Uma história sobre como o esporte ensina meninas a serem corajosas

Julia Vergueiro
Júlia Vergueiro

Copa Nescau 2018
Copa Nescau 2018 Pelado Real/Grazielle Franco

“Que oportunidade incrível para ela quebrar esse medo de fracassar. Obrigada!”

Essa foi a frase que a mãe de uma das minhas melhores atletas sub-12 me disse, sorrindo, momentos após vencermos a semifinal da Copa Nescau há cerca de duas semanas. A disputa foi para os pênaltis e a filha dela foi escolhida pra ser a terceira a cobrar. Se ela fizesse, nós estaríamos na final. E ela fez.

No tempo regular, essa mesma atleta havia tido um momento de muito medo. Nós saímos atrás no placar e o jogo estava difícil. Pra piorar, esse era o mesmo campeonato do qual havíamos sido eliminadas ano passado, e ela, sempre muito competitiva, certamente não queria perder de novo. Quando finalmente empatamos, ela começou a se sentir mal. Enquanto comemorávamos o nosso gol, ela chorava e dizia que o estômago estava queimando, e então a levei até a enfermeira enquanto o jogo seguia. Pra conseguir acalmá-la, saímos do ginásio, que naquele momento estava absurdamente barulhento refletindo a emoção da torcida e dos times que lutavam pela vaga na grande final.

Do lado de fora, essa mesma mãe veio nos encontrar e perguntou o que houve. Ela tinha nos visto saindo da quadra e veio correndo da arquibancada ao nosso encontro. Bastou alguns segundos de conversa e ela logo captou o que estava ocorrendo, e não teve dúvidas em dizer: “filha, isso que você está sentindo é vontade de ganhar. Agora volta lá e enfrenta isso porque o time precisa de você”. Nossa pequena craque engoliu o choro e, sem contestar, seguiu direto de volta pro jogo. Minutos depois ela estaria cobrando o pênalti decisivo, com uma convicção única, e correndo pro abraço das colegas pra comemorar a classificação. Adeus, medo. Hoje, eu te venci.

Mesmo depois de vencermos a final e levarmos o título histórico pra casa, em uma partida que mereceria um texto à parte, esse foi o momento que mais me marcou. Essa mãe soube mostrar à sua filha que a gente nunca vai saber o tamanho do nosso medo até enfrenta-lo, e que ter a coragem de fazê-lo é o que mais importa.

Essa história não é sobre o sabor da vitória, é sobre o processo de encarar um desafio de frente. É sobre não desistir quando achamos que iremos fracassar.

(Os pênaltis da semifinal da Copa Nescau 2018) 

Quantas vezes na vida nós, mulheres, tomamos uma atitude verdadeiramente corajosa? Quantas vezes fazemos uma escolha sem nos preocupar em sermos perfeitas naquilo? Meninas não são ensinadas a arriscar, e assim nos tornamos mulheres habituadas a buscar apenas os caminhos em que já sabemos que somos boas.

E não é que não sejamos boas para as outras opções, mas não estamos acostumadas a enfrentar desafios. Estamos acostumadas a sermos ótimas, excelentes, e por isso desistimos mais rápido quando lidamos com uma situação na qual achamos que não vamos atingir esse nível de perfeição.

“Um relatório da HP descobriu que homens candidatam-se a um emprego se atenderem apenas 60% dos pré-requisitos. Mas as mulheres? As mulheres se candidatam apenas se tiverem 100% dos pré-requisitos”. Escutei esse dado em um TED intitulado “Ensine coragem às meninas, não perfeição”, apresentado pela empreendedora Reshma Saujani, fundadora do “Girls Who Code”, um projeto que educa meninas a aprenderem a programar, uma função de pura tentativa e erro.

O esporte é uma ferramenta maravilhosa para ensinar nossas meninas a serem corajosas. A enfrentarem o medo de entrar em quadra, diante de centenas de torcedores, e correr o risco de não ganhar. A arriscar um chute ou um drible diferente, mesmo sabendo que pode não dar em nada ou que pode até acabar gerando um contra-ataque pras adversárias. A escolher bater o pênalti decisivo e carregar nas costas o peso de poder ser quem salvou ou quem desperdiçou o sonho do time e de toda a torcida.

Metade da população mundial é feminina. Se estamos criando as meninas para serem perfeitas e os meninos para serem corajosos, estamos desperdiçando 50% do potencial da nossa humanidade. Logo, comecemos hoje a fazer como a mãe da minha atleta e digamos às meninas que conhecemos para encararem seus medos de frente e sentirem que o sabor da coragem é muito mais gostoso do que o da perfeição.


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2019 tem Copa do Mundo na França e eu vou jogar!

Julia Vergueiro
Júlia Vergueiro

Não é fake news, eu juro! rs
E sabe o que é ainda mais legal? Você pode jogar também!

Calma lá, deixa eu explicar: como vocês já sabem – eu espero – de 07 de junho a 07 de julho de 2019 a França sediará a Copa do Mundo Feminina. Serão 24 seleções em busca da taça que até hoje só foi levantada por quatro nações diferentes*.

Uma das coisas mais bacanas de qualquer grande evento esportivo é o que ele movimenta ao seu redor, e é em uma dessas atividades paralelas que eu terei a oportunidade de bater uma bolinha na mesma cidade e no mesmo período das semifinais e final desse Mundial. E repito: você também pode participar!

Equal Playing Field at Kilimanjaro
Equal Playing Field at Kilimanjaro Equal Playing Field

O Festival of Football é uma iniciativa da organização Equal Playing Field, a qual tem como propósito enfrentar a desigualdade de gênero no esporte e fomentar a prática esportiva para meninas e mulheres em todo o mundo, mas principalmente nas comunidades mais marginalizadas. Essa ONG, criada por três mulheres inglesas - duas ex-jogadoras de futebol e uma empreendedora social – iniciou sua atuação em junho de 2017 já batendo um recorde inédito: 32 mulheres, de mais de 20 países diferentes, subiram o Monte Kilimanjaro para jogar futebol e assim alcançar a marca da partida de futebol jogada no local de maior altitude em toda a história.


Em 2019, a meta volta a ser ousada: reunir 3500 jogadoras, dos mais diversos cantos do planeta, para bater o recorde do jogo de futebol mais longo da história. O recorde atual é de 2.357 pessoas jogando a mesma partida durante quatro dias, sem parar. O foco é que, mais uma vez, a atenção seja chamada para os desafios que meninas e mulheres ainda enfrentam para participar de todos os âmbitos do universo esportivo.

Tive o prazer de conversar diretamente com uma das organizadoras do festival e pude sentir em cada palavra a vontade genuína e poderosa de fazer acontecer. Todos os dias nós, meninas e mulheres, escalamos montanhas e enfrentamos longas caminhadas para conquistarmos nossos sonhos. A representatividade dessas partidas recordes é imensa, e por isso não tive como não topar.

Quem quiser estar nesse grande jogo, que fará parte de uma agenda maior que inclui outras atividades como palestras, filmes e oficinas sobre a temática da igualdade de gênero no esporte, precisa se inscrever no site e aguardar a “convocação”.

 Agora, é contagem regressiva para Lyon: 197 dias. Quem vem comigo?

(*As seleções campeãs desde 1991, por ordem de títulos conquistados: Estados Unidos: 91, 99 e 2015 / Alemanha: 2003, 2007 / Noruega: 95 / Japão: 2011)

 

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O futebol feminino é uma grande oportunidade para a renovação de que todo o futebol brasileiro precisa

Julia Vergueiro
Júlia Vergueiro

SPFC Campeão Paulista Feminino Sub-17 2018
SPFC Campeão Paulista Feminino Sub-17 2018 Rodrigo Coca/FPF

Na última segunda-feira estive na sede da Federação Paulista de Futebol acompanhando o II Seminário de Futebol Feminino organizado pela entidade. O objetivo ali era mostrar que “fazer futebol feminino não é um bicho de sete cabeças”, como bem colocou na sua fala de abertura a coordenadora de futebol feminino da FPF e ex-capitã da Seleção, Aline Pellegrino.

De fato, os cases de sucesso apresentados mostravam que não só é possível como é interessante aos clubes desenvolverem as suas categorias femininas. A Ferroviária, por exemplo, já possui patrocinadores específicos para o feminino, que enxergam a oportunidade de atingir um público diferente do que conseguiriam com o patrocínio à equipe masculina. O Centro Olímpico por sua vez segue batendo recordes de público nas suas peneiras, as quais nos últimos anos passaram a ser mensais e recebem por volta de 180 meninas em cada edição.

Com mais meninas interessadas e com um modelo de formação estruturado e de excelência, a “mágica” aconteceu. Não é à toa que, desde o ano passado, o São Paulo Futebol Clube resolveu fazer uma parceria com o Centro Olímpico para disputar competições femininas com a camisa do tricolor – já foram quatro torneios e quatro títulos.

As velhas desculpinhas de que não existe interesse por parte de empresas patrocinadoras ou de que não há meninas suficientes interessadas para compor um elenco competitivo já não cabem mais. E também não vale mais dizer que não existe um calendário organizado de torneios – no guarda-chuva da Federação, além do Paulista principal, há dois anos já são disputados o sub-17 e o sub-14 e com a presença dos chamados “clubes de camisa” como Santos e São Paulo. Esse último, inclusive, acabou de ser bicampeão do sub-17 no último domingo.


Pra mim, o maior desafio é aquele que todos nós já conhecemos: o despreparo e a incompetência dos clubes brasileiros pra fazer qualquer coisa que saia minimamente do padrão de “trabalho” já constituído. O problema não é fazer o feminino, o problema é ter que pedir ao velho para fazer algo novo, o problema é o medo de quem já acha que sabe tudo, ter agora que lidar com o desconhecido, mesmo não sendo necessária nenhuma formula mágica. Mas, como o próprio Diretor de Planejamento e Desenvolvimento da Ferroviária, Roberto Braga citou na segunda-feira, “trabalhar dá trabalho”, né?

Se o futebol masculino está do jeito que está, como esperar que esses mesmos gestores consigam desenvolver uma nova modalidade, que por mais similar que seja, possui suas especificidades? Como esperar que os nossos clubes que sofrem para conseguir patrocínio para um “produto” já conhecido o consigam para um “novo produto”? Todas aquelas discussões que afloraram na época do 7x1 podem não estar mais tão em pauta, mas os problemas continuam aí.

Infelizmente, muitas das pessoas que estão à frente dos clubes brasileiros hoje não estão acostumadas nem interessadas em botar a mão na massa. Além disso, existe uma grande falta de preparo e conhecimento sobre o universo da menina e da mulher, mas nada que não possa ser suprido com algo tão básico quanto estudar, pesquisar e se informar. Os profissionais do nosso futebol precisam sair da zona de conforto de ser a nação da bola nos pés e que acha que já sabe fazer tudo, e começar a se capacitar, se atualizar, a buscar conhecimento e inovação pra não ficarmos pra trás.

2019 está batendo à porta, e logo passará a valer a exigência da Conmebol na qual clubes que não tiverem equipes femininas serão proibidos de disputar a Libertadores masculina. Querendo ou não, será a hora de se mexer, e é aí que o futebol feminino pode emergir como uma grande oportunidade para que sejam valorizados os profissionais que de fato estão interessados em construir um esporte de excelência no nosso país. Não existem velhas soluções para novos desafios, e encará-los como oportunidade ou como problema é o que diferencia os competentes do restante.

Seminário Futebol Feminino FPF 2018
Seminário Futebol Feminino FPF 2018 Rodrigo Corsi/FPF


(
Aproveito o espaço para parabenizar a Aline Pellegrino pela organização do II Seminário de Futebol Feminino. Eventos como esse são extremamente necessários para que o conhecimento já existente sobre a modalidade seja compartilhado com aqueles que até então não faziam parte desse universo. A oportunidade para quem realmente quer aprender e se envolver está aí, cabe aos interessados saberem aproveitá-la.)

 

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