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Trapaceiros na Maratona da Cidade do México tiram selfie e ganham até medalha

Participantes da Maratona da Cidade do México largam na em El Zócalo, o centro histórico. Cerca de 30 mil pessoas participaram da prova. Hector Vivas/Getty Images for INDEPORTE

Um amigo no Facebook foi responsável em denunciar Paul Torres, que se auto-intitula corredor de longas distâncias. O corretor de ações de 36 anos postou uma foto de si mesmo na linha de chegada da Maratona da Cidade do México, no domingo, e a ausência de desgaste era evidente. Não havia suor permeando seu traje ou escorrendo pelo rosto. Seu cabelo estava perfeitamente repartido e penteado.

Torres não correu a maratona completa. Na verdade, ele correu apenas a última milha para cruzar a linha de chegada.

Sob a escuridão da madrugada, Torres dirigiu até El Zócalo – o centro histórico da Cidade do México, que remonta ao império asteca – com seu irmão, com a intenção de participar da corrida, juntamente com cerca de 30 mil outros competidores. Seu irmão dissuadiu-o no último minuto, por que ele tinha recentemente feito uma grande tatuagem – um desenho tribal, ele disse – nas costas. Então ele foi para casa. Mas o pensamento de tirar uma selfie cruzando a linha de chegada se arrastou e, várias horas depois, ele voltou para aplaudir seu irmão.

"Eu observei meu irmão até o final e aproveitei [levando meu babador comigo] para cruzar a linha de chegada e pegar uma medalha", disse Torres em entrevista por telefone à ESPN.

De acordo com os organizadores da corrida, Torres foi um dos 3.090 corredores desqualificados em meio a alegações de cortar o caminho. Para muitos, se não todos, faltavam tempos nos pontos de checagem. A trapaça em massa vem logo após a corrida do ano passado, quando 5.806 participantes – quase um em cada cinco – foram considerados inelegíveis.

Durante todo o verão, Torres postou sua preparação para a maratona. O constrangimento potencial, juntamente com a falta de segurança da maratona, fez com que ele caminhasse até a curva final do percurso, indo para o Estádio Universitário da UNAM.

"Infelizmente, é verdade", disse Torres, sobre a sua trapaça. "Aconteceu e eu tenho que confessar isso. O que está feito está feito."

"Eu fiz [a tatuagem] 15 dias antes da corrida, e por isso não poderia transpirar, não consegui correr. E não tinha certeza se conseguiria correr a corrida em si."

Apesar dos milhares cujos tempos tiveram que ser eliminados dos resultados oficiais, os organizadores da corrida classificaram a edição deste ano como um sucesso.

"Tivemos um aumento no número de corredores que terminaram este ano", disse Horacio de la Vega, diretor-geral do INDEPORTE, órgão do governo da Cidade do México responsável pelo esporte, durante uma entrevista coletiva na terça-feira ao anunciar os resultados oficiais da corrida.

Embora a erradicação da trapaça tenha sido um ponto crucial após a derrocada do ano passado, os organizadores corrida ainda devem se aproximar da certificação dourada da Iaaf, o nível mais prestigioso que uma corrida pode receber, o que colocaria o evento no patamar das maratonas de Boston ou Nova York. Para se qualificar ao status "nível ouro", uma corrida deve ter corredores de elite de pelo menos cinco países diferentes, bem como cobertura televisiva ou transmissão on-line disponível ao público, controles antidoping sofisticados e uma tela grande na linha de chegada para os espectadores acompanharem a prova, entre outros requisitos.

Uma das motivações para o corte de caminho são as medalhas comemorativas, dadas desde a edição de 2013. Cada corrida desde então teve uma medalha e uma carta dada aos participantes que cruzam a linha de chegada – de forma justa, claro. Na disputa do último domingo, um corredor que completou todas as seis edições teria soletrado a palavra "MÉXICO" com as medalhas recebidas. Para conter as fraudes, os organizadores da corrida anunciaram que todas as seis réplicas das medalhas estariam disponíveis para compra no local deste ano, assim como on-line, para que o público em geral – e também os corredores – pudessem completar sua coleção independentemente de terem sido inscritos para a corrida deste ano.

O diretor da prova, Javier Carvallo, também alertou que os infratores reincidentes seriam permanentemente banidos.

"Houve uma campanha de comunicação em que atraímos os corredores a percorrer a rota completa, para correr a maratona do começo ao fim", disse Carvallo a Javier Rosas, da ESPN México. "Para aqueles que repetidamente [trapacearam], vamos penalizá-los e não permitir que eles corram em mais provas na Cidade do México."

"¿Ya se cansaron? (Já se cansaram?)", um grupo de vigilância do Facebook, foi rápido para sinalizar aqueles que se envolveram em conduta desonesta, apesar das medidas preventivas. No ano passado, o grupo chamou a atenção das agências de notícias para descobrir pessoas que trapacearam na corrida. O amigo de Torres no Facebook enviou uma mensagem ao grupo.

"Essas pessoas pensam que, só por que pagaram a taxa de inscrição, têm direito a uma medalha", disse um dos administradores do grupo, que pediu anonimato devido às ameaças recebidas após expor os possíveis trapaceiros. "Eles ficam com raiva quando você os expõe. Pessoas me ameaçaram dizem que, se me encontrarem, vão me espancar ou fazer algo pior."

Embora os membros do grupo se envolvam em investigações ativas após a corrida, a maior parte das delações vem ironicamente de amigos e seguidores dos próprios infratores. Este ano, mais de 1 mil "deduradas" foram feitas, de acordo com o grupo de vigilância. A reação aos posts de auto-engrandecimento percebidos nas redes sociais é muitas vezes motivadora para denunciantes e possíveis casos de trapaça.

"É engraçado, nós geralmente descobrimos sobre os trapaceiros de seus amigos, que estão cansados deles entupindo seus feeds com mentiras", disse o o administrador do grupo "¿Ya se cansaron?".

Ainda assim, finalistas legítimas da Maratona da Cidade do México, como Lilia Garduño, de 31 anos, acreditam que a postura pelas mídias sociais tem sido um prejuízo para a prova. Quando ela entrou no estágio final da corrida, o excesso de pessoas perto da linha de chegada causou problemas.

"Foi muito desafiador. Eu já estava exausta e tive que evitar pessoas que estavam fazendo selfies e andando por aí", disse Garduño, acrescentando que percebeu que muitos finalistas não pareciam cansados ou até mesmo suados. "Estava tão cheio que quase não vi a linha de chegada."

Para Torres, a pressão percebida pelas mídias sociais foi definitivamente um fator.

"Eu gosto de postar grandes conquistas na vida e senti que as pessoas estavam me esperando para [publicar algo] depois da corrida. Foi fácil", admitiu. "Mas aprendi minha lição. Postar isso nas mídias sociais, o que geralmente é uma coisa boa, se voltou contra mim."

*O conteúdo original, em inglês, pode ser acessado em "Cheaters in Mexico City Marathon take a selfie and grab a medal"