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Ameaçado, agredido e insultado: por dentro da vida de um árbitro da NBA

Arte do ESPN.com Joey Guidone

A DESCRIÇÃO DA VAGA É CLARA: você terá que entrar em um local onde milhares de pessoas estão esperando para xingar todos os seus antepassados, mesmo sem saber seu nome ou conhecê-lo pessoalmente. Vai ser impossível passar despercebido mesmo que você tente ser discreto, coisa dificílima no trabalho em questão. O uniforme é o tradicional listrado, marca registrada dos árbitros encarregados de manter a ordem nos jogos altamente competitivos e disputados da NBA.

Tudo isso deve ser feito enquanto a torcida grita as maiores barbaridades sobre sua mãe, você, sua sexualidade e sua profissão. Os treinadores vão tentar enganar você, os jogadores vão desafiá-lo. Ninguém vai ficar do seu lado, exceto, talvez, os outros juízes. É quase certo que, nos minutos finais de um jogo apertado, você vai ter que tomar uma decisão que agradará a 50% da torcida e deixará os outros 50% indignados. No instante seguinte, é bem provável que os papéis se invertam, transformando o ginásio em uma montanha-russa de emoções.

“Antes de o contrato ser assinado", explica Marc Davis, árbitro da NBA, "eles fazem um exame em você, procurando um pequeno ponto vazio que fica logo abaixo do coração. É aí que ficam os seus sentimentos. Se esse ponto estiver vazio, você será juiz da NBA."

O Dr. Joel Fish, psicólogo esportivo e diretor do Centro de Psicologia do Esporte da Filadélfia, trabalhou com árbitros da NBA e diz que a natureza única do local de trabalho deles leva a um acúmulo de estresse tão grande que pode causar consequências de curto e longo prazo. “Não é o tipo de estresse que some depois de uma noite bem dormida", diz Fish.

O avanço da tecnologia e os relatórios de dois minutos divulgados após cada jogo aumentaram ainda mais a pressão sobre os árbitros. Fish aconselha os árbitros sobre como controlar suas emoções, focando em alguns pontos chave que possam afetá-los psicologicamente. Às vezes, pode ser um jogador que se queixa constantemente das faltas ou um técnico que discute sem parar; em outras, um torcedor que xinga o árbitro de uma forma mais grosseira que o normal.

“Os juízes são seres humanos, não robôs", diz Fish. “Eles têm sentimentos. Por isso trabalhamos para entender o que pode afetá-los e o que fazer para evitar que isso aconteça. É quase como um ensaio da situação de jogo, para que nada possa surpreender eles dentro da quadra."

“Às vezes é uma questão de autoconfiança. A torcida está gritando: 'Burro, burro!', e o árbitro pensa: 'Será que eu errei?' Nosso trabalho é fazer eles pensarem: 'Eu confio na minha decisão'."

Fish ensina os árbitros a relaxarem antes de jogos complicados descontraindo a linguagem corporal, respirando fundo ou baixando a voz e falando mais devagar.

Recém-nomeado diretor do programa de saúde mental e bem-estar do sindicato dos atletas, o Dr. William Parham também trabalhou com árbitros da NBA e diz que a melhor maneira de ajuda-los é entender como chegaram até a profissão. “Você não pode entender o árbitro sem saber quem é a pessoa por trás do apito", diz Parham.

"Não é o tipo de estresse que some depois de uma noite bem dormida" Dr. Joel Fish, psicólogo esportivo

Davis diz que a ajuda de Parham e outros facilitou o trabalho dos árbitros, mas o desafio continua imenso.

“Em algum momento a pressão chega", diz Davis. “E se isso tirar a sua concentração, você vai se perder."

O lendário árbitro Joey Crawford quase passou por isso. Ele foi ao mesmo tempo um dos juízes mais temidos, respeitados e controversos da história da NBA. Apitou exatamente 2.561 jogos na carreira, 374 partidas de playoffs e 50 finais da NBA, mas, mesmo com toda essa experiência, ele admite que muitas vezes esteve a ponto de perder o controle durante a partida.

Em 18 de abril de 2007, o comissário David Stern suspendeu Crawford de forma inédita pelo restante da temporada, incluindo os playoffs, por ele ter expulsado Tim Duncan, do San Antonio Spurs. Duncan, que estava no banco, riu sarcasticamente após uma falta que Crawford apitou contra os Spurs. Um pouco antes, Crawford tinha dado falta técnica de Duncan por ele ter reclamado de uma marcação sua.

Quando viu Duncan rindo no banco, Crawford foi com tudo para cima dele. Os dois trocaram ofensas e, mais tarde, Duncan afirmou que Crawford o havia chamado para a briga. “Ele tem um problema pessoal comigo", disse Duncan na época.

A atitude de Crawford com Duncan, junto com outros incidentes anteriores nos quais ele perdeu a compostura, ameaçou sua carreira.

Crawford contou à ESPN que, se não fosse por Fish, que começou a trabalhar com ele logo após o incidente com Duncan, ele provavelmente teria perdido o emprego.

Este é o relato pessoal de Crawford sobre sua busca do bem-estar mental.


“Estou aposentado faz tempo, mas ainda fico perplexo com a forma como as pessoas tratam os juízes. Hoje apito jogos de basquete amador feminino na Filadélfia e, nos torneios, vejo como os pais ficam loucos. As pessoas perdem a linha em um jogo disputado por crianças de 10 anos. Nós pedimos aos pais para não gritarem com os árbitros, mas parece que eles não falam nossa língua.

Em 1977, quando comecei a apitar jogos da NBA, nós gritávamos com os treinadores, e os treinadores gritavam com a gente. Todo mundo fazia isso. Os jogadores também. Era assim que funcionava. Os árbitros mais velhos naquela época nos ensinavam a agir assim. Se você não seguisse essa linha, era o estranho no ninho. Quando eu apitava com Earl Strom, tinha que me comportar igual a ele. Na noite seguinte estava trabalhando com Jake O'Donnell, tinha que seguir a linha dele. Você não tinha opção. Era isso ou ser banido. Além disso, esse outro tipo de juiz, mais calmo e tranquilo, não funcionava naquela época. Não dava certo.

A vida do árbitro é muito complicada. Toda noite você está em uma panela de pressão. Treinadores, jogadores, torcedores... todos querem um pedacinho de você.

Uma vez cuspiram em mim. Isso foi horrível. Foi em uma partida do Golden State, em meados dos anos 90, quando o time jogava na Oakland Alameda Arena. Eu estava trabalhando com Billy Spooner, e ele marcou uma falta no último minuto. Não me lembro dos detalhes. Eu só lembro que, quando estávamos saindo, um cara cuspiu em mim. Acertou bem na minha bochecha. Se eu pegasse aquele cara tinha acabado com ele. Os policiais estavam nos escoltando para fora da arena, por isso não tive essa chance.

Os palavrões nunca me incomodaram. Acho que quando aconteceu aquele caso da evasão fiscal (em meados dos anos 90, Crawford foi uma das dezenas de árbitros investigados pela Receita por trocar passagens aéreas de primeira classe por dinheiro e sonegar o pagamento dos impostos) começou a me incomodar um pouco quando as pessoas me chamavam de ladrão. Isso era chato. Eu não demonstrava, mas algo dentro de mim se revirava quando eu ouvia isso.

"Uma vez cuspiram em mim. Isso foi horrível" Joey Crawford, ex-árbitro da NBA

Meu problema era a raiva. Eu tentava entender por que ficava tão bravo na quadra. O Wally Rooney, que também foi árbitro, me disse uma vez: 'Joey, eles não estão xingando você, o problema é o apito'. Isso era difícil de entrar na minha cabeça. Me incomodava as pessoas estarem gritando com a gente sem nem conhecer o nosso trabalho.

Mas os maiores problemas aconteciam quando eu cometia algum erro na quadra. Eu sabia na hora que tinha apitado mal e ficava tão irritado comigo mesmo que acabava me perdendo. Era uma coisa estranha. Depois eu assistia ao jogo gravado e ficava balançando a cabeça, não conseguia entender minhas reações.

Um dos piores momentos que tive foi em Minnesota, indo para o vestiário no intervalo. O técnico Flip Saunders, que Deus o tenha, estava gritando com a gente, e eu acabei perdendo a calma. Disse um monte de coisas para ele. Quando cheguei ao vestiário, perguntei aos meus colegas Bennie Adams e Luis Grillo: 'O que foi que eu disse pra ele?' Eles me olharam e responderam: 'Umas coisas bem feias'.

Eu gritei com Flip e nem me lembrava do que tinha dito. Isso não era nada bom, claro. Nós conseguimos manter tudo isso longe do público e da mídia na época, mas eu acabei multado. David Stern ficou muito irritado comigo. Ele me disse: 'Joey, eu não vou resolver isso. Se vira.’

Esses incidentes foram se acumulando e acabaram levando à minha suspensão após a briga com Duncan. Alguns anos antes [no segundo jogo das finais da Conferência Oeste de 2003], tive um problema com Nellie [Don Nelson] em um jogo dos playoffs. Eu o expulsei de quadra. Nellie não reclamou verbalmente. Ele só ficou parado com os braços cruzados. Eu achei que ele estivesse tentando intimidar meus colegas. Perguntei a ele: "Vai voltar para o banco?" Ele respondeu: "Não", então eu dei uma falta técnica. Perguntei de novo: "Vai voltar agora?" Ele disse que não outra vez. Então o expulsei. Del Harris era o auxiliar técnico e ficou irritado também. Acabei o expulsando na sequência.

No dia seguinte, Stern me chamou para uma conversa no escritório de Nova York e soltou os cachorros em cima de mim. Ele me esculhambou de todas as formas possíveis. E foi merecido.

Eu ouvi tudo calado. Antes de conversar com Stern, falei com um representante do sindicato que me disse: 'Joey, não importa o que ele diga, só fique quieto e ouça'. Stern estava acabando comigo e eu só concordava com a cabeça, mas chegou uma hora que eu disse: ‘Espera um pouquinho. O que você quer que eu faça? Aguentar o Nellie até ele me xingar e só depois expulsá-lo?’ Stern disse: 'Isso! Se tivesse agido assim pelo menos eu poderia defender você, seu burro!’ ‘Nunca mais faça isso de novo’, ele me disse, e eu respondi: ‘Tudo bem’, mas é claro que acabei fazendo.

O incidente com Duncan foi em 2007. Duncan estava sentado no banco, rindo. E eu o expulsei. Essa risada me irritou. Aquilo foi algo muito desrespeitoso, na minha opinião. Mas eu sabia desde a hora que aconteceu que eu teria problemas.

[A suspensão] não foi brincadeira. Me abalou de verdade. Foi quando percebi que precisava tomar uma atitude. Fui conversar com um profissional para me ajudar a lidar com toda essa raiva.

Stern me suspendeu pelo resto da temporada. Eu pensei que minha carreira pudesse estar acabando ali. Stern me indicou um psiquiatra na Park Avenue. Ele me disse para fazer duas sessões de duas horas cada. Era esse cara que diria se eu era louco ou não. Cheguei no consultório morrendo de medo. Já tinha levado uma multa de US$ 100 mil. Meu terno estava empapado de suor. O psiquiatra não sabia a diferença entre uma bola de basquete e uma bola de vôlei. Depois de duas horas, ele me disse: ‘Tudo bem, acho que é suficiente’. Eu disse: ‘Espera aí! Não eram duas sessões de duas horas? Você já decidiu que eu estou pirado?’ Ele disse: 'Você não está louco'. Eu respondi: 'Bom, o que eu tenho então? Qual é o meu problema?' Ele disse: ‘Você está muito envolvido com o seu trabalho’. Tudo bem, eu pensei, acho que esse diagnóstico não é tão ruim!

"Se tem alguma coisa errada acontecendo com você, por que não procurar um profissional?" Joey Crawford, ex-árbitro da NBA

O problema era minha agressividade. Era uma coisa aguda. E acabava me dominando.

Estava afetando minha família também. Eu levava aquilo comigo para casa. Eu não era violento, mas minha família foi uma das razões pelas quais busquei ajuda. Quando fui suspenso, todos em casa ficaram muito tristes. A notícia estava nos jornais, estava em todos os lugares. Todo mundo estava falando sobre isso. Foi uma vergonha.

A fase foi muito difícil, mas meus colegas me apoiaram muito. Eles sabiam que eu não apitaria os playoffs e que isso era inaceitável para mim. Me conheciam muito bem.

Acabei procurando o Dr. Joel Fish, da Filadélfia. As pessoas de lá que trabalham com esportes costumam procurá-lo quando têm algum problema. Joel salvou minha carreira. Passei a vê-lo algumas vezes por semana.

Ele me dizia: ‘Joe, quando você sentir a raiva chegando, tente fazer algo com as mãos. Coloque as mãos no bolso ou na cintura, por exemplo. Procure sempre manter a calma’. Se alguém reclamasse de uma marcação minha, eu me lembrava do Dr.Fish dizendo: ‘Devagar, controle a sua respiração. Lembre-se de que você é um bom juiz’. Essas coisas me ajudaram nos meus últimos 10 anos na NBA.

Estou aposentado desde 2016, mas ainda tenho o Dr. Fish na minha agenda de telefones. Ele é uma dessas pessoas que marcam sua vida. Eu não consigo esconder nada dele. Ele me conhece.

Sempre lutei contra minha personalidade difícil. Quando era criança eu brigava, jogava as coisas no chão, ficava emburrado. Joel era a única pessoa que conseguia falar comigo nesse tom de voz calmo e explicar como as coisas que me deixavam nervoso eram na verdade insignificantes. Na minha opinião, era tudo muito grave, mas Joel me fez perceber que a longo prazo uma reclamação por falta não era algo assim tão importante.

Sempre que tive uma explosão de raiva acabei me arrependendo depois. Eu me tranquilizava rápido, esfriava a cabeça e pensava: 'Por que disse isso à minha esposa? Por que disse isso para a minha filha?' Eu queria saber por que tinha dito aquelas coisas. Joel me ajudou a entender tudo. E me mostrou uma forma de superar isso.

Eu admiro os jogadores que conseguem se abrir sobre seus problemas com raiva, ansiedade, depressão. Admiro mesmo. Minha mãe era uma pessoa deprimida. Ela tentou o suicídio várias vezes. Ela era uma pessoa incrível, mas teve que lutar muito.

Lembrando disso agora, como adulto, eu penso: 'Nossa, isso foi muito sério. Isso aconteceu mesmo'. Mas, quando era adolescente, quando tinha meus 20 e poucos anos, eu não entendia. Eu pensava: 'Por que ela não consegue ficar bem?'

Minha mãe era uma pessoa muito fechada. Ela não se separou do meu pai, mesmo o casamento deles não sendo lá grande coisa, e tenho certeza que isso contribuiu para a depressão dela. Ela teve vários anos ruins. E tentou se matar com comprimidos.

Eu sinceramente não sei se ela procurou ajuda. Mas uma coisa eu tenho certeza: ela tomou vários remédios. Era assim que eles lidavam com isso naquela época. Enchiam você de pílulas. Quando era criança eu sempre ia até a farmácia buscar os remédios para ela. Nunca soube o que ela tomava por que as pílulas vinham em um saco de papel que sempre estava fechado. Minha mãe foi uma mulher incrível, mas sua vida não foi fácil. Meu pai foi árbitro profissional de beisebol. Ele era um cara à moda antiga, não estava nem aí. O jeito dele de lidar com isso era dizendo: ‘Você está louca, eu preciso trabalhar. Vejo você daqui a seis meses'. E se mandava.

Eu digo para as pessoas sempre: ‘Se tem alguma coisa acontecendo com você, por que não procurar ajuda de um profissional?’ Isso não é nenhuma vergonha. Melhor enfrentar o problema de uma vez. Procurar Joel Fish foi a melhor coisa que eu fiz na vida. Devia ter feito isso 25 anos antes."

"Ameaçado, agredido e insultado: por dentro da vida de um árbitro da NBA" é a parte 4 de uma série especial da ESPN. Este mesmo capítulo, em inglês, pode ser acessado em "Yelled at, spit on and insulted: Inside the life of an NBA ref". Nesta sexta-feira, o ESPN.com.br publica o quinto e último capítulo da série.