O triunfo do esquema tático que é uma brincadeira de criança

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro
Foi a vitória de uma brincadeira de criança. Podem traduzir o esquema da Espanha como quiserem, quantas equações de números for possível. São verdadeiros. Mas a grande verdade é que a Fúria leva para campo uma velha e conhecida brincadeira de criança, muito usada também pelos adultos no aquecimento das partidas: o esquema espanhol é a velha e conhecida “Roda de Bobo”. Como naquelas brincadeiras mais debochadas, onde o cara toca a bola e ainda grita “comigo não tá!”.

Não tem nada de querer ter uma visão lúdica das coisas ou algo assim. É que o princípio é esse mesmo. Muito simples. E a vitória espanhola diante de Portugal evita um enorme retrocesso do futebol. Algo como o fatídico 1982 foi para o futebol, quando a derrota canarinha fez soar trombetas da mediocridade e dos brucutus. Na Espanha o debate já estava em curso. O tal jogo lúdico e bonito, de toques envolventes e supremacia no toque de bola começava a ser questionado na terras do rei. Em caso de derrota, veríamos provavelmente a destruição disso tudo. Até mesmo as conquistas do Barcelona, baseadas e construídas sob os mesmos pilares, estariam em risco. Xavi, senhor jogador, já ia sendo chamado de amarelão. Acima de tudo, a vitória espanhola foi um bem para o futebol.

Não aceito e abomino julgamentos apenas em cima de resultados, um pragmatismo que desconhece coisas que fazem o jogo e a vida. O insondável, as fraquezas e fortalezas da mente, um erro de arbitragem...No caso da Espanha, discordaria totalmente de qualquer julgamento de fracasso em cima da reprovação do sistema de jogo espanhol ou das características do time, seu modo de jogar. Os problemas da Espanha nada tem a ver com esse modo de jogar e esquemas. Os problemas tem muito mais a ver com o psicológico do time. Falta ainda romper a barreira entre a brincadeira de criança da “Roda de Bobo” e da disputa de uma Copa do Mundo. Com o devido equilíbrio de poder ganhar em Copa do Mundo sem abandonar o estilo da “Roda de Bobo”. Mas os problemas tem muito mais a ver com eventual falta de poder de decisão, de chamar a responsabilidade no último toque, na hora de acabar com a brincadeira de criança da “Roda de Bobo” e explodir em gol, virar adulto. No próprio esquema não se vê marcadamente a figura do centroavante rompedor, matador, de um toureiro para ficar num exemplo apropriado. Mesmo os homens de frente são entusiastas da brincadeira.

Mostrar que a brincadeira pode virar coisa séria é algo parecido como aqueles meninos nerds da Califórnia fizeram com suas invenções tecnológicas, transformando-as em renda. E é esse o dilema e o desafio espanhol na Copa. Em nome do futebol.


O MATADOR:
Depois da partida horrorosa entre Paraguai e Japão, e a pobreza guarani em campo e a falta de atacantes matadores, não dá mais pra entender porque Martino não usa o maior matador paraguaio na Copa: Fernando Lugo, o presidente-artilheiro para centroavante já! O terror das Virgens de Ypacaraí com a nove, já!

Falei no último texto aqui no blog que tinha certeza de que estamos diante da história, e que os erros do Alemanha x Inglaterra mudarão a teimosia da FIFA com a tecnologia. Sigo com absoluta certeza disso. Não dá mais pra segurar. Foi muito chocante ver os mesmos competidores de 1966, um erro de mesma ordem, sendo julgados com os mesmos recursos de 44 anos atrás. É esperar para ver.
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O que e quem está por trás de Ronaldo, o moralizador

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro, blogueiro dos canais ESPN

Até dona Sônia deve ter estranhado ao ver o filho Ronaldo acometido por uma súbita fúria moralizadora. Assim que Marin virou hóspede do estado suíço e Del Nero passou a ser bola da vez, mobilizando bolões e a bolsa de aposta londrina cravando quando tomba, (quem não quer perder seus caraminguás não dá mais de 20 dias), desandou a pedir ética, moral e a renúncia daqueles que eram seus pares até ontem.

Dizem as línguas mais perspicazes que foi Seu Nélio que acalmou a ex-mulher. "Fica fria, Sônia, ele não tá de bobeira. O moleque é sagacidade, já tá ligado na situação e tá no fechamento. E tá formado com o Frente do bonde", soprou, no linguajar típico de um bom malandro de Bento Ribeiro.
Em sendo verdade o diálogo, é Seu Nélio que tá certo.

Ronaldo não foi acometido pela tal fúria moralizadora e nem pediu a renúncia de Del Nero em almoço grátis.

A partir desta linha não é mais ficção, embora os personagens pareçam sair daquela fita do Coppola, com Marlon Brando e Al Pacino.

A história está se desenhando assim, embora alguns personagens envolvidos possam dizer que não, etc. Mas, papo reto, a parada é essa: um homem vislumbra tomar a boca do futebol de novo. Seu nome: Ricardo Teixeira. Como tá cheio de artigo nas costas e nem se pode afirmar de que lado das grades vai poder comandar essa articulação, escalou o Nazário de bucha, o que explica o novo discurso fenomenal. Somado aos dois e a Marco Antônio Teixeira, uma das mais sinistras figuras do futebol brasileiro nos últimos anos, onipresente caixa preta: o Maquiavel do Leblon, que vai costurando as adesões e articulações, e sonha ainda com uma adesão maior, que iria dar legitimidade total a tomada do ponto: Romário. Do alto de seus seis milhões de votos, da credibilidade que seu pau pereira verbal ganhou nos últimos tempos, o Baixinho legitimaria e daria tom de nova ordem a uma velha e desgastada turma. Metido a negociador, com seu charme de canastrão de filme de quinta que costuma seduzir jornalistas e afins, o Maquiavel está certo de que junta judeus e palestinos na figura de Romário e Ronaldo de frente e com o Capo di tutti capi mandando na sombra. Diz a gente má que andava até meio deprimido o Maquiavel no ostracismo em que passou a viver, o telefone sem tocar... O cheiro de poder novamente tem deixado a famosa cabeleira ouriçada! O Capo andava por Mônaco mas já meteu o pé e tá por aqui. Além de articular in loco, sempre com o Maquiavel na sombra, nesses dias não convém muito dar mole por aí em terra estranha, onde aquele habeas corpus amigo não está sempre à mão como aqui... (Del Nero que o diga, com sua fuga rapidinha de quem tá devendo e cruzou aquela alfândega suíça em passos mais nervosos do que quem bate pênalti em final de Copa do Mundo. Diz também o povo que quando a luz verde acendeu no balcão e ele pode dar dois passos à frente foi o alívio do mundo. E quando o pássaro de ferro ganhou o céu suíço, repetiu o gesto imortalizado por Reginaldo Farias em Vale Tudo, mandando banana pra impecável guarda suíça, e, diz alguém mais maldoso, até pro Marin!).

E como seria essa volta do Capo, o próximo passo? Com a evidente fragilidade de Del Nero e CBF no momento, tirariam do bolso uma ideia com cheiro de nova, progressista e a mais moralizadora possível: a enfim criação de uma Liga para comandar o futebol brasileiro. Genial! Teoricamente, quem seria contra? Ronaldo e Romário na frente, o que sempre se sonhou, os atletas no poder. Uma Liga, diminuindo o poder da combalida CBF, que enfim ficaria só com a seleção. E por trás, rindo de todos nós, ele, o já citado Coisa Ruim, o Capo di tutti capi. Com o Maquiavel do Leblon fazendo o que de melhor sabe fazer: abanando o Capo, articulando, chamando todo mundo de "irmão". E os bobinhos da imprensa convencidos de que o sujeito é realmente amigo e faz muito por nós. E ele por trás pedindo cabeça de jornalista. E ganhando, como de hábito. Ou seja, tudo como dantes no quartel de Abrantes. No velho mandamento do governador mineiro, "façamos a revolução antes que o povo a faça", o povo aqui quem sabe cooptados pela discurso de modernidade do neo moralista Fenômeno. Sem saber quem está na retaguarda.

E assim, os milhões em jogo dão uma voltinha mas no fundo ficam nas mesmas mãos de sempre. Convém aos "Atividades" e "Fogueteiros" do movimento, no caso nós, soltarem logo a morteirada e avisar pra todo mundo se ligar. O jogo tá pesado do outro lado pra que se percam alguns anéis mas não se percam dedos. E a possibilidade de uma profunda revolução no futebol do 7 x 1, que nunca foi tão possível, vire só uma brisa de verão com ares de ventania, mas só uma brisa.

Nem mesmo minha metáfora aqui usando a figura da bandidagem e das quadrilhas é nova. Em 9/3/2012, publiquei um texto aqui usando as mesmas metáforas da troca de quadrilha de mentirinha. Tinha caído esse mesmo Capo que agora quer voltar nas sombras e eu fiz um breve histórico da bandidagem de São Sebastião para exemplificar como funciona. Relendo agora, tocaram até algumas trombetas da vaidade, por tão atual, palavra por palavra.

Sobre Del Nero, publiquei matéria aqui anteontem.

http://espn.uol.com.br/noticia/213459_revista-espn-amistoso-da-selecao-tem-na-origem-empresa-da-qual-teixeira-seria-socio-oculto-entenda-o-caso

 

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Prisão de Marin é a chance de recomeçar tudo de novo no futebol brasileiro

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro, especial para o ESPN.com.br*
Bruno Domingos/Mowa Press
Jose Maria Marin foi preso na Suíça
Jose Maria Marin foi preso na Suíça

Foram necessários 83 anos de vida para finalmente conhecer a lei. Em um país estranho, quando mais do que nunca se achava acima do bem e do mal, acima dos homens, acima da justiça. Inimputável. Por trás, milhões de dólares ganhos por caminhos tortos. E um rastro de dor, sombra e morte. 

Parece atual? Parece óbvio? De quem estamos falando? Estamos falando de José Maria Marin, é claro. Mas poderia ser perfeitamente Augusto Pinochet. Os mesmos 83 anos ao ser preso. Também em terra estrangeira. A mesma certeza da impunidade, a mesma certeza de estar acima de qualquer coisa. Os mesmos milhões de dólares subtraídos na calada da noite. Certamente não é o mesmo rastro de dor, sombra e morte. Mas deixo para outro a tarefa de quantificar a canalhice e a vilania. Tortura é tortura, barbaridade é barbaridade, seja com um ou um milhão. Seja mandando alguém para a morte no Estádio Nacional do Chile ou nas masmorras da rua Tutóia .

Viverei cem anos e não vou esquecer daquele canto do estádio no pé dos alpes. Os gritos lancinantes de dor ainda parecem ecoar. A escuridão permanece ali como marca indelével daqueles anos de chumbo. Não é diferente quando se anda pela ESMA argentina, ali, a 700 metros de onde se jogava uma final de Copa do Mundo em 78 e gente morria. Os lugares de memória são assim. Fundamentais, pedras da democracia, mas com vozes pertubadoras que o tempo não leva. Se mais cem tiver, também não terei como esquecer da visita no DOI-CODI da Tutóia. Herzog estava ali, tantos anos depois. Foi Marin que o mandou para lá. Sabia o que estava fazendo naquele 9 de outubro de 1975 quando subiu na tribuna e apontou o dedo para os "comunistas da TV Cultura". Naqueles dias era como decretar a morte de alguém. O deputado da Arena, ex-membro do PRP de Plínio Salgado como lembra Mestre Luis Claudio Cunha, deve ter vibrado com o resultado de sua alcaguetagem. Dedo-duro, uma das mais abomináveis faces de um homem. Nenhum pai cria um filho para ele ser um delator. Duas semanas depois, Herzog estava morto numa cela. Marin nunca demonstrou qualquer traço de arrependimento. Não devia mesmo. Tinha convicção no que estava fazendo. E ainda tem.

A mesma convicção que tem quando pensa futebol. Porque ninguém tenha dúvida. A aberração e o caos que vivemos, sintetizados num 7 x 1 que será eterna ferida em nossa alma, esse desgoverno que vai tornando o futebol nossa paixão de toda vida em espaço onde somos incapazes, tudo isso é para ser assim mesmo na cabeça dessa escumalha. De Marin, Del Nero, Teixeira. Ou alguém imagina que estão muito aborrecidos com a tragédia que viraram nossos jogos, nossas competições? Ou alguém acha que se incomodam com tanto passe errado, com tanta bola parada, com tanta falta? Não tem tempo para isso. Estão contando dinheiro. Dinheiro roubado. Querem que se dane o futebol.

E vocês vão pagar e é dobrado mesmo. Marin, Teixeira, Del Nero. Um preso aos 83 anos. Como se explica a um neto que "vovô foi preso porque é ladrão"? O outro vivendo nas sombras. Foi tanto dinheiro e eis que já não serve para nada. Vale a pena se não pode dar um passo na rua? Nem mesmo em Boca Raton. E o terceiro saindo corrido da Suíça, tal qual um trânsfuga. Vivendo de sobressalto. Na idade em que se vive de leveza.

Mas, como disse o poeta, "apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia"... A história não tem pressa...Nesta Porto Alegre que me acolhe neste domingo, tenho certeza de que esta mesma história reserva o lixo para Pedro Seelig. E que um dia Jair Krischke, brasileiro maior, homem de ação que salvou tantos em silêncio, ainda estará nos compêndios escolares.

Hora de começar tudo de novo por aqui. Sem essa turma. Botar a bola no chão novamente, povo na arquibancada e não nos camarotes que esses nos empurraram goela abaixo e que agora vamos entendendo onde foi parar essa montanha toda de dinheiro.

Se até aqui só teve agenda para contar dinheiro, agora Marin vai ter muito tempo para refletir enquanto olha pro teto da cela. Sobre essa existência medíocre de alcagueta, sobre a estupidez que é alguém de 83 anos querendo amealhar milhões. Sobre o que fizeram com nosso jogo. Que seja o primeiro de muitos. E que, como castigo, tenham que assistir um jogo do atual campeonato brasileiro no domingo.

*PUBLICADO NO JORNAL ZERO HORA DE DOMINGO, 31/05/2015

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Logo agora, Maestro Galeano?

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro, especial para o ESPN.com.br
Getty
Eduardo Galeano morreu aos 74 anos nesta segunda-feira
Eduardo Galeano morreu aos 74 anos 

É uma lembrança muito vaga. Na verdade, nem sei se lembrança mesmo ou construção de memória pelo relato dos outros, que é na verdade como são nossas recordações mais primárias. Nessa zona cinza entre o que é de fato o que vivi e o que me contam que vivi, a primeira lembrança de Eduardo Galeano é lá pelos meus 3,4 anos. Uma resenha boemia como eram as resenhas na casa dos meus pais. E eu maravilhado sempre com aquele povo. Naquele dia mais ainda porque alguns ali falavam algo parecido com o que eu entendia mas não era exatamente o que eu falava. Eduardo Galeano e meu pai eram bons amigos e o uruguaio, apaixonado pelo Rio, em uma de suas centenas de vindas, levou até nossa casa seu amigo, jornalista e escritor dos grandes, Luis Martirena. Eram anos duros, as paredes tinham ouvido e um coronel no terceiro andar tinha sido incumbido de ver quem entrava e saia lá de casa. A inocência de criança me fazia passar e provocar quando ele se achava escondido olhando pela fresta da janela. Pra desespero dos meus pais, eu mandava tchau e ria! Gente sumia, morria, mas a boa resenha entrou noite adentro, com boa música, boas risadas, as discussões quentes e aquela velha vontade de salvar o mundo, além do papo de futebol e obviamente de política. Tudo isso fazia lembrar que a vida valia a pena, apesar de tudo.

Obviamente eu não tinha a menor ideia de quem era aquele sujeito de fala engraçada. Aquele monstro sagrado. E pode ser que seja apenas mais uma construção da memória com o passar dos anos, pelos relatos. Mas tenho tanta clareza ao lembrar da tristeza e do choque dos meus pais com a notícia que chegou poucos dias depois daquele encontro que ouso achar que é memória pura, como se isso existisse. Luis Martirena tinha sido brutalmente assassinado pela feroz repressão da ditadura uruguaia. Sua mulher, Ivette, que estava naquele dia, teve um tiro disparado dentro de sua boca e a cabeça estourada. Porque tinham convicções e eram contra a ditadura.

Hoje, ao sentar aqui pra falar de Galeano, foi minha primeira lembrança. Corro pra ver a data da morte dos Martirenas, depois de lembrar que estiveram poucos dias antes lá em casa. A coincidência me impressiona aqui e agora: 14 de abril de 1972. Olho pra ver o dia de hoje: 14 de abril. E constato ainda que Galeano se foi num dia 13 de abril, pertinho do seu amigo Martirena, com quem agora bota o papo em dia. Lá em cima, ainda que me lembre do que me falou numa tarde fria, muito fria, no Café Brasileiro, onde ia sempre, na sua Montevidéu: "deixei de acreditar em Deus por causa desse frio". Custo a acreditar. Todas essas lembranças vindas num 14 de abril, e Galeano se indo num 13 de abril.

E que hora pra ir, Maestro. Suas ideias e sua força vão fazer tanta falta agora. Não faz frio mas faz escuro lá fora. Fico imaginando o que Galeano andava pensando ao saber que por aqui, que ele tanto amava, tem gente abraçando assassino torturador. Da mesma laia dos que mataram Martirena e sua mulher. Da mesma laia dos nazistas que faziam exatamente a mesma coisa. Ou será que não ocorre a essa gente que anda pedindo a volta de ditadura e abraçando torturador que é a mesma coisa que abraçar um carrasco nazista? Não, não vou entrar aqui no mérito de manifestações, do contexto. É legítimo claro protestar. Mas que cada um tenha a clareza sobre a trincheira em que está. Ombrear-se com alguém similar a carrasco nazista é deplorável demais. E mais impressionante ainda é a complacência de nossa grande imprensa, que, ávida em fazer sua narrativa como a convém, prefere botar o ovo da serpente pra baixo do tapete e transformar em pé de página o fato ao qual devia apontar a luz, mostrar, repelir. Se existe alguém na rua defendendo o que um carrasco nazista defendia, como isso não para um jornal do horário nobre? Não vai pra capa do matutino? O nome disso é cumplicidade. E quando penso em Gianfrancesco Guarnieri, Ruth Escobar, Bete Mendes e tantos outros, e vejo agora Malvino Salvador, Márcio Garcia, Marcelo Serrado e Cristine Fernandes...

Nesses tempos de intolerância, não custa repetir que manifestações são legítimas e certamente a maior parte não deve concordar com isso. Mas fico com Mário Magalhães (sempre vale estar na trincheira dele). Quem marchou ali aceitou estar lado a lado com torturadores e gente pedindo a volta deles. (Ver: "Quem permite um símbolo de tortura e extermínio ao lado aceita a barbárie", blog Mário Magalhães).

E nessa hora que Galeano é tão necessário, logo agora... Copio aqui palavra por palavra do que me falou para o episódio Uruguai de "Memórias do Chumbo - O Futebol nos Tempos do Condor":

Veja, a partir de 2min55, Galeano falando no episódio Uruguai de 'Memórias do Chumbo'

"Se você não aprende com o que aconteceu, está condenado a repetir. E aí então o problema do medo. O poder militar daqueles anos conseguiu impor uma cultura do medo...Quer dizer, a impunidade estimula o delinquente, seja um delinquente militar, civil, seja individual, seja coletivo, a impunidade é o motor maior para a repetição dos crimes ".

Foi essa herança familiar que me deu a boa aventurança de ter o privilégio de poder estar por vezes com esse sujeito que escreveu algo tão incrível como "As Veias Abertas da América Latina" com trinta e poucos anos. Era sempre afável. Abusei disso muitas vezes, depois já jornalista mais ainda. Tinha um trunfo além do conhecimento paterno: o futebol. Ninguém gostava mais da resenha de futebol do que Galeano. Ainda no Globo, em 2002, interrompi um período daqueles em que ele parava tudo pra escrever seus novos livros. "Só vou quebrar isso porque é pra falar de futebol". Foi uma página inteira. Brincava sempre comigo que depois daquilo a imprensa brasileira aprendeu que ele não resistia e baixava a guarda se o argumento pra entrevista era ser futebol. E toda hora então passaram a procurar ele porque sabiam que era o calcanhar de Aquiles.

Foi pra falar de futebol e com esse argumento que eu e o imenso repórter Victorino Chermont juntamos Galeano e Reinaldo, o Rei, no Maracanã em um "Encontros Para a História", no Sportv ainda. Era incrível aquilo: Galeano estava feito criança diante do Rei, ouvindo atento suas histórias da bola. E não queria acabar o papo, que tinha ainda o também imenso Marcos Uchoa e o mais brasileiro dos argentinos, Manolo Epelbaum.

Chegava a Montevidéu e não marcava. Bastava ir ao centenário Café Brasileiro e começar a resenha. Uma outra vez, conversávamos sobre o ódio que alguns do andar de cima tinham quando preto e favelado se dava bem. Falamos de Adriano. Não resisti. "Me escreve sobre isso". Publiquei aqui.

Falamos muito sobre outra paixão em comum, o povo saharaui e sua luta, uma das mais belas resistências da história da humanidade, tão bela quanto desconhecida, tão bela quanto inglória, e talvez por isso tão gloriosa. Quando fiz "Memórias do Chumbo", corri ao Maestro. Suas palavras valem o capítulo Uruguai.

Depois estivemos juntos em sua última vinda ao Brasil. Num daqueles momentos maiores do que a gente mesmo, fizemos uma palestra juntos na Bienal do Livro de Brasília. Tinha ainda o já citado Mário Magalhães, que conta essa história melhor. Já estava mais fraco, debilitado e um pouco impaciente. Mas capaz de hipnotizar o povo que lotou e não arredou pé por um bom tempo. Deu tempo ainda de uma última resenha em Montevidéu, quando levei uma camisa de manga comprida do meu time pra ele. Que pra minha surpresa se botou a recordar os maiores jogadores de todos os tempos que tinham vestido aquela camisa.

Que mistério profundo. Se foi num 13 de abril. Véspera do aniversário da morte do seu amigo Luis Martirena. O que me levou a pensar nisso tudo exatamente num 14 de abril. Seja lá o que for, vai fazer falta. Um homem que amava futebol mas era capaz de ir contra o objetivo do jogo quando pensava na vida. "Não vale a pena viver para ganhar, vale a pena viver para seguir tua consciência". 

'Bate-Bola' homenageia o escritor uruguaio Eduardo Galeano
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A mentira esfregada na cara do prefeito do Rio

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro, blogueiro do ESPN.com.br
Getty
Campo de golfe do Rio-16 ficará pronto no prazo, disse projetista
Local onde estará o campo de golfe para a Olimpíada de 2016

Tento puxar pela memória. Aperto os olhos, vou recuando no tempo. Mas nem que ficasse mais dois anos nesse exercício de franzir a testa e contrair as pálpebras, ação comum quando se tenta salvar alguma recordação perdida, conseguiria resultado satisfatório.

Por mais força que faça, não me lembro de um desmentido tão categórico, na lata, sem qualquer esboço de resposta, como o que Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), esfregou na lata do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Nem a funda de um black block seria tão devastadora. Explodiu na testa de Paes.

Depois de anos na trincheira para construir o campo de golfe olímpico que invade uma reserva ambiental, o alcaide carioca tenta se descolar da paternidade do monstro, da aberração, do desaforo com a cidade e com o cidadão carioca. Mais do que isso: com qualquer um, de qualquer lugar, capaz de se indignar com as coisas feitas ao arrepio da lei e da ética.

Com o jogo virando, a sociedade começando a chiar e o Ministério Público em cima, Paes tentou sair de fininho.

"Eu odeio ter de ter feito este campo de golfe. Por mim, não teria feito este campo de golfe nunca."

Era melhor ter ficado quieto. Só o poder mesmo é capaz de algo assim, de permitir que alguém fale algo e ache que em volta todo mundo acredita.

Gazeta Press
Eduardo Paes. prefeito do Rio de Janeiro
Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro

O poder, esse bálsamo que não pode cair na mão de qualquer despreparado, pois cega e faz o sujeito achar que todo mundo é bobo. No dizer do escritor colombiano Alonso Salazar, sabedor do que fala por ter sido prefeito de Medellín, capaz de distorcer tanto o que está a sua volta, seja prefeito ou no mundo corporativo, como já vimos tantas vezes: "quando se tem tanto poder e a capacidade de decidir sobre tantas coisas e tantas vidas, a relação com a realidade se perde. O poderoso cria seu próprio mundo, uma espécie de realidade virtual, da qual não há jeito que ele volte."

Pois só mesmo a privação de sentidos de estar cercado de puxa-sacos que só aplaudem poderia fazer o sujeito achar que todo mundo esqueceria tudo o que tinha sido feito e dito até ali.

E foi o próprio presidente do COI quem botou as coisas no devido lugar.

"Fiquei surpreso com as declarações do prefeito, porque, como todos sabem, o prefeito pressionou muito pela construção desse campo. Tenho certeza que ele pensou muito antes da decisão de construí-lo."

E mais não falou Eduardo Paes, diante da humilhação de um dos maiores "Pega Na Mentira" dos últimos anos.

Não vou entrar aqui nos pormenores da aberração que é todo o processo da construção do campo de golfe olímpico no Rio. A espetacular reportagem de Anne Vigna, no site da Agência Pública, que presta serviço incomensurável ao jornalismo, é mais do que suficiente para que se entenda a história. Basta ir lá no site da "Agência Pública", agência de reportagem e jornalismo investigativo.

Estamos diante de uma aberração que não pode passar. Já basta carregarmos todos nós, em nossos armários, o cadáver do Maracanã, destruído pelos mais escusos interesses e proxenetado a gosto de Sérgio Cabral Filho. Quis o destino que aquilo a que sempre me referi como "A Maldição do Maracanã", para seus destruidores, esteja cada dia mais viva, um Montezuma a atormentar Cabral, Pezão e Regis Fichtner, agora mais encalacrados do que condenados no corredor da morte. O 'Prefeito Pinóquio' da vez tenta se livrar da maldição, mas já não é possível. O cadáver de lutar pela destruição de uma reserva ambiental e entregar para a especulação imobiliária é todo dele.

Se alguém tem dúvida da mudança de tom escrachada pelo presidente do COI, vá na rede de vídeos por demanda do seu pacote de TV por assinatura. Está lá, em um "SporTV Repórter" de dois anos atrás, sobre 2016, o 'Prefeito Pinóquio' @eduardopaes_ se vangloriando da solução que entregou um pedaço do paraíso para os "amigos do Rei" e desdenhando do que era reserva ambiental. Facilito o trabalho do leitor aqui se quiser e dou o tempo da fala para que vá direto e se poupe de assistir a um desfile de louvações olímpicas. Diz o 'Prefeito Pinóquio' com 39.24 minutos: "Encontramos solução privada. Numa área, aí é muito verdade, constantemente degradada, ali era uma cimenteira."

Então por que diabos agora que MP e opinião pública estão em cima, "odeia ter feito este campo de golfe"? Odeia ter "encontrado a solução privada" que antes exaltava? Odeia acabar com uma cimenteira?

O que há de errado com a imprensa?

Minha questão aqui não é dar os detalhes da monstruosidade que está se cometendo no Rio em nome de tal projeto olímpico (e logo agora que já sabemos de cor e salteado o quanto é balela que grandes eventos ajudam na economia, não é mesmo? Ao menos espera-se que nenhum cretino volte a repetir isso). Minha questão é a parte que me cabe nesse latifúndio: tentar olhar para a própria retaguarda. Simples: o que foi feito na imprensa depois que o gringo do COI lavou e esfregou a cara do prefeitinho na parede de chapisco?

O que há de errado com a imprensa que não parou as máquinas para ir muito fundo no desmentido impressionante de Thomas Bach? O que é que há com nós dois, amor, diria aquela canção? Diria eu pra minha profissão. O que que há com nós dois, o que que há contigo que o mundo não parou para ver o que está por trás dessa monstruosidade do campo de golfe construído à sorrelfa. À socapa. Na nossa cara. Tão vergonhoso que agora o @eduardopaes_ tenta sair de fininho e limpar as digitais. Não dá mais. Tarde demais.

Por mais que estejamos vivendo um tempo triste demais. De imprensa de cócoras, exercendo cada vez menos seu dever de fiscalizar o poder. Quando penso em tanta gente da geração acima da minha na profissão, que pagou no pau de arara para que pudéssemos escrever hoje e vejo, apesar das coisas boas aqui e acolá, tanta coisa sucumbindo na força da grana, só me ocorre pedir desculpas para essa turma.

E isso é muito sério. Porque, queiram o não, o país é outro quando se pensa principalmente naquele Brasil do pau de arara acima referido (que alguns sem o mínimo de massa cinzenta que nem merecem dois toques de máquina querem de volta exatamente por não possuirem nem dois neurônios).

Um Brasil onde as coisas, ainda que com seus problemas, não estão indo mais direto pra gaveta de engavetadores e a turma do andar de cima, embora bem menos que a raia miúda, pode ir pro xilindró. Mas que ainda distorce vergonhosamente as coisas nas suas páginas, que não publica e não vai atrás de uma verdade esfregada na cara de um prefeito.

Para que se entenda didaticamente a diferença de quando a imprensa cumpre seu papel fiscalizador e quando, a via de regra, se finge de morta por algum estalar de dedo do andar de cima, basta lembrarmos de casos exemplares na própria cidade do Rio. O ponto xis de tudo é a fiscalização do orçamento, o olho atento nas LDOs (Leis de Diretrizes Orçamentárias). Se algo está sendo feito, algum projeto está sendo tocado, e o orçamento se camufla, a LDO atrasa sistematicamente, é o papel da imprensa, da sociedade gritar, e não falamos aqui de gritaria seletiva.

Na prática, é lembrar do caso do Museu Guggenheim. Imprensa, sociedade civil, todo mundo apontou o dedo para a aberração e a transparência orçamentária se impôs. Escolado com o tombo que a sociedade determinou, Cesar Maia se escaldou no projeto seguinte da Cidade da Música e escamoteou o orçamento diante do silêncio cúmplice da imprensa até o limite, quando aí sim começou a gritaria. Mas era tarde, e o monstrengo viceja em toda sua estupidez de elefante branco em um entrocamento entre duas vias cafonas que sonharam um dia em ser a não menos cafona Miami.

Não foi diferente o assassinato do Maracanã. Só mesmo o silêncio cúmplice da imprensa poderia permitir o avanço da maior licitação de cartas marcadas de toda a história da humanidade. Nem mesmo aquela página gloriosa do também glorioso Jânio de Freitas, quase solitária voz nesse momento triste de nossa imprensa, quando mostrou que a Norte-Sul era jogo marcado, talvez nem mesmo aquela histórica reportagem tenha tratado de uma licitação tão marcada quando a que deu o Maracanã para Eike, Odebrecht e cia. Nem mesmo algum faraó fez alguma pirâmide com licitação tão marcada como a do Maracanã.

Estamos diante de um momento assim novamente. Ninguém viu o tal estudo de viabilidade que garante ser inviável o golfe no Itanhangá. Ninguém consegue entender a conta que poupa R$ 60 milhões da prefeitura em troca de um bilhão para a iniciativa privada. Ninguém consegue entender como se permite dar um pedacinho do paraíso e deixar que se construam 23 edifícios de 22 andares em área de prédio de 6 andares. Mas afinal, se para isso não se bate panela, para isso não se fica indignado, é mais fácil para alguns poder dizer que "odeia ter feito isso".

Mesmo com alguém vindo de fora e dizendo com todas as letras que é mentira. Talvez, como disse brilhantemente o urbanista Luiz Fernado Janot em seu artigo "O Jogo Jogado", falando sobre o modelo de planejamento que avança com o escudo de 2016, talvez esse jogo já tenha sido jogado. Com a cumplicidade do silêncio de uma imprensa cada dia mais seletiva em escolher os armários que quer abrir para mostrar cadáveres. Sem entender que assim vai desenhando seu próprio cadáver.

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A mentira esfregada na cara do prefeito do Rio

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Só Thomas Jefferson pode salvar o esporte brasileiro

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro, blogueiro do ESPN.com.br

Quando se trata de poder, portanto, não vamos mais falar sobre a confiança nos homens, e sim impedir que eles se comportem mal pelas correntes da Constituição

Thomas Jefferson
Mais de dois séculos depois da fala de um dos principais Pais Fundadores da nação americana, chega a ser um pouco bizarro que, com tamanho inacreditável atraso, ainda invocarmos o aval dos “homens bons” ou falemos em consertar malfeitos através da confiança nos homens. Poderíamos estar, por este início, falando de uma série de temas. Mas os assuntos específicos aqui são os escândalos do vôlei nacional, as respostas da CBV/Banco do Brasil a partir do devastador relatório da CGU e por que não ir além, a gestão do esporte brasileiro, suas confederações e entidades.

Pois então vejamos algumas palavras da CBV e algumas exigências do BB para seguir com o milionário patrocínio, feitas a partir das recomendações da CGU.

De acordo com nota oficial da CBV, a entidade já estaria se adequando as recomendações da CGU para que o BB possa seguir com o patrocínio. Mas o que está em jogo obviamente não é apenas atender recomendações da CGU. Os limites das atribuições da Controladoria fazem com que ela possa apenas recomendar alguns atos. A questão então é acharmos que isso é suficiente. Pelo visto, CBV e BB acham, ao menos até que novos fatos, já em curso, ocorram, como a entrada em cena do Ministério Público e Polícia Federal.

Diz a tal nota que já estão se enquadrando nas recomendações, com:

- “auditoria externa”. Como se no tempo de Ary Graça não existisse.

- “Regulamento de contratações”. Como se não fosse estatutário antes.

- “Vetos de empresas suspeitas”. Ah, bom, então antes o estatuto permitia e agora passa a vetar. Não serão evitadas pelos mecanismos sugeridos por Thomas Jefferson em 1798 e sim porque agora a CBV se enquadrou e se adequou pela mão dos homens bons.

-“Criação de comitê de apoio”. Olha eles aí, os homens bons, aqueles que, como diz o poeta, irão “nos restituir a glória”! Agora vai!

- “Reaver judicialmente os valores de contratos apontados pela CGU como irregulares”. Incontestável. Porque não depende dos homens bons e sim das leis, da mão da justiça.

Há um trecho tão surpreendente quanto na nota da CBV, quando cita ainda que “de conhecimento de todas as ações desenvolvidas pela entidade, os técnicos José Roberto Guimarães e Bernardo Rezende manifestaram apoio incondicional aos dirigentes que tem a responsabilidade de administrar o atual momento do voleibol brasileiro”. Seria tão melhor ver os dois titãs do vôlei nacional juntos na trincheira de Thomas Jefferson e não na trincheira dessa cartolagem. Batendo o poderoso tambor de ambos em Brasília para que enfim alcancemos o dia em que as amarras do esporte brasileiro serão mais fortes do que o discurso de intenções de homens que se perpetuam no poder. Ainda há esperança. Como já falamos algumas vezes, a partilha de competências da Constituição Federal, 1988, deixou algumas lacunas no que diz respeito as responsabilidades na fiscalização de instituições ligadas ao esporte. A luta agora deve ser um freio de arrumação, em nome da máxima de Thomas Jefferson.

Na tentativa de se caracterizarem como os “homens bons” que irão mudar o curso da história e fazer essa travessia, os atuais mandatários da CBV botam em prática uma das modalidades mais em voga no Brasil atual: a tentativa de se descolar de quem é apontado por malfeito. O auge da excelência em tal modalidade de descolamento foi nas últimas eleições, quando o candidato Pezão passou uma candidatura inteira sem mencionar sua umbilical ligação com Sérgio Cabral, prejudicial para suas intenções naquele momento. No instante seguinte ao sufrágio das urnas, agradeceu ao mentor.

Algo semelhante faz a atual gestão da CBV. Por mais de duas décadas foram unha e carne com Ary Graça. Elegeram o mesmo. Participaram de sua administração. Sem grandes oposições seguiram mesmo durante a publicação das reportagens do “Dossiê Vôlei”, ao longo de 2014. Quando o barco foi naufragando e a navegação ficou insustentável, veio o descolamento. Foi no momento seguinte a publicação do relatório da CGU que se aprofundou o processo de descolamento. Apontado como “conflito” entre CBV x FIVB pelos ingênuos da imprensa de sempre.

Curioso agora reler algumas das reportagens do “Dossiê”. Voltando um pouco, chegamos em 24 de fevereiro, a primeira das reportagens. Questionados pela reportagem sobre as relações entre CBV e S4G, a empresa contratada que, de acordo com a CGU, não entregava os serviços acordados, além uma série de irregularidades, a CBV, em sua atual gestão, fez veemente defesa da empresa. Preste bem atenção: "A S4G é uma empresa reconhecida no mercado. Já trabalhou para outras modalidades e eventos esportivos, entre eles, os Jogos Mundiais Militares, quando foi vencedora de licitação, tanto para o vôlei como paraoutros esportes”.

Defesa também foi feita pelos atuais gestores, que agora se descolam do antigo gestor, a Marcos Pina, cartola que também tinha sua empresa prestadora de serviços para a CBV na intermediação de contratos, trabalho também não identificado pela CGU. “"Marcos Pina foi Superintendente Geral da CBV de 1997 a 1999, quando solicitou afastamento por iniciativa própria. Se manteve sem qualquer vínculo empregatício com a entidade até setembro de 2013, quando foi recontratado como Superintendente Geral pela nova gestão".

Ué?!!! Então uma rápida recuada nas reportagens e constatamos que os atuais gestores recontrataram Marcos Pina em setembro de 2013? E defenderam a S4G? E agora se descolam da gestão anterior! E nós aqui falando na confiança dos homens bons e em mecanismos que, em última análise, sempre dependerão de tal confiança. Quando na verdade, o dramático momento do esporte nacional implora que atletas, treinadores e cia exijam novos mecanismos de controle para entidades do esporte, principalmente as que recebem dinheiro público.

Verdade que o principal mandatário do esporte brasileiro não parece muito preocupado com tudo isso, tampouco pensa em mecanismos efetivos e constitucionais que coíbam aventureiros. Em recente entrevista, falou sobre o que preocupa de fato no momento. "Com relação aos contratos com o BB, espero que seja uma suspensão temporária porque o que preocupa é 2016. Estão em jogo quatro medalhas", afirmou Carlos Arthur Nuzman.

Seria bom também podermos ver esforços mais significativos e expressivos do BB no sentido da efetivação desses mecanismos de controle. Afinal, quem acaba de deixar-se ser enganado e ver milhões do dinheiro público por ele destinado tomar outros destinos, deveria estar mais incomodado. Para início de conversa, começar a cumprir efetivamente a Lei de Acesso à Informação, uma das melhores coisas que aconteceram nesse país mas que o BB insiste teimosamente em não cumprir, pisotear e ignorar. Este repórter fez três solicitações através da Lei de Acesso sobre documentos desta relação BB/CBV e foi ignorado pelo banco. Quando se sabe que por muitos anos o homem que cuidou da relação entre CBV e BB foi Henrique Pizzolato, atual hóspede do estado italiano, o BB deveria ser o primeiro a querer que seus atos fossem transparentes. Salvo, como eu disse em minha ida ao Congresso Nacional para tratar sobre o “Dossiê Vôlei”, salvo estarmos realmente em um país de Sargentos Rochas, aquele de Tropa de Elite (“quer rir? Tem que fazer rir”). Salvo tal fato, o BB deveria ser o primeiro a rever todos os seus mecanismos de controle e lutar para que eles se institucionalizem no esporte brasileiro de forma mais efetiva, acima dos homens. Para poder seguir patrocinando e despejando milhões de verba pública.

A imprensa obviamente não fica atrás nessa cadeia de omissões e descalabro. Por anos, botou tapetes vermelhos para malfeitores em seus estúdios e reportagens, apontando-os como gestores modelos. A promiscuidade dessas relações e suas razões e consequências serão em breve abordadas por mim. Mas toda a corrupção e sorte de malfeitos do esporte nacional é também um cadáver insepulto da imprensa brasileira. Que nem assim se refaz e segue com os mesmos tapetes vermelhos para cartolas que na verdade mereceriam estar no calor indoor do verão de Bangu. E quando de repente o jogo está 7 x 1, alguns oportunistas se apressam a apontar com veemência para os desmandos aos quais sempre foram cúmplices. E tome a pensar em soluções para o esporte brasileiro, tome a ir para a Alemanha fazer programas para ver como estão fazendo...Quando tão mais simples era cumprir o único papel que cabe para a imprensa nessa história. Qual? Ora, cumprir seu papel como imprensa e não como armazém de secos e molhados. Se a imprensa tivesse cumprido seu verdadeiro e único papel nesses anos todos, as coisas não estariam mais assim no esporte brasileiro.

Restam ainda os atletas. Aqui e ali vamos vendo gestos que eternizam homens em panteons muito maiores do que glórias olímpicas. A dignidade em combater o bom combate como o apóstolo ensinou é muito maior do que medalhas, como pensa Nuzman. Quando lá na frente olharmos para pessoas como os irmãos Endres, muito antes de suas inúmeras conquistas, estará a força dos atos dos dois, como de alguns outros. Assim como a omissão de alguns. O que virá pela frente é muito mais duro para os atletas. Verão a velha tentativa de cooptação. Cargos, propostas, o velho cala a boca. Assim como as velhas tentativas tão conhecidas de se denegrir o mensageiro para desqualificar a mensagem. Que sejam fortes para isso. Se não forem fortes agora, logo verão que alguns que acenam assustados agora estarão fechando a porta na cara deles quando estiverem recompostos. Já circula aqui e ali também a versão sobre a repreensão de técnicos e expoentes do esporte para os atos de protesto realizados pelos atletas. Que saibam que a história é assim mesmo. Repleta de homúnculos prestadores de serviços para o poder, ávidos a servir nestas horas.

NOTA: O blog segue destinado apenas para a expressão de opinião em artigos como este. Reportagens continuarão a ser publicadas no site.

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28 páginas de resposta para não responder, e o silêncio de Dunga sobre a 'Operação Uruguai'

Lúcio de Castro
ESPN.com.br
Bruno Domingos/Mowa Press
Dunga Apresentação Técnico Seleção Brasileira CBF 22/07/2014
Dunga respondeu matéria da ESPN

Apenas um esclarecimento foi solicitado na reportagem sobre a "Operação Uruguai", envolvendo uma suposta venda do jogador Ederson: se o empréstimo que Dunga fez, em 8 de maio de 2006, para o grupo IPC, de U$ 575.000,00, referentes a 25% do passe do meia (mostrado em depósito feito pelo tetracampeão mundial para o RS Futebol Clube, detentor dos direitos), foi pago posteriormente e o treinador da seleção brasileira teve seu dinheiro de volta. Através do seu advogado, Dunga respondeu em 28 (vinte e oito) páginas, sendo 5 (cinco) de resposta, 23 (vinte e três) de documentos (incluindo aí matérias de jornais, etc.) e 26 (vinte e seis) itens de resposta.

Nas 23 (vinte e três) páginas de documentos, um não foi enviado. Exatamente o que foi citado: o que mostra o recebimento, por parte de Dunga, do valor referente ao retorno dos U$ 575.000,00 pelo IPC. Como existe o documento público do empréstimo de Dunga, era razoável se supor que nas 23 páginas de documentos da resposta do advogado estivesse o único evocado para esclarecimento.

Tampouco nas 5 (cinco) páginas de resposta e nos 26 (vinte e seis) itens de resposta, nenhum trata sobre o recebimento do empréstimo de Dunga e a respectiva comprovação. Reproduz apenas um pedaço da peça jurídica, que, por não ser sobre isso especificamente e sim sobre dano moral, não se aprofunda no tema. Está lá que "Carlos apenas fez o empréstimo para que a IPC efetuasse o pagamento. A IPC cumpriu com suas obrigações no contrato, tanto que foi dada quitação". Quitação essa assinada pelo RS Futebol Clube, já que obviamente não era mais uma questão do RS se Carlos (Dunga) recebeu ou não o equivalente aos 25%.

Mas parece legítimo ser uma questão agora para todos querer saber se o dinheiro desembolsado por Dunga referente aos 25% de um jogador foi pago ou não, no momento em que ele volta para o comando da seleção brasileira. Ou mesmo porque, dois meses depois de desembolsar o dinheiro para os 25% do jogador, assumiu (24 de julho de 2006) o mesmo comando da seleção.

É absolutamente possível que Dunga tenha recebido a parte do empréstimo. Que obviamente não representa nenhuma ilegalidade. Mas, nas 28 (vinte e oito) páginas, 5 (cinco) de resposta e 23 (vinte e três) de documentos, o único referente a essa operação poderia estar presente, para que não exista a ideia de que um treinador de seleção brasileira possa ter, no mínimo, ter pago o empréstimo por 25% de um jogador e não ter recebido, sendo assim proprietário de 25% de um jogador. Mesmo se não tiver recebido, não está se falando em ilegalidade. Mas é justo que seja público o esclarecimento de tal situação.

Não é o único empréstimo que Dunga fez envolvendo a IPC. Não é o único que não comprova. Um outro empréstimo de Dunga foi divulgado no mesmo dia da reportagem da ESPN, pela Folha de São Paulo.

De acordo com a reportagem, em cima de fatos apontados pela Receita Federal envolve a IPC, Dunga e o Jubilo Iwata. O então jogador teria emprestado dinheiro ao time do Japão , mas, de acordo com a Receita Federal, não conseguiu comprovar a transação. Alegou ainda que foi feito em dinheiro vivo. O jogador, através de sua assessoria, enviou 32 (trinta e duas páginas) de resposta, além de ameaçar processo. De acordo com o jornal, um órgão do Ministério da Fazenda vê indícios "veementes" de que a operação nunca foi feita.
Entre os indícios apontados, estão o pagamento em dinheiro vivo alegado e recibos em português feitos por uma empresa com sede em Mônaco.

Em um dos 26 (vinte e seis) itens da resposta, está grifado, como reprodução textual, que a reportagem "afirma" que "Dunga omitiu que, em 2004, foi agente de futebol".

O deslocamento e distorção do que está textualmente, palavra por palavra, da reportagem, distorce o que foi dito, palavra por palavra escolhida para que não exista distorção. Quando na verdade, a reportagem, textualmente, afirma em seu título que "documentos provam ação como agente que Dunga nega", e o texto da mesma fala em "participação na venda do meia Ederson". Ou seja, está retratada na reportagem ação pontual, no singular. Deslocar para algo mais amplo é distorcer os fatos.

Assim como é conhecida estratégia formular resposta em um cipoal de questões, um imenso volume que pode impressionar a eventuais incautos, mesmo que não responda em seus 28 (vinte e oito) páginas, sendo 5 (cinco) de resposta, 23 (vinte e três) de documentos (incluindo aí matérias de jornais, etc) e 26 (vinte e seis) itens de resposta a questão pendente: o recebimento do empréstimo pelos 25% do jogador.

Para conhecimento, vale ainda a reprodução, aqui sim literal, palavra por palavra, do pedido de resposta inicial para a primeira reportagem, através da assessoria da CBF.

Questão:

"1- Qual é a participação dele na venda dos direitos sobre o vínculo do jogador Ederson, então no RS Futebol Clube para a Image Promotion Companhy?"

Resposta de Dunga, sem que soubesse que a reportagem tinha a nota fiscal da Dunga Empreendimento, Promoções e Marketing ltda, que discrimina recebimento por "honorários profissionais pelo assessoramento, acompanhamento e indicação de investidor na aquisição de 75% dos direitos federativos e econômicos do atleta profissional Ederson Honorato Campos".

"1 - O técnico diz não ter participação alguma na venda dos direitos sobre o vínculo do referido jogador."

A resposta posterior, com 28 (vinte e oito) páginas, sendo 5 (cinco) de resposta, 23 (vinte e três) de documentos (incluindo aí matérias de jornais, etc) e 26 (vinte e seis) itens veio dois dias depois, após a publicação dos recibos. Ainda assim, sem a resposta para o esclarecimento sobre o recebimento do empréstimo. Sobre as questões formuladas e enviadas para resposta, também está a seguinte declaração: "...informo-lhe que não responderei a qualquer uma das suas perguntas formuladas, eis que meramente cerebrinas..." (nota: imaginárias, fantásticas, extravagantes).

Há algo mais grave do que a omissão da requerida resposta nas 28 (vinte e oito) páginas, sendo 5 (cinco) de resposta, 23 (vinte e três) de documentos (incluindo aí matérias de jornais, etc) e 26 (vinte e seis) itens. Muito mais grave, sobre o qual se espera ainda pronunciamento: a inacreditável omissão sobre a "Operação Uruguai".

Nem uma linha sequer menciona o fato que toma a maior parte da segunda reportagem.

Nesses anos todos de trabalho na reportagem, convivendo com casos inacreditáveis no esporte e no futebol, não me recordo de algo tão "fantástico e extravagante" como a operação que promoveu a segunda venda de Ederson. Uma história digna do realismo mágico.

Valendo-se de procuração já sem validade para representar o RS Futebol Clube, Juarez Rosa da Silva "vende" Ederson para o minúsculo Club Atletico de Las Piedras (Uruguai). A transação de venda, envolvendo Juarez Rosa, Mauro Paglioni, empresário de futebol e agente Fifa pelo lado uruguaio e o IPC, está registrada no Cartório de Notas de Las Piedras, mas a transferência nunca se realizou.

Juarez Rosa é homem de confiança de Dunga. Secretário Geral do Instituto Dunga, esteve presente no encontro de Dunga com Marin e Del Nero que selou a volta do técnico há duas semanas e levado pelo treinador as mais estritas esferas, como em 3 de maio de 2010, quando foi recebido pela então governadora Yeda Crusius no palácio do governo, às vésperas do embarque para a África do Sul. No seu acerto como técnico do Inter em 2012, Juarez foi também seu representante.

No processo de dano moral movido pelo RS Futebol Clube contra Juarez Rosa, Dunga e IPC pela negociação com o clube uruguaio, o treinador da seleção foi desligado das partes.
Com base apenas na palavra de Dunga, é possível que acredite-se ter o treinador estado à frente de toda negociação de Ederson mas que na hora da Operação Uruguai se retirou.

Mas mesmo que tenha atuado como parte em todo desenrolar do caso Ederson e tenha saído justamente quando Juarez Rosa e IPC participavam da "Operação Uruguai", teve ciência dela por ter sido notificado judicialmente. E mesmo assim, voltou a trabalhar com Juarez Rosa da Silva abertamente, como está no Diário Oficial de 3 de maio de 2010.

Não viu nada desabonador e preocupante na "Operação Uruguai".

O simples fato de trabalhar com alguém envolvido em algo tão fantástico e extravagante não é crime, supondo que "dormia" na hora da Operação Uruguai", enquanto seu braço direito participava da trama.

Como a simples participação em "recebimento por "honorários profissionais pelo assessoramento, acompanhamento e indicação de investidor" (dê a isso o nome que quiser que não agenciamento), não sendo treinador ainda, não é ilegal obviamente, como foi dito por todos em dezenas de programas ao longo da semana.

Mas, para um técnico da seleção brasileira de futebol, tamanha proximidade e vínculo com alguém que participou de operação tão inexplicada e inexplicável e não merecer uma linha nos esclarecimentos, não parece o mais prudente. Ainda mais em objeto do qual era parte até ali.

Ainda que tenha participado de toda a "Operação Ederson", saído no ato da "Operação Uruguai" e voltado a ter vínculos de trabalho com Juarez só depois da "Operação Uruguai" novamente.

PS: A publicação de nota no site no sábado foi suficiente para as questões não esclarecidas por parte de Dunga.

Mas como algumas dúvidas para esclarecimento não foram satisfeitas nas 28 (vinte e oito) páginas, sendo 5 (cinco) de resposta, 23 (vinte e três) de documentos (incluindo aí matérias de jornais, etc) e 26 (vinte e seis) itens da resposta publicada, viemos por aqui.

Por esta não ser uma questão pessoal e sim uma série de reportagens, o espaço de publicação não é o blog. Usado aqui, neste momento, não no formato das reportagens do "Dossiê 2014" por ser outra coisa e pretender tratar das questões não respondidas por Dunga.

Reportagens serão sempre publicadas no espaço do site, ficando aqui para espaços pessoais.

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28 páginas de resposta para não responder, e o silêncio de Dunga sobre a 'Operação Uruguai'

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CBF dá um tapa na cara de todos com Gilmar Rinaldi

Lúcio de Castro
ESPN.com.br

"Mata mas não esculacha". Ninguém me contou mas tenho certeza de que foram as palavras de Saddam Hussein ao ser encontrado pelos americanos num buraco em Bagdá. Como um rato. O que eu jamais imaginei é que iria um dia me ver na mesma situação. O 7 x 1 da Alemanha já tinha levado pro buraco. O "mata mas não esculacha" veio ontem, 17 de julho de 2014. Já maltratado e amuado pela escumalha que dirige nosso futebol, sentei-me para ver o anúncio de quem seria o novo coordenador da seleção brasileira. Não que esperasse muito do Zé das Medalhas e Cia. Mas quando Gilmar Rinaldi adentrou sorridente no salão e se confirmou que era ele, entreguei todos os pontos. "Mata logo mas não precisa esculachar tanto assim" era a única coisa que me ocorria.

Só podia ser deboche. No momento mais dramático da história do futebol brasileiro, quando mais do que nunca as coisas tem que passar por uma revolução de ideias, homens e acima de tudo, moral, entra um empresário de futebol, até ali com sua banca virtual de produtos ainda no ar pelas ondas da internet e avisa que ele é o cara que vai tomar conta do galinheiro.

Juro por tudo que é mais sagrado: minha vontade era largar tudo, parar com tanto sofrimento, tanto tapa na cara, tanto desaforo. Mas segui vendo, e não brinco, porque nessas horas temos visões meio alucinadas, nos apegamos nas coisas mais loucas, segui vendo porque por alguns momentos tive a convicção de que a Polícia Federal ia entrar naquela sala de rapel invertido e ia acabar com toda aquela palhaçada. Quase os super homens que iriam nos restituir a glória e as estrelas da camisa e avisar: "perderam, tá todo mundo preso, vocês não podem esculachar tanto assim as pessoas, mexer com o sentimento de tanta gente, ser tão indiferente, tripudiar, ignorar que a tragédia vai crescer".

Não, não aconteceu. O circo nonsense, onde os palhaços somos nós, seguiu. Marin, Del Nero, Gilmar, Gallo...

Enquanto esperava um pé irromper aquela cena descendo uma corda, Gilmar comprovava que não mudou muito em relação ao sujeito que cedeu Adriano (com 19 anos) e Reinaldo por Vampeta (verdade que depois foi ser empresário de Adriano), aquele que achou grande negócio romper com Romário na vigência do contrato (o clube paga até hoje) e aquele que foi o gestor da carreira de Adriano. Em sua fala mais profunda, afirmou que com ele o time não usaria boné com dizeres incentivando Neymar, fora do jogo, e sim Bernard, que estava em campo. (agora pensa bem, imagina todo time da Argentina com boné "Força Enzo Pérez", o substituto de Di Maria, contundido! O que o sujeito ia pensar? Que é café com leite, que precisa disso?) Com efeito, poucas vezes vi algo tão ridículo. É esse sujeito que vai comandar a revolução.

Escolher um empresário de jogadores tem o simbólico de dar um tapa na cara de todos. E foi feito de propósito, imagino que com risadas nos bastidores. Para exibir a impunidade. Não basta ser impune. Tem que execer a impunidade. Desafiar. No tempo do "funk ostentação", queriam ostentar que não estão nem aí pra todo mundo. Sendo Gilmar, o esculacho foi maior. Empresário e como gestor, um zero à esquerda. Assim foi feito.

Depois veio o Gallo, o homem que hoje pensa o futebol brasileiro. Que subiu muito no conceito dos cartolas da CBF na Copa do Mundo. Felipão, que não pode falar nada porque vendeu seus jogadores baratinho quando falava pra jornalistas sobre problema emocional e sobre suas convicções em relação ao grupo, diz que foi vendido por Gallo. E assim vai nosso futebol, de acusação de trairagem em trairagem....

Complementando a pantomima, Gallo citou o "gap" umas 10 vezes.

O novo guru do futebol brasileiro é aquele mesmo que avisou logo ao assumir a seleção que jogador não pode usar brinco, cortar cabelo assim ou assado. É esse o pensamento do guru.

E por incrível que pareça, vi parte de nossa imprensa já tolerante com Gilmar e Gallo. Gostando e impressionada com o discurso do picolé de chuchu Gallo.

Provavelmente a mesma parte da imprensa adesista e frouxa que há um mês deslumbrava-se com os métodos de motivação e a parte táticade Felipão. E que achava normal a nossa Weggis serrana instalada na Comary, com seus 24 homens da CBF TV passeando pela privacidade de recantos sagrados da concentração, com os barracões de patrocinadores e seus clientes apinhados no lugar de trabalho, os treinos ridículos sempre escancarados.

O momento é muito mais dramático do que se pensa. As eliminatórias logo ali na esquina, com todos os adversários em iguais condições e agora sem medo da "amarelinha" lembram que, se acharam que o 7 x 1 foi o fundo do poço, a primeira não ida para um Mundial pode mudar esse conceito e a fundura do buraco.

E algo que ainda não pararam para pensar e é razoável imaginar que comece a acontecer: traumatizados por tudo que passaram, traumatizados por treinarem com técnicos com repertório atualizado em seus times e aqui encontraram gente que nem dar treino mais sabe, por terem seu prestígio arranhado por aqui se apresentarem como turma que se juntou pra pelada, tudo isso em nome de um amor por uma camisa que o entorno deles desmente, bastando apenas olhar para os urubus na carniça que só veem na seleção grande oportunidade de negócios, será que esses jogadores seguirão tendo razão para tanto bate e volta, de Londres para La Paz, de Madri para Bogotá, encarando sufoco e times mais organizados, perigando serem humilhados e ainda ficarem na história como os que não levaram o Brasil para um Mundial? Tudo isso em nome do patriotismo que tem como líderes Marin, Del Nero...Qual é a razão hoje para imaginar que é obrigação passarem por isso, depois de tudo o que passaram agora? E quem não estava, viu tudo o que ocorria? (afinal, assim como na música de Chico, onde "só Carolina não viu", no processo de treino da Copa, só nossa imprensa não viu!).

E saber que quando penarem e pagarem pela indigência tática de nossos treinadores, terá gente dizendo que são "emocionalmente frágeis", quando estiverem impiedosamente dominados, terá gente falando em suas transmissões que "e ainda tem gente que diz não existir problema emocional" e desculpando o treinador, terá gente consultando psicólogos, terá debate sobre isso. Ah, o tal do jornalismo, como faz falta...Por que passarão por tudo isso?

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Esses dias lembrei do Barcelona x Santos de 2011. O massacre na final do Mundial de Clubes. Fui rever um texto que fiz naqueles dias. Estava indignado que, diante do massacre, tivesse gente falando em "complexo de vira-latas", "psicológico", etc. Não acreditei ao reler. Era tudo tão atual, tudo tão igual a hoje. É assim a nossa história. É sempre um prazer para alguns falar que somos uns frágeis emocionais, um Zé Povinho, uma sub raça. E deixamos de ouvir o que um gênio como Pep Guardiola falou. Perdemos ali mais três anos. Perdemos ali talvez a chance de ter um gênio, o homem que mudou o futebol ao fazê-lo voltar para suas origens e responde, como entidade pelos dois últimos títulos mundias, Espanha 2010 e Alemanha 2014.

Ficamos com o esculacho da CBF. Em breve teremos gente vendo qualidade no trabalho de Gilmar e Gallo, o grande pensador do nosso futebol. A que horas a polícia vai descer de rapel invertido e acabar com isso? Vai ser esse esculacho mesmo? Peço que nos matem. Já nos mataram. Mas sem esculacho. Vale apenas lembrar junho de 2013: nem sempre as pessoas suportam tanto esculacho.

Fica o convite para o texto do pós-Barcelona x Santos. É de 18 de dezembro de 2011 mas parece que foi escrito ontem. Tá tudo lá: os Zé Bumbuns discutindo o psicológico, os desmandos da cartolagem...

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18/12/2011

Nada poderia ter sido melhor para o futebol brasileiro do que o humilhante massacre do Barcelona sobre o Santos. Não que este Barça não venha fazendo isso por aí, contra qualquer um, em qualquer lugar. Mas no caso específico desta final de Mundial, o mesmo sentimento generalizado, unânime tomou conta do país: em algum lugar do passado, em algum momento, perdemos o passo, a mão, a bola, o bolo desandou. O tiro de misericórdia para não deixar dúvidas sobre a necessidade de uma reflexão profunda veio na coletiva de Guardiola: "O que tentamos fazer é tocar a bola o mais rápido possível. Na verdade, é o que o Brasil sempre fez, segundo me contavam meus pais e meus avós". Devastador. É preciso entender e traduzir as palavras do treinador: no lugar de provocar, tripudiar, escolheu a elegância habitual quase em tom de pedido, súplica de amante do futebol para que o Brasil retome suas origens. Foi isso que Guardiola fez: um pedido de amante do futebol, que se dói com esse Brasil do cínico pragmatismo.

Coisa para bom entendedor, daqueles para quem meia palavra basta. No caso, disse com todas as letras. Provavelmente desperdiçaremos a imensa chance para a reflexão. As palavras de Mano Menezes em seu blog pós-jogo indicam isso. Falaremos dela logo abaixo. Algumas breves pitacadas em busca desse "elo perdido" do futebol brasileiro se fazem necessárias. Coisas de dentro e de fora do campo.

Em primeiro lugar é preciso entender o que aconteceu, onde e no que perdemos o tal elo. Naquele exato momento em que se trocou a posse de bola, o toque envolvente do Brasil (agora do Barcelona e da Espanha) pela correria, pela obsessão do tal contra-ataque, pela bola parada, pelos duzentos zagueiros e pelos volantes cabeçudos em detrimento dos que sabem sair pro jogo. Quando deixamos de fabricar o meias, pegando todo garoto habilidoso da base e jogando pra frente ou pra volante paradão.

Enquanto isso, lá fora, estava em gestação o futebol de posse de bola, deslocamentos, jogadores sem posição fixa, troca de posições. O que o mesmo Japão tinha visto no Flamengo de Zico, em 1981.

É preciso todo cuidado do mundo agora para que a metralhadora não aponte para todos os lados. Ao contrário do que muitos irão dizer, ainda formamos bons jogadores. Mesmo para meias ou volantes com saída de jogo. Veja o atual brasileiro sub-20. Existem algumas pistas. Adryan, talentoso meia, transformado em homem de frente, aberto num 4/2/3/1, espelhando o esquema da moda por pura macaquice, e mais um talento se esvaindo. O mesmo é verificável nas demais equipes. Algum talento, sufocado em esquemas-espelho da mediocridade do time de cima.

Um pragmatismo cínico cada dia mais incorporado em nossas vidas responde muito por isso. Em todas as esferas. No torcedor que se omite e se exime da obrigação de tentar ver se a seleção ou seu time estão jogando bem, aceitando acriticamente o discurso cínico dos "professores", que ironizam os que "querem ver espetáculo, que deveriam ir ao teatro". Nesse falso dilema entre competição x espetáculo, perdeu-se o óbvio: a questão não é dar espetáculo, é JOGAR BEM, sempre o caminho mais indicado para a vitória. Jogando bem, forçosamente o tal espetáculo vem, mais isso é outra história.

Numa zona de conforto de salários astronômicos, nivelados com os maiores treinadores da Europa, referendados por cartolas mais preocupados em outras coisas do que na responsabilidade de ver seu time JOGAR BEM, nossos professores em sua maioria inundam seus times com 32 volantes cabeçudos, 88 zagueiros, contra-ataques e bolas paradas como arma maior. É o tal pragmatismo cínico que nos assolou e vai mudando nossa história.

O mesmo pragmatismo cínico que vi após a vitória do Barcelona dito tranquilamente na televisão em uma análise. "O jogo de hoje provou que precisamos repensar os conceitos de nosso futebol". Dito por gente que há um ano atrás defendia com voracidade o pragmatismo de Dunga. Ora, das duas uma: ou você defende que se repensem conceitos depois de ver o Barça da posse de bola, da troca de passes e dos deslocamentos de jogadores sem posição fixa, ou você defendia vorazmente o modelo de Dunga, a antítese do Barcelona. Contra-ataque, bola parada, volantões fixos, meias pouco criativos...

A calma que o momento pede não pode permitir também o ressurgimento do complexo de vira-latas, ou querer ver isso aqui ou acolá. Achar que nos curvamos ainda no túnel (o que não houve), que isso ou aquilo, teorias que sempre surgem quando o Brasil perde, vindas geralmente de nossas classes dirigentes e elites, que assim, jogando a culpa na raia miúda, se exime de suas patacoadas e responsabilidades.

Estamos falando de um país capaz de uma das mais assombrosas transformações da história da humanidade: em menos de meio século, passamos de um país agrícola e subdesenvolvido para um país com assento entre as potências econômicas, o país onde o futuro chegou antes do que se esperava, a grande esperança para problemas da humanidade. Falta tanto, divisão de renda, educação, mas a transformação foi assombrosa, a ser contada um dia nos livros de história. E de mais a mais, quando Baggio olhou Romário no túnel ninguém elaborou teorias diminuindo o povo italiano. É preciso manter o foco na floresta, e não se distrair com o dedo que aponta a árvore...

A lição irá desgraçadamente se esvair. Basta ver as palavras de Mano Menezes depois do jogo em seu blog. No lugar da urgente autocrítica, o único culpado nominado foi... a crítica. "Aqui, nossos críticos ainda estão rotulando uma equipe de ofensiva ou defensiva pelo número de atacantes ou volantes que o seu técnico escala na formação inicial, e isso passa para o torcedor". Então tá, a culpa é da crítica, que tem lá as suas, mas essa não, mano velho...Técnicos, assim como seu chefe na CBF, c...e andam para a crítica. Então olhe para o espelho e vamos aproveitar o momento para ver os próprios erros.

Falando no seu chefe, alguém imagina o mandatário acordando no domingo, às 8h30, vendo o jogo, a aula do Barça e depois ligando pro Mano, trocando ideias de futebol, falando da necessidade de reformularmos as coisas, novos conceitos, ou melhor, resgatar antigos conceitos, como disse Guardiola? Podemos explicar parte de nossos problemas por aí, não é, "Professor"?

A calma que pedimos para analisar o que se passa por aqui é providencial para falarmos do Barcelona. Um senhor time de futebol. Para a história. Um privilégio ver isso acontecendo em nosso tempo. Um belo trabalho na base. Mas é só. E isso é muita coisa. Muita coisa mesmo. É que temos também a mania, hipócrita e fruto também do cinismo, de querer que coisas do futebol, do campo, dos atletas, se transformem em "exemplos para a sociedade".

E o cinismo das pessoas e muitas vezes a inocência de outras geralmente embarca nessa. Assim, acriticamente vamos aceitando idealizações sem respaldo na verdade. Ao Barcelona basta e já nos dá demais sendo um time espetacular de futebol, protagonista de uma revolução nas quatro linhas. Quando nos deixamos levar por idealizações, mundos perfeitos, exigir que homens se transformem em modelos, negligenciamos a verdade que não é tão aparente, nos deixamos levar por manipulações. O Barça, (suas categorias de base, seus princípios, seus atletas), não é modelo a ser seguido pela sociedade, como já se escuta aqui e ali, principalmente quando começam a mergulhar na busca das razões para o sucesso do time catalão.

Na presidência, está Sandro Rosell, amigo íntimo de Ricardo Teixeira, que vive em acusações mútuas também com seu antecessor. O homem que levou o patrocínio da Fundação Catar para o uniforme azul-grená. Um corpo que gerou e alimenta Sandro Rosell está longe de ser o modelo de sociedade que sonhamos. Um Barça que busca meninos talentosos na África ou América, ao arrepio da lei do artigo 19 da Fifa, um Barça com todos os pecados do mundo do futebol, e dificilmente seria diferente, sendo ele parte disso tudo. Um Barça que fez uma revolução nos campos, e isso, repito, é muita coisa. Isso diz respeito ao jogo que veneramos, e portanto a nossas vidas. Mas lá como aqui, devemos rejeitar idealizações. Digo porque começo a ver isso se repetir toda hora.

Mas isso é o menos importante aqui e agora. O importante é buscar o elo perdido, que é nossa sobrevivência como brasileiros, mestiços, cafuzos, mamelucos, capoeiras, Manés, Pelés, moleques. Aqueles que os avós do Guardiola contaram um dia ao menino. Algo que se perdeu no tal pragmatismo cínico aqui tratado, exemplificado nos nossos "professores", cartolas, imprensa acrítica, adepta do jornalismo de resultado, das arquibancadas cada dia mais gélidas e cínicas também, elitizadas sem o crioulo sem dente que botava água no feijão para levar seu amor incondicional ao estádio, substituído a cada dia pelo almofadinha que não conhece a derrota na vida. É ele que legitima esse modelo cínico da vitória a qualquer custo que vai nos matando em essência, conteúdo e forma. Até sermos cobrados por um técnico estrangeiro em coletiva.

Ps - só pra descontrair porque o assunto acima é muito sério e diz respeito a nossa sobrevivência como povo, no qual o futebol é parte fundamental de nossa identidade, uma pergunta que tenho me feito nos últimos dias e para qual ainda não arrumei resposta: quem é mais otimista ou crédulo, o sujeito que gasta uma nota preta para ver seu Santos do outro lado do mundo enfrentar o poderoso Barça, ou o sujeito que gasta uma nota preta comprando um ingresso antecipado para um show do João Gilberto?

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CBF dá um tapa na cara de todos com Gilmar Rinaldi

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50 anos do golpe: jornalista trabalhou para militares e denunciou colegas de redação

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro, especial para o ESPN.com.br
Arquivo
Jornalistas em protesto contra a ditadura militar instaurada em golpe em 1º de abril de 1964, há 50 anos
Marcos de Castro e Fernando Gabeira na ala dos jornalistas, durante a 'Passeata dos Cem Mil', em 1968

Vítimas da brutal repressão, linhas de frente nos anos de chumbo, autores de páginas memoráveis na resistência. Papéis já bem conhecidos para jornalistas na história dos 50 anos de golpe militar. Mas o outro lado também existiu.

Sempre se soube que as redações de jornal, como qualquer outro ambiente da sociedade naquele momento, eram vigiadas e com informantes da repressão. As suspeitas de tantos da imprensa de então são agora comprovadas em longos relatórios encontrados nos arquivos recém-abertos do regime militar: um jornalista, de identidade ainda desconhecida, fazia relatórios para o Centro de Informação do Exército (CIE), diretamente para o gabinete do Ministro do Exército, dando nomes e traçando a conduta de seus colegas.

Em um dos relatórios, de 1971, denominado "Panorama da Imprensa Brasileira", o alcaguete destaca o papel de jornalistas nos postos chaves das empresas, tece comentários sobre os comandos dos meios de comunicação, explica, didaticamente e com conhecimento de causa, o funcionamento de uma redação e alerta para o domínio e a inflitração do Partido Comunista em todos os setores de um jornal.

Reprodução
'Panorama da Imprensa Brasileira', relatório de jornalista sobre seus pares para o regime militar
'Panorama da Imprensa Brasileira', relatório de jornalista sobre seus pares para o regime militar

Em seu guia, enumera em tópicos itens ensinando como a tal "máquina comunista" dava "conteúdo ideológico para matérias". Explicando didaticamente a função de um repórter, de um redator e dos chefes; relata como tal máquina agiu no dia seguinte ao AI-5. "O número do JB que saiu no dia seguinte à edição do AI-5 é um primor de competência dos profissionais da máquina. Nessa edição, a máquina atuou decisivamente, podendo mesmo ser responsável exclusiva pela edição que driblou a censura imposta naquela noite pelo governo, produzindo até matérias esportivas contra o governo e o AI-5. Até no 'Tempo' a máquina influiu: 'Tempo bastante nublado com tempestade à vista' é o que dizia o texto do 'Tempo', no alto da primeira página daquela edição do JB".

Mais influente jornal naquele momento, o Jornal do Brasil foi o alvo principal das observações do delator. As previsões do tempo relatadas por ele com indignação, são hoje consideradas peças históricas da resistência no Brasil. Pela atenção e nível de detalhamento no relatório, é possível se supor que tenha vindo de alguém do próprio Jornal do Brasil, versão que muitos de então acreditam. TV Globo, Correio da Manhã, revista O Cruzeiro, todos estão no radar. 

Reprodução
O relatório em detalhes: denúncia de comunistas dentro das redações e a força do Partidão entre os jornalistas
O relatório em detalhes: denúncia de comunistas dentro das redações e a força do Partidão entre os jornalistas

Os diretores de cada veículo são analisados. Como trabalham, quem são, como agem. Quem são os autores dos editoriais, quem tem afinidade ideológica com o regime.

A inflitração de agentes da repressão ou colaboradores foi prática mais do que recorrente nos anos de chumbo. Para muitos militares de então, a "infiltração foi a razão da vitória sobre a chamada subversão", como conta o historiador Carlos Fico, em entrevista ao episódio brasileiro da série 'Memórias do Chumbo: o futebol nos tempos do Condor'.

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50 anos do golpe: jornalista trabalhou para militares e denunciou colegas de redação

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'Memórias' cai no mundo. E a Pelé de saias do jornalismo

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro, blogueiro do ESPN.com.br
'Memórias do Chumbo - O Futebol nos Tempos do Condor' conquista o Prêmio Gabriel García Marquez

Uma garrafa ao mar é uma metáfora tão simples quanto forte. Só cumpre seu papel se chegar ao destino, quando, então, deixa de ser metáfora. Obviamente deixa de ser uma garrafa ao mar e passa a ser a mensagem chegando ao receptor. Parece papo do Carlinhos Brown, mas no fundo é isso mesmo...

"Memórias do Chumbo - O Futebol nos Tempos do Condor" foi uma garrafa solta no mar. Na verdade, como toda reportagem, como tudo o que se escreve, como tudo que se fala... (E eis que Brown está de volta...!).

Alegria maior para quem envia a mensagem não pode haver do que quando a garrafa chega a um destino. Ou a vários. Em vários lugares. "Memórias" tem dado essa alegria.

Feita com a intenção de cumprir algumas das premissas de nosso ofício, de produzir memória, aquela que busca luz no passado para iluminar o presente e apontar o futuro, além da outra de tantas premissas, a de enfiar o pé na porta de quem quer esconder algo que ali permanece obscuro durante anos, a série vem chegando em portos seguros.

Há poucos dias, conquistou o Prêmio Gabriel García Marquez (GGM). O maior prêmio de jornalismo iberoamericano. O segundo maior do jornalismo mundial, atrás do Pulitzer, que no entanto, é igreja fechada e clube dos americanos. Que, no entanto, entram no GGM.

Não bastasse a chancela de Gabo, tendo como jurados gente como John Lee Anderson, Martin Caparrós, Dorrit Harazim, Javier Restrepo, tantos outros do primeiro time, maior do que a vaidade de contar tal conquista é a alegria da visibilidade que o assunto ganhou. Gente do mundo inteiro, a nata do jornalismo de mais de 30 países, tomando pé do que aconteceu naqueles anos por aqui. É a garrafa cumprindo seu papel e deixando de ser garrafa.

Para que nunca mais na história volte a acontecer. Nunca mais. E essa é uma das funções da tal garrafa. "Memórias" tem quatro capítulos. Argentina, Chile, Uruguai e Brasil. No capítulo Uruguai, Eduardo Galeano fala exatamente sobre isso:

"É muito dificil a tarefa da recuperação da memória dos anos de chumbo. Existe muito medo. Cobraram um preço altíssimo de silêncio. Esse silêncio é o preço da impunidade do poder, que calando consegue repetir a história. Porque se você não aprende com o que aconteceu, está condenado a repetir. E aí então o problema do medo. O poder militar daqueles anos conseguiu impor uma cultura do medo. A ideia de que a denúncia do que aconteceu é um convite para retornar ao passado, para que o passado volte. Que só calando se evita o retorno a esses tempos duros, ruins, essa longa noite dos nossos países. Isso é uma infame mentira! Porque na verdade só encarando a coisa como foi, recuperando a memória, você pode evitar a repetição da história. Quer dizer, a impunidade estimula o delinquente, seja um delinquente militar, civil, seja individual, seja coletivo, a impunidade é o motor maior para a repetição dos crimes."

A garrafa de "Memórias do Chumbo - O Futebol nos Tempos do Condor" segue seu percurso. Aporta em Milão para o festival de cinema. Depois em Havana, no tradicional festival, por onde passam filmes e cineastas do mundo inteiro.

Não bastasse tudo isso, proporcionou a este modesto contador de histórias dias inesquecíveis durante o Prêmio Gabriel García Marquez. Daria e ainda vai dar novos textos só sobre isso. Aqui adianto apenas parte. Dias inesquecíveis para afastar qualquer ceticismo quanto ao ofício de jornalista. Quem vive repetindo o chavão e propagando a morte do ofício não tem a menor noção ou ideia do que está se fazendo por aí. Da excelência do que está se produzindo. Do altíssimo nível. Da inquietude mundo afora. Dos novos caminhos. De quanta gente boa tem por aí. Produzindo uma das melhores eras do jornalismo. De imensas possibilidades. Claro que é mais fácil chorar e reclamar. Ou então manter os olhos provincianos virados apenas para "New York Times", "Financial" e etc. No máximo, para parecer cult, ler a "New Yorker".

No entanto, o melhor jornalismo do mundo, coisas absolutamente espetaculares e maravilhosas, estão sendo feitas no nosso nariz. México, Colômbia, El Salvador, Argentina... Qualidade, rigor, coragem, ausência de rabo preso. Tudo o que manda o manual. Muito além do manual. Desconfie com toda força de quem fala que o jornalismo acabou. Nunca pulsou tanto.

Costa Rica foi justamente esquecida acima por ser algo à parte no momento. Um ponto fora da curva. Um ponto de luz, que serve e será um dos faróis dos nossos próximos anos. E mais uma vez, aqueles que vivem olhando com olhar colonizado apenas para cima do Equador irão engasgar. Procure saber. Vá a um seminário, congresso ou prêmio e veja o que está se produzindo.

Em 2005, bati modestamente na porta do "La Nacion", Costa Rica. Queria ver de perto aquela revolução. Conhecer Giannina Segnini, Ernesto Rivera e tantos outros. Com o temor e reverência que todos devem ter diante dos mestres, mas com a imensa curiosidade que abre caminhos. Oito anos se passaram e não há a menor dúvida: algo de único acontece ali.

Como disse, voltarei ao tema. Só a ele. Se existe Pelé no jornalismo, usa saias, é uma bela morena e se chama Giannina. A protagonista dessa revolução. Que se espalha por vários países. Reconhecida no Prêmio Gabriel García Marquez em categoria única, que não julgava trabalhos específicos e sim homenageava uma trajetória, Giannina Segnini falou em seu discurso: "Este é o melhor momento para ser jornalista."

Se alguém acha que é exagero falar na Pelé de saias do jornalismo, veja o que a moça tem feito. Tivesse nascido americana, já era filme em Hollywood. E milionária. Dá de ombros. Quer apenas contar suas histórias. Criou e lidera uma equipe de investigação no "La Nacion". Incorporou tecnologias e uma equipe de programadores de dados no seu time. Bob Woodward e Carl Bernstein derrubaram um presidente. Giannina derrubou dois. Botou a igreja desnuda. Corruptos fogem do seu radar como o diabo da cruz.

Fez e faz muito mais. Compartilha suas ideias e métodos mundo afora com quem queira aprender. Harvard quer. Chama a craque para ensinar sua revolução. Compartilha também com seus vizinhos, seja quem for. Compartilha. Só os grandes fazem isso. Os falsos craques se fecham. Os pés de barro não resistem a generosidade do compartilhamento. Como uma Meca, jornalistas do mundo inteiro correm agora para a Costa Rica. Sua equipe incorporou gente do mundo inteiro. Todos querendo estar ali naquele momento, bebendo de sua fonte.

Resumir a revolução que tem sido feita na Costa Rica e no resto do continente requer espaço e tempo maior. Voltaremos. Enquanto isso, alguns jornalistas seguirão blasés por aí, do alto de suas convicções. Enchendo a boca para decretar mortes e falências. Jamais irão olhar para a revolução que acontece. Longe das páginas engomadas que leem. Que se liguem no que está se fazendo por aqui. "Antes que o dia arrebente...Antes que o dia arrebente. Louco por ti, América...".

"Memórias do Chumbo - O Futebol nos Tempos do Condor":

Lúcio de Castro
Fábio Calamari
Rosemberg Faria
Luiz Ribeiro
Alexandre Valim
Andrei Oliveira
Luís Alberto Volpe
Stela Spironelli

Veja as chamadas do especial Memórias do Chumbo - Futebol nos Tempos do Condor
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'Memórias' cai no mundo. E a Pelé de saias do jornalismo

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Ex-parceiro de Teixeira no Planalto representando banco; empresa nega

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro, para o ESPN.com.br
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Ricardo Teixeira (camisa listrada), Claudio Honigman (à dir.) e suas respectivas esposas em encontro informal
Ricardo Teixeira (camisa listrada), Claudio Honigman (à dir.) e suas respectivas esposas em encontro informal
O mais misterioso e enigmático personagem da "era Ricardo Teixeira" no futebol brasileiro parece estar de volta e com poder nas altas esferas federais. Em mais uma história com lacunas a serem preenchidas, Claudio Honigman foi recebido pela Ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, no último dia 21 de agosto, constando da agenda oficial da instituição como "Presidente do Banco Mizuho no Brasil".

No entanto, procurado pela reportagem, o Banco Mizuho do Brasil rejeitou, em nota oficial, por meio de sua assessoria de comunicação, que o ex-amigo de Ricardo Teixeira represente a instituição no país, conforme a agenda da Casa Civil anunciou na data.

"O Banco Mizuho do Brasil esclarece que o Sr. Claudio Honigman não é funcionário desta Instituição, consequentemente, ele não é presidente deste Banco no Brasil e nem representa a Entidade no Brasil em nenhuma circunstância. Sendo assim, a Entidade esclarece que não participou do evento de 21 de agosto de 2013 na Casa Civil e desconhece referida pauta", diz a nota.

Questionada também pela reportagem sobre o encontro e sobre a pauta, a Casa Civil, por meio de sua assessoria, confirmou o encontro da Ministra Gleisi Hoffmann com Claudio Honigman.

"A reunião aconteceu e a pauta foi a apresentação do Programa de Investimento em Logística (PIL), seguindo uma série de encontros da ministra sobre o tema". Numa segunda checagem sobre as credencias de Honigman como representante do Banco Mizuho no país, a assessoria reconfirmou o que estava na agenda oficial: "Como representante do banco, conforme agenda publicada na data".

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Agenda da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, no dia 21 de agosto de 2013
Agenda da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, no dia 21 de agosto de 2013

O nome de Honigman surgiu pela primeira vez em reportagem da Revista ESPN de março de 2010. Como o terceiro e mais oculto e misterioso nome da Santíssima Trindade que comandava os negócios da seleção brasileira: Ricardo Teixeira, Sandro Rosell e ele. A reportagem mostrava sua misteriosa saída do Brasil, no dia 19 de novembro de 2008. Por coincidência, o mesmo dia de Brasil 6 x 2 Portugal, em Brasília.

De acordo com os computadores da Infraero e da Polícia Federal, haviam duas reservas: uma no voo 455 da Air France, para Paris, provavelmente no qual embarcou, e uma em outro para Nova York. Era esperado pelos amigos Ricardo Teixeira e Rosell. Nunca mais apareceu para eles. Foram tempos duros para Teixeira, que, segundo amigos mais chegados, teria sofrido um desfalque em suas contas.

Em setembro de 2011, nova reportagem da Revista ESPN mostrou que Sandro Rosell e Claudio Honigman eram sócios na Brasil 100% Marketing e que Ricardo Teixeira era sócio oculto da empresa.

Em 10 de outubro de 2010, Claudio Honigman chegou a ter a prisão decretada por falta de pagamento de pensão para a ex-mulher, mãe de três filhos dele, Nathalie Peackock.

Em 2005, Meinolf Sprink, diretor da Bayer AG, proprietária do Bayer Leverkusen, afirmou que a Brasil 100% Marketing oferecia a seleção brasileira para centros de treinamento alemães em nome da CBF. A empresa de marketing de Honigman também esteve envolvida na compra de um avião, oferecido antes para Ricardo Teixeira. O avião depois foi vendido para uma terceira empresa, a Ailanto, de Rosell, investigada pelo MP do Distrito Federal por organização fraudulenta do amistoso Brasil 6 x 2 Portugal.

O convidado da Casa Civil no dia 21 de agosto teve o nome envolvido em outras tantas histórias. Em 17 de dezembro de 1997, de acordo com o processo 00-127 da Bolsa de Nova Iorque, o procurador daquela instituição, Milton Stein, acusou o brasileiro de manipular o preço de ações, realizando uma manobra conhecida como "operação casada", onde duas pontas trocam grande número de ações simultaneamente. A movimentação realizada naquele dia envolvia US$ 80 milhões.

Circulou livremente pelos ambientes da seleção brasileira em 2006, na Copa da Alemanha, com Ricardo Teixeira. Na foto desta reportagem, está al mare com Ricardo Teixeira e Sandro Rosell, tendo como testemunhas apenas as respectivas mulheres e o Mar Mediterrâneo, na dolce vita a bordo do Blue Harem, iate de 138 pés, ou 42 metros de extensão de proa a popa e a bagatela de 100 mil euros semanais de aluguel.

A volta do misterioso personagem e seu acesso aos gabinetes do Palácio do Planalto como está na agenda oficial, "Presidente do Banco Mizuho no Brasil", deixam algumas perguntas no ar.

- Se o Banco Mizuho nega que Honigman "represente a Entidade no Brasil em nenhuma circunstância. Sendo assim, a Entidade esclarece que não participou do evento de 21 de agosto de 2013 na Casa Civil e desconhece referida pauta", resta entender:

- Por que ele estava lá?
- Como chegou e teve acesso?
- Quem representava de fato?
- Qual era a pauta de fato?

A reportagem tentou entrar em contato com Claudio Honigman. Assim como nas outras vezes, não obteve sucesso.

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Na mesa com Cabral e o dinheiro do BNDES para Eike

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro, para o ESPN.com.br
Cabral está na cabeceira. Ao longo da mesa, cartolas de todos os clubes cariocas. O olhar corre a foto. Vai, volta. Algo causa imenso desconforto e incomoda. Mais um segundo de atenção e nem é tão difícil assim de entender o que tanto traz embrulho. Faltam homens de estatura naquela mesa. Faltam estadistas à altura das imensas massas que representam os tais cartolas. Num tempo onde proliferam os consultores, gestores, coachings e toda sorte de empulhadores, cada qual vendo uma modernidade importada de modelos que nada tem a ver com o nosso e portanto irreproduzíveis, repetem-se tanto esses chavões de gestão mas não conseguem preencher esse vácuo. Esse vácuo de homens. Homens com estatura para representar suas instituições. Pois então como explicar que nenhum daqueles deu um soco naquela mesa, virou o móvel na direção de Cabral e disse com todas as letras que não seriam cúmplices de tamanha sordidez? Que nenhum deu um soco na mesa e disse que a instituição que representa não pode compactuar com a ação entre amigos que entregou o Maracanã para os compadres do governador?

Que não iriam admitir e compactuar com um governador que entrega um monumento como o Maracanã, a casa das instituições que estavam ali representando como signatários de Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo? Entrega o Maracanã para o maior doador entre as pessoas físicas do governador Cabral e para a empreiteira que foi doadora da campanha do PMDB do governador-voador em 2010? Como explicar que não tenha tido um homem para unir os quatro em torno da mais simples das ideias: não compactuariam com isso e portanto seus times estavam fora, inviabilizando o presente. Falta estatura moral entre os homens daquela foto, como de fato falta entre toda a cartolagem nacional. Como faltava aos que eventualmente estavam no poder antes deles nos clubes, quando o presente se desenhou e ninguém bateu na mesa.

Ninguém questionou que não poderiam ser reféns, com seus milhares de torcedores, de uma empreiteira e de alguém que vê sua fortuna, construída em cima das benesses do estado, derretendo feito gelo? Aquele que emprestava o Gulfstream prefixo "PR OGX" para Cabral circular e depois cobrou seu preço com uma fatia do Maracanã?

Impressiona também ver gente bem informada dizendo que o pior cenário seria a saída do consórcio e a volta do estado. Ora, antes de qualquer coisa e de uma vez por todas, sem precisar repetir, é preciso dizer que ninguém quer a Suderj e seu prontuário de homúnculos de volta como sempre foi. Mas dizer isso sem ter a certeza de que o que veio depois faz aquela escumalha da Suderj parecer uma turma de normalistas perto dos beneficiários do presente de Cabral para alguns de seus doadores de campanha. E que o primeiro momento era obviamente reinstaurar o mínimo de moralidade, botando pra correr com altivez os beneficiários do presente de Cabral. Falar da inominável Suderj e achar melhor o consórcio é bem típico daqueles que se acostumaram a apontar o dedo para o guarda que recebe o suborno e preferem ignorar a outra parte.

Não existia ninguém naquela mesa para pensar um pouco além do umbigo, da matemática medíocre que prefere calar diante do descalabro e contar seus lugares no circo de horrores. Ou reinvindicar uma migalha na venda do cachorro-quente, achando que isso é gestão. Não tinha ninguém para dizer que a obra foi feita ao arrepio da lei. Para dizer que não se dobravam a uma ação entre amigos. Da obra de mais de um bilhão. Dos quais R$ 400 milhões saíram do BNDES e o resto do governo do estado. Que falta fazem estadistas entre os nossos cartolas.

Para aqueles que se arvoraram a achar que a tragédia era tomar dessa turma o presente do governador e se reinstaurar o mínimo de legalidade, seguem alguns números do dinheiro conseguido por Eike Batista, um dos concessionários, junto ao BNDES. Em documento obtido junto ao BNDES, o tamanho da bolada. Pela primeira vez, todos os centavos do BNDES para Eike relacionados e descritos. R$ 10,5 bilhões. Fora benefícios indiretos, como os R$ 400 milhões do banco para a obra no Maracanã, que depois viria a ser do empresário, antes de ver sua fortuna derreter. (em recente entrevista ao Globo, o banco afirmou que do valor dos R$ 10,5 bilhões de empréstimos aos grupos de Eike, "os efetivamente contratados ficaram em torno de R$ 6 bilhões". E ninguém naquela mesa acabou com isso. Faltavam homens com estatura para isso.

Além da tabela, seguem duas breves questões para o economista Mansueto Almeida, do IPEA, sobre os empréstimos.

1- O que pensa dessa relação e da quantidade de empréstimos do BNDES para empresas de Eike Batista?

O que o BNDES fez com o grupo EBX é mais ou menos a mesma coisa que fez com outras grandes empresas: apostou que o grupo se tornaria uma grande multinacional brasileira e que o dinheiro investido estava sendo bem aplicado. Aqui temos que separar duas coisas. Primeiro, os bancos privados e investidores também fizeram essa aposta que parceria ser de baixo risco, dado que o Brasil tem uma grande reserva de petróleo. O que se precisa discutir é como uma empresa privada conseguiu "enganar" o mercado com dados de extração de petróleo que hoje se sabe que eram irrealistas.

Segundo, ao que parece, o grupo EBX não teve dificuldades para conseguir financiadores privados e, assim, os empréstimos do BNDES poderiam ter sido menores. Isso vale independentemente do problema atual. Ou seja, não havia porque o BNDES ter emprestados tanto para um grupo que atuava em um setor que o Brasil tem clara vantagens comparativas mesmo que os empreendimentos tivessem

2- Sobre as garantias: muitos desses empréstimos tem como boa parte das garantias as chamadas "garantias corporativas" de empresas do próprio grupo em questão. No entanto, foram tomadas quando o valor estimado dessas empresas era absolutamente distinto do que valem efetivamente hoje. É exatamente isso? E o que significa para o BNDES?

Não sei exatamente qual é a perda potencial do BNDES com essas garantias corporativas. Mas esse parece ter sido um erro comum não apenas do BNDES mas também de bancos privados. O problema de um banco público, no entanto, é que a justificativa para aplicar recursos públicos em empreendimentos privados deve se pautar pela existência de benefícios sociais superiores ao benefício individual para a empresa ou grupo empresarial.

O nosso BNDES parece atuar muito mais como mero fornecedor de crédito subsidiado baseado no retorno individual de projetos. Mas essa é justamente a lógica de bancos privados e de investidores de riscos.

No caso em questão, o que preocupa é a possibilidade de o banco ter uma grande perda com essas garantias corporativas sem absolutamente nenhum aprendizado, pois se trata de um investimento em uma atividade (extração de petróleo, siderurgia, portos, etc.) que já conhecemos a estrutura de custo. Em resumo, o que me incomoda é o tamanho da perda em conjunto como fato que o BNDES não precisava ter investido tanto dinheiro em um grupo que atuava em atividades que havia interesse de bancos e investidores privados.

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Na mesa com Cabral e o dinheiro do BNDES para Eike

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Revés na justiça aumenta crise e ameaça o líder Botafogo

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro
Gazeta Press
Seedorf admitiu que se desentendeu com o lateral direito Gilberto durante a vitória por 3 a 1 sobre a Portuguesa
Botafogo, de Seedorf, está com receitas bloqueadas

O reconhecimento pelo profissionalismo e postura profissional é unânime. No entanto, os jogadores do Botafogo, líderes do campeonato apesar dos salários atrasados, tem cada vez menos perspectivas e luz no fim do túnel para receber os salários que tem direito e os próximos. Uma situação que pode custar um tão esperado título nacional, que não vem desde 1995. Desde o último dia 31 de julho, o clube tem boa parte de suas receitas bloqueadas com a revogação, por parte do Tribunal Regional do trabalho (TRT), de ato que impede ao Botafogo seguir, assim como os demais clubes do Rio, centralizando as execuções por parte da justiça do trabalho.

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O Ato significa que o Botafogo está excluído de ser beneficiário da resolução que permitia aos clubes, no lugar de ter receitas penhoradas, (tais como verba de direitos de transmissão e rendas), passarem a ter uma porcentagem (no caso do Botafogo, 20%) do arrecadado diretamente distribuída para pagamento das dívidas trabalhistas. Pelo acordo, os clubes pagavam a porcentagem estipulada e evitavam a penhora dessas outras receitas. Desde o último 31 de julho, o Botafogo está excluído do ato que beneficiava também o clube e permitia a entrada de renda sem risco de penhora.

Em vigor desde a publicação pelo Diário Oficial do Estado do Rio, no dia 31, o Ato permitirá a penhora dessas diversas fontes de renda do clube, no lugar do então vigente ato para pagamento apenas da porcentagem.

A resolução foi tomada em razão de o Botafogo ter criado empresas que passaram a receber as rendas do clube e estas empresas não repassarem a porcentagem devida para execução. Considerado como uma estratégia que não cumpria o Ato nº 837, de 2007, o clube foi excluído do acordo.

Assim, no lugar de pagar apenas porcentagem das suas rendas para suas dívidas trabalhistas, o clube poderá novamente ver penhoradas suas rendas para pagamento da enorme fila de processos na justiça trabalhista.

Uma fonte do TRT ouvida pela reportagem diz que a exclusão do Botafogo de tal ato e do benefício é devastador para as finanças do clube e mesmo para o futuro próximo, com desdobramentos imediatos para a entrada de novas receitas. "Está quebrado. Literalmente. Caso não consiga reverter tal decisão, o Botafogo está quebrado."

Procurado pela reportagem através de sua assessoria de imprensa, o departamento jurídico do Botafogo respondeu que "está recorrendo da decisão que o excluiu do Ato Trabalhista, esclarecendo que a empresa da qual é acionista (Companhia Botafogo) foi constituída em 28/01/2004 atendendo ao disposto na Medida Provisória no. 79/2002. Cabe ressaltar que o Ato Trabalhista teria sua vigência encerrada em dezembro de 2013."

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Revés na justiça aumenta crise e ameaça o líder Botafogo

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Armas não letais, vagas de garagem e cursos: segurança da Copa já consumiu R$ 500 milhões

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro, blogueiro do ESPN.com.br

"Estádios versus hospitais e escolas". A discussão que tomou conta do Brasil desde que o país foi escolhido como sede de grandes eventos, e envolveu até Ronaldo Fenômeno, pode ganhar força e novos argumentos para os críticos dos gastos "Padrão Fifa". É o que revelam os contratos assinados pela Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos (SESGE), subordinada ao Ministério da Justiça, obtidos por esta reportagem. Os acordos mostram que os gastos federais com os grandes eventos vão muito além de estádios, passando por armamentos, cursos de inglês e vagas de garagem para seus diretores. O governo federal teve um gasto de quase quinhentos milhões de reais ( R$ 484.424.678,32 ) com a secretaria que cuida da segurança dos grandes eventos entre os anos de 2011 (quando foi criada) e 2013.

Mais de setenta milhões (R$ 71.254.343,10) foram comprometidos com a compra de artigos de repressão, tais como bombas de efeito moral, gás de pimenta e cartuchos de balas de borracha, amplamente utilizados nas manifestações recentes do país. Exatos R$ 120.890,40 para que funcionários e diretores da SESGE façam cursos de inglês e R$ 84.240,00 para locação de doze vagas de automóveis para diretores da SESGE também foram consumidos.

O contrato de quase cinquenta milhões de reais com a Condor S.A. Indústria Química inclui 449 kits não letais de curta distância com cartuchos de balas de borracha e cartuchos de impacto expansível - balas que se expandem em contato com a pele evitando a perfuração e 2,2 mil kits não letais de curta distância, com sprays de pimenta e espuma de pimenta e granadas lacrimogênea com chip de rastreamento.

Reprodução/Lúcio de Castro

No arsenal comprado pela SESGE, estão ainda 8,3 mil granadas de efeito moral, 8,3 mil granadas de luz e som, 8,3 mil granadas de gás lacrimogêneo fumígena tríplice e 50 mil sprays de pimenta e 1,8 mil armas elétricas para lançamentos dardos energizados - as pistolas taser. A empresa é a principal fornecedora deste tipo de equipamento no Brasil, além de fornecer para mais de 40 países. Seus armamentos foram amplamente utilizados na "Primavera Árabe"e na repressão das manifestações brasileiras durante a Copa das Confederações e são questionados por grupos de direitos humanos, como o "Tortura Nunca Mais".

A verba federal contempla o pagamento de curso de inglês para membros da secretaria, entre eles quatro diretores. Questionada por esta reportagem sobre a contratação de curso de inglês com a "Casa Thomas Jefferson", sobre a existência de licitação para tal e sobre quem eram os beneficiários, a SESGE respondeu que "...a contratação mostrou-se vantajosa...verificou-se que os valores praticados por essa instituição estavam compatíveis com o mercado". A SESGE explica ainda que os "servidores destacados para a realização do curso de inglês exercem cargos que exigem o conhecimento da língua...O contrato contempla a participação de 13 colaboradores (1 secretário, 4 diretores, 2 assessores, 2 coordenadores gerais e 4 servidores).

Quanto ao contrato para contratação de 12 vagas de garagem no Terminal Menezes Cortês, no centro do Rio de Janeiro, no valor de R$ 84.240,00, a SESGE esclarece que a necessidade se dá em função da "inexistência de vagas de garagem no prédio da Caixa Econômica Federal, onde a Diretoria de Operações fica localizada". O prédio da CEF fica no centro do Rio, em área amplamente coberta por transporte público. "Coube inexibilidade de licitação em decorrência da inviabilidade de competição, sob o fundamento de que não há outro local ou edifício garagem que seja capaz de atender o objetivo do contrato", respondeu ainda a SESGE aos questionamentos da reportagem.

Reprodução/Lúcio de Castro

Foram encaminhadas a SESGE também questões relativas aos contratos assinados com a ACECO TI, responsável por instalações de salas-cofres nos Centros de Comando e Controle Nacional nos estados-sede das competições. Foi questionada a a razão para o contrato 3 (2013), de número 08131.002421/2013-14, no valor de R$ 14.061.419,47, para fornecimento e instalação de duas soluções de sala-cofre (Manaus/RJ), ter valor semelhante ao contrato 7 de 2013 (08131.003837/2013-50), no valor de R$ 14.697.278,00, que, no entanto, tem como objeto "fornecimento para implantação de uma solução de sala-cofre (São Paulo)". Foi encaminhada a questão: Por que a implantação de uma sala-cofre do contrato 7 tem preço mais alto do que as duas instalações a que as duas instalações do contrato 3?

De acordo com a SESGE, "...cada sala-cofre foi idealizada de acordo com a infraestrutura física das edificações disponibilizadas pelo estado-sede. De acordo com a complexidade física de cada prédio e volume de informações e de equipamentos a serem protegifos, as salas-cofre foram definidas. Assim, cada sala-cofre tem dimensões diferentes e consequentes custos". A ACECO TI respondeu que o contrato 3 se refere a instalações de dois Centros Integrados de Comando e Controle - CICC (Manaus e Rio de Janeiro), sendo que a Sala Cofre do Rio de Janeiro foi de 42 m2 e a de Manaus de 29 m2, sendo seus escopos proporcionais a estas necessidades. Considerando que no caso do Rio de Janeiro a instalação foi feita em um edifício novo onde já tinha uma infraestrutura mais adequada, construída para ser um CICC . O contrato 7 se refere a instalação do CICC de São Paulo que tem uma Sala Cofre com 62 m2 que levou em consideração o volume de equipamentos a ser instalado e um volume de infra estrutura maior.

A consultoria de mais de nove milhões de reais da KPMG (R$ 9.944.000,00) também não foi licitada. "Trata-se de contratação por inexibilidade- singularidade do objeto-, para prestação de serviços de consultoria especializada com o objetivo de elaborar Projetos Básicos e Termos de Referência dos Centros Integrados de Comando e Controle - CICC, que estarão aptos a serem licitados, prestando apoio ao desenvolvimento de protocolos e processos operacionais...O serviço de consultoria está contribuindo significativamente para a implementação de uma inédita política de segurança pública, com a utilização das mais modernas metodologias operacionais...O processo foi submetido à Consultoria Jurídica da AGU para análise e orientação anteriormente à contratação", respondeu a SESGE, através da Coordenadoria Geral de Administração, Licitações e Contratos.

Reprodução/Lúcio de Castro
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O choro de Cabral e o choro de Amarildo

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro


"Não me dão pena os burgueses
vencidos. E quando penso que vão me dar pena,
aperto bem os dentes e fecho bem os olhos.
Penso em meus longos dias sem sapatos nem rosas.
Penso em meus longos dias sem abrigos nem nuvens.
Penso em meus longos dias sem camisas nem sonhos.
Penso em meus longos dias com minha pele proibida.
Penso em meus longos dias".

("Burgueses", de Nicolás Guillén)


Nicolás Guillén é um poeta maior. Poeta e revolucionário. Quando essas duas coisas se juntam numa só pessoa, virtudes das mais nobres entre as outras, temos aqueles raros: os imprescindíveis. Teoria e prática, intelectuais e homens de ação...Guillén, Ernesto Cardenal, Marti... Pensei muito em Guillén na tarde dessa segunda-feira. Perseguido tantas vezes na ditadura de Fulgêncio Baptista, voltou para Cuba depois da saída do tirano. E quando alguns de seus algozes foram presos, perguntaram a ele o que sentia. Respondeu com o poema "Burgueses", (com trecho acima reproduzido).

Lembrei-me de Guillén ao ver o governador do Rio acuado, em tom choroso, pedindo ternamente, feito um menino indefeso, que os manifestantes deixassem de fazer seu legítimo protesto próximo a casa dele. Não teve o pudor em poupar o nome e a idade dos filhos para alcançar seu intento. Já não tivera pudor para botar os filhos no helicóptero do amigo empreiteiro da Delta. Mas crianças são crianças e sempre nos tocam. Por algum momento, tal qual o poeta, pensei que iam me dar pena. Por algum momento, pensei em considerar seus argumentos.

Mas tal qual o poeta, apertei bem os dentes e fechei bem os olhos. Pensei nos filhos de Amarildo, o pedreiro da Rocinha que sumiu depois de ser visto pela última vez nas mãos dos servidores de Cabral, símbolos da política de segurança do governador. Tal qual o poeta, pensei nos longos dias da mulher e dos filhos de Amarildo. Sem camisa nem sonho, com a pele proibida...São tantos Amarildos nesse Brasil onde pobres não tem sapatos nem rosas nem tampouco direitos. Muitos no Rio de Cabral, que nunca pensou no filho de nenhum deles.

Tal qual o poeta, pensei nos longos dias das famílias da Maré, dos trabalhadores assassinados sem qualquer razão. Cabral ainda não falou sobre eles...Poderia lembrar de tantos outros como os da Maré...Pensei nos longos dias das pessoas vítimas de crimes forjados, prática tão comum por aqui, mais ainda com a política de Cabral.

Pensei nos meninos da Escola Friedenreich. Alguém há de me lembrar que ela é municipal. Não esqueci. Mas está saindo para que o governador melhor sirva seus amigos que ganharam o Maracanã. Tal qual o poeta, pensei nos longos dias sem abrigo nem nuvens daqueles meninos. Alunos de uma escola de excelência, forjaram ouro no meio do nada. Imaginem o trauma desses meninos quando souberam que iam sair dali. Cabral pensou neles?

Pensei de novo nos versos citados do poeta, dos dias sem abrigo nem nuvens (que imagem!) das vítimas das remoções criminosas de todos aqueles que estão no caminho dos "grandes eventos". Quão longos e traumáticos devem ser os dias dos meninos que tem um "X" desenhado na porta da casa humilde indicando que ela será posta abaixo. Cabral pensou neles? Alguém novamente lembrará que muitas dessas remoções são municipais. A força que dá o pé na porta é estadual. E afinal, seria ser muito idiota da objetividade achar que @sergiocabralrj e @eduardopaes_ são tão diferentes assim.

Pensei nos longos dias dos meninos que iam pelos braços dos pais na geral do Maracanã. Viam o jogo na carcunda dos pais, naquele ritual que todo homem sonha, o rito da passagem. Agora exclusivo dos que podem pagar o setor vip. Do Maracanã ferida que não fecha, como definiu tão bem Pedro Motta Gueiros. Destruído por Cabral rasgando a lei. Destruído com aval do IPHAN na calada da noite, como agem aqueles que não são transparentes. Ele mesmo que agora diz não ser um ditador. Ele mesmo que publicou o decreto 44.302/2013, da CEIV, Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas, que rasgava a constituição. Quem rasga a constituição é o que? O governador de tantos atos de exceção.

Por sorte, a sociedade civil e todos seus instrumentos se fizeram representar e vem forçando essa recuada do ditador que sonhou ser, acuado, patético como todo ditador acuado. Espécie de Sadam Hussein no buraco, Kadafi na manilha. Ele, Cabral, desnudo em sua patética biografia que vai se desmilinguindo. Que há poucos dias tirou os mesmos manifestantes debaixo de pauladas e gases, sem pensar nos filhos deles, na calada da noite. Agora, na fragilidade do buraco e da manilha onde os ditadores se esvaem, apela para um discurso emocional.

Mesmo pensando em nossos longos dias, não deixaremos de pensar em duas crianças. Que não pediram isso. Oxalá possam lá na frente superar o trauma do pai ter deixado tal obra. Realmente elas nada tem a ver com tudo isso. Não precisam ver que na esquina do pai deles falam um monte de verdades sobre ele. Ainda bem que tem a opção nesses dias de sair dali. Ir por um tempo para o Palácio das Laranjeiras. Ou quem sabe para a Mansão de Guaratiba. Talvez não dê mais para ir de helicóptero, abateram o governador-voador, o do reino do guardanapo, em plena farra aérea. Mas ainda dá para passar uma temporada longe dos protestos na mansão comprada com o suor do trabalho do pai deles. Desejo isso do fundo do coração. Crianças não tem mesmo que passar por isso.

Lamento apenas que os filhos do Amarildo não tenham palácios ou mansões pra onde correr. Lamento apenas que os filhos da Maré não tenham para onde correr. Lamento apenas que os meninos que iam na carcunda do pai na geral do Maracanã não tenham para onde correr. Lamento apenas que os filhos dos removidos não tenham para onde correr. E então, "quando penso que vão me dar pena, aperto bem os dentes e fecho bem os olhos". Pela certeza de que os acampamentos seguirão. Até que se preste conta de tudo. E para que se saiba que foi longe demais na farra.

 

Ps- se botar um pouquinho a cabeça para fora do buraco ou da manilha, o governador vai ver que as pessoas passam pelos acampados buzinando, abrindo a janela dos carros, gritando palavras de força. Para aqueles acampados pacificamente, vale dizer. E que os vizinhos, que poderiam estar incomodados, levam refeições, agasalhos. Pelo menos se pouparia de perder tanto tempo pensando em teorias da conspiração, manipuladores. É apenas a conta de tanto desmando que chegou. É aquela turma da "pele proibida" que veio cobrar a conta.

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Sobre vândalos, vandalismo e a concessão do Maracanã

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro

VANDALISMO-
[Do fr. vandalisme.]
S. m.
1. Ação própria de vândalo.
2. Destruição daquilo que, por sua importância tradicional, pela antiguidade ou pela beleza, merece respeito.

Vandalismo. Foi a palavra mais usada no último mês. Repetida infinitamente e sem parcimônia a cada reportagem ou editorial. Vociferada pelos Jabores da vida. Naquele nível que chega a incomodar. E a parecer coisa bem amarrada. Cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça e quem conhece dois tostões da nossa história sabe como essas coisas são... O foco desviado, as repetições que têm por finalidade introjetar uma ideia ou conceito sobre algo, a deturpação na exposição dos fatos... Linguagem e ideologia, como sempre, caminhando lado a lado.

Foi pensando na sistemática repetição de "vandalismo" e "vândalos" no noticiário do último mês que me lembrei de Marilena Chaui no seu já bem distante "Convite à Filosofia", que parece ter sido escrito ontem. "Sem deixar que os sujeitos envolvidos nas ações se manifestem espontaneamente, a ideologia abafa a essência dos acontecimentos (discurso das coisas), valorizando a aparência dos acontecimentos, a interpretação (discurso sobre as coisas)", diz a filósofa.

Tivemos de tudo no último mês. Infiltrados, nazifascistas e ultraconservadores no meio de protestos legítimos. Teve também gente desqualificada cometendo o pecado de apedrejar o Itamarati, o Paço Imperial...Mas destacar isso acima de tudo o que aconteceu nas ruas é Marilena de volta em estado bruto ("a ideologia abafa a essência dos acontecimentos").

Tentar entender tudo isso que acontecia e o foco do noticiário no "vandalismo" era antes de qualquer coisa buscar a essência e semântica da tal palavra-chave. Afinal, quem são os grandes vândalos dessa história, quais são os grandes atos de vandalismo? Em que pese, como citado aqui, que nada justifique uma pedra em direção ao colosso que é o Paço Imperial. Que nada tem a ver com a essência do que está na rua.

Responder a essa pergunta é antes de qualquer coisa resgatar o sentido completo da palavra. Por isso esse texto começa com a citação ao velho companheiro Aurélio: VANDALISMO- "Destruição daquilo que, por sua importância tradicional, pela antiguidade ou pela beleza, merece respeito".

Que achado, que descoberta... Tão simples, esteve sempre ali, repousando no velho Aurélio! Pois vandalismo então é "destruição daquilo que, por sua importância tradicional, pela antiguidade ou pela beleza, merece respeito"!!! Resgatado o sentido original e completo, agora podemos partir para tentar entender: quem são os grandes vândalos dessa história, de quem são os grandes atos de vandalismo.

Comecemos pelo Maracanã. Aqui não há espaço para dúvidas. Estamos falando de vandalismo na essência da palavra. Destruíram um bem tombado, passaram por cima da lei, "destruição daquilo que, por sua importância tradicional, pela antiguidade ou pela beleza, merece respeito". Fiz matéria em parceria com Gabriela Moreira comprovando a surreal história de destruição do estádio. Fora da lei. Sem mais. Vandalismo. Quem são os vândalos?

Vale também ver a reunião do conselho consultivo do IPHAN, aqui reconstituída. Os conselheiros não tiverem meias palavras sobre a obra no Maracanã: "Crime".

O gritante caso de vandalismo vai além. Destrói, subtrai e faz uso espúrio do dinheiro público. O seu, meu e nosso. Em um caso único de falta de pudor: um bilhão e quebrados gastos na obra do Maracanã para no dia seguinte ao fim entregar por menos de 600 milhões.

Vale a pena também ver o trecho da entrevista do diretor do novo consórcio Maracanã, João Borba, para Gabriela Moreira. Sem meias palavras, o sujeito que usa como exemplo Wimbledon para padrão de comportamento do torcedor, diz com todas as letras que se as obras não tivessem sido feitas pelo estado não seria um bom negócio para o grupo que ganhou o Maracanã.

Até porque as obras mudaram a arquitetura do estádio, e essas mudanças possibilitaram a elitização expressa no contrato com o novo concessionário. Se linguagem e semântica tem ideologia, a arquitetura, como tudo, também tem. A ação entre amigos está explícita na sem pudor entrevista, com 2m52s. A confissão de que ganharam de presente o estádio depois que nós pagamos a reforma. Sem o que não valeria a pena para a turma do guardanapo e para os que emprestam jatinhos e ganham estádios.

São tantas histórias de destruição do patrimônio público e do seu, meu e nosso por parte do governador-voador. Quem são os vândalos, de quem é o vandalismo? Quem autoriza entrar de helicóptero atirando na favela? Quem autoriza entrar na Maré matando? Quem autoriza jogar bombas de gás num hospital?

A boa matéria de Isabel Clemente na Revista Época no fim de semana, antecipando o acerto com empreiteiras para obra do estado e o resultado de licitações, com parte da mesma turma do Maracanã, é impressionante. Alguma dúvida para responder a pergunta feita aqui tantas vezes? Quem são os vândalos? Quem fez vandalismo? Procure e veja a reportagem, vale a pena.

A história há de botar as coisas no devido lugar. Ela sempre cuida das coisas. Mas como talvez eu não tenha tempo de esperar, gostaria imensamente de ver os preceitos republicanos reinstaurados no meu estado. Antes do inexorável julgamento da história, urge a plena consciência de quem são os maiores vândalos, quem tem feito atos de vandalismo.

E quanto ao Maracanã, não é possível mais existir qualquer dúvida: a farra da concessão tem que ser revista, investigada e julgada. Urgentemente. Para que possamos olhar para frente de cabeça erguida, com a certeza de que o Brasil vai cumprir seu destino imenso da "civilização original", de Darcy Ribeiro. Tropical, mestiça e humanista, como sonhou o gênio da raça. Tantas vezes representada na mistura do antigo Maracanã. E não o que está no projeto de alguns: ser uma República dos Guardanapos.

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Dilma exalta Lei de Acesso à Informação. Patrocinador do vôlei não cumpre

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro

Um ponto em comum marcou os dois pronunciamentos da presidenta Dilma Roussef nos últimos dias, em resposta aos movimentos que tomaram as ruas brasileiras: o papel central conferido pela mandatária para a Lei de Acesso à Informação como instrumento fundamental de transparência e no combate à corrupção.

Sancionada em 18 de novembro de 2011 juntamente com a criação da Comissão da Verdade, a Lei de Acesso foi saudada por "garantir o acesso à história do país e reforçar o exercício cotidiano da fiscalização do Estado". No mesmo discurso, Dilma destacou a "proatividade" que os cidadãos adquirem ao ter mais poder de controle e fiscalização perante o Estado, o que reverterá em benefício para toda a sociedade e no fortalecimento da cidadania.

De volta ao noticiário e protagonista nas ações planejadas pela presidenta para aplacar o clamor das ruas, a Lei de Acesso no entanto não tem sido cumprida em sua amplitude. Beneficiadas por um decreto posterior a promulgação que restringiu a divulgação dos dados de empresas públicas em regime de concorrência, grandes patrocinadoras de instituições como confederações e clubes tem muitas vezes negado acesso aos requerimentos de informações.

Diante das manifestações, clamor das ruas e dos recentes pronunciamentos da presidência, não é possível ainda saber se tais procedimentos serão modificados. Em 2012, o Banco do Brasil negou um pedido de acesso desta reportagem sobre os contratos e documentos relativos ao patrocínio da Confederação Brasileira de Vôlei.

Na resposta, a empresa limita-se a enumerar as conquistas do vôlei nacional, já de amplo conhecimento público. Contestada em recurso, a resposta voltou a ser de indeferimento. As datas, solicitações e resposta do Banco do Brasil estão reproduzidos abaixo. Durante parte do contrato, o responsável pela relação entre a empresa e a CBV foi o diretor de marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato, condenado no julgamento do mensalão.

No fim do ano passado, a Caixa Econômica Federal (CEF) também negou acesso ao contrato assinado com Corinthians. O facultamento ao acesso tem sido subjetivo nas diferentes empresas públicas patrocinadoras do esporte brasileiro, mesmo nas regidas e enquadradas em regime de concorrência, como Eletrobrás e Petrobrás. As duas últimas forneceram as informações desejadas quando acionadas pela Lei de Acesso à Informação, ao contrário da CEF e do Banco do Brasil.

Diante dos novos ventos e determinações da presidência, não se sabe ao certo se o padrão de resposta e acesso será cumprido e unificado ou se seguirá sendo subjetivo, ao gosto da empresa.

As solicitações da reportagem e as respostas do Banco do Brasil seguem abaixo.

Peço que tuitem e copiem ao @blogplanalto

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REPRODUÇÃO DAS SOLICITAÇÕES E RESPOSTAS DO BANCO DO BRASIL



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Pedido inicial: 1/9/2012

Gostaria de solicitar os documentos e relatórios relativos a parceria/patrocínio entre o Banco do Brasil e a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) desde 1991.

-----------

Resposta: 12/9/2012 (classificação: informação sigilosa de acordo com legislação específica

 

Senhor Lúcio de Castro,

 

Em atenção à solicitação de informação recebida em 01/09/2012 sob protocolo número 99901000608201290, com base na Lei nº 12.527 de 18 de novembro de 2011, informamos:

 

2. A parceria entre o Banco do Brasil e a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) teve início em 1991 e compreende o patrocínio às Seleções Brasileiras de Vôlei de Quadra e Praia e ao Circuito Banco do Brasil de Vôlei de Praia em todas as categorias.

 

3. Durante os 21 anos de parceria entre CBV e BB, o voleibol brasileiro conquistou 18 medalhas a saber: 05 no vôlei de praia feminino (ouro e prata em Atlanta/1996, prata em Sydney/2000, prata em Atenas/2004 e bronze em Londres/2012), 05 no vôlei de praia masculino (prata em Sydney/2000, ouro em Atenas/2004, prata e bronze em Pequim/2008 e prata em Londres/2012), 04 no vôlei de quadra feminino (bronze em Atlanta/1996 e Sydney/2000 e ouro em Pequim/2008 e Londres/2012), 04 no vôlei de quadra masculino (ouro em Barcelona/1992 e Atenas/2004 e prata em Pequim/2008 e Londres/2012).

 

4. A documentação referente a esse patrocínio, bem como os valores da transação, estão protegidos por sigilo comercial. Trata-se de informações estratégicas para o Banco do Brasil, que podem influenciar a negociação de novas propriedades esportivas.

5. Colocamo-nos à disposição para outros esclarecimentos que se fizerem necessários.

---------

Recurso: 18/9/2012 (Ausência de justificativa legal para classificação

 

Prezados responsáveis pela resposta (em 1/9/2012) ao meu pedido de informação sob protocolo número 99901000608201290, com base na Lei nº 12.527 de 18 de novembro de 2011:

 

A resposta que me foi enviada é desprovida de respaldo na Lei de Acesso à Informação. De acordo com a resposta, o acesso aos documentos referentes ao patrocínio envolvendo o Banco do Brasil e a Confederação Brasileira de Vôlei é "protegido por sigilo comercial". No entanto, os termos da lei não contemplam tal "sigilo comercial".

 

De acordo com a Lei 12.527, de 18 de novembro de 2011, "informações classificadas como sigilosas" são aquelas consideradas imprescindíveis à segurança da sociedade nos seguintes itens: à vida, segurança ou saúde da população. Senão, no que se refere à segurança do Estado em relação aos seguintes itens: soberania nacional, relações internacionais, atividades de inteligência.

Portanto, o sigilo comercial não está contemplado na segurança da sociedade nem do Estado.

 

Não bastasse a clareza da Lei 12.527 sobre as solicitações sujeitas ao sigilo, vale dizer ainda sobre a fraqueza do argumento que os valores do patrocínio, valores a receber, valores da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) em depósitos em contas no Banco do Brasil estão disponíveis no site da entidade (CBV), sendo portanto mais insustentável tal argumentação por parte de uma entidade pública, sujeita ao rigor da Lei 12.527, de Acesso à Informação.

 

É de se lamentar ainda que o espaço para informação e resposta de um requerimento público de acesso tenha sido usado para informações sobre os resultados esportivos da parceria entre o Banco do Brasil e a CBV, numa exaustiva enumeração das conquistas do vôlei nacional desde 1991 até a data de hoje. Informação essa que obviamente já é de domínio público, não precisando portanto ser usado o espaço de resposta para solicitação de acesso à informação para tal.

No aguardo de maior transparência por parte da entidade e da correta leitura da Lei 12.527, subscrevo-me,

Lúcio de Castro

Em 24/9/2012 o recurso foi novamente indeferido.

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Explicações? Menosprezaram a história de luta do brasileiro

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro


Juan Arias é um premiado e competente intelectual. Homem de formação sólida, ocupou nos últimos anos ao posto de correspondente do bom jornal espanhol El Pais no Brasil. Sua inquestionável formação não o livrou de um imenso lapso ao reportar e analisar as manifestações que pipocam Brasil afora nos últimos dias. No dia 12 de junho, com os protestos engatinhando e parecendo ainda apenas serem contra um aumento de vinte centavos nas passagens, abriu seu relato com as seguintes palavras: "Brasil, pouco acostumado a protestar na rua, desta vez se levantou nas principais cidades do país contra o aumento das passagens do transporte público."

O jornalista desconhece a essência do que construiu boa parte da história do Brasil: sangue, protestos, manifestações, revoltas. Dezenas, centenas, milhares de revoltas. Nada por aqui foi conquistado sem reivindicação e muita revolta. Justiça seja feita, não está sozinho em sua desinformação. Muita gente boa por aqui acredita nessa história oficial e nesse chavão que pretendeu rotular o povo brasileiro como "bundão". Um rótulo conveniente e disseminado não à toa por quem tem tal interesse.

Um olhar sobre a história do Brasil é mergulhar na história de um povo que lutou e luta para driblar o projeto original (ou a ausência dele) que estava previsto desde sempre para ele: ser mão de obra desqualificada, ser escravo, ser trabalhador braçal sem direitos. E se hoje esse projeto está desmoralizado, e o país tem um papel importante no mundo, é porque muito sangue rolou. E esse projeto não foi aceito com conformação.

Desde sempre estava expressa a vontade soberana de um povo em não aceitar dominações vindas de fora. Já vão longe, mais de quatro séculos, a Confederação dos Cariris, a Revolta da Cachaça, do Sal, e tantas outras. Vieram os Mascates, os confederados do Equador, a revolução Pernambucana. As Conjurações. Mineira, Carioca, a Conspiração dos Suassunas, Praieira, Mascates. Diferentes razões, muitas vezes diferentes camadas sociais, mas, na maior parte delas, o sentimento de ser senhor da própria história.

Foram dezenas de revoltas indígenas. Outras tantas escravas e negras. O Maranhão com seus Balaios, a Bahia de tantas e inúmeras revoltas lutas pela independência, da Conjuração, dos Malês, da Sabinada, dos Guanais e da Guerra do Conselheiro, Belém e seus Cabanos, o Rio de João Cândido contra a Chibata e da Vacina e tantas outras que adoro o nome, como "Mata-Galegos", o sul da Farroupilha, do Contestado, as revoltas paulistas. Mesmo as mulheres brasileiras, muito a frente do seu tempo, viveram em Natal sua revolta. Tem tanta coisa, tanta história de revolta em nossas páginas que forçosamente irei cometer o pecado da omissão.

Com uma história dessas, por que diabos esses caras acreditaram quando tentaram nos jogar a pecha de bundões? Se a intenção era alimentar a conformidade, falharam. Basta lembrar mais uma, que já ia sendo omitida: a Revolta do Vintém, no Rio do fim do século XIX, que tanto tem a ver com o que acontece agora. Começou contra o aumento do bonde e virou algo bem maior.

Aqui vale a pequena digressão: a história da polícia militar e sua criação nesse país, a mesma que agora reprime passeatas sem o menor preparo e com inacreditável violência, a mesma que mata e tortura todos os dias na periferia (com as exceções de praxe), está intimamente ligada aos protestos de nossa gente. A primeira polícia nasce no Rio, sempre ao lado da corte. Depois, nos anos 30 do século XIX, vem as demais, com o intuito inicial e preponderante de reprimir as revoltas populares, que gritavam nas ruas contra a legitimidade do monarca que chegava. Nasce com o DNA e a função preponderante de bater em pobre, preto e povo. Com a certeza de que isso não é crime. A certeza dessa impunidade cresce nos anos de chumbo. O que se vê agora é apenas a sequência dessa trajetória. Que enquanto não for refundada, enquanto não se passar a limpo a história do país, dos crimes de estado, sempre será assim.

Voltemos as revoltas que marcam nosso povo. Veio o século XX e mais uma vez o povo tava nas ruas. Sempre. Perdoai, falar que é uma gente "pouco acostumada a protestar nas ruas" é desconhecer o histórico da mudança de uma capital. Pois mudaram uma capital, construíram uma cidade nova no meio do nada com a ilusão de que os governantes estariam livre de pressão. Governar no Rio não era fácil...Panela de pressão. Povo na rua o tempo inteiro...

Por uma dessas ironias, deixaram o projeto para Niemeyer. Humanista de corpo e alma, pensou com sua pena lugares e grandes vãos para protestos, para que o povo ocupasse. Num de seus desenhos, sentenciou que um dia a praça seria do povo e que nesse dia os direitos humanos e as liberdades "seriam conquistas irreversíveis". Mais uma vez o projeto de alijar o povo dava errado. Brasília virou um caldeirão de protestos semanais. Os anos de chumbo, muita gente boa caindo, cem mil nas ruas... A redemocratização, Diretas Já, milhões na rua. Tem pouco tempo, e o povo botou um presidente pra fora. Bundões? Podem querer relativizar, dizer que foi por isso, aquilo, mas sem a gente das ruas gritando, fazendo sua hora, nada teria acontecido...

E eis que estamos na rua novamente...A dificuldade de alguns em entender o que está acontecendo é o desconhecimento de nossa história, de nossa gente, de nossa essência.

O temor de muita gente boa em ver o que é legítimo com alguma desconfiança tem suas razões. O medo de desandar, dos oportunistas, daquela turma que marchou com Deus pela liberdade. (O temor de ter que relembrar a genialidade de Zé Keti: "Marchou com Deus pela democracia/ agora chia/ agora chia"!). Da mesma turma que outro dia pedia que a polícia metralhasse a favela e agora reclama. Quando o clima é de barata voa e a boiada estoura, os oportunistas sempre tentam fincar sua bandeira. Num país que nos últimos anos fez imensos progressos, a brecha para fincar a bandeira do oportunismo andou pequena. Mas nada deve ser temido. Povo na rua nunca deve ser razão de temor. Mesmo as eventuais distorções não podem assustar. A história não tem pressa. Mesmo a eventual despolitização que tentam impor ao movimento não passa.

Chegamos aos dias de hoje. Nesse caldeirão que tanto dificulta a análise dos nossos cientistas sociais, um elemento não pode ser esquecido e é dele que tratamos até aqui: menosprezaram demais um povo que tem em seu DNA os protestos e a revolta. Acreditaram na história do povo bundão. Valendo-se de bons ventos da economia, de inegáveis indicadores que melhoravam, iniciou-se uma farra. Cujo ápice tem a ver com nossa seara de esportes. Em nome da Copa do Mundo, em nome da Fifa, foram entregando tudo, passando por cima da lei. É claro que não digo aqui que esse é o estopim. Seria ridículo. Mas isso é elemento forte desse caldeirão. A farra do boi que some com milhões e constrói obras faraônicas, a volta do estado de exceção, com remoções à margem da lei imperando. Um templo sagrado destruído no Rio igonorando a lei como foi o Maracanã enquanto o mandatário estava em Paris de guardanapo na cabeça. Não foi uma nem duas vezes que escrevi aqui em textos antigos ou falei em nossos programas que isso teria uma resposta da população, que era uma falta de conhecimento de tudo achar que iriam seguir brincando e sumindo com dinheiro e nada aconteceria. Vinha gente de fora e debochava, falando em "dar um chute no traseiro. Elimina-se o povo da festa. Em algum momento vem a conta. Estive nas ruas hoje. Lembrava do Maracanã quando o povo xingava o Cabral...Escrevi tantas vezes que a vingança viria...Tinha motivos para estar especialmente comovido com tudo.

Como foi possível um governador destruir um símbolo por cima da lei e entregar ao amigo que empresta jatinhos? Como foi possível um prefeito ignorar lei ambientais, modificar, para permitir empreendimentos imobiliários, campos de golfe? Mais incrível foi terem achado que iam fazer tudo isso e não prestariam contas nas ruas.

 

Foi Eduardo Galeano que exemplarmente definiu o que foi o período na mineração no Brasil, dizendo que "o ouro deixou buracos no Brasil, templos em Portugal e fábricas na Inglaterra". Tantos anos depois, nos vemos diante do mesmo fenômeno. Agora é uma copa de confederações, uma copa do mundo, que vai deixando buracos no Brasil, ouro na Fifa e na conta de alguns.

Dá pra imaginar o que passa na cabeça da presidenta a essa altura. Se arrependimento matasse...Ah, essa copa...Ah, essas Olimpíadas...Dona de bela biografia de luta e resistência, tem mil pecados e responsabilidades nisso tudo, principalmente porque não soube dizer não a uma situação e acordos que herdou. Até ter que engolir o aperto de mão com José Maria Marin. Se omitiu em tantas coisas... E a óbvia maldade risonha de Blatter rindo ao botar fogo na vaia do estádio. Quem muito se abaixa... Quem muito faz concessão. Nessa história toda, está ficando sozinha com o ônus. Lula, que depois de rasgar sua biografia perdeu o pudor em tudo, segue rindo e lucrando com a copa, em suas viagens e palestras para empreiteiras. Fazendo lobby pra Ricardo Teixeira, Marin...Governadores, políticos, todos...Dilma ficou com o ônus. Pediu isso ao se omitir. Deixou Cabral rasgar a constituição e passar por cima dela no Maracanã. A alma dos removidos pesa, os milhões consumidos em elefantes brancos enquanto o povo pena nos hospitais e escolas debilitadas, no transporte. A conta chegou.

Está sendo cobrada por um povo acostumado a fazer isso. Por mais que ainda queiram dizer que não.

Ps- depois de testemunhar tudo que vi, sei que foram muito mais de cem mil. Ainda tenho muitas perguntas para fazer, tentar responder, várias coisas que não entendi ainda.  Os próximos dias vão dizer, ajudar a entender. Mas tenho certeza de uma coisa: o DNA de um povo que forjou sua história com muita rua e luta foi o decisivo. Muitas vezes brutalmente reprimido por um estado que sempre o deixou à margem. Se reinventando nas brechas, até a próxima luta ou revolta. Não menosprezem. Não tentem distorcer a história dele.

Quanto a Fifa, melhor botar as barbas de molho. Acharam que vinham para um passeio. Teriam um estado de exceção, removeriam casas, debochariam, dariam pé na bunda. Sempre com a cumplicidade colonizada e desonesta de alguns serviçais que vão levando suas generosas partes. Destruiriam nossos templos e nos deixariam de fora da festa. O povo no seu lugar de hábito mandou avisar que vai participar da festa. Do seu jeito. Como ele decidir. Soberano.

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Explicações? Menosprezaram a história de luta do brasileiro

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Mataram meu Maracanã. Podem chamar de Estádio Justo Veríssimo

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro, blogueiro do ESPN.com.br
Tem mais de um ano. Falava aqui dos vendilhões do templo. Para ser mais exato, em 2 de março de 2012. “Os vedilhões do templo – como querem acabar com o carnaval carioca” tratava também do Maracanã. Escrevi outros tantos textos sobre o fim do Maracanã. O sábado que passou foi o dia de enfim passar da teoria para a prática, confirmar tais expectativas.

Minto. Não era necessário confirmar tais expectativas. O fim do templo onde cultuávamos nossos deuses, o sagrado e o profano se misturavam na geral e arquibancada e tanto reis quanto plebeus estavam juntos já havia se confirmado. Na arquitetura do novo estádio que destruiu o antigo e muito mais do que isso: no papel, oficialmente, como no estudo de viabilidade econômica para o futuro administrador, curiosamente feito pela IMX, de Eike Batista, onde qualquer máscara vai abaixo, ao expressar “mudança do perfil do público”. Está lá no tal estudo, acima de qualquer discussão teórica. A constatação da elitização daquele que foi símbolo da mistura de classes na cidade não é passível de argumentação. Está no papel. É oficial.

Com muito penar percorri caminhos de uma vida toda no último sábado, quando o Maracanã seria reinaugurado”. Sabia que ia rever a velha namorada, ainda que ela não fosse mais a mesma. Mas amores são assim, é possível passar por cima de tudo. No fundo, ainda guardava a ilusão que aquela história de amor entre nós podia voltar. Como se o tempo voltasse...Pensava no momento em que sairia do túnel tantas vezes atravessado e daria de cara com aquele monumento. Encontrei tanta gente no caminho. Segurei o passo. Encontrar a velha namorada exige solenidade. Tinha que ser sozinho. Os versos de Vinícius não saiam da cabeça. Ia dar o último passo no túnel e o Maracanã seria como nas palavras do poetinha, a “me entreabrir a porta como uma velha amante”.

Bobagem, sabia tanto que a “velha amante”, a namorada dos melhores anos de nossas vidas não estava mais ali. Mas amantes são assim mesmo, só materializam ao constatar que acabou e se descobre a amada nos braços de outro.

Me desprovi de todos os conceitos anteriores. Se já era sabido que o sentido do velho Maracanã tinha ido abaixo com sua elitização, ao menos talvez fosse possível, com todas as ressalvas, constatar que realmente o novo estádio é bonito, moderno. Tudo o que se diz dos novos estádios por aí: ainda que matem tradições, histórias, são belos, funcionais, modernos.

Entrei com esse sentimento, tentando me desarmar de minhas ideias sobre o tema o mais possível. E aqui deixo meu relato do que vi, deixando para trás até mesmo a convicção de que nada desculparia tal mudança: o Maracanã acabou. Mataram o Maracanã. Se essa ideia de beleza do novo, moderno, apesar dos pesares, vale para outros, não vale para o Maracanã.

Pois obviamente o que fazia o belo, o impressionante do Maracanã era exatamente sua exuberância. Era ser monumental. Majestoso. Algo impressionante. Se sentir pequeno diante de tal obra. A epifania que era cruzar aquele túnel e se sentir tão pequeno. E ser abraçado pelo canto daquela gente. Epifania sim, sem medo de exagerar ou blasfemar. Algo que só se sente diante da força das águas das cataratas do iguaçu ou como chegar no último degrau de Machu Picchu. Ou do sol morrendo atrás dos Dois Irmãos. Poucas coisas podiam ser iguais aquele momento. Exagero? Quantos e quantos vindos de fora se exatasiaram com tal visão? Quantos craques tremeram ao deixar o túnel e cegar-se com a majestade do Maracanã? Quantos deram tanto de sua vida para um dia viver aquilo, seja no gramado ou na arquibancada...

Acabou. Quem viveu isso vai constatar e ver o mesmo. Acabou. Quando se chega ao fim do túnel, o Maracanã não está mais ali. Um estádio acanhado, bonitinho como outro qualquer. Bonitinho mas ordinário. Como será que deixou-se fazer isso? Quem cometeu essa boçalidade? “A força da grana que ergue e destrói coisas belas”. O Maracanã não era um estádio qualquer. Transformar o Maracanã numa “arena” (eles merecem mesmo esse nome ridículo) e achar que ficou mais bonito do que era, é destruir Machu Picchu, é achar que se pode deixar o pôr do sol mais bonito.

Talvez o argumento valesse para qualquer outro estádio. “Mudou tudo, elitizou-se, mas é preciso reconhecer que está mais bonito”. Não, no Maracanã não vale. Ora, será que não é tão óbvio saber que a beleza do Maracanã era aquilo tudo. Era seu aspecto monumental. Vejam que não estou falando de coisas imateriais, ainda que não se possa separar a beleza do Maracanã do grito da geral, da gente misturada. Estou falando sobre a boçalidade de destruir algo monumental, diferente de tudo para deixá-lo igual a outros tantos.

Pois eles conseguiram. O Maracanã agora é igual a outros tantos. Não chamem aquilo lá de Maracanã, por favor. Chamarei de Estádio Justo Veríssimo, aquele personagem do Chico Anísio que defendia a morte dos pobres, “quero que pobre se exploda”, dizia ele. È esse o novo espírito do monstrengo moderno que conceberam. Inócuo, um dragão que não cospe mais. Mataram o meu Maracanã, amor de toda uma vida.

Nesse momento, só me ocorre a frase do Dr Ulisses ao promulgar a constituição de 1988. “Tenho ódio e nojo à ditadura”. Pois como cidadão, carioca, brasileiro, traços indissolúveis de minha identidade, tenho ódio e nojo de quem fez isso com o Maracanã. Como jornalista, ainda que não acredite que uma profissão possa estar separada da cidadania, tenho apenas que contar essa história. Como fizeram isso? Quem fez isso?

Como fizeram isso com o Maracanã? Ele agora é mais um. Uma arena. Igualzinha a todas as outras. Não era. Era diferente de tudo. Mataram o amor de toda uma vida dos cariocas e dos brasileiros. Presidenta, você estava lá aplaudindo isso. Governador, você assina isso e responderá por todas as suas gerações. Todas as noites, até seu último dia, você vai ouvir o Gerdau, geraldino histórico do Maracanã gritando no seu ouvido, como fazia na geral: “Pra frente, chuta....!!!”. Todos os seus ouvirão. Não adianta botar o guardanapo na cabeça. O Gerdau estará lá. “Pra frente, chuta”...

Trataremos desse funeral com os rituais com que os povos conseguem superar seus dramas. Nenhum lugar, nenhuma cidade do mundo amou tanto um estádio como o Rio amou o Maracanã. Vivia no seu imaginário. Nenhuma cidade tinha em seus cantos um estádio. Como fizeram isso? É essa a modernidade? Lamento por alguns do bem que vejo ouvir o canto da sereia.

Trataremos desse funeral. Não sei como ainda. Mas esse povo sempre soube se reinventar. Sempre que a vida foi negada por aqui, em São Sebastião do Rio de Janeiro. Metáfora de um Brasil. E o Maracanã era a metáfora maior disso tudo. Acabou. Não sei como terá de ressurgir. Assim sempre foi a gente daqui. Lembrei-me de “Os Bestializados – O Rio de Janeiro e a República que não foi”, trabalho maior de José Murilo de Carvalho. Que nos dá conta de nossa história. De como fizemos e nos reinventamos em ginga, samba, futebol, capoeira e vida quando tudo era negado. Mais uma vez estamos diante disso, como lá atrás. De alguma forma nos reinventaremos. Ainda que agora seja tão difícil aceitar uma das maiores violências já cometidas contra a população do Rio, do Brasil. E contra a história. Mataram o Maracanã.
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Odorico, Paes, Cabral, Nuzman, o estádio que honra o nome e um documentário definitivo

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro


Não é preciso ser engenheiro. Tinha tudo para dar errado. Quando os interesses da população são os que menos interessam, mais dia menos dia a conta chega. No caso do Engenhão, que mais uma vez honra o nome do trânsfuga corrido por denúncias de corrupção, era uma questão de tempo. Terminado em correria desabalada porque aquela turma ilibada tinha que sair na foto da abertura do Pan, agora cobra a conta. Os 60 milhões de reais iniciais viraram 380 (!). Mas estavam na abertura Cabral, Paes, Nuzman. Como Odorico com sua pressa em inaugurar o cemitério, o resto (no caso, nós contribuintes), dane-se. 

Há algo extraordinário e definitivo para entender o que está acontecendo. A pressa é inimiga da perfeição e dos Odoricos. Está tudo lá. Vá ao you tube e bote esse endereço (está em 4 partes: http://www.youtube.com/watch?v=uiVXnyVFS7U‏ 

Ou basta botar no Google “feras da engenharia o engenhao”. Um documentário do Discovery mostra a razão de tudo (na verdade, foi feito para exaltar mas acabou servindo para mostrar como foi feito). Pressa. Necessidade de acabar tudo porque os Odoricos querem. E tome gambiarra. Não havia tempo. Se desse errado depois, e daí? Um monstro daquele, uma cobertura ousada arquitetonicamente, tocada sem maiores testes, com pressa. As placas de conexão não dão certo? Toma uma gambiarra. Os tubos tem problemas? Um reforcinho...Módulos amassados? Vigas amassadas? Se virem. Os odoricos precisam estar na foto. Está tudo no programa. 

Lá pelas tantas, a empreiteira Delta que toca a obra, (é, aquela mesmo, dos amigos do Cabral e Cia) sai. Efeitos do guardanapo. Entra outra. Menos tempo. Interessa é tocar a obra. Se eventualmente desabar na cabeça de alguém, será mesmo na cabeça do populacho. Dane-se. O prefeito agora fala grosso. Sabia de tudo, sempre soube. Há tempos recebeu relatório dando conta que o “modelo matemático utilizado para calcular a estrutura do teto não se cumpre”. Deixou rolar. Mas veja o tal documentário. A irresponsabilidade desses caras. Os mesmos que destruíram o Maracanã. Por toque de caixa. À sorrelfa. Dane-se a gente, dane-se o populacho, dane-se a história da cidade, dane-se tudo. Irão brindar de guardanapo na cabeça em Paris. Dizer que quem fala sobre isso é baixo astral. Melhor parar por aqui para não dar os devidos nomes a esses usurpadores. São Sebastião do Rio de Janeiro vai cuidar de vocês.  Ao menos agora o estádio honra o nome.

Ps- Não tenho twitter nem facebook. Tuitem por favor para que todos vejam como foi feita a obra e porque está acontecendo isso. Fora o que ainda será descoberto sobre o Engenhão e essa obra. 
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"Em nome de Zico" atualizado

Lúcio de Castro
Lúcio de Castro
No dia 4 de dezembro último, com as urnas das eleições rubro-negras ainda quentes, escrevi o texto que segue lá embaixo, republicado por uma razão que dispensa maiores justificativas: os 60 anos de Zico.

Relendo agora, quase 3 meses depois, dei algumas risadas. Era tudo tão previsível...O oportunista que adere ao novo poder constituído, o escroque que vira de lado como se nada tivesse acontecido...Basta ler e se dar uma olhada em muita coisa que está acontecendo.

O texto todo encaminhava para uma última e definitiva ideia, que procurava resumir o caminho a ser percorrido: uma estátua para Zico na Gávea. Uma ideia que carrega muito mais do que uma peça de bronze com a figura de Artur Antunes Coimbra. O importante ali é o simbólico. Se existe uma estátua para Zico na Gávea, todo o entorno tem que ser digno dela. Algo como um santuário. Os tais escroques não podem estar ali. Os desmandos dos últimos anos tem que ser passados a limpo. Como dizia então, “para que a estátua viva em paz, cultuada com o devido respeito através dos séculos”.

A partir de sábado a estátua estará lá. Ponto principalmente para uma turma desapegada, sem cargos no Flamengo, sem remuneração, que arregaçou as mangas e tornou realidade algo que deveria dividir o Flamengo como o próprio Zico dividiu: antes e depois. Uma turma que correu atrás, fez contato com artistas para gravar música, brigou pela estátua, encheu a paciência da imprensa para que a causa fosse divulgada, trabalhou dia e noite. Apenas pela reverência ao ídolo, por um símbolo, por um ritual.

Ainda não deu para entender a razão de tanta incompetência da nova diretoria para que a cerimônia fosse encampada. Vivemos de rituais, são eles que nos mudam de etapas, nos guiam. A cerimônia era fundamental. A péssima divulgação, a confusão quanto ao local, e a risível programação com 3 hipóteses de público, obviamente jogando contra a ida de torcedores, são daquelas coisas inexplicáveis.

Lá atrás, em dezembro, quando o texto falava em uma estátua para Zico como um devaneio, um símbolo, escrevi: “...Finalmente botar a estátua de Zico na Gávea. Inaugurar no primeiro dia. Gávea lotada, campo aberto.” Porque não era possível imaginar outra forma. E se estivessem divulgando que assim seria, qual é a dúvida de que o campo estaria lotado? Essa não vai dar para entender.

Resta a outra parte. Peço atenção para o texto de então. Passar a limpo o Flamengo. O mandato de Patrícia Amorim não pode valer nunca como referência. Aberração em todos os campos e aspectos, sejam morais ou de gestão, não são régua para nada. Portanto, a cada crítica para os novos mandatários, que ninguém traga essa medida de comparação. Muita coisa já é bem melhor, mas como disse, a comparação não é possível.

Oxalá para o torcedor rubro-negro que as coisas sigam assim. Os últimos dias foram preocupantes demais. A exposição de que o futuro é de costas para o povão, aquele que fez a história e é a essência do que é ser Flamengo é tenebroso. É o absoluto desconhecimento da alma vermelha e preta. É tentar matar o coração disso tudo. Será um imenso desperdício de muita gente capaz e com capacidade de gestão. Porque se assim for, não passarão. Essa alma é mais forte e nada sobrevive sem ela.

Fica o convite para a releitura daquele texto, que segue no blog. E os parabéns para ele que fez sonhar gerações e gerações em todo o Brasil.
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EM NOME DE ZICO
4/3/2012

“Sob Fogo Cerrado” é um empolgante filme de amor, ação, política, ótimas discussões sobre o jornalismo, tudo ao mesmo tempo agora. Na Nicarágua do final da década de 70, os sandinistas estão para tomar o poder depois de anos da sangrenta ditadura de Anastácio Somoza. Uma das cenas mais significativas que já vi sobre um processo de transição e mudança de poder talvez seja secundária no enredo. Mas quem já viu cena dessas tantas vezes na vida, seja no mundo corporativo, na cidade ou até no prédio não se esquece de enxergar o paralelo: um assassino sujo, escroque, mercenário pró-Somoza, passa a vida boicotando a Frente Sandinista, matando com requinte de crueldade e sabotando. Quando a Revolução vira uma realidade sem volta, um fato consumado, e os revolucionários adentram a capital Manágua na marcha para o poder, quem está com a bandeira sandinista na mão? Ele, claro!

Quem nunca viu isso? Aqueles puxa-sacos, geralmente os mais fieis aos chefes, que quando muda o poder desandam a falar mal do chefe antigo pra agradar o poder que se constitui, quem nunca viu?! O oportunista de plantão! Pois muito bem: na última semana, quando a vitória da oposição do Flamengo se desenhava com tons azuis mais fortes, um monte como aquele sujeito de “Sob Fogo Cerrado” estava com a bandeira azul na mão. Especialistas em perpetuação no poder, entra administração e sai administração. Estiveram em todas as administrações do clube nos últimos 20 anos pelo menos. Cada uma pior do que a outra. E já viravam a casaca, desfraldando a bandeirinha.

A cena é definitiva quanto ao futuro do Flamengo. A capacidade de identificar os oportunismos definirá os rumos da nova gestão. Muito mais do que isso: a vontade política de recontar a história do Flamengo nessas duas últimas décadas é a coisa mais importante e o maior desafio da nova gestão. Entenda-se como recontar a história principalmente rever culpados pelos malfeitos. Tenho escutado muita coisa nos últimos tempos. Algumas preocupantes. A última delas provavelmente a mais preocupante. Na última sexta-feira, em entrevista no jornal O Globo, o então candidato Eduardo Bandeira de Mello afirmou que o mandato teria o “retrovisor quebrado, que não olharia para trás e sim para frente”.

Se verdade for, esqueçam toda a modernidade prometida. Será a condenação do Flamengo a seguir sendo o triste retrato que foi ao longo das últimas décadas: uma instituição carcomida por dentro, com gente sem o menor compromisso e ligação com as cores, apenas com interesses pessoais.

Muito se fala em gestão, planejamento. Aumentar a receita. Tudo isso é normal e desejável, como diz a bula. E óbvio. Mas o xis da questão, o drama do Flamengo no momento nem é esse. Afinal, o volume de dinheiro do futebol cresce a cada dia. O alto valor do contrato de direitos de transmissão somado a receitas de patrocínio garantem por eles mesmo voos ousados (claro, pode ser muito mais, ninguém precisa lembrar. Afinal, o potencial da marca Flamengo até hoje foi trabalhado por amadores). Vale a ressalva: o valor do contrato de direitos de transmissão nada teve a ver com Patrícia Amorim, que chegou ao limite de se arvorar por ter conquistado esses valores dos novos contratos. (é algo como um prefeito do Rio querer os louros pela beleza da cidade!).

A questão do Flamengo mais urgente, a maior, acima de qualquer outra, é a transparência. Criar mecanismos para uma gestão transparente. Acima dos homens porque eles são falíveis, independente do nome. O império da lei está acima dos nomes. Prestação de contas abertas para o torcedor. Fiscalização interna eficiente e não aparelhada. E acima de tudo, passar a limpo a história recente do Flamengo. (Numa eleição onde as redes sociais e a tal da webcam foram muito importantes, que elas sigam e façam esse papel também. Tenho imensa admiração por essa galera. Da militância por paixão, o amor incondional por uma camisa. Serão muito mais relevantes se estiverem atentos do que se optarem pela adesão fácil. Até porque o papel de adesão incondicional já é preenchido por alguns na grande imprensa. E adesão incondicional se faz nos 90 minutos de um jogo, na arquibancada. Antes e depois o torcedor deve virar cidadão e cobrar, fiscalizar).

Sem esse absurdo e furado discurso de “quebrar o retrovisor”. Olhar para frente é conhecer o passado. Expurgar todos os aventureiros sim, mostrar o que houve para que nunca mais aconteça. A comparação é óbvia: a do país que não consegue recontar sua história, a história da barbárie dos anos da ditadura, e vê a impunidade explodindo a cada esquina, a tortura seguindo em cada delegacia. Sempre com o discurso do olhar pra frente. “Quebrar o retrovisor” é alimentar a impunidade. E isso não é negociável.

Na série de documentários que vai ao ar entre os dias 18 e 21 próximos sobre as relações ditaduras x futebol no continente (Memórias do Chumbo- O Futebol Nos Tempos do Condor), tive a honra de mais uma vez estar com mestre Eduardo Galeano, que fala no episódio sobre o Uruguai. O que ele fala abaixo está no documentário. Poderia ser sobre a necessidade de contar essa história recente do Flamengo, combater a impunidade. (Obviamente, nem é preciso dizer, no caso de lá muito mais grave, estamos falando de vidas humanas).Poderá sempre ser para qualquer caso onde se quer “quebrar o retrovisor”. Fala, Mestre:


“ Esse silêncio é o preço da impunidade do poder, que calando consegue repetir a história. Porque se você não aprende com o que aconteceu, está condenado a repetir. E aí então o problema do medo. O poder militar daqueles anos conseguiu impor uma cultura do medo. A ideia de que a denúncia do que aconteceu é um convite para retornar ao passado, para que o passado volte. A ideia de que só calando se evita o retorno a esses tempos duros, ruins, essa longa noite dos nossos países. Isso é uma infame mentira, porque na verdade só encarando a coisa como foi, recuperando a memória, você pode evitar a repetição da história. “

Vejam isso a seguir. Fala mais, Mestre: “Quer dizer, a impunidade estimula o delinquente, seja um delinquente militar, civil, seja individual, seja coletivo, a impunidade é o motor maior para a repetição dos crimes”.

“A única maneira de você evitar que a criminalidade do sistema dominante possa seguir atuando é a recuperação da memória. Não numa homenagem ao passado, ao contrário, para evitar que o passado volte. Porque quando volta, volta repetido, de maneira muito ruim. É muito terrível, eu não quero isso de volta não.”

O clima é de euforia entre os rubro-negros. Faz sentido. Mas entender que críticas e fiscalização são partes fundamentais do processo abreviam o caminho.
Nenhum rubro-negro certamente quer de volta a noite sombria onde um torcedor de outro time comandou o clube. Onde a truculência deu o tom. O cinismo, as calúnias. Onde ninguém sabe das contas. Onde o Flamengo foi usado para aventuras pessoais, aparelhado para uso pessoal, interesses políticos. E acima de tudo, reflexo disso tudo, onde o ídolo maior, símbolo, história e memória, foi destratado pelo poder, diante da omissão cúmplice dos mandatários. Por interesses menores. Impunemente.

Zico deve voltar. E para que nunca mais seja desrespeitado em sua grandeza, é preciso, no mínimo em nome dele, que tudo seja passado a limpo. Exposto. Assim o malfeito não volta. Já disse Eduardo Galeano, um Zico das palavras.

O primeiro ato da nova gestão deveria ser simbólico desses novos tempos: finalmente botar a estátua de Zico na Gávea. Inaugurar no primeiro dia. Gávea lotada, campo aberto. E o segundo ato, passar a limpo centavo por centavo que por ali entrou nesses anos. E como saiu. Isso é uma obrigação moral. O contrário disso é ser mais um a compactuar com o malfeito. Criar mecanismos para que nunca mais aventureiros tomem de assalto o clube como nas últimas décadas, mandato atrás de mandato.

Para que a estátua viva em paz, cultuada com o devido respeito através dos séculos.
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"Em nome de Zico" atualizado

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