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Repórter da ESPN recebeu ligação de jogador, correu para local de atentado na Nova Zelândia e conta o que viu

Ataque à mesquita em Christchurch, Nova Zelândia Getty Images

Mohammad Isam é correspondente da ESPN em Bangladesh, cobre críquete e estava na Nova Zelândia quando aconteceram os atentados terroristas contra as duas mesquitas na cidade de Christchurch, na Nova Zelândia, em que pelo menos 49 pessoas morreram e 48 estão feridas.

Meu dia começou e já fui procurar atualizações sobre as lesões de Kane Willliamson, BJ Watling, Tamim Iqbal e Mushfiqur Rahim. Houve um teste para começar amanhã e minha mente estava focada em quem iria jogar e quem iria ficar de fora. Oito horas depois, eu estaria na casa de um amigo em Christchurch, tentando entender o pior ataque terrorista na história da Nova Zelândia. Críquete nem passou pela minha mente; meus pensamentos foram tomados pelas famílias dos jogadores que estavam a metros da carnificina e, acima de tudo, das pessoas que perderam a vida enquanto estavam em uma igreja.

Já é tarde da noite agora em Christchurch e enquanto eu sento e escrevo isto, tento assimilar o que aconteceu, o cérebro ainda está embaralhado. Estou calmo, ocasionalmente rindo, mas isso é apenas sinal de puro nervosismo. Foram apenas alguns minutos, mas que podem ter mudado a minha vida.

13h00 – A seleção de Bangladesh chega no Hagley Oval para um treino e, apesar da chuva, o plano é primeiro ir para um mosteiro próximo para as rezas de sexta-feira e, então, voltar para o treino. A ideia era treinar dentro da Universidade de Lincoln, mas então foi decidido que o time não faria essa viagem.

13h27 – Capitão da equipe, o jogador Mahmuddullah finaliza a coletiva pré-jogo no Hagley Oval. Ele, assim como os outros jogadores, está com pressa para ir logo ao mosteiro. Mas isso não o impede de falar por nove minutos.

13h35 – Estou no estacionamento enquanto os jogadores de Bangladesh entram no ônibus. 17 membros da comissão, incluindo o técnico Khaled Mashud, o analista Srinivas Chandrasekaran e o massagista Md Sohel acompanham os jogadores.

13h52 – Eu recebo uma ligação de Tamim Iqbal, um dos jogadores mais experientes do time enquanto deixo o Hagley Oval. Ele está pedindo ajuda: “Estão atirando aqui. Por favor, nos salvem.” No começo, penso que é apenas uma brincadeira, mas ele desliga o telefone e liga de novo – sua voz começa a falhar. Ele diz que eu preciso ligar para a polícia porque há um tiroteio dentro do mosteiro em que eles rezariam.

13h53 – Meu primeiro instinto é correr para o mosteiro. Eu nem parei para pensar direito; você pode me chamar de idiota por correr em direção a um ataque terrorista, mas eu sabia que tinha que estar lá. Em parte, como jornalista. Mas principalmente como ser humano.

Eu comecei a correr pela estrada principal quando uma mulher, em um carro, pergunta se eu preciso de uma carona. Eu conto a ela o que Tamim me dissera, e ela ordena que eu entre no carro. Meus colegas, jornalistas de Bangladesh, também entram comigo.

13h56 – Nós vemos a entrada da Deans Avenue, onde o mosteiro fica, bloqueada por um carro de polícia, então fomos ao Parkview Hotel no cruzamento da Deans com a Riccarton Avenue. Eu começo a correr para o mosteiro quando vejo o ônibus da seleção de Bangladesh. Alguns carros de polícia e ambulâncias estão por ali. Algumas pessoas estão paradas, tentando entender o que acontecera naquele lugar. Mas, quando olho para a minha direita, em direção à entrada de um motel, tudo fica claro: tem um corpo no chão sendo atendido por paramédicos. Há sangue por toda a parte.

14h00 – Eu vejo um homem correndo em minha direção, chorando e segurando seu braço. Há bastante sangue em sua camiseta. Pessoas perto de mim ajudam outro homem a escapar, dando instruções de como sair. Eu continuo indo em direção ao ônibus quando vejo uma linha de jogadores de Bangladesh correndo no sentido contrário. Quando eu chego mais perto, Ebadot Hossain me pega pelo braço e me diz para correr com eles. Até aí, eu não fazia ideia do que havia acontecido; eu nem sei se o time era o alvo do ataque.

14h02 – Os jogadores estão agora do lado do Hagley Park, e alguém pede direções. O estádio está à direita deles, uns 15 minutos de caminhada. Os jogadores conseguem entrar e começam a correr, mas alguém diz para que eles andem rápido, mas que não corram.

14h04 – Eu estou caminhando com Tamim e vejo os jogadores se separando, muito longe um dos outros. Eu falo para Sohel juntar todos eles. É impossível fazer com que todos andem juntos, mas alguns escutam e se juntam.

Não é muito mais longe do que um quilômetro, mas é a caminhada mais longa da minha vida. Os jogadores relatam o horror que viram – sangue, corpos. Um jogador experiente se apoia em mim e cai a chorar. Não há quase nada que eu possa dizer para ele.

14h08 – Chegamos até o Hagley Oval e corremos para dentro. Todos são levados aos vestiários, onde podem finalmente descansar. Eles estão visivelmente abalados.

14h10 – Somos levados para o Pavilhão Hadlee onde o resto da comissão e a seleção neozelandesa estão esperando.

14h45 – Depois de consultar os dois conselhos administrativos, as seleções decidem ir para o hotel na Cathedral Street. Eles são escoltados imediatamente. Os jornalistas ficam.

15h30 – Enquanto esperamos no Hagley Oval, continuamos a ver carros de polícia e ambulâncias indo para o mesmo lugar que eu fui mais cedo, perto da mesquita.

17h00 – O tour é cancelado pelo conselho de críquete da Nova Zelândia, após consultar a seleção de Bangladesh e o ICC.

18h30 – Finalmente, nos deixam sair do Hagley Oval. Vamos, então, em direção ao hotel.

19h00 – Cruzando uma quieta Christchurch, chegamos no hotel em três carros. O técnico Khaled Mashud nos leva ao quarto do time, onde ele dá um depoimento detalhado sobre o que aconteceu e quais são os planos do time a partir daquele momento.

19h25 – Vamos para o quarto, onde conseguimos carregar nossos celulares. Tamim Iqbal está conosco. Ele ainda está visivelmente abalado, e eu peço desculpas por não ter acreditado nele logo de cara. Ele me dá um tapinha nas costas e sorri.

20h00 – O técnico Mashud nos convida para jantar. Depois disso, vamos para o nosso hotel. Chrstchurch, no fim de semana do St. Patrick’s Day, está absolutamente silenciosa. Era para a cidade estar fervendo na sexta-feira. É como se a cidade nunca mais fosse ser a mesma.

22h00 – Estou na casa de um amigo para jantar. Não há apetite, muito menos conversa. Os minutos são marcados por ligações telefônicas que nos atualizam das notícias: outro desconhecido morto. O número de óbitos continua aumentando.