A vida do atleta brasileiro expatriado, muito além do estrelato

Gustavo Hofman

Expatriados.

Em tempos de xenofobia e intolerância, a palavra soa forte. Na prática, ela pode ter dois significados bem diferentes. Refere-se a alguém que saiu da própria pátria de maneira voluntária ou por obrigação.

Viver em um país estrangeiro sempre será um desafio para qualquer pessoa. Cultura, língua em muitos casos, clima, culinária, religião, são vários aspectos que podem tornar a vida fora do Brasil mais complicada para milhões de pessoas. No universo esportivo a situação não é diferente.

Muito longe das grandes estrelas internacionais, que ganham milhões, são paparicadas por seus clubes e torcedores, vivem em mansões e nem se preocupam com declarações de imposto de renda (quando não o driblam...) existem os personagens que formam a maioria dos atletas brasileiros expatriados. Quase sempre o lado financeiro é o que pesa, ainda mais com a economia brasileira em frangalhos e o Real cada vez mais desvalorizado, mas o desafio de atuar fora inclui muitos outros aspectos também.

No futebol, não há nação que mais fornece pé-de-obra para o mundo. Segundo o CIES Football Observatory, centro de estudos localizado na Suíça, a temporada 2017-18 terminou com 1236 jogadores brasileiros atuando em campeonatos nacionais espalhados pelo planeta. Muito à frente de França e Argentina, segunda e terceira colocadas no ranking com 821 e 760 atletas, respectivamente.

Como Alemão e Anderson Lopes, dois dos representantes brasileiros no futebol sul-coreano. O primeiro é um veterano zagueiro de 32 anos, com longa trajetória em diversos clubes do Brasil, entre eles Santa Cruz, Vila Nova, Ituano e Náutico. Já o segundo, aos 24 anos, é um atacante revelado pelo Avaí, com passagem pelo Atlético Paranaense e também pelo Sanfrecce Hiroshima, do Japão. Os dois chegaram na Coreia do Sul neste ano.

Alemão foi reforço do Pohang Steelers, time grande da Coreia do Sul
Alemão foi reforço do Pohang Steelers, time grande da Coreia do Sul Pohang Steelers

"Na grande maioria das vezes tem a questão financeira quando você vem para fora do país e no meu caso não foi diferente. Fui atrás de informações do futebol e dos clubes coreanos e as respostas sempre foram positivas, então como o país é muito bom para viver e morar, aceitei o desafio", explica Alemão, jogador do Pohang Steelers. 

Naturalmente o valor alto oferecido por equipes asiáticas chamam a atenção, mas muito além disso, a segurança no final do mês é o que mais atrai os estrangeiros. "A faixa salarial aqui é muito boa, paga tudo em dia. Não só o meu clube, mas todos os outros. Não atrasam salário, nem bicho. Não tenho o que reclamar da cidade. Moramos na capital, temos muitas opções, minha família adora aqui. É muito bom viver e morar aqui", garante Anderson Lopes, reforço do Seoul FC para a temporada. "Dependendo do clube que você está não tem comparação, mas até mesmo jogando em clube pequeno por aqui ganha mais do que no Brasil em clubes principalmente da Série B, além da questão do salário estar sempre em dia. Não atrasa em clube nenhum", completa Alemão.

Em média, estrangeiros ganham entre US$ 20 mil e US$ 50 mil no futebol sul-coreano.

Nos campos e nas quadras

Bem distante da Coreia do Sul, na região dos Balcãs, não apenas jogadores de futebol constroem a carreira longe do Brasil. Vítor Benite e Augusto Lima, jogadores da seleção brasileira de basquete, foram reforços do Cedevita para a atual temporada.

O clube, com sede na capital Zagreb, tem estrutura impressionante, com três quadras em seu centro de treinamentos, academia exclusiva para os atletas, quatro fisioterapeutas à disposição e muito investimento para voltar a se colocar entre os grandes da Europa. O Cedevita disputa a forte Liga Adriática, basicamente um Campeonato Iugoslavo com adversários de Sérvia, Bósnia, Macedônia e Montenegro, e a Eurocup, segundo torneio mais forte do continente. Além disso, montou um time B para o Campeonato Croata.

Benite vai defender o Cedevita, da Croácia, nesta temporada
Benite vai defender o Cedevita, da Croácia, nesta temporada Divulgação

"A escolha em vir para a Croácia não foi em relação ao país, e sim ao clube. Pelas ligas que eu vou jogar e a ambição do clube. É um país maravilhoso, tem uma costa linda, o pessoal aqui é muito bacana, educado, mas a minha maior motivação foi jogar em um clube com uma estrutura muito grande, com objetivo de jogar novamente a Euroliga. Hoje estou jogado a Eurocup, uma liga superior à que eu jogava em Murcia. Jogando também a Liga Adriática, que é a ex-Iugoslávia, times da Sérvia, Croácia, Montenegro, Macedônia e Bósnia. Tudo isso me motivou a fazer essa mudança e buscar um caminho diferente nesse momento", explica Benite, um dos grandes talentos do basquete brasileiro na atualidade, revelado pelo Clube Regatas, de Campinas.

A cada ano que passa o Novo Basquete Brasil cresce e se torna uma competição mais forte. Financeiramente, porém, assim como no futebol, a distância para os grandes clubes europeus é enorme. Para se ter ideia, um destaque do NBB ganha cerca de R$ 80 mil - poucos acima disso; Para um atleta de médio destaque, varia entre R$ 20 mil e R$ 30 mil; Há ainda os demais jogadores que compõem um time, cuja faixa salarial fica entre R$ 3 mil e R$ 6 mil. Na Espanha, onde atuavam Benite e Augusto Lima, o jogador médio ganha tranquilamente 8 mil euros, quase R$ 40 mil. 

"Financeiramente, em relação aos grandes times da Europa, o basquete brasileiro está bem atrás. Temos orçamentos de times top na Europa muito mais altos, de 23 milhões de euros por ano. Em relação à liga croata não, mas o Cedevita é um time top europeu, então tem um orçamento bem mais alto, eu diria, do que os times brasileiros. Além da estrutura, que é uma das partes mais importantes", diz Benite. "Tive tempo para conhecer um pouco de Zagreb. Uma cidade com um ambiente muito legal, povo muito educado, como o croata é difícil, todos falam inglês. A gente se vira de maneira bem rápida. Apesar de não ser uma cidade tão grande, tem muita coisa para fazer, na parte cultural, bares, restaurantes, as pessoas estão sempre nas ruas aqui".

Quem passou pela Croácia recentemente, mas nos gramados de futebol, foi o meia Bady, meia de 29 anos, com experiência em clubes do interior paulista, além de Figueirense e Atlético Paranaense. Em 2017 teve a primeira oportunidade internacional da carreira, ao ser contratado pelo Gençlerbirligi, da Turquia. Pouco aproveitado pelo treinador, foi se aventurar por seis meses no NK Istra e deu certo: marcou um gol, deu três assistências e ajudou a pequena equipe a se manter na primeira divisão através do playoff contra o rebaixamento.

"Quem trabalha com futebol sabe a importância de estar jogando, poder atuar, a diferença que faz. Por isso aceitei esse desafio e graças a Deus deu certo. Joguei a maioria dos jogos e isso facilitou a minha volta ao clube turco. Foi muito bom ter ido para lá", se lembra Bady, que agora retornou ao Gençlerbiligi para a disputa da segundona turca. "Tem sido uma experiência fantástica pra mim. Não só financeiramente, mas também a experiência de viver outra cultura, poder conhecer mais sobre o futebol europeu. Algo que a maioria dos jogadores tem como sonho, poder jogar na Europa. Estou gostando bastante, sempre com muita dedicação. Sempre buscamos coisas maiores na nossa carreira, principalmente no futebol".

No caso das duas modalidades esportivas já citadas, a realidade no Brasil ainda permite o sonho de se tornar atleta profissional. Com todas dificuldades possíveis, é verdade, mas em campeonatos fortes e bem organizados. Já no handebol a situação é bem diferente.

Rangel atua fora do Brasil há três anos
Rangel atua fora do Brasil há três anos Arquivo pessoal

"O que mais me motivou a ir para a Romênia foi o desafio de conhecer uma cultura nova, um idioma novo e uma liga diferente, além da boa oferta e condições que o clube ofereceu. Financeiramente tem muita diferença em comparação ao Brasil, aqui você vive só do handebol, e no Brasil muitas vezes os atletas têm que estudar ou trabalhar. Poucos conseguem viver só do esporte. Outra grande diferença é que aqui o esporte é profissional, somos pagos como um trabalhador normal, no Brasil muitas vezes não temos nem contrato".

O depoimento acima é do goleiro da seleção brasileira Rangel, de 22 anos, praticamente expatriado do Brasil por obrigação. Em 2016 ele foi contratado pelo Odorhei Secuiesc, clube romeno da região da Transilvânia, após defender o Villa de Aranda, time espanhol. Em dificuldades financeiras, a equipe fechou as portas no início deste ano, mas com a carreira em crescimento, Rangel não precisou voltar ao Brasil. Fechou contrato com o Bidasoa Irún, clube do País Basco, na Espanha.

Professores e head coaches

É notória a dificuldade do treinador brasileiro de futebol em trabalhar na Europa. Diversos profissionais com grandes carreiras fracassaram nas oportunidades que tiveram em grandes clubes - casos mais famosos de Vanderlei Luxemburgo e Luiz Felipe Scolari, no Real Madrid e no Chelsea, respectivamente. Já no Oriente Médio e na Ásia o técnico oriundo do Brasil sempre teve bom mercado.

Recentemente a Arábia Saudita levou o campeão brasileiro Fábio Carille para trabalhar no Al Wehda, e tantos outros estão na região. O Japão sempre foi um porto seguro para os professores daqui, até mesmo pela abertura que Zico, como jogador nos anos 1990, deu ao futebol brasileiro em terras nipônicas. Há outro desbravador agora, mas com uma bola de basquete.

Após conquistar quatro títulos do NBB, uma Liga das Américas e um Mundial com o Flamengo e ter atuado como assistente técnico da seleção brasileira por mais de dez anos, José Neto aceitou o desafio de iniciar um projeto no basquete japonês.

Neto e seus novos comandados no basquete japonês
Neto e seus novos comandados no basquete japonês Arquivo pessoal

"Tenho recebido convites para trabalhar fora do Brasil há alguns anos, mas os compromissos com a seleção brasileira e os clubes onde estava trabalhando no Brasil eram prioridades até então. Agora, como já não estou mais trabalhando com a seleção e terminou meu contrato com o Flamengo, onde trabalhei nos últimos seis anos, pensei que era o momento de iniciar uma carreira como treinador em uma equipe fora do Brasil", relata Neto, de 47 anos.

Após intervenção da Fiba no basquete japonês, houve a união das duas ligas nacionais em uma só há dois anos. Assim surgiu a B.League, com três divisões e 46 times. Na elite está o Levanga Hokkaido, da cidade de Sapporo e comandado por Neto. "Tive propostas de alguns países, mas a do Japão me atraiu mais por ser uma equipe que está buscando crescer como equipe na liga nacional japonesa e também por ter uma estrutura muito boa para esse desenvolvimento, mas principalmente por apresentarem um interesse grande na minha proposta em criar uma metodologia de trabalho na equipe. Para implementar esta metodologia, pude trazer o preparador fisico Diego Falcão que está trabalhando comigo há 12 anos".

Histórias e motivos não faltam para explicar e contar um pouco sobre essa "diáspora" esportiva brasileira.

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Processo migratório, utilização da base e trocas na temporada: futebol europeu mudou drasticamente nos últimos dez anos

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman

Bayern foi o clube que menos contratou jogadores nos últimos dez anos na elite europeia
Bayern foi o clube que menos contratou jogadores nos últimos dez anos na elite europeia GettyImages

Enquanto países optam por fechar fronteiras e recusar imigrantes, o futebol europeu segue o caminho contrário. Cada vez mais as principais ligas nacionais do continente estão internacionais e investindo mais em contratações. Isso tem gerado, também, o aproveitamento menor da base em algumas competições.

O CIES Football Observatory divulgou nesta quarta-feira levantamento estatístico sobre os últimos dez anos de 31 campeonatos de primeira divisão na Europa. Três itens foram analisados entre 2009 e 2018: treinamento (garotos revelados pelo clube), migração (atletas expatriados) e mobilidade (jogadores que mudaram de time durante o mesmo ano).

São considerados revelações os atletas que, entre 15 e 21 anos, passaram pelo menos três temporadas na mesma equipe. A data limite para o término do estudo foi 31 de outubro, ou seja, foram considerados os elencos até esse dia no mês passado. E, por fim, para entrar na conta, o jogador precisava ter atuado em pelo menos uma partida do campeonato nacional na temporada atual ou nas duas anteriores.

Para comparar regiões, a Europa foi dividida no estudo em cinco grandes áreas de análise:

NORTE
Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia

CENTRO
Áustria, Croácia, Eslováquia, Eslovênia, Hungria, Polônia, República Tcheca e Sérvia

LESTE
Belarus, Bulgária, Romênia, Rússia e Ucrânia

SUL
Chipre, Espanha, Grécia, Portugal, Israel, Itália e Turquia

OESTE
Alemanha, Bélgica, Escócia, França, Holanda, Inglaterra e Suíça

Em 2009, 23.2% dos elencos analisados tinham jogadores revelados no próprio clube; Esse índice caiu para 16.9% neste ano. O norte da Europa segue, desde o início, como a região onde os jovens têm mais oportunidades de estrear no time profissional, mas também sofreu redução: 30.7% para 21.9%. Já no sul, os índices são os menores: 16.7% e 21.8%, respectivamente.

A Liga ha'Al, em Israel, é a qual mais utiliza a base na atualidade com 28%. Já a Serie A, na Itália, tem o irrisório número de 7.4%.

Seguindo caminho proporcionalmente contrário, a migração cresceu no geral de 34.7% para 41.5%. Jogadores expatriados são considerados aqueles que se tornam profissionais no mesmo clube revelador. Isso evita que um ucraniano, por exemplo, desenvolvido e revelado por um clube inglês, entre nesse ranking.

No sul estão os clubes que mais têm atletas expatriados em seus elencos, com 51.8% na atualidade. Há dez anos, a marca era de 44.2% e era menor que no oeste (45.7%). É importante ressaltar que esse movimento de aumento ocorre por causa da migração de europeus, que subiu de 58.5% para 65.5%, reduzindo de sul-americanos e asiáticos, por exemplo.

Em nove das 31 ligas nacionais analisadas havia em 31 de outubro deste ano mais expatriados do que atletas locais, incluindo Alemanha, Inglaterra e Itália. A Premier League é a segunda no ranking continental com 62.7%, atrás apenas do Chipre (66.2%).

Para encerrar o levantamento, o percentual de contratações feitas pelo clube no mesmo ano, algo totalmente condicionado aos itens anteriores.

Neste ano, 44.4% dos elencos foram formados com jogadores que chegaram de fora do clube, 0.6% a menos que em 2017, mas 7.3% acima de 2009. Se analisada a média desse período, em 2018 tivemos 27 dos 31 campeonatos nacionais com índice superior.

Diferentemente do que muitos podem imaginar, os clubes que lideram essa estatística não são os mais poderosos. Afinal, eles podem dar estabilidade a um elenco e contratar jogadores pontuais - e pagar muito caro, naturalmente. Por isso, Bayern (76), Real Madrid e Barcelona ocupam a parte de baixo dessa tabela, com o IK Istra, da Croácia, no topo com incríveis 178 contratações nos últimos dez anos.

Confira o estudo completo do CIES Football Observatory.

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10 filmes de basquete no Watch ESPN que você precisa assistir

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman


Certamente não existe ranking que não cause polêmica. É, praticamente, um pressuposto para gerar um bom debate. A lista abaixo e acima, em texto e em vídeo, oferece uma lista espetacular de filmes sobre basquete disponíveis no Watch ESPN. Alguns vão discordar da ordem ou lembrar de outros que poderiam ser citados, mas o mais importante é que você assista todos. Não vai se arrepender.

10. Dominique belongs to us

https://es.pn/2RukmS5

9. Bad Boys

https://es.pn/2RC5elM

8. The Fab Five

https://es.pn/2RGHflo 

7. This Magic Moment

https://es.pn/2RB7BoD 

6. Maravich

https://es.pn/2Ryly6V 

5. Son of the Congo

https://es.pn/2Ea9i9Z 

4. I hate Christian Laettner

https://es.pn/2RAnMmb 

3. Celtics/Lakers: Best of Enemies

Parte 1 - https://es.pn/2RC3WXY 
Parte 2 - https://es.pn/2E6U9pQ 
Parte 3 - https://es.pn/2E4L8h6 

2. The Announcement

https://es.pn/2E6U85g 

1. Once Brothers

https://es.pn/2E6JkEd 

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Balões, bambolês e bonés: como um brasileiro está inovando os treinamentos na NBA

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman

Desenhos na parede para os treinos do Phoenix Suns
Desenhos na parede para os treinos do Phoenix Suns Arquivo pessoal

Quando Nandes chegou ao ginásio de treinamentos do Phoenix Suns, os jogadores se assustaram. Assim que o brasileiro começou a colocar os equipamento de trabalho sobre uma mesa, a curiosidade tomou conta de todos. Balões, bambolês, lasers, bonés, óculos de várias cores... Tudo aquilo para um treino de basquete.

A equipe do Arizona não é, definitivamente, a melhor da NBA. Muito longe disso, mas mesmo assim possui no elenco jovens e talentosos jogadores, como o armador Devin Booker e a primeira escolha do último draft, Deandre Ayton. Além deles, tem ainda veteranos como Ryan Anderson, há dez anos na liga. Todos se surpreenderam com o que viram nas quadras dos Suns.

Fernando Pereira, mais conhecido como Nandes, tem 30 anos, foi jogador de basquete, é formado em educação física, professor da UniBH e atualmente trabalha no Instituto Superação e no Minas Tênis Clube, nas categorias sub-13 e sub-15, além do desenvolvimento de jogadores da equipe profissional que joga o NBB. Ele criou uma metodologia de treinamentos focada na cognição e na ação. Ou seja, exercícios específicos para criar autonomia de membros e sobrecargas motoras e perceptivas, com o intuito de aproximar ao máximo um movimento de treino ao que se realiza em um jogo.

Booker, ainda com a mão direita imobilizada por causa de uma cirurgia, participou de uma atividade com balões. Cercado por quatro treinadores e sob o comando de Nandes, batia a bola, recebia passes e não podia deixar os balões tocarem o chão. Outros atletas trabalharam com bambolês, bonés e até mesmo bolas de futebol, como Dragan Bender.

"Qualquer objeto é um elemento. A bola é o elemento um, o bambolê ou o balão é o elemento dois. O bambolê serve para ocasionar sobrecarga motora. Enquanto tem o elemento um em uma mão, o atleta tem o elemento dois na outra fazendo outro movimento dentro do programa motor. O cérebro precisa criar autonomia de membros, porque se ele faz uma coisa de um lado e outra do outro, isso se chama dissociação. No jogo, os atletas estão o tempo todo sob sobrecarga, marcados, com a mão precisa se deslocar entre os defensores e a bola precisa ser conduzida automaticamente. Colocar outros elemento significa 'enganar' o cérebro. O balão é um pouco parecido, também como outro elemento, mas é uma sobrecarga perceptiva, porque é um elemento aleatório. O atleta precisa treinar o olho, visão periférica e dar o toque no balão para não cair e o tempo todo está batendo bola", explica Nandes, sempre sob a supervisão e autorização do técnico Igor Kokoskov.

Como tudo começou

Toda história de Fernando Pereira está ligada ao basquete mineiro. No Minas ele foi treinado por Raul Togni, pai de Raulzinho, e se tornou jogador. Conheceu o brasileiro do Utah Jazz ainda garoto e criou bom relacionamento com a família. Parou de jogar cedo, em 2008, em uma época de vacas magras para a bola ao cesto brasileira. Foi estudar e conseguiu, em São João del Rey, vaga na Federal e também como técnico de um time local. Ralou muito no início, nas mais variadas funções que um formando em educação física se habilita até uma mudança radical em 2015.

Foi o ano em que a Federação Mineira contratou um técnico argentino, Ricardo Bojanich, para trabalhar com a base do estado. Muito amigo de Rubén Magnano, ele dava treinos e clínicas nos clubes. Flávio Davies, que fora técnico de Nandes no adulto do Minas, o indicou para o cargo de assistente. Meses depois, Demétrius, que treinava o Minas, foi contratado pelo Bauru e Cristiano Grama subiu do sub-19 para o principal. Todos abaixo também subiram uma categoria e assim surgiu a oportunidade de retornar ao clube que o formou.

Já em junho de 2016, houve o reencontro com Raulzinho, que passava férias em Belo Horizonte e foi no clube treinar. Na oportunidade, Nandes apenas "pegou bola" para o jogador da NBA, mas um ano depois, já com a metodologia diferenciada sendo desenvolvida, não foi apenas um auxiliar do armador, mas sim seu técnico. "O Raulzinho deu um feedback muito positivo, disse que nunca tinha visto isso na NBA e fez o convite para ir até o Jazz, ficar na casa dele".

No dia 14 de janeiro de 2018, Nandes pegou o avião e foi pela primeira vez aos Estados Unidos. Viajou apenas com a expectativa de conhecer todas instalações do Utah Jazz e trabalhar em alguns treinos com Raulzinho. Logo no primeiro dia, foi ao ginásio para acompanhar a partida contra o New York Knicks. Assim como todos do time, chegou bem cedo e assistiu todo aquecimento.

Igor Kokoskov, técnico sérvio com quase 20 anos de experiência no basquete norte-americano entre NCAA e NBA, campeão em 2004 como assistente no Detroit Pistons e medalha de ouro no Europeu de 2017 no comando da Eslovênia fazia parte do staff do treinador Quin Snyder em Salt Lake City. Raulzinho foi o responsável pela apresentação de Nandes a todos. Igor agradeceu pelos treinos ao armador brasileiro nas férias e se sentou na arquibancada. Nandes viu, ali, a oportunidade de estabelecer uma relação mais forte e criticou o aquecimento dos jogadores do Jazz a Kokoskov.

"Ali minha vida mudou. Eu critiquei o aquecimento dele e ele me ouviu. Mostrei que os exercícios estavam aquecendo a área motora, mas precisava aquecer a área cognitiva também, para as tomadas de decisão. Ele me pediu para explicar mais e fui explicando, mostrando vídeos que eu tinha com o Raulzinho. No terceiro vídeo, ele pegou o celular da minha mão e ficou analisando, pedindo mais explicações. Em dez minutos ele ficou doido", relembra.

No dia seguinte, convocado pelo sérvio, Nandes foi ao ginásio para trabalhar. Mais cedo, foi ao Wallmart comprar todo material necessário: balões, lanternas, lasers, frisbees, bambolês... "Umas coisas meio doidas, ligadas à neuroaprendizagem", brinca com seu 'mineirês'.

As vítimas foram os armadores. Além de Raulzinho, o espanhol Ricky Rubio participou das atividades, com Igor acompanhando tudo. Foram 17 dias participando ativamente da rotina do time e, no final, o convite do técnico Quin Snyder para voltar na pré-temporada. Quando retornou ao Brasil, a primeira coisa que Nandes fez foi buscar um professor de inglês particular para desenvolver o novo idioma. 

Fernando Pereira agradou à comissão técnica dos Suns com seus treinos inovadores
Fernando Pereira agradou à comissão técnica dos Suns com seus treinos inovadores Arquivo pessoal

Outra mudança de rumo

Não houve qualquer acerto oficial ou contrato assinado, apenas um aperto de mão. Só que em maio de 2018, após o Houston Rockets eliminar o Jazz nos playoffs, Igor Kokoskov recebeu o convite para se tornar treinador do Phoenix Suns. Justamente o maior elo de Nandes na franquia de Utah. De qualquer modo, havia esperança ainda.

Em agosto deste ano, Raulzinho veio ao Brasil acompanhado do pivô Rudy Gobert para um camp voltado a crianças em São Paulo e com um pedido específico de Quin Snyder: Nandes deveria treinar o gigante francês; se ele gostasse, o plano de viajar para a pré-temporada do time poderia ser reativado.

Na quadra do Clube Alto dos Pinheiros, na capital paulista, Gobert foi orientado por Nandes durante 25 minutos. Trabalhou com bambolês, balões e lasers sob os olhares das câmeras da NBA. Gobert gostou muito. 

Só que o pivô não estava muito interessado em se apresentar tão cedo ao seu time nos Estados Unidos e resolveu esticar as férias. Isso afetou diretamente o sonho de Fernando, porque não haveria mais tempo na agenda do Jazz para seus treinos específicos. Com isso, tudo voltava à estaca zero. Mais ou menos... "Pedi para o câmera da NBA os vídeos. Quando ele me mandou, repassei para o Igor. Ele viu e depois de três dias me mandou uma mensagem: quando você pode vir a Phoenix?". As passagens chegaram nos dias seguintes, assim como a reserva no hotel bem em frente ao ginásio dos Suns. 

Em 14 de setembro, Nandes partiu pela segunda vez aos Estados Unidos, já com o inglês afiado. Kokoskov o buscou pessoalmente no hotel. "Ele me falou que não era uma data muito boa, porque já estava treinando jogadas, mas queria que eu fosse para o staff me conhecer, porque estava pensando em mim na próxima pré-temporada". O head coach apresentou as quadras, a academia, o escritório e toda estrutura do time no primeiro dia. Antes de irem para a quadra, Nandes pediu para apresentar novamente os conceitos dos seus treinamentos. 

Deandre Ayton, primeira escolha do Draft 2018 da NBA, junto a Nandes
Deandre Ayton, primeira escolha do Draft 2018 da NBA, junto a Nandes Arqu

"A parede do escritório é o quadro, tudo um quadro branco. Usei a metade que estava vazia. O que era para durar 15 minutos, durou três horas. Por culpa dele, que ficou tão empolgado, que pedia exemplos, explicação. E meu inglês nos últimos seis meses melhorou bastante Depois disso, na primeira reunião, às nove da manhã, ele me apresentou para toda comissão técnica. Falou para o pessoal olhar para a parede, lá estava tudo escrito. Disse que tinha me trazido para sugarmos tudo, que eu era um cientista do basquete. Imagina o head coach falando isso! Então todo mundo quis ouvir, ninguém teve preconceito", conta.

Deandre Ayton, Dragan Bender, Mikal Bridges, Isaiah Canaan todos passaram pelos treinos. Ryan Anderson foi quem mais se interessou. "A maioria deles, com cinco minutos, já entendia rápido. O Ryan Anderson foi quem mais percebeu isso, dizia que é um jogador que precisa disso, de inteligência, não é muito físico. Ele foi quem mais me surpreendeu, ficava conversando comigo nos corredores".

A maior estrela dos Suns também se empolgou com o que fez. "Com o Devin Booker o trabalho foi mais básico, porque ele só pôde treinar com uma mão. Mesmo lesionado, ele se interessou muito pelo trabalho e fez movimentos mais simples, como bater para dentro, leitura, bandeja de esquerda, se acende a lanterna passa, se não vai para a cesta. Ele me via e já cobrava o treinamento do dia seguinte. Um cara fora de série, de uma inteligência absurda", explica. "No treino com balão, havia quatro pessoas ao redor. O balão não podia cair no chão, cheguei a colocar dois balões. Ele tinha que receber o passe, mandar de volta com a mão esquerda e não deixar os balões caírem. Cada técnico era um número, eu falava quatro e o correspondente passava, ele dava um tapa de volta e não deixava os balões caírem". 

Durante uma semana, Nandes foi testado de todas maneiras possíveis pelos assistentes técnicos. Era questionado o tempo todo sobre o objetivo de cada exercício e passou a ser chamado também para outras atividades dos jogadores. No último dia, Igor e o general manager na época, Ryan McDonough, o convidaram para retornar em janeiro.

Fernando Pereira e Igor Kokoskov, técnico do Phoenix Suns
Fernando Pereira e Igor Kokoskov, técnico do Phoenix Suns Arquivo pessoal

"No processo de repetição, os jogadores da NBA erram pouco, acertam 23 de 25, o cara é fera, está na melhor liga do mundo. Mas quando você vai para o processo aleatório, os exercícios que eu faço, o cara erra demais. Ele precisa entender que são os processos cognitivos que estão sendo alterados, dentro da sinapse, dentro dos neurônios. Precisam entender para estarem motivados. O Isaiah Canaan se interessou muito e para ele eu consegui explicar bem os conceitos, então ele absorveu a ideia de longo prazo. Errava bastante, mas entendia que era uma mudança de processos no cérebro. Um atleta que dribla um cone, outro cone, faz a bandeja, não está tão perto do jogo. Um atleta que está girando um bambolê, exige mais do cérebro, utiliza regiões similares às do jogo. O cérebro está sobrecarregado o tempo todo. O jogo é uma tempestade de sobrecargas. Tem que atacar, marcar, está livre, está marcado. Tem que fazer o atleta ficar sobrecarregado, não o tempo todo, mas buscar exercícios que fiquem mais próximos do jogo".

Ao que parece, Nandes tem conseguido isso. E está cada vez mais perto da NBA.

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Os caminhos da fé de Lyon a Jerusalém

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman

Marcelo, Marçal e Rafael, jogadores do Lyon, estiveram em Israel recentemente
Marcelo, Marçal e Rafael, jogadores do Lyon, estiveram em Israel recentemente Arquivo pessoal

Jerusalém é considerada o berço de três das maiores religiões do mundo. Cristãos, muçulmanos e judeus tratam o local, um dos berços da civilização, como sagrado.

Cerca de 3.5 milhões de turistas visitam anualmente a cidade, considerada capital de Israel e Palestina, e consequentemente centro de disputa entre as duas nações. Recentemente, em maio deste ano, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, gerou enorme polêmica internacional ao mudar a embaixada norte-americana em território israelense de Tel Aviv para a cidade santa, a reconhecendo oficialmente como capital do estado de Israel.

Distantes mais de 3000 km de Jerusalém, três brasileiros, jogadores profissionais do Lyon, resolveram seguir o caminho da própria fé. No período da última data Fifa, no final de agosto e início de setembro, fizeram uma viagem espiritual a Israel e foram batizados no Rio Jordão.

O mais experiente deles é o zagueiro Marcelo, de 31 anos, revelado pelo Santos e com longa carreira no futebol europeu. Já o mais conhecido é o lateral Rafael, 28, que defendeu o Manchester United ao lado do irmão gêmeo Fábio entre 2008 e 2015. Por fim, Fernando Marçal, 29, formado no Guaratinguetá e que, como tantos outros atletas saídos do Brasil, mudou bastante de clube até se firmar, agora, com a camisa dos Les Gones.

Os três, em comum, além da cidadania e a paixão pela bola, têm a religião. Todos são evangélicos. "Foi incrível. Imaginei que seria maravilhoso, mas não imaginei que fosse tanto. Renovou a minha fé, aumentou meu conhecimento. É a Bíblia viva! Jerusalém é totalmente especial. Me arrepiava em passar pelos lugares aonde Jesus esteve, relembrar e conhecer mais dos fatos bíblicos estando ali presente. O Rio Jordão também é muito emocionante. Não tem como você não sair de lá diferente, impactado", conta Rafael.

Os três brasileiros foram batizados no Rio Jordão
Os três brasileiros foram batizados no Rio Jordão Arquivo pessoal

Na atual temporada, o Lyon ocupa a sétima posição da Ligue 1 após cinco rodadas, com duas vitórias, um empate e duas derrotas. Marcelo e Rafael são titulares absolutos na linha de defesa do técnico Bruno Génésio, enquanto Marçal, lesionado, ainda não jogou. O clube foi heptacampeão francês entre 2001 e 2008, em uma histórica equipe que teve como grande símbolo o meia Juninho Pernambucano.

"Eu procuro colocar Deus na frente de tudo. Acredito que o futebol seja parte da minha vida, mas tenho minha vida pessoal também. Seguir Deus é mais importante pra mim do que o futebol", explica Marcelo, ressaltando a importância da fé em sua trajetória. "Essa viagem significou muito. Tenho fé, creio no que leio na Bíblia e quando você está lá, vê, toca, sente realmente e lembra daquilo que você leu, percebe naquele momento onde as coisas aconteceram", completa.

Os três estiveram também em Tel Aviv e Nazaré, sempre acompanhados de Leonardo Scheinkman, que é judeu e o responsável pelas carreiras de Marcelo e Rafael. Partiu dele a iniciativa que encantou o trio.

"Pra mim foi como voltar no tempo e entrar na história. Foi um lugar emocionante. Quando estava na prisão onde Jesus ficou, eu sentia as chicotadas, sentia Jesus carregando a cruz. Senti o amor dele para curar os paralíticos quando estivemos no Tanque de Betesda. Foram dois dias de visita que fortaleceram muito minha fé como eu não imaginava, e espero voltar com minha família", afirma Marçal.

O esporte mais popular do planeta é palco de diversas demonstrações de fé no dia a dia. Nos vestiários brasileiros é absolutamente normal o espaço destinado às rezas. Torcedores fazem o sinal da cruz nas arquibancadas para torcer que a cobrança de pênalti vá para fora. Santos e santas fazem parte de preleções de diversos treinadores, mais velhos ou mais jovens. A fé é, praticamente, um elemento a mais do jogo e precisa ser compreendida.

"Minha fé ajuda muito. É muito bom ter essa certeza de que as coisas não dependem só de você. Que você tem um Deus que te guia, que trabalha por você. Entender que tudo tem um propósito e que só ele sabe a hora", sintetiza Rafael.

Nesta quarta-feira, o Lyon enfrenta o Manchester City, fora de casa, pela primeira rodada da Uefa Champions League. Um enorme compromisso dentro de campo, que também vai exigir muita fé.

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Os caminhos da fé de Lyon a Jerusalém

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Imagine estrear com apenas 16 anos pelo Corinthians

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman

O Campeonato Brasileiro de 1993 já começou bagunçado. Após a virada de mesa promovida pela CBF, que subiu 12 times da Série B e não derrubou os últimos do ano anterior, a competição teve fórmula diferente. Foram 32 clubes divididos em quatro grupos, com os três primeiros de A e B avançando, além dos dois primeiros de C e B, que ainda jogariam um playoff. Bagunça total, mas com grandes elencos no futebol brasileiro.

Era a época da Parmalat no Palmeiras, que sem dúvida tinha o melhor time - e no final das contas foi o campeão ao bater o Vitória de Dida, Paulo Isidoro e Alex Alves na decisão. O grande rival do alviverde, o Corinthians, era praticamente o oposto em termos de futebol. Comandado por Mário Sérgio, era uma equipe de pouca técnica, mas que priorizava demais a tática. Em junho, nos clássicos que decidiram o Campeonato Paulista, o fim do jejum palmeirense.

Logo na primeira rodada do Brasileiro, o Corinthians enfrentou o Cruzeiro, no Mineirão. Quase 22 mil pessoas foram ao estádio, para acompanhar o time do coração e também um jovem atacante que começava a despontar na Raposa, de nome Ronaldo. Do lado alvinegro, porém, houve uma grande novidade.

Durante a semana, Mário Sérgio convocou da base um volante, muito talentoso com o pé esquerdo, que estava quase trocando o futebol de campo pelo futsal. Assim, aos 16 anos, José Elias se tornou na época o jogador mais jovem a vestir a camisa do Corinthians - depois foi superado por Jô.

Hugo, Leandro Silva, Marcelo, Henrique e Admílson; Zé Elias (Embu), Marcelinho Paulista (Elias), Ezequiel e Válber; Tupãzinho e Rivaldo. Com essa escalação e gols de Leandro e Tupã, o Timão venceu por 2 a 0 fora de casa, abrindo a campanha que seria encerrada com apenas uma derrota, na segunda fase, diante do Vitória.

Ali, há exatos 25 anos, começou a surgir o Zé da Fiel, um dos grandes ídolos corintianos dos anos 1990.

Matéria da Folha, no dia da estreia de Zé Elias
Matéria da Folha, no dia da estreia de Zé Elias Acervo Folha
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Imagine estrear com apenas 16 anos pelo Corinthians

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Na meca do futebol americano, o soccer ganha espaço com ajuda brasileira

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman

AT&T Stadium é a casa do Dallas Cowboys na NFL
AT&T Stadium é a casa do Dallas Cowboys na NFL Divulgação

No início de setembro a bola oval volta a voar oficialmente na NFL. O Dallas Cowboys não é necessariamente o time mais vitorioso da liga, mas é chamado de "America's Team" por conta de sua enorme e apaixonada torcida. Em média, a equipe levou 92.721 torcedores por jogo ao AT&T Stadium na temporada passada e vai manter números aproximados ou até maiores para 2018 e 2019.

O mesmo vai acontecer com o Dallas Mavericks na NBA. Apesar da fraca campanha na temporada passada, quando ficou fora dos playoffs e amargou a antepenúltima colocação na Conferência Oeste, foi o quinto em média de público na liga com média de 19.791 presentes por partida no American Airlines Center, cuja capacidade máxima oficial para basquete é de 20 mil pessoas. Agora, com a chegada do esloveno Luka Doncic, a empolgação aumentou entre os fãs dos Mavs. No mesmo local, o Dallas Stars, que não avançou à pós-temporada da NHL em 2017-18, levou 18.110 torcedores por partida.

Não exatamente na terceira maior cidade do Texas e nona dos Estados Unidos, mas na região metropolitana de Dallas, o Texas Rangers, que já teve George W. Bush como um dos proprietários e está localizado em Arlington, tem média de 26.202 presentes por jogo neste ano. Aliás, Dallas faz parte do grupo de 13 áreas metropolitanas norte-americanas com representantes nas quatro grandes ligas profissionais do país.

Nesse incrível cenário esportivo, onde os 7.4 milhões de habitantes de Dallas-Fort Worth têm na prática jogos para ir durante todo ano, ainda há espaço para mais um time.

"Eles são apaixonados por esporte, é impressionante. Em qualquer lugar, no shopping, nas ruas, sempre tem algo dos Cowboys. A gente sempre vê a estrela deles, mas o FC Dallas é o outro time que mais marca presença na cidade. Com lojas e todo material possível". Esse é o relato do lateral-esquerdo Marquinhos Pedroso, revelado pelo Figueirense, que desde o início de julho defende o FC Dallas, que em seus primórdios se chamava Dallas Burn e foi um dos clubes fundadores da Major League Soccer. 

Marquinhos Pedroso foi revelado pelo Figueirense e chegou neste ano ao Dallas
Marquinhos Pedroso foi revelado pelo Figueirense e chegou neste ano ao Dallas Divulgação

No ranking local da média de público, o time de futebol perde para os demais já citados. No ano passado, quando sequer chegou aos playoffs, o Dallas levou 15.122 torcedores por jogo, a menor marca da MLS. No entanto, não foi assistido por menos de 14 mil pessoas no Toyota Stadium, localizado em Frisco (distante 45 minutos do centro de Dallas) e com capacidade total para 20.500 pessoas devidamente acomodadas em um palco exclusivo para soccer, em jogo algum.

Neste ano a média tem sido basicamente a mesma, com 15.017, terceira pior marca da liga, mas com um fato que demonstra a solidificação do público: o Dallas é o líder da Conferência Oeste com 42 pontos após 23 jogos. Ou seja, ganhando ou perdendo, a torcida comparece de qualquer modo. Se a franquia do Texas fosse um clube da Série A do Campeonato Brasileiro, com a atual média, ocuparia o 12o lugar no ranking de público no primeiro turno.

"O jogo aqui é um evento para eles, é uma cultura diferente da nossa. Lembro de quando cheguei, no primeiro jogo que fui ver, quando perdíamos para o Atlanta por 2 a 1 e em momento algum a torcida parou de nos apoiar. Fazia ola, cantava as músicas, e no final viramos o jogo", diz Marquinhos, que é treinado pelo técnico colombiano Óscar Pareja e tem como alguns companheiros o experiente lateral suíço Reto Ziegler, o defensor hondurenho Maynor Figueroa e o atacante paraguaio Cristian Colmán. O FC Dallas tem um vice-campeonato da MLS (2010), dois títulos da Copa dos Estados Unidos (1997 e 2016) e é nacionalmente conhecido pela formação de jovens atletas. 

O contrato do lateral, que antes passara por Gaziantepspor-TUR e Ferencváros-HUN, com o clube texano vai até 2021, e um dos responsáveis por sua contratação foi o também brasileiro Luiz Muzzi. Ele é diretor de Futebol do FC Dallas desde 2012, e antes trabalhou com o mesmo cargo na Traffic, onde dirigia o Miami FC.

A casa do FC Dallas, o Toyota Stadium, a partir de outubro passará a ter enorme importância para a história do futebol nos Estados Unidos. Está prevista para o dia 20 a inauguração do Hall da Fama do soccer norte-americano no local. "Todo o estádio está sendo reformado para o Hall da Fama", garante Bruno Paschoalini, Complex Supervisor do FC Dallas há três anos, e com experiência profissional nos Cowboys e nos Mavericks.

Bruno Paschoalini cuida do complexo esportivo do FC Dallas
Bruno Paschoalini cuida do complexo esportivo do FC Dallas Divulgação

Aliás, a estrutura do FC Dallas vai muito além do palco principal. O Centro de Treinamentos em Frisco tem 20 campos oficiais, e ainda há uma segunda base de treinos, em Dallas, com outros 12 gramados de medidas oficiais e mais sete menores. Nada, porém, que se compare ao AT&T Stadium. "É coisa de louco o estádio, nunca vi igual. Os Cowboys são grandes demais, é a marca de esporte mais forte que existe", cita Paschoalini, se referindo à lista de marcas mais valiosas do esporte elaborada pela Revista Forbes.

O comentarista de futebol americano dos canais ESPN, Paulo Mancha, já esteve no Texas, assistiu a um jogo do Dallas Cowboys e teve a oportunidade de conhecer bem Dallas. "Eu não esperava ver tantas menções ao 'America’s Team' fora do estádio em si ou das áreas comerciais da cidade. Daí a grata surpresa ao passear pelos cinco terminais do gigantesco Aeroporto Internacional Dallas-Fort Worth. São nada menos que quatro lojas totalmente dedicadas ao Dallas Cowboys, além de um restaurante temático", conta o jornalista em seu blog Viajando pelo Esporte.

Dallas ainda tem mais dois times profissionais: desde 2016, os Wings levam o nome da cidade na WNBA, e desde o ano passado o lacrosse masculino tem um representante local também, os Rattlers. 

"Dallas é apaixonada por vitórias e já faz um tempo que os times daqui não conquistam um título. Os Cowboys não vencem o Super Bowl desde 1995, mas é um time de gerações, cujo sucesso no passado para de uma família para outra. Os Stars ganharam a Stanley Cup em 1999, os Mavericks venceram seu único título em 2011 e os Rangers já jogaram a World Series, mas nunca venceram. Quando os times estão bem, a paixão aumenta. Com os Cowbows sempre há paixão", conta Todd Archer, repórter da ESPN que cobre o dia a dia do Dallas Cowboys.

Para sorte dos times profissionais de Dallas, não há grandes universidades na região, e sim em outras cidades do estado. A maior paixão do texano é, sem dúvida alguma, o futebol americano - e principalmente seus times de escolas e faculdade. Texas A&M leva multidões de 100 mil pessoas para seu estádio em Brazos County, assim como Texas Longhorns em Austin. Isso sem falar em outros programas tradicionais da modalidade no estado, como Baylor, Texas Tech e TCU.

Ao menos os habitantes de Dallas podem sentir o gostinho do futebol americano universitário de vez em quando. O Red River Showdown é um jogo disputado no terceiro final de semana de outubro, no Cotton Bowl normalmente lotado com 92 mil torcedores, que reúne uma das grandes rivalidade do país: Oklahoma Sooners e Texas Longhorns. Há ainda o Cotton Bowl Classic, que passou a ser jogado no AT&T Stadium e tem times variados a cada edição

Assim fica o Cotton Bowl em um dia de Texas x Oklahoma
Assim fica o Cotton Bowl em um dia de Texas x Oklahoma Divulgação

Culturalmente, o estado do Texas é muito influenciado pela cultura latina, afinal, tem longa e polêmia fronteira com o México. Segundo censo de 2010, cerca de 66% da população de Dallas é formada por hispânicos.

"O texano é muito receptivo, e eles mesmo dizem que são os mais receptivos dos Estados Unidos. Em qualquer restaurante ou outro local sempre se fala inglês e espanhol", garante Marquinhos Pedroso, que vive em Frisco, perto do estádio, com a esposa. "O público latino é maior, sem dúvida, mas os americanos têm muitos season tickets, que dão direito a toda temporada", completa Paschoalini, sobre os torcedores que frequentam as arquibancadas em jogos do FC Dallas.

A cidade, que cresceu economicamente com a chegada da ferrovia em meados dos anos 1870, ficou marcada negativamente na história com o assassinato de John Fitzgerald Kennedy e hoje tem mais shoppings centers per capita do que qualquer outra dos Estados Unidos tem na formação de seu povo o esporte, e vai cada vez mais se abrindo para o soccer.

"O FC Dallas tem seu nicho e eu acredito que esteja crescendo, assim como o esporte continua a aumentar em popularidade no país. Eles vão superar Cowboys, Rangers, Mavericks e Stars? Provavelmente não, mas oferecem um produto sólido e demonstram a habilidade de achar jogadores talentosos sem investir enormes quantidades de dinheiro", finaliza Todd Archer.

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Estilo de jogo, posicionamento, características: conheça Ángelo Araos, novo reforço corintiano

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman
Ángelo Araos em ação contra o Vasco da Gama em março, pela Libertadores
Ángelo Araos em ação contra o Vasco da Gama em março, pela Libertadores Getty Images

O Corinthians acertou neste final de semana a contratação de Ángelo Araos, meio-campista de 21 anos, que estava na Univerdidad de Chile. Mais um reforço, para um clube que perdeu muitos jogadores nas últimas semanas e tem compromissos importantes pela frente na temporada.

Considerado uma das grandes revelações do futebol chileno, Araos chega sem grandes expectativas a São Paulo, mas já com a necessidade de ajudar a evolução do time comandado por Osmar Loss.

Movimentação e posicionamento

Mapa de movimentação e ações com bola do meio-campista Ángelo Araos
Mapa de movimentação e ações com bola do meio-campista Ángelo Araos ESPN Trumedia

Trata-se de um meio-campista destro, com qualidade para atuar em todas funções ofensivas no setor. Seu mapa de ações com bola nesta temporada mostra um atleta atuando aberto pela esquerda, majoritariamente. No entanto, Araos nos últimos jogos da Universidad de Chile era um dos meias centrais.

No 4-3-3 da equipe chilena, ele atuava pela direita ou pela esquerda na faixa central, à frente de Felipe Seymour e ao lado de Gustavo Lorenzetti. Sempre com muita liberdade para avançar e finalizar de fora da área. Possui bom porte físico, ajuda bastante na marcação e tem boa capacidade de desarme, como os dados mais abaixo comprovam o que é possível verificar na prática.

Taticamente, às vezes se empolgava demais na fase defensiva, subindo a marcação e deixando espaço nas costas, entre as linhas defensivas no esquema desenhado pelo técnico argentino Frank Kudelka. Ofensivamente, é um atleta que não tem a velocidade como ponto forte, e sim o controle do ritmo do jogo com seus passes.

Carreira e estatísticas

Estreou no profissional do Deportes Antofagasta no Torneo Apertura de 2015. No ano seguinte foi peça regular da equipe, tendo atuado em 25 jogos pelo Clausura e pelo Apertura, com dois gols marcados. Já em 2017, mesmo ano em que jogou o Sul-Americano sub-20 com a seleção chilena, Araos se tornou fundamental no time e atuou em todas partidas na campanha do Antofagasta no Torneo Transición, que culminou com a sétima posição.

Em janeiro de 2018, a Universidad de Chile desembolsou US$ 800 mil por metade de seus direitos federativos. Dois meses depois, estreia na Libertadores, e apesar da fraca campanha de La U, lanterna no Grupo E, suas atuações chamaram a atenção dos analistas corintianos. Araos, inclusive, marcou o gol da vitória no 1 a 0 contra o Vasco, logo na primeira rodada.

O talento do meio-campista, cuja real altura não é certa (no site do clube chileno aparece com 1m70, enquanto em outros 1m74 e  1m82), fez com que Reinaldo Rueda o convocasse para três amistosos com a seleção do Chile, diante de Romênia, Sérvia e Polônia neste ano. Diante dos poloneses, em 8 de junho, estreou com a camisa da Roja.

Na temporada 2018, somando as competições chilenas e a Libertadores (24 jogos no total), Araos participou de 1137 ações com bola, teve aproveitamento de 80.9% nos passes (586 certos de 724 tentados) e recebeu outros 660, além de conseguir 26 finalizações (17 certas e seis gols), 83 jogadas de 1x1 e 39 dribles (aproveitamento de 47%). Perdeu a posse de bola 61 vezes nesse período, cometeu 50 faltas, mas sofreu 52, teve 42 desarmes, 16 jogadas aéreas vencidas (aproveitamento de 43.2%) e nove interceptações.

Análise chilena, por Rodrigo Bernal, jornalista do Girovisual Sports TV

Esta será a terceira camisa que vestirá o jovem talento de 21 anos, Ángelo Araos. Volante misto com técnica invejável, capacidae de marcar gols e grande disparo de média distância.

Outra das grandes virtudes que tem Araos é que não lhe incomoda jogador em distintas posições do meio-campo até o ataque. Ele sempre consegue chegar ao gol com um passe ou diretamente para o gol e isso o torna diferente de seus pares, porque não se esquiva de ninguém para lutar pela titularidade em sua equipe e já demonstrou isso.

Eu o associo muito com a carreira de Charles Aránguiz (ex-jogador do Internacional), que também começou em uma equipe menor e aos poucos, com base em seu talento, foi demonstrando sua qualidade. Ángelo Araos será o talento que o Corinthians estava buscando.

Agora, corintiano

Pelo que já fez, taticamente, Osmar Loss, é possível imaginar Ángelo Araos como um dos meias centrais, avançando até a grande área. Não necessariamente como um meia-atacante, e sim como um verdadeiro meio-campista. Pode fazer também a função de lado de campo, mas rende mais como um jogador centralizado, o que poderia render uma vaga na formação titular ao ao lado do primeiro volante.

De qualquer modo, é um atleta ainda jovem e com pouca experiência internacional, além de pouco tempo jogando em alto nível (já ressaltando as limitações dos campeonatos chilenos). De qualquer modo, como foi colocado mais acima, é um jogador talentoso e, até pela idade e os valores envolvidos, com potencial esportivo e financeiro para o Corinthians.

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No confronto de estilos, a defesa francesa venceu o ataque croata

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman, de Moscou (RUS)

Não houve surpresas na final. Claro que os seis gols marcados, mesmo número das quatro finais de Copa anteriores juntas, surpreenderam, mas não o roteiro do jogo. Croácia e França mantiveram o mesmo estilo que apresentaram durante toda competição.

Posse de bola (61%), controle do jogo, criatividade e ofensividade do lado croata (15 x 8 nas finalizações). Marcação forte, atuação no erro do adversário, contra-ataque e defensivividade. Na tática, a França começou no 4-3-3, com o auxílio de Mbappé e Griezmann na recomposição defensiva no meio-campo. Já a Croácia jogava na sua variação ofensiva-defensiva de 4-2-3-1 para 4-4-2. Além disso, os croatas tinham mais posse de bola, controlavam o jogo e pressionavam os franceses - tudo dentro do script previsto, pelos estilos dos dois times.

Porém, após falta duvidosa marcada pelo árbitro argentino Néstor Pitana aos 18 minutos, saiu mais um gol de bola parada na Copa. Griezmann cruzou e Mandzukic, com um leve desvio, fez 1 a 0 para os franceses. Os croatas não se abalaram e reagiram dez minutos depois, em outro lance de bola parada. Jogada ensaiada pelo time de Zlatko Dalic, que fez a bola sobrar para Perisic, na entrada da área, cortar Kanté e marcar um belo gol.

Polêmicas não faltavam! Aos 38, após escanteio, Perisic cortou cruzamento com a mão depois de mínimo desvio de Matuidi. VAR utilizado, pênalti marcado (interpretação aberta a todos), Griezmann bateu e tirou Subasic da foto.

No segundo tempo, a Croácia manteve o controle total do jogo, pressionando, criando oportunidades e dando mais espaço para a França também. Em contra-ataque aos 14 minutos, Mbappé criou a jogada, Griezmann ajeitou para Pogba, que precisou finalizar duas vezes - mais do que o time francês em todo primeiro tempo - para marcar o terceiro gol. Aí sim os croatas sentiram o baque. Não demorou para os franceses marcarem o quarto gol após belo lance de Lucas Hernandéz, que tocou para Mbappé definir o título. Ao menos era o que parecia, até Hugo Lloris entregar o segundo gol croata a Mandzukic.

A partir daí, mais uma vez vimos uma equipe croata se entregar ao máximo em campo. Lutou com todas as forças possíveis e o restante de energia que havia. Luka Modric, melhor jogador da Copa, comandou seus companheiros. Não foi o suficiente, diante do pragmatismo francês.

Haverá muita discussão nos próximos dias sobre a diferença de estilos apresentada na final da Copa e a eficiência de cada um. Defenderei, sempre, todas as formas de se jogar futebol. Não há um único jeito de montar um time, muito menos ideias certas ou erradas. Há opções, que cada treinador pode tomar, de acordo com as próprias preferências.

Em uma Copa do Mundo marcada pelo jogo coletivo acima das individualidades, gostei mais da Croácia do que da França, mas o futebol não premia gostos pessoais.

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Um estádio com 4,5 milhões de croatas: assim estará o Luzhniki na final

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman, de Moscou (RUS)

"Não é um jogo apenas para 13, 14 jogadores, nosso técnico, a comissão técnica, e sim para cada um dos 4,5 milhões de croatas. É um orgulho muito grande. Se houvesse um estádio com capacidade para 4,5 milhões de pessoas, todos os croatas estariam nele para assistir a final da Copa".

A frase de Ivan Rakitic ajuda a entender o significado desse jogo para uma nação marcada por guerras, conflitos e também pelo futebol.

Em seis de maio de 1990, na votação do segundo turno das eleições croatas, a União Democrática Croata, partido nacionalista, teve a maioria dos votos, mesmo com a oposição de Slobodan Milosevic. A tensão no país era alta, e sete dias depois o Dinamo Zagreb recebeu o histórico rival de Belgrado, Estrela Vermelha, pelo Campeonato Iugoslavo no estádio Maksimir.

Nas ruas da capital croata, as torcidas organizadas do clube já brigavam. De um lado a Bad Blue Boys, do Dinamo, e do outro a Delije, movimento do Estrela Vermelha liderado por Zeljko Raznatovic, mais conhecido como Arkan. Dentro do estádio, cantos de "Zagreb é Sérvia" acirraram ainda mais os ânimos e o jogo se transformou em uma batalha campal.

A polícia iugoslava foi acusada de agir apenas contra os croatas, permitindo a ação dos cerca de 3 mil sérvios que viajaram para apoiar o Estrela Vermelha. Uma cena se tornou marcante: em meio à confusão, Zvonimir Boban atacou um policial e se tornou um símbolo da resistência nacionalista. Posteriormente, descobriram que o oficial atingido era bósnio. Dezenas de pessoas foram presas e ficaram feridas.

Estádio Luzhniki, sede da final da Copa da Rússia
Estádio Luzhniki, sede da final da Copa da Rússia Getty

O episódio foi um marco no processo que culminou com a independência da Croácia no ano seguinte, mas ainda em 1990, em 17 de outubro, a seleção do país foi formada pela primeira vez. Entrou no mesmo Maksimir para enfrentar os Estados Unidos e venceu por 2 a 1 diante de mais de 30 mil pessoas. Na prática, o futebol foi peça importante na formação do atual estado croata.


Vinte e sete anos depois, em plena Copa do Mundo, a política mais uma vez esteve presente no futebol. Após a classificação às semifinais, ainda no vestiário, Domagoj Vida cantou músicas saudando a Ucrânia e denegrindo a Sérvia. Contra a Inglaterra, o zagueiro do Besiktas, que atuou por cinco anos do Dynamo Kiev, foi vaiado do início ao fim. Posteriormente, pediu desculpas, mas o cenário mais provável no Luzhniki neste domingo tem os franceses com o apoio dos russos nas arquibancadas.

Por isso a frase de Ivan Rakitic, sobre a relação com o tenista sérvio Novak Djokovic, que declarou torcida à Croácia e foi chamado de idiota por um deputado em seu país, é tão importante: "Eu torço por ele em Wimbledon. Espero que tenhamos um grande dia no domingo. Somos seres humanos, precisamos deixar a história para trás. Se ele vencer, celebraremos por ele".

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A relação linguística, literária e futebolística entre franceses, russos e uma final de Copa

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman, de Moscou (RUS)

Muito já se falou e foi explicado sobre a intensa relação da seleção francesa com a história da França e o colonialismo. Afinal, 19 dos 23 jogadores presentes na Rússia são filhos de imigrantes. Pouco se comentou, porém, sobre o histórico relacionamento entre franceses e russos.

Entre os séculos XVII e XIX, a língua francesa era a preferida entre os aristocratas da Rússia. Pedro, o Grande, que governou o país entre 1682 e 1725, queria aproxima a nação do resto do continente. Assim, obrigou os nobres a fazerem a barba, usarem roupas europeias e mandou muitos para estudar na França. Com Catarina II, o período de influência cultural francesa permaneceu em território russo e ganhou força na literatura.

Com a nobreza russa usando o francês como língua primordial, os grandes autores russos reproduziram esse cenário em grande obras literárias. Fyodor Dostoiévski, por exemplo, fez questão de utilizar termos e expressões em francês em muitos de seus livros. Assim aconteceu com outros grandes nomes da literatura russa.

A situação começou a mudar com as Guerras Napoleônicas e a invasão francesa em 1812. Napoleão Bonaparte e o exército francês chegam em Moscou e obrigam o exército russo a recuar. Antes, porém, retiram todos os suprimentos e soltam criminosos das prisões. Com a chegada do inverno russo, em novembro, o exército napolêonico - já sem Napoleão, que fugiu para a França - sofre enormes baixas e é vergonhosamente derrotado pelo Império Russo. Tudo magistralmente relatado em Guerra e Paz, de Liev Tostói.

Torcedor francês em Moscou
Torcedor francês em Moscou Getty

A partir daí, a influência francesa passou a diminuir, e com Aleksandr Puchkin, considerado o maior poeta russo de todos os tempos e pai da literatura moderna russa, a língua russa passou a ser mais valorizada.

Dois séculos depois, a final da Copa do Mundo coloca novamente a França na história da Rússia. Vladimir Putin trata a Copa do Mundo como vitrine de um novo e moderno país para todo o planeta. Nas ruas e nos estádios, jornalistas e torcedores têm encontrado uma população simpática e um país aberto às festividades, e muito provavelmente, os russos torcerão pelos franceses na final do Mundial.

Graças à atitude política de Domagoj Vida, que cantou músicas saudando a Ucrânia e contra a Sérvia no vestiário após a classificação para as semifinais, a Rússia parece disposta a apoiar a França contra a Croácia.

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Muito além da técnica e da tática, os jogadores croatas venceram pelo seu país

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman, de Moscou (RUS)

Jamais um jogo de futebol pode ser analisado apenas por um aspecto. Tática, técnica, físico e vontade dos jogadores em campo precisam estar lado a lado. Em algumas partidas, porém, o último aspecto se mostra muito mais determinante que os anteriores. Como em uma semifinal de Copa do Mundo, por exemplo.

Nesta quarta-feira, 11 de julho de 2018, os jogadores croatas jogaram por seu país. Estavam bem orientados pelo técnico Zlatko Dalic e possuem muita qualidade técnica, mas foi a entrega deles que fez a diferença para superarem a Inglaterra e todo desgaste físico de três jogos consecutivos com prorrogação.

Uma nação marcada por guerras e conflitos que rendem polêmicas até mesmo neste Mundial. Domagoj Vida foi vaiado durante todo jogo pelos torcedores russos, por conta das canções de saudação à Ucrânia e contra a Sérvia que ele cantou na classificação às semifinais. Para explicar o futebol croata, inevitavelmente falaremos de política e futebol, e faremos muito isso nos próximos dias.

Ivan Perisic foi determinante com um gol e uma assistência. Mario Mandzukic foi decisivo com o gol que levou à final. O próprio Vida foi muito forte ao jogar contra os ingleses e praticamente todo estádio. Mas não há personagem maior do que Luka Modric: foi espetacular em todos os sentidos possíveis de um jogo de futebol.

Agora a Croácia terá a chance de vingar a geração de 1998. Naquela semifinal em Paris, Davor Suker, hoje presidente da federação croata, abriu o placar, mas viu Lilian Thuram marcar duas vezes e classificar os franceses para a decisão, liderados pelo capitão Didier Deschamps. Essa foi a única derrota croata em Copas para um adversário europeu (cinco vitórias e dois empates também).

Agora, os outros aspectos do jogo analisado.

Taticamente, as duas equipes começaram a partida da mesma foram que atuaram durante toda competição. A Croácia na tradicional variação do 4-2-3-1 para o 4-4-2 nas fases ofensiva e defensiva, respectivamente, enquanto a Inglaterra variou do 3-5-2 para o 5-3-2.

Os ingleses enttraram em campo já vibrando com os torcedores, e conseguiram transformar essa empolgação em um bom íncio de jogo. Tanto é que, logo aos cinco minutos, em bela cobrança de falta, Trippier fez 1 a 0 para a Inglaterra. 

A equipe de Gareth Southgate passou a jogar, então, muito nas bolas longas, procurando principalmente a velocidade de Sterling. Do outro lado, os croatas erravam muitos passes e conseguiam criar fracas chances apenas em cruzamentos.

A partir de 30 minutos, porém, o jogo esquentou novamente. Em bela troca de passes, Dele Alli colocou Kane cara a cara com Subasic, que levou a melhor no primeiro lance. No rebote, o atacante do Tottenham mandou a bola na trave. Já no ataque seguinte, foi a vez da Croácia criar, mais uma vez com o lateral Vrsaljko. Na prática, foi um primeiro tempo equilibrado, mas com as melhores chances do lado inglês.

Mandzukic comemora gol da Croácia
Mandzukic comemora gol da Croácia Getty Images

Na segunda etapa, precisando do resultado, os croatas voltaram pressionando. Luka Modric comandava o meio-campo e aos poucos as oportunidades foram aparecendo. E finalmente, aos 13 minutos, Perisic se antecipou a Trippier e Walker para aproveitar o crruzamento certo de Vrsaljko. Logo na sequência, o mesmo Perisic teve a chance de fazer o segundo e mandou na trave.

A estratégia de Southgate foi tirar Sterling do campo e colocar Rashford, e os ingleses melhoraram. Voltaram a ter velocidade e, no caso, maior precisão com o jogador do Manchester United. Mesmo assim, a Croácia terminou melhor e a partida seguiu para a prorrogação, a terceira consecutiva no Mundial para os croatas.

Somente aos quatro minutos do tempo extra, Zlatko Dalic fez a primeira mudança no time, ao tirar o extenuado Strinic para a entrada de Pivaric. Southgate respondeu sacando Henderson e colocando Dier. Pouco depois, Stones só não marcou de cabeça na sequência porque Vrsaljko salvou em cima da linha.

Com os ingleses melhores, a troca foi no ataque da seleção do Leste Europeu: Kramaric entrou, Rebic saiu. Empolgada e extenuada, a Croácia acreditou, foi para cima e Mandzukic, após toque de cabeça de Perisic, venceu Pickford aos quatro minutos do segundo tempo extra. Mais alterações dos dois lados e a classificação histórica, inédita e emocionante.

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Muito além da técnica e da tática, os jogadores croatas venceram pelo seu país

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Nos últimos 20 anos, nenhum país esteve em mais finais de Copa do que a França

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman, de São Petersburgo (RUS)

Mais uma vez sem ser brilhante, a França venceu. Pergunto, porém, qual time brilhou nesta Copa? Não foram os belgas contra os brasileiros, nem os croatas diante dos russos e os ingleses contra os colombianos, para citarmos os semifinalistas. Os franceses, porém, estão jogando exatamente o que se esperava deles.

Com um técnico muito contestado, Les Bleus chegaram ao Mundial no grupo de favoritos, mas com a pecha de "não jogarem bem". Pois não "jogaram bem" até agora e vão decidir o título. Porque têm um meio-campo muito equilibrado, uma boa linha de defesa e um ataque com um bom centroavante, um excelente atacante e um fora de série.

Desde que foi campeã mundial em 1998, nenhum país chegou mais na final da Copa do que a França, classificada pela terceira vez em 20 anos.

Roberto Martínez armou a Bélgica defensivamente no 4-1-4-1, com Chadli na direita e Vertonghen na esqueda da linha defensiva, que tinha Dembélé à frente. A segunda linha era composta por De Bruyne, Witsel, Fellaini e Hazard, com Lukaku atuando como referência no ataque. Quando atacaca, os três zagueiros esperavam, liberando Chadli e Hazard pelas alas e tendo De Bruyne e Fellaini como meias avançados.

Já a França manteve seu padrão tático do 4-3-3 nas fases ofensiva e defensiva - nesta última, com Mbappé e Griezmann ajudando na recomposição do meio-campo.

A partida começou com uma arrancada incrível de Mbappé pela direita, mas esta acabou sendo a melhor jogada do atacante na primeira etapa. Depois os belgas controlaram o jogo, tendo bem mais posse de bola e criando as melhores oportunidades mesmo finalizando menos, além de serem pouco ameaçados - Lloris foi um personagem importante. Nos últimos dez minutos, a França conseguiu avançar e também obrigou Courtois a fazer pelo menos uma grande defesa, em chute cruzado de Pavard.

No retorno do segundo tempo, a Bélgica começou em cima e teve duas rápidas chances, mas em uma cobrança de escanteio aos seis minutos, Umtiti se antecipou a Fellaini na primeira trave e abriu o placar. A partir daí, os belgas aumentaram ainda mais a posse de bola e o volume de jogo, só que cresceram o número de cruzamentos na área também - e sem efetividade.

Umtiti fez o gol da vitória da França
Umtiti fez o gol da vitória da França Getty Images

Com as entradas de Mertens e Carrasco nos lugares de Dembélé e Fellaini, nos minutos finais os belgas voltaram a colocar a bola no chão e a pressão se tornou mais real. Hazard assumiu a responsabilidade e driblava todos que apareciam na frente. Quando Didier Deschamps sacou Giroud e colocou N'Zonzi em campo, ficou definido o roteiro final do jogo. Absolutamente extenuada em campo, a Bélgica ainda tentou com os passes de De Bruyne e a entrada de Batshuayi, mas não foi o suficiente.

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Um mergulho nos números, nas estatísticas e nas curiosidades de Bélgica x França

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman, de São Petersburgo (RUS)

Em campo deve ser um grande jogo. Do grupo de favoritas ao título, apenas a França sobreviveu, mas se analisarmos o futebol apresentado até agora, a Bélgica é a melhor da competição.

Dois times com estrelas, diversos jogadores nas melhores ligas do planeta e um belíssimo cenário, a majestosa São Petersburgo, para decidir o primeiro finalista da Copa do Mundo de 2018.

Será o 74o jogo entre os países, e se engana quem imagina vantagem francesa. Os belgas venceram 30 vezes, perderam 24 e houve 19 empates, mas em Mundiais, domínio bleu com triunfos nos dois encontros (oitavas de final em 1938 e disputa de terceiro lugar em 1986). Não há adversário, em toda história, mais enfrentado pela França

Será a sexta semifinal francesa, primeira desde 2006, enquanto os belgas alcançam esta fase apenas pela segunda vez na história. Aliás, a França sempre chega na penúltima fase da Copa desde 1982 em todo torneio disputado em território europeu. Enquanto os franceses têm um título e um vice, os belgas jamais alcançaram a decisão e têm no currículo apenas uma final: Eurocopa de 1980, vice-campeã.

A campanha atual, porém, empolga os Red Devils, que estão invictos há 24 jogos, maior sequência da atualidade ao lado da Espanha (eliminada pela Rússia com um empate). É também o 11o time em Copas a vencer cinco partidas consecutivas e busca ser o quinto com seis. Tem o segundo melhor ataque da história chegando nas semifinais, com 14, atrás apenas do Brasil com 15 em 2002.



O domínio do Velho Continente nesta Copa não é inédito, já que nas edições de 1934, 66, 82 e 2006 apenas seleções da Europa chegaram nas semis. Nos últimos anos, quem elimina a França se dá muito bem, e não apenas em Mundiais: Portugal, Alemanha, Espanha, Itália e Grécia em Euro 2016, Copa 2014, Euro 2012, Copa 2006 e Euro 2004, respectivamente, despacharam os franceses e ficaram com o título.

Individualmente também há marcas interessantes em campo. Kylian Mbappé, com três gols, já é o terceiro maior artilheiro de Copas com menos de 20 anos. Já Romelu Lukaku precisa apenas de um tento para se isolar como recordista belga em Mundiais - está empatado com Marc Wilmots, ambos com cinco.

Entre os técnicos, Didier Deschamps vai para seu 11o jogo à frente da França, recorde absoluto para o país em Copas. Roberto Martínez busca ser o primeiro treinador estrangeiro a chegar na final desde o austríaco Ernst Happel, com a Holanda em 1978. Nunca um "gringo" foi campeão.

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Sobre presente e futuro da seleção brasileira, após eliminação para a ótima geração belga

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman, de Kazan (RUS)

Creio que as piadinhas sobre a ótima geração belga vão acabar. Deixemos, de qualquer modo, esse assunto para a sequência da Copa do Mundo, afinal, a Bélgica está classificada para as semifinais. Provavelmente, com a melhor seleção do país em todos os tempos - não nos esquecemos de 1986, com Pfaff, Ceulemans, Scifo...

Foi uma derrota dolorosa para o torcedor, por conta da grande quantidade de chances criadas. Foram 26 finalizações brasileiras, contra oito belgas. Gols perdidos, defesas sensacionais do incrível Thibaut Courtois, excelente partida de Romelu Lukaku e Kevin de Bruyne e a queda nas quartas de final.

Um dia antes da estreia contra a Suíça, publiquei texto defendendo a permanência dessa comissão técnica à frente da seleção brasileira, independentemente do resultado no Mundial. Não mudei de opinião.

Tite precisa permanecer no comando e trabalhar durante todo ciclo de 2022. Precisa, também, aprender com os erros cometidos na primeira experiência comandando uma seleção e chegando na Copa. Decisões de convocação, muito contestadas por exemplo. Da minha parte, para ser coerente desde o início, achava que Arthur poderia estar no grupo na vaga de Taison.

A insistência com alguns atletas na formação titular, mesmo com o rendimento baixo - caso de Gabriel Jesus - também precisa ser revista pelo treinador. São apenas sete jogos no máximo em uma Copa, não se trata de campeonato de pontos corridos disputado por meses.

Sobre o jogo especificamente agora:

Na fase ofensiva, a Bélgica segurava os três zagueiros - Alderweireld, Kompany e Vertonghen - no início e usava Meunier e Chadli como alas. Witsel e Fellaini eram os meio-campistas, com total liberdade para De Bruyne atuar como armador da equipe, tendo Lukaku e Hazard como atacantes.

Sem a bola, linha de quatro defensores, com Meunier como lateral-direito e Vertonghen na esquerda. Trinca de meias à frente, com Chadli compondo o setor ao lado de Fellaini e Witsel, este último centralizado. De Bruyne avançava, para pressionar a saída e recuava à medida que a seleção brasileira avançava, deixando apenas Lukaku e Hazard mais à frente.

Com menos de dez minutos, o Brasil já tinha perdido dois gols. Primeiro Thiago Silva, após toque de cabeça de Miranda, em cobrança de escanteio; Depois Paulinho, completamente livre, na marca do pênalti. Nesse mesmo período, foram três finalizações belgas. Na sequência, porém, Fernandinho falhou e marcou contra.

Depois o jogo ficou muito exposto, o que favoreceu demais o contra-ataque belga. A seleção brasileira seguiu criando e desperdiçando as chances, enquanto em uma jogada iniciada com Lukaku na intermediária defensiva, a Bélgica terminou com o segundo gol em belíssima finalização de De Bruyne na entrada da área. Aliás, o posicionamento do craque do Manchester City nas costas de seu companheiro de clube, Fernandinho, foi determinante para a superioridade da Bélgica.

Quando a seleção mudou para o 4-4-2, equilibrou mais as ações da partida, principalmente na marcação por dentro. Para o segundo tempo, Willian saiu e deu lugar a Roberto Firmino, que passou a ser a referência no ataque, ao lado de Neymar. Gabriel Jesus foi para a direita e Coutinho para a esquerda, mas flutuando bastante por dentro e deixando o corredor aberto para Marcelo. Fágner, na prática, virou zagueiro para que tudo isso acontecesse.

Com os belgas sem arriscar, os brasileiros tiveram campo para avançar as linhas e pressionar, mas sem criar grandes chances. Bolas cruzadas rasteiras, reclamações de pênalti e pouca objetividade. Com Douglas Costa na vaga de Gabriel, algo que deveria ter acontecido no intervalo, ao menos o último item foi corrigido.

Só que individualmente, alguns dos principais jogadores brasileiros tiveram uma noite para esquecer em Kazan. Philippe Coutinho, Paulinho e Fernandinho, além de Willian, todos jogaram muito abaixo do potencial de cada um.

Quando Coutinho acertou o cruzamento, Renato Augusto, que entrara pouco antes na vaga de Paulinho, conseguiu finalmente superar Courtois. Logo depois os belgas mudaram para o 5-3-2, com a entrada de Vermaelen no lugar de Chadli. A partir daí, muito volume da equipe brasileira em busca do empate: chances desperdiçadas, mais defesas impressionantes de Courtois e, no final, vitória de um grande time.

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O ponto forte dessa seleção brasileira é o sistema defensivo

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman, de Samara (RUS)


Em várias oportunidades, sempre que tem a chance Tite fala sobre o sistema defensivo do Brasil. Não sobre a linha de quatro defensores ou o jogador à frente dela, e sim o conjunto brasileiro na fase defensiva marcando no 4-1-4-1 e agora também no 4-4-2. Até o momento na Copa do Mundo, a seleção sofreu apenas quatro finalizações certas e um gol - marcado, na minha opinião, com irregularidade pela Suíça. Se ampliarmos, desde que Tite assumiu foram somente seis gols sofridos.

Não necessariamente isso significa que o time não é pressionado. Um termo muito utlizado por jogadores atualmente, o "saber sofrer", é válido nesse caso. Contra o México mesmo, por exemplo. No início de jogo e na segunda etapa, os mexicanos criaram oportunidades, mas não chegaram a ameaçar claramente o gol defendido por Alisson - oito de 14 finalizações foram bloqueadas e apenas uma chegou ao alvo.

No primeiro tempo, o México conseguiu pressionar a saída de bola do Brasil com muita eficiência. Criou pelo menos duas boas chances nos 20 minutos iniciais e forçou, em alguns lances, o chutão brasileiro. Depois, naturalmente, cansou diante dos 34°C e 26% de umidade relativa do ar em Samara.

Foi quando os brasileiros saíram mais para o jogo e também tiveram chances para marcar. Willian foi mais acionado nos primeiros 45 minutos do que nas três partidas anteriores. Mas a seleção errou demais, tanto nos passes (80.8%, contra 82.9% dos mexicanos no total da partida) como nas finalizações.

No intervalo, Juan Carlos Osorio sacou da equipe sua surpresa inicial, Rafa Márquez, e colocou Miguel Layún em campo. Não mudou o esquema tático, mas alterou peças e funções, invertendo Vela e Lozano - que foram bem demais no primeiro tempo - e colocando Alvarez como meia defensivo e Layún para marcar Neymar.

E foi justamente pela direita da defesa mexicana, que o Brasil abriu o placar. Em bela jogada de Willian, assistência para Neymar. Na sequência, pelo menos dois gols foram perdidos pelo Brasil, que poderia ter rapidamente definido a partida. Não o fez e o México voltou a respirar.

Defesa do Brasil só levou um gol na Copa
Defesa do Brasil só levou um gol na Copa Getty Images

Não chegou a haver blitz mexicana em busca do gol do empate, mas a última parte do jogo, que poderia e deveria ter sido mais tranquila para o Brasil, foi de tensão e muito desgaste. Foi necessária uma arrancada de Neymar aos 43 minutos do segundo tempo, pela esquerda, para tudo acabar com o gol de Roberto Firmino - que demorou muito para entrar. No final das contas, Osorio cumpriu o prometido de disputar a posse de bola: terminou com 54%.

Fágner começou inseguro e depois cresceu demais; Thiago Silva e Miranda foram praticamente perfeito outra vez; Filipe Luís, como sempre, entregou o que se espera dele. Casemiro será desfalque nas quartas, mas com Fernandinho em seu lugar, não há motivo de preocupação. Além disso, a recomposição dos meias centrais e dos extremos (ou Gabriel Jesus) têm funcionado muito bem.

A defesa brasileira segue como o ponto forte do time neste Mundial.

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Encaixe de jogo é principal vantagem do Brasil contra o México, que sonha alto

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman


Indiscutivelmente o Brasil é o favorito no confronto contra o México. Na teoria, na prática, na comparação entre os jogadores, enfim, em qualquer aspecto do jogo a seleção brasileira é considerada melhor do que a mexicana. Para Juan Carlos Osorio, é o melhor time do mundo. Precisará provar isso em campo nesta segunda-feira.

Desde 1990 o Brasil não fica fora das quartas de final de uma Copa do Mundo, enquanto o México acumula seis eliminações seguidas nas oitavas. Este será o quinto duelo entre as seleções em um Mundial, com ampla vantagem sul-americana: três vitórias e um empate.

A média de posse de bola da equipe comandada por Osorio foi de 51.2%, com 81% de aproveitamento nos passes e somente 12 finalizações certas. Já os comandados de Tite ficaram em média com 61.2% do tempo com a bola e acerto de 86.7% nos passes, além de boa pontaria nas finalizações, com 19 corretas (estatísticas ESPN).

Philippe Coutinho, grande destaque brasileiro até agora, com dois gols e uma assistência, marcou seu primeiro gol pela seleção justamente contra os mexicanos, em junho de 2015. Os sete pontos conquistados pelo Brasil vieram com pouco sofrimento, apenas quatro finalizações certas contra o gol defendido por Alisson, enquanto Guillermo Ochoa já viu 20 certeiras contra sua meta.

Osorio quer levar o México às quartas da Copa do Mundo
Osorio quer levar o México às quartas da Copa do Mundo Getty Images

A evolução do conjunto brasileiro é evidente. Ainda possui defeitos e desequilíbrios, não é um time perfeito, mas em uma Copa tão imprevisível como a atual, aumenta seu favoritimo a cada jogo. Contra a Sérvia foi a melhor atuação brasileira, e o próprio Tite, na coletiva deste domingo, ressaltou que a cobrança será sobre o que apresentaram os jogadores em Moscou. Segundo o treinador, todos tiveram desempenho "muito bom ou bom" individualmente.

Com Fágner e Filipe Luís nas laterais, já que Danilo permanece no banco e Marcelo não está 100% fisicamente, há maior equilíbrio na fase ofensiva. O mapa de movimentação do Brasil nas três primeiras partidas deixa evidente o que todos percebem ao assistir ao vivo essa equipe: jogo forte pela esquerda e falta de apoio pela direita.

Brasil mantém mais a posse de bola e ataca muito pela esquerda
Brasil mantém mais a posse de bola e ataca muito pela esquerda ESPN Trumedia

Juan Carlos Osorio tem uma base ofensiva bem definida, com Héctor Herrera e Andrés Guardado trabalhando por dentro, Hirving Lozano muito bem pela esquerda e Chicharito Hernández como referência na frente. Na direita pode haver alguma novidade, com Miguel Layún sendo recuado, abrindo espaço para Jesús Corona. Na linha de defesa, Osorio fez mudanças nas três partidas, e não terá Héctor Moreno, suspenso.

O treinador colombiano garantiu que, independentemente da estrutura tática e da escalação que definir, vai atacar com cinco jogadores sempre. Não quer abandonar seu estilo, e deixou muito claro isso na coletiva de imprensa. Quer disputar a posse de bola e não abdicar dela.

Nesta Copa, México mostrou mais equilíbrio na fase ofensiva, mas não consegue ter tanta posse de bola
Nesta Copa, México mostrou mais equilíbrio na fase ofensiva, mas não consegue ter tanta posse de bola ESPN Trumedia

Para a imprensa mexicana, o jogo contra o Brasil pode ser um divisor de águas para El Tri. Uma mudança de mentalidade está em curso no país, uma tentativa de deixar de ser apenas um coadjuvante e subir o nível, acreditar mais em si mesmo. Ou então, será apenas mais uma eliminação nas oitavas de final.

O grande problema para os mexicanos é que, entre todos adversários da seleção brasileira nesta Copa, o jogo do Brasil mais se encaixa contra o México do que contra qualquer outro. Diante da Alemanha, os mexicanos não conseguiram manter a ideia de seu treinador, foram muito pressionados. Correrão enorme risco se tentarem, realmente, jogar de igual para igual.

Ousadia para pensar grande, assim como o preço a ser pago por isso. Para o bem e para o mal.

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Enquanto falam do Neymar, quem assume o protagonismo é Philippe Coutinho

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman, de Moscou (RUS)

Philippe Coutinho foge da marcação de Matic durante partida entre Brasil e Sérvia
Philippe Coutinho foge da marcação de Matic durante partida entre Brasil e Sérvia André Mourão/MoWA Press

Pela terceira vez consecutiva, ou seja, todas nesta Copa do Mundo, Philippe Coutinho foi o melhor jogador do Brasil. Contra a Sérvia, deu uma assistência, acertou 90 de 95 passes tentados, teve duas finalizações, criou mais duas chances de gol e ainda conseguiu dois desarmes.

Neymar esteve muito mais concentrado no jogo e teve boa atuação. Reclamou menos, caiu pouco e jogou mais. Foi forte no um-contra-um (14 vezes, disparado quem mais tentou essa jogada), pediu a bola o tempo todo, não se escondeu e bateu para o gol sete vezes (líder também). Cresce na competição, mas ainda abaixo do pequeno Couto.

No primeiro tempo, o meio-campo funcionou. Casemiro esteve bem e Paulinho apareceu com eficiência e velocidade no ataque. Mais uma vez, Philippe Coutinho roubou a cena. Não apenas pela bela assistência para o companheiro de Barcelona, mas pela movimentação, toques rápidos e precisos e o ritmo que impõe ao jogo. Na prática, ele tem sido o ritmista que Tite tanto queria.


Neymar estava claramente mais concentrado no jogo e não nas reclamações. Ajudou bastante a equipe nos primeiros 45 minutos. Assim como a linha defensiva, como sempre, muito bem organizada e sólida.

O ponto fraco da equipe, não apenas no primeiro tempo e sim no geral, foi Gabriel Jesus, que perdeu pelo menos duas oportunidades. Além, claro, de mais uma lesão: Marcelo sofreu um espasmo na coluna em uma tentativa de arrancada e teve que ser substituído por Filipe Luís, que entrou muito bem na partida.

A volta à segunda etapa, porém, foi abaixo da expectativa. Com os sérvios pressionando mais, o Brasil teve oportunidades no contra-ataque, mas desperdições e passou sufoco nos 15 minutos iniciais, com a Sérvia criando muito pelos dois lados do campo. 


Paulinho saiu para a entrada de Fernandinho, e o Brasil passou a ter uma formação mais defensiva. Graças aos treinos e também um pouco de sorte, logo na primeira jogada após a substituição, em cobrança de escanteio, Thiago Silva ampliou. Se antes do jogo a principal preocupação era a bola parada adversária, foi justamente a bola parada brasileira que definiu a vitória.

A partir daí, apunhalada e ensanguentada, a Sérvia morreu em campo. Não conseguiu mais atacar e ainda escapou de sofrer o terceiro gol. A seleção terminou com 13 finalizações, sendo seis certas, e 56% de posse de bola, com 88% de aproveitamento nos passes (556 certos). É necessário ressaltar também a fortaleza defensiva que foi Thiago Silva. Impecável: duas interceptações, dois bloqueios, um desarme e muito forte nas disputas aéreas.

Por fim, uma atuação soberba de Coutinho. Mais uma, a terceira no Mundial. É disparado o melhor da seleção no torneio. Enquanto todos se preocupam com Neymar e suas atitudes, o meio-campista do Barcelona assume o protagonismo do time.

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O Brasil terá a mesma escalação contra a Sérvia, mas precisa mudar a postura

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman, de Moscou (RUS)


Havia expectativa de mudança na escalação da seleção brasileira para o jogo decisivo contra a Sérvia, mas Tite e sua comissão técnica optaram pela manutenção do mesmo time das duas primeiras rodadas, com a alteração já feita na lateral-direita por necessidade. O conceito e a formação tática são iguais.

Em campo nesta quarta, porém, a postura do Brasil precisa ser diferente. A começar pelo rendimento do meio-campo. nos últimos textos que publiquei, destaquei as atuações abaixo do potencial de Casemiro e Paulinho. Para essa partida contra os sérvios, eu teria escalado Renato Augusto desde o início e sacado Willian. Tentaria aumentar o equilíbrio do time, com Renato participando mais da construção de jogadas a partir da intermediária defensiva, além de cobrir muito bem o lado esquerdo.

Com isso, Paulinho teria sua principal característica, a chegada forte na grande área, melhor aproveitada, já que é sacrificada parcialmente com a escalação de Coutinho como meia-central. Casemiro acaba sofrendo mais no meio com os dois barcelonistas, já que, por orientação da própria comissão, tenta mais passes entre as linhas e também é mais exigido defensivamente.

Escalação do Brasil para a partida contra a Costa Rica
Escalação do Brasil para a partida contra a Costa Rica Getty Images

Além disso, conversaria com Willian para tê-lo como arma importante para o segundo tempo, contra a Sérvia cansada. Hoje, no banco, a única opção ofensiva de lado de campo, sem improvisação, é Taison. Como não haverá mudança, o atacante do Chelsea será a opção de amplitude pela direita, talvez já com um Fágner mais solto e atacando mais - o que lhe beneficiará nas jogadas contra Aleksandar Kolarov e Adem Ljajic ou Filip Kostic.

Sobre o aspecto anímico da partida, que inclui o equilíbrio emocional, me parece evidente que alguns atletas precisam lidar melhor com a adversidade dentro do campo. Neymar é o melhor exemplo. Brigar com Thiago Silva, mandar o árbitro tomar suco de caju e dar soco na bola ou reclamar veementemente a cada lance frustrado pelo adversário ou pela arbitragem não ajudará a seleção. Miranda, capitão pelo exemplo de postura, precisa ser observado pelos companheiros.

E claro, a bola parada defensiva, treinada exaustivamente nos dois últimos dias pela comissão técnica. Nas duas primeiras rodadas da Copa, a Sérvia cometeu 32 faltas - quinta nessa estatística. Foram 22 finalizações, com apenas seis certas e dois gols anotados - um em cobrança direta de falta, com Kolarov, e outro com Mitrovic, após cruzamento de Tadic. Uma vitória e uma derrota, mas marcada por um pênalti escandaloso não marcado a seu favor.

Contra os costarriquenhos dividiu a posse de bola e teve aproveitamento de 83% nos passes, números que caíram para 42% e 78% respectivamente diante dos suíços. Trata-se de um time muito forte fisicamente e alto. Entre todos 12 jogadores que já foram utilizados como titulares na variação tática do 4-2-3-1 na fase ofensiva e 4-4-2 na defensiva, pelo técnico Mlade Krstajic, os menores são os extremos Ljajic, com 1m82, e Tadic, com 1m81. 

Krstajic, aliás, assumiu o time após as eliminatórias e a demissão do treinador Slavoljub Muslin. Extra-oficialmente, assunto bastante comentado entre os jornalistas sérvios, mandado embora pelo presidente da federação, Slavisa Kokeza, por não dar oportunidades ao jovem e talentoso meio-campista Milinkovic-Savic, da Lazio.

No final da coletiva, Cléber Xavier explicou um pouco mais sobre o estilo de jogo do adversário: "Suíça e Sérvia são equipes equilibradas em defender e atacar, também com características diferentes. A Sérvia joga muito no centro do campo, com dois meio-campistas construtores, tem uma linha de quatro defensiva. Trabalha muito a bola parada e os cruzamentos, chegada melhor do Kolarov, chegada mais atrasada do Ivanovic. Pivô que sustenta e tem muita condição de cabeceio, com o Mitrovic. Não tem jogo trabalhado, nem ligação direta, como a Costa Rica, que se defendeu baixo e explorava. A Sérvia tem uma qualidade enorme".

Será um jogo muito difícil para o Brasil, que é claramente o favorito em todos aspectos do jogo.

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O Brasil precisava vencer e venceu. Com problemas que devem ser corrigidos

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman, de São Petersburgo (RUS)

Horas antes do jogo começar, as ruas de São Petersburgo ao redor do Estádio Kretovskiy já estavam tomadas pelos brasileiros. A maior parte da torcida se concentrou em um bar e por lá fez uma festa espetacular. Aguardavam, claro, uma grande atuação do Brasil. Não foi necessariamente o que viram.

A vitória veio, mas com muito sofrimento. Nos primeiros 25 minutos, o Brasil teve 66% de posse de bola, mas muita dificuldade em criar chances de gol. Teve uma única finalização e diversas bolas cruzadas na área, especialmente em cobranças de falta. A Costa Rica entrou em campo com uma única estratégia: marcar com todos jogadores e utilizar a ligação direta na retomada da bola para atacar. Quase marcou o primeiro gol do jogo, mas em uma falha no lado esquerdo da defesa brasileira.

Depois disso o time melhorou, passou a tocar mais a bola e não foi ameaçado. Nos vinte minutos finais da etapa inicial, nenhuma finalização costarriquenha. Mesmo assim, a defesa do adversário prevaleceu.

No intervalo Tite colocou Douglas Costa em campo na vaga de Willian. A postura da equipe mudou completamente, com muito volume e pressão. O  time criou bastante. Gabriel Jesus cabeceou na trave, Gamboa salvou em cima da linha o chute de Philippe Coutinho e a pressão aumentava. Os espaços para os contra-ataques costarriquenhos também.

Roberto Firmino entra no lugar de Paulinho contra a Costa Rica
Roberto Firmino entra no lugar de Paulinho contra a Costa Rica Getty Images

Foi quando aos 23 minutos Tite colocou o Brasil ainda mais no ataque. Paulinho tinha melhorado o rendimento, mas na prática era o segundo atacante do time. Saiu para a entrada de Roberto Firmino. A pressão aumentou, e a Costa Rica abdicou até mesmo de avançar.

Depois do pênalti marcado e anulado em Neymar, um clima absoluto de tensão tomou conta do estádio. O time em campo ficou muito nervoso e parecia que o empate seria o resultado final. Até que Firmino ganhou pelo alto, Gabriel funcionou como pivô na área e Coutinho marcou o merecido gol brasileiro. Depois, Neymar apenas fechou a conta na 23a finalização.

Philippe Coutinho comemora primeiro gol da seleção brasileira na partida
Philippe Coutinho comemora primeiro gol da seleção brasileira na partida Getty Images

Depois de um resultado dramático como esse, é natural que a euforia tome conta de muitos. Tanto jogadores, como torcedores. Cabe à comissão técnica apontar os erros e colocar os pés de todos no chão.

"Bem, com possibilidade de crescer". Essa foi a resposta de Tite quando questionei o rendimento do meio-campo na Copa até agora. Paulinho foi substituído pela segunda vez, por circunstâncias diferentes. Casemiro, contra a Costa Rica, acertou 83 de 97 passes, aproveitamento de 85.6% - no primeiro jogo, com cartão amarelo, foi substituído por Fernandinho. Philippe Coutinho é a exceção positiva, inclusive sendo o melhor do time nas duas partidas.

Sylvinho, que também participou da coletiva de imprensa nesta sexta-feira, foi mais detalhista na resposta sobre a atuação dos meio-campistas. Ressaltou a grande quantidade de vezes que Coutinho terá a bola no pé, a importância de Paulinno na recomposição defensiva e admitiu que Casemiro cometeu equívocos em algumas saídas de bola. Dos três setores o Brasil, o meio-campo é aquele que mais precisa evoluir para a seleção crescer na competição.

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Como enfrentar e vencer a Costa Rica (agora com Fágner)

Gustavo Hofman
Gustavo Hofman, de São Petersburgo (RUS)

Nenhuma novidade no time titular: Alisson, Danilo, Thiago Silva, Miranda e Marcelo; Paulinho, Casemiro, Philippe Coutinho; Willian, Gabriel Jesus e Neymar. É a mesma equipe que venceu a Áustria por 3 a 0 no último amistoso antes da Copa e empatou com a Suíça em seu primeiro jogo na competição.

Diante dos suíços foram 20 finalizações e somente quatro certas, com 52% de posse de bola e 460 passes certos em 521 tentados. Poucas chances oferecidas ao rival e um gol sofrido em uma irregularidade não anotada pela arbitragem. No final do jogo, em pelo menos três oportunidades o Brasil desperdiçou a chance de vitória. Na prática, a atuação da seleção na estreia, contra o adversário mais difícil do grupo, não empolgou, mas não foi ruim.

Seleção treina pensando em enfrentar Costa Rica
Seleção treina pensando em enfrentar Costa Rica André Mourão/MoWaPress

Contra a Costa Rica alguns ajustes precisam ser feito e escrevi sobre isso nesta semana.Também perguntei a Tite na coletiva desta quinta exatamente isso, o que precisaria mudar. "Em todos os jogos temos que ter uma boa atuação e vencer, neste jogo também. Ajustes, ser efetivo. Transformar as oportunidades em gol. Continuar proporcionando poucas oportunidades ao adversário".

Em entrevista que fiz com o treinador no Bola da Vez deste ano, além de conversas informais, Tite disse e entende que para vencer a linha de cinco defensores - base defensiva do 5-4-1 costarriquenho - a seleção precisa trabalhar muito bem com amplitude, paciência e ter a qualidade necessária no passe pelo alto por dentro da defesa. Um exemplo desse tipo de jogada que ele me deu foi o gol de Bernardo Silva na vitória do Manchester City sobre o Chelsea, por 1 a 0, em março: o passe, a pressão na bola, o enfrentamento.

Pontos importantes de mudança coloquei no texto já linkado acima, mas sem querer ser repetitivo, e utilizando o que o treinador falou na coletiva sobre Neymar, reforço: a individualidade dele é sua principal característica e precisa ser utilizada a favor do coletivo. Um esquema tático precisa potencializar as individualidades de um time, mas pegar a bola no último terço do campo e arrastá-la presa ao pé até o meio-campo não é produtivo.

"Todos os atletas têm responsabilidade de serem coletivos e individuais. Alguns com características específicas. Do Neymar, não vou tirar a característica do transgressor, do último terço. Mas serve para os outros. Todos nós temos que potencializar equipe, mas respeitar as características. Último terço? Vai dentro, finta. Característica do futebol brasileiro. Não vou retirar isso".

A explicação de Tite é muito clara e correta. Ninguém vai mandar o Neymar, o Coutinho ou o Willian pararem de driblar. Contra a Costa Rica, o drible será muito importante no um-contra-um nas jogadas de linha de fundo, para quebrar a forte marcação que aguarda a seleção. Dentro do contexto coletivo, jogando com inteligência e aproveitando melhor as oportunidades criadas.

Na fase defensiva, não há muito segredos sobre a forma de jogo do Brasil: pressão alta na saída de bola do adversários, como aconteceu em todos os jogos sob o comando da atual comissão técnica. Temporização, recomposição defensiva e posicionamento diminuindo ao máximo o espaço dos rivais.

Atualização: às 23h21 de São Petersburgo, seis horas à frente de Brasília, a CBF informou que Danilo sentiu uma lesão muscular na região do quadril direito e está fora do jogo contra a Costa Rica. Fágner será o titular. O jogador do Corinthians é inferior ao do Manchester City na marcação, além da força física e da altura. É, porém, superior ofensivamente e pode ajudar muito Willian nas jogadas pela direita. Isso, por outro lado, exigirá de Marcelo maior equilíbrio defensivo. Será a estreia de Fágner em Copa do Mundo, por isso a questão comportamental será muito importante.

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Como enfrentar e vencer a Costa Rica (agora com Fágner)

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