O futebol está ficando chato? Tente o circo!

Reuters
Puyol coibe comemoração de gol com dancinha no Barcelona
Puyol coibe comemoração de gol com dancinha no Barcelona

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A cantilena de que o futebol está ficando chato é o que há de verdadeiramente chato no futebol nos dias de hoje.

Não é o caso de entrar no mérito sobre se Vinícius Júnior pode ou não comemorar um gol com o gesto do chororô.

Não é o caso chamar de piada ou canalhice Neymar tirar a mão logo após estendê-la para ajudar um adversário a se levantar.

Não é o caso de julgar o jogador que comemora um gol levando as mãos aos ouvidos ou fazendo o gesto de silêncio à torcida adversária.

Não é o caso de classificar como mau humor ou respeito ao rival a advertência feita por Puyol às dancinhas comemorativas de gol.

Eu mesmo tenho opiniões diferentes sobre os exemplos acima.

O limite entre a piada e o desrespeito, entre a descontração e provocação, vai sempre variar de acordo com as pessoas envolvidas, com o contexto, com a cultura de um país, de uma região. De um clube, até, como no caso do Barcelona.

A brincadeira para um é ofensa para o outro, e contanto que as reações não sejam exageradas e incoerentes, porque o autor da zoeira de hoje tem que saber ser zoado amanhã, seria legal aprender a conviver com isso.

O duro é aceitar que o futebol, disparado o esporte mais popular do mundo, esteja ficando chato pela ausência ou pela repressão a estas bobagens. Que podem até dar um molho, divertir, mas nem de longe são o determinante para definir o futebol como chato ou legal.

O futebol é muito maior.

Veja a Premier League: trata-se provavelmente da liga nacional onde gestos como os exemplos acima seriam menos bem vistos. É a liga onde um jogador é duramente vaiado por se jogar e tentar enganar o árbitro. Onde o fair play é exigido. Onde o limite entre a brincadeira ou a esperteza e o desrespeito ofensivo aparece antes.

Não se trata, neste caso, da cultura do futebol, mas da cultura de um país, de um povo. 

E nem por isso, quem gosta verdadeiramente DE FUTEBOL há de convir, podemos chamar a Premier League de “chata”.

Se você a considera chata, haverá sempre a alternativa do circo.   : )

A não adoção do VAR no Brasileirão é uma derrota até para quem é contra o VAR

Gian Oddi
AIA.it
Árbitro de vídeo sendo utilizado na Série A da Itália
Árbitro de vídeo sendo utilizado na Série A da Itália

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É para lamentar, mas não surpreender: o mesmo Conselho Técnico do Campeonato Brasileiro que nesta segunda-feira liberou o absurdo que é a venda de mandos nos jogos do Campeonato Brasileiro até a 33ª rodada, vetou a utilização do árbitro de vídeo na competição em sua edição de 2018.

As decisões não surpreendem por um motivo simples: dinheiro.

Enquanto a venda de mando faz com que os clubes da Série A possam arrancar um dinheirinho de governos municipais ou estaduais pelo país, a utilização da arbitragem de vídeo, pelo contrário, os obrigaria a colocar a mão no bolso.

Em ambos os casos, lamentavelmente, privilegia-se o dinheiro em detrimento dos aspectos técnicos e esportivos.

Mesmo quem acredita que o VAR não traria benefícios ao campeonato deve admitir: embora estejamos falando de uma implementação de alto custo (R$ 20 milhões para todo o Brasileirão), o aspecto econômico não deveria ser o determinante para decisão tão relevante no cenário do futebol nacional.

Manoel Serapião, responsável pelo VAR na CBF, informou que, além do dinheiro, outros motivos foram alegados pelos clubes para tomar a decisão.

Um deles, de tão patético, só escancara o quanto estamos falando apenas de questões financeiras: segundo alguns clubes, seria melhor “esperar o efeito do VAR” nos 64 jogos da Copa do Mundo, como se mais de 680 partidas dos campeonatos nacionais de Alemanha e Itália (sem falar nas Copas) nesta temporada não bastassem para se fazer uma análise e até um aperfeiçoamento do sistema.

Falta vontade de agir, de melhorar e, claro, de gastar.

É até compreensível e louvável que os clubes brasileiros, em sua maioria ainda mal geridos e endividados até o pescoço, digam não para novos gastos. É compreensível que também exijam da milionária (e pelo menos em seu passado recente corrupta) CBF o pagamento da implementação do sistema, como aliás ocorrerá na Copa do Brasil.

Não é compreensível, contudo, que estes mesmos clubes sigam reféns de federações ou confederações parasitas para implementar as melhoras necessárias ao futebol nacional.

A não adoção do VAR, por este motivo, é mais uma derrota do futebol brasileiro. Até para quem é contra o VAR.


PS. Atendendo a muitos pedidos, eis a relação de quais clubes votaram contra e quais votaram a favor da utilização do VAR. A favor: Bahia, Botafogo, Chapecoense, Flamengo, Grêmio, Internacional e Palmeiras. Contra:  América, Atlético-MG, Atlético-PR, Ceará, Corinthians, Cruzeiro, Fluminense, Paraná, Santos, Sport, Vasco e Vitória. O São Paulo não votou porque seu presidente deixou a reunião antes da votação. 

Felipão lamenta ingratidão de Tite e diz por que não respondeu aos seus chamados

Gian Oddi

“Esta palavra não existe mais: gratidão.”

Foi esta uma das conclusões de Luiz Felipe Scolari, técnico da seleção brasileira nas Copas do Mundo de 2002 e 2014, ao tratar sobre sua relação com Tite, o atual técnico da seleção, em entrevista no Bola da Vez da ESPN Brasil que vai ao ar à meia noite de terça para quarta-feira.

“Você acha isso correto de quem tu conhece há 30 anos, de quem te abriu todas as portas? Quem te deu a oportunidade de ser jogador do Caxias, de começar na carreira e arranjar lugares fora do Brasil para trabalhar? Essa é a gratidão?”, questionou Felipão.

Scolari se referiu às declarações dadas pelo irmão de Tite, Miro, à jornalista Camila Mattoso, autora da biografia do hoje técnico da seleção. Na ocasião, Miro disse que Felipão, enquanto técnico do Palmeiras, entregara um jogo do Campeonato Brasileiro de 2010 para prejudicar o Corinthians, então treinado por Tite.

“O Felipe é malandragem, é ganhar de qualquer jeito. É um cara de família e eu admiro ele por isso. Mas entra em campo e esquece da vida. Ali acabou a relação”, afirmou Miro no livro “Tite”, lançado no ano passado.   

Sobre a frase do irmão, também em sua biografia, o atual técnico da seleção comentou o seguinte: “Gratidão eu tenho pelo início, por conselhos e orientações. Depois desse jogo de 2010, passou a ser uma relação profissional... Não perdi a gratidão, mas eu comecei a ver com outros olhos”.

ESPN
Felipão durante sua participação no programa Bola da Vez
Felipão durante sua participação no programa Bola da Vez

“Eu também”, retrucou Felipão durante o Bola da Vez, para depois revelar por que se recusou a atender Tite quando este o procurou, assim como a todos os técnicos anteriores da seleção brasileira (com exceção de Dunga) ao assumir o cargo.

Foi em entrevista à Folha de S.Paulo, em outubro deste ano, que Tite disse ter tentado conversar “com todos”, mas sem obter sucesso com Felipão: “Ele não foi possível. Tentei contato por e-mail duas vezes e não obtive resposta, aí vi que não ia ter diálogo e desisti".

Um fato que, segundo Felipão revelou no Bola da Vez, tem um motivo óbvio: “Por que eu tenho que atender se quando eu solicitei (uma conversa) eu não fui atendido? Nem ouviu o porquê daquilo. Então tá bom!”

Além de falar sobre a relação com Tite, durante mais de 1h30 da entrevista concedida a João Carlos Albuquerque, André Kfouri e a mim no Bola da Vez, Felipão tratou de assuntos como os 7x1 da Copa de 2014 (claro), do inimigo que fez no Chelsea e prejudicou sua passagem por Londres, da rivalidade com Luxemburgo, de Figo e Cristiano Ronaldo, da ausência de Alex na Copa de 2002 e de seu futuro como técnico, entre outros temas.

ESPN
Felipão em sua entrevista ao Bola da Vez
Felipão em sua entrevista ao Bola da Vez

Técnico, reforços, promoções e retornos: como será a cara do Palmeiras em 2018

Gian Oddi
Gazeta Press
Abel Braga, técnico do Fluminense, é a prioridade do Palmeiras para 2018
Abel Braga, técnico do Fluminense, é a prioridade do Palmeiras para 2018

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Sem maiores objetivos para a temporada e com a vaga na fase de grupos da Libertadores assegurada, o Palmeiras passou a pensar definitivamente em 2018 desde a vitória sobre o Sport.

A novela sobre a renovação de Fernando Prass, que deve ser resolvida ainda nesta semana, é apenas um indício que se junta à anunciada contratação do lateral-esquerdo Diogo Barbosa, do Cruzeiro, e à iminente chegada do zagueiro Emerson Santos, do Botafogo.

Lucas Limas é nome realmente próximo do Palmeiras, e a investida pelo goleiro Weverton, do Atlético-PR, também deve ter sucesso — a avaliação da direção é que as todas alternativas para o gol alviverde em 2018 precisam ser nomes experientes.

A lista de reforços pode até não parar por aí, mas, a partir de agora, só deve crescer se houver desejos pontuais do novo treinador alviverde.

O treinador
Se as possibilidade de permanência de Alberto Valentim não eram das maiores nem mesmo após as suas três primeiras vitórias na sequência, hoje elas inexistem.

Abel Braga, que ontem admitiu pela primeira vez contato do alviverde, é há um bom tempo a prioridade do Palmeiras, que considera necessária a chegada de um técnico "cascudo", com mais renome, para 2018 — era este, aliás, um dos principais atributos apreciados pela diretoria na "primeira opção" Mano Menezes.

Pela inexistência de tantos nomes com este perfil no cenário atual, contudo, Roger Machado, considerado um bom técnico mas ainda inexperiente para este Palmeiras, seria alternativa (bem menos apreciada) caso Abel Braga refute o convite.

Retornos, promoções e partidas
Além das contratações citadas no início do post, o elenco passará a contar também com o retorno de jogadores emprestados: o zagueiro Thiago Martins, hoje no Bahia, e os laterais João Pedro e Victor Luis, respectivamente na Chapecoense e Botafogo (este último ainda pode ser negociado, dependendo das propostas que o Palmeiras receber).

Outras caras, estas ainda pouco conhecidas do torcedor, passarão a integrar o elenco profissional vindos da base palmeirense, cujo desempenho recente tem sido muito bom, como comprova esta matéria. O zagueiro Pedrão, os atacantes Artur e Fernando e até o jovem e promissor lateral-esquerdo Luan Candido (de apenas 16 anos) serão promovidos.

Com quatro reforços, os novos garotos e a volta de atletas emprestados, alguns jogadores também precisarão deixar o Palmeiras, em definitivo ou por empréstimo.

Egídio está pronto para voltar ao Cruzeiro. Zé Roberto deve parar. A situação de Roger Guedes com o restante do elenco, como informamos há semanas no Linha de Passe, é complicada e ele deve ser negociado. Garotos como Erik e Hyoran podem ser emprestados para poder jogar mais.
 
É evidente que, num clube com os recursos do Palmeiras, novidades podem sempre aparecer se surgirem oportunidades no mercado. Hoje, porém, o treinador que chegar avaliará a necessidade de mudanças ou não baseando-se numa lista muito próxima à do elenco abaixo (entre parênteses os reforços ainda não oficializados):    

GOLEIROS
Fernando Prass, Jailson, (Weverton)

ZAGUEIROS
Edu Dracena, Mina (que sai em julho), Luan, Juninho, Thiago Martins, Pedrão e (Emerson Santos) 

LATERAIS DIREITOS
Jean, Mayke e João Pedro 

LATERAIS ESQUERDOS
Diogo Barbosa, Victor Luis e Luan Candido

VOLANTES
Felipe Melo, Tchê Tchê, Bruno Henrique e Thiago Santos  

MEIAS
Moisés, Guerra, (Lucas Lima), Michel Bastos e Raphael Veiga  

ATACANTES
Borja, Dudu, Willian, Keno, Deyverson, Fernando e Artur 

O motivo do fiasco: Itália não soube escolher justamente onde ainda é melhor que os outros

Gian Oddi
GettyImages
Gian Piero Ventura: escolha bizarra levou Itália a vexame
Gian Piero Ventura: escolha bizarra levou Itália a vexame

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Não chega a ser uma grande surpresa: depois de 60 anos, a seleção italiana, quatro vezes campeã mundial e dona de uma das quatro camisas mais pesadas do futebol no planeta, não jogará uma Copa do Mundo. O baque ocorre após o empate por 0 a 0 com a limitada seleção sueca, no estádio San Siro, nesta segunda-feira.

Muitos motivos podem justificar o fiasco: uma geração distante das mais talentosas do futebol italiano; critérios da Uefa que põem Espanha e Itália para se digladiar nas eliminatórias enquanto outros grupos têm, por exemplo, Islândia e Croácia ou Polônia e Dinamarca como maiores forças; o azar no jogo de ida contra os suecos; a pontaria no jogo de volta; o alinhamento dos planetas, o mapa astral dos atletas ou as fases da lua.

Nada disso, contudo, tem tanto peso no fracasso como a escolha do treinador — curiosamente, talvez a única área do futebol profissional em que a Itália ainda se sobressai em relação aos outros países com relevância na modalidade.

Em uma terra que conta com técnicos da qualidade de Antonio Conte, Carlo Ancelotti, Maurizio Sarri, Luciano Spalletti e Massimiliano Allegri, para ficar apenas nos mais capazes treinadores italianos do momento, a escolha de Gian Piero Ventura, veterano que passou toda a carreira dirigindo times do segundo escalão do país, foi um choque para muita gente em junho do ano passado.

Ainda que atualmente as seleções, com raras exceções (como o Brasil), não contem com os melhores técnicos de seus países por questões financeiras, a escolha de Ventura surpreendeu também pela pouca expressão de seu nome.

Roberto Mancini, Fabio Capello ou até mesmo Claudio Ranieri, técnicos hoje inferiores aos cinco citados acima, certamente causariam menos estranhamento — o que, nestes casos, talvez não significasse um desempenho tão superior.

O fato é que Ventura contou com um grupo muito parecido com o que Antonio Conte teve à disposição na ótima participação da última Eurocopa. Lembremos: na primeira fase, a Itália liderou o grupo considerado mais forte do torneio, com Bélgica, Suécia e Irlanda; nas oitavas, despachou a forte Espanha sem dificuldades; e, cheia de desfalques, caiu nas apenas nos pênaltis nas quartas-de-final, contra a campeã do mundo Alemanha.

Para os confrontos contra a Suécia pela repescagem, Ventura chamou nada menos que 15 dos jogadores que Conte levou à Euro. Ainda teve Verratti, que estava machucado no torneio continental, e contava com os ótimos momentos de atletas como Jorginho, Insigne, El Shaarawy e Immobile, dos quais ele não soube aproveitar.

Vivendo a esquizofrenia entre tentar impor um modelo do jogo ousado e autoral (o 4-2-4) e acatar o clamor dos medalhões pela volta do sistema utilizado por Antonio Conte na Euro, Ventura escreveu seu nome, junto com os de seus empregadores, em um dos capítulos mais tristes e vexatórios do futebol italiano.

Um baque pesado para o calcio justamente no momento em que o Campeonato Italiano renasce com novas ideias de jogo, com a adoção (tardia) de medidas profissionalizantes que serão adotadas na próxima temporada e, também, com novos investimentos estrangeiros.

Para ir à Copa, porém, a Itália não precisava de novidades. Só precisava ter escolhido melhor na única área em que sempre teve excelência.

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