra saber que não basta apenas ganhar, mas que há um compromisso da seleção brasileira em jogar bem. Porém, há que se discutir alguns escorregões que, somados, podem ter contribuído para a derrota. A demora em trocar algumas peças que não rendiam seu melhor, como Gabriel Jesus e Paulinho; a falta de um líder incontestável evidenciada pelo rodízio de capitães; a manutenção de jogadores lesionados; a convocação de um ou outro jogador, a exclusão de um ou outro nome que pudesse substituir Casemiro melhor que Fernandinho; uma leitura melhor do jogo do adversário durante a partida. É preciso aponta-los e não eximir os autores de tal responsabilidade. Mas nem de longe esses equívocos desqualificam o trabalho feito até aqui por Adenor e sua comissão técnica. Na balança, há muito mais acertos que erros, e por isso espero que o trabalho se mantenha.               

Vem uma nova safra muito boa por aí para iniciar o trabalho rumo a 2022. Vinícius Júnior, Paulinho, Paquetá, Rodrygo, David Neres. E mais Neymar, Coutinho, Marquinhos, Gabriel Jesus, Casemiro e outros que ficarão. Vamos aguardar. Agora, é curtir essa fossa suave.

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O Mundial dos dramalhões

Mauricio Barros
Mauricio Barros

Muller chora após eliminação da Alemanha na Copa do Mundo
Muller chora após eliminação da Alemanha na Copa do Mundo Getty Images

Uma Copa do Mundo sem dramas não é nada. E o Mundial da Rússia coleciona vários. Antes mesmo de a bola rolar, a Espanha, quem diria, dona de um dos campeonatos nacionais mais ricos e desenvolvidos do mundo, protagonizou o papelão de mandar seu treinador Julen Lopetegui embora, no enrosco envolvendo sua contratação pelo Real Madrid.

A Alemanha, tampouco afeita a montanhas russas de emoções, logo na estreia decepcionou, perdendo do México por 1 x 0. Depois, recuperou-se em um jogo infartável contra a Suécia, em um gol de falta de Kroos praticamente no último lance de jogo. Isso tudo para, mais tarde, ser eliminada pela também eliminada Coreia do Sul, uma derrota por 2 x 0 que sacramentou o vexame dos antes inquestionáveis campeões mundiais.

A Suécia, aliás, personificou seu drama em Jimmy Durmaz, de ascendência turca, que sofreu ofensas racistas por ter sido o responsável pela falta que originou aquele gol de Kross. Bonito foi ver o elenco sueco apoiando incondicionalmente seu companheiro.

O oposto da Alemanha foi o México, cuja comemoração do gol da vitória na estreia rendeu registro nos sismógrafos da capital. O dia em que um gol causou um terremoto. Lindo isso. Tão lindo como a celebração em frente à embaixada da Coreia na Cidade do México, com direito a levantamento de diplomata.

Dramas pessoais envolvem vários contundidos. Mo Salah chegou arrebentado e sua ausência na estreia pode ter tirado a chance de o Egito avançar. O reserva Douglas Costa levou o Brasil à vitória sobre a Costa Rica nos minutos finais da segunda rodada, mas foi possível vê-lo sentir a coxa. Talvez fosse titular no jogo seguinte, mas amarga um estaleiro até, talvez, uma eventual semifinal, caso o Brasil avance. Marcelo também viveu seu drama, após sair às lágrimas todo travado por um espasmo na região lombar. E o que dizer de Neymar? Suas simulações, desabafos, destemperos, lances geniais. Esse é um personagem rocambolesco e tanto.

Há outros lesionados, mas nenhum toca tanto quanto James Rodriguez. O colombiano está baleado. Astro da Copa de 2014, não consegue jogar por conta das dores musculares. Vê-lo sair contra Senegal foi de cortar o coração. Será que volta?

A Argentina é um dramalhão que possui um país e um time. Técnico maluco e sem comando. Um gênio, Messi, tentando resolver sozinho. Sangue de Mascherano, brigas, suor. E lá vão os hermanos com Maradona tendo ataques cuidadosamente planejados para as câmeras de TV.

Há também imbróglios étnicos, como Xhaka e Shaqiri, da Suíça, demonstraram em suas comemorações de apoio à causa albanesa contra a Sérvia, de quem ganharam de 2 x 1. Foram multados pela “asséptica” Fifa.

Assim entramos no mata-mata, que dobrará a intensidade e o número de personagens desses dramalhões. E agora eles podem durar 120 minutos. Ou mais. Que venham, pois. A gente adora.

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Neymar jogou como se tivesse um melão na cabeça

Mauricio Barros
Mauricio Barros

Neymar é uma celebridade desde adolescente, quando brilhava na base do Santos. Logo que subiu aos profissionais, passou a adotar um visual diferente, chamando a atenção também por seus penteados, ora moicano, ora descolorido, alisado, cacheado. Aos cortes estilosos, juntaram-se brincos e tatuagens. Coisa absolutamente normal. Desde sempre, ele sabe que não nasceu para ser alguém, digamos, comum. Seu futebol cresceu junto, ficou imenso. Adoro vê-lo jogar, é uma alegria. Hoje é o que é: o 10 da seleção brasileira, o jogador mais caro de todos os tempos, legítimo herdeiro da linhagem nobre de Leônidas, Pelé, Garrincha, Zico, Ronaldo.

O mundo das celebridades é também o que é: glamouroso, endinheirado, superexposto, vaidoso, visual, cheio de relações de solidez duvidosa; e também fútil, bobo, jeca e brega. Neymar, pelas referências que forjaram sua personalidade, está mergulhado nesse ambiente até o pescoço. Namora, claro, uma atriz linda e também superexposta, e não há um passo que dê que não valha um post, uma tuitada, uma foto que, por sua vez, não rendam pauta na imprensa e mobilizem seus milhões de seguidores mundo  afora.

Eis que o maior craque brasileiro aparece para a estreia da Copa do Mundo com um enorme topete aloirado, que, presumo, foi combinado antes com seus consultores estéticos. “Para a Copa, tem que ser algo bem diferente”, devem ter pensado, talvez até citando David Beckham, outro ícone ludopédico-visual, que apresentou uma “releitura” do corte moicano na Copa de 2002. E lá foi Neymar deixar o cabelo crescer para que os fios assumissem um comprimento que permitisse a obra no dia da estreia. Pla-ne-ja-men-to. Fico imaginando quanto tempo o rapaz ficou na cadeira horas antes do jogo. Tinta, alisamento, gel, fixador, sei lá mais o que.

Neymar lamenta empate com a Suíça
Neymar lamenta empate com a Suíça Getty

Pois cá eu quero dizer que Neymar tem o direito de fazer o que quiser com seu cabelo, orelha, braços, dinheiro. Corpo dele, vida dele, regras dele. O que importa é que esteja feliz para fazer o que sabe: jogar bola, vencer e encantar com seu enorme repertório de recursos técnicos.

Tem um monte de jogador com cabelo diferente, tatuagem, brinco, adereços mil. Pegar no pé dos caras por causa disso é algo tacanho, retrógrado, e não serei eu a fazê-lo. O que preocupa é o quanto a importância que ele dá a questões de aparência está contaminando seu jogo. Esse é o ponto. O Neymar do jogo contra a Suíça foi o Neymar do PSG: um jogador que se preocupa excessivamente com o show, com o drible, com as firulas, com os momentos em que para na frente do jogador chamando o drible e a falta. E esse Neymar é diferente do Neymar do Barcelona, mais conciso, mais editado, talvez pelas diferenças de cultura entre os clubes (o PSG é o novo rico, deveria estar sediado em Miami, e não Paris) e pela presença de Messi.

O camisa 10 brasileiro foi muito individualista contra a Suíça, e aí está uma das chaves que explicam por que o Brasil empatou, embora tenha merecido ganhar. Neymar prendeu demais a bola, e por isso sofreu um mundo de faltas. Deveria ter tocado mais, procurado seus ilustres companheiros. E isso não quer dizer abdicar de suas jogadas individuais, que são uma arma letal e que fizeram dele o craque que é. É só ajustar a dose, o que será melhor para todos. Ontem, Neymar exagerou. Jogou como se apenas quisesse aparecer, e não vencer. Jogou como se tivesse um melão na cabeça.

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O dia em que um leitor me desejou hemorroidas

Mauricio Barros
Maurício Barros

Desde que comecei a escrever este blog sobre futebol, dar pitacos no Twitter e trabalhar como comentarista na TV, passei a conviver com a necessidade de ter um grande autocontrole. É preciso lidar com algumas pessoas que parecem estar sempre de mal com a vida, prestes a explodir. Tem muita gente bacana, a maioria é assim. Mas aparece com frequência um pessoalzinho encardido que se dispõe a brigar, o que é muito diferente de debater. Acontece principalmente quando eu meto o dedo em alguma ferida clubística. É aí que a coisa, invariavelmente, pega.

Torcedor de futebol, na internet, é um bicho perigoso. Quando se sente contrariado pelo que alguém escreveu ou disse, é capaz de xingar o autor com os piores nomes possíveis. Não basta discordar, argumentar. Há um ódio em cada palavra cuspida pelo teclado.

Me lembro quando Ronaldo foi contratado pelo Corinthians. Eu editava a revista Placar e achei que, naquele momento, quando o time estava se encaixando, a presença de um medalhão poderia desequilibrar um trabalho bem feito. O Gorducho provaria que eu estava errado, mas era o que julgava então correto dizer. Publiquei no site.

Edu Ronaldo Corinthians
Edu Ronaldo Corinthians Getty

Me recordo que foram 400 comentários. Uns dez concordavam comigo, outros 20 me criticavam com respeito e o restante era só espinafrada. Os mais amáveis diziam que eu era um Zé Ninguém (até aí, ok!) e que não podia ficar criticando o Fenômeno. Havia também os que diziam que eu nada entendia de futebol (ok também). Mas a maioria me xingava. Dois comentários me doeram particularmente.

Teve um sujeito que se identificou como “mãe do Maurício” e pedia desculpas por ter dado à luz este pobre coitado. O requinte de crueldade (são imagens fortes) dizia algo como: “Eu pari este cara em pleno banheiro durante uma diarreia”. Juro. Pra que botar minha mãezinha no meio? Nessa situação? Não, mil vezes não!

O outro que me magoou escreveu assim: “Eu desejo que este jornalista tenha hemorroidas”. Fiquei dias chateado. Tudo bem dizer que estou errado, que não manjo nada de futebol, blá blá. Mas desejar hemorroidas? Um troço desagradável, dolorido. Isso não se faz…

Muitos textos, golpes e opiniões se passaram desde aquele do Fenômeno. Digo que criei uma certa casca protetora contra a má educação. Simplesmente não respondo. Esses dias mesmo, um sujeito disse que um comentário meu era canalha. A opção da emissora é, aqui, não moderar comentários. Isso é corajoso, pois tem o preço de expor quem escreve ao apedrejamento. Novos tempos. Na TV, estamos abertos ao diálogo com os fãs do esporte. Acho isso ótimo, um avanço, mas não digo que seja fácil. Nem todos conseguem manter um tom civilizado quando discordam. Ofendem, desqualificam. Muitos, sob pseudônimo e avatares impessoais, o que gera uma relação desleal. Todos precisamos aprender a dialogar, de ambos os lados. A quem não se mostra capaz, é desprezo ou block!

 

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Um Brasil sem clima para a Copa

Mauricio Barros
Maurício Barros

Por onde ando, não vejo bandeiras nos vidros nem fitinhas nas antenas. Tampouco camisas amarelas. Não me lembro de tamanha ausência de Copa nas ruas como nestes dias que antecedem ao Mundial da Rússia. São Paulo é mesmo a mais blasé das cidades, mas a esta altura esperava um pouco mais de verde-amarelo por aqui. Ela segue, entretanto, com o mesmo cinza de sempre, salpicado de um verde aqui, outro acolá.

Esperava mais porque esta Seleção tem jogado bem, erguida sob os pilares históricos que sustentam o que conhecemos como futebol brasileiro: jogadores técnicos, rápidos, que tocam no chão, driblam, buscam o gol. Tite é um cara querido, um líder que atrai simpatia mesmo com a superposição estafante que a publicidade impõe à sua imagem. O time tem jogadores e comissão técnica para fazer muito bonito na Rússia.

O futebol pode muito, mas não tudo. É impossível não relacionar esse distanciamento do torcedor à exaustão de Brasil em que todos nos encontramos. Seja qual for nossa inclinação política, estamos esgotados pelo buraco institucional em que nos metemos. Se pudéssemos, tiraríamos umas férias do país. Mas, para a maioria, isso é impossível. Então, vamos levando.

Para torcermos pela seleção brasileira, exigimos um jogo belo, que é nosso por direito adquirido. Mas o envolvimento pede também uma boa dose de sentimento de nação. E isso anda tão raro nos brasileiros quanto gasolina em posto dias atrás.

Pesa contra também a associação do time com a CBF, uma casa de mazelas, representante do que há de pior em nosso esporte e nossa sociedade. Seus principais dirigentes se sucedem em escândalos. Negociatas com patrocínio, direitos de transmissão e outras milongas desbotaram a camisa que leva o logo da entidade no lado esquerdo do peito. Torcer para essa gente? Dureza...

Alguma coisa creio que vá esquentar. Há os dois amistosos, a chegada à Rússia e a estreia, dia 17, como trunfos para aumentar a temperatura. Há o tom ufanista da imprensa festiva, que força o carro a pegar no tranco. Se o time jogar bem, vamos lembrar que é bacana torcer para o Brasil em Copa. Quem sabe não façamos um churrasco depois do jogo contra a Costa Rica, ou mesmo nas oitavas. Ou combinemos de ver juntos alguns jogos naquele bar com telão gigante. Talvez role. Não sei. Quem sabe? 

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Osmar Loss representa, antes de tudo, uma ideia

Mauricio Barros
Maurício Barros
Osmar Loss, novo técnico do Corinthians
Osmar Loss, novo técnico do Corinthians Gazeta Press

Loss, em inglês, quer dizer perda. Mas danem-se os idiomas, eles não são nada perto do futebol. É importante que loss signifique, daqui para frente, vitória. Porque Osmar Loss é o substituto escolhido pelo Corinthians para o lugar de Fábio Carille. Se o jovem treinador que acaba de assumir der continuidade ao trabalho bem feito de seu ex-chefe, ganhará não só o Timão, mas todo o futebol brasileiro. Porque, pela primeira vez em muitos anos, o sucesso será fruto de uma ideia, não de indivíduos.

Sob o ponto de vista dos treinadores, a história do futebol brasileiro é personalista. As concepções de jogo sempre vagaram de time para time, porque eram levadas pelos treinadores, e não construídas pelos clubes a partir de uma noção sólida de identidade, sendo os “professores” seus executivos.

Um dos melhores e mais recentes exemplos dessa esquizofrenia é o Internacional, que conseguiu a proeza de ter, em curto espaço de tempo, Argel Fucks, Falcão, Celso Roth, Antônio Carlos, Lisca e Guto Ferreira comandando a equipe. Concepções completamente diferentes de futebol. Deu no que deu. E você vai encontrar correspondência desse caos em todos os clubes nos últimos anos. Felizmente, o Colorado tenta agora consertar o equívoco apostando em Odair Hellmann, membro da comissão técnica permanente havia cerca de cinco anos.

Os clubes deveriam gestar treinadores como forjam craques. Categorias de base para técnico, é isso que precisam conceber. Esses treinadores devem seguir um plano de carreira, começando desde o Sub-13, quando são técnicos e, acima de tudo, educadores. Os que sonharem em subir um dia ao profissional, devem fazê-lo gradativamente.

Mas, para formar um treinador, é preciso ter uma sólida “grade curricular” montada a partir da história do clube, dos valores de seus fundadores, das virtudes de seus esquadrões vencedores e de seus craques eternos. Um clube de futebol precisa buscar uma identidade, cuja equipe profissional é sua vitrine mais bem elaborada.

O Botafogo fez isso com Jair Ventura e colheu frutos. O Atlético-MG vai fazendo o mesmo com Thiago Larghi. O Flamengo tentou Zé Ricardo, mas não sustentou. Agora, repete a tentativa com Maurício Barbieri. O Atlético-PR acredita que o seu “cara” estava fora, e mandou buscar Fernando Diniz, que agora luta para manter sua ideia apesar dos maus resultados.

Mas o melhor exemplo veio do Corinthians. Mesmo não tendo sido fruto de um planejamento propriamente dito, mas, sim, de algum acaso (o clube não o manteve na primeira oportunidade, optando por Cristóvão e Oswaldo de Oliveira), Carille subiu, se sustentou e brilhou. Ao mesmo tempo, Osmar Loss completava sua formação como membro importante da equipe profissional. O que Tite e Mano passaram para Carille, este passou para Loss. E assim deve seguir.

Como no futebol tudo é fortuito e repentino, a chance de assumir o time veio bem antes do que Osmar planejava. Mas o trem passou e ele pulou em cima, mesmo com a bagagem não completamente feita. Mas tanto Loss quanto o clube têm, a seu favor, uma ideia de jogo bem construída. E isso, dólar nenhum é capaz de tirar. 

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Osmar Loss representa, antes de tudo, uma ideia

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