Muito craque junto pode ser um pesadelo

Maurício Barros

Muito craque atrapalha, não tem jeito. Porque não cabem todos no time. Uma boa equipe se forma quando há equilíbrio entre tarefas “de base” e missões mais criativas. Osso e filé. E mesmo os jogadores mais criativos, que são os que mais aparecem e, consequentemente, os mais badalados e ricos, devem saber que é preciso estar disposto a dar uma bicadinha no osso.

Pensando nas megaestrelas do futebol, entra no rolo uma mistura explosiva de vaidade, personalidades mimadas e altamente influenciáveis, reclamações de empresários, parentes dizendo que eles são o máximo e perguntando quem é o treinador para botá-lo no banco, clubes tentando aproveitar o descontentamento para arrancá-los dali... E, claro, tem o desejo do cara de jogar sempre.

As redes sociais pioraram tudo. Muitos atletas não estão preparados para lidar com elas e desabafam ou mandam recados em posts e tuitadas. Parentes próximos fazem o mesmo. Tudo vira pauta para debates na imprensa e na padaria. Um treinador não consegue administrar tais questões apenas internamente. Viram assunto público.

Depois da derrota por 3 x 1 do PSG para o Real Madrid, as esposas entraram em campo. Isabelle, mulher de Thiago Silva, que foi preterido em prol de Kimpembe, mandou uma indireta mais que direta ao técnico Unai Emery. “Tática, tática? O que é tática? Aff...”, escreveu a moça. Jorgelina, esposa de Di María, que também não entrou no jogo, foi mais dura. “Seu esforço + seu trabalho extra + seus gols + suas assistências + seu melhor momento = banco. Mas quem não entende de futebol são as mulheres”, escreveu. Em segundos, suas declarações repercutiram no mundo todo.

 Unai Emery mexeu mal e foi um dos grandes responsáveis pela derrota do PSG, mais uma prova de que não está à altura dos investimentos e objetivos do clube francês, hoje controlado pelos milionários do Qatar. Liderar um elenco com tantas estrelas como Neymar, Cavani, Daniel Alves, Thiago Silva, Di Maria, Pastore, Mbappé, Verratti, Draxler é tarefa das mais difíceis. Você precisa ter muita história e capacidade de comando, muita qualidade técnica e carisma pessoal para fazer esse grupo funcionar coletivamente. Isso significa fazer os craques cumprirem funções e também aceitarem quando são preteridos.

Creio que há um número mágico de estrelas que se pode ter em um time de futebol. O equilíbrio com outros jogadores menos expostos às armadilhas da vaidade, cumpridores de funções, mais “operários”, é a chave para o sucesso. Há na história do futebol vários exemplos de constelações que naufragaram, tipo o Flamengo de Romário, Sávio e Edmundo e a Seleção Brasileira de Ronaldo, Ronaldinho, Adriano, Roberto Carlos e Kaká na Copa de 2006.

O PSG pode, claro, vencer o Real no jogo de volta e avançar na luta pelo título europeu, a grande obsessão dos seus donos. Mas parece certo que Emery está com os dias contados. Seja quem vier para o seu lugar (fala-se até em Tite), o melhor a fazer é escolher as estrelas com quem quer trabalhar, um número reduzido e administrável, e dispensar as demais. Pegar o dinheiro e ir atrás de figuras menos midiáticas e mais “tarefeiras”. Busquets é um exemplo de jogador gigante e que dificilmente vai criar problemas por conta de vaidade. Há vários outros.

Nisso cruzo o Atlântico e aterrisso no CT do Palmeiras. Guardadas as devidas proporções, Roger Machado tem um problema de ordem semelhante: muita gente boa, cara, badalada e com bastante mercado. Para o gol, Jaílson deixa Prass e Weverton no banco. No meio, Lucas Lima não dá espaço para Guerra e Scarpa. Há disputas de “cachorro-grande” também nas laterais e no ataque. Uma situação privilegiada que seria o sonho de qualquer técnico, mas que, se o cara não tiver cuidado, pode se virar contra ele. Roger parece muito capaz do ponto de vista técnico e também comportamental. Gosta de conhecer o jogador nos aspectos boleiros e psicológicos. Mas não pode descuidar um minuto, senão o caldo entorna. 

O VAR é um túnel escuro. Mas não há saída senão ver aonde vai dar

Maurício Barros

A CBF pode tapear que está sem grana, os clubes podem dizer o mesmo de seus cofres, neguinho pode discordar, jogar a culpa um para o outro, o escambau. Mas o VAR, o árbitro de vídeo, é uma realidade sem volta. Seja neste ano, no ano que vem, no outro... Em curto ou no máximo médio prazo, todas as partidas dos principais torneios de futebol profissional no Brasil terão os elementos da tecnologia auxiliando a arbitragem. Vai ficar cada vez mais barato, como tudo no mundo, exceto as cervejas IPA. Trata-se da maior transformação no esporte mais querido da humanidade desde que os inventores ingleses padronizaram as regras básicas, no final do século XIX. E vai doer pra caramba.

Até que se chegue a uma utilização razoável, baseada no mínimo de bom senso, e que todos os atores ­– jogadores, técnicos, árbitros, imprensa, torcida, eu e você ­– aceitem que a mudança vem para conferir um pouco mais justiça aos resultados, muito vai se errar, atrapalhar, confundir.

Entendo perfeitamente quem malha a adoção do árbitro de vídeo. O futebol só chegou onde está, imbatível em popularidade, porque extrapola o campo. Sua natureza fluída, a posse transitória, a bola conduzida sem as mãos, e por isso sempre à mercê de ser tomada, o campo grande, o número excessivo de jogadores, abre um leque inigualável de eventos possíveis naquele retângulo verde. A conexão com o sobrenatural, a predestinação, a trapaça esperta, os heróis e vilões, a cultura enfim, faz a humanidade estar ali exposta como em nenhum outro jogo.

No último domingo, depois do clássico entre Liverpool e Tottenham pela Premier League, Mauricio Pochettino, técnico dos Spurs, confessou ser um dos que torcem o nariz para o uso da tecnologia na arbitragem. Embora o Campeonato Inglês não tenha ainda adotado o VAR, ele aproveitou um cartão amarelo dado para seu meia Dele Alli por simulação para externar sua preocupação.  "Foi claro. O árbitro estava certo. O problema é que agora estamos muito sensíveis sobre essa situação. É até demais, algumas vezes. Penso que seja um problema pequeno", disse. "Estou preocupado que vamos mudar o jogo que conhecemos, como conhecemos o futebol. É um esporte criativo, no qual você necessita de talento e perspicácia", continuou o treinador.

Perspicácia, aí, podemos tranquilamente entender como esperteza, prima da malandragem, amante da trapaça. Pochettino, um dos expoentes da nova geração de treinadores mundiais, é argentino. Para nós, sul-americanos em particular, a malandragem tem componentes charmosos irresistíveis. A caminhada de Nilton Santos para fora da área após ter feito o pênalti em 1962 e a mão de Maradona em 1986 são a quintessência da trapaça heroica, genial, “do bem”, justificada. Os europeus também têm as suas, claro, mas lidam de modo diferente com a simulação, são mais críticos e menos românticos. "Estou preocupado que o esporte que tanto amamos terá uma estrutura muito rígida com o VAR. Para o jogo, punir a pessoa... Há 30 anos, nós todos parabenizávamos os jogadores quando eles enganavam os árbitros assim! Não só na Argentina, mas na Inglaterra também", comentou. “Isto é o futebol, este é o esporte pelo qual me apaixonei quando era criança", completou Pochettino.

Eu há alguns anos até escrevi que algumas sujeiras dentro do campo eram, na verdade, alecrim, tomilho, coentro, temperos que davam ao futebol seu sabor único. Não penso mais assim. Creio que o futebol tenha elementos suficientes para seguir apaixonante se auxiliarmos sua mediação por parte dos árbitros. A exposição do jogo em multicâmeras tornou desleal a avaliação do trabalho desses pobres diabos. Aquela bola do gol do Santos contra o Palmeiras, saiu ou não? Ninguém pode ter certeza. Era impossível para o bandeirinha apontar. Mesmo com alguém colado à linha, pela velocidade da bola, pela regra dizer que a circunferência tem que sair toda, seria possível a este cravar. Fez bem o juiz de seguir o jogo. Enfim, só para citar um exemplo recente...

O VAR vem aí, e repleto de incertezas. É um buraco escuro, mas a gente precisa mergulhar nele. E eu espero, sinceramente, que o futebol que esteja do outro lado seja ainda melhor.        

 

O fim da comissão técnica 'generalista'

Maurício Barros

Os sexagenários Buião e Zé são barbeiros no meu bairro, na zona oeste paulistana, já tem mais de 30 anos. Há quatro, esses irmãos tentam em vão deixar meu cabelo apresentável, aparando tufos aqui e ali, chumaços cada vez menos arruivados e mais brancos. Migrantes nordestinos, adotaram o São Paulo como time do coração. São doentes por bola e pelo tricolor paulista. Sabem todas as notícias, veem programas esportivos de TV aberta e fechada. São impagáveis seus comentários. Coisas como “esse Cueva é gordinho porque quando vai pro Peru come muita batata. Lá tem muita batata”. Futebol, geografia e gastronomia em uma frase só.

Não falo de tática com eles, nem de estatísticas e ferramentas tecnológicas, porque futebol, para Buião e Zé, tem a ver com drible, pegada, malandragem. Engraçado demais. Um jeito de ver o esporte que, creio, ainda seja majoritário no Brasil. Mas, claro, é algo datado.

Lembrei deles porque, vira e mexe nos pegamos no Bate-Bola na Veia discutindo esforço x talento, ciência x dom. Meu querido amigo João Canalha sempre nos cutuca: será que a preocupação com a disciplina tática está tolhendo o talento e deixando o futebol mais feio e chato? Entendo e compartilho de sua preocupação. Essa discussão é, para nós, brasileiros, particularmente sensível, pois somos o país do futebol bonito – digo isso historicamente, porque já há um bom tempo que grandes craques surgem nos quatro cantos do planeta, do Egito à Bélgica, do Chile à Croácia.

O que pontuo sempre é que essa oposição é, por princípio, equivocada. O futebol feio e chato se deve às dificuldades que temos para manter nossos melhores jogadores e à baixa qualidade dos treinadores, desde a base. O esforço e a ciência, quando aplicados com inteligência, só tendem a iluminar o dom e o talento. Quanto mais conhecimento houver, maior a possibilidade de se aproveitar as qualidades individuais e tornar o jogo mais eficiente e bonito. A evolução do esporte nos aspectos estratégicos e físicos tornou-o muito mais disputado, complexo e difícil. Confiar apenas no talento é abrir um atalho para a derrota.

Outro dia analisávamos com o Data ESPN uma imagem de linha de impedimento mal ensaiada. Bastou um zagueiro não sair na hora certa e lá estava o atacante em condição legal para receber a bola. Fico pensando se o próximo passo nas comissões técnicas é a especialização radical dos assistentes por funções, terços do campo, fases distintas. No futebol americano, por exemplo, há treinadores de defesa e estrategistas de ataque. Não vi isso tão compartimentado ainda por aqui.

São esportes bem diferentes, claro, no soccer a posse se alterna a todo instante, modo ataque e modo defesa se sucedem a intervalos curtíssimos de tempo. Mas creio que o futebol chegou a um nível competitivo tamanho que já pede uma especialização ainda maior nas comissões técnicas.

Se há tempos existem os treinadores de goleiros, onde estão os treinadores de defesa, de meio-campo, de ataque?  Alguém que foque em um setor ou função. Na defesa, por exemplo, um treinador bem formado que esmiúce as tarefas, disseque os fundamentos, os números, estude os melhores “ferrolhos” da história, crie novos treinamentos para quando a bola estiver perto de sua área, ajude a selecionar os garotos nas peneiras. E que, claro, seja capaz de conectar os movimentos dos zagueiros (e volantes) com os outros setores do time, armação e ataque. Porque, mais do que defesa, hoje precisamos falar de sistema defensivo, e isso inclui até mesmo o centroavante.

Mas coisas como linha de impedimento, posicionamento em escanteios e faltas, bote e sobra, por exemplo, são questões que afetam mais diretamente a primeira linha. Cabe reservar um tempo na agenda de treinamentos para separar a turma e treinar especificamente tais quesitos. O mesmo serve para meio-campo e ataque. Mas não comente isso com o Buião nem com o Zé que é capaz de eles darem um talho na sua orelha.            

E Raí tendo que lidar com sujeitos como Cueva?

Maurício Barros

Conversei longamente com Raí em meados do ano passado. Trocamos ideias sobre reputação, credibilidade, ética, essas coisas que andam tão na moda hoje quanto a pochete, a kaiser bock e a lambada. Falamos bastante sobre seus interesses diversos, da Fundação Gol de Letra ao cinema em Pinheiros, dos estudos em Londres ao perfil das empresas que o procuram para campanhas publicitárias. Estava junto seu sócio de longa data, Paulo Velasco. Àquela altura, Raí já fazia parte da equipe do presidente Leco no São Paulo, como membro do Conselho de Administração. Mas, em nosso papo, ele não dava pinta de que entraria ainda mais a fundo na gestão do clube, como viria a fazer em dezembro no cargo de diretor de futebol.

Fico imaginando como deve ser difícil para Raí lidar com indivíduos como o peruano Cueva, que, já não bastasse o atraso de uma semana em sua reapresentação para a temporada 2018, pediu agora para não viajar com o clube para Mirassol, onde o São Paulo busca sua primeira vitória no Campeonato Paulista. Ele tem propostas para sair, entre elas a do Al-Ahli, dos Emirados Árabes Unidos, mas o São Paulo tem dito que não quer negociá-lo neste momento.

Via site oficial do clube, Raí fez um comunicado com teor inadmissível para alguém que, como ele, pautou sua carreira pelo profissionalismo inquestionável. Dá pra sentir o sangue fervendo em cada palavra. “O Cueva nos pediu para não participar do jogo e nós avaliamos que ele não está plenamente comprometido com a agenda do clube neste momento. Assim, decidimos não levá-lo com a delegação para Mirassol. Nós lamentamos essa situação e estamos trabalhando para tê-lo apto física e mentalmente e à disposição para voltar a contribuir com o São Paulo o mais rápido possível. O São Paulo não abre mão do jogador neste momento”.

Para um profissional de qualquer área, ver-se exposto dessa maneira pelo chefe deveria ser uma enorme humilhação. Ser acusado de não estar comprometido com a agenda do clube faria qualquer um repensar seus modos. Mas não sei se Cueva se tocará disso. Duvido. Como declarou Orlando Lavalle, treinador do peruano na base do Universidad San Martín, em recente reportagem do Uol, ele sempre, desde garoto, foi muito mimado. E pela postura de Leco, para quem não adianta querer manter jogador insatisfeito e o melhor é negociar (vide Lucas Pratto), suspeito que o peruano, principal homem de criação do São Paulo após a saída de Hernanes, não vestirá mais a camisa tricolor.

Gerir jogadores de futebol é um inferno. Em geral, salvo exceções, são mal formados culturalmente, têm repertório estreito, sofrem uma influência enorme de familiares e empresários. E, no caso dos melhores, e Cueva está entre eles, são muito ricos, o que complica ainda mais, pois não toleram ser contrariados e ameaçam sair. Raí foi o oposto disso tudo. Imagine o que não lhe dói no fígado, mesmo ganhando bem para tanto, ter que lidar com um sujeito de postura tão abjeta como Christian Cueva.

Carta de amor aos canhotos

Maurício Barros, blogueiro do ESPN.com.br

Quando o Palmeiras reúne dois dos melhores canhotos do futebol brasileiro, Lucas Lima e Gustavo Scarpa, me lembrei deste texto que publiquei em minha coluna na revista VIP, em junho do ano passado. Lá vai:

Assimetria hemisférica é o nome científico para as diferenças entre os lados do nosso corpo. Tenho uma das pernas milímetros mais curta que a outra e acredito que esteja aí a causa da minha lombalgia, hoje controlada pelo legado de Joseph Hubertus Pilates. Ao menos esse bug me rende um gingado de mestre-sala esloveno. Assimetria hemisférica também contempla o fato de sermos destros ou canhotos. E faz pouco mais de três meses que pesquisadores da Ruhr-Universität Bochum, na Alemanha de Pilates, jogaram água no chope de quem creditava ao cérebro a responsabilidade por nascermos Pelés ou Maradonas nos pés, Borgs ou McEnroes nas mãos.

Dizem os germânicos que a causa está determinada desde muito cedo. O estudo defende que na 13a semana de gestação os fetos já fazem movimentos preferencialmente com um dos lados do corpo. E o uso prioritário de uma das mãos já se nota na oitava semana. Nesse período, ainda não foi completada a ligação do córtex motor com a medula espinhal. Portanto, segundo o estudo, é na medula que acontece a preferência por direita ou esquerda – e aqui, por favor, não falo de política, embora nessa seara há muito eu me encontre em posição fetal.

Daí caímos como um tijolo em Messi e Cristiano Ronaldo. O FutLAB, grupo que fundei com amigos feras em estatísticas para analisar o futebol sob o prisma exclusivo dos números, publicou recentemente no site da ESPN uma comparação entre os dois mais Neymar. O brasileiro ficou bem atrás. Messi venceu CR7 pelas características relacionadas à maior participação no jogo. Os números se restringiram às quatro temporadas em que os três atuaram juntos na Espanha.

Confesso que minha preferência por Messi já existia muito antes de ver os números. E mesmo que o argentino perdesse, eu mandaria às favas minhas próprias convicções estatísticas. Tudo porque o pequeno Lionel, na barriga da mamãe Celia Cuccittini, já usava a canhota. E eu amo os canhotos. Sua biomecânica é diferente, improvável, estilosa. Minha medula me fez destro, mas desde pequeno não me conformei. Treinei a esquerda à exaustão, a ponto de poder bater tranquilamente um escanteio com esta perna que não é a minha boa. Mas meu movimento sempre será forçado, robótico, porque na barriga da minha mãe eu mexia a destra. Frustrante.

O Capiroto, o Indivíduo, o Sujo, o Cramulhão, o Das Trevas… Guimarães Rosa nos deixou dezenas de nomes para o Demônio. Até nisso eu renego o legado da minha assimetria hemisférica. Prefiro, de longe, “o Canhoto”.

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