Itália no tudo-ou-nada da repescagem. O que fazer para evitar o pior

Leonardo Bertozzi
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Immobile marcou o primeiro gol da Itália sobre Israel
Immobile marcou o primeiro gol da Itália sobre Israel

Não adianta negar. Desde o sorteio dos grupos das eliminatórias da Copa do Mundo de 2018 que colocou Espanha e Itália no mesmo grupo, jogar a repescagem era uma realidade possível para os italianos. A eliminação espanhola na Euro 2016, numa obra-prima de Antonio Conte, não foi suficiente para criar uma falsa ideia de que a Itália ganhou terreno diante de um modelo de jogo estabelecido e afirmado na Espanha há mais de uma década.

Os 3 a 0 do Santiago Bernabéu foram um duro e necessário choque de realidade. As magias de Isco ficam para a história - e Julen Lopetegui foi muito competente em repetir o que Vicente del Bosque já havia feito na final da Euro 2012, quando a Espanha fez 4 a 0 em outro recital. 

Na decisão de Kiev, um time repleto de meio-campistas e sem uma referência na área. Na ocasião, jogaram Busquets, Xabi Alonso, Xavi, Fàbregas, Iniesta e David Silva. 

Cinco anos depois, três peças daquele sexteto se repetiam (Busquets, Iniesta e Silva), com Koke, Asensio e Isco completando o grupo.

Neste cenário, Giampiero Ventura optou pela pior estratégia possível. Abriu mão de homens no meio-campo e insistiu em um 4-2-4 que deixava Verratti e De Rossi sempre perdidos no meio de um mar de camisas vermelhas. Até a véspera, trabalhava com uma formação com cinco defensores, mas mudou de ideia ao perder Chiellini por lesão. No momento desta mudança, jogou fora também suas chances de complicar os espanhóis.

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Verratti pela Itália (x Espanha e Israel)
Verratti pela Itália (x Espanha e Israel)
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Verratti pelo PSG (Ligue 1 17/18, 3 jogos)
Verratti pelo PSG (Ligue 1 17/18, 3 jogos)

Podemos entender que, de qualquer maneira, nunca seria surpresa a Espanha em primeiro na chave, com a Itália em segundo. Durante muitos anos, os azzurri ignoraram o funcionamento do ranking da Fifa, levando amistosos pouco a sério e perdendo algumas chances de ganhar posições. Como esquecer que, em 2013, bastava vencer a Armênia para ser cabeça-de-chave da Copa do Mundo, e o empate por 2 a 2 acabou empurrando a equipe para um grupo com Uruguai, Inglaterra e Costa Rica?

Por este mesmo ranking, é fundamental vencer os jogos restantes para ter a garantia de um sorteio menos pesado na repescagem (evitar uma Suíça ou Portugal, por exemplo). Macedônia e Albânia são rivais acessíveis para isso. Mas também serão oportunidades para que Ventura reveja algumas de suas convicções. Na vitória por 1 a 0 sobre Israel, ficou evidente que o modelo penaliza alguns dos jogadores mais importantes do elenco.

O 4-2-4 é um desenho com o qual os principais atletas da Itália não convivem em seus clubes. Já falamos sobre Verratti, habituado a uma trinca de meio no PSG, mas o exemplo mais claro talvez seja Insigne. No Napoli, o talentoso atacante é aproveitado pela esquerda de um 4-3-3, baseado em muita posse de bola e presença constante no campo ofensivo. No sistema de Ventura, muitas vezes recebe a bola distante de zonas de perigo e tem dificuldades para chegar à área.

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Insigne pela Itália (x Espanha e Israel)
Insigne pela Itália (x Espanha e Israel)

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Insigne pelo Napoli (Serie A + UCL 17/18, 4 jogos)
Insigne pelo Napoli (Serie A + UCL 17/18, 4 jogos)

A dupla de ataque formada por Belotti e Immobile já chegou a trabalhar junta com o próprio Ventura no Torino, mas hoje ambos são atacantes isolados em seus clubes. O entendimento tem sido difícil, e um deles provavelmente terá de ser sacrificado - provavelmente Immobile, embora tenha sido dele o gol salvador contra Israel, num jogo em que a torcida de Reggio Emilia chegou a vaiar o time.

Ventura tem o mérito de já ter conseguido reduzir a média de idade de um time que chegou à Euro envelhecido. Existe um bom movimento nas categorias de base da Itália, com as seleções sub-20 e sub-21 vindo de boas campanhas recentes, e há otimismo sobre o amadurecimento de uma boa geração. Neste cenário, projeta-se a maturidade da seleção entre 2020 e 2022. Mas para que 2018 seja uma etapa importante de crescimento, é preciso estar lá.

Destaque em clube 'odiado', brasileiro tem sonho frustrado por inversão de mando na Liga Europa

Leonardo Bertozzi

Photonews/Getty
Stênio em ação pelo Shkëndija
Stênio em ação pelo Shkëndija

O sorteio dos play-offs da Liga Europa mandou muitos torcedores do Milan ao Google para "descobrir" o Shkëndija, da Macedônia. Mas há alguém que pode explicar melhor sobre o adversário dos rossoneri por um lugar na fase de grupos do torneio continental.

O atacante Stênio Júnior, único brasileiro no elenco do clube, atua no país há quatro anos e falou ao ESPN.com.br sobre sua expectativa para o confronto - e a frustração de não poder atuar em um dos grandes palcos do futebol mundial.


Expulso no jogo de ida contra o Trakai, da Lituânia, na terceira fase preliminar, Júnior foi suspenso por duas partidas pela Uefa. O sorteio, inicialmente, determinou a primeira partida com o Milan na Macedônia. Mas, por questões logísticas, a ordem dos mandos foi invertida, e o brasileiro não poderá atuar em San Siro no dia 17 de agosto. A volta será um semana depois.

"Ainda não engoli bem, mas a gente tem de cumprir", lamenta. "Estava contente porque faríamos o primeiro jogo em casa e eu poderia jogar na Itália, realizar aquele sonho do jogador. Então houve a mudança e fiquei um pouco mais chateado. O importante agora é pensar em fazer um bom trabalho na segunda partida, para aproveitar a exposição e colher os frutos. Vai ser bom para o futebol da Macedônia. Temos de pensar num todo, não só no lado pessoal".

O Shkëndija é de Tetovo, mas terá de atuar em Sköpje por causa da estrutura do estádio. Como outro time do país, o Vardar, fará o jogo de ida no mesmo campo (contra o Fenerbahçe), houve a troca da ordem, como previsto em regulamento.

  • Só no mapa

O time de Stênio Júnior, porém, só é macedônio na geografia. A cidade tem maioria étnica de albaneses, e foram eles que fundaram o clube. O Shkëndija é, para eles, mais que um time de futebol. É uma representação nacionalista. O hino albanês é cantado por sua torcida organizada, a Ballistët, antes de cada partida. E as tensões históricas fazem com que haja um ódio recíproco com a maioria dos times da Macedônia.

"O clube é renegado dentro do país", conta o atacante. "É um dos clubes grandes, mas não conta com a receptividade dos macedônios em geral. As torcidas costumam entrar em confusão depois dos jogos. Mas não me envolvo com estas questões. Tenho amigos macedônios e albaneses e sou tratado com o mesmo respeito e amizade. Vim para jogar futebol. Mas muitos brasileiros que já vieram para cá acharam estranho. As coisas aqui na antiga Iugoslávia são complexas". 

Na época do regime comunista, o Shkëndija chegou a ser desfeito pelo governo iugoslavo, pelo simbolismo que adquiria para o nacionalismo albanês. Somente em 1991, com a separação da Macedônia, o clube ressurgiu. Campeão em 2011, se afirmou nos últimos anos como um time que luta pelas primeiras posições. Vem de dois vice-campeonatos e ganhou a copa nacional em 2016. No cenário internacional, os resultados vêm melhorando - é o segundo ano seguido nos playoffs da Liga Europa.

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Stênio chegou no início de 2014 ao Shkëndija. Descoberto no futebol cearense, onde se destacou pelo Horizonte, ele foi inicialmente transferido para o Litex Lovech, da Bulgária, mas foi o empréstimo ao Pelister, da Macedônia, que representou a grande virada: "Joguei metade do campeonato de 2013/14 no Pelister, fiz 8 gols, e fui para o Shkëndija como a transferência mais cara do país. Foi algo entre 100 e 150 mil euros".


  • Seleção?

Adaptado ao futebol e à vida na Macedônia, o atacante é pai de uma bebê de dois meses e não pensa em sair do país agora. Pelo contrário: já foi procurado sobre a possibilidade de defender a seleção local. "Isso já foi conversado, perguntaram se eu queria me naturalizar. Vejo como uma boa oportunidade", confirma. "É uma forma de participar de grandes partidas pela seleção do país, buscar mais formas de me destacar. Só falta um ano para completar os cinco exigidos pela Fifa".


"Hoje tudo é mais fácil aqui. Posso buscar o melhor para cuidar da saúde da esposa e da minha filha com tranquilidade", festeja. "É claro que nossa família no Brasil está ansiosa para voltarmos no fim do ano, por causa do nascimento da bebê (risos)".

Antes, há o Milan, que gastou 42 milhões de euros em Leonardo Bonucci, um dos melhores zagueiros do mundo, em meio a uma série de contratações que reformularam o time e criaram grande expectativa para a temporada. Para Júnior, é só um motivo a mais para se motivar: "É uma experiência a mais enfrentar não apenas o Bonucci, mas toda a equipe do Milan. Não dá para prometer nada agora. As coisas acontecem na hora".

E não seria melhor um adversário mais acessível? O brasileiro vê o lado positivo. "Não que a gente não quisesse um adversário mais fácil para chegar à fase de grupos. Mas pegar um Milan é motivo de alegria. Não tira nossa confiança nem nos abate. Podemos fazer história. As zebras acontecem no futebol. Quem sabe a sorte não esteja do nosso lado?", conclui.

'Maior que Beckham', Neymar pode se pagar no PSG, avalia especialista em fair-play financeiro

Leonardo Bertozzi
EFE/Edu Bayer
Neymar é o nome mais falado no mercado de transferência
Neymar é o nome mais falado no mercado de transferência

E o fair-play financeiro? Esta é uma pergunta frequente quando se fala na possível contratação de Neymar pelo Paris Saint-Germain, que pagaria ao Barcelona os 222 milhões de euros da cláusula de rescisão. Seria a maior transferência da história, e de acordo com um especialista na regulamentação da Uefa ela pode caber no bolso do clube francês.


Responsável pelo site Calcio e Finanza, especializado em negócios do futebol, Giovanni Armanini lembra que o objetivo do fair-play financeiro não é colocar um limite nos gastos com transferências, mas garantir que os clubes gastem dentro de suas possibilidades de receita.

"O FPF não coloca nenhum teto no que você pode desembolsar em contratações", afirma Armanini. "O que ele limita é o gasto com salários, que tem de ser equivalente a no máximo 70 por cento do que o clube arrecada. O PSG na última temporada gastou 54%, tem muita margem, considerando ainda que o faturamento deve aumentar. Já o Barcelona está no limite, ainda por cima depois de renovar com Messi".

A regra da Uefa determina que o clube não pode acumular um prejuízo superior a 30 milhões de euros num espaço de três anos. "O PSG fechou a última temporada com 10 milhões de lucro. Em tese ainda poderiam perder 40 milhões. Se tiverem 10 milhões de lucro novamente, poderiam perder até 50 milhões na outra", justifica o especialista.

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Embora o PSG conte com o forte investimento do Qatar, valores de patrocínio injetados no clube por empresas dos donos ou ligadas a eles nunca podem superar os 30% do faturamento. "Muita gente fala em valores malucos", argumenta Armanini. "Para mim não são malucos se você tem o faturamento para se bancar. O PSG está aumentando sua presença no exterior. No Brasil tem mais seguidores de Facebook que na França. Imagine com Neymar e meia seleção brasileira..."

Com a Copa do Mundo de 2022 no Qatar, contar com uma das estrelas do torneio seria essencial para gerar mais patrocínios e acordos comerciais. Para o editor do Calcio e Finanza, Neymar é exemplo de um jogador desde o início idealizado como marca, algo que David Beckham foi no passado.

"Neymar como Beckham? Pode ser muito mais. O mercado do marketing esportivo cresceu muito em quinze anos", diz. "Na Ásia seguem o futebol como o cinema de Hollywood. Seguem os jogadores mais do que os clubes. Alex Ferguson escreveu que Beckham foi o primeiro jogador planejado primeiro como marca, depois como jogador. Neymar faz algo semelhante".

Armanini acredita que as consequências possíveis de contar com Neymar possam compensar um investimento que, entre contratação, salários e comissões, pode significar um gasto de 80 a 90 milhões de euros por ano.


"Não é por se tratar da multa que o PSG não possa conseguir uma condição mais favorável de pagamento, espalhando os valores em seus balanços anuais. A Juventus, por exemplo, pagou Higuaín (ao Napoli) em duas parcelas, uma em cada ano", lembra. "E se o PSG vende um ou dois jogadores, o saldo deste mercado ficaria negativo não em 222 milhões, mas em 160, por exemplo. Tem quem gaste isso em vários jogadores. Em um é mais arriscado, mas é a avaliação esportiva".

Quando contratou Cristiano Ronaldo, Kaká e Benzema, entre outros, no mercado de 2009, o Real Madrid ficou com um saldo negativo de 170 milhões de euros na janela. "E tinha um faturamento menor que o do PSG hoje", lembra Armanini. "Hoje os times de Manchester fazem com normalidade mercados de 150 milhões. Podemos discutir, mas não dizer que não é sustentável".

Tudo isso significa, então, que o fair-play financeiro fracassou em seu objetivo? O fato é que a Uefa, através de seu presidente Aleksander Ceferin, já pensa em maneiras de alterar sua regulamentação para se adaptar a estes tempos. Desde um imposto sobre grandes contratações (já utilizado na China) até o estabelecimento de tetos salariais, passando pela limitação do tamanho dos elencos.

"Ceferin foi eleito pelas federações menores e tem uma missão: aumentar a competitividade do futebol europeu. Mais que frear investimentos como Neymar, ele deveria equilibrar o futebol. Talvez com tetos salariais que não sejam percentuais de faturamento, mas valores fixos. Assim, eu sei que se contratar Neymar terei de 'cortar' outros jogadores", exemplifica o analista.

"O mercado do futebol foi criado em um contexto hiperliberalista. É muito difícil intervir. Se você coloca um teto, causa mudanças no mercado. Toda mudança tem seus efeitos colaterais. Quando a Uefa passou a exigir jogadores formados nos clubes ou nos países dos clubes, o preço dos jogadores ingleses disparou", lembra. "Ou você cria um outro sistema do início, como nos esportes americanos, ou as correções serão sempre difíceis. Mesmo as ideias justas têm suas consequências".

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  • E o Milan?

Também se fala muito em fair-play financeiro a respeito da nova administração do Milan, que já contratou dez jogadores para a temporada e ainda busca um centroavante de peso. O chinês Li Yonghong recorreu a um empréstimo com o fundo de investimentos Elliott para finalizar a compra, e precisa devolver 300 milhões de euros em 18 meses.

"Ele diz ter investidores estrangeiros para cobrir a cifra. Caso isso não acontecer, um plano B é o refinanciamento da dívida ou a entrada do clube na Bolsa de Valores", esclarece Armanini. "É importante lembrar que a dívida não é do clube, é de Li. As dívidas do Milan foram zeradas na compra, e foi disponibilizado um orçamento de 55 milhões para o mercado. Como gastaram quase 200 milhões? São negociações parceladas, ou empréstimos com compra fixada".


Ou seja, o Milan precisa alavancar suas receitas. Em outubro, haverá um encontro com a Uefa para alinhar os planos de crescimento dentro do fair-play financeiro, algo oferecido a clubes com novos donos ou que apresentam projetos de aumento de investimentos - desde que justificados. A ideia é obter o "voluntary agreement", ou acordo voluntário, que precisa ser seguido à risca.

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"É necessário tornar o Milan rentável. Obviamente precisam chegar à Champions League, é uma centena de milhões de mais. O Milan tem uma marca forte, pode aumentar suas receitas de patrocínio na China e no mundo. É isso que vão dizer à Uefa: era inevitável gastar para aumentar o nível. É arriscado, mas não há outra alternativa no futebol de hoje para alcançar resultados em dois, três anos", diz o especialista.

E o próximo passo, na avaliação de Armanini, é fazer mais dinheiro com venda de jogadores: "Alguém vai pagar a multa de Donnarumma. Outros vão se valorizar e também serão vendidos. A Juventus faz isso. Clubes como Arsenal, Liverpool, Tottenham também fazem. Se você tem um jogador de 100 milhões, você vende. Nem todos são Real Madrid ou Barcelona".

A rival Inter, também adquirida recentemente por chineses, vive outro tipo de cenário com a Uefa. Através de um "settlement", ou acerto, aceitaram penas menores como multa e redução de inscritos nas competições europeias para evitar punições maiores, desde que alcançassem metas de balanço: prejuízo máximo de 30 milhões de euros até o fim da temporada 2015/16 e prejuízo zero em 2016/17.

Para se manter na linha, a Inter precisa repetir no mínimo o "zero a zero" no balanço em 2017/18. Pelo fato de o "settlement" já estar em andamento quando a nova direção assumiu, o clube ficou impedido de aderir ao acordo voluntário.

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Gritaria no hotel, susto com goleada e sonho com o Corinthians. Conheça o primeiro brasileiro a desafiar o novo Milan

Leonardo Bertozzi
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Brasileiro Gustavo Vagenin enfrentará o Milan pela Liga Europa
Brasileiro Gustavo Vagenin enfrentará o Milan pela Liga Europa

A contratação de quase um time inteiro para a nova temporada faz do Milan uma das grandes atrações do mercado europeu. Com novos donos chineses, o clube rossonero tem a missão de voltar a disputar a Champions League. Um dos caminhos é a Serie A, que a partir desta temporada dará quatro vagas para o principal torneio da Uefa. O outro é a Liga Europa.

A caminhada do Milan começa na próxima quinta-feira, contra o Universitatea Craiova, na Romênia, pela terceira fase preliminar. No time da casa, estará o meia brasileiro Gustavo Vagenin, de 25 anos. Gustavo, que vai para sua segunda temporada no clube, conversou com o ESPN.com.br e revelou que o clima no clube é de empolgação com o adversário ilustre.

"No dia do sorteio estávamos no hotel, acompanhamos juntos, ansiosos para saber quem era", conta. "Sabíamos que havia a chance de encontrar o Milan, o segundo maior campeão europeu da história. E quando saiu justamente o Milan, virou uma gritaria no hotel".

O confronto é ainda mais especial para Gustavo por sua carreira profissional construída em grande parte no futebol italiano.

Depois de passar pelas categorias de base de Corinthians e São Paulo e estrear profissionalmente no Pão de Açúcar (hoje Audax), o meia aceitou em 2011 o desafio de jogar na Salernitana, que recomeçava na Serie D (na época a quinta divisão) após ter a falência decretada: "Queriam renovar por três anos no Pão de Açúcar, mas eu tinha o sonho de jogar na Europa e aproveitei o fato de já ter o passaporte italiano"

Reerguida por Claudio Lotito, dono e presidente da Lazio, a Salernitana conquistou dois acessos durante a passagem do meia brasileiro por lá. Ele ainda vestiu as camisas de Lecce e Novara, mas foi no Messina, na temporada 2015/16, que deu o grande salto.

"Fiz oito gols entre janeiro e maio", lembra Gustavo. "A partir daí surgiu o interesse de clubes de outros países: Sheriff, da Moldávia, Hearts, da Escócia... Mas o projeto do Craiova me interessou mais. Ninguém imagina, mas o futebol romeno dá uma oportunidade e visibilidade importante. Estrutura muito boa, clube investindo bastante, tentando contratar na medida do possível. Não como o Milan, claro (risos)! Mas querem brigar por títulos".

Grande palco - O contato mais próximo do meia com o Milan havia sido nas arquibancadas de San Siro. Através de um amigo em comum com Stephan El Shaarawy, conseguiu ingressos para um dérbi entre Milan e Inter. Agora terá a oportunidade de pisar em um dos gramados mais famosos do mundo.

Antes, porém, há o jogo em casa. No modesto estádio Municipal, com capacidade para 20 mil pessoas e ingressos já esgotados. "Estão construindo um novo estádio, mais moderno, para 30 mil, mas só ficará pronto no ano que vem", afirma. "Vamos jogar com a nossa torcida e tentar fazer alguma vantagem no primeiro jogo. Se não acreditarmos em nós, quem vai?"

O time romeno pode apostar em uma preparação mais adiantada, tendo feito duas partidas pelo campeonato nacional, com uma vitória e um empate. Neste sábado, porém, o Milan mandou um recado ao golear o Bayern de Munique por 4 a 0 em amistoso. Gustavo admite ter ficado "um pouquinho preocupado". Ou melhor, "um pouquinho MUITO preocupado". Mas promete tirar a superação do apoio das pessoas mais próximas.

Um irmão que mora na Bulgária e uma irmã que estuda na Alemanha estarão no jogo, assim como um amigo brasileiro que já está hospedado na casa do meia. "Energia brasileira não vai faltar", promete Gustavo, que comemorou a contratação do técnico italiano Devis Mangia, ex-Palermo e seleção sub-21. "Temos afinidade e conversamos bastante. É bom um técnico com 'ideias italianas'".

Também italiano é o reforço mais badalado do Craiova para a temporada: Fausto Rossi, volante revelado pela Juventus e vice-campeão europeu sub-21 pela Itália em 2013. Rossi passou por clubes da liga espanhola e chegou a marcar o gol de uma vitória do Valladolid sobre o Barcelona, em 2014. Conta o brasileiro: "Eu o ajudo por falar italiano. Mesmo sem dominar totalmente o romeno, já dou entrevistas no idioma. É uma língua latina, se parece em algumas coisas com o italiano".

Se Gustavo voltaria para a Itália um dia? Só para jogar as divisões que nunca experimentou. "Quero voltar pela porta da frente, Série B, Série A. Mas também sonho em voltar ao Brasil, quem sabe mais pra frente?". Algum time em especial? "Meu time, o Corinthians, acompanho tudo daqui, dou meu jeito. Às vezes o horário não ajuda, mas dá pra ver pelo menos os melhores momentos".

Sonhos que podem ficar mais próximos se vier uma grande atuação contra o novo Milan. Quinta-feira é o dia.

Pelo milagre e pela saudade, técnico vai atravessar o país pedalando

Leonardo Bertozzi
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Jogadores do Crotone atiram o técnico Davide Nicola para o alto
Davide Nicola, festejado pelos jogadores do Crotone, vai atravessar a Itália de bicicleta

"Hai voluto la bicicletta? Adesso pedala!"

Quis a bicicleta? Agora pedala. Tradução ao pé da letra de um ditado italiano usado para situações em que alguém consegue algo sonhado, mas tem de lidar com as consequências. Davide Nicola, técnico do Crotone, quis literalmente a bicicleta. E vai pedalar.

Levar o Crotone pela primeira vez à Serie A já era uma façanha para Nicola. Manter o clube calabrês na elite italiana, então, parecia um sonho impossível. Especialmente depois de somar apenas 9 pontos nas 19 partidas do primeiro turno.

A permanência do Crotone parecia uma miragem quando o treinador prometeu, dia 7 de abril, que viajaria de bicicleta até Turim, atravessando o país, caso evitasse o rebaixamento.

Faltavam oito rodadas, e o time havia acabado de diminuir para cinco pontos a desvantagem para o Empoli, primeiro time fora da zona de descenso.

Na rodada seguinte, o Crotone venceu a Inter em casa, embalando uma arrancada final que terminaria com a "salvezza" alcançada na última rodada, batendo a Lazio por 3 a 1. Foram 20 pontos conquistados nas últimas nove partidas - somando-se a 14 das 29 anteriores.

Nicola não escolheu Turim por acaso. Nasceu em Luserna San Giovanni, região metropolitana da capital piemontesa. Pelo Torino, seu time do coração, marcou o gol mais importante da carreira: o do acesso à Serie A em 2006, na prorrogação do play-off contra o Mantova.

Nem todas as lembranças, porém, são felizes. Também na grande Turim, em Vigone, onde ainda reside com a família, o técnico viveu uma tragédia familiar: a morte de seu filho Alessandro, de 14 anos, em um acidente em 2014.

"Hoje sei que você sempre esteve ali comigo", escreveu Nicola em uma emocionante carta após a façanha. "Você conseguiu, com sua energia, me dar a força para lutar e continuar a perseguir o impossível".

Vigone será a etapa final do "Giro d'Italia" do treinador, que passará por cidades que foram importantes em sua carreira: Taranto, Bari, Pescara, Ancona, Livorno e Gênova. O planejamento é cumprir o percurso de cerca de 1.300 km ao longo de nove dias.

A jornada começa nesta sexta-feira, com o apoio de uma loja que forneceu as bicicletas e ajudou Nicola na preparação.

 

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